Câmera em fade in. Protagonista olhando para o teto, feito de vigas de madeira. Uma mulher idosa, com roupas típicas dos Bálcãs a entrega para uma mulher, deitada e cansada. Um pouco mais afastado, um padre ortodoxo a olhando com compaixão. No canto dessa casa rural simples, uma estátua, esculpida em madeira, de Perun, parece olhar a recém nascida com aprovação.
A mulher casada abraça a recém nascida e decide o nome.
- Tanya.
O padre ortodoxo sorri e dá a benção. A parteira também dá a benção. Pelo Deus novo, pelos Deuses antigos, a mais jovem integrante da família Degurechaff se vê em algum lugar da União Soviética. Sim, essa é uma paródia do anime Youjo Senki. Com muita ironia, sarcasmo e crítica política/social. Ou só eu notei que o “assalariado japonês” nunca recebeu um nome antes de sua ressurreição? Ou o motivo pelo qual ele foi reencarnar em um mundo de uma realidade alternativa, por volta de 1920, na Alemanha?
Tanya: “Você está me dizendo que colocaram um deus pagão no canto do meu quarto quando eu nasci?”
Você: “Tecnicamente, sim.”
Tanya: “E um padre ortodoxo estava presente?”
Você: “Sim.”
Tanya: “Então minha família cobria todas as possibilidades.”
Você: “Era prudência.”
Tanya: “Era burocracia religiosa.”
Você: “Você realmente nasceu para ser soviética.” 😏
A protagonista (ou seu espírito), em seus longos cabelos loiros e olhos azuis, me cutuca.
Tanya: "Eu até entendo que tenha que manter o nome para o leitor me identificar, escriba, mas porque eu tenho um sobrenome alemão em algum lugar dos Bálcãs?"
Tanya, precisa e afiada como sempre. Eu vou explicar. A família Degurechaff fugiu assim que o partido nazista alcançou o poder. Os Bálcãs foi a melhor alternativa, pois o regime da Federação Rússia era dominado pelo culto à personalidade do Grande Líder, Steelin (uma patética tentativa de esconder o nome do Stalin).
Tanya: “Eu aceito que você precise manter meu nome para que o leitor saiba quem sou.”
Você: “Obrigado.”
Tanya: “Mas ainda não explicou o sobrenome.”
Você: “Ah. Isso é simples.”
Tanya: “Estou ouvindo.”
Você: “Sua família era de origem alemã. Quando o partido nazista chegou ao poder, seus antepassados fugiram.”
Tanya: “Até aqui, plausível.”
Você: “Foram parar nos Bálcãs.”
Tanya: “Também plausível.”
Você: “E acabaram dentro da esfera da Federação Rússia.”
Tanya estreita os olhos.
Tanya: “Federação Rússia?”
Você: “É. Não podemos chamar de União Soviética. É uma paródia.”
Tanya: “E o líder?”
Você: “Steelin.”
Silêncio.
Tanya: “Você realmente não se esforçou muito.”
Você: “A sutileza não é o objetivo.”
Tanya: “Percebi.”
Assim nasceu Tanya Degurechaff. Sob a bênção de um Deus novo, o olhar de um deus antigo e a proteção de um Estado que afirmava não precisar de nenhum dos dois.
Então eu, um brasileiro, do século XIX, estou em um gabinete luxuoso, em algum lugar de São Petesburgo, prestes a ter uma entrevista com a Tanya, para ver se ela aceita essa paródia.
São Petersburgo.
O gabinete é luxuoso demais para ser simplesmente um escritório militar.
Madeira escura. Cortinas pesadas. Um enorme mapa da Europa sobre a parede. Uma samovar fumegando no canto.
Você espera sentado.
A porta se abre.
Entra Tanya Degurechaff.
Pequena. Uniforme impecável. Olhos azuis extremamente atentos.
Ela fecha a porta.
Olha para você.
Depois para a pasta sobre a mesa.
Depois novamente para você.
Tanya:
— Você afirma ser brasileiro?
Você:
— Sim.
Ela franze a testa.
— E afirma ter vindo do século XXI?
— Sim.
Silêncio.
Tanya pega a pasta.
— E veio até aqui para me apresentar uma proposta literária?
— Exatamente.
Ela abre a primeira página.
Lê o título:
“A Pequena Bruxa Vermelha.”
Tanya para.
Olha para você.
— Você está zombando de mim?
— Um pouco.
— Do Exército?
— Também.
— Da União Soviética?
— Bastante.
Tanya fecha os olhos por um instante.
— Pelo menos é honesto.
Você respira fundo.
— Eu pensei numa realidade alternativa. Você não nasceu no Império. Nasceu na Rússia. E acabou se tornando uma oficial brilhante...
— Naturalmente.
— ...mas existe um problema.
— Qual?
Você aponta para o retrato enorme na parede.
— Eles aboliram Deus.
Tanya olha para o retrato.
— Sim.
— Combateram a superstição.
— Sim.
— Rejeitaram a religião.
— Sim.
Você se inclina para frente.
— E depois criaram uma doutrina oficial, uma ortodoxia política, heresias ideológicas, santos revolucionários, mártires, ícones...
Tanya permanece imóvel.
— E um homem cuja imagem está em praticamente todo lugar.
Silêncio.
Tanya olha novamente para o retrato.
Depois volta os olhos para você.
Um pequeno sorriso aparece.
— Isso vai ser uma comédia?
— Uma sátira.
— Sobre o quê?
— Sobre pessoas que dizem ter eliminado a necessidade de acreditar em alguma coisa...
Você sorri.
— ...e descobrem que seres humanos são extraordinariamente criativos quando precisam encontrar alguma coisa para colocar no altar.
Tanya fica em silêncio por alguns segundos.
Então pega a caneta.
— Continue.
Tanya permanece alguns segundos olhando para a pasta. Depois pega um carimbo.
Você observa, apreensivo.
CARIMBO.
Vermelho.
Seu coração afunda.
Ela vira o documento na sua direção.
No carimbo está escrito:
APROVADO — SOB SUPERVISÃO.
Você:
— Isso é verde ou vermelho?
Tanya:
— Sim.
😂
Ela então acrescenta, muito séria:
— Você pode fazer sua paródia. Pode satirizar o Partido, o culto à personalidade, a burocracia, o militarismo e até minha própria situação.
— E as Bruxas Vermelhas?
— Desde que você não transforme mulheres reais que lutaram e morreram em caricaturas.
Você assente.
— Justo.
Tanya fecha a pasta.
— Quanto à minha personagem...
Ela inclina a cabeça.
— Não me transforme numa idiota.
— Jamais.
— Nem numa propagandista.
— Também não.
— Nem numa santa.
— Definitivamente não.
Um sorriso quase imperceptível.
— Então temos um acordo.
Ela estende a mão.
Você aperta.
E Tanya acrescenta:
“Mas se você colocar o camarada Stalin como uma espécie de Deus substituto, quero uma cena em que eu seja a primeira pessoa a apontar a contradição.”
Você:
— Já estava planejada.
Tanya:
— Então comece a escrever.
Você, já perto da porta:
— Então estamos de acordo?
Tanya:
— Sim.
— E eu posso voltar para o Brasil?
Ela olha para a pasta.
— Por enquanto.
Você congela.
— “Por enquanto”?!
Tanya finalmente sorri.
— Se a paródia ficar ruim, teremos uma segunda reunião.
— E se ficar boa?
— Também.
— Por quê?
Ela se levanta.
— Porque quero saber como termina.
Você olha para a janela. São Petersburgo está coberta pela neve.
— Isso não me tranquiliza.
Tanya pega a caneta e faz uma anotação.
— Deveria. Significa que você ainda é útil.
Você engole seco.
— E a fila de fuzilamento?
Tanya ergue uma sobrancelha.
— Não existe fila.
Alívio.
— Ah!
— É uma burocracia muito mais eficiente que isso.
😳
Você sai do gabinete imediatamente.
Do outro lado da porta, Tanya chama:
— Senhor escritor!
Você volta a cabeça.
— Sim?
— Não esqueça de colocar as Bruxas Vermelhas.
— Pode deixar!
— E faça-as formidáveis.
— Prometo.
— Ótimo.
Pausa.
— Agora desapareça antes que eu descubra alguma irregularidade no seu passaporte temporal.
Antes de sair do gabinete, Tanya fornece uma ótima vinheta para abrir o filme.
— “Espero sinceramente que essa história tenha um orçamento maior do que a explicação do meu passado.”
Eu volto nervoso, para minha própria dimensão, espaço/tempo e país.
Tanya não precisa defender nenhuma religião para perceber que existe uma diferença entre “não acreditar” e “proibir que outros acreditem”.
Criado com a ajuda do ChatGPT.

Nenhum comentário:
Postar um comentário