sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

A crença dos antigos eslavos

Quando Vladímir, o Grande, que reinou a Rus Kievana de 980 a 1015, enviou guerreiros e sacerdotes ortodoxos para batizar Nôvgorod, o ídolo de madeira de Perun – um dos deuses mais importantes do paganismo eslavo – foi arrancado. Eles arrastaram o objeto pelas ruas, dando pauladas, antes de jogá-lo no rio Volkhov.

Os cristãos enviavam, assim, uma mensagem simbólica: “O Deus ortodoxo venceu”. Os adversários pagãos, fracos e indefensos, tinham que ir. As pessoas choravam ao ver o ídolo ser espancado. Perun, Svarog, Mokoch e outros deuses haviam sido parte integrante de consciência mística ao longo dos tempos.

Svarog, o pai de todos.

Todo panteão pagão tem seu demiurgo, o deus que criou o universo. Os eslavos antigos tinham Svarog, a divindade dos céus que acreditava-se reinar sobre o universo e dar à luz todos os deuses mais jovens.

De acordo com a “Nova Enciclopédia Larousse de Mitologia”, a raiz do nome Svarog (svar – brilhante, claro) está relacionada ao idioma sânscrito. Svarog era geralmente retratado como um velho de barba branca, sábio e forte. Por isso, para os camponeses eslavos, o céu poderia trazer tanto bênçãos quanto desastres.

Dajbog, o sol que aquece.

Os eslavos viviam em um clima bastante severo – razão pela adoravam Dajbog, a misericordiosa divindade do Sol considerada prole de Svarog.

Seu nome literalmente significava “o deus que dá”. Dajbog cruzava o céu em uma carruagem puxada por quatro cavalos brancos com asas de ouro e produzia luz solar com um “escudo de fogo”. Ele era responsável pela fertilidade da terra, e as pessoas se autointitulavam, orgulhosamente, “ netas de Dajbog”.

Perun, a guerra e o trovão.

Talvez o mais conhecido de todos os deuses eslavos hoje, Perun era algo como um Zeus grego e um Thor escandinavo: o deus da tempestade e da guerra usava um raio como arma. As pessoas temiam a ira de Perun, mas, ao mesmo tempo, o admiravam e pediam sua ajuda em tempos de conflito.

Representado como um homem extremamente forte com uma barba longa, também estava profundamente associado ao poder.

Veles, o deus do gado.

Ao contrário dos deuses mencionados, com suas ligações com o céu, Veles era basicamente mundano – controlava água, florestas, solo e submundo. Tinha um visual desgrenhado: sombrio, de barba longa e com aspecto selvagem.

Os eslavos veneravam Veles porque acreditavam que ele protegia o gado e cuidava de animais e plantas. Se Perun era um deus que apoiava a aristocracia, Veles estava associado a pessoas comuns, caçadores e camponeses. Perun e Veles frequentemente entravam em confronto, causando, assim, a mudança das estações.

Tchernobog, o ‘demônio’ eslavo.

As batalhas entre Perun e Veles eram comuns: esses deuses, embora diferentes, faziam parte da ordem eterna. Ao contrário deles, Tchernobog (literalmente, ‘o deus negro’) representava o mal absoluto na mitologia eslava.

Como governante de Nav (o mundo dos mortos eslavo), estava por trás de tudo de ruim, fraco e vil na natureza humana e era o causador de desastres naturais. Ele parecia mais a ideia de diabo nas religiões abraâmicas do que um deus pagão comum.

Talvez essa seja a razão pela qual Tchernobog apareça com alguma frequência em produtos comerciais contemporâneos, como, por exemplo, jogos de computador.

Mokoch, a grande deusa-mãe.

O brutal e patriarcal panteão eslavo não incluía muitas mulheres, mas Mokoch era um dos destaques femininos – e era muito influente. Ela controlava o solo e a colheita, enquanto, ao mesmo tempo, era capaz de conceder às pessoas amor, prosperidade e riqueza. Mas também punia os malfeitores. Mokoch era considerada protetora das mulheres e crianças - um papel importante em todas as culturas, incluindo a eslava.

Fonte: https://br.rbth.com/historia/79165-para-quem-rezavam-eslavos-antes-cristianismo

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Sviatki russo

O Sviatki é o período que vai da véspera do Natal Ortodoxo (em 7 de janeiro) até a Epifania (em 19 de janeiro). Tradicionalmente, russos de todo o país passavam essas duas semanas fazendo coisas malucas, esquecendo-se do trabalho e comemorando. Mas por quê?

Muitas culturas observam o solstício de inverno como o início de um novo ano astronômico. A partir deste ponto, os dias se tornam mais longos e as pessoas antigamente acreditavam que isto representaria o início do Ano Novo.

Assim, eles pensaram que todo o destino no ano seguinte estava sendo definido. É por isso que o Sviatki era tratado com tanta importância.

Os russos festejariam até demais durante esse período na esperança de que os próximos 12 meses fossem frutíferos. Para os camponeses russos que davam duro durante todo o ano, as celebrações eram uma pausa valiosa.

Noites assustadoras

O nome Sviatki vem da palavra sviatoi ("sagrado"), mas, ironicamente, esta era a época mais profana e pagã do ano. Os russos acreditavam que o período entre o nascimento e o batismo de Cristo era "um tempo sem a cruz".

"Deus, regozijou-se depois que seu filho nasceu, abriu todas as portas e deixou os demônios saírem para brincar", reza a lenda popular. O trabalho era proibido durante o Sviatki, especialmente para os jovens - eles ficavam ocupados agindo como crianças endiabradas e espíritos.

Para tantos, moços (e algumas moças corajosas) colocavam máscaras assustadoras e pediam guloseimas por toda a aldeia. Os "diabinhos" usavam trapos velhos, barbas falsas, chapéus de couro pontudos, cantavam e gritavam alto, e tocavam instrumentos simples, assustando os aldeões.

Mas era preciso recebê-los e oferecer guloseimas ou o ano seria de azar, algo parecido com o Halloween. Na Rússia, porém, mesmo que recebessem guloseimas, os diabinhos faziam truques mesmo assim, geralmente tarde da noite, depois que as pessoas iam dormir.

Fingindo de morto

Durante o Sviatki, acreditava-se que os mortos visitariam as pessoas. Na véspera de grandes festas, como Natal, Ano Novo e Epifania, os aldeões não tiravam nenhuma comida da mesa para que os antepassados ​​também tivessem algo para comer.

Além disso, encenar funerais também eram muito popular na maioria das aldeias. Era assim, segundo os relatos: “um menino vestido com uma mortalha e com dentes falsos feitos de nabo e farinha no rosto (isto o fazia parecer morto) era amarrado a um banco.

Um padre falso com um incensório de barro cheio de uma mistura fumegante de musgo e esterco fazia um falso funeral com ‘orações’ (só palavrões). Para a ‘cerimônia de vigília’, todo mundo pegava uma fatia de esterco seco”.

O ritual maluco simbolizava o enterro do ano anterior.

Brincadeiras desavergonhadas

O problema era que muito poucas pessoas estavam dispostas a realizar uma cerimônia tão bizarra e nojenta em casa, então os jovens procuravam alguma velha “izb´” (casa de madeira tradicional russa).

Eles normalmente faziam todo tipo de brincadeira possível nessas casas, onde podiam correr soltos. Em um jogo do Sviatki, as moças agiam como éguas, e os moços as examinavam e escolhiam uma.

Então, eles beijavam sua égua e as colocavam de joelhos. Em outro jogo, um moço fingia ser um touro, usando um pote de barro com chifres de verdade e dava chifradas abaixo da cintura das moças, até que outro moço “matasse” o touro quebrando o pote.

Além disso, jogos como “casamento” ou “o ‘barin’ [nobre] escolhe a noiva” tinham um tom errático e incluíam agarrar e apalpar as moças – comportamento que só era permitido durante Sviatki, muitas vezes sob o olhar atento dos adultos para garantir que as coisas não extrapolassem os limites.

Às vezes os garotos da aldeia vizinha tentavam jogar conversa nas moças locais, mas se eles não trouxessem vodca suficiente para compartilhar, ocorriam lutas.

Prevendo o futuro

As meninas tinham seu próprio passatempo: a previsão do futuro. Condenada pela Igreja, esta também só era permitida durante Sviatki. O objetivo de toda previsão era adivinhar quem seria o noivo delas.

A previsão do futuro era praticada em cruzamentos, casas de banho, perto de rios - em quaisquer lugares onde os espíritos aparentemente permaneciam.

À noite, as meninas chegavam a uma casa de banho e, se fossem tocadas por uma pata cabeluda, o futuro marido seria rico, mas, se fossem acariciados por pele nua, o marido seria pobre.

Imagine o tanto de aloprações que os moços faziam se escondendo dentro de uma casa de banhos nesta época!

À meia-noite, as moças se aventuravam na encruzilhada e escutavam: se ouviam uma canção ou risadas, a vida familiar seria feliz; se não ouvissem nada, então deviam aguardar uma vida de tristezas.

As moças também podiam ir ao rio e olhar para um buraco de gelo sob o luar: havia uma chance de o demônio se mostrar disfarçado com a cara do futuro noivo.

Era importante levar um crucifixo ou faca para afastar os maus espíritos. Às vezes, as moças chegavam a levar um galo consigo e, se ficassem com medo, beliscavam-no, forçando um grito estridente que afastava o demônio.

Roubar não é crime

Os jovens frequentemente faziam brincadeiras com seus vizinhos quando iam para casa depois desses encontros, que geralmente terminavam depois da meia-noite.

Os “endiabrados” se escondiam em “izbás” para virar barris com massa ou água, jogar fuligem nos transeuntes; acordar as pessoas batendo em suas portas; jogar estrume nas cabeças das pessoas enquanto elas olhavam pela janela para ver o que estava acontecendo; roubar coisas etc. A lista é longuíssima e continua, tantas eram as brincadeiras maravilhosas para se fazer em uma aldeia que dormia no inverno.

Às vezes, as brincadeiras poderiam ser bem caras: as chaminés acabavam entupidas de lixo e trenós tinham que ser rebocados das florestas onde tinham sido escondidos. Mas os adultos geralmente entendiam, afinal, eles já tinham sido jovens!

Fonte: https://br.rbth.com/cultura/81696-sviatki-russo-profano

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

O mistério de Kuntillet Ajrud

 

A descoberta é da década de 70 do século XX, mas o debate sobre o seu significado continua.

Mais de quatro décadas após o término da escavação, uma pequena colina no deserto do Sinai continua atormentando os arqueólogos. As extraordinárias descobertas feitas em Kuntillet Ajrud, uma encosta anódina no norte do Sinai, parecem minar um dos fundamentos do Judaísmo como o conhecemos.

Então, parece, “o Senhor nosso Deus” não era “um Deus”. Ele pode até ter tido uma esposa, seguindo o "retrato" completamente único da divindade judaica que os arqueólogos encontraram no local, que pode muito bem ser a única representação existente de YHWH.

 

Kuntillet Ajrud recebeu esse nome, que significa “a colina isolada das fontes de água”, proveniente de poços no sopé da colina. É um local remoto no coração do deserto, longe de qualquer cidade ou rota de comércio. Mas, por um curto período, cerca de 3.000 anos atrás, serviu como uma pequena estação intermediária.

 

Dezenas de desenhos e inscrições, nada parecido com o que foi encontrado em qualquer outro lugar em nossa região, sobreviveram daquele período, que parece não ter durado mais do que duas ou três décadas. O Egito ganhou os artefatos com o tratado de paz com Israel há 25 anos, mas o lançamento do relatório sobre a escavação há seis anos e um livro sobre o local há dois anos mantiveram viva a discussão sobre as descobertas excepcionais da colina no Sinai.

 

Fonte: https://airtonjo.com/blog1/2018/04/iahweh-e-ashera-em-kuntillet-ajrud.html

 

Yahwism era a religião dos antigos reinos de Judá e Israel (Samaria). Yahweh era um dos muitos deuses e deusas do panteão de deuses da Terra de Canaã, a porção sul da qual viria mais tarde a ser chamada de Terra de Israel. O Yahwismo, portanto, evoluiu do politeísmo cananeu, que por sua vez torna o Yahwismo o estágio predecessor monolatrístico e primitivo do Judaísmo em sua evolução para uma religião monoteísta.

O Yahwismo se distingue do Judaísmo por permitir a adoração de outros deuses ao lado de Yahweh. Como tal, o Yahwismo compartilha algumas práticas com o Judaísmo, mas não outras.

Apesar de o Judaísmo e o Yahwismo modernos serem ambos veneração de Yahweh, existem distinções claras entre os dois sistemas de crenças. Ao contrário das religiões que descendiam dele, o Yahwismo era caracterizado pelo henoteísmo/monolatrismo, que reconhecia Yahweh como o deus nacional de Israel, mas, no entanto, dava reconhecimento à existência, embora não necessariamente a adoração, de outros deuses do antigo semítico religião, ou mais especificamente dos outros deuses do panteão cananeu de onde surgiu o Yahwismo, como Baal, Asherah e Astarte.

A divindade mais comumente adorada ao lado de Yahweh era Asherah, venerada como consorte de Yahweh ou mãe. No panteão cananeu, Asherah era a consorte de El. Embora outros deuses, como Baal, fossem comumente adorados ao lado de Yahweh, essa prática nem sempre era consistente, pois Baal, por exemplo, viu verdadeira proeminência apenas na época de Elias e nunca mais depois disso. Várias passagens bíblicas indicam que as estátuas de Asherah eram mantidas em seus templos em Jerusalém, Betel e Samaria. Uma deusa chamada de "Rainha do Céu", provavelmente uma fusão de Astarte e a deusa da Mesopotâmia Ishtar, possivelmente um título de Asherah, também foi adorado. A adoração de Baal e Yahweh coexistiu no período inicial da história de Israel, mas eles foram considerados irreconciliáveis ​​após o século 9 AEC, após os esforços do Rei Acabe e sua rainha Jezabel para elevar Baal ao status de deus nacional, embora o culto a Baal tenha continuado por algum tempo. Fora de Israel, Yahweh também se apropriou da deusa egípcia Anat como consorte, conforme registros do século 5 AEC da colônia judaica em Elefantina, no Egito, que uma deusa "Anat-Yahu" era adorada no templo do assentamento a Yahweh.

A transição exata entre o que agora é considerado Yahwismo monolatrístico e Judaísmo monoteísta é um tanto obscura, no entanto, é evidente que o evento começou com alterações religiosas radicais, como os testamentos de Elias e as reformas de Ezequias e Josias e foram cumpridas no final de o cativeiro da Babilônia, onde o reconhecimento de Yahweh como o único deus do universo havia finalmente garantido a maioria do povo judeu.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Yahwism

Traduzido com Google Tradutor.

O Judaísmo tem três elementos essenciais relacionados: estudo da Torá escrita (os livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio); o reconhecimento de Israel (definido como os descendentes de Abraão por meio de seu neto Jacó) como um povo eleito por Deus como destinatário da lei no Monte Sinai, seu povo escolhido; e a exigência de que Israel viva de acordo com as leis de Deus dadas na Torá. Estes têm suas origens no Reino da Idade do Ferro de Judá e no Judaísmo do Segundo Templo.

Os reinos da Idade do Ferro de Israel (ou Samaria) e Judá apareceram pela primeira vez no século 9 AEC. Os dois reinos compartilhavam Yahweh como seu deus nacional, razão pela qual sua religião é comumente chamada de Yahwismo.

Outros reinos cananeus vizinhos da época tinham seus próprios deuses nacionais: Chemosh era o deus de Moabe, Moloch o deus dos amonitas, Qaus o deus dos edomitas e assim por diante, e em cada reino o rei era o vice - rei de seu deus em Terra. Os vários deuses nacionais eram mais ou menos iguais, refletindo o fato de que os próprios reinos eram mais ou menos iguais, e dentro de cada reino um casal divino, composto pelo deus nacional e sua consorte - Yahweh e a deusa Asherah em Israel e Judá - encabeçava um panteão de deuses menores.

No final do século 8, Judá e Israel se tornaram vassalos da Assíria, vinculados a tratados de lealdade de um lado e proteção do outro. Israel se rebelou e foi destruído c. 722 AEC, e refugiados do antigo reino fugiram para Judá, trazendo com eles a tradição de que Yahweh, já conhecido em Judá, não era apenas o mais importante dos deuses, mas o único deus que deveria ser servido. Essa perspectiva foi adotada pela elite de proprietários de terras judias, que se tornou extremamente poderosa nos círculos da corte no século seguinte, quando colocou Josias, de oito anos de idade. (reinou de 641-609 AEC) no trono. Durante o reinado de Josias, o poder assírio repentinamente entrou em colapso e um movimento pró-independência assumiu o poder, promovendo a independência de Judá dos senhores estrangeiros e a lealdade a Javé como único deus de Israel. Com o apoio de Josias, o movimento "Só Yahweh" lançou uma reforma completa da adoração, incluindo um pacto (isto é, tratado) entre Judá e Yahweh, substituindo aquele entre Judá e Assíria.

Na época em que isso ocorreu, Yahweh já havia absorvido ou substituído as características positivas dos outros deuses e deusas do panteão, um processo de apropriação que foi uma etapa essencial para o subsequente surgimento de uma das características mais notáveis ​​do judaísmo, seu monoteísmo intransigente. O povo do antigo Israel e Judá, no entanto, não eram seguidores do judaísmo: eles eram praticantes de uma cultura politeísta que adorava vários deuses, preocupados com a fertilidade e santuários e lendas locais, e não com uma Torá escrita, leis elaboradas que governavam o ritual pureza, ou uma aliança exclusiva e um deus nacional.

Em 586 AEC, Jerusalém foi destruída pelos babilônios, e a elite judia - a família real, os sacerdotes, os escribas e outros membros da elite - foram levados para a Babilônia em cativeiro. Eles representavam apenas uma minoria da população, e Judá, depois de se recuperar do impacto imediato da guerra, continuou a ter uma vida não muito diferente da anterior. Em 539 AEC, Babilônia caiu nas mãos dos persas; o exílio babilônico terminou e vários exilados, mas de forma alguma todos e provavelmente uma minoria, retornaram a Jerusalém. Eles eram os descendentes dos exilados originais e nunca haviam vivido em Judá; no entanto, na visão dos autores da literatura bíblica, eles, e não aqueles que permaneceram na terra, eram "Israel". Judá, agora chamado Yehud, era uma província persa, e os retornados, com suas conexões persas na Babilônia, estavam no controle dela. Eles também representavam os descendentes do antigo movimento "só Yahweh", mas a religião que instituíram era significativamente diferente do Yahwismo monárquico e do Judaísmo moderno. Essas diferenças incluem novos conceitos de sacerdócio, um novo enfoque na lei escrita e, portanto, nas escrituras, e uma preocupação em preservar a pureza ao proibir o casamento misto fora da comunidade deste novo "Israel".

