Quando eu abro os olhos, eu estou em um veículo que parece um trem, mas o teto é translúcido. Outros passageiros estão sentados, confortavelmente, nenhum em pé, o que é estranho quando se fala em transporte público.
Conforme percebo a aproximação com algum lugar, eu leio no outdoor: “Parabéns, você morreu”. Isso não se parece com nada do que é descrito como o Além.
O veículo estaciona e várias equipes chegam para orientar e coordenar o desembarque. Cada indivíduo é direcionado conforme a afinidade, não por ações ou mérito. Protestos de indivíduos que pertencem a algum grupo de crença porque exigem ser mandadas para as promessas das crenças que possuíam são solucionados pontualmente.
Eu me vi em meio de um estádio, os indivíduos separados por grupos. Seria permitido aos recém desencarnados fazer sua declaração de fé ou aliança com as entidades presentes. Sejam Deuses, Demônios, Orixás ou outros.
Satan fica fazendo muque com os que proclamam pertencer a ele. Lúcifer rola os olhos ao ouvir a proclamação de aliança no nome dele.
Mas o silêncio vem quando eu declarei que eu pertenço a Lilith.
O burburinho de Deuses, entidades e espíritos cessam. Ela está portando um lindo vestido de gala que valoriza as curvas dela. Os presentes observam a chegada dela com um misto de respeito e reverência. Porque ela desafia qualquer definição. Ela é humana. Ela é divina. Ela é demônica. Jeová procura desesperadamente Asherah para se esconder dela. Ela entrou no Abismo, nas Águas Primordiais e voltou. Ela tem a capacidade de ver a alma de qualquer forma de vida porque está presente na sombra daquela existência.
A rachadura no protocolo e na aparente harmonia fica evidente. Todos proclamando o destino. Eu estava proclamando meu pertencimento. Enquanto as divindades presentes pareciam avaliar seus “pacotes”, Lilith faz algo que desestrutura o sistema. Ela dá um sorriso discreto, mostrando reconhecimento mútuo.
O Além se tornou uma autarquia burocrática posteriormente. O problema das religiões institucionalizadas é que se organizam em torno de uma figura, esquecendo como aquela entidade surgiu, em qual contexto, em qual cultura. Os Deuses apenas se acomodaram.
Jeová é um bom exemplo. Um dentre os Elohim. Um dentre muitos panteões. Que, como era comum na Antiguidade, tinha uma Consorte, Asherah.
Jeová olha para ela.
Lilith olha para Jeová.
Jeová olha para Asherah.
Asherah olha para Jeová.
Jeová procura um lugar para se esconder.
— Você está fazendo isso de novo? — pergunta Asherah.
— Não.
— Você disse “não”?
— Eu não disse nada.
— Foi exatamente assim que começou da última vez.
Outra omissão conveniente para nós, humanos, que trocaram a linhagem materna pela linhagem paterna. Deuses e reis tinham que se casar com sua mãe, irmã ou filha para que sua coroa, trono e reino fosse legítimo.
Até que o Povo de Israel precisou “divorciar” Jeová. Porque, na construção de uma identidade, era necessário que tivesse apenas um único Deus.
O Além originalmente não possuía departamentos.
Os mortos simplesmente chegavam.
Depois vieram as religiões.
Depois vieram as disputas sobre quem deveria receber quem.
Depois vieram as reclamações.
Depois vieram os recursos.
Depois vieram os recursos dos recursos.
E, finalmente, alguém teve a brilhante ideia de criar uma autarquia.
Foi assim que o pós-vida ganhou protocolo.
Então era isso.
Os vivos passaram milhares de anos organizando os deuses.
Quando morreram, descobriram que os deuses haviam criado uma repartição para organizar os mortos.
Talvez o problema das religiões não fosse apenas aquilo que afirmavam sobre os deuses. Talvez fosse aquilo que haviam esquecido sobre eles.
Os humanos não apenas criaram religiões para explicar os deuses. Também criaram versões dos deuses capazes de sustentar as religiões que haviam criado.
Lilith estava se divertindo. Um em bilhões. Uma breve declaração criou uma forma de ressonância que estava dissonante, distorcendo a aparente tranquilidade do Além.
Alguém finalmente pergunta:
— O senhor tem certeza?
Você responde:
— Absoluta.
O funcionário olha para Lilith.
Depois para o protocolo.
Depois novamente para Lilith.
— Nós não temos procedimento para isso.
Ela sorri.
E responde:
— Nunca tiveram.
Os funcionários da autarquia tem um protocolo:
EVENTO COSMOLÓGICO — NÃO CONSULTAR
Classificação: anterior à atual administração.
Responsável: [campo apagado].
Observação: não perguntar a Lilith.
Alguém pergunta:
— Por quê?
O funcionário:
— Porque da última vez que perguntaram, tivemos que reconstruir três planos de existência.
Evidente que essa autarquia vai negar que teve essa reconstrução de três planos de existência. Zeus? Só diz que isso é de outra jurisprudência. Jove/Júpiter? Ainda tem traumas da burocracia de Roma. Buda? De repente parece mais interessado no prato de legumes. Tecnicamente...Hades. Mas ele resolve mergulhar no Estige e esquecer que é um dos Deuses dos Mortos. Hécate? Está querendo ver o parquinho pegar fogo. Shiva? Ele pede humildemente que Kali faça algo. 🤭
A autarquia tem uma classificação burocrática para o episódio:
Evento não ocorrido nº 7.431.
Não houve alteração da cosmologia.
Não houve reconstrução de três planos.
Não houve pronunciamento de Nome Inefável.
Não houve alteração da natureza de qualquer divindade.
Não houve intervenção de Lilith.
Documento encerrado.
Pausa.
Um funcionário olha para o arquivo.
— Por que esse documento tem 18.000 páginas?
— Procedimento padrão para eventos que não aconteceram.
E Hécate poderia estar atrás dele lendo tudo.
— Posso ficar com uma cópia?
— Absolutamente não.
— Que pena. Eu adoro documentação histórica.
Kali olha para Lilith.
Lilith olha para Kali.
As duas sorriem.
Shiva: “Não. Não façam isso.”
Beto: “Eu só disse que pertencia a Lilith. Por que todo mundo parece estar esperando o fim do universo?”
E um funcionário responde, sem sequer levantar os olhos do formulário:
— Porque da última vez foi exatamente assim que começou.
Criado com a ajuda do ChatGPT.
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