https://www.diariodocentrodomundo.com.br/eduarda-campopiano-inimiga-das-mulheres-e-o-ativismo-digital-da-direita/
E isso só vai piorar. Realmente. Como havíamos falado. O eleitor não é réu. Mas não é inimputável. Porque consome esse tipo de conteúdo. Dissemina voluntariamente. Alimenta a violência polarizada. Resguardadas as diferenças, o brasileiro não está muito diferente do alemão de 1930. Escreva uma crônica crítica em tom de humor e sarcasmo.
O ponto mais incômodo da história talvez seja justamente este: o eleitor não é réu por votar em alguém, porque democracia pressupõe o direito de escolher até escolhas que parecem péssimas. Mas isso não transforma ninguém em criatura juridicamente inimputável diante das consequências sociais daquilo que consome, compartilha e legitima.
A própria trajetória de Campopiano mostra o tamanho do fenômeno: uma carreira construída essencialmente nas redes, convertendo guerra cultural e provocação em capital eleitoral, culminando em quase 2 milhões de votos para a Alesp.
### O eleitor não é réu, mas também não é inimputável
Há uma frase que deveria ser colocada na entrada de toda seção eleitoral brasileira:
**“O eleitor não é réu.”**
E logo abaixo, em letras menores:
**“Mas também não é inimputável.”**
Porque existe uma diferença monumental entre responsabilizar juridicamente alguém pelo voto e reconhecer que uma sociedade produz consequências a partir das escolhas que faz.
Ninguém deveria ser preso porque votou em candidato ruim. Isso seria democracia versão *Black Mirror*: você escolhe o sujeito e, se ele fizer merda, a Polícia Federal bate na sua porta perguntando por que você apertou 13, 22, 27 ou qualquer número que tenha sido sorteado no bingo eleitoral.
Mas existe outra responsabilidade.
A responsabilidade social.
A responsabilidade de consumir determinado conteúdo todos os dias, compartilhar, comentar, transformar provocação em entretenimento e depois fingir surpresa quando aquela provocação deixa de ser apenas um vídeo de 30 segundos e vira mandato parlamentar.
Porque o algoritmo não tem ideologia.
Ele tem faturamento.
Você assiste.
Ele entrega mais.
Você compartilha.
Ele entrega para outras pessoas.
Elas se indignam.
Compartilham também.
E pronto: temos uma máquina industrial de produzir indignação funcionando 24 horas por dia.
É o capitalismo descobrindo uma matéria-prima abundante e renovável:
**a raiva humana.**
O caso de Eduarda Campopiano é exemplar justamente por isso. Sua ascensão política começou nas redes sociais, passou pela Câmara Municipal e chegou à Alesp com quase dois milhões de votos. Ela própria transformou o antifeminismo em uma identidade política.
E aqui aparece a parte mais fascinante do espetáculo.
A política tradicional costumava exigir alguma coisa.
Militância.
Partido.
Sindicato.
Movimento estudantil.
Experiência administrativa.
Algum contato com a realidade fora da televisão.
Agora existe uma nova modalidade de currículo:
**“Viralizou.”**
Pronto.
Pode assumir.
O algoritmo fez estágio por você.
E talvez seja justamente aí que nossa democracia esteja cometendo um erro monumental: confundindo **alcance com competência**.
Um conteúdo ter milhões de visualizações não significa que tenha milhões de ideias.
Um vídeo ter milhões de compartilhamentos não significa que contenha milhões de neurônios.
Às vezes significa apenas que alguém descobriu a combinação perfeita entre indignação, preconceito, provocação e algoritmo.
É o *fast-food* da política.
Você não precisa mastigar.
É só engolir.
E compartilhar.
A comparação com a Alemanha dos anos 1930 precisa, evidentemente, ser feita com cuidado. O Brasil de hoje não é a Alemanha nazista. As instituições, a história, as circunstâncias econômicas e sociais são diferentes.
Mas existe uma semelhança perturbadora no mecanismo psicológico: **a transformação do adversário político em inimigo moral; a repetição incessante de discursos simplificadores; a exploração do ressentimento; a construção de grupos sociais como ameaça; e a normalização gradual de uma linguagem cada vez mais agressiva.**
O problema começa quando a violência simbólica vira entretenimento.
Depois vira identidade.
Depois vira voto.
E finalmente alguém pergunta:
— Mas como foi que chegamos a esse ponto?
Ora, meu caro cidadão.
Você chegou compartilhando.
Um vídeo por vez.
Um meme por vez.
Uma “brincadeira” por vez.
Um “não pode mais falar nada nesse país” por vez.
Um “é só provocação” por vez.
E aqui está a grande mágica do nosso tempo: ninguém precisa acreditar completamente em uma ideologia para ajudá-la a crescer.
Basta consumir.
Basta distribuir.
Basta transformar o discurso em espetáculo.
A raiva faz o resto.
E o algoritmo, esse pequeno demônio sem religião, apenas observa e pergunta:
**“Quer ver mais desse conteúdo?”**
Você responde:
**“Claro.”**
Ele responde:
**“Então segura.”**
E entrega mais cinquenta.
Aí aparece a parte que muita gente não quer discutir: **o eleitor tem liberdade para escolher, mas não está acima da realidade produzida por suas escolhas.**
Se milhões de pessoas transformam misoginia, racismo, transfobia, negacionismo ou qualquer outra forma de hostilidade em entretenimento cotidiano, não podemos depois agir como se essas coisas tivessem surgido espontaneamente dentro do Congresso.
Elas chegaram lá de algum lugar.
Vieram das redes.
Vieram das conversas.
Vieram dos grupos de WhatsApp.
Vieram dos vídeos.
Vieram dos compartilhamentos.
Vieram dos votos.
E, principalmente, vieram da ideia de que tudo isso era apenas uma brincadeira.
É por isso que a democracia não pode ser reduzida ao momento em que apertamos o botão da urna.
Democracia também é aquilo que fazemos entre uma eleição e outra.
É o que assistimos.
É o que compartilhamos.
É o que toleramos.
É aquilo que decidimos transformar em piada.
E é aquilo que decidimos chamar de “normal”.
Porque talvez a maior vitória de qualquer movimento autoritário não seja convencer todo mundo.
É convencer uma quantidade suficiente de pessoas de que **não há problema nenhum naquilo que está acontecendo**.
E quando finalmente percebemos que havia um problema, descobrimos que o problema já tem gabinete, verba, assessoria, milhões de seguidores e mandato de quatro anos.
Aí não adianta olhar para o algoritmo e perguntar:
— **Quem deixou isso acontecer?**
Ele provavelmente responderá:
— **Você curtiu.**
Criado com ChatGPT.
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