O partido de Yahweh voltou a Jerusalém após a conquista persa da Babilônia e se tornou a elite governante de Yehud. Grande parte da Bíblia Hebraica foi montada, revisada e editada por eles no século 5 AEC, incluindo a Torá (os livros de Gênesis , Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), as obras históricas e muito da literatura profética e sapiencial . A Bíblia narra a descoberta de um livro jurídico no Templo no sétimo século AEC, que a maioria dos estudiosos vê como uma forma de Deuteronômio e considera fundamental para o desenvolvimento da escritura. A crescente coleção de escrituras foi traduzida para o grego no período helenístico pelos judeus da diáspora egípcia, enquanto os judeus babilônios produziram os contos da corte do Livro de Daniel (capítulos 1–6 de Daniel - capítulos 7–12 foram um acréscimo posterior), e os livros de Tobit e Esther.

O Judaísmo do Segundo Templo foi dividido em facções teológicas, notadamente os fariseus e os saduceus , além de várias seitas menores, como os essênios , movimentos messiânicos como o cristianismo primitivo e tradições estreitamente relacionadas, como o samaritanismo (que nos dá o Pentateuco samaritano , uma testemunha importante do texto da Torá independente do Texto Massorético).

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Origins_of_Judaism

Traduzido com Google Tradutor.

A hipótese quenita (também chamada de hipótese midianita) propõe que as origens de Yahweh, e por extensão Yahwismo, não se encontram em Canaã como a Bíblia Hebraica descreve, mas em vez disso se originaram na área imediatamente ao sul do Levante , possivelmente estendendo-se até o noroeste da Península Arábica, na costa leste do Golfo de Aqaba no Mar Vermelho, na área que o Tanakh chama de “Midian”. A teoria afirma que Yahweh originalmente era uma divindade midianita, que por meio do comércio fez seu caminho para o norte até os protoIsraelitas. Outra teoria é que uma confederação de tribos regionais estava conectada ao ritual monoteísta no Sinai.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Kenite_hypothesis

Traduzido com Google Tradutor.

domingo, 24 de janeiro de 2021

A magia existe

Meu primeiro encontro com o que depois soube chamar-se magia ocorreu quando eu tinha sete ou oito anos e não era mais que um moleque arteiro a espalhar o terror no quintal da minha casa. Como castigo por tanta traquinagem – jurava a empregada Terezinha – nasceram-me nos dedos das mãos uma porção de verrugas. Minha mãe levou-me a uma velha benzedeira que morava na periferia.

Lembro-me bem da cena: minhas duas mãos espalmadas sobre a mesa; junto delas um copo d’água coberto por um pires, uma vela acesa, uma rosa branca num pequeno vaso de vidro, um ramo de arruda que exalava cheiro forte. A benzedeira rezava a meia-voz e de vez em quando colocava as suas mãos sobre as minhas. No final, informou: “O menino estava com quebranto, mas já tirei.” E concluiu com ar de vitória definitiva: “As verrugas vão cair.”

Dois dias depois, como se fosse a coisa mais natural do mundo, minhas verrugas começaram a murchar. Foram secando, até se transformarem em pequenos apêndices escuros e descarnados. E aí, um a um, todos eles se desprenderam e caíram.

O caso fez furor entre vizinhos e parentes. Mas, ao saber da história, uma tia solteirona metida a filósofa, e que definia a si própria “racionalista cartesiana”, não conteve um comentário arrasador: “Isso é pura autossugestão. Convenceram o menino de que as verrugas iam cair e, com o poder da sua mente inconsciente, ele fez elas caírem.”

Bravo, titia! Se você hoje fosse viva, certamente seria professora de sucesso num curso de controle mental. Se o seu remate era certo não sei, mas naquele instante você me fez um duplo favor: aguçou minha curiosidade de conhecer o real segredo do desaparecimento das verrugas; despertou em minha cabecinha inquieta a ideia de que a mente, consciente ou inconsciente, esconde mais mistérios e poderes do que até então supunha.

Aquilo que os religiosos chamam “Deus”, os cientistas, “leis”, os filósofos, “preceitos”, os magos chamam “conhecimento”

Pouco depois, a vida me apresentou mais uma ocasião para incrementar meus conhecimentos em matéria de eliminação mágica de verrugas. Meu cachorro, um vira-lata preto chamado Não! (com ponto de exclamação), desenvolveu sobre o nariz uma verruga tão grande quanto uma azeitona. O nome dele devia-se ao fato de que, desde pequenino, o não era a palavra que mais ouvia. Quando praticava seus divertimentos favoritos – roer pés de mesas e cadeiras, puxar roupas do varal, arrancar as penas dos rabos das galinhas –, havia sempre alguém ralhando com ele e gritando: “Não, não, não!” Acabou se acostumando e, toda vez que ouvia um “não!” peremptório, passava a atender, de rabo abanando.

Decidi testar minhas capacidades de benzedeiro sobre a verruga do Não!. Preparei o mesmo ritual, com vela acesa, flor branca, copo d’água e arruda, coloquei minha mão sobre o seu nariz e rezei todas as rezas que sabia de cor: um painosso, uma ave-maria e uma salve-rainha quase completa. Que poder, o da memória infantil: até hoje, tantas décadas passadas, quando lembro da minha iniciação precoce como benzedeiro, sinto a grande verruga do Não! latejando sob a ponta dos meus dedos. Sim, o benzimento deu certo. Para minha sorte – ou danação –, a verruga logo depois começou a secar. Virou uma espécie de horrenda uva-passa pendurada no nariz do cachorro e depois caiu, para nunca mais voltar. Como nunca mais voltou a minha inocência, definitivamente perdida naquela aventura da descoberta dos meus “poderes ocultos”.

Então é verdade: existem métodos estranhos de resolver problemas. Métodos que a gente não consegue entender nem aclarar, mas que funcionam. Existem coisas misteriosas que nem sempre podem ser explicadas pela autossugestão, como queria minha tia. Pois até ela, “racionalista cartesiana” convicta, teria dificuldade em admitir que a autossugestão faz parte dos atributos dos cachorros. Então, a magia existe, de verdade.

MAGIA DO CINEMA

Ao criar uma realidade virtual, na qual tudo pode acontecer, o cinema tornou-se uma arte mágica por excelência. A série Harry Potter, da qual vemos uma cena na foto ao lado, tem a magia como tema central e já seduziu milhões de espectadores em todo o mundo.

A um imenso conjunto de fenômenos e práticas que o ser humano pode produzir, mas que não podem ser explicados pela autossugestão nem por qualquer lei da ciência e da psicologia oficiais, dá-se o nome genérico de magia. Palavra que vem do substantivo magi, nome que os antigos gregos davam aos sacerdotes persas do culto de Zoroastro. Cabe aí uma primeira definição, a do historiador francês Louis Chochod, para quem “magia é uma arte especial, baseada na existência de forças naturais, pouco ou mal conhecidas, e ordinariamente fora do alcance do poder do homem. Conhecer essas forças, canalizá-las, orientá-las e, até certo ponto, utilizálas, esse é o objetivo da magia”.

A definição de Chochod tem espectro muito amplo. Mas, se existe um assunto que em matéria de definições é terra de ninguém, esse assunto é a magia. Há definições para todos os gostos. Algumas francamente preconceituosas e cheias de superstição: “Magia é a arte de conjurar demônios e espíritos para obrigá-los a servir aos interesses do mago.” Outras são pueris e inocentes, como a do ocultista francês Georges Muchery: “Magia é a arte de tornar-se feliz.” Há definições complicadas como a do respeitado alquimista contemporâneo Eugene Canseliet: “Magia é, antes de tudo, a arte divina que consiste em travar contato com a alma universal e, através dela, dominar as forças espirituais invisíveis no espaço e na substância.” E ainda a do ocultista francês Eliphas Levi, pai da magia moderna, para quem “magia é a ciência tradicional que nos vem dos magos… Por meio dessa ciência, o adepto se vê investido de uma espécie de poder superior relativo e pode agir de modo sobre-humano, isto é, de uma maneira que não está ao alcance do comum dos homens”.

Para os magos, aqueles que praticam a magia, “viver é conhecer”. Desde que o homem existe como tal, ele tenta desvendar os segredos da natureza, levantar o véu de mistério que encobre as origens e as finalidades do mundo, da vida e da existência humana. Através das eras, para conquistar conhecimento, o homem pensante criou diversos métodos de trabalho e desenvolveu diferentes posturas para manipular o desconhecido e dele extrair respostas. Aquilo que os religiosos chamam “Deus”, os cientistas chamam “leis”, os filósofos, “preceitos”, os sábios, “a natureza”, os magos chamam “conhecimento”. Mas, para todos eles, o princípio é sempre o mesmo: estudar o microcosmo (homem) para desvelar os segredos do macrocosmo (universo).

MAGIA DO TEATRO

Antes do cinema, as várias formas de teatro exploraram as mil e uma possibilidades criativas do universo mágico. Na foto acima, cena da ópera A Flauta Mágica, de Mozart.

A prática da magia é, sem dúvida, tão antiga quanto o próprio homem. Nos tempos das cavernas, quando animais eram pintados nas paredes de pedra, o que se pretendia era estabelecer uma relação mágica com o “espírito” daqueles animais para que, no momento da caça, ele fosse favorável aos caçadores. Desde então, essencialmente, poucas coisas mudaram no domínio da magia. Suas técnicas são muito parecidas nas diferentes culturas que apareceram no mundo, e sofreram relativamente poucas mudanças no transcorrer do tempo.

Sugere-se muitas vezes que a magia é precursora da religião, mas estudos mais profundos mostram ser mais provável que ambas tenham sempre existido, uma ao lado da outra. Magia e religião possuem em comum a crença num poder transcendental que existe no homem e no mundo. A grande diferença entre ambas reside nas suas atitudes em relação a esse poder. A magia preocupa-se em comandar, controlar e compelir esse poder para a satisfação dos seus próprios objetivos; a religião, por seu lado, preocupa-se em adorar esse poder, suplicando a sua ajuda e aceitando resignadamente aquilo que ele dá. A primeira é ativa, “masculina”. A segunda é passiva, “feminina”.

MAGIA DA NATUREZA

Nada mais mágico do que o mundo natural. Maior e mais poderosa de todas as forças criadoras, a natureza não conhece limites ao soltar a sua imaginação. A tal ponto que costuma-se dizer: a criação natural supera qualquer imaginação.

O mago, portanto, é um aventureiro que mergulha no mistério da vida e do mundo e não se contenta apenas em observar passivamente esse mistério. Quer também compreendê-lo, conhecer suas leis, processos e finalidades, quer interferir voluntariamente nele e, numa certa medida, aprender a manipulá-lo. O mago é entendido como um ser de sensibilidade especial. Vê o universo como uma coisa viva, cuja aparência visível mascara a natureza real dos poderes que o controlam. E vê a si mesmo como participante da natureza da divindade, e por isso gosta de afirmar: “Não existe parte de mim que não seja parte dos deuses.” O mago considera que todos nós, membros da espécie humana, somos “deuses em potencial.” A magia é a ciência-arte que nos ajuda a abrir e desenvolver esse potencial.

Sonhos e visões, símbolos e alegorias, imaginação e fantasia, as viagens vertiginosas dos gênios da música, da pintura, da poesia dizem mais ao mago sobre as realidades últimas da existência do que todas as equações da matemática, as maquinações da política, ou as espertezas do mercado financeiro.

O mago é um ser complexo, uma criatura em geral ousada e até mesmo temerária. Nos tempos em que a Santa Inquisição esbanjava poder, muitas centenas deles foram assados vivos nas fogueiras, condenados por suas heresias. O veneziano Giordano Bruno é um exemplo. Foi queimado porque teimou em afirmar até o fim que era a Terra a girar ao redor do Sol, e não o contrário. Naqueles tempos isso contrariava as “leis” da ciência conhecida, e era portanto “heresia de mago”, punida com a morte.

É mais fácil, contudo, entender o que é um mago do que é magia. “Magia” é hoje uma palavra problemática, pois mais de um sentido é-lhe atribuído. Existe a magia do prestidigitador que tira coelhos da cartola ou dos truques de alta tecnologia de David Copperfield. Existe a magia como é entendida pelos antropólogos – superstições ingênuas, ritos primitivos de fertilidade ou heranças curiosas do folclore. E existe, finalmente, a verdadeira magia, aquela que nos interessa: um sofisticado sistema de conhecimento cujas origens não serão encontradas na lenda ou no folclore, mas sim na antiga tradição chamada “hermética”, de Hermes, o deus grego da inteligência e da sabedoria. As origens arcaicas dessa tradição perdem-se na noite dos tempos, mas sabe-se que ela se desenvolveu no antigo Egito, passando depois por Grécia e por Roma, e por toda a Idade Média e o Renascimento europeu. Após um período de relativa obscuridade – devido certamente ao implacável combate que lhe foi desfechado pela Inquisição –, a magia ressurgiu em sua forma moderna no contexto da grande renascença ocultista que foi uma das características da segunda metade do século 19.

Ressurgir das próprias cinzas nos momentos mais impensáveis, como a fênix mitológica, é uma das características da magia. Basta ver o que acontece nos dias de hoje. Nas últimas três décadas – época das mais extraordinárias conquistas da ciência tecnológica moderna, quando o homem foi à Lua, os bisturis de raio laser invadiram os hospitais e os computadores, os lares e escritórios – observou-se um desconcertante reflorescimento da magia e de disciplinas correlatas, como a astrologia e o ocultismo. Um reflorescimento, portanto, de modos de conceber o mundo diametralmente opostos aos da ciência racionalista.

Cada vez que a magia ressurge na história, ela o faz com novas roupagens. O corpo essencial de seus conhecimentos é sempre o mesmo, mas a linguagem por ela utilizada para operar e se comunicar pode mudar completamente de acordo com o tempo histórico e o lugar da sua manifestação.

A linguagem da magia antiga era complicadíssima e inacessível aos não iniciados. Envolvia códigos e símbolos da alquimia, da cabala, da astrologia e de outras ciências herméticas. A magia contemporânea passou por uma verdadeira revolução em sua linguagem formal, que é agora bem mais simples. Esse novo enfoque começou a ser difundido em meados do século passado através da obra de vários autores. Um dos expoentes máximos dessa geração de magos modernos foi o francês Eliphas Levi (pseudônimo de Alphonse- Louis Constant), um ex-seminarista católico.

Em seu livro Dogma e Ritual da Alta Magia, publicado em 1856 e disponível em português, Levi apresenta uma teoria sobre o modo pelo qual atua a magia. É esta sua concepção que, um pouco modificada, domina o pensamento dos magos contemporâneos.

As ideias de Eliphas Levi constituem uma obra-prima de intuição psicológica e científica. Elas antecipam muito do arcabouço básico de várias psicologias contemporâneas, pois explicam a ação mágica como um fenômeno baseado principalmente nas capacidades naturais – embora ainda pouco conhecidas – da mente e da psique humanas. É a partir da escola de Levi que se passou a afirmar: “O fenômeno mágico começa na cabeça do mago.”

O mago, como todo ser criador, é uma pessoa complexa, uma criatura em geral ousada e até mesmo temerária

Levi afirma que na magia existem três leis fundamentais. A primeira é a lei da vontade humana, que, do seu ponto de vista, não era simplesmente uma ideia abstrata, e sim uma força material “tão real”, para usar as suas próprias palavras, “quanto o vapor de água ou a corrente galvânica”. Essa ideia, na verdade, não era exclusiva de Levi. Vários intelectuais da época a desposaram, entre eles Edgar Allan Poe, que no seu conto “O Caso do Senhor Valdemar” faz o personagem Glanvill dizer: “É lá que repousa a vontade que não morre jamais. Quem conhece os mistérios da vontade e todo o seu vigor? O próprio Deus é uma imensa Vontade que reina sobre todas as coisas.”

MAGIA DA ROUPA

Dentre as várias atividades humanas, uma das mais mágicas é a criação das roupas. Um estilista de talento pode ser capaz de criar um universo inteiro a partir das indumentárias que inventa.

A originalidade de Levi estava na aplicação dessa ideia à magia ritual. Para ele, como para a maioria dos magos modernos, toda a parafernália dos acessórios do cerimonial mágico, tais como incensos, velas, uso de figuras geométricas e de paramentos, é apenas suporte auxiliare, ponto de apoio e de referência destinado a ajudar o mago a concentrar a sua vontade.

A segunda lei de Levi é a lei da luz astral, o “éter” dos antigos gregos e da física pré-einsteiniana, o “prana” dos hindus: um fluido imponderável que preenche todos os espaços do universo e graças ao qual o mago pode agir a distância. A luz astral, dizia Levi, é invisível e destituída de forma, porém permeia a totalidade da natureza e pode ser moldada pela vontade humana, produzindo formas visíveis. Isso explicaria, segundo ele, a maior parte dos fenômenos chamados paranormais ou mediúnicos que a ciência oficial constata mas não explica, como aqueles de materialização de espíritos, materialização de objetos, produção paranormal de sons, odores, etc. Para Levi, os médiuns de efeitos físicos, indivíduos capazes de produzir tais fenômenos, seriam uma espécie de “magos naturais”, dotados de uma capacidade inata de moldar a luz astral e provocam desse modo fenômenos capazes de impressionar os sentidos dos espectadores.

Na visão da magia, cada ser humano é um microcosmo – um pequeno universo que reflete o macrocosmo, o grande universo

A terceira lei de Levi é a lei das correspondências, ou das analogias. Trata-se na verdade de uma versão atualizada da antiga doutrina hermética do macrocosmo e do microcosmo, segundo a qual todo elemento do primeiro – o universo – teria o seu correspondente no segundo – o ser humano considerado individualmente. Por exemplo, as constelações do zodíaco que influenciam certas zonas do corpo humano. Assim, a constelação de Capricórnio corresponde aos joelhos; a de Gêmeos, aos braços e pulmões; a de Escorpião, aos órgãos genitais. Para Levi, tais correspondências existiam realmente, mas sob uma forma menos grosseiramente física. Era menos o corpo físico e muito mais a alma humana que ele considerava como um “espelho mágico do universo”, para empregar uma expressão que os magos amam. Levi dizia que todo elemento presente no universo também poderia ser encontrado na alma humana: assim, a força cósmica que os romanos personificavam na deusa Vênus correspondia à sexualidade física, e aquela representada pelo deus Mercúrio, à inteligência humana. Os modernos magos ritualistas acreditam que o conhecimento dessa lei das correspondências lhes permite “fazer descer” (invocar) neles todas as forças cósmicas das quais querem obter alguma coisa, ou, ao contrário, “fazer subir” (evocar) essas mesmas forças latentes em sua alma e as projetar no mundo exterior.

MAGIA DA PLATEIA

Quando as grandes aglomerações populares concentram sua atenção num mesmo objeto, geram um poderoso fenômeno mágico: a criação coletiva de uma nova realidade.

Levi, contudo, pouco revelou em seus livros da existência de uma quarta lei fundamental para que qualquer ação mágica tenha bom êxito: a lei da imaginação. Falou da importância desse segredo fundamental apenas a alguns de seus discípulos mais queridos, e foram eles que, mais tarde, o ensinaram publicamente. O poder da imaginação é o verdadeiro “pulo do gato” da magia.

A força da vontade é praticamente ineficaz se não for dirigida por uma imaginação poderosa – e vice-versa. “Para se praticar a magia”, escreveu Edward Berridge, discípulo inglês de Levi, “é necessário colocar em ação a imaginação e a vontade: elas agem em partes iguais. Ou, melhor dizendo, a imaginação deve preceder a vontade para se obter o melhor resultado possível”.

Sozinha, a vontade pode, segundo essa teoria, emitir uma corrente de energia que se propaga através da luz astral, mas seu efeito será vago, impreciso e até mesmo inoperante, pois, sem a criação imaginária de um objetivo bem definido a ser alcançado a energia da vontade corre o risco de perder-se no vazio. Por seu lado, sozinha, a imaginação pode até criar uma imagem, e essa imagem terá uma duração variável; mas ela não poderá produzir nada de importante se não for vitalizada e dirigida pela vontade. “Quando as duas se conjugam, isto é, quando a imaginação cria uma imagem e quando a vontade dirige e utiliza essa imagem, é possível a obtenção de maravilhosos efeitos mágicos”, completa Berridge. Ele parece um moderno psicólogo junguiano falando da técnica da imaginação ativa!

Recapitulando: na visão da magia, cada ser humano é um microcosmo – um pequeno universo que reflete, em miniatura, o macrocosmo, o grande universo do qual fazemos parte. Cada fenômeno do universo tem seu reflexo correspondente nas partes que compõem a pessoa humana – corpo físico, psique, mente pensante. Com práticas mágicas, o mago pode transformar o mundo exterior por meio de intervenções no pequeno mundo interior. A ligação entre as duas esferas – a interior e a exterior – é feita pela luz astral, um fluido universal invisível. A manipulação da luz astral através da vontade e da imaginação humanas permite ao mago influenciar tanto o universo físico (mover objetos a distância, promover curas como no caso dos benzedores de verrugas, etc.) como também influenciar as sensações e os modos de percepção de outros indivíduos.

Mas o mago está longe de ser onipotente e seu trabalho é cheio de perigos. Pois a via de comunicação entre o microcosmo e o macrocosmo, o interior e o exterior, é obrigatoriamente uma via de mão dupla. Da mesma forma que o sangue entra e sai do coração, e o ar, dos pulmões, a força mágica sai de nós, passeia pelo mundo desencadeando efeitos e tende a regressar ao lugar de onde saiu. Assim aquilo que vem de fora circula em nós e tende a voltar à origem. Portanto, se projetarmos no mundo ações mágicas boas, positivas, amorosas, certamente poderemos esperar que elas retornem para nós amplificadas e fortalecidas. Se, ao contrário, projetarmos ações nefastas… só poderemos esperar retornos péssimos.

MAGIA DA ARTE

Criação artística e criação mágica são quase sinônimos. Trabalhado pelas mãos de um verdadeiro artista, até o grotesco pode se transformar em algo sublime.

A censura do mago deriva de outra lei fundamental da magia: a lei do choque de retorno, que é o regresso de uma carga maléfica para o mago que a remeteu, em caso de fracasso de sua operação, ou caso sua magia seja desfeita por outro mago mais forte. Na magia – como na física –, toda força tem de ser descarregada, seja sobre o alvo assinalado, seja, por erro cometido, sobre o mago que a desencadeou, não importa qual o valor “moral” dessa força.

Fonte: https://www.revistaplaneta.com.br/magia-que-bicho-e-esse/

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Liber 69

Gerald Gardner é o Pai da Wicca e Aleister Crowley é o Tio. Quando Doreen Valiente deu forma ao Livro das Sombras, ela tentou esconder nosso parentesco com a Thelema. Mas basta uma leitura da Liturgia para ver que a sombra da Besta ainda está bem viva na Wicca Tradicional.

Quando Perdurabo escreveu a Lei, esta chegou até nós pela Carga da Deusa e dizemos sem nenhum prurido que o Amor é a Lei, tal como nosso Tio havia dito. Mas a Lei acrescenta: Amor sob Vontade. Dizemos também: “Faça tudo que tu queres, desde que não prejudique alguém”, uma sombra da Lei que diz: “Faça o que tu queres, haverá de ser o todo da lei”.

Dizemos em nossos rituais de que a nudez ritualística é um sinal de que somos livres, mas como podemos ser livres se nos submetemos a sacerdotes, a linhagens, a tradições, a fórmulas, a sistemas burocráticos?

Então devemos entender o que entendemos por Amor, Lei, Vontade e a Liberdade. Devemos entender como tudo isso tem a ver com a nudez ritual e o sexo como ferramentas de iluminação espiritual.

Tudo que você precisa é Amor

Esse é o título de uma música dos Beatles, um reflexo e consequência da Contracultura. Mas amor a que ou a quem? Quando falamos em amor, falamos de Eros ou Afrodite? Amar a si mesmo é amor ou auto complacência? Amar a outrem é sublime ou carência? Amar tem regras, tabus, proibições, condições? Se o Amor fosse auto suficiente, teríamos respostas, não perguntas. Para haver amor é necessário que haja vontade e liberdade.

Amor sob Vontade

Parece contraditório quando tio Crowley disse que o Amor é a Lei, Amor sob Vontade. Mas ele disse também que a Vontade é a Lei, ao anunciar o “faça”, mas quem é “tu”? O “tu” crowleyano é e não é eu, você, ele, nós. O “tu” crowleyano é o Espírito do verdadeiro Eu, nosso aspecto divino, nossa essência e natureza que transcende a individualidade, personalidade, identidade. Quando a humanidade age pelo Espírito, a ação não é egoísta, mesquinha, gananciosa. Quando agimos pelo Espírito, agimos por valores e princípios supremos, divinos. Portanto, tudo o que “tu” faz haverá de ser a Lei e a Lei é o Amor, Amor sob Vontade. Mas se falamos em Lei e Vontade como absolutos, onde fica a Liberdade?

Amor sob Liberdade

Nós vivemos em um mundo fenomênico, temos uma vida carnal cheia de restrições. Nossa condição mortal e humana nos faz conviver em grupos, tribos, clãs, sociedades. Para coexistirmos criamos leis e normas, nomeamos governantes, sustentamos um sistema. Nós criamos um ambiente artificial por que não sobreviveríamos em um ambiente natural. Nós criamos um mundo feito de ilusões. Para superar a ilusão de que nós somos distintos, separados, sacerdotes iluminados criaram as religiões de mistério onde, o homem, depois de um árduo treinamento e experiência pessoal, recebe uma ordenação, uma iniciação como sinal de que alcançou a iluminação. Parece contraditório dizer que o homem precise de um sistema para superar o sistema e conquistar a liberdade. Apenas usando as ferramentas do sistema podemos perceber suas contradições e hipocrisias, nos conduzindo à liberdade. Apenas usando as sensações do corpo, do desejo, do prazer, do sexo, que conseguimos superar e transcender as restrições da vida mortal, nos conduzindo à liberdade.

Toda forma de Amor é Vontade e Liberdade

A Revolução Sexual é apenas um dos aspectos da Contracultura que sacudiu o mundo contemporâneo. O que motivou a Contracultura é o antigo sonho do homem para que seja feita a Vontade e que haja Liberdade. Quem se encontra comodamente no trono do mundo fará qualquer coisa para se manter. Tiranos, ditadores, nobres, reis, governantes, sacerdotes.

A forma mais simples de manter um sistema é através do medo, do ódio, da intolerância, da ignorância, da frustração, do recalque, da opressão, da repressão. Seja Estado, Igreja ou Sociedade, o Sistema se sustenta ao criar uma desigualdade artificial, um bode expiatório, um falso inimigo, uma falsa solução. Enquanto sustentarmos um Sistema, não podemos agir conforme a Vontade, nem podemos ter a Liberdade. Não é para menos que um Sistema depende de produzir e reproduzir a agressividade, o ódio, a intolerância, o preconceito, a discriminação.

Para haver Amor é necessário que haja Liberdade. Ouçam a voz do Profeta do Profano que diz que todos são livres para amar quem quiser, quantos quiserem, havendo consentimento e maturidade.

Para conquistarmos a Liberdade, precisamos conhecer a Lei. Ouçam a voz da Besta que diz que restrição é a palavra de pecado.

Para conhecermos a Lei precisamos agir conforme a Vontade. Ouçam a voz do Eu que diz que as ações são mais eficientes do que as palavras.

Amor não pode se manifestar como Vontade sem Liberdade. Ouçam a voz dos Antigos que dizem que todos os atos de amor e prazer são rituais dos Deuses.

Quando manifestamos a Vontade, afirmamos nossa Liberdade, portanto, Disciplina é Liberdade. Ouçam a voz da Deusa Estrela e do Deus Selvagem, reúnam-se na lua cheia; dancem, cantem, façam música e amor. Que a reunião dos corpos no Hiero Gamos nos conduza ao arrebatamento do êxtase infinito.

PS: texto originalmente publicado na "Sociedade Zvezda" e recuperado com o Wayback Machine.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Quatro Perguntas

Acredito que algumas coisas são muito claras para todos aqueles que caminham pela nossa senda espiritual; a de que nós e os Antigos não estamos ligados em uma linha ininterrupta, seja ela cultural, ancestral ou religiosa. O caminho dos antigos Celtas e Druidas foi indiscutivelmente interrompido; mas, segundo os ditames da tradição, das suas cinzas ele ressurgiu, resgatou o que foi possível de sua história, os estilhaços de seu passado sobreviventes no folclore, as suas estruturas arquetípicas de sábios, heróis e reis. Mas uma pergunta sempre estará ao lado daqueles que andam essa trilha: é o bastante? Muito mais é conhecido hoje do mundo celta antigo, e ainda nos é permitido conhecer mais sobre o passado, e novas teorias sobre ele; mas é viver no passado que buscamos? Sabemos onde os celtas viviam, mas nem sempre serão nessas regiões que viveremos. Entendemos melhor a mentalidade dos celtas, mas será essa a razão para abandonarmos aos valores que temos hoje, muitos dos quais ensinados por séculos de experiência? Esses são apenas alguns dos empecilhos que são trazidos pela prática de uma espiritualidade céltica no mundo moderno. Podemos sintetizar a maioria dessas dúvidas em quatro perguntas: Como? Quando? Onde? Por que?

Como?

Toda forma de Paganismo que busca trazer uma espiritualidade que esteve extinta de volta à tona é uma recriação. Estamos buscando recriar a história (ou parte dela) para validar nossas crenças espirituais e ideológicas. Portanto, para isso, primeiro conhecer essa história; o Druidismo Moderno (principalmente de grupos como a Henge of Keltria e Ar nDraíocht Féin) e o Reconstrucionismo Celta (assim como o Ásatrú, o Helenismo, a Nova Roma, o Kemetismo Egipcio e o Rodinovere Eslavo) diferem de muitos outros grupos exotéricos pelo papel que a História tem em suas práticas. São crenças que não buscam “suavizar” o passado dessas culturas, pois conhecê-las como elas realmente eram é o que nos inspira e ajuda a moldar nossas práticas atuais. Conhecer sua história, mas não apenas ela. Conhecer a mitologia, antes como os mitos são na sua forma pura, para depois aprendermos a interpreta-los à luz da espiritualidade, arqueologia, história, antropologia, psicologia e misticismo. Conhecer a cultura desses povos, onde sua mentalidade estava expressa, e continua viva no folclore e nas celebrações dos povos.

Conhecendo a cultura, a história, os mitos, podemos pensar em como eles são pertinentes e relevantes ao mundo moderno. Entendemos que nossa mentalidade não é a mesma que a dos Antigos, mas trabalhamos para manter vivas as tradições que podemos no nosso mundo e situação atuais. Quando encontramos práticas que seriam impossíveis aos nossos olhos modernos, procuramos adaptar, como muitas vezes ocorreu no folclore (muitos sacrifícios humanos reais foram substituídos por encenações teatrais seguidos de oferendas menos agressivas no interior da Inglaterra e de Gales), ou as abolimos completamente. Quando encontramos lacunas no conhecimento, entendemos que é preciso aceitar essa falta, ou procurar por outras formas de completude. Não é estranho se sentir inspirado por outras espiritualidades dentro da nossa, o errado é divulgar inspirações modernas como pertencendo originalmente àquela espiritualidade. Por exemplo, diversos autores buscam inspiração no Xamanismo para suprir carências de conhecimento na religião céltica, e isso não é condenável; mas quando eles divulgam essas informações (que originalmente pertenceram a povos da Sibéria, Ameríndios ou Aborígenes Australianos) como sendo originalmente célticas, eles estão cometendo um crime com ambas as culturas. Influências podem existir, mas com a consciência e o respeito para com o lugar de onde vieram; a religião céltica não é única, nem nunca foi: assumia nuances e características diferentes em lugares diferentes, com povos diferentes. Esperar que a religião da Gália de Vercingetorix fosse a mesma da Irlanda de Cormac mac Áirt é um pouco demais, mas ambas eram célticas, apenas localizadas em terras diferentes, praticadas por pessoas diferentes, em tempos diferentes; podemos esperar o mesmo de uma espiritualidade céltica praticada no Brasil contemporâneo.

Quando ?

Não vivemos mais na Idade do Ferro. Não lamentem por isso, há pouco romantismo sobre essa época. Isso significa muitas coisas, tanto boas, quanto ruins. As ruins são que vivemos em uma época em que a ligação com a Terra, com a família, com os laços de povo foram todas substituídas por uma mentalidade imediatista, egoísta, de-sacralizada e amedrontada. As boas incluem casas confortáveis, privacidade, internet, comunicação mundial, acesso à educação e vasos sanitários. Ou seja, as boas são principalmente relativas à tecnologia, e as ruins são principalmente relativas à mentalidade. Somos pessoas de mentalidade moderna, mas o paganismo tenta trazer pelo menos um pouco da mentalidade antiga à nossas mentes. Não é um trabalho fácil, pois é difícil abandonar muitos dos nossos conceitos modernos, mas é possível se desfazer de muitos deles (e nossos filhos o farão melhor; isso deve ser sempre enfatizado: não há pressa, pois futuras gerações, criadas à nossa maneira, com os nossos valores, e com menos interferência da moralidade cristã, poderão muito mais longe do que nós conseguiremos na nossa vida). Mas devemos fazer com todos?

Obviamente não. Há coisas na Idade do Ferro que simplesmente não podem ser trazidas de volta. Os tempos mudaram, e não podemos abrir mão do que aprendemos, e temos de levar essa espiritualidade para o futuro. Se a espiritualidade céltica diferia no espaço, também diferia no tempo: aprendizado, mudanças, novas inspirações, e mesmo influências tornavam a religião diferente dependendo da época, e ela não deixava de ser a religião ensinada pelos Druidas; a religião não era estática no passado, e não deve ser agora. Devemos aprender a história, mas também devemos aprender com a história, o que são coisas diferentes. Do passado, podemos herdar sempre, além da cultura e da herança, os valores. A honra, a coragem, a generosidade, a hospitalidade, a fertilidade, o respeito pelos dignos.

Onde ?

Não vivemos na Irlanda, na Escócia ou em Gales. Mesmo para os que lá vivem esses lugares não são os mesmos do passado. Cidades nasceram, cidades morreram. Estradas cortam sítios sagrados, escavadeiras estão sempre prontas a destroçar a história em nome do “progresso”, e o mundo antigo fica cada dia mais longe de todos nós. Isso tem sido um motivo de debate que envolve principalmente o meio pagão, onde a influência animista, que recorre a paisagens sagradas, é tão importante. Mas a espiritualidade continua, independente do lugar.

Se os Celtas reconheciam a natureza como sagrada em suas terras, por que eles não o fariam em qualquer terra que conhecessem? Sua influência se espalhou desde lugares férteis e belos até ilhas ermas de pedra. Eles não reconheceriam o Sagrado em terras diferentes, apenas por estarem do outro lado do Oceano? Duvido. A Terra continua sagrada, seja na Irlanda, na China, no Brasil. Apenas temos de ter a consciência das forças da nossa natureza local da mesma forma que os celtas e Druidas a tinham nas suas terras. Essas forças se manifestam da mesma forma em todos os lugares, apenas as nuances são diferentes, e temos de nos adaptar a elas. O maior exemplo é o fato de que, normalmente, os seguidores de paganismos reconstrucionistas do hemisfério sul invertem a sua “Roda do Ano”, para celebrar as estações nas épocas apropriadas à natureza local; mantendo o simbolismo, mas alterando as datas. Afinal o Samhain é o início do Inverno, e ficaria estranho celebrar isso no início do Verão. Por mais que seja prazeroso ver o Halloween no dia 31 de Outubro, essa fixação por datas é parte do pensamento cristão (originalmente, o Samhain da Irlanda era celebrado com a primeira geada, ou seja, a data podia variar de ano pra ano). Os festivais célticos são sazonais, e por isso é normalmente feita essa alteração no hemisfério sul.  Outros pontos que são relevantes: dentro do meio pagão o ativismo ecológico é muito comum. Ainda que não seja realmente um ponto crucial dentro do paganismo reconstrucionista, temos de lembrar que os Celtas eram animistas, e a paisagem natural era parte de seu conceito de espiritualidade. Mesmo que não se trabalhe pela ecologia, ter consciência sobre a importância da Terra nas nossas vidas é indispensável. Por último: não vivemos nas terras Celtas, mas ainda somos ligados a elas de alguma forma. Hoje em dia muitos sítios arqueológicos foram obliterados para construções de rodovias, aeroportos, conjuntos habitacionais. Quanto de conhecimento não perdemos com isso? Cada vez que um lugar desses é devastado, uma parte de nossa ligação com o passado morre. Apoiar a preservação de sítios arqueológicos e locais sagrados (para qualquer cultura)  é reconhecer nossa ligação com as tradições que nos foram legadas.

Por que?

O porquê talvez seja a mais complexa de todas as perguntas a serem respondidas. Os celtas antigos tinham a resposta: era a religião de seu povo, eles não tinham outra a aprender. Os romanos e os cristãos mudaram isso. Mas hoje, normalmente, temos alguns motivos principais para uma aproximação da espiritualidade Celta:

Magia e Paganismo: Muitas pessoas buscam conhecimento sobre os Celtas tendo esses dois conceitos em mente. Não há nada de errado com isso, mesmo que muitas vezes cheguem com ideias estranhas na cabeça (como teorias de que os Celtas seriam Atlantes…). A espiritualidade céltica é pagã e é animista, é politeísta e espiritualista. Difere de algumas posições pagãs por ser mais voltada a valores e ações do que à introspecção e passivismo. Ela é mágica, a magia está no coração da cultura céltica. Sua magia é natural, ligada tanto ao povo comum quanto ao erudito, diferente das práticas de grupos herméticos altamente estruturados. A espiritualidade céltica oferece esse paganismo e essa magia aos seus devotos.

Ligação Ancestral: Muitas pessoas buscam na espiritualidade Celta uma ligação com seus Ancestrais. Não é incomum, uma vez que boa parte da população brasileira tem origem ibérica, podendo ter herança Celtíbera. Italianos do norte, alemães do sul e do oeste, franceses, britânicos, todos tem uma parcela de participação na formação do povo brasileiro, e todos também tem uma pequena parte de origem céltica. Ao contrário do que se pensa, orgulhar-se de seus ancestrais não é desencorajado, muito pelo contrário. O respeito aos Ancestrais (você lhes deve o fato de estar vivo, pra começar…) é parte da espiritualidade céltica e, em um país tão misturado como o nosso, todos os seus ancestrais devem ser lembrados, sejam eles celtas ou não. Não há uma crença afirmando a superioridade ancestral de alguém sobre outra pessoa, mas os seus ancestrais sempre estarão próximos a você, e se esses ancestrais forem celtas, isso muitas vezes se torna um incentivo a mais para a aproximação com a espiritualidade. Apenas tenha consciência que ancestralidade céltica não é um requisito para praticar a espiritualidade, que pessoas de origem não-céltica também podem ter ligação espiritual com essa cultura, e que mesmo que sua ascendência possa indicar uma origem céltica, muitas vezes isso é um engano. Mesmo irlandeses podem ter uma ascendência totalmente não-céltica, mas sim de seus adversários vikings.

Ligação Estética: A arte celta atrai a atenção de muitos. Seus belos trabalhos de entrelaçados, seus poemas de estética etérea, sua música mundialmente reconhecida. A arte Celta pode ter atraído mais pessoas ao paganismo celta do que qualquer outro motivo, mas é o mais problemático de todos. O reconhecimento da beleza dos padrões artísticos de um povo não torna alguém preparado para seguir uma espiritualidade pagã, e muitas vezes as pessoas preferem procurar alguma versão “suave” do paganismo para que sua mentalidade (ainda majoritariamente cristã) não seja tão ofendida. Isso se torna ainda pior no ramo da literatura, quando milhares de autores modernos escreveram absurdos utilizando lendas celtas (o rei Arthur é a “vítima” favorita), adaptando-as a padrões culturais que não existiam na época. Essas pessoas podem realmente um dia vingar no paganismo, mas precisam buscar fontes confiáveis (historiadores, antropólogos) para não basear suas crenças em ficções de tempos modernos.

Ligação Ideológica:  Hoje é comum ver um homem que dê mais valor à sua palavra do que ao seu ganho pessoal? A honra está esquecida. Ninguém valoriza a própria palavra, e esquecem seus ideais como se fossem fardos. Aproveitam-se de pessoas que agem de boa-fé e depois fingem que assumem novas ideologias, apenas para esquecê-las no dia em que se tornarem inconvenientes diante de uma nova vantagem a ser adquirida. Isso é falta de honra. Onde está a coragem das pessoas? Não estou dizendo para reagirem a assaltos ou sequestros, pois a luta contra covardes armados é desigual e só você tem algo a perder, mas há outras formas de coragem. Milhares de pessoas sofrem assédio moral (e mesmo sexual) nos seus empregos, e não tem coragem de fazer algo por medo das consequências. As pessoas tem medo de mudar o que está errado em suas vidas por temerem a perda de uma zona de conforto que lhes está sendo daninha. E quanto aos políticos? As pessoas tem medo de se posicionar, de protestar, de fazer valer seus direitos, por puro comodismo. Isso é falta de coragem. As mulheres hoje conseguiram atingir a igualdade de direitos perante a lei, mas muitas não tem a capacidade de tomar seus próprios destinos em mãos. Sofrem nas mãos de homens violentos, infiéis, ou que não as merecem. Outras (principalmente adolescentes) acabam caindo em um mundo em que acreditam estar se aproveitando da sua liberdade, quando na verdade é justamente o contrário. Não é o mesmo que Meadbh fazia, ela tinha o seu destino em mãos, porque sabia que nunca seria desvalorizada por suas ações. Podemos dizer o mesmo dessas meninas? E quanto à Terra? Quantas pessoas hoje apreciam as estrelas de um céu noturno, o silencio de estar entre as árvores, a visão da água caindo de uma cachoeira? A dessacralização da natureza é a maior de todas as consequências que o cristianismo nos deu, pois a terra deve ser “enchida e subjugada”. Aonde vamos chegar com essa mentalidade? Não é finalmente a hora de voltarmos as nossas mentes para ideais que entendam as carências da alma humana moderna? Os valores dos Celtas estão aí, e só precisamos aplica-los à nossas vidas e ao mundo para que possamos entender onde foi que erramos.

Original: http://www.ramodecarvalho.com.br/artigos/quatro-perguntas/

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Um argumento pró-politeísmo

Saudações a todos.

Seguindo linhas mencionadas antes, eu gostaria de apresentar um argumento lógico em que venho trabalhando, a favor do politeísmo. Aqueles com uma formação filosófica provavelmente gostarão de saber antes que isso é um argumento a posteriori baseado na evidência da diversidade da experiência religiosa. Até agora, tive uma boa acolhida ao apresentá-lo por meio de uma analogia expandida, então aí vamos nós.

Imaginem uma vila com cinco casas, cujos moradores têm algumas crenças notáveis sobre os gatos. Ou, em quatro das cinco casas, sobre O Gato…

Um pesquisador do folclore chega à vila um dia, bate à porta da primeira casa, e pede para entrevistar o dono da casa com relação à sua crença em entes felinos. “Claro que eu acredito no Gato”, responde ele. “Existe um Gato, que é castanho com olhos azuis. Eu aprendi sobre O Gato com os meus pais. Toda manhã eu vou à varanda, chamo ‘Aqui, gatinho, gatinho!’ e deixo uma tigela de miúdos — e na manhã seguinte, eles se foram. Eu já vi O Gato uma vez, em pessoa — e Ele ronronou para mim, o que mostra que Ele aprova a minha crença. Ele é castanho de olhos azuis, como eu disse”.

O dono da casa #1 tem opiniões definidas sobre os outros moradores da vila, que discordam dele quanto à natureza do Gato. Obviamente eles nunca encontraram o verdadeiro Gato, ele insiste, ou saberiam que Ele é castanho de olhos azuis. “Uma pena, realmente”, diz ele, “que eles não conheçam melhor, e continuem fazendo os chamados errados e deixando os tipos errados de comida para gatos que não estão lá”. Ele insiste que a comida que os outros deixam é comida por vagabundos errantes à noite.

O pesquisador vai até a segunda casa, e faz as mesmas perguntas. O dono da casa #2 também acredita na existência de um único Gato, mas diz que Ele é preto com olhos verdes. Toda noite ele deixa uma tigela com leite na porta dos fundos e chama “Bichano-chano-chano!” e o leite desapareceu na noite seguinte. Ele também teve um encontro pessoal com O Gato, e descreve em termos de arrepiar a noite em que voltava bêbado do bar da vila vizinha, quando ouviu um miado extraterreno e viu O Gato olhando para ele com olhos brilhantes do alto da cerca de casa. “Eu digo, quase morri de susto naquela noite, e a minha vida mudou do avesso: desde aquele dia eu não voltei mais a beber”.

O dono da casa #2 também tem algo a dizer sobre seus vizinhos mal-informados, que discordam dele quanto à natureza do Gato. Ele sabe que eles deixam comida, mas está convencido de que essas oferendas são levadas, não pelo Gato, mas por algo muito menos agradável. “Ratos de esgoto saem à noite e comem o que os outros deixam lá”, diz ele. “Claro, tenho certeza que alguns deles acreditam que estão alimentando O Gato, mas estou convencido de que outros estão deliberadamente alimentando os ratos –até mesmo acariciando seu pêlo sebento. Revoltante, eu digo. Cedo ou tarde, no Seu tempo, O Gato matará todos os ratos e aí veremos quem nesta vila receberá o ron-rom e quem receberá arranhões e mordidas!”

Nosso pesquisador segue para a terceira casa, e faz as mesmas perguntas. A dona da casa também acredita no Gato, mas tem pontos de vista muito mais tolerantes que seus vizinhos. “Ele é um macho grande e alaranjado com olhos cor de laranja”, ela explica. “Sei que os outros discordam, claro. É preciso admitir que eles realmente obtiveram conhecimento verdadeiro sobre O Gato; afinal, todos reconhecem que O Gato tem quatro patas, cauda, orelhas pontudas, e bigodes. Eu suspeito que eles podem ter visto O Gato realmente, à distância, ou em más condições de iluminação. O Gato pode até ter rolado no pó, e aí surgido para alguns deles; Ele age de modos misteriosos, afinal de contas.”

A dona da casa #3 também encontrou O Gato em pessoa; ela O viu um entardecer, na cerca que divide sua propriedade daquela da casa #2. “É assim que eu sei que Ele não se limita a uma só propriedade”, ela explica. Todos os dias ao meio-dia, ela deixa uma tigela de ração enlatada e sai em silêncio, sabendo que esse é o jeito correto de alimentar O Gato. Ela acha, no entanto, que O Gato provavelmente come também os miúdos e o leite deixados pelos dois primeiros donos de casa, embora Ele prefira ração enlatada acima de tudo.

O pesquisador vai até a quarta casa, e faz as mesmas perguntas. O dono da casa #4 é um engenheiro com estantes cheias de livros científicos e matemáticos, e ele logo despeja seu desprezo sobre o que ele considera ser uma crença insensata no Gato. “Eu nunca o vi, e não acredito que alguém o tenha visto”, diz ele. As declarações dos outros, de ter encontrado O Gato pessoalmente? “Alucinações ou percepçôes equivocadas de fenômenos completamente não-felinos, fortemente acentuadas por uma intensa vontade de acreditar. Se você quiser ver um gato com força suficiente, vai acabar se convencendo de que cada folha que se move é um gato”. A comida deixada por eles? “Comida por vagabundos errantes, muito provavelmente. Há muitas explicações que não requerem a crença em algum tipo de felino”. Ele aponta as contradições nos relatos sobre O Gato: “Olha, um só Gato não pode ser castanho, preto e alaranjado ao mesmo tempo! É logicamente impossível–e esse tipo de contradição é uma das melhores provas de que não existe esse negócio de Gato”.

Por fim, nosso pesquisador chega à última casa da vila, uma cabaninha no fim da rua, e faz as mesmas perguntas à velha que lhe abriu a porta. Ela ri. “Você andou falando com os outros? Eles são todos tontos”, ela diz ao pesquisador. “Tem havido três gatos diferentes na vila nos últimos anos–um castanho, um preto, e um grande macho alaranjado. Cada um tem seu próprio território e faz suas rondas, e cada um sabe onde e quando ir para obter sua comida favorita. Claro que todos vem aqui de vez em quando, e eu tenho miúdos, leite e ração enlatada para alimentá-los”.

“E o mais engraçado nisso tudo”, continua a velha, “é que um novo gato — uma fêmea Burmesa– apareceu aqui há pouco tempo, e ela acabou de ter uma ninhada de gatinhos. O que o pessoal da vila vai pensar deles quando começarem a sair por aí, não consigo nem imaginar!”

O dono da casa #1 é um monofelista exclusivo — isto é, ele acredita que só existe um gato, que ele alega ser capaz de identificar, e também acredita que todos os outros gatos alegados não existem. O dono da casa #2 também é um monofelista exclusivo, mas de outro tipo — ele também acredita que só há um gato, que alega ser capaz de identificar, mas ele admite a realidade de outros seres que fingem ser gatos; ele apenas nega que eles tenham status felino.

A dona da casa #3 é de outro tipo, por assim dizer. Ela é uma monofelista inclusiva; ela acredita que só há um gato, que alega ser capaz de identificar, mas ela considera que as experiências dos outros com o gato são baseadas em experiências reais. Ela explica as diferenças entre relatos do Gato como produtos de percepcão ou interpretação inacurada.

Todos os três monofelistas tiveram um encontro pessoal com um gato, e isso forma a base crucial da sua crença de que podem identificar o verdadeiro gato. Todos os três desenvolveram estratégias interpretativas pelas quais podem descartar e desconsiderar relatos conflitantes do gato feitos por outras pessoas. O que se nota nessas estratégias é que qualquer uma delas poderia ser usada por qualquer dos três monofelistas, com resultados idênticos. Todas, de fato, são formas de apelo especial — uma insistência de que a sua própria evidência seja julgada por critérios diferentes e mais tolerantes do que a evidência contrária trazida por outros. Afinal de contas, não é impossível que o segundo monofelista esteja, sem o saber, alimentando um rato do esgoto, ou que a terceira monofelista tenha encontrado o gato quando o pôr-de-sol fez seu pêlo parecer alaranjado — mas nenhum dos dois felistas poderia admitir isso nem por um momento.

Esse é o ponto levantado pelo quarto habitante da vila, que é um afelista (*). Ele simplesmente tomou emprestada a estratégia interpretativa do primeiro monofelista — que os relatos diferentes sobre encontros com gatos são devidos a erros de percepção e interpretação — e a aplicou de um modo que é ao mesmo tempo mais lógico e mais justo do que o apelo especial do primeiro morador da vila. Seria igualmente possível, embora algo paranóide, sustentar que todas as alegadas atividades de gatos fossem realmente o trabalho de sinistros ratos de esgoto, como na visão do morador #2; seria também possível estender a visão da terceira moradora e sugerir que todos os avistamentos de gatos sejam percepções e interpretações parciais e distorcidas de algum gato real cuja natureza e aparência não combinassem com nenhum dos relatos das testemunhas. O problema com a teoria do afelista, ou com qualquer dessas teorias, é que elas são não-falsificáveis e auto-referentes; mesmo que a vila estivesse fervilhando de gatos, seria possível, usando o mesmo argumento, que o afelista insistisse que todos eles sejam percepções errôneas de fenômenos não-felinos (ou algo assim).

E a velha da cabana? Ela é uma polifelista, que acredita na existência de mais de um gato. Sua explicação é a única que dá conta de todas as evidências, e tem o benefício adicional de poder responder a mudanças na situação. Quando se está aberto à existência de múltiplos gatos, pode-se notar e interpretar corretamente fatos sugerindo que outro gato chegou à vizinhança ou que um dos gatos existentes a deixou. A polifelista também tem a vantagem de poder ter a companhia de mais de um gato, se ela assim o quiser.

A transição entre essa analogia algo extensa e a situação realmente discutida aqui é razoavelmente direta, e o argumento subjacente pode ser formulado assim:

1) Pessoas diferentes relatam experiências do divino que são amplamente diferentes o bastante para sugerir a presença e atividade de diferentes seres divinos. Isso pode ser documentado facilmente ao se comparar os escritos de, digamos, místicos Cristãos aos dos xamãs da Sibéria ou os tantrikas Hinduístas. Embora existam algumas similaridades de experiência, as diferenças entre os seres divinos experimentados por essas pessoas são radicais o bastante para fazer com que a assumpção da unidade divina seja difícil de sustentar de qualquer modo mais direto; é difícil achar um jeito fácil de igualar Jesus, Kali, e um lobo-espírito.

2) Experiências humanas do divino são diferentes das opiniões humanas sobre o divino, do mesmo modo que a experiência de qualquer objeto ou evento difere das teorias sobre a natureza do evento. A validade da teoria depende de sua reflexão acurada da natureza e detalhes da experiência. Se um meteorologista teoriza que amanhã irá chover, e no dia seguinte o céu está limpo e nem uma gota de chuva cai, é a teoria do meteorologista que está errada, e não o clima! Do mesmo modo, credos religiosos, teologias, e outros materiais teóricos são diferentes da experiência religiosa e dependentes desta, e se a teoria difere da experiência, a teoria pode e deve ser julgada como inadequada e/ou imprecisa.

3) As religiões monoteístas afirmam a primazia de um deus e insistem que outros deuses são não-existentes, ou seres inferiores, ou percepções e relatos mal-percebidos do verdadeiro deus. No entanto, existem muitas religiões monoteístas diferentes, todas elas fazendo as mesmas afirmações nas mesmas bases. Todas essas afirmações, no entanto, são baseadas em apelos especiais de um tipo ou outro, e todas são não-falsificáveis–ou seja, não há modo possível dentro de um contexto Cristão de alguém chegar à conclusão de que Allah é na verdade o único deus verdadeiro, nenhum modo dentro do Islã para chegar racional ou experiencialmente à divindade de Jesus, e por aí vai. Essas afirmativas, sendo não-falsificáveis, são inúteis como hipóteses lógicas, e sendo idênticas e mutuamente contraditórias, efetivamente negam uma à outra.

4) As afirmativas feitas pelo ateísmo são simplesmente uma aplicação dessas mesmas afirmativas a todas as religiões, ao contrário de aplicá-las a todas exceto à sua própria. Como as afirmativas da religião monoteísta, as do ateísmo são não-falsificáveis, e assim são igualmente inúteis como hipóteses lógicas. Também pressupõem algum tipo de mecanismo explicativo complexo que produz a ilusão de contato humano com uma variedade de divindades, sem apresentar uma descrição adequada desse mecanismo ou argumentos adequados a favor de sua realidade e aplicabilidade universal à experiência religiosa.

5) Resta o ponto de vista do politeísmo, que descreve adequadamente a evidência da interação humana com uma variedade de divindades; assume a evidência do contato humano com divindades diversas como se apresenta, e propõe que parece existir uma variedade de divindades diversas porque realmente há uma variedade de divindades diversas. Essa é a explicação mais simples que realmente dá conta dos fatos, e assim é preferível pelo princípio da parcimônia; além disso, não requer apelo especial, não pressupõe mecanismos explicatórios, e não exige um modo de classificar relatos de experiências religiosas para chegar a um método para aceitar certos relatos de experiências divinas e rejeitar ou redefinir outros. Além disso, é uma hipótese falsificável, desde que se as pessoas parassem de ter experiências religiosas, ou começassem a ter experiências de um único deus, então seria razoável assumir que as condições mudaram e a hipótese do politeísmo já não poderia mais ser sustentada.

O politeísmo é assim uma hipótese mais razoável do que o monoteísmo ou o ateísmo, e portanto pode ser considerado o mais lógico ponto de partida de qualquer discussão futura sobre a natureza da experiência religiosa e dos seres divinos. QED!(**)

…Ufa. Pausa para o almoço; me digam o que acharam disso. O argumento ainda precisa ser trabalhado, mas acho que as bases são razoavelmente sólidas.

Sob os carvalhos infestados de gatos,

John Michael Greer.

(*) – em Inglês, “afelist” rima com “atheist”, ateu; infelizmente, a rima se perde na tradução…

(**) – quod erat demonstrandum, “como se queria demonstrar”.

Original: http://www.ramodecarvalho.com.br/artigos/um-argumento-pro-politeismo/
Nota: asteriscos por conta da fonte original.