Esta é uma obra de ficção.
Nomes, instituições, doutrinas, personagens e acontecimentos nela contidos podem guardar semelhanças com pessoas, regimes ou acontecimentos históricos. Tais semelhanças são deliberadas.
Nenhum rótulo político, ideológico, religioso ou filosófico utilizado na obra deve ser tomado como garantia de que seu conteúdo corresponderá às expectativas associadas a esse rótulo.
Em outras palavras:
Se você veio procurar uma defesa do seu lado, talvez se decepcione.
Se você veio procurar um ataque ao lado adversário, talvez também se decepcione.
A obra não promete confirmar aquilo que você já pensa.
Leia por sua conta e risco.
— O Autor
*Retificando*
— A Comissão de Classificação Ideológica da Federação
O autor nega ter conhecimento desta comissão.
😸
Incrível. Cinco episódios e eu ainda estou inteiro. Eu ainda não fui mandado para a Sibéria. Metade do público no teatro foi embora depois que eu mexi nos dogmas sagrados de quem é de esquerda. Ou nos dogmas do ateísmo, vai saber?
Eu fico batucando na folha de papel. Como eu vou escrever uma cena yuri? Claro, falar em crianças no exército não dá Ibope. Crianças são alistadas em muitos países. Mas cenas de amor homossexual? Entre mulheres? No Brasil? Um país entre os que mais comete violência moral e física contra a comunidade LGBT?
Esse é o risco. Como falar de sexo, gênero, identidade e preferência sexual sem ficar em estereótipos? Provavelmente Tanya me fulminaria antes que eu concluísse o parágrafo. Outra dúvida. Como, de que jeito, eu vou "explicar" o que pode ser considerado "proteção" da Viktoriya a meu favor?
Eu fico imaginando a máquina do Estado. O Partido consegue explicar magia, deuses, fenômenos psíquicos e uma major que desafia todas as estatísticas militares.
Mas duas mulheres gostarem uma da outra?
“Isso precisa ser investigado imediatamente.”
O diálogo das minhas protagonistas chamou minha atenção.
Viktoriya: “Major, a senhora está enrubescendo?”
Tanya: “Não.”
Viktoriya: “Está, sim.”
Tanya: “É uma reação fisiológica perfeitamente explicável.”
Viktoriya: “Naturalmente.”
Silêncio.
Tanya: “E pare de sorrir.”
Viktoriya: “Não estou sorrindo.”
Tanya: “Está.”
Viktoriya: “Então estamos ambas em desacordo com os fatos.”
Como se comprovasse meu vaticínio, surge um oficial.
Oficial: “Camarada Serebryakov, o autor introduziu uma interpretação inadequada da relação entre a major e a senhora.”
Viktoriya: “Qual interpretação?”
Oficial: “A de que existe... afeição.”
Viktoriya: “Isso é proibido?”
Oficial: “Não foi isso que eu disse.”
Viktoriya: “Então qual é exatamente a infração?”
Oficial: “Ele está insinuando demais.”
Viktoriya: “Insinuação não consta no código disciplinar.”
Oficial: “Mas pode provocar interpretações.”
Viktoriya: “A interpretação é responsabilidade do leitor.”
Silêncio.
Viktoriya: “Major, eu considero injusta a censura da história... alguém tem que ter coragem de escrever sua história, major.”
Tanya: “Serebryakov.”
Viktoriya: “Major?”
Tanya: “Você está defendendo o autor?”
Viktoriya: “Estou defendendo a aplicação correta do regulamento.”
Tanya: “Entendo.”
Tanya olha para mim.
Tanya: “E você. Pare de sorrir.”
Oficial: “Camarada Major, temos um pequeno problema ideológico.”
Tanya: “Qual?”
Oficial: “A senhora.”
Um coronel interpela.
Coronel: “Por que a senhora está interferindo?”
Viktoriya: “Porque a acusação não se sustenta.”
Oficial: “A senhora demonstra uma preocupação incomum com a Major Degurechaff.”
Viktoriya: “Ela é minha superior.”
Oficial: “Não foi isso que eu perguntei.”
Coronel: “Isso é grave, major. O Comitê da Defesa do Povo tem denúncias de favoritismo, quebra de hierarquia, interferência indevida, proteção de uma subordinada ou comprometimento da disciplina.”
Tanya: “Se a acusação é favoritismo, apresentem a evidência de favoritismo.”
O oficial apresenta.
Tanya analisa.
Tanya: “Isso é preocupação.”
Silêncio.
Tanya: “Preocupação não é crime.”
Viktoriya fica vermelha.
E Tanya percebe.
Coronel: “É vedado ao pessoal militar estabelecer relações pessoais que comprometam a imparcialidade do comando, a disciplina da unidade ou a confiança entre superior e subordinado. A senhorita conhece de cor o Regulamento Disciplinar do Exército Popular da Federação.”
Oficial: “Um oficial não poderá conceder tratamento excepcional a um subordinado em razão de vínculos pessoais.”
Viktoriya: “Qual tratamento excepcional?”
Oficial: “A senhora interveio três vezes em defesa da Major Degurechaff.”
Viktoriya: “Nas três ocasiões, a acusação estava incorreta.”
Oficial: “A senhora poderia ter deixado o processo seguir.”
Viktoriya: “Poderia.”
Oficial: “Mas não deixou.”
Viktoriya: “Não.”
Oficial: “Por quê?”
Viktoriya: “Porque ela estava certa.”
Coronel: “E se o camarada Steelin souber?”
Tanya: “Souber o quê?”
“Que existe uma irregularidade no pelotão.”
Tanya olha para Viktoriya.
Viktoriya olha para Tanya.
Tanya: “Então temos um problema.”
Viktoriya: “A irregularidade?”
Tanya: “Não. O fato do Grande Líder não ter previsto a irregularidade.”
O oficial começa uma discussão mais agressiva.
Oficial: “Nossa sociedade eliminou a exploração.”
Tanya: “Ótimo. Então por que ainda existe hierarquia, privilégio e burocracia?”
Oficial: “Nossa sociedade é materialista e racional.”
Tanya : ‘Então por que existem coisas que o Partido simplesmente declara que não podem existir?”
Oficial: “Todos são iguais.”
Tanya : “Exceto quando alguém possui o posto certo, o sobrenome certo ou a autorização certa.”
Oficial: “O indivíduo existe para o coletivo.”
Tanya : “E quem decide o que é o coletivo?”
Oficial: “Nossa sociedade não possui dogmas.”
Tanya : “Interessante. Quem escreveu a lista das coisas que não podem ser questionadas?”
Oficial: “Na Federação não existem privilégios.”
Tanya: “Então por que a sala do camarada Steelin é maior que a minha?”
Oficial: “Por necessidades administrativas.”
Tanya: “Entendo.”
Oficial: “Algum problema?”
Tanya: “Nenhum. Só estou tentando entender a diferença entre privilégio e necessidade administrativa.”
Silêncio.
Viktoriya: “Major...”
Tanya: “Sim?”
Viktoriya: “Talvez seja melhor não continuar.”
Tanya: “Por quê?”
Viktoriya: “Porque o oficial está começando a fazer anotações.”
Ao longo da história e da política, regimes se apresentam como liberais, democráticos, religiosos, nacionalistas, etc.
O que acontece quando a realidade não corresponde à promessa?
Quem decide quando uma violência se torna “necessária”?
A circular visava coibir ou ocultar celebrações e confraternizações que acontecem depois de uma batalha. Uma anomalia, de acordo com alguns comissários. Um sinal da presença de uma decadência.
A circular divulgava as punições de soldados denunciados. Tanya mostra desgosto em ver essa violência.
Tanya: “Entendi. Foi necessário.”
Oficial: “Exatamente.”
Tanya: “Necessário para quê?”
Oficial: “Para defender a Revolução.”
Tanya: “De quem?”
Oficial: “Dos inimigos da Revolução.”
Tanya: “Quem são os inimigos?”
Oficial: “Os que ameaçam a Revolução.”
Tanya: “E como sabemos que alguém ameaça a Revolução?”
Oficial: “Porque é inimigo da Revolução.”
Silêncio.
Tanya: “Isso é uma definição circular.”
Viktoriya: “Major...”
Tanya: “Sim?”
Viktoriya: “Pare.”
Tanya: “Por quê?”
Viktoriya: “Porque o camarada já está procurando um formulário.”
Se tudo que ameaça a perfeição precisa ser eliminado, quem está autorizado a declarar que algo ameaça a perfeição?
Essa paródia serve para qualquer ideologia que transforma sua própria sobrevivência em justificativa para suspender os princípios que dizia defender.
Coronel: “Toda medida necessária à preservação da Revolução será considerada legítima quando destinada a impedir sua destruição.”
Tanya: “Quem determina o que é necessário?”
O oficial: “A autoridade competente.”
Tanya: “E quem determina quem é a autoridade competente?”
Oficial: “O Partido.”
Tanya: “E quem determina se o Partido está correto?”
Silêncio.
Viktoriya começa lentamente a guardar os papéis.
Tanya: “Serebryakov?”
Viktoriya: “Sim, Major?”
Tanya: “Por que está guardando os documentos?”
Viktoriya: “Porque estou tentando evitar que a senhora descubra o artigo seguinte.”
Tanya: “Qual?”
Viktoriya: “O que explica por que fazer perguntas demais constitui uma ameaça à Revolução.”
Beto: “Eu devia ter escrito uma comédia romântica.”
O problema é que, naquele momento, eu já não sabia se Tanya e Viktoriya estavam apaixonadas — ou se o Estado estava apaixonado pela ideia de regulamentar o amor.
Tanya: “O senhor percebe que escreveu isso?”
Beto: “Tecnicamente, sim.”
Tanya: “E percebe que colocou meu nome nisso?”
Beto: “Sim.”
Tanya: “E que fez Serebryakov me defender?”
Beto: “Foi uma decisão narrativa.”
Tanya: “Entendo.”
Silêncio.
Beto: “Então... não estou em perigo?”
Tanya: “Não.”
Beto: “Excelente.”
Tanya: “Ainda.”
Se você reconhecer apenas os defeitos dos seus adversários nesta história, considere a possibilidade de que a sátira tenha funcionado — ou de que você tenha pulado justamente as páginas destinadas a você.
Criado com ChatGPT.
Imagem criada com Gemini, do Google.

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