A vida de escritor não é fácil. Principalmente para eu, que tem a capacidade de irritar Gregos e Troianos.
Talvez eu fosse aplaudido em pé pelos jornais e colunistas ditos de esquerda e progressista se eu ambientasse a paródia nos EUA.
Isso seria fácil demais. Mas atravessar dimensões abre o canal para ambos os lados.
Tanya está na minha frente. Viktoriya tentando acalmar. Eu acho que ela está intrigada que, nesta paródia, a “Existência X” não está muito presente. Ou curiosa para saber o que significa a cena que eu não escrevi do nascimento dela, com uma parteira búlgara, um padre ortodoxo e uma estátua de Perun. Eu espero que ela não me pergunte sobre as “cenas de yuri”.
(Tanya) “Como sua supervisora criativa, eu estou um pouco decepcionada com sua falta de rigor histórico.”
(Beto) “Major, uma paródia não pode nem precisa ser historicamente acurada.”
(Tanya) “Inaceitável. O Pelotão de Bombardeamento Noturno foi criado em 1942 e, supostamente, a história que está escrevendo se encontra entre 1920 e 1930.”
(Beto) “Considere uma licença poética, major. Para manter a paródia verossímil e coerente com o original. Eu tinha que colocar a senhorita nessa paródia em um pelotão onde seus inegáveis talentos de liderança ficariam em evidência. (Tanya estufa o peito).
(Tanya) “Eu vou ser flexível para esse caso.”
Sem perder o foco ou a pose, ela puxa outro dossiê.
(Tanya) “Sabe que eu não acredito em Deus. Mas na sua paródia eu não tenho percebido a presença da *Existência X*. (Batendo com um dedo, impaciente, na capa do dossiê) “O que significa a cena do meu renascimento? Por que uma parteira búlgara, um padre ortodoxo e a estátua de Perun? Onde está a *Existência X*?”
(Beto) “A senhorita sabe que eu sou um pagão moderno, certo?”
(Tanya) “Esse é o seu argumento?”
(Beto) “Não, major. Isso é uma constatação. (Tanya fica com uma sobrancelha arqueada. Eu prossigo) Ao contrário da *Existência X*, os Deuses Antigos não precisam que acredite neles.”
(Tanya) “O senhor está afirmando que esses Deuses acham minha descrença pitoresca e continuam a existir e agir a despeito disso tudo?”
(Eu fico quieto antes de ficar encrencado)
(Tanya, em uma inacreditável condescendência) “Isso explica sua dificuldade em entender os termos da nomenclatura do Partido.”
Viktoriya passa outra pasta para Tanya. Os dedos delas ficam encostados mais tempo do que o necessário.
(Tanya) “Esse caso eu vou encerrar como mera *idiossincrasia burguesa* do senhor. No entanto, eu exijo saber o que o senhor quer insinuar ao descrever que eu estava ruborizada? (Olhar de enfado) O que o senhor quer insinuar com cenas yuri? Isso tem alguma coisa a ver com um cidadão da Federação Russa?” (Yuri é um nome russo)
(Beto) “Major…no original, o público e seus milhares de fãs (o olho da Tanya brilha), ficou visível sua deferência, até privilégio, a favor da Viktoriya. Para usar um termo da minha época, tem muitos fãs que estão *shipando* as senhoritas.”
Tanya levanta a cabeça e arqueia uma sobrancelha.
(Tanya) “Shipando?”
(Beto) “Sim. Quando personagens dão demonstração de que existe algo mais do que mera camaradagem ou amizade.”
Eu estava esperando por uma explosão. Viktoriya só solta um suspiro.
(Tanya) “Besteira. Impossível. Inverossímil. Eu mantenho a senhorita Serebryakov perto porque ela é uma excelente assessora.”
O olhar da Viktoriya mostra que eu acertei algo. Tanya rabisca alguma coisa na papelada e completa, antes de me dispensar:
(Tanya) “Mantenha essas cenas de yuri dentro da camaradagem.”
Eu ainda estou inteiro.
No corredor, eu percebo:
(Beto) “Espera. Eu acho que acabei de deixar duas personagens sozinhas com o dossiê.”
E em algum lugar, uma pasta começa a ser reaberta.
Classificação: idiossincrasia burguesa.
Eu tento recuperar a pasta. Eu ouço as duas conversando.
(Viktoriya) "Viu, Tanya? Ele nos entende!"
A xícara de café parece perder a importância.
(Tanya) “Ele entende o quê, exatamente?”
(Viktoriya) “Nós.”
Pausa.
(Tanya) “Isso é uma afirmação bastante vaga.”
(Viktoriya) “Não para mim.”
E nesse momento eu penso:
“Eu deveria ir embora.”
Mas não vou. Eu anotei. Um Estado pode proclamar que aboliu a exploração econômica e, simultaneamente, continuar tentando determinar quem você pode amar, como deve se comportar e qual identidade é socialmente aceitável.
(Viktoriya) “De onde ele vem, isso deve ser compreensível”
Silêncio.
(Tanya) “O quê é compreensível?”
(Viktoriya) “Que duas pessoas podem sentir alguma coisa uma pela outra sem pedir autorização ao Estado.”
Tanya responde, muito séria:
(Tanya) “Isso é uma interpretação perigosamente individualista.”
Eu, atrás da porta:
“Pronto. Agora eu vou para a Sibéria.”
(Tanya) "Camarada Serebryakov, está querendo proteger o escriba?"
Eu não quero nem pensar na Tanya ciumenta.
Viktoriya fica em silêncio por um segundo.
(Viktoriya) “Estou apenas esclarecendo a situação.”
(Tanya) “Não foi isso que perguntei.”
(Beto) “Talvez a Sibéria seja uma alternativa razoável.”
Viktoriya, percebendo exatamente o que está acontecendo, poderia fazer a coisa mais perigosa possível:
(Viktoriya) “A senhora parece bastante interessada no que eu sinto a respeito dele.”
Silêncio absoluto.
Tanya olha para ela.
Viktoriya olha para Tanya.
A xícara de café continua esquecida.
(Tanya) “Não mude de assunto.”
(Viktoriya) “Eu não mudei.”
(Tanya) "Serebryakov... isso é uma falha grave na disciplina e na hierarquia."
(Viktoriya) "Então a senhorita admite que sente algo?"
(Silêncio)
(Beto, pensando) “Eu não estou aqui. Eu nunca estive aqui. Esta porta nunca existiu.”
Tanya finalmente respira fundo.
(Tanya) “Sua pergunta é impertinente.”
(Viktoriya) “Não foi uma resposta.”
Outro silêncio.
(Tanya) “Essa conversa jamais aconteceu.”
(Viktoriya) “Concordo.”
Pausa.
(Viktoriya) “Mas a senhora não disse que eu estava errada.”
Eu, atrás da porta:
“Meu Deus.”
Pausa.
“Não. Perun.”
Eu saio dali com muita cautela. Eu anotei. “Elas estão falando sobre disciplina... mas estão mesmo?”
Criado com a ajuda do ChatGPT.
Imagem criada com Gemini, do Google.

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