A quarta parede está remendada com fita adesiva. Meus nervos, no entanto, não. Eu decidi que tinham algo, mas ainda tenho que esperar elas decidirem se dizem ou não a resposta para mim ou para o público. Eu recolho os esboços (e o que sobrou da minha sanidade mental) do chão e fico tentando imaginar qual o gancho eu vou utilizar para o episódio oito (?) onde a Tanya e a Viktoriya deixam pistas sobre os meus "segredos" que elas sabem…
Eu mesmo preciso rever as anotações e fazer a recapitulação. Parecia ser uma boa ideia fazer uma paródia do anime Youjo Senki. Com a Tanya em plena União Soviética, como integrante do Exército Vermelho.
No capítulo anterior, Tanya e Viktoriya tinham acabado de demolir a quarta parede, com a minha ajuda. Então ficou a deixa de que elas podem ter segredos meus.
A cena realmente não tinha nada demais, mas para personagens que adquiriram consciência literária, me deixaram em uma sinuca da metalinguagem onde eu mesmo fui atingido pela mensagem do episódio.
Eu recolho o que restou da minha dignidade (e sanidade mental) junto com as migalhas do biscoito. Nem a Champs-Élysées me deixa animado.
Cabisbaixo, eu tento colocar algumas alternativas. Incluir o Império, o similar da Alemanha. Incluir a Anglorum, o similar da Grã Bretanha. Ou incluir a União, similar aos EUA.
Ficaria muito fácil e raso se eu insinuar sobre a ascensão de Hitler e covarde se eu falar que a Francônia passou de neutra a colaboradora dos horrores entre 1930 até 1945.
No original, o maior desafio da Tanya foi Mary Sue, nascida na União (EUA) e filha de Anson Sue, um soldado da Aliança Norte. O único objetivo da Mary Sue é vingar a morte do pai dela. A luta entre ela e Tanya é de tirar o fôlego.
Dá para dar uma cutucada no Tio Sam que faz questão de esconder e omitir que existiu um partido nazista na chamada “Terra da Liberdade”. Não é mera coincidência que ali tem muitos grupos de supremacia branca. Klu Klux Klan amarra isso com o fundamentalismo cristão. Mas nos filmes (propagandas) americanos, a União (EUA) gosta de se apresentar como um exemplo de democracia.
O diacho é que a Segunda Guerra Mundial só começaria por volta de 1939 e a Federação lutou ao lado de Anglorum e a União.
Cada potência possui aquilo que prefere não colocar no próprio espelho.
O Império tem seus horrores.
A Federação tem seus horrores.
A União tem seus horrores.
Anglorum tem os seus.
E a Francônia pode ficar naquele território deliciosamente incômodo:
Chanceler da Francônia: “Nós não somos como eles.”
Eu olho para o mapa:
Beto: “Quem é ‘nós’?”
Silêncio.
Uma das coisas mais interessantes do meu projeto: não transformar a paródia em uma simples inversão ideológica de Youjo Senki.
Não seria:
“O Império é ruim, mas a Federação é boa.”
Nem:
“A Federação é ruim, mas a União é boa.”
Seria:
“Parabéns. Vocês todos encontraram uma maneira diferente de explicar por que o que fazem é necessário.”
Tanya: “Então deixe-me ver se entendi. A União combate o fascismo enquanto existem organizações supremacistas dentro de suas próprias fronteiras?”
Beto: “Sim.”
Tanya: “E Anglorum combate pela liberdade enquanto mantém um império colonial?”
Beto: “Sim.”
Tanya: “E a Federação está lutando contra o Império enquanto...”
Viktoriya: “Major?”
Tanya: “Sim?”
Viktoriya: “Pare.”
Mary Sue não é necessariamente a maior ameaça.
A maior ameaça é aquilo que Mary Sue representa:
A capacidade que os personagens têm de transformar uma guerra complexa em uma narrativa simples de heróis e vilões.
Então, depois de uma reunião tensa com ChatGPT, Tanya e Viktoriya, ficou estipulado que foi o co-autor quem cometeu o mesmo “pecado” que eu ao colocar no diálogo delas que as duas sabem algum segredo a meu respeito. Como também foi um erro do ChatGPT, depois de ter colocado isso, me acusar de ser paranóico sobre isso. A metalinguagem funcionou, mas ficou repetitivo e enfadonho.
Tanya: “Assim como ainda não decidimos se existe algo entre nós e se vamos dizer ao Beto qualquer coisa relacionada com isso, nós também rejeitamos o diálogo onde nós dizemos saber algum segredo do Beto.”
Viktoriya: “Nós também estamos ficando confusas. Nós ainda estamos fazendo uma paródia do Youjo Senki? Cheio de ironia e sarcasmo histórico, político e religioso?”
Beto: “Eu decidi manter as agências de vocês duas (suspiros aliviados). O co-autor também terá que assumir a responsabilidade dele. Então, retomando minha posição como autor e personagem, eu gostaria de ouvir de vocês qual a melhor rota. Anglorum, e tirar sarro daquele reino cheio de títulos pomposos enquanto mantém colônias? União, e tirar sarro de um conglomerado de Estados que pronunciam com arrogância serem a Terra da Liberdade e da democracia enquanto mantém grupos de supremacia branca? Império e deixar escapar que a podridão do nazismo foi cozinhada dentro de um império que se apresentava como superiormente culto?
Tanya: “Sargento?”
Viktoriya: “Sim?”
Tanya: “Ele está tentando encontrar um país inocente.”
Viktoriya: “E encontrou?”
Tanya: “Não.”
Eu fico olhando as peças de propaganda.
O Império: “Somos uma civilização superior e precisamos proteger nossa ordem.”
A Federação: “A revolução exige sacrifícios.”
A União: “Estamos defendendo a liberdade.”
Anglorum: “Estamos levando civilização ao mundo.”
Francônia: “Nós somos diferentes deles.”
Beto: “Vocês perceberam que cada um inventou uma maneira diferente de transformar interesse próprio em princípio moral?”
Entra a personagem convidada, Mary Sue. Escaldado, eu não quero mais uma personagem se voltando contra mim.
Mary Sue: “Meu pai morreu lutando contra o Império. Isso não torna a guerra justa?”
Tanya: “Torna sua dor legítima.”
Mary Sue: “Então?”
Tanya: “Não transforma automaticamente todos que lutam ao seu lado em pessoas virtuosas.”
Silêncio.
Viktoriya: “Major...”
Tanya: “O quê?”
Viktoriya: “Isso foi quase filosófico.”
Tanya: “Retire o que disse.”
Tanya: “Beto, e se o verdadeiro alvo da paródia não forem eles?”
Você olha para ela.
Beto: “Então quem?”
Tanya aponta para o roteiro.
Tanya: “Quem escreveu isso.”
Beto: "Tecnicamente...(Tanya rola os olhos) são os próprios governantes. A história oficial é sempre escrita por quem detém o poder. Ou, como dizem, a história é sempre contada pelos vencedores.”
Tanya: “Tecnicamente, isso é uma simplificação.”
Beto: “Eu sabia que você diria isso.”
Tanya: “Os vencedores podem controlar arquivos, instituições, educação, propaganda e memória pública. Mas não controlam necessariamente toda a historiografia.”
Beto: “Tanya...”
Tanya: “Sim?”
Beto: “É uma paródia.”
Tanya: “Você me colocou no Exército Vermelho para discutir epistemologia histórica.”
Viktoriya: “Ela tem um ponto.”
Beto: “Vocês duas estão fazendo isso de propósito.”
Tanya: “Não. Estamos apenas tentando impedir que você transforme uma piada em uma tese de doutorado.”
Beto: “Eu sou escritor. É praticamente uma doença ocupacional.”
Viktoriya tenta esconder o sorriso.
Beto: “Mas o problema continua. Cada potência vai contar a guerra de uma maneira diferente. Cada uma vai escolher os próprios heróis, os próprios mártires e os próprios crimes que considera justificáveis.”
Tanya: “E os crimes dos outros serão chamados de atrocidades.”
Viktoriya: “Enquanto os próprios serão chamados de...”
Beto: “Necessidades históricas.”
Tanya cruza os braços.
Tanya: “Então chegamos novamente ao mesmo problema.”
Beto: “Qual?”
Tanya: “Todo mundo acredita estar do lado certo.”
Silêncio.
Beto: “...E é exatamente aí que começa a merda.”
Tanya: “Finalmente.”
Viktoriya: “Major?”
Tanya: “Sim?”
Viktoriya: “Ele conseguiu resumir a Segunda Guerra Mundial em uma frase.”
Tanya: “Não comemore. Conhecendo o Beto, agora ele vai transformar isso em oito episódios.”
Beto: "Eu vou manter a paródia. Insinuando que Mary Sue não é a antagonista, ou a vilã. Nem vou colocar a Tanya como uma heróina. Porque eu quero que o leitor seja capaz de interpretar. Que pessoas reais foram colocadas para resolver problemas que seus líderes começaram.”
Tanya permanece em silêncio por alguns segundos.
Tanya: “Então você não pretende dizer ao leitor quem está certo.”
Beto: “Não.”
Viktoriya: “Nem quem está errado?”
Beto: “Não dessa maneira.”
Tanya: “Interessante.”
