https://www.diariodocentrodomundo.com.br/tesouraco-de-flavio-ameaca-salario-aposentadoria-clt-servico-publico-e-outros-direitos/
Só para constar. Ninguém pode alegar que votou por falta de aviso. E só para sustentar minha posição. Eu quero que o brasileiro se lasque. Escreva uma crônica crítica em tom de humor e sarcasmo.
A matéria faz um alerta importante, mas há uma ressalva necessária: circula também conteúdo falso atribuindo a Flávio frases que ele não disse sobre direitos trabalhistas. O que está documentado é suficiente para a crítica: seu programa fala em reduzir o custo do trabalho e ele se opõe ao fim da escala 6x1, defendendo remuneração proporcional às horas trabalhadas.
O brasileiro foi avisado. Agora falta só assinar o recibo.
Existe uma tradição muito brasileira de descobrir as consequências das próprias escolhas depois que elas acontecem.
É uma espécie de amnésia eleitoral seletiva.
Antes da eleição, aparecem os programas de governo, as entrevistas, as declarações, os discursos, os economistas, os jornalistas, os sindicalistas, os especialistas e até aquela tia do WhatsApp que, por algum motivo, possui uma fonte secreta dentro do Banco Central.
Todo mundo avisa.
Aí o sujeito vota.
Depois, quando chega a conta, olha para a televisão com a expressão de quem acabou de descobrir que financiamento tem juros:
— Mas quem poderia imaginar?
Ora, o cidadão brasileiro poderia.
Estava escrito na embalagem.
O chamado “tesouraço” não surgiu magicamente na madrugada seguinte à eleição. O programa de Flávio Bolsonaro fala em revisão de normas nas áreas tributária, previdenciária e trabalhista e em redução do custo do trabalho. Na discussão sobre a escala 6x1, ele se posiciona contra a redução da jornada sem redução salarial e defende uma lógica de remuneração proporcional às horas trabalhadas.
Portanto, não será exatamente o caso de alguém comprar um ingresso para o Titanic e reclamar quando descobrir que o navio tem gelo no caminho.
A proposta está sendo apresentada.
O eleitor pode concordar.
Pode discordar.
Pode dizer que o problema são os impostos, que o Estado é inchado, que existem supersalários, que há desperdício, que a burocracia precisa ser reduzida.
Tudo isso pode ser debatido.
O que não dá é votar em um projeto de flexibilização do trabalho e, no dia seguinte, descobrir que flexibilização também pode significar que quem fica flexível é o seu salário.
É aquela maravilhosa matemática nacional:
— Quero menos Estado!
— Perfeito.
— Quero menos impostos!
— Perfeito.
— Quero menos direitos trabalhistas!
— Perfeito.
— E quero continuar recebendo tudo igual.
— Aí o senhor está querendo trabalhar com física quântica.
Porque existe uma pequena questão chamada realidade.
E realidade, essa criatura antipática, não costuma respeitar postagem de Instagram.
O eleitor não é réu. Mas também não é inimputável.
Eu continuo sustentando minha posição:
eu quero que o brasileiro se lasque.
Não porque eu tenha alguma paixão especial pelo sofrimento alheio.
É por princípio pedagógico.
Chega de tratar o eleitor como criança que foi enganada pelo universo.
O eleitor não é réu.
Mas também não é inimputável.
Se alguém vota conscientemente em uma plataforma que promete reduzir custos trabalhistas, flexibilizar relações de trabalho, cortar estruturas do Estado e promover mudanças em áreas previdenciárias e administrativas, depois não pode aparecer com a cara de espanto do personagem que descobriu que o mágico realmente serraria a caixa ao meio.
Evidentemente, cada proposta precisa ser analisada em detalhe. Algumas podem ser justificáveis. Outras podem ser ruins. Outras podem ser desastrosas.
Mas a democracia tem uma característica inconveniente:
as escolhas produzem consequências.
Não existe voto gourmet, aquele em que o cidadão escolhe o pacote completo e depois recebe somente as partes que achou bonitas.
É igual pedir rodízio de churrascaria e dizer:
— Eu aceito a picanha, mas gostaria de cancelar a conta.
Não funciona.
E tem uma ironia maravilhosa nisso tudo
Durante anos, uma parte do eleitorado foi convencida de que direitos trabalhistas eram privilégios.
A CLT virou uma espécie de vilã mitológica.
Servidor público virou sinônimo de parasita.
Sindicato virou palavrão.
Aposentadoria virou favor do governo.
E qualquer tentativa de ampliar direitos passou a ser apresentada como ameaça ao empreendedorismo, à produtividade, ao mercado, à civilização ocidental e, provavelmente, à reprodução dos pandas na China.
Agora aparece um projeto dizendo:
— Vamos mexer nisso.
E surge a surpresa:
— Mas mexer como?
Meu amigo...
Você passou anos pedindo a tesoura.
Agora não reclame porque apareceu o alfaiate.
O Brasil tem uma característica admirável
Consegue transformar uma eleição em contrato de adesão que ninguém leu.
O sujeito marca o candidato, aperta CONFIRMAR e depois passa quatro anos perguntando quais eram os termos de uso.
— Eu não sabia que tinha isso!
Tinha.
— Mas eu achei que era só contra o PT!
Não era.
— Achei que era contra corrupção!
Também não era exclusivamente isso.
— Achei que iam melhorar minha vida!
Essa parte ninguém pode garantir.
É justamente por isso que democracia não é concurso para escolher o candidato mais simpático.
É escolha de projeto.
E projeto vem com planta baixa.
Às vezes, inclusive, vem com uma enorme placa dizendo:
“Atenção: aqui haverá obra.”
Então fica registrado
Não será possível dizer que ninguém avisou.
Não será possível dizer que foi uma surpresa.
Não será possível dizer que o eleitor não tinha elementos para avaliar.
As propostas estão sendo discutidas publicamente. O debate sobre jornada, custo do trabalho, funcionalismo e reformas está explícito na campanha.
Depois da eleição, evidentemente, a sociedade poderá cobrar, fiscalizar, protestar, negociar, pressionar Congresso, Judiciário e governo.
Isso faz parte da democracia.
Mas existe uma coisa que não deveria fazer parte:
a amnésia coletiva.
Porque se o cidadão votar no sujeito que prometeu passar a tesoura e, depois, reclamar que a tesoura cortou, eu só poderei oferecer uma resposta muito pouco sofisticada:
— Meu querido, a tesoura estava na propaganda eleitoral.
E, sinceramente, depois de tantos avisos, talvez o Brasil não precise de mais um alerta.
Precise apenas de um recibo.
“Eu li. Eu votei. Eu concordei. Agora aguente.”
Assinado:
O brasileiro que amanhã descobrirá, novamente, que consequência não é fake news.
Criado com ChatGPT.
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