sexta-feira, 30 de outubro de 2026

A sopa de Perun - III


(Nota - todos os personagens tem 18 anos no mínimo)

Beto mantém os olhos em Tanya.

— Então concordamos que “impossível” é só um discurso. Que outras formas de conhecimento e apreensão podem ser testadas.

Tanya não responde.

Beto continua:

— Lembra de quem estava no seu nascimento?

O rosto dela endurece.

— Não era o padre ortodoxo.

Tanya olha de relance para Viktoriya.

— Não era a parteira.

Silêncio.

Beto dá um passo à frente.

— Tinha outra presença.

Tanya permanece imóvel.

— **Uma presença que a senhorita sentiu.**

Viktoriya percebe a mudança no rosto dela.

— Tanya?

— Eu me lembro.

A resposta sai baixa.

Beto não sorri. Pela primeira vez, não há provocação na voz dele.

— Então não estou pedindo que acredite em mim.

Tanya fecha os olhos por um instante.

— Você está pedindo que eu considere a possibilidade de que minha própria experiência seja uma evidência.

— Estou pedindo que não descarte a experiência simplesmente porque ainda não possui uma teoria capaz de explicá-la.

Tanya abre os olhos.

— Isso é uma distinção importante.

Mary Sue intervém, cautelosa:

— Mas também perigosa.

Beto olha para ela.

— Por quê?

— Porque uma experiência pode ser real sem que a interpretação dada a ela esteja correta.

Tanya imediatamente concorda.

— Exatamente.

Ela encara Beto.

— Eu senti aquela presença. Isso eu não posso negar.

Pausa.

— Mas você ainda não demonstrou que sabe **o que** estava presente.

Beto sorri discretamente.

— Não.

Tanya estreita os olhos.

— Então continuamos sem prova dos seus Deuses Antigos.

— Sim.

— E você parece estranhamente satisfeito com isso.

— Porque agora temos uma pergunta melhor.

Tanya fica em silêncio.

Viktoriya olha para os dois.

— Qual pergunta?

Beto responde:

— **O que foi que Tanya sentiu naquele dia?**

Beto:

— Pode descartar a minha interpretação. Mas não a experiência.

Tanya permanece em silêncio.

— Isso não é algo sustentado por evidências. Não pode ser reproduzido. Mas, mesmo assim, não deixou de ser real.

Beto inclina levemente a cabeça.

— Então, