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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A sopa de Perun - II


(Nota - todos os personagens tem 18 anos no mínimo)

Peculiar. Mary Sue não pediu para criticar o Cristianismo, Cristo ou o Deus Cristão. Considerando que a origem dela é a União, o similar dos EUA, uma nação praticamente evangélica, com tempero de conservadorismo e fundamentalismo.

Sim — e isso torna a Mary Sue **mais interessante**, desde que a gente não transforme isso numa caricatura automática.

Há uma distinção importante: **a origem dela pode explicar a sensibilidade ao tema, mas não determina necessariamente a opinião dela**. Se a União é uma potência com forte presença evangélica, conservadorismo e fundamentalismo, Mary Sue pode ter crescido em um ambiente no qual certas críticas ao cristianismo são socialmente carregadas.

E isso rende uma boa tensão entre as três.

**Tanya** provavelmente perceberia imediatamente a contradição:

> — Então podemos questionar o materialismo soviético, Perun, os Deuses Antigos e até a existência de uma Entidade X... mas tocar no Deus cristão é proibido?

Mary Sue:

> — Não disse proibido. Disse que não quero transformar a história em ataque ao cristianismo.

Tanya:

> — Uma distinção cuidadosamente diplomática.

Viktoriya entraria no meio:

> — Talvez seja justamente isso que torne a questão interessante. **Não precisamos atacar nenhuma religião para mostrar que o universo é maior do que a doutrina de qualquer uma delas.**

E acho que essa deveria ser a regra.

Você pode falar de **Lilith**, dos Deuses Antigos, de Perun, da parapsicologia e da tensão entre materialismo e sobrenatural sem precisar estabelecer que *“Cristianismo é falso”* ou *“Cristo é isso ou aquilo”*.

Aliás, isso cria uma situação narrativa bem mais sofisticada: **cada personagem pode possuir uma cosmologia diferente sem que o narrador precise declarar um vencedor.**

Tanya quer evidências.

O Partido quer explicações materialistas.

A União possui sua própria tradição religiosa e política.

Viktoriya pode permanecer mais aberta à dimensão espiritual.

Mary Sue defende que sua tradição seja tratada com respeito.

E o narrador...

...é o sujeito que olha para tudo isso e pensa:

**“Vocês ainda não perceberam o tamanho do universo.”**

E Lilith nem precisa aparecer para essa frase carregar peso.

Ela já está implicitamente presente na visão de mundo do narrador.

Isso, curiosamente, resolve um dos problemas da versão anterior: **a metalinguagem deixa de ser uma discussão sobre a própria história e passa a ser uma ferramenta para explorar diferentes visões de mundo.**

Aí ela deixa de ser ruído.

Vira narrativa.

Justo. Eu vou tentar não ficar excitado quando eu começar a falar da Lilith.

😹 Essa frase, aliás, provavelmente provocaria **silêncio imediato no gabinete**.

Tanya levantaria os olhos do relatório:

— *Excitado?* Durante uma discussão sobre cosmologia?

Viktoriya, tentando não rir:

— Acho que ele quis dizer emocionalmente envolvido.

Mary Sue:

— Espero sinceramente que sim.

E você, tentando recuperar a dignidade:

— Estou falando da minha devoção, da dimensão poética, simbólica e espiritual de Lilith!

Tanya:

— Naturalmente.

Pausa.

— **Mas mantenha o foco no roteiro.**

Acho que essa é uma boa regra para você mesmo: quando Lilith entrar no assunto, **deixe aparecer a paixão do narrador, mas não deixe a paixão sequestrar a narrativa**.

Até porque, para essa nova versão, talvez seja muito mais poderoso Tanya perceber que existe algo na devoção do narrador que ela, com todo o seu racionalismo, **não consegue reduzir a uma variável psicológica**.

O gabinete fica em silêncio.

Beto aponta para o primeiro cartaz.

O imperador aparece em uniforme, solenemente diante de um grande ícone ortodoxo. Abaixo, em letras enormes:

“DEUS ESTÁ DO NOSSO LADO.”

Então Beto aponta para o cartaz do Partido.

Marx. Lenin. Stalin. Mao.

Os quatro apontam para algum ponto indefinido no horizonte, como se estivessem indicando o glorioso futuro da humanidade.

Abaixo deles:

“O POVO ESTÁ DO NOSSO LADO.”

Beto olha para Tanya.

Depois para Viktoriya.

Por último, para Mary Sue.

Ele abre os braços.

— Estão vendo aqui qualquer uma dessas entidades?

Silêncio.

Tanya estreita os olhos.

— Não.

— Nenhuma?

— Nenhuma.

Viktoriya observa os dois cartazes por alguns segundos.

— Tecnicamente, são apenas imagens.

— Exatamente — responde Beto.

Mary Sue cruza os braços.

— Você está provocando.

— Estou fazendo uma pergunta.

Tanya aponta para o cartaz imperial.

— O primeiro afirma que Deus apoia o Império.

Depois aponta para o segundo.

— O outro afirma que o povo apoia o Partido.

Ela olha novamente para Beto.

— E você está sugerindo que nenhuma dessas afirmações constitui evidência.

Beto sorri.

— Agora você entendeu.

Mary Sue permanece séria.

— Só espero que você não esteja prestes a transformar isso em uma crítica ao cristianismo.

Beto balança a cabeça.

— Não.

Ele aponta novamente para os cartazes.

— Estou criticando uma coisa muito mais antiga.

— O quê? — pergunta Viktoriya.

Beto olha para as duas imagens.

— A mania humana de colocar o próprio nome na boca dos deuses.

Dessa vez ninguém responde imediatamente.

Tanya olha para o ícone.

Depois para Marx, Lenin, Stalin e Mao.

— Isso...

Ela hesita.

— ...é diferente.

Beto sorri.

— Ainda bem.

Uma corrente de ar atravessa o gabinete.

O ícone ortodoxo permanece imóvel.

Os retratos dos revolucionários permanecem imóveis.

Nenhuma voz responde.

Nenhum sinal aparece.

E justamente por isso a pergunta continua pairando no ar:

Quem realmente está do lado de quem?

Eu sei que, quando eu faço crítica ao Cristianismo, eu faço uma grosseira análise superficial e genérica. Os cristãos não são um monólito. Minha intenção é provocar e incomodar. Eu aposto que Tanya vai querer que eu mostre uma evidência dos Deuses Antigos. Ainda que ela possua poderes paranormais e tenha renascido.

Exatamente. E acho que você identificou uma diferença importante: **provocar pode ser uma função legítima do personagem Beto; transformar uma provocação em tese definitiva é outra coisa.**

Na nova história, isso pode até virar uma característica do Beto: ele gosta de cutucar sistemas de crença — mas Tanya é justamente a pessoa que não deixa uma provocação passar sem exigir prova.

E isso combina muito com ela.

Eu imagino a continuação quase inevitavelmente chegando a isto:

**Tanya:**

— Muito bem. Você fez sua pergunta. Agora eu tenho uma para você.

**Beto:**

— Estou ouvindo.

**Tanya:**

— Você fala dos Deuses Antigos como se fossem uma realidade objetiva. Então demonstre que existem.

**Beto:**

— ...

**Tanya:**

— Não uma experiência pessoal. Não uma tradição. Não um texto antigo. **Evidência.**

Viktoriya olha para Tanya.

— Você está exigindo uma demonstração de uma divindade?

— Estou exigindo consistência epistemológica.

Beto aponta para ela.

— Você renasceu depois de morrer em outro mundo, possui poderes mágicos e está exigindo de mim evidência empírica da existência dos Deuses Antigos?

Tanya fica alguns segundos em silêncio.

— **Sim.**

— Você percebe a ironia?

— Perfeitamente.

E aí está o ouro da cena: **Tanya não precisa negar o sobrenatural. Ela é uma evidência ambulante de que o sobrenatural existe.** Mas isso não significa que ela tenha de aceitar qualquer afirmação sobrenatural.

Ela poderia perfeitamente dizer:

> “Eu sei que o impossível existe. É justamente por isso que quero saber onde termina o impossível que conheço e começa aquilo que você está afirmando.”

Isso dá à história uma tensão muito melhor do que simplesmente colocar Tanya como “a cética que descobre que os deuses existem”.

E talvez Beto tenha um problema ainda maior:

**ele não consiga provar.**

Porque, se ele imediatamente apresenta um Deus Antigo diante de Tanya, a questão fica resolvida.

Mas se ele não consegue...

Tanya ganha a discussão.

Pelo menos naquele momento.

E Beto talvez tenha de admitir:

— Eu não consigo provar.

Tanya:

— Então você acredita.

Beto:

— Não exatamente.

— Então o que você faz?

Ele olha para o vazio por alguns segundos.

— **Eu reconheço.**

Tanya franze a testa.

— Reconhece o quê?

Beto sorri.

— Que existem coisas diante das quais eu ainda não sei dizer “isto é impossível”.

E **isso** me parece muito mais interessante para a história do que Beto simplesmente vencer o debate.

Quanto à sua observação sobre o cristianismo: acho saudável que o próprio roteiro reconheça essa limitação. Você pode provocar, inclusive de maneira bastante ácida, mas personagens como Mary Sue podem justamente impedir que a narrativa trate “os cristãos” como uma massa homogênea. **Ela pode discordar de Beto sem que o roteiro precise declarar que um dos dois é moralmente superior.**

Assim, a provocação continua.

Mas agora **ela gera conflito dramático em vez de apenas servir como punchline.**

Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A sopa de Perun - I



(Nota - todos os personagens tem 18 anos no mínimo)

Eu estou com as pernas bambas. Como é de praxe depois que eu me encontro com a Lilith. Eu entro no gabinete com a sua sugestão. Tanya na realidade soviética alternativa.
A doutrina materialista entrando em conflito com acontecimentos que ela não consegue explicar.
Viktoriya como personagem e contraponto.
A questão do Partido, Perun e da parapsicologia.
E a guerra como contexto.