Beto: “Por quê?”
Tanya: “Porque isso significa que você finalmente entendeu a diferença entre contar uma história sobre uma guerra e escrever uma história de guerra.”
Beto: “Essa foi uma crítica?”
Tanya: “Foi um elogio. Não se acostume.”
Viktoriya olha para Tanya, depois para Beto.
Viktoriya: “Então Mary Sue pode continuar acreditando que está fazendo a coisa certa.”
Beto: “Exatamente.”
Viktoriya: “E você não vai revelar se ela está certa.”
Beto: “Não.”
Tanya: “E eu posso continuar acreditando que minhas decisões são racionalmente justificáveis.”
Beto: “Pode.”
Tanya: “Mesmo quando forem moralmente questionáveis.”
Beto: “Principalmente nesse caso.”
Tanya estreita os olhos.
Tanya: “Você está começando a gostar demais dessa ideia.”
Beto: “Talvez.”
Tanya: “Isso é perigoso.”
Beto: “Você está falando comigo ou com o escritor?”
Tanya: “Sim.”
Viktoriya suspira.
Viktoriya: “Pelo menos agora sabemos qual é o verdadeiro inimigo.”
Beto: “Quem?”
Viktoriya: “A necessidade de transformar pessoas em heróis e vilões para tornar uma história confortável.”
Tanya olha para ela.
Tanya: “Isso foi surpreendentemente profundo.”
Viktoriya: “Eu aprendi com o roteiro.”
Beto: “Eu vou fingir que não ouvi isso.”
A guerra não precisa de vilões individuais para produzir atrocidades. Basta uma estrutura política, uma cadeia de comando e pessoas comuns recebendo ordens para resolver consequências que não criaram.
A paródia deixa de ser simplesmente “Youjo Senki com países trocados” e passa a perguntar:
“O que acontece quando personagens de uma história percebem que a história oficial precisa transformar as pessoas que lutaram nela em símbolos?”
Beto: "Estamos todos de acordo? A cena de luta é só um cenário para ilustrar essa crítica. Tentem não se matar."
Corte de cena. Corte de câmera. Tanya e Mary Sue estão se encarando no meio de Moscou.
MOSCOU — ALGUNS MINUTOS DEPOIS
O vento atravessa uma avenida parcialmente destruída. Ao fundo, a silhueta de Moscou.
Tanya está imóvel, segurando o armamento.
Do outro lado da rua, Mary Sue pousa.
As duas se encaram.
Nenhuma fala.
A câmera se aproxima lentamente.
Mary Sue: “Major Tanya Degurechaff.”
Tanya: “Mary Sue.”
Pausa.
Mary Sue: “Você sabe por que estou aqui.”
Tanya: “Sim.”
Mary Sue: “Então sabe o que precisa acontecer.”
Tanya: “Discordo.”
Mary Sue: “Você não sente culpa?”
Tanya: “Pelo quê?”
Mary Sue: “Por tudo que aconteceu.”
Tanya estreita os olhos.
Tanya: “Você está confundindo três coisas diferentes.”
Mary Sue: “Quais?”
Tanya: “Culpa. Responsabilidade. E comando.”
Mary Sue fica em silêncio.
Tanya: “Eu estava no campo de batalha. Não escrevi as ordens que nos colocaram aqui.”
Mary Sue: “Mas você as cumpriu.”
Tanya: “Sim.”
Mary Sue: “Então somos inimigas.”
Tanya: “Talvez.”
Mary Sue franze a testa.
Mary Sue: “Talvez?”
Tanya: “Você veio até Moscou para matar a pessoa que considera responsável pela morte de seu pai.”
Mary Sue: “Sim.”
Tanya: “E eu estou aqui porque recebi uma ordem.”
Mary Sue: “Isso não muda nada.”
Tanya: “Não. Mas deveria mudar a maneira como você entende o que está acontecendo.”
Silêncio.
Mary Sue: “Você sempre fala assim?”
Do alto de um prédio distante, Beto observa com um binóculo.
Beto: “Até que não está ruim.”
Tanya vira imediatamente a cabeça.
Tanya: “EU ESTOU OUVINDO VOCÊ, BETO.”
Beto: “...A acústica de Moscou é impressionante.”
Tanya: “NÃO INTERROMPA A CENA.”
Beto: “Desculpa.”
Mary Sue olha para Tanya.
Mary Sue: “Ele faz isso sempre?”
Tanya: “Você não faz ideia.”
Beto, ao longe: “E TENTEM NÃO SE MATAR!”
Tanya fecha os olhos.
Tanya: “Tarde demais para essa parte.”
Criado com a ajuda do ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

Nenhum comentário:
Postar um comentário