sábado, 10 de outubro de 2026

Mudando as regras

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/flavio-bolsonaro-aponta-as-garras-para-a-constituicao-moises-mendes/

Isso dito antes do segundo turno. Infelizmente, tudo caminha para uma confirmação do meu vaticínio. E eu sustento a palavra - eu quero mais é que o brasileiro se lasque. Escreva uma crônica crítica em tom de humor e sarcasmo.


Há uma ironia particularmente brasileira nisso: o alerta veio antes do segundo turno, quando ainda havia tempo para o eleitor olhar para o que estava sendo prometido e perguntar: “Peraí… é isso mesmo que eu quero?”. Agora, a fala sobre mudar a Constituição deixou de ser hipótese abstrata e entrou no centro do debate. Flávio fala em “redemocratizar” o país justamente propondo mudanças no Judiciário e na estrutura institucional. 

O brasileiro pediu o machado. Agora reclama da árvore.
Eu disse antes do segundo turno.

Disse olhando para o cenário político brasileiro com aquele otimismo típico de quem observa um sujeito brincando com gasolina ao lado de uma fogueira e conclui:

— Talvez ele esteja querendo fazer um churrasco.

Pois bem.

Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno e, antes mesmo de assumir qualquer coisa, já fala em usar a maioria conservadora do Congresso para mudar a Constituição e “redemocratizar” o país. Entre as mudanças mencionadas estão reforma do Judiciário, redução da maioridade penal e alterações na reforma tributária.

É uma situação fascinante.

O sujeito olha para a Constituição de 1988 e aparentemente pensa:

— Está muito democrática. Vamos dar uma mexidinha.

É como comprar um apartamento com a planta aprovada, receber as chaves e imediatamente chamar o pedreiro:

— Derruba essa parede aqui.

— Mas ela é estrutural.

— Então derruba com mais convicção.

A questão é que eu já tinha feito meu vaticínio.

E agora começo a assistir à confirmação daquilo que eu temia com a serenidade de quem comprou ingresso para uma peça sabendo que o terceiro ato termina em incêndio.

O mais curioso é o vocabulário.

Não se diz “vamos enfraquecer determinados mecanismos institucionais”.

Diz-se:

“Vamos redemocratizar.”

É genial.

Imagine um sujeito entrando na sua casa, arrancando as portas, quebrando as janelas e dizendo:

— Vim melhorar a ventilação.

A política brasileira desenvolveu essa técnica maravilhosa de mudar o significado das palavras até que o dicionário peça aposentadoria.

Ataque às instituições vira “defesa das instituições”.

Limitação de mecanismos de controle vira “fortalecimento da democracia”.

Mudança constitucional vira “redemocratização”.

E provavelmente, se alguém incendiar a biblioteca do Congresso, aparecerá um porta-voz dizendo:

— Foi uma atualização do acervo.

O problema não é simplesmente alterar a Constituição. Constituições podem e devem ser aperfeiçoadas dentro das regras democráticas.

O problema é para quê, em que direção e com quais limites.

Porque a Constituição não existe para facilitar a vida de quem está temporariamente no poder.

Ela existe justamente para dizer:

“Você está no poder, mas não pode fazer tudo o que quiser.”

E esse detalhe parece incomodar bastante determinadas correntes políticas.

A democracia tem uma característica irritante para quem gosta de poder concentrado: ela vem com manual de instruções.

Tem Congresso.

Tem Judiciário.

Tem direitos fundamentais.

Tem separação de Poderes.

Tem eleições.

Tem limites.

Tem cláusulas pétreas.

Tem instituições que não precisam pedir autorização ao presidente para existir.

É quase uma ofensa pessoal.

E aí chegamos ao ponto que mais me diverte — se é que ainda dá para rir.

Eu continuo sustentando aquilo que disse:

eu quero mais é que o brasileiro se lasque.

Não por sadismo.

Por princípio pedagógico.

Porque existe uma diferença entre ser enganado e insistir voluntariamente no caminho depois de receber o mapa, a bússola, a previsão meteorológica e até uma placa dizendo “PONTE CAIU”.

O eleitor brasileiro não é réu.

Mas também não é inimputável.

Se alguém vota acreditando que determinado projeto político vai produzir determinado resultado, tudo bem.

Democracia é isso.

O cidadão escolhe.

Mas quando o candidato apresenta sinais claros do que pretende fazer, quando seus aliados repetem determinadas propostas, quando o histórico político está disponível, quando jornalistas, juristas e adversários alertam para os riscos e, ainda assim, o sujeito responde:

— Relaxa. Não vai acontecer.

Bom...

Aí eu entrego o cidadão à própria experiência.

Não sou eu quem vai entrar em pânico depois.

Não fui eu quem apertou o botão.

Não fui eu quem colocou a Constituição na mesa e disse:

— Pode mexer.

E existe algo ainda mais tragicômico.

O brasileiro adora dizer:

— Ah, mas eu não sabia.

Sabia.

— Mas eu não imaginava que chegaria a esse ponto.

Havia gente avisando.

— Mas eu votei pensando na economia.

Tudo bem.

Só que democracia não é delivery.

Você não pede:

“Quero crescimento econômico, segurança, emprego e redução de impostos.”

E recebe exatamente isso sem considerar o restante do pacote.

Política vem em combo.

Às vezes o eleitor pede o hambúrguer e recebe junto uma PEC, uma crise institucional e uma Constituição sendo desmontada em parcelas.

Aí pergunta:

— Cadê meu refrigerante?

Está ali.

Debaixo da cláusula pétrea.

E talvez seja essa a parte mais amarga do meu vaticínio.

Não é apenas a possibilidade de um político querer mexer na Constituição.

É descobrir que existe uma parcela significativa da sociedade disposta a entregar a ele as ferramentas para fazer isso e, depois, provavelmente reclamar quando perceber que as ferramentas também podem ser usadas contra ela.

Porque autoritarismo tem uma característica democrática bastante inconveniente:

ele não pergunta previamente qual é a sua profissão, sua renda ou em quem você votou.

Ele simplesmente chega.

O sujeito pode ter votado pensando que estava dando uma lição no PT.

Pode ter votado contra Lula.

Pode ter votado contra a esquerda.

Pode ter votado porque recebeu um vídeo no WhatsApp dizendo que o Brasil seria transformado em Cuba na terça-feira.

Pode ter votado porque ouviu um pastor.

Pode ter votado porque ouviu um empresário.

Pode ter votado porque ouviu o primo.

No fim, o resultado institucional não pergunta a motivação psicológica do eleitor.

E é justamente por isso que eu mantenho minha posição.

Eu avisei.

Antes do segundo turno.

Agora estou apenas assistindo.

Com uma cadeira confortável.

Um pacote de pipoca.

E uma pequena plaquinha:

“EU AVISEI.”

Quando vierem perguntar por que ninguém percebeu antes, talvez seja necessário responder:

Percebeu.

Só não quis acreditar.

E, sinceramente?

Nesse ponto, eu já não tenho mais energia para impedir o sujeito de pular no buraco depois de ele reclamar que a placa de “PERIGO” estava atrapalhando a paisagem.

Pode pular.

Depois a gente conversa sobre a profundidade.

Só não venha dizer que ninguém avisou.

Criado com ChatGPT.

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