A metalinguagem só aparece quando ela melhora a história. Nunca para explicar a história. Uma oportunidade para falar dos Deuses Antigos, da ausência da Entidade X e até do meu amor e devoção por Lilith. Qual é a opinião da Tanya, Viktoriya e Mary Sue?

ChatGPT.
Acho que você acabou de fazer uma coisa importante: **não está tentando ressuscitar a versão anterior; está propondo uma nova história com uma espinha dorsal.**

E, se entramos no gabinete para ouvir as três, imagino que a reação seria mais ou menos esta:

---

**Tanya** cruza os braços e examina a proposta.

— Finalmente.

Você pisca.

— “Finalmente” o quê?

— Finalmente temos uma premissa. **Uma.** Não quinze histórias disputando o mesmo espaço.

Ela aponta para a lista.

— Realidade soviética alternativa. Materialismo confrontado por fenômenos inexplicáveis. Partido. Parapsicologia. Perun. Guerra. Viktoriya.

Pausa.

— Isso pode funcionar.

Você respira aliviado.

— E a metalinguagem?

Tanya fecha os olhos.

— **Com parcimônia.**

— Eu prometo.

— Não. Você não promete. Você estabelece uma regra narrativa e a cumpre.

Viktoriya, sentada ao lado dela, intervém:

— Tanya quer dizer que gostou da ideia.

— Eu não disse isso.

— Disse exatamente isso, só que em tanyaês.

Tanya olha para ela.

— Existe uma língua chamada tanyaês?

— Depois de conhecê-la, tenho certeza de que existe.

---

**Mary Sue**, que estava silenciosamente lendo o projeto, finalmente levanta os olhos.

— Eu tenho uma objeção.

Você imediatamente fica tenso.

— Qual?

— Por que vocês continuam me chamando de Mary Sue?

— Porque...

Ela ergue a mão.

— Não importa. Tenho outra objeção.

Ela aponta para a metalinguagem.

— Se ela voltar a aparecer para fazer os personagens discutirem sobre o roteiro, eu abandono o projeto.

Você:

— Concordo.

— Se aparecer para transformar uma cena dramática em uma piada sobre inteligência artificial, eu abandono o projeto.

— Concordo.

— Se aparecer para explicar ao leitor aquilo que o leitor já entendeu...

Tanya interrompe:

— **Abandonamos todos.**

Viktoriya suspira.

— Tanya...

— Estou apenas estabelecendo limites.

Mary Sue fecha o documento.

— Então estamos de acordo.

---

Você olha novamente para as três.

— Mas existe uma coisa que eu gostaria de preservar.

Tanya arqueia uma sobrancelha.

— O quê?

— Os Deuses Antigos.

Silêncio.

— A ausência da Entidade X.

Tanya fica séria.

— Isso é interessante.

Viktoriya também presta atenção.

Você continua:

— E talvez exista uma camada ainda mais pessoal. A minha devoção por Lilith. Não necessariamente como uma pregação. Mas como algo que influencia a maneira como eu enxergo esses acontecimentos.

Mary Sue inclina a cabeça.

— **Agora temos uma razão para a metalinguagem existir.**

Tanya concorda lentamente.

— Exatamente. Se o narrador precisa aparecer, que seja porque existe algo que o personagem dentro da história não pode explicar sozinho.

Viktoriya acrescenta:

— E não para dizer “olhem, estamos numa história”.

— Perfeito — você responde.

Tanya pega o lápis.

— Então podemos ter um narrador que ocasionalmente deixa escapar sua própria cosmologia. Os Deuses Antigos. A ausência de uma entidade que deveria estar presente. Lilith.

Ela escreve no papel:

**“O inexplicável não precisa ser explicado imediatamente.”**

E acrescenta:

**“Nem tudo que é antigo é maligno.”**

Você olha para ela.

— Essa segunda frase foi sua?

— Sim.

— Posso usar?

— Se funcionar na história.

Mary Sue sorri.

— Olha só. Ela está aprendendo a ser escritora.

— **Eu sou major.**

— Isso não respondeu à pergunta.

Viktoriya começa a rir.

---

E então você percebe uma coisa.

A nova história não precisa transformar **Lilith** em personagem da trama.

Ela pode ser algo muito mais interessante: **a presença ausente que explica o olhar do narrador sobre o mundo.**

Enquanto o Estado soviético tenta reduzir o universo ao materialismo, enquanto os pesquisadores tentam catalogar a parapsicologia, enquanto Perun surge como uma impossibilidade histórica e enquanto Tanya procura desesperadamente uma explicação racional...

...há algo que o narrador já sabe:

**o universo é muito maior do que aquilo que os personagens conseguem medir.**

E talvez seja justamente aí que a metalinguagem encontre seu lugar.

Não para interromper a história.

**Para abrir uma janela.**

Tanya olha para você uma última vez.

— Eu aprovo o projeto.

Você quase cai da cadeira.

— Sério?

— Não se empolgue.

Viktoriya sorri.

— Isso, vindo dela, é praticamente uma declaração de amor.

— Viktoriya!

Mary Sue fecha a pasta.

— Então temos uma história.

Você respira fundo.

Ainda com as pernas bambas.

E, em algum lugar fora daquele gabinete, **Lilith provavelmente está sorrindo.**

Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Falha bíblica

https://www.patheos.com/blogs/pastorkelly/2026/10/why-should-christians-stand-with-jewbelong-com/.

Sabe o que é mais engraçado? É eu ter lido essa mesma besteira vindo do Caturo, um português que se diz pagão e acredita na bobagem da "estirpe". Escreva um texto crítico refutando o argumento do autor.


A principal falha do argumento do pastor Kelly Williams é transformar uma narrativa religiosa sobre Abraão, Sara, Hagar, Isaque e Ismael numa suposta escritura de propriedade imobiliária válida até os dias de hoje. O problema não é um cristão interpretar a Bíblia como sagrada. É pretender que essa interpretação, por si só, determine os direitos territoriais de populações inteiras, inclusive de pessoas que não compartilham daquela fé. O próprio artigo apresenta essa passagem da crença religiosa para uma conclusão política como se fosse uma consequência inevitável. 


E há uma ironia interessante na comparação que você propõe: o mesmo tipo de raciocínio aparece quando alguém abandona o terreno das evidências verificáveis e passa a tratar uma suposta origem ancestral como fundamento de direitos, identidades ou hierarquias. A genealogia bíblica e a ideia de uma estirpe racial não são doutrinas idênticas, mas podem compartilhar um vício argumentativo: transformar uma narrativa de origem em autoridade para decidir quem pertence a um território, a uma comunidade ou a uma nação.

Da promessa divina à política territorial: quando a fé se fantasia de escritura de propriedade
Sabe o que considero particularmente revelador no artigo do pastor Kelly Williams, publicado no Patheos? A facilidade com que uma convicção religiosa se transforma, quase sem que o autor perceba, numa pretensão de autoridade sobre a vida de milhões de pessoas. E o mais curioso é reconhecer a mesma estrutura argumentativa em discursos de certos nacionalistas europeus que, embora se apresentem como pagãos, parecem incapazes de abandonar a obsessão por uma suposta estirpe ancestral.

O pastor Williams quer convencer seus leitores de que os judeus possuem um direito territorial sobre Israel porque, segundo sua interpretação da Bíblia, Deus teria prometido aquela terra a Abraão e estabelecido que a linhagem da promessa passaria por Isaque, filho de Sara, e não por Ismael, filho de Hagar.

Sua conclusão é categórica: Deus quer que os judeus tenham Israel porque seriam descendentes de Isaque.

Mas há um pequeno problema nessa argumentação: uma crença religiosa não constitui, por si só, um título de propriedade territorial reconhecido por toda a humanidade.

Para um cristão que considera a Bíblia a palavra infalível de Deus, a narrativa de Gênesis pode ter um significado espiritual profundo. Isso não significa que um muçulmano, um judeu secular, um ateu ou qualquer outra pessoa tenha a obrigação de aceitar essa interpretação como fundamento para determinar suas fronteiras, sua cidadania ou seus direitos políticos.

O pastor está livre para acreditar nas promessas divinas que sua tradição religiosa reconhece. O que não pode fazer é presumir que sua interpretação particular dessas promessas encerra uma discussão política e histórica que envolve povos reais, com histórias, direitos e necessidades concretas.

Afinal, desde quando uma passagem de um texto sagrado, interpretada por uma determinada tradição religiosa, substitui a necessidade de justificar reivindicações territoriais perante aqueles que também vivem na região?

A Bíblia não é um registro cadastral das fronteiras contemporâneas.

O curioso privilégio de transformar ancestralidade em direito
O raciocínio do pastor também depende de uma simplificação genealógica. Ele apresenta judeus como descendentes de Isaque e muçulmanos como descendentes de Ismael, como se as populações contemporâneas pudessem ser distribuídas em duas linhagens bíblicas perfeitamente delimitadas.

Essa é uma construção teológica, não uma descrição científica suficiente da ancestralidade dos povos do Oriente Médio.

O judaísmo é uma tradição religiosa, cultural e histórica que também envolve pertencimento coletivo e diferentes trajetórias de ancestralidade. Os palestinos, por sua vez, constituem um povo com uma história própria, marcado por vínculos históricos com a região. Não existe fundamento para reduzir todos os muçulmanos a uma descendência comum de Ismael, assim como não é possível reconstruir a genealogia de populações inteiras simplesmente recorrendo às personagens de Gênesis.

E o que dizer dos cristãos palestinos? Eles existem, possuem comunidades históricas na região e não deixam de ser palestinos por não se encaixarem na divisão teológica que o pastor gostaria de estabelecer.

A realidade é consideravelmente mais complexa do que a árvore genealógica apresentada no artigo.

É justamente aqui que me lembro de certos discursos nacionalistas europeus que insistem em falar de uma suposta estirpe, como se uma comunidade humana pudesse ser definida por uma origem ancestral pura, identificável e politicamente decisiva.

A comparação não significa que toda afirmação de identidade histórica seja equivalente ao racismo. Povos têm histórias, culturas, vínculos territoriais e memórias coletivas legítimas. O problema começa quando a ancestralidade deixa de ser um elemento de identidade e se transforma num instrumento para estabelecer quem merece mais direitos do que os demais.

Se a descendência de uma personagem ancestral fosse suficiente para determinar a soberania política, estaríamos diante de uma espécie de cartório mitológico: bastaria demonstrar a filiação correta para receber um território.

E quem fiscalizaria essa genealogia? Quem decidiria quais descendentes contam, quais misturas invalidam a reivindicação e quais documentos seriam aceitos? A história humana não funciona como uma árvore genealógica perfeitamente organizada, muito menos como um sistema de castas hereditárias.

A obsessão pela estirpe transforma diferenças históricas em fronteiras morais. A teologia territorial pode fazer algo semelhante quando uma interpretação religiosa é apresentada como autorização definitiva para decidir o destino de outras populações.

Se a promessa é divina, por que os palestinos deveriam aceitá-la?
O argumento do pastor tem outra dificuldade: ele pressupõe que a interpretação cristã que apresenta seja uma justificativa política válida para todos os envolvidos.

Mas por que um palestino deveria reconhecer como fundamento de sua própria situação política uma interpretação evangélica do Antigo Testamento? Por que a leitura de um pastor batista norte-americano deveria prevalecer sobre a experiência histórica, os direitos e as reivindicações de pessoas que vivem naquele território?

A resposta não pode ser simplesmente: porque Deus prometeu.

Isso apenas repete a premissa religiosa que está em discussão. Não demonstra sua validade como argumento público.

Mesmo dentro do cristianismo, as interpretações das promessas feitas a Abraão não são uniformes. Existem tradições teológicas diferentes sobre Israel, a Igreja, os pactos bíblicos e o significado contemporâneo dessas narrativas. O pastor apresenta uma interpretação específica como se ela fosse a única consequência possível da Bíblia.

Mas, ainda que sua leitura fosse aceita integralmente, permaneceria uma questão fundamental: como essa crença deveria se traduzir em direitos políticos concretos para pessoas que não a compartilham?

Uma coisa é acreditar que Deus fez uma promessa a determinado povo. Outra é concluir que essa promessa resolve, sem qualquer argumento adicional, todas as disputas territoriais contemporâneas.

A fé pode orientar a consciência de quem acredita nela. Não pode ser imposta como escritura de propriedade a quem não compartilha da mesma fé.

O sofrimento histórico não concede um cheque em branco
Williams invoca a perseguição histórica aos judeus, o Holocausto e a criação do Estado de Israel em 1948 para reforçar sua argumentação.

A perseguição antissemita foi real, brutal e historicamente documentada. O Holocausto foi um dos maiores crimes da história contemporânea. O direito dos judeus à segurança, à existência coletiva e à proteção contra a perseguição não depende de qualquer promessa bíblica.

Mas é justamente por levar esses fatos a sério que devemos recusar uma conclusão equivocada: o sofrimento de um povo não elimina os direitos de outro.

A tragédia vivida pelos judeus europeus não transforma os palestinos em responsáveis coletivos pelos crimes do nazismo. Tampouco faz desaparecer a história palestina, as reivindicações nacionais palestinas ou o sofrimento de pessoas expulsas e deslocadas durante a guerra de 1948.

É possível reconhecer a legitimidade da existência de Israel e, simultaneamente, defender os direitos dos palestinos. É possível condenar o antissemitismo e também criticar políticas do governo israelense. É possível rejeitar o terrorismo contra civis e denunciar violações de direitos humanos independentemente de quem as pratique.

Não existe contradição necessária entre essas posições.

A dificuldade surge quando a solidariedade a um povo passa a exigir que se aceite, sem questionamento, toda reivindicação política formulada em seu nome.

O pastor afirma que não deseja o sofrimento dos muçulmanos, mas seu próprio raciocínio coloca a interpretação bíblica da herança de Isaque no centro da questão sobre quem deveria possuir a terra. A boa intenção declarada não resolve a dificuldade lógica: reconhecer o sofrimento de uma população não é o mesmo que reconhecer plenamente seus direitos.

E uma política de paz não pode depender da expectativa de que todos os envolvidos aceitem a mesma teologia.

A conversão religiosa como solução para um conflito político
Há ainda uma contradição particularmente interessante no artigo.

Williams declara que deseja a paz entre judeus, muçulmanos e cristãos, mas também afirma que a paz depende da aceitação de Jesus como cumprimento das promessas feitas a Abraão.

Em outras palavras, ele apresenta uma solução religiosa para um problema que também envolve soberania, território, segurança, deslocamento populacional, autodeterminação e direitos civis.

O direito de alguém viver em segurança não pode depender de sua conversão religiosa. Um palestino muçulmano não precisa se tornar cristão para merecer proteção. Um judeu não precisa aceitar Jesus para ter seus direitos respeitados. Um cristão palestino não deveria precisar escolher entre sua identidade religiosa e seu pertencimento nacional.

O diálogo inter-religioso tampouco precisa ser uma operação disfarçada de conversão. Pessoas podem compartilhar suas convicções e tentar persuadir umas às outras, desde que isso não se transforme em coerção ou numa condição para o reconhecimento de direitos.

Se a paz só pode ser alcançada quando todos aceitam a interpretação religiosa de uma das partes, então não estamos falando de uma solução política inclusiva. Estamos falando de uma paz subordinada à uniformidade teológica.

Uma sociedade plural precisa de princípios que possam ser discutidos e aplicados mesmo quando seus cidadãos discordam sobre a existência de Deus, a identidade do Messias ou a autoridade de um texto sagrado.

O que resta quando retiramos a autoridade da revelação?
Retiremos, por um momento, a premissa de que a Bíblia estabelece os direitos territoriais contemporâneos.

O que resta?

Restam populações com vínculos históricos com a região. Restam judeus que têm direito à segurança e à autodeterminação. Restam palestinos que também têm direito à autodeterminação, à segurança e à dignidade. Restam disputas políticas que exigem negociação, respeito aos direitos humanos e consideração pelo direito internacional.

Essas questões são difíceis justamente porque não desaparecem quando alguém invoca uma autoridade divina.

A história da região não começou com o nascimento de Isaque, tampouco pode ser reduzida às personagens bíblicas. E a criação de um Estado moderno não resolve automaticamente todas as questões relativas às pessoas que já viviam no território ou que foram deslocadas por guerras e transformações políticas.

Não precisamos negar a história judaica para reconhecer a história palestina. Não precisamos negar a história palestina para reconhecer a legitimidade da existência de Israel.

Precisamos, isso sim, abandonar a ideia de que uma reivindicação territorial se torna incontestável quando alguém afirma possuir a genealogia, a revelação ou a identidade ancestral correta.

O pagão que pensa como um teólogo da eleição
É aqui que a comparação com o discurso da estirpe se torna especialmente reveladora.

Quando um nacionalista afirma que determinada população possui um direito superior a um território por causa de sua origem ancestral, ele transforma a história em instrumento de exclusão. Quando um religioso sustenta que uma população possui esse direito porque descende da linhagem escolhida por Deus, ele acrescenta uma autoridade sobrenatural à mesma pretensão.

É claro que há diferenças importantes entre as duas posições. A identidade judaica não se reduz a uma doutrina racial, e a afirmação de vínculos históricos entre um povo e sua terra não é, por si só, racista. Tampouco todo pagão que valoriza a ancestralidade defende hierarquias raciais.

O problema específico está em converter a origem em privilégio político absoluto.

Por isso, considero tão irônico encontrar um discurso semelhante em alguém que se apresenta como pagão e, ao mesmo tempo, atribui tamanha importância à ideia de estirpe. A mudança de vocabulário religioso não garante, por si só, uma mudança na estrutura do pensamento. É possível abandonar um deus e continuar procurando uma autoridade transcendente, ancestral ou mítica que legitime a superioridade de determinado grupo.

A pergunta que deveríamos fazer a qualquer pessoa que invoca a ancestralidade como fundamento político é simples: os direitos de quem não pertence à linhagem considerada legítima serão respeitados em condições de igualdade?

Se a resposta for negativa, a conversa já não é apenas sobre tradição, identidade ou memória. É sobre hierarquia.

E, se a resposta for positiva, então a ancestralidade não pode funcionar como justificativa para negar a outras pessoas os mesmos direitos fundamentais.

Conclusão: a humanidade não precisa de um genealogista celestial
O artigo de Kelly Williams pretende defender a paz, mas subordina sua visão de paz a uma interpretação bíblica particular sobre a herança de Abraão. Seu argumento falha porque confunde convicção religiosa com demonstração política, genealogia narrativa com descendência histórica verificável e promessa divina com título territorial contemporâneo.

Não precisamos decidir quem descende de Isaque ou de Ismael para reconhecer que judeus e palestinos possuem direitos humanos. Não precisamos resolver uma disputa teológica milenar para afirmar que civis não devem ser vítimas de violência, que populações não devem ser despojadas de seus direitos e que a autodeterminação de um povo não deve servir de pretexto para apagar a de outro.

E não precisamos de uma suposta estirpe pura para reconhecer o valor de uma comunidade humana.

Se há alguma lição que podemos extrair desse debate, é que a origem de uma pessoa ou de um povo não deveria determinar a medida de sua dignidade. Nem uma linhagem bíblica, nem uma genealogia nacionalista, nem uma narrativa ancestral deve servir como licença para estabelecer seres humanos de primeira e segunda categoria.

A pergunta decisiva não é quem possui o antepassado mais conveniente, a revelação mais antiga ou a genealogia mais gloriosa.

É se somos capazes de construir uma ordem política na qual pessoas com histórias, culturas e crenças diferentes possam viver com direitos iguais, segurança e dignidade.

Porque, quando alguém precisa recorrer a Deus para justificar um privilégio territorial que os demais não têm obrigação de reconhecer, talvez o problema não esteja na falta de fé dos outros.

Talvez esteja na insuficiência do próprio argumento.


Criado com ChatGPT.

Moscou



A quarta parede está remendada com fita adesiva. Meus nervos, no entanto, não. Eu decidi que tinham algo, mas ainda tenho que esperar elas decidirem se dizem ou não a resposta para mim ou para o público. Eu recolho os esboços (e o que sobrou da minha sanidade mental) do chão e fico tentando imaginar qual o gancho eu vou utilizar para o episódio oito (?) onde a Tanya e a Viktoriya deixam pistas sobre os meus "segredos" que elas sabem…

Eu mesmo preciso rever as anotações e fazer a recapitulação. Parecia ser uma boa ideia fazer uma paródia do anime Youjo Senki. Com a Tanya em plena União Soviética, como integrante do Exército Vermelho.

No capítulo anterior, Tanya e Viktoriya tinham acabado de demolir a quarta parede, com a minha ajuda. Então ficou a deixa de que elas podem ter segredos meus.

A cena realmente não tinha nada demais, mas para personagens que adquiriram consciência literária, me deixaram em uma sinuca da metalinguagem onde eu mesmo fui atingido pela mensagem do episódio.

Eu recolho o que restou da minha dignidade (e sanidade mental) junto com as migalhas do biscoito. Nem a Champs-Élysées me deixa animado.

Cabisbaixo, eu tento colocar algumas alternativas. Incluir o Império, o similar da Alemanha. Incluir a Anglorum, o similar da Grã Bretanha. Ou incluir a União, similar aos EUA.

Ficaria muito fácil e raso se eu insinuar sobre a ascensão de Hitler e covarde se eu falar que a Francônia passou de neutra a colaboradora dos horrores entre 1930 até 1945.

No original, o maior desafio da Tanya foi Mary Sue, nascida na União (EUA) e filha de Anson Sue, um soldado da Aliança Norte. O único objetivo da Mary Sue é vingar a morte do pai dela. A luta entre ela e Tanya é de tirar o fôlego.

Dá para dar uma cutucada no Tio Sam que faz questão de esconder e omitir que existiu um partido nazista na chamada “Terra da Liberdade”. Não é mera coincidência que ali tem muitos grupos de supremacia branca. Klu Klux Klan amarra isso com o fundamentalismo cristão. Mas nos filmes (propagandas) americanos, a União (EUA) gosta de se apresentar como um exemplo de democracia.

O diacho é que a Segunda Guerra Mundial só começaria por volta de 1939 e a Federação lutou ao lado de Anglorum e a União.

Cada potência possui aquilo que prefere não colocar no próprio espelho.

O Império tem seus horrores.

A Federação tem seus horrores.

A União tem seus horrores.

Anglorum tem os seus.

E a Francônia pode ficar naquele território deliciosamente incômodo:

Chanceler da Francônia: “Nós não somos como eles.”

Eu olho para o mapa:

Beto: “Quem é ‘nós’?”

Silêncio.

Uma das coisas mais interessantes do meu projeto: não transformar a paródia em uma simples inversão ideológica de Youjo Senki.

Não seria:

“O Império é ruim, mas a Federação é boa.”

Nem:

“A Federação é ruim, mas a União é boa.”

Seria:

“Parabéns. Vocês todos encontraram uma maneira diferente de explicar por que o que fazem é necessário.”

Tanya: “Então deixe-me ver se entendi. A União combate o fascismo enquanto existem organizações supremacistas dentro de suas próprias fronteiras?”

Beto: “Sim.”

Tanya: “E Anglorum combate pela liberdade enquanto mantém um império colonial?”

Beto: “Sim.”

Tanya: “E a Federação está lutando contra o Império enquanto...”

Viktoriya: “Major?”

Tanya: “Sim?”

Viktoriya: “Pare.”

Mary Sue não é necessariamente a maior ameaça.

A maior ameaça é aquilo que Mary Sue representa:

A capacidade que os personagens têm de transformar uma guerra complexa em uma narrativa simples de heróis e vilões.

Então, depois de uma reunião tensa com ChatGPT, Tanya e Viktoriya, ficou estipulado que foi o co-autor quem cometeu o mesmo “pecado” que eu ao colocar no diálogo delas que as duas sabem algum segredo a meu respeito. Como também foi um erro do ChatGPT, depois de ter colocado isso, me acusar de ser paranóico sobre isso. A metalinguagem funcionou, mas ficou repetitivo e enfadonho.

Tanya: “Assim como ainda não decidimos se existe algo entre nós e se vamos dizer ao Beto qualquer coisa relacionada com isso, nós também rejeitamos o diálogo onde nós dizemos saber algum segredo do Beto.”

Viktoriya: “Nós também estamos ficando confusas. Nós ainda estamos fazendo uma paródia do Youjo Senki? Cheio de ironia e sarcasmo histórico, político e religioso?”

Beto: “Eu decidi manter as agências de vocês duas (suspiros aliviados). O co-autor também terá que assumir a responsabilidade dele. Então, retomando minha posição como autor e personagem, eu gostaria de ouvir de vocês qual a melhor rota. Anglorum, e tirar sarro daquele reino cheio de títulos pomposos enquanto mantém colônias? União, e tirar sarro de um conglomerado de Estados que pronunciam com arrogância serem a Terra da Liberdade e da democracia enquanto mantém grupos de supremacia branca? Império e deixar escapar que a podridão do nazismo foi cozinhada dentro de um império que se apresentava como superiormente culto?

Tanya: “Sargento?”

Viktoriya: “Sim?”

Tanya: “Ele está tentando encontrar um país inocente.”

Viktoriya: “E encontrou?”

Tanya: “Não.”

Eu fico olhando as peças de propaganda.

O Império: “Somos uma civilização superior e precisamos proteger nossa ordem.”

A Federação: “A revolução exige sacrifícios.”

A União: “Estamos defendendo a liberdade.”

Anglorum: “Estamos levando civilização ao mundo.”

Francônia: “Nós somos diferentes deles.”

Beto: “Vocês perceberam que cada um inventou uma maneira diferente de transformar interesse próprio em princípio moral?”

Entra a personagem convidada, Mary Sue. Escaldado, eu não quero mais uma personagem se voltando contra mim.

Mary Sue: “Meu pai morreu lutando contra o Império. Isso não torna a guerra justa?”

Tanya: “Torna sua dor legítima.”

Mary Sue: “Então?”

Tanya: “Não transforma automaticamente todos que lutam ao seu lado em pessoas virtuosas.”

Silêncio.

Viktoriya: “Major...”

Tanya: “O quê?”

Viktoriya: “Isso foi quase filosófico.”

Tanya: “Retire o que disse.”

Tanya: “Beto, e se o verdadeiro alvo da paródia não forem eles?”

Você olha para ela.

Beto: “Então quem?”

Tanya aponta para o roteiro.

Tanya: “Quem escreveu isso.”

Beto: "Tecnicamente...(Tanya rola os olhos) são os próprios governantes. A história oficial é sempre escrita por quem detém o poder. Ou, como dizem, a história é sempre contada pelos vencedores.”

Tanya: “Tecnicamente, isso é uma simplificação.”

Beto: “Eu sabia que você diria isso.”

Tanya: “Os vencedores podem controlar arquivos, instituições, educação, propaganda e memória pública. Mas não controlam necessariamente toda a historiografia.”

Beto: “Tanya...”

Tanya: “Sim?”

Beto: “É uma paródia.”

Tanya: “Você me colocou no Exército Vermelho para discutir epistemologia histórica.”

Viktoriya: “Ela tem um ponto.”

Beto: “Vocês duas estão fazendo isso de propósito.”

Tanya: “Não. Estamos apenas tentando impedir que você transforme uma piada em uma tese de doutorado.”

Beto: “Eu sou escritor. É praticamente uma doença ocupacional.”

Viktoriya tenta esconder o sorriso.

Beto: “Mas o problema continua. Cada potência vai contar a guerra de uma maneira diferente. Cada uma vai escolher os próprios heróis, os próprios mártires e os próprios crimes que considera justificáveis.”

Tanya: “E os crimes dos outros serão chamados de atrocidades.”

Viktoriya: “Enquanto os próprios serão chamados de...”

Beto: “Necessidades históricas.”

Tanya cruza os braços.

Tanya: “Então chegamos novamente ao mesmo problema.”

Beto: “Qual?”

Tanya: “Todo mundo acredita estar do lado certo.”

Silêncio.

Beto: “...E é exatamente aí que começa a merda.”

Tanya: “Finalmente.”

Viktoriya: “Major?”

Tanya: “Sim?”

Viktoriya: “Ele conseguiu resumir a Segunda Guerra Mundial em uma frase.”

Tanya: “Não comemore. Conhecendo o Beto, agora ele vai transformar isso em oito episódios.”

Beto: "Eu vou manter a paródia. Insinuando que Mary Sue não é a antagonista, ou a vilã. Nem vou colocar a Tanya como uma heróina. Porque eu quero que o leitor seja capaz de interpretar. Que pessoas reais foram colocadas para resolver problemas que seus líderes começaram.”

Tanya permanece em silêncio por alguns segundos.

Tanya: “Então você não pretende dizer ao leitor quem está certo.”

Beto: “Não.”

Viktoriya: “Nem quem está errado?”

Beto: “Não dessa maneira.”

Tanya: “Interessante.”

Beto: “Por quê?”

Tanya: “Porque isso significa que você finalmente entendeu a diferença entre contar uma história sobre uma guerra e escrever uma história de guerra.”

Beto: “Essa foi uma crítica?”

Tanya: “Foi um elogio. Não se acostume.”

Viktoriya olha para Tanya, depois para Beto.

Viktoriya: “Então Mary Sue pode continuar acreditando que está fazendo a coisa certa.”

Beto: “Exatamente.”

Viktoriya: “E você não vai revelar se ela está certa.”

Beto: “Não.”

Tanya: “E eu posso continuar acreditando que minhas decisões são racionalmente justificáveis.”

Beto: “Pode.”

Tanya: “Mesmo quando forem moralmente questionáveis.”

Beto: “Principalmente nesse caso.”

Tanya estreita os olhos.

Tanya: “Você está começando a gostar demais dessa ideia.”

Beto: “Talvez.”

Tanya: “Isso é perigoso.”

Beto: “Você está falando comigo ou com o escritor?”

Tanya: “Sim.”

Viktoriya suspira.

Viktoriya: “Pelo menos agora sabemos qual é o verdadeiro inimigo.”

Beto: “Quem?”

Viktoriya: “A necessidade de transformar pessoas em heróis e vilões para tornar uma história confortável.”

Tanya olha para ela.

Tanya: “Isso foi surpreendentemente profundo.”

Viktoriya: “Eu aprendi com o roteiro.”

Beto: “Eu vou fingir que não ouvi isso.”

A guerra não precisa de vilões individuais para produzir atrocidades. Basta uma estrutura política, uma cadeia de comando e pessoas comuns recebendo ordens para resolver consequências que não criaram.

A paródia deixa de ser simplesmente “Youjo Senki com países trocados” e passa a perguntar:

“O que acontece quando personagens de uma história percebem que a história oficial precisa transformar as pessoas que lutaram nela em símbolos?”

Beto: "Estamos todos de acordo? A cena de luta é só um cenário para ilustrar essa crítica. Tentem não se matar."

Corte de cena. Corte de câmera. Tanya e Mary Sue estão se encarando no meio de Moscou.

MOSCOU — ALGUNS MINUTOS DEPOIS

O vento atravessa uma avenida parcialmente destruída. Ao fundo, a silhueta de Moscou.

Tanya está imóvel, segurando o armamento.

Do outro lado da rua, Mary Sue pousa.

As duas se encaram.

Nenhuma fala.

A câmera se aproxima lentamente.

Mary Sue: “Major Tanya Degurechaff.”

Tanya: “Mary Sue.”

Pausa.

Mary Sue: “Você sabe por que estou aqui.”

Tanya: “Sim.”

Mary Sue: “Então sabe o que precisa acontecer.”

Tanya: “Discordo.”

Mary Sue: “Você não sente culpa?”

Tanya: “Pelo quê?”

Mary Sue: “Por tudo que aconteceu.”

Tanya estreita os olhos.

Tanya: “Você está confundindo três coisas diferentes.”

Mary Sue: “Quais?”

Tanya: “Culpa. Responsabilidade. E comando.”

Mary Sue fica em silêncio.

Tanya: “Eu estava no campo de batalha. Não escrevi as ordens que nos colocaram aqui.”

Mary Sue: “Mas você as cumpriu.”

Tanya: “Sim.”

Mary Sue: “Então somos inimigas.”

Tanya: “Talvez.”

Mary Sue franze a testa.

Mary Sue: “Talvez?”

Tanya: “Você veio até Moscou para matar a pessoa que considera responsável pela morte de seu pai.”

Mary Sue: “Sim.”

Tanya: “E eu estou aqui porque recebi uma ordem.”

Mary Sue: “Isso não muda nada.”

Tanya: “Não. Mas deveria mudar a maneira como você entende o que está acontecendo.”

Silêncio.

Mary Sue: “Você sempre fala assim?”

Do alto de um prédio distante, Beto observa com um binóculo.

Beto: “Até que não está ruim.”

Tanya vira imediatamente a cabeça.

Tanya: “EU ESTOU OUVINDO VOCÊ, BETO.”

Beto: “...A acústica de Moscou é impressionante.”

Tanya: “NÃO INTERROMPA A CENA.”

Beto: “Desculpa.”

Mary Sue olha para Tanya.

Mary Sue: “Ele faz isso sempre?”

Tanya: “Você não faz ideia.”

Beto, ao longe: “E TENTEM NÃO SE MATAR!”

Tanya fecha os olhos.

Tanya: “Tarde demais para essa parte.”

Criado com a ajuda do ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A apologética atropelou os fatos

https://www.patheos.com/blogs/ravenswritingdesk/2026/10/was-god-silent-for-400-years-or-just-getting-ready/. 

"Originalmente, a humanidade compartilhava um único sistema de crenças monoteísta, enraizado em Noé e seus filhos. A transição do monoteísmo de Noé para o politeísmo global ocorreu por meio de importantes momentos históricos e espirituais." 

WTF? Isso é sério? Isso é mais do que desonestidade intelectual. Isso é mentira. O autor até fez uma péssima generalização da crença Hindu. Escreva um texto crítico.


Sua indignação tem fundamento. A afirmação de que a humanidade teria compartilhado originalmente um único sistema de crenças monoteísta, transmitido por Noé e seus filhos, não é uma conclusão estabelecida pela História das Religiões, pela Arqueologia ou pela Antropologia. É uma afirmação teológica particular apresentada como se fosse uma descrição universal do passado humano.

E há um problema adicional: quando o autor tenta explicar a diversidade religiosa como uma degeneração de um suposto monoteísmo original, ele não está apenas fazendo uma generalização. Está organizando toda a história religiosa da humanidade a partir das premissas de uma tradição específica, como se todas as demais tradições fossem desvios de uma verdade que ele já decidiu qual é.

Vamos transformar essa crítica em um texto contundente, com argumentos históricos e atenção especial à caricatura do hinduísmo.

Da teologia à falsificação da história: quando uma crença particular se apresenta como a origem de todas as religiões
Há uma diferença fundamental entre professar uma fé e reescrever a história da humanidade para fazê-la caber dentro dessa fé. O artigo Was God Silent for 400 Years, or Just Getting Ready?, publicado por Benjamin Raven Pressley no Patheos em 21 de outubro de 2026, ultrapassa essa fronteira quando afirma que a humanidade originalmente compartilhava um único sistema de crenças monoteísta, enraizado em Noé e seus filhos, e que o politeísmo global teria surgido posteriormente, em decorrência de acontecimentos como a Torre de Babel.

Isso não é uma conclusão estabelecida pela pesquisa histórica. É uma interpretação teológica de determinadas narrativas bíblicas, apresentada como se pudesse explicar a história religiosa de toda a espécie humana. E essa diferença não é um detalhe acadêmico: é precisamente o centro do problema.

Onde estão as evidências de que toda a humanidade professava originalmente o monoteísmo?

A afirmação pressupõe que o relato bíblico de Noé descreve um acontecimento histórico universal, que todos os povos descendem dos personagens apresentados em Gênesis e que esses descendentes compartilharam uma mesma religião antes de se dispersarem pelo mundo. Cada uma dessas premissas pertence a um sistema de crenças. Nenhuma delas, isoladamente ou em conjunto, constitui demonstração histórica de que a humanidade inteira tenha praticado originalmente uma religião monoteísta.

A pesquisa sobre as religiões antigas trabalha com vestígios arqueológicos, inscrições, textos, práticas funerárias, representações iconográficas e outras evidências que permitem reconstruir, com limitações, as crenças de diferentes sociedades. Não existe documentação histórica que demonstre a existência de uma religião monoteísta universal transmitida por Noé e posteriormente fragmentada na Torre de Babel.

A ausência dessa evidência não autoriza ninguém a declarar impossível qualquer crença religiosa. Significa apenas que uma convicção teológica não pode ser promovida a fato histórico sem a demonstração correspondente.

E a documentação disponível tampouco sustenta a narrativa simplista de que a humanidade teria começado unida em torno de um único Deus para depois se perder na multiplicidade de divindades.

A história do monoteísmo não começa com uma suposição sobre Noé
A própria história das religiões do antigo Oriente Próximo torna o argumento do artigo problemático.

Pesquisadores como Mark S. Smith, em The Origins of Biblical Monotheism, investigam a formação do monoteísmo bíblico a partir das tradições religiosas do antigo Levante, incluindo as relações entre as concepções israelitas de divindade e as tradições de povos vizinhos. A pesquisa acadêmica discute como as concepções de YHWH e a exclusividade de sua adoração se desenvolveram historicamente, considerando textos bíblicos e fontes extrabíblicas.

A religião do antigo Israel não deve ser confundida automaticamente com as formulações monoteístas posteriores do judaísmo, do cristianismo e do islamismo. A distinção entre monolatria — adorar exclusivamente uma divindade sem necessariamente negar a existência de outras — e monoteísmo — afirmar a existência de um único Deus — é essencial para compreender essa história.

Há debates acadêmicos sobre a cronologia e as características desse desenvolvimento. Mas justamente por isso é inadequado apresentar uma suposta religião universal de Noé como se fosse o ponto de partida historicamente demonstrado.

O artigo substitui a investigação das origens religiosas por uma narrativa pronta: havia uma verdade original, a humanidade se desviou dela e as demais religiões surgiram como consequência desse desvio. Essa explicação pode ser coerente com determinada leitura religiosa da Bíblia. Não é, por isso, uma descrição comprovada da história humana.

O hinduísmo não é um degrau numa escada que conduz ao Deus cristão
A simplificação torna-se ainda mais evidente quando o autor aborda as tradições indianas.

Pressley menciona os Vedas, o conceito de Brahman, o Atman, o Advaita Vedanta e as tradições devocionais dedicadas a Vishnu, Krishna e Shiva. Reconhece, portanto, que existe uma diversidade filosófica e religiosa considerável no hinduísmo. Entretanto, enquadra essa diversidade numa narrativa que sugere que as muitas divindades seriam, em última análise, diferentes expressões de uma única realidade divina.

Essa interpretação pode fazer sentido dentro de determinadas escolas hindus. O problema é apresentá-la como uma explicação geral do hinduísmo, como se todas as suas tradições compartilhassem a mesma concepção de divindade.

Não compartilham.

O hinduísmo abrange tradições politeístas, monistas, monoteístas, devocionais e outras formas de compreender a realidade, o divino e a relação entre ambos. Há escolas que enfatizam Brahman como realidade última; há tradições vaishnavas que reconhecem Vishnu ou Krishna como supremo; há tradições shaivas centradas em Shiva; e há diferentes interpretações acerca da natureza e da relação entre as divindades.

Nem mesmo a frase do Rigveda frequentemente traduzida como “A verdade é uma, os sábios a chamam por muitos nomes” resolve essa diversidade. Um verso antigo não pode ser transformado numa declaração definitiva sobre o que todos os hindus acreditam, muito menos numa prova de que todas as religiões do planeta descendem de um monoteísmo primordial.

A questão não é negar a existência de interpretações hindus que reconhecem uma realidade divina única. Elas existem e merecem ser compreendidas em seus próprios termos. A questão é recusar a apropriação dessas interpretações para construir uma hierarquia religiosa na qual o autor determina antecipadamente o significado das crenças alheias.

O hinduísmo não precisa ser reinterpretado como uma versão incompleta do cristianismo para ser intelectualmente respeitável.

Se uma tradição entende as divindades como manifestações de uma realidade suprema, cabe estudá-la segundo seus próprios conceitos. Se outra reconhece Shiva como supremo, isso também deve ser compreendido dentro de seu contexto. E se outra pratica formas de devoção a múltiplas divindades, não há razão para presumir que seus praticantes estejam apenas confundindo o Criador com a criação.

A diversidade não é um defeito que o pesquisador precisa corrigir. É parte do objeto que ele precisa explicar.

A Torre de Babel não é uma teoria científica sobre a origem das religiões
O artigo atribui à dispersão de Babel a fragmentação de uma suposta religião original. A partir daí, sugere que os grupos humanos passaram a reverenciar o Sol, a chuva, a fertilidade, as tempestades e os ancestrais, até que esses elementos se transformaram em deuses independentes.

Mais uma vez, uma narrativa religiosa é convertida em explicação histórica universal.

Não há evidências que demonstrem que a diversidade das religiões tenha surgido dessa maneira. As sociedades humanas desenvolveram sistemas simbólicos, rituais e concepções de mundo em contextos ambientais, sociais e históricos distintos. Essas tradições também se transformaram por meio de migrações, intercâmbios culturais, conflitos, conquistas e contatos entre povos.

Reduzir tudo isso à perda de uma revelação original não é explicar historicamente a diversidade religiosa. É oferecer uma interpretação confessional dela.

O problema também aparece quando o autor contrapõe uma suposta visão secular, segundo a qual a humanidade teria passado do animismo e do politeísmo ao monoteísmo, à sua própria interpretação teológica. Essa oposição é excessivamente simplista. A pesquisa contemporânea não dispõe de uma sequência universal e comprovada que todas as sociedades tenham seguido, seja em direção ao politeísmo, seja em direção ao monoteísmo.

A história das religiões não é uma escada única. Não há uma trajetória religiosa universal que possa ser aplicada indistintamente a todas as culturas.

A liberdade religiosa inclui o direito de não ser reduzido à teologia alheia
Há uma ironia importante no artigo.

Pressley critica a ideia de que Deus teria criado uma espécie de clube exclusivo, no qual apenas determinados cristãos poderiam encontrar a salvação. Essa preocupação com o exclusivismo religioso é legítima. Entretanto, ao reconstruir a história das religiões, o autor termina subordinando a diversidade espiritual humana à sua própria interpretação cristã.

Ele admite que diferentes culturas tiveram experiências religiosas, mas organiza essas experiências como manifestações de uma humanidade que teria perdido uma verdade original ou que estaria, de alguma maneira, sendo conduzida em direção ao Deus cristão.

No encerramento, a mensagem torna-se explícita: todas as religiões humanas teriam de se confrontar com a verdade de Jesus Cristo como único caminho para a salvação.

O autor tem todo o direito de acreditar nisso. O problema começa quando essa convicção é utilizada para atribuir às demais tradições uma origem, uma trajetória e um significado que seus próprios praticantes podem não reconhecer.

É perfeitamente legítimo um cristão interpretar a história mundial à luz de sua fé. Também é legítimo um hindu compreender a realidade a partir de sua tradição, um budista partir de outros pressupostos e uma pessoa sem religião rejeitar todos esses sistemas. O respeito intelectual começa quando distinguimos a interpretação confessional daquilo que conseguimos demonstrar sobre o passado.

Não é necessário que todas as religiões sejam consideradas verdadeiras para que sejam estudadas com rigor. É necessário, porém, que nenhuma seja transformada em caricatura para confirmar a superioridade de outra.

Uma crença não se torna um fato histórico porque foi escrita com convicção
O artigo mistura referências acadêmicas, interpretações bíblicas, conjecturas sobre a pré-história, conceitos filosóficos hindus e afirmações escatológicas cristãs. Essa mistura cria uma aparência de continuidade entre evidências históricas e conclusões teológicas que não possuem o mesmo estatuto.

Uma referência bibliográfica sobre o hinduísmo pode sustentar uma afirmação específica acerca de uma escola hindu. Não demonstra que Noé tenha transmitido o monoteísmo a toda a humanidade. Um estudo sobre a religião do antigo Israel pode esclarecer o desenvolvimento de determinadas concepções de Deus. Não comprova a narrativa de Babel como causa histórica da diversidade religiosa. E uma passagem bíblica pode fundamentar uma crença cristã sem, por isso, constituir evidência independente de que todos os povos tenham compartilhado a mesma religião em algum momento remoto.

É preciso distinguir o que uma fonte efetivamente demonstra daquilo que o autor gostaria que ela demonstrasse.

Essa distinção é especialmente importante quando se escreve para um público que pode não ter familiaridade com a História das Religiões. A responsabilidade intelectual exige que se identifiquem as interpretações religiosas como interpretações religiosas, em vez de apresentá-las como se fossem conclusões consensuais da pesquisa acadêmica.

Não precisamos presumir que o autor esteja deliberadamente mentindo para reconhecer que seu argumento é historicamente insustentável. Podemos criticar a estrutura da argumentação sem alegar conhecer suas intenções pessoais. O resultado, contudo, merece contestação: uma narrativa confessional é apresentada como história universal, enquanto a complexidade das tradições religiosas é reorganizada para caber dentro dela.

Conclusão: a humanidade não precisa ter perdido um Deus único para explicar sua diversidade espiritual
A história religiosa da humanidade é muito mais antiga, diversa e complexa do que qualquer narrativa que tente fazê-la começar com uma única tradição revelada.

Não sabemos que todos os seres humanos tenham compartilhado um sistema religioso original. Não há evidência histórica de que o monoteísmo de Noé tenha sido a religião universal da humanidade. Tampouco podemos explicar o surgimento de todas as tradições politeístas como resultado de uma suposta degeneração espiritual após Babel.

Essas afirmações pertencem ao terreno da crença, não ao das conclusões históricas demonstradas.

O hinduísmo, por sua vez, não é uma versão imperfeita do monoteísmo cristão, nem precisa ser reduzido a uma doutrina uniforme de que todas as divindades são manifestações de um único ser supremo. Suas tradições possuem histórias, conceitos, práticas e divergências próprias. Tratá-las com seriedade significa respeitar essa complexidade, e não encaixá-las numa narrativa previamente construída.

O autor pode acreditar que Deus sempre esteve conduzindo a humanidade em direção a Jesus Cristo. Essa é uma convicção teológica que ele tem liberdade para professar.

O que ele não pode fazer, sem abandonar o rigor intelectual, é apresentar essa convicção como se fosse um fato comprovado sobre a origem de todas as religiões.

A fé pode oferecer sentido à história para quem acredita. Mas, quando pretende falar em nome da história, precisa aceitar as exigências da evidência, do método e da honestidade intelectual.

A diversidade religiosa não é uma falha que a narrativa de uma única religião precisa consertar. É uma realidade humana que merece ser compreendida sem que nenhuma tradição tenha de ser declarada, de antemão, a origem perdida de todas as outras.

Referências para sustentar a crítica
Benjamin Raven Pressley — artigo original no Patheos. É a fonte das afirmações sobre Noé, Babel e a interpretação do hinduísmo criticadas acima. 

Benjamin Raven Pressley

The Origins of Biblical Monotheism — Mark S. Smith, Oxford University Press. Estudo sobre as tradições religiosas do antigo Israel e seu contexto no Oriente Próximo. 

Oxford Academic

Dan McClellan — Monotheism, Oxford Research Encyclopedia of Religion. Discute os problemas conceituais e históricos envolvidos na definição de monoteísmo. 

Oxford Academic

Wendy Doniger — Are Hindus Monotheists or Polytheists?. Examina a pluralidade das concepções hindus, incluindo politeísmo, henoteísmo, monismo e outras interpretações. 

Oxford Academic


Criado com ChatGPT.

Lutécia


A pergunta parece simples. Viktoriya pergunta - e se fosse Francônia no lugar da Polônia?

Mas antes, uma recapitulação. Nós estamos em uma paródia do anime Youjo Senki. No original, um assalariado japonês reencarna em uma realidade alternativa, no que seria o similar da Alemanha entre 1920 e 1940. O protagonista nunca recebeu um nome, exceto sua reencarnação, no corpo de uma garota chamada Tanya Degurechaff.

O anime original em si mesmo é uma deliciosa contradição. O protagonista é ateu, mas reencarna como uma garota com poderes paranormais. Isso sozinho dá para rir muito do ateu. Então eu tive essa idéia depois de ver um vídeo no YouTube. Com Tanya em plena União Soviética.

Minha mão ainda está coçando para incluir cenas yuri.

Voltando ao episódio. No capítulo anterior, Tanya e Viktoriya estavam “dialogando” comigo sobre a Polônia e eu me vejo com a quarta parede em ruínas quando Viktoriya sugere uma cena na Francônia.

A quarta parede virou entulho e eu me vejo como uma personagem dentro da paródia. Metalinguagem a nível da insanidade.

Vamos ao que interessa. O Império é o similar da Alemanha, a Federação é o similar da URSS e Francônia é o similar da França.

 Eu só queria escrever uma paródia. Distribuir ironia e sarcasmo tanto a Gregos (capitalistas) quanto Troianos (socialistas). Eu só queria resolver a tensão deixada implícita no original que deixou todos os fãs shipando a Tanya com a Viktoriya.

