segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O corte da tesoura

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/tesouraco-de-flavio-ameaca-salario-aposentadoria-clt-servico-publico-e-outros-direitos/

Só para constar. Ninguém pode alegar que votou por falta de aviso. E só para sustentar minha posição. Eu quero que o brasileiro se lasque. Escreva uma crônica crítica em tom de humor e sarcasmo.


A matéria faz um alerta importante, mas há uma ressalva necessária: circula também conteúdo falso atribuindo a Flávio frases que ele não disse sobre direitos trabalhistas. O que está documentado é suficiente para a crítica: seu programa fala em reduzir o custo do trabalho e ele se opõe ao fim da escala 6x1, defendendo remuneração proporcional às horas trabalhadas. 

O brasileiro foi avisado. Agora falta só assinar o recibo.
Existe uma tradição muito brasileira de descobrir as consequências das próprias escolhas depois que elas acontecem.

É uma espécie de amnésia eleitoral seletiva.

Antes da eleição, aparecem os programas de governo, as entrevistas, as declarações, os discursos, os economistas, os jornalistas, os sindicalistas, os especialistas e até aquela tia do WhatsApp que, por algum motivo, possui uma fonte secreta dentro do Banco Central.

Todo mundo avisa.

Aí o sujeito vota.

Depois, quando chega a conta, olha para a televisão com a expressão de quem acabou de descobrir que financiamento tem juros:

— Mas quem poderia imaginar?

Ora, o cidadão brasileiro poderia.

Estava escrito na embalagem.

O chamado “tesouraço” não surgiu magicamente na madrugada seguinte à eleição. O programa de Flávio Bolsonaro fala em revisão de normas nas áreas tributária, previdenciária e trabalhista e em redução do custo do trabalho. Na discussão sobre a escala 6x1, ele se posiciona contra a redução da jornada sem redução salarial e defende uma lógica de remuneração proporcional às horas trabalhadas.

Portanto, não será exatamente o caso de alguém comprar um ingresso para o Titanic e reclamar quando descobrir que o navio tem gelo no caminho.

A proposta está sendo apresentada.

O eleitor pode concordar.

Pode discordar.

Pode dizer que o problema são os impostos, que o Estado é inchado, que existem supersalários, que há desperdício, que a burocracia precisa ser reduzida.

Tudo isso pode ser debatido.

O que não dá é votar em um projeto de flexibilização do trabalho e, no dia seguinte, descobrir que flexibilização também pode significar que quem fica flexível é o seu salário.

É aquela maravilhosa matemática nacional:

— Quero menos Estado!

— Perfeito.

— Quero menos impostos!

— Perfeito.

— Quero menos direitos trabalhistas!

— Perfeito.

— E quero continuar recebendo tudo igual.

— Aí o senhor está querendo trabalhar com física quântica.

Porque existe uma pequena questão chamada realidade.

E realidade, essa criatura antipática, não costuma respeitar postagem de Instagram.

O eleitor não é réu. Mas também não é inimputável.
Eu continuo sustentando minha posição:

eu quero que o brasileiro se lasque.

Não porque eu tenha alguma paixão especial pelo sofrimento alheio.

É por princípio pedagógico.

Chega de tratar o eleitor como criança que foi enganada pelo universo.

O eleitor não é réu.

Mas também não é inimputável.

Se alguém vota conscientemente em uma plataforma que promete reduzir custos trabalhistas, flexibilizar relações de trabalho, cortar estruturas do Estado e promover mudanças em áreas previdenciárias e administrativas, depois não pode aparecer com a cara de espanto do personagem que descobriu que o mágico realmente serraria a caixa ao meio.

Evidentemente, cada proposta precisa ser analisada em detalhe. Algumas podem ser justificáveis. Outras podem ser ruins. Outras podem ser desastrosas.

Mas a democracia tem uma característica inconveniente:

as escolhas produzem consequências.

Não existe voto gourmet, aquele em que o cidadão escolhe o pacote completo e depois recebe somente as partes que achou bonitas.

É igual pedir rodízio de churrascaria e dizer:

— Eu aceito a picanha, mas gostaria de cancelar a conta.

Não funciona.

E tem uma ironia maravilhosa nisso tudo
Durante anos, uma parte do eleitorado foi convencida de que direitos trabalhistas eram privilégios.

A CLT virou uma espécie de vilã mitológica.

Servidor público virou sinônimo de parasita.

Sindicato virou palavrão.

Aposentadoria virou favor do governo.

E qualquer tentativa de ampliar direitos passou a ser apresentada como ameaça ao empreendedorismo, à produtividade, ao mercado, à civilização ocidental e, provavelmente, à reprodução dos pandas na China.

Agora aparece um projeto dizendo:

— Vamos mexer nisso.

E surge a surpresa:

— Mas mexer como?

Meu amigo...

Você passou anos pedindo a tesoura.

Agora não reclame porque apareceu o alfaiate.

O Brasil tem uma característica admirável
Consegue transformar uma eleição em contrato de adesão que ninguém leu.

O sujeito marca o candidato, aperta CONFIRMAR e depois passa quatro anos perguntando quais eram os termos de uso.

— Eu não sabia que tinha isso!

Tinha.

— Mas eu achei que era só contra o PT!

Não era.

— Achei que era contra corrupção!

Também não era exclusivamente isso.

— Achei que iam melhorar minha vida!

Essa parte ninguém pode garantir.

É justamente por isso que democracia não é concurso para escolher o candidato mais simpático.

É escolha de projeto.

E projeto vem com planta baixa.

Às vezes, inclusive, vem com uma enorme placa dizendo:

“Atenção: aqui haverá obra.”

Então fica registrado
Não será possível dizer que ninguém avisou.

Não será possível dizer que foi uma surpresa.

Não será possível dizer que o eleitor não tinha elementos para avaliar.

As propostas estão sendo discutidas publicamente. O debate sobre jornada, custo do trabalho, funcionalismo e reformas está explícito na campanha.

Depois da eleição, evidentemente, a sociedade poderá cobrar, fiscalizar, protestar, negociar, pressionar Congresso, Judiciário e governo.

Isso faz parte da democracia.

Mas existe uma coisa que não deveria fazer parte:

a amnésia coletiva.

Porque se o cidadão votar no sujeito que prometeu passar a tesoura e, depois, reclamar que a tesoura cortou, eu só poderei oferecer uma resposta muito pouco sofisticada:

— Meu querido, a tesoura estava na propaganda eleitoral.

E, sinceramente, depois de tantos avisos, talvez o Brasil não precise de mais um alerta.

Precise apenas de um recibo.

“Eu li. Eu votei. Eu concordei. Agora aguente.”

Assinado:

O brasileiro que amanhã descobrirá, novamente, que consequência não é fake news.

Criado com ChatGPT.

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