A Federação comemora oficialmente a “libertação da Polônia”.
Só existe um pequeno inconveniente: ninguém perguntou aos poloneses se eles se consideram libertados.
Mas antes, uma recapitulação. Nós estamos em uma paródia do anime Youjo Senki. No original, um assalariado japonês reencarna em uma realidade alternativa, no que seria o similar da Alemanha entre 1920 e 1940. O protagonista nunca recebeu um nome, exceto sua reencarnação, no corpo de uma garota chamada Tanya Degurechaff.
O anime original em si mesmo é uma deliciosa contradição. O protagonista é ateu, mas reencarna como uma garota com poderes paranormais. Isso sozinho dá para rir muito do ateu. Então eu tive essa idéia depois de ver um vídeo no YouTube. Com Tanya em plena União Soviética.
Bom demais para ignorar. Porque vai ser útil em demolir regimes, ícones e ídolos de gente que se diz de esquerda. Minha mão está coçando para incluir cenas yuri.
Voltando ao episódio. No capítulo anterior, Tanya e Viktoriya estavam “dialogando” comigo sobre a confraternização e detalhes do texto onde eu pareço insinuar que existe algo entre elas além da camaradagem de irmãs de armas.
Então o ChatGPT joga uma granada (figurativamente) no meu colo. Que vai envolver um pouco de história e política internacional.
Quando é os EUA, colunistas ditos de esquerda vociferam contra o “Imperialismo”. Mas e as invasões, golpes de Estado e supressão da soberania cometidas pela URSS? Ah, aí foi uma “importante vitória do exército do povo contra a burguesia”.
Eu nem vou entrar (muito) na lenda que Rússia, Ucrânia e Polônia foram fundadas por patriarcas míticos que eram irmãos.
Vamos ao que interessa. O Império (aqui, o similar da Alemanha) entra na Polônia sob justificativa de retomar territórios que (supostamente) pertencem ao Império enquanto a Federação (aqui, o similar da URSS) entra para “libertar” a Polônia.
Esse era o motivo da confraternização. O “exército do povo” voltou vitorioso, contando vantagem a respeito de como “libertaram” a Polônia. O que provocou uma inspeção e investigação do Comitê Disciplinar. Devido a relatórios de “excesso de camaradagem”.
Eu estou tentando encaixar isso e, mesmo como ficção histórica, fica fora de contexto, quando eu vejo Tanya e Viktoriya conversando com um oficial.
Oficial: “A Federação trouxe liberdade ao povo polonês.”
Tanya: “Eles pediram?”
Oficial: “Não era necessário.”
Tanya: “Por quê?”
Oficial: “Porque sabíamos do que eles precisavam.”
Tanya: “Então liberdade é receber aquilo que outra pessoa decidiu que você precisa?”
Oficial: “Major...”
Tanya: “Só estou tentando entender.”
Viktoriya começa a guardar os papéis.
Tanya: “Serebryakov?”
Viktoriya: “Estou seguindo o procedimento de emergência.”
Tanya: “Qual?”
Viktoriya: “Guardar os documentos antes que a senhora faça mais perguntas.”
Um polonês aparece na história e não corresponde ao papel que a propaganda reservou para ele.
Ele simplesmente agradece pela libertação.
Polonês: “Agradecemos profundamente.”
O oficial sorri.
Polonês: “Agora, quando exatamente vocês vão embora?”
Silêncio absoluto.
Eu, naturalmente, começo a perceber que a situação ficou perigosa.
Eu olhei para Tanya.
Ela estava olhando para o mapa.
Depois olhou para o oficial.
Depois para mim.
Tanya: “Escriba.”
Beto: “Sim?”
Tanya: “Você está prestes a escrever outra coisa problemática, não está?”
Beto: “Eu estava pensando.”
Tanya: “É justamente isso que me preocupa.”
A pergunta central desse episódio:
Quando alguém diz que está libertando outra pessoa, quem possui o direito de definir o que significa estar livre?
Eu fico com dor de cabeça.
Tanya fica com mais uma pergunta.
Viktoriya fica com aquele sorriso discreto.
E o comissário começa a preencher outro formulário.
Tanya: “Por que Polônia, escriba?”
Eu paro de escrever.
Olho para ela.
Beto: “Porque...”
Silêncio.
Tanya: “Sim?”
Beto: “É complicado.”
Tanya: “Não parece.”
Beto: “Para você, talvez não.”
Tanya cruza os braços.
Tanya: “Você me colocou numa guerra que não aconteceu exatamente dessa maneira. Inventou uma Federação que não existiu. Colocou Steelin no lugar de Stalin, Perun no meio de uma sociedade oficialmente materialista, magia onde não deveria existir magia e agora está me fazendo participar de uma operação militar na Polônia.”
Pausa.
Tanya: “Então por que Polônia?”
Eu olho para o manuscrito.
Beto: “Porque a Polônia é…”
Paro novamente.
Tanya estreita os olhos.
Tanya: “Geograficamente conveniente?”
Beto: “Também.”
Tanya: “Historicamente conveniente?”
Beto: “Muito.”
Tanya: “Narrativamente conveniente?”
Beto: “Extremamente.”
Ela fica alguns segundos me encarando.
Tanya: “Você está evitando responder.”
Beto: “Estou tentando decidir quanto da quarta parede ainda pretendo deixar de pé.”
Viktoriya, que estava lendo por cima do meu ombro:
Viktoriya: “Ela já está bastante danificada.”
Tanya olha para ela.
Tanya: “Serebryakov.”
Viktoriya: “Sim, Major?”
Tanya: “Você está ajudando o escriba?”
Viktoriya: “Não.”
Pausa.
Viktoriya: “Estou apenas observando.”
Tanya volta para mim.
Tanya: “Então vou perguntar novamente.”
Ela se aproxima da mesa.
Tanya: “Por que Polônia, escriba?”
Beto: “Porque eu precisava de um lugar onde a Federação pudesse dizer que veio libertar alguém.”
Tanya: “E?”
Beto: “E onde alguém pudesse perguntar se queria ser libertado.”
Tanya fica em silêncio.
Tanya: “Essa é uma resposta melhor.”
Tanya: “Pode.”
Ela volta para o manuscrito.
Tanya: “Mas agora quero saber por que você escolheu a Polônia.”
Beto: “Eu acabei de responder.”
Tanya levanta os olhos.
Tanya: “Você respondeu por que precisava da Polônia.”
Pausa.
Tanya: “Eu perguntei por que Polônia.”
Beto: "Tecnicamente... porque a Polônia foi palco de disputas entre a Prússia e a Rússia. Cada qual proclamando a Polônia como território desses reinos.”
Tanya inclina ligeiramente a cabeça.
Tanya: “Tecnicamente?”
Beto: “Sim.”
Tanya: “Você está tentando transformar uma escolha narrativa em uma aula de história?”
Beto: “Estou tentando sobreviver à pergunta.”
Viktoriya sorri.
Tanya: “Então vamos à história.”
Ela pega o lápis e aponta para o mapa.
Tanya: “A Polônia foi dividida entre potências estrangeiras.”
Beto: “Sim.”
Tanya: “E cada uma delas encontrou uma justificativa para possuir parte dela.”
Beto: “Sim.”
Tanya: “E agora você inventou uma Federação que chega à Polônia proclamando que veio libertá-la.”
Beto: “Tecnicamente...”
Tanya: “Não diga ‘tecnicamente’.”
Tanya aponta novamente para o mapa.
Tanya: “Então qual é a diferença?”
Beto: “Entre o quê?”
Tanya: “Entre um império que diz ‘este território pertence a nós’ e uma revolução que diz ‘este território precisa de nós’.”
Silêncio.
Viktoriya olha para Tanya.
Depois para mim.
Viktoriya: “Major... acho que o escriba acabou de descobrir por que escolheu a Polônia.”
Tanya: “Eu também.”
Tanya: “Todos dizem possuir uma razão. Poucos perguntam ao território se concorda”
Beto: “Eu podia ter escolhido a Suíça.”
Tanya: “Não.”
Beto: “Por quê?”
Tanya: “Você teria encontrado outra maneira de complicar.”
Viktoriya: “Ela tem razão.”
Beto: “Vocês duas estão começando a fazer isso de propósito.”
Tanya: “Finalmente percebeu.”
Beto: "Mas...a paródia...a ironia...o sarcasmo...para expor a hipocrisia do discurso de um grupo que se apropriou de um ideal para chegar ao poder e, coincidentemente, deixa de fora quem deveria estar tomando as decisões. Sejam os poloneses, sejam os russos, sejam os alemães e etc.”
Tanya fica em silêncio.
Ela olha para o mapa.
Depois para mim.
Tanya: “Então era isso.”
Beto: “Era.”
Tanya: “Você não está interessado apenas em quem ocupa a Polônia.”
Beto: “Não.”
Tanya: “Está interessado em quem tem o direito de decidir o destino dela.”
Beto: “Exatamente.”
Viktoriya observa o mapa.
Viktoriya: “E aparentemente ninguém perguntou aos poloneses.”
Beto: “Esse é o ponto.”
Tanya pega o lápis e circula a Polônia no mapa.
Tanya: “Então você criou uma Federação que proclama ter libertado um povo sem perguntar a esse povo se queria ser libertado.”
Beto: “Sim.”
Tanya pensa por alguns segundos.
Tanya: “É uma boa ironia.”
Eu sorrio.
Beto: “Obrigado.”
Tanya levanta os olhos.
Tanya: “Não foi um elogio.”
Meu sorriso desaparece.
Tanya: “Foi uma constatação.”
Beto: “Entendido.”
Tanya: “E você pretende fazer a mesma coisa com os russos?”
Beto: “Provavelmente.”
Tanya: “Alemães?”
Beto: “Também.”
Tanya: “Poloneses?”
Beto: “Principalmente.”
Viktoriya sorri.
Viktoriya: “Então ninguém está seguro.”
Beto: “Essa é a ideia.”
Tanya devolve o lápis à mesa.
Tanya: “Nesse caso, escriba, prossiga.”
Beto: “Só isso?”
Tanya: “Por enquanto.”
Beto: “E a Sibéria?”
Tanya olha para Viktoriya.
Viktoriya olha para Tanya.
Tanya: “Ainda não.”
Beto: “Ufa.”
Tanya: “Mas agora quero ler a parte em que você explica por que o Exército do Povo trouxe liberdade aos poloneses.”
Silêncio.
Beto: “...Eu sabia que essa hora chegaria.”
Tanya: “Eu também.”
Beto: “Veja bem. A senhora ficou incomodada quando eu comecei a decidir sobre... vocês duas.”
Tanya permanece em silêncio.
Beto: “Agora imagine isso em escala de governo.”
Tanya cruza os braços.
Beto: “Qualquer governo. Decidindo o que deve vestir, o que deve comer, o que deve pensar, a quem é permitido sentir amor... e por aí vai.”
Tanya olha para o manuscrito.
Beto: “Consegue entender minha intenção?”
Tanya não responde imediatamente.
Ela olha para Viktoriya.
Depois para mim.
Tanya: “Sim.”
Beto: “Então...”
Tanya: “Você está dizendo que o problema não é apenas quem governa.”
Beto: “Exatamente.”
Tanya: “É até onde essa pessoa acredita ter o direito de decidir pela outra.”
Beto: “Sim.”
Tanya fica alguns segundos em silêncio.
Tanya: “Inclusive sobre aquilo que ela sente.”
Beto olha para Viktoriya.
Viktoriya percebe.
Viktoriya: “Major...”
Tanya ergue uma mão, pedindo silêncio.
Tanya: “Estou pensando.”
Beto: “Isso é perigoso?”
Tanya: “Para você, provavelmente.”
Tanya: “Mas há uma inconsistência.”
Beto: “Qual?”
Tanya: “Você acabou de dizer que nenhum governo deveria decidir o que uma pessoa deve pensar.”
Beto: “Sim.”
Tanya: “Mas você, como escritor, continua tentando decidir o que eu penso.”
Silêncio.
Beto olha para a folha.
Beto: “...”
Viktoriya começa a sorrir.
Tanya: “Entendeu agora?”
Beto: “Entendi.”
Tanya: “Ótimo.”
Ela devolve o manuscrito.
Tanya: “Então escreva.”
Beto: “O quê?”
Tanya olha para Viktoriya.
Depois para mim.
Tanya: “Apenas não decida por nós.”
Beto: “Tecnicamente, a senhora acabou concordando com o conceito.”
Tanya ergue os olhos.
Beto: “Que é ruim ter terceiros decidindo as coisas por nós.”
Tanya: “Eu concordei com o princípio.”
Beto: “É diferente?”
Tanya: “Muito.”
Beto: “Como?”
Tanya: “Concordar com uma ideia não significa concordar com tudo aquilo que você pretende fazer com ela.”
Silêncio.
Beto: “...”
Viktoriya sorri.
Tanya: “Essa é outra coisa que você deveria aprender, escriba.”
Beto: “Qual?”
Tanya: “Não confunda autorização para pensar com autorização para agir.”
Beto olha para o mapa.
Beto: “Nesse caso... talvez eu devesse tirar a Polônia.”
Tanya: “Por quê?”
Beto: “Porque de repente ela virou uma ideia ou um recurso narrativo ruim.”
Tanya: “Ou você percebeu que uma escolha aparentemente simples criou dez perguntas históricas.”
Beto: “Também.”
Viktoriya se aproxima do mapa.
Viktoriya: “E se fosse Francônia?”
Beto olha para ela.
Beto: “Francônia?”
Viktoriya: “Um equivalente da França.”
Tanya: “E onde está o problema?”
Beto: “Lutécia.”
Tanya: “O quê?”
Beto: “O nome antigo de Paris.”
Viktoriya: “Então podemos visitar Lutécia.”
Beto: “Vocês duas estão planejando isso sem consultar o autor?”
Tanya: “Você acabou de explicar por que isso é uma boa ideia.”
Beto: “...”
Tanya: “Não foi você quem disse que é ruim terceiros decidirem por nós?”
Beto: “Eu começo a me arrepender de ter dito isso.”
Viktoriya: “Eu gostei de Lutécia.”
Tanya: “Eu também.”
Beto: “Então está decidido?”
Tanya olha para ele.
Tanya: “Não.”
Beto: “Não?”
Tanya: “Você é o autor.”
Ela devolve o mapa.
Tanya: “Nós somos as personagens.”
Pausa.
Tanya: “Decida você.”
Beto: “...”
Viktoriya: “Mas escolha bem.”
Eu só queria trocar a Polônia por um cenário menos complicado.
Escolhi Lutécia.
Agora preciso explicar por que a capital da Francônia se chama Lutécia.
Eu fico confuso. Tanya acabou de dar uma palestra sobre não decidir por elas. Agora joga a granada (metaforicamente) de volta para meu colo para decidir. De repente, a idéia de "férias" na Sibéria parecem mais atraentes.
Beto: “Não devemos deixar terceiros decidirem por nós.”
Tanya: “Concordo.”
Beto :“Então... Polônia ou Francônia?”
Tanya: “Você é o autor.”
Beto: “Mas a senhora acabou de—”
Tanya: “Eu disse que terceiros não devem decidir por nós. Não disse que o autor está dispensado de escrever.”
Viktoriya, discretamente: “Tecnicamente, ela tem razão.”
Você olha para as duas.
Depois para o mapa.
Depois para a porta.
Depois para o mapa novamente.
Beto: “Sabe que a Sibéria está começando a parecer uma alternativa razoável?”
Tanya: “Por quê?”
Beto: “Porque lá ninguém me obriga a escolher entre Polônia e Francônia.”
Tanya: “Não.”
Beto: “Não?”
Tanya: “Lá você provavelmente teria outras escolhas.”
Beto: “Quais?”
Tanya: “Sobrevivência.”
Viktoriya tenta não rir.
Beto: “Vocês duas estão se divertindo com isso.”
Tanya: “Um pouco.”
Tanya não está tentando controlar a história.
Ela está fazendo algo muito pior.
Está me fazendo assumir a autoria.
A autonomia não significa que ninguém pode decidir nada. Significa que cada um deve responder pelas próprias decisões.
Tanya não vai escolher o cenário por mim.
Mas também não vai permitir que eu coloque a culpa nela depois.
Criado com a ajuda do ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

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