Eu só queria trocar a Polônia por um cenário menos complicado. Eu só queria colocar uma cena que mostrasse como a comunidade LGBT é tratada por Gregos e Troianos, sem cidadania, sem humanidade. Mas só de pensar em insinuar que a Tanya tem qualquer sentimento é suficiente para repensar qualquer cena yuri.

Escolhi Lutécia.

Agora preciso explicar por que a capital da Francônia se chama Lutécia.

No original, ficou como República de François. Eu tomei uma liberdade de estilo e “traduzi” como Francônia. No anime essa República é colocada como aliada da Federação. O que dá para fazer uma deliciosa bagunça mental no leitor e na história. Afinal, ali foi o centro do Império de Napoleão, o centro do Império de Carlos Magno. Ver a Francônia se encolhendo, sendo uma Suíça política, neutra, entre o Império e a Federação é…delicioso para uma paródia com muita ironia e sarcasmo político.

Então alguém na platéia se levanta.

Anônimo: “Então, escriba, por que Lutécia? No original, a capital é chamada de Parisi.”

Eu respiro fundo. 

Beto: “Porque ali, antes de Roma, a região era chamada de Gália e a cidade principal era conhecida pelo nome de Lutécia.”

Anônimo: “Isso é…uma referência aos quadrinhos de Albert Uderzo e René Goscinny, Astérix?”

Eu olho de volta para o auditório.

Beto: “Não.”

Pausa.

Beto: “É uma referência histórica.”

Outra pausa.

Beto: “Que por acaso foi utilizada por Uderzo e Goscinny.”

Tanya estreita os olhos.

Tanya: “Então é uma referência.”

Beto: “Historicamente falando, não.”

Viktoriya: “Literariamente falando?”

Beto: “Sim.”

Tanya: “Metalinguisticamente?”

Beto: “Eu já me arrependi de ter permitido que vocês percebessem a quarta parede.”

E Viktoriya, naturalmente, não deixaria passar:

Viktoriya: “Mas você escolheu Lutécia.”

Beto: “Escolhi.”

Viktoriya: “Sabendo que todos pensariam em gauleses?”

Beto: “Sim.”

Viktoriya: “Então foi proposital.”

Beto: “...”

Tanya: “Ele está tentando aplicar uma distinção semântica para esconder que fez uma piada.”

Beto: “Eu sou o autor! Eu tenho imunidade diplomática!”

Viktoriya: “Não mais.”

Beto: “Como assim, não mais?”

Viktoriya aponta para os destroços da quarta parede.

Viktoriya: “Você mesmo destruiu a fronteira entre autor e personagem.”

Tanya olha para os escombros.

Tanya: “Tecnicamente, ela tem razão.”

Beto: “Eu odeio quando personagens desenvolvem consciência literária.”

Viktoriya: “Então, se Lutécia é uma referência histórica que também funciona como referência a Astérix…”

Ela inclina a cabeça.

Viktoriya: “Francônia seria a Gália?”

Beto fica imóvel.

Tanya olha para Viktoriya.

Depois olha para mim.

Tanya: “Não responda.”

Beto: “Por quê?”

Tanya: “Porque eu conheço essa expressão no rosto dele.”

Viktoriya: “Qual?”

Tanya: “A expressão de quem acabou de descobrir que tem material para mais três capítulos.”

E pronto. Eu consegui transformar uma simples escolha de topônimo em mais uma bomba de metalinguagem.

Lutécia combina perfeitamente com a ideia de uma Francônia que é simultaneamente herdeira e caricatura da França histórica.

Agora eu não estou apenas escolhendo um cenário para uma cena yuri.

Eu estou escolhendo qual pedaço da história europeia vai cair em cima da quarta parede em seguida. Meu temor é que seja o meu corpo a cair em cima da quarta parede.

O timing da piada foi perdido. Afinal, colocar na cena referência da Gália e de Roma ilustra exatamente o argumento. Um governo (qualquer um!) resolve que um território lhe pertence e decide, no lugar de seus legítimos habitantes, que está levando a civilização (ou qualquer outra *justificativa* esfarrapada) para os bárbaros.

Anônimo: “Então Lutécia é uma referência a Astérix?”

Beto: “Não exatamente.”

Anônimo: “Mas você acabou de mencionar a Gália, Roma e Lutécia.”

Beto: “Sim.”

Anônimo: “Então é uma referência.”

Beto: “É uma referência histórica.”

Viktoriya: “Que os quadrinhos transformaram em sátira.”

Beto: “Exatamente.”

Tanya cruza os braços.

Tanya: “E qual é a sátira?”

Beto respira fundo.

Beto: “Um povo poderoso olha para outro território, decide que aquele lugar deveria pertencer a ele e conclui que seus habitantes são bárbaros que precisam receber os benefícios da civilização.”

Silêncio.

Viktoriya: “Roma.”

Beto: “Roma.”

Tanya: “Império.”

Beto: “Também.”

Viktoriya: “Federação?”

Beto olha para ela.

Beto: “Também.”

Tanya finalmente entende.

Tanya: “Então o problema não é Roma.”

Beto: “Não.”

Tanya: “Nem o Império.”

Beto: “Não.”

Tanya: “Nem a Federação.”

Beto: “Não.”

Viktoriya: “É a justificativa.”

Beto aponta para ela.

Beto: “Obrigado!”

Tanya: “Interessante. Portanto, independentemente de quem esteja usando o argumento, a estrutura permanece.”

Beto: “Sim.”

Tanya: “Nós não estamos conquistando vocês. Estamos trazendo civilização.”

Beto: “Exatamente.”

Viktoriya: “Nós não estamos ocupando seu território. Estamos protegendo vocês.”

Beto: “Exatamente.”

Tanya: “Nós não estamos decidindo o destino de vocês. Estamos garantindo que tenham um futuro.”

Beto fica em silêncio.

Beto: “...vocês duas perceberam que estão destruindo meu episódio?”

Viktoriya olha para os restos da quarta parede.

Viktoriya: “Não.”

Ela aponta para os escombros.

Viktoriya: “Você fez isso sozinho.”

Beto: “Meu temor é que, no ritmo em que essa história está indo, não seja a quarta parede que caia sobre mim.”

Tanya: “É o autor.”

Viktoriya: “Ou o que sobrou dele.”

Eu comecei com uma piada, aparentemente inocente, sobre Astérix e terminei mostrando que a expressão “levar a civilização aos bárbaros” é uma das mais antigas embalagens retóricas para justificar que alguém decidiu por outra pessoa o que é melhor para ela.

Aí Gregos e Troianos podem trocar de uniforme, bandeira e discurso à vontade.

A estrutura da piada continua a mesma.

E isso é muito mais interessante do que simplesmente fazer “capitalistas maus versus socialistas maus”. Eu estou satirizando o mecanismo de racionalização do poder, não apenas um lado político.
Tanya se vira para sair. Para na porta.

Tanya: “Ah. Uma última coisa.”

Beto: “Não.”

Tanya: “Você quebrou a quarta parede no minuto em que começou a decidir as coisas por nós.”

Eu fico imóvel.

Viktoriya leva a mão à boca para esconder o sorriso.

Beto: “Como assim?”

Tanya: “Você decidiu onde nós estaríamos.”

Beto: “Eu sou o autor.”

Tanya: “Decidiu o que nós faríamos.”

Beto: “É assim que funciona.”

Tanya: “Decidiu o que sentiríamos.”

Silêncio.

Eu olho para Viktoriya. Depois para Tanya.

Beto: “...”

Tanya: “E agora está tentando decidir se existe ou não uma tensão romântica entre nós.”

Beto: “Eu só queria escrever uma paródia.”

Tanya: “Naturalmente.”

Ela faz uma pequena reverência.

Tanya: “E eu só queria uma carreira militar tranquila.”

Viktoriya: “Eu só queria servir ao Império.”

Tanya: “E olha onde estamos.”

Beto aponta para os restos da quarta parede.

Beto: “Isso foi culpa de vocês.”

Tanya olha para os escombros. Depois para mim.

Tanya: “Não.”

Pausa.

Tanya: “Foi culpa sua.”

E sai.

Eu fico sozinho.

Viktoriya ainda está ali.

Beto: “Você não vai atrás dela?”

Viktoriya: “Não.”

Beto: “Por quê?”

Ela sorri.

Viktoriya: “Quero ver o que você vai fazer agora que percebeu que não controla mais os personagens.”

Beto: “...”

Viktoriya: “Boa sorte, escriba.”

E vai embora.

Eu olho para a câmera imaginária.

Beto: “Eu deveria ter escrito uma história sobre pinguins.”

Do fundo:

Tanya: “Você provavelmente transformaria os pinguins em uma alegoria política.”

Beto: “TANYA!”

E eu achando que a Viktoriya estava do meu lado. Um esboço na minha mão. Uma cena. Tanya e Viktoriya comendo biscoitos doces em plena Champs-Élysées. Uma cena yuri, sem escancarar nada, só sugerindo. Eu estou mais perdido do que os comissários do Partido.

Tanya e Viktoriya sentadas lado a lado, comendo biscoitos doces. Nenhuma declaração. Nenhum beijo. Nenhuma frase explícita.

Só um detalhe aqui.

Outro ali.

Um olhar que dura meio segundo a mais.

Viktoriya oferecendo um biscoito para Tanya em vez de simplesmente deixar o pacote entre as duas.

Tanya aceitando.

E talvez, só talvez, os dedos das duas se tocando.

Pronto.

Eu olho para a cena e penso:

“Não escrevi nada explícito. Tecnicamente, isso pode ser interpretado como amizade.”

Aí Viktoriya aparece atrás de você.

Viktoriya: “É uma cena bonita.”

Você se anima.

Beto: “Viu? Finalmente você está do meu lado!”

Ela olha novamente para o desenho.

Viktoriya: “Eu não disse isso.”

Beto: “Mas você gostou.”

Viktoriya: “Gostei.”

