https://www.brasil247.com/brasil/politicas-publicas-nao-sao-esmolas-dizem-mulheres-cristas-em-manifesto-de-apoio-a-lula/
Eu diria melhor. Eu diria: "políticas públicas não geram consciência política". 😏🤭
Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.
A sua frase toca num ponto importante da política brasileira: políticas públicas podem melhorar a vida das pessoas, mas não garantem que essas pessoas desenvolvam consciência política sobre os direitos que conquistaram, os interesses que estão em disputa e as estruturas que produzem desigualdade.
E aí entra a ironia: o cidadão pode receber um benefício legítimo, melhorar de vida e continuar acreditando que política é coisa de ladrão — desde que o ladrão não mexa no benefício dele. 😏🤭
Políticas públicas não geram consciência política: o milagre que ainda falta ao Brasil.
“Políticas públicas não são esmolas”, afirma um manifesto de mulheres cristãs em apoio a Lula. E estão certas. Bolsa Família, SUS, cotas, aposentadorias, moradia e educação pública não são presentes distribuídos por um governante generoso que acordou inspirado pelo Espírito Santo. São direitos, conquistas sociais e instrumentos de combate à desigualdade. O manifesto também relaciona essas políticas à dignidade das famílias e à participação política.
Mas eu acrescentaria uma observação: políticas públicas não geram consciência política. Pelo menos, não automaticamente.
Porque, se gerassem, o Brasil já seria uma potência mundial em consciência de classe. Bastava conferir o número de pessoas que utilizam o SUS, recebem benefícios sociais, estudam em universidades públicas ou dependem da Previdência. Teríamos um eleitorado capaz de discutir orçamento público, tributação, distribuição de renda e relações de poder com a desenvoltura de um economista escandinavo.
Em vez disso, temos gente defendendo a redução do Estado enquanto espera que o Estado pague sua aposentadoria. Temos cidadãos que consideram o Bolsa Família uma esmola, mas acham perfeitamente legítimo que empresários recebam incentivos fiscais, financiamentos favorecidos e outras formas de ajuda pública. Nesse caso, curiosamente, a esmola ganha um nome sofisticado, usa terno e frequenta reuniões com o ministro da Fazenda.
É o milagre da semântica econômica: quando o dinheiro vai para os pobres, é assistencialismo; quando vai para os ricos, é política de desenvolvimento.
E não adianta explicar que políticas sociais são direitos. O sujeito pode passar anos utilizando serviços públicos e continuar convencido de que o Estado é um estorvo. Se amanhã precisar de uma cirurgia, exigirá atendimento pelo SUS. Se alguém mencionar que o SUS deveria ser privatizado, talvez concorde, desde que a privatização aconteça depois da cirurgia dele.
A consciência política, pelo visto, pode esperar na fila.
O eleitor que recebe, agradece e vota contra
Imagine uma família que finalmente consegue colocar comida na mesa graças a um programa social. A vida melhora. As crianças comem melhor. A mãe consegue respirar um pouco. O dinheiro que antes faltava para o básico começa a permitir algum planejamento.
Isso tem valor concreto. Não é pouca coisa. Para quem vive sob a ameaça permanente da fome, a diferença entre ter e não ter uma política pública pode ser a diferença entre dignidade e desespero.
Mas será que essa experiência, por si só, leva a família a compreender por que a política pública existe, como foi conquistada, quem a financia e quais forças políticas querem ampliá-la ou extingui-la?
Não necessariamente.
A pessoa pode agradecer a Deus, agradecer à família, agradecer ao vizinho, agradecer ao pastor, agradecer ao prefeito e até agradecer ao alinhamento dos planetas. Só talvez não perceba que existe uma estrutura política, econômica e social por trás daquele direito.
E, quando chega a eleição, pode votar justamente em quem pretende desmontar os mecanismos que ajudaram sua família.
É quase uma modalidade de suicídio político assistido, com direito a santinho, bandeira e postagem nas redes sociais.
O candidato promete acabar com o assistencialismo, o eleitor aplaude. O candidato anuncia cortes nos gastos sociais, o eleitor comemora a responsabilidade fiscal. Depois, quando o benefício diminui, descobre que a responsabilidade fiscal tinha endereço certo: a casa dele.
Nos bairros ricos, ela costuma chegar com mais delicadeza.
A esquerda também precisa fazer seu exame de consciência.
E aqui entra uma parte menos confortável da conversa: a responsabilidade não é apenas do eleitor.
Governos progressistas podem ampliar direitos, melhorar a renda, facilitar o acesso à educação e reduzir a pobreza. Mas, se acreditarem que a melhoria material produzirá automaticamente consciência política, estarão confundindo administração pública com formação cidadã.
Governar bem é indispensável. Explicar por que determinadas políticas existem, como funcionam e quais interesses estão em conflito também é.
Não basta entregar o benefício e imaginar que o cidadão fará sozinho o caminho entre receber uma ajuda concreta e compreender a disputa política que a tornou possível.
É preciso investir em educação política, organização comunitária, participação popular, sindicatos, associações de bairro, movimentos sociais e espaços de debate. É preciso ensinar as pessoas a questionar não apenas quem está no governo, mas também quem concentra riqueza, quem influencia as decisões e quem paga a conta das escolhas econômicas.
E isso exige paciência, trabalho de base e disposição para ouvir críticas.
Dá trabalho. Não rende necessariamente uma fotografia bonita para a propaganda eleitoral. E, pior ainda, pode formar cidadãos que apoiam um governo em determinada política e o criticam em outras.
Um horror para quem gostaria de transformar a população em torcida organizada.
Afinal, cidadão consciente não é aquele que aplaude tudo o que o seu lado faz. É aquele que sabe por que apoia determinada medida, quais são seus limites e o que precisa ser corrigido.
O púlpito, a urna e a consciência terceirizada
O manifesto das mulheres cristãs também merece atenção por outro motivo: demonstra que a fé religiosa pode ser mobilizada em defesa da justiça social, dos direitos das mulheres e da dignidade humana. Não existe contradição necessária entre ser cristão e defender políticas públicas.
Mas seria interessante que essa reflexão chegasse a todas as comunidades religiosas, inclusive àquelas em que o debate político parece ter sido terceirizado para o pastor.
Há quem escute durante horas que precisa pensar por conta própria, desde que chegue à conclusão previamente autorizada pelo púlpito.
A consciência individual é estimulada com entusiasmo, contanto que não produza resultados inconvenientes para a liderança religiosa.
Nesse ambiente, a política deixa de ser examinada por seus efeitos concretos na vida da população e passa a ser avaliada pela identidade de quem a propõe. Se o candidato pertence ao grupo considerado virtuoso, até suas contradições recebem uma bênção especial. Se pertence ao grupo adversário, até uma política que beneficia os pobres pode ser apresentada como ameaça à família, à moral e à civilização ocidental.
O benefício chega pelo Estado, mas a interpretação chega pelo púlpito.
E, se ninguém explicar que direitos sociais são resultado de decisões políticas e conquistas coletivas, o eleitor poderá atribuir a melhora da própria vida a qualquer coisa, menos à política pública que contribuiu para ela.
O verdadeiro milagre.
O Brasil não precisa escolher entre políticas públicas e consciência política. Precisa das duas.
Políticas públicas combatem necessidades concretas. A consciência política ajuda a população a compreender como essas necessidades são produzidas, por que persistem e quais decisões podem enfrentá-las.
Uma sem a outra é insuficiente.
Sem políticas públicas, a consciência política pode até florescer, mas floresce em terreno de sofrimento evitável. Sem consciência política, as políticas públicas ficam vulneráveis à desinformação, à manipulação eleitoral e à ideia de que direitos são favores concedidos por governantes.
E existe uma ironia nisso tudo: o governo pode melhorar a vida de milhões de pessoas sem conseguir convencê-las de que a melhoria depende também de escolhas políticas. Pode construir escolas sem formar cidadãos capazes de defender a educação pública. Pode ampliar o acesso à universidade sem garantir que os beneficiados compreendam as desigualdades que dificultaram sua entrada. Pode reduzir a fome sem eliminar a narrativa de que alimentar os pobres é desperdício de dinheiro.
O Estado faz sua parte, mas a consciência não vem no mesmo pacote.
Não existe programa federal de transferência automática de consciência de classe. Se existisse, certamente haveria um aplicativo, um cadastro e uma fila de espera.
E ainda apareceriam parlamentares dizendo que o programa estimula a dependência ideológica.
Por isso, mantenho minha versão da frase: políticas públicas não geram consciência política. Elas criam condições melhores para que as pessoas vivam, estudem, participem e lutem por seus direitos. Transformar essas condições em compreensão crítica exige educação, organização e participação democrática.
Porque o objetivo de uma política social não deveria ser produzir gratidão eterna a um governante. Deveria ser garantir direitos e ampliar a autonomia de quem os recebe.
O cidadão não precisa votar eternamente em quem criou um benefício. Precisa saber avaliar quem o mantém, quem o aperfeiçoa, quem o ameaça e quais alternativas realmente existem.
No fim das contas, o maior sucesso de uma política pública talvez seja aquele em que ninguém precise agradecer ao governante por receber um direito — e em que ninguém seja facilmente convencido a abrir mão dele.
Esse, sim, seria um milagre digno de registro histórico.
Mas não convém esperar que aconteça sozinho. Até porque, se consciência política viesse automaticamente com o Bolsa Família, já teríamos descoberto a fórmula da revolução social por depósito bancário.
E o Banco Central teria de incluir a emancipação popular na meta de inflação.
Criado com ChatGPT.
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