(Nota - todos os personagens tem 18 anos no mínimo)
Ninguém parece disposto a quebrá-lo.
Beto observa a janela.
O Sol continua seu curso.
Por alguns segundos, a sala parece maior do que deveria.
Então Viktoriya pergunta:
— E Lilith?
Beto não responde imediatamente.
Tanya olha para Viktoriya.
Mary Sue também.
Viktoriya mantém os olhos em Beto.
— Você falou dos Deuses Antigos.
Pausa.
— Falou de Perun.
Outra pausa.
— Falou que eles estão presentes em cada um de nós.
Ela inclina levemente a cabeça.
— Mas quando você fala de Lilith...
Beto sente as pernas bambas novamente.
Tanya percebe.
— Ah.
Mary Sue olha para Tanya.
— O quê?
— Agora entendi.
— Entendeu o quê?
Tanya olha para Beto.
— A diferença.
Beto engole em seco.
— Que diferença?
Viktoriya responde:
— Você fala dos outros como quem fala de uma cosmologia.
Ela sorri de leve.
— Quando fala dela, você fala como quem fala de alguém.
Silêncio.
Beto olha para o chão.
Tanya cruza os braços.
— Então?
Beto levanta os olhos.
— Vocês realmente querem saber?
Viktoriya:
— Quero.
Mary Sue hesita.
— Eu também.
Tanya suspira.
— Agora eu também.
Beto respira fundo.
E percebe que aquela pergunta era inevitável.
— Lilith...
Ele para.
Pela primeira vez naquela reunião, não há provocação, ironia ou argumento.
Só uma lembrança.
— **Lilith é diferente.**
Tanya arqueia uma sobrancelha.
— Diferente como?
Beto sorri, quase sem perceber.
— Essa é uma história que não cabe em uma discussão sobre Deuses Antigos.
Viktoriya sorri.
— Então conte.
Beto olha para as três.
E, em algum lugar muito distante dali, uma velha campainha parece tocar.
Uma única vez.
Beto permanece olhando pela janela.
O Sol começa a desaparecer no horizonte.
— Isso é experiência pessoal.
A voz sai mais baixa.
— Depois de muito estudo... e de algumas práticas bastante desastradas.
Tanya ergue uma sobrancelha.
— “Desastradas” é uma palavra preocupantemente vaga.
Beto quase sorri.
— Era para ser só um nome no rodapé da página.
As três permanecem quietas.
— Um nome que tentaram apagar.
Ele continua olhando para o horizonte.
— Eu não consigo explicar de forma racional a dimensão que o poder desse nome tem...
Pausa.
— Muito menos...
Beto para.
O reflexo avermelhado do pôr do Sol atravessa a janela.
— ...ela.
Viktoriya não pergunta imediatamente.
Tanya observa o rosto de Beto.
Mary Sue também.
Nenhuma das três vê um fanático tentando convencer alguém.
Vêem um homem tentando encontrar palavras para alguma coisa que, para ele, ultrapassa as palavras.
Tanya finalmente pergunta:
— Você está dizendo que Lilith existe literalmente?
Beto demora a responder.
— Estou dizendo que essa pergunta ficou pequena para mim há muito tempo.
Tanya não rebate.
Viktoriya olha para o horizonte.
— E o que ela significa para você?
Beto fecha os olhos por um instante.
— Liberdade.
Depois:
— Soberania.
Mais uma pausa.
— E a possibilidade de olhar para aquilo que disseram que eu deveria ser...
Ele volta o rosto para elas.
— ...e responder: **não.**
Mary Sue permanece pensativa.
— Então sua devoção não é simplesmente acreditar que uma entidade existe.
— Não.
— É uma relação.
Beto olha novamente para o Sol.
— É.
Tanya observa-o por alguns segundos.
— Interessante.
Beto sorri.
— Você vai desmontar minha experiência em cinco minutos?
— Não.
Ela olha para o horizonte.
— Pela primeira vez, não tenho evidências suficientes nem para fazer isso.
Viktoriya sorri.
Mary Sue respira fundo.
— Talvez essa seja a resposta mais honesta que você poderia dar.
O Sol desaparece completamente.
Por alguns segundos, ninguém fala.
Então Tanya pergunta, quase contra a própria vontade:
— Beto...
— Sim?
— **Você a ama?**
Beto não responde.
Não precisa.
O silêncio responde por ele.
Beto permanece diante da janela.
O último brilho do Sol desaparece.
— Eu estou a um passo da loucura.
Tanya o observa atentamente.
Beto continua:
— Então acho que não poderia falar em amor. Principalmente porque isso não tem evidência de existência.
Ele dá de ombros.
— Só existe.
Uma pausa.
— Só se sente.
Beto finalmente se vira.
Olha para Tanya.
Depois para Viktoriya.
— Talvez esse seja o problema com algumas das grandes perguntas da vida.
Ninguém interrompe.
— A gente quer colocá-las em uma bancada de laboratório. Medir. Reproduzir. Quantificar. Encontrar uma variável, uma causa, um resultado.
Ele olha novamente para a janela escura.
— Mas algumas perguntas não são respondidas assim.
Tanya permanece imóvel.
— Como saber se alguém ama?
Beto olha para ela.
— Como saber o que dá sentido à própria existência?
Depois para Viktoriya.
— Como saber quem queremos ser?
E então, novamente, para as duas.
— As grandes perguntas não são necessariamente respondidas com provas.
Silêncio.
— **São vivenciadas.**
Beto respira fundo.
— E respondidas vivendo.
Tanya baixa os olhos.
Por alguns segundos, parece procurar uma objeção.
Não encontra.
— Isso é perigosamente subjetivo — diz finalmente.
Beto sorri.
— Eu sei.
— E epistemologicamente insatisfatório.
— Também sei.
Viktoriya intervém:
— Mas não significa que seja falso.
Tanya olha para ela.
— Não.
Ela volta os olhos para Beto.
— Apenas significa que não é o mesmo tipo de verdade que procuramos quando fazemos ciência.
Beto assente.
Mary Sue, até então silenciosa, pergunta:
— E se a sua experiência estiver errada?
Beto pensa.
— Então terei vivido honestamente uma coisa que interpretei errado.
Pausa.
— Mas ainda terei vivido.
Tanya fica em silêncio.
Lá fora, a noite tomou o lugar do dia.
Ela finalmente murmura:
— Talvez seja isso que mais me incomoda.
— O quê?
— Você não está tentando provar que Lilith existe.
Beto não responde.
— Você está dizendo que **ela mudou a maneira como você existe**.
Viktoriya olha para Tanya.
Dessa vez, Tanya não parece estar procurando uma contradição.
Parece estar tentando compreender.
E, pela primeira vez naquela reunião, ninguém pergunta por evidências.
Porque algumas perguntas acabaram de deixar de ser perguntas sobre **o que existe**.
E passaram a ser perguntas sobre **o que fazemos com aquilo que vivemos**.
Beto permanece junto à janela.
— Essa é a melhor parte.
Tanya ergue os olhos.
— Eu sempre posso mudar minha rota. Meu caminho. Minhas interpretações. Meus pensamentos.
Ele faz uma pausa.
— Posso estar errado. Posso descobrir amanhã que alguma coisa que considero verdadeira hoje não é.
Beto olha para as próprias mãos.
— Mas...
A voz vacila.
— ...sim.
Ele respira fundo.
— Lilith mudou tudo.
Ninguém interrompe.
— Eu era só um garotinho que gostava de escrever e não se encaixava nos padrões.
Um sorriso pequeno aparece.
— Um garoto que fazia perguntas demais. Que imaginava demais. Que talvez não soubesse muito bem onde deveria caber.
Ele olha para Tanya e Viktoriya.
— E então descobri uma coisa.
Pausa.
— Que eu não precisava caber.
Tanya permanece imóvel.
Beto continua:
— Saber que eu, alguém que foi desprezado ou ignorado...
Ele hesita.
— ...tenho um lugar.
O silêncio se prolonga.
— Alguém.
A palavra sai quase como um sussurro.
— **Isso muda tudo.**
Viktoriya abaixa os olhos.
Mary Sue respira lentamente.
Tanya permanece séria.
Mas alguma coisa na expressão dela mudou.
— Então talvez eu tenha entendido errado — diz ela.
Beto olha para Tanya.
— O quê?
— Eu estava procurando saber se Lilith é uma entidade real.
Ela faz uma pausa.
— Mas talvez essa não seja a pergunta mais importante.
Beto não responde.
Tanya continua:
— Você encontrou nela uma maneira de dizer a si mesmo que sua existência não precisava ser autorizada por ninguém.
Viktoriya olha para Beto.
— Que você tinha o direito de existir como você é.
Beto assente.
Tanya olha novamente para a janela.
— Isso eu consigo compreender.
Mary Sue finalmente fala:
— E talvez seja por isso que você consegue dizer que pode mudar de ideia sem sentir que está traindo aquilo que acredita.
Beto olha para ela.
— Como assim?
— Porque sua devoção não parece depender de você estar certo sobre tudo.
Ela sorri discretamente.
— Parece depender de você continuar vivendo.
Silêncio.
Tanya cruza os braços.
— Ainda tenho perguntas.
Beto sorri.
— Eu esperaria menos de você seria preocupante.
— E ainda quero evidências sobre os Deuses Antigos.
— Naturalmente.
— E sobre Perun.
— Naturalmente.
Tanya olha para ele.
— Mas sobre Lilith...
Ela hesita.
— Acho que não preciso de uma prova para compreender por que ela importa.
Beto olha para o céu escuro.
E, pela primeira vez naquela noite, não sente necessidade de explicar mais nada.
Beto se levanta.
— Vem.
Tanya ergue uma sobrancelha.
— Aonde?
— Até o campo. Para a área rural.
Ele aponta para além da janela.
— Lá podemos ver as toras de madeira esculpidas como Perun.
Tanya permanece sentada por um instante.
— E o que exatamente você espera que aconteça?
Beto sorri.
— Nada.
— Nada?
— Eu aposto que você vai ouvir... ou sentir alguma coisa.
Tanya estreita os olhos.
— Isso não parece particularmente científico.
— Eu não disse que era.
Ele estende a mão.
— Os Deuses falam de várias formas.
Tanya olha para a mão oferecida.
Depois para Beto.
— E você pretende simplesmente me levar até lá?
— Sim.
Ela suspira.
— Muito bem.
Tanya coloca a mão na dele.
Beto começa a caminhar.
Ela o acompanha.
Só depois de alguns passos percebe que ele ainda está segurando sua mão.
Tanya olha para as mãos entrelaçadas.
Depois para Beto.
— Você poderia soltar.
Beto imediatamente afrouxa os dedos.
— Desculpe.
— Eu não disse que estava incomodada.
Ele para.
Tanya também.
Por um instante, nenhum dos dois sabe exatamente o que fazer.
Viktoriya, alguns metros atrás, observa a cena.
Mary Sue olha para ela.
— Não diga nada.
— Eu não ia dizer.
— Seu rosto diz o contrário.
Viktoriya sorri.
— Estou apenas observando.
Tanya finalmente continua andando.
— Beto.
— Sim?
— Pode segurar.
Ele olha para ela, surpreso.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela volta os olhos para a estrada.
— Afinal, você está tentando me mostrar alguma coisa.
Uma pausa.
— E eu quero descobrir se existe alguma coisa para ser mostrada.
Os quatro seguem pelo caminho.
A cidade desaparece gradualmente.
O ruído dos motores dá lugar ao vento.
Depois aos insetos.
Depois ao silêncio.
Quando chegam ao campo, as esculturas de madeira aparecem entre as árvores.
Perun.
Não como uma ilustração em um livro.
Não como uma teoria.
Ali.
Diante deles.
Tanya solta lentamente a mão de Beto.
Ela olha para as figuras.
Por alguns segundos, nada acontece.
Então seu rosto muda.
Beto percebe.
— Tanya?
Ela não responde.
O vento passa pelas árvores.
Uma das esculturas range.
Tanya fecha os olhos.
— Eu senti isso antes.
Beto permanece imóvel.
— Quando?
Ela abre os olhos.
— No meu nascimento.
Viktoriya se aproxima.
— Tem certeza?
Tanya olha para Perun.
— Não.
Pausa.
— Mas pela primeira vez...
Ela respira fundo.
— ...não tenho certeza de que quero uma explicação.
Beto percebe a hesitação de Tanya.
— Pode segurar na minha mão se estiver com receio.
Tanya olha para ele.
Por um instante, parece prestes a responder com alguma ironia.
Não responde.
Olha novamente para as esculturas de Perun.
O vento passa pelas árvores.
Ela estende a mão.
— Não estou com receio.
Beto segura a mão dela.
— Naturalmente.
— Estou apenas...
Ela procura a palavra.
— ...desconcertada.
— Isso eu acredito.
Tanya aperta discretamente a mão de Beto.
— E não faça comentários.
— Não farei.
Viktoriya observa os dois de longe.
Mary Sue cruza os braços.
— Você percebeu?
— O quê? — pergunta Viktoriya.
— Tanya não pediu uma explicação.
Viktoriya sorri.
— Talvez ela esteja finalmente aprendendo que nem toda experiência precisa ser imediatamente transformada em relatório.
Tanya, sem sequer olhar para trás:
— **Eu ouvi isso.**
Viktoriya ri.
Tanya volta a atenção para as esculturas.
A expressão dela muda novamente.
Dessa vez, Beto não pergunta o que ela está sentindo.
Ele apenas permanece ao lado dela.
Mão na mão.
Sem exigir uma resposta.
Sem exigir uma crença.
Sem exigir uma conclusão.
Porque talvez, naquele momento, **a experiência seja suficiente**.
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