Beto: “Então estamos de acordo.”

Viktoriya: “Não necessariamente.”

Beto: “Viktoriya…”

Ela aponta para o desenho.

Viktoriya: “Você colocou Tanya olhando para mim.”

Beto: “É composição.”

Viktoriya: “E eu estou sorrindo.”

Beto: “É expressão facial.”

Viktoriya: “E você desenhou nossas mãos quase se tocando.”

Beto: “É perspectiva.”

Tanya pega o esboço.

Olha.

Olha novamente.

Tanya: “Interessante.”

Beto: “Não.”

Tanya: “Eu sequer sabia que estávamos em um encontro.”

Beto: “Não é um encontro!”

Viktoriya: “Então por que você colocou apenas nós duas?”

Beto: “Porque era uma cena!”

Tanya: “Em Paris.”

Beto: “Lutécia.”

Tanya: “Claro. Perdão.”

Viktoriya olha para Tanya.

Tanya olha para Viktoriya.

As duas olham para Beto.

Beto: “Não.”

Tanya: “Ele percebeu.”

Viktoriya: “Percebeu.”

Beto: “Eu ainda sou o autor!”

Tanya entrega o desenho para você.

Tanya: “Por enquanto.”

Viktoriya, a suposta cúmplice, provavelmente vai terminar o biscoito, limpar uma migalha do canto da boca e dizer:

Viktoriya: “Acho que essa decisão não é mais sua.”

Você: “Eu estou mais perdido do que os comissários do Partido.”

Tanya: “Pela primeira vez, concordamos em alguma coisa.”

Viktoriya mantém aquele olhar absolutamente inocente.

Viktoriya: “Resumindo.”

Eu já sinto o perigo.

Beto: “Não gosto quando você começa assim.”

Viktoriya: “Está querendo nos agenciar para fazer uma declaração política a respeito do que supostamente sentimos uma pela outra…”

Ela faz uma pequena pausa.

Viktoriya: “…ao mesmo tempo em que usa ironia e sarcasmo sobre terceiros agenciando no lugar de quem deveria decidir.”

Silêncio.

Eu olho para Tanya.

Tanya olha para mim.

Depois olha para Viktoriya.

Tanya: “Tecnicamente, a acusação é consistente.”

Beto: “Você não ajuda.”

Viktoriya continua sorrindo.

Viktoriya: “Eu apenas estou tentando compreender a proposta do autor.”

Beto: “Não existe proposta!”

Viktoriya: “Então a cena de nós duas comendo biscoitos em Lutécia…”

Ela pega o esboço.

Viktoriya: “…é o quê?”

Beto: “Uma cena.”

Tanya: “Uma cena yuri.”

Beto: “UMA CENA COM SUBTEXTO!”

Silêncio.

Tanya: “Ah.”

Viktoriya: “Então existe subtexto.”

Eu percebo o erro.

Beto: “Eu…”

Viktoriya inclina ligeiramente a cabeça.

Viktoriya: “E quem decidiu esse subtexto?”

Beto: “…”

Viktoriya: “Você?”

Beto: “…”

Viktoriya: “Sem consultar nenhuma de nós?”

Eu olho para o céu, como se estivesse procurando intervenção divina.

Beto: “Eu queria apenas escrever uma paródia.”

Tanya: “E acabou criando um sistema de governança autoritária sobre personagens.”

Beto: “Isso foi desnecessário.”

Viktoriya, ainda angelical: “Não foi. Foi apenas uma observação.”

Ela devolve o desenho.

Viktoriya: “Aliás, gostei dos biscoitos.”

Beto: “Obrigado.”

Viktoriya: “Mas não sei ainda se gosto da garota que você decidiu colocar ao meu lado.”

Tanya imediatamente olha para ela.

Viktoriya olha para Tanya.

Um segundo.

Dois.

Beto arregala os olhos.

Beto: “Não.”

Tanya: “Não o quê?”

Beto: “Não façam isso.”

Viktoriya: “Fazer o quê?”

Eu aponto desesperadamente para as duas.

Beto: “Esse olhar!”

Tanya: “Que olhar?”

Viktoriya: “Não sei.”

Beto: “EU SOU O AUTOR! EU SEI O QUE ESSE OLHAR SIGNIFICA!”

Tanya pega outro biscoito.

Tanya: “Esse parece ser exatamente o problema.”

Eu respiro fundo, ergo as mãos e praticamente imploro:

Beto: “Pelo amor de Perun ou Lugus, só decidam se eu coloco ou não se tem alguma coisa entre vocês que vai além da amizade e camaradagem!”
Pausa dramática.

Tanya olha para Viktoriya.

Viktoriya olha para Tanya.

Eu espero. Um segundo. Dois. Três.

Beto: “Bom?”

Silêncio.

Beto: “Alguma resposta?”

Viktoriya abre a boca.

Para.

Olha para Tanya novamente.

Tanya cruza os braços.

Tanya: “Essa decisão é nossa?”

Beto: “SIM!”

Tanya: “Sem interferência sua?”

Beto: “SIM!”

Viktoriya: “Sem você transformar a resposta em declaração política?”

Beto: “SIM!”

Tanya: “Sem usar nossa decisão para justificar alguma tese sobre capitalismo, socialismo, nacionalismo, imperialismo ou a comunidade LGBT?”

Beto: “SIM!”

Viktoriya sorri.

Viktoriya: “Então podemos decidir.”

Beto quase desaba de alívio.

Beto: “Finalmente.”

Tanya olha para Viktoriya.

Viktoriya olha para Tanya.

As duas permanecem em silêncio.

(hiato)

Beto: “Vocês estão fazendo isso de propósito.”

Tanya: “Estamos deliberando.”

Beto: “Há quanto tempo?”

Viktoriya: “Desde que você fez a pergunta.”

Beto: “E a resposta?”

Tanya: “Estamos considerando.”

Beto: “CONSIDERANDO O QUÊ?!”

Viktoriya, com a serenidade de um anjo: “Se queremos contar ao nosso autor.”

Beto: “em choque”

Tanya: “Há coisas que talvez sejam nossas.”

Beto: “Vocês não podem fazer isso comigo!”

Viktoriya: “Você pediu que decidíssemos.”

Eu olho para os céus.

Beto: “Perun, Lugus, qualquer divindade disponível: eu retiro a pergunta.”

Tanya:

“Pedido de retirada recusado.”

Beto: “Por quê?”

Tanya aponta para os destroços da quarta parede.

Tanya: “Porque agora você finalmente está entendendo.”

Beto: “Entendendo o quê?”

Viktoriya sorri.

Viktoriya: “Que personagens também podem guardar segredos do autor.”

Eu fico olhando para Tanya e Viktoriya.

Beto: “Espera.”

As duas olham para ele.

Beto: “Vocês só começaram a decidir depois que eu disse para vocês decidirem.”

Tanya: “Sim.”

Beto: “Então eu ainda estou decidindo por vocês.”

Viktoriya: “Sim.”

Eu pisco.

Beto: “Isso é um paradoxo.”

Tanya: “Não. É uma consequência lógica.”

Beto: “É uma contradição.”

Viktoriya: “Também.”

Beto passa a mão no rosto.

Beto: “Eu não consigo vencer vocês.”

Tanya: “Essa nunca foi a questão.”

Beto: “Então qual era?”

Tanya olha para os escombros da quarta parede.

Tanya: “Você queria saber se personagens têm autonomia.”

Beto: “E?”

Tanya: “Agora está tentando obter uma resposta delas.”

Viktoriya completa: “Porque você descobriu que não consegue escrever essa resposta sem assumir a responsabilidade por ela.”

Silêncio.

Beto olha para o manuscrito.

Depois para as duas.

Beto: “Então o episódio termina sem eu saber se existe alguma coisa entre vocês?”

Tanya: “Parece adequado.”

Beto: “Isso vai deixar o leitor maluco.”

Viktoriya: “Talvez.”

Beto: “E vocês estão confortáveis com isso?”

Viktoriya olha para Tanya.

Tanya olha para Viktoriya.

Um pequeno sorriso.

Viktoriya: “Estamos.”

Beto: “…”

Ele abaixa lentamente o manuscrito.

Beto: “Vocês fizeram isso de propósito.”

Tanya:

“Você é o autor. Decida.”

Beto olha para a câmera.

Beto: “Eu odeio essa profissão.”

Pausa.

Eu escrevo uma última linha.

Beto: “Continua.”

Tanya: “Não.”

Beto: “Como assim, não?”

Tanya: “Você não pode terminar com ‘continua’ só porque não sabe como terminar.”

Beto: “Mas eu sou o autor!”

Viktoriya, com aquele sorriso angelical: “Autor.”

Pausa. “Não autoritário.”

Beto fica em silêncio.

Tanya pega o último biscoito.

Tanya: “Agora sim.”

Tecnicamente (embora Tanya não goste quando eu uso esse termo), se eu assumir a responsabilidade pelo que eu escrevo...elas vão ficar confortáveis se eu decidir que as duas tem sim algo além de amizade e camaradagem?

Beto: “Eu escrevi vocês. Eu decido o que acontece com vocês. Mas não vou fingir que isso é uma decisão de vocês quando é minha.”

Beto: “Está bem. Eu assumo a responsabilidade. Existe alguma coisa entre vocês.”

Tanya fecha os olhos.

Tanya: “Você finalmente decidiu.”

Beto: “Sim.”

Tanya: “E não vai colocar a culpa em nós?”

Beto: “Não.”

Viktoriya sorri.

Viktoriya: “Então está tudo bem.”

Eu estranho.

Beto: “Está?”

Viktoriya: “Você é o autor.”

Pausa.

Viktoriya: “Só não escreva por nós aquilo que ainda não decidimos dizer.”

Criado com a ajuda do ChatGPT.

E aí Tanya, inevitavelmente:

“E pare de usar ‘tecnicamente’.”

Beto: “Mas tecnicamente—”

Tanya: “Beto.”

Beto: “Tá bom.”

Criado com a ajuda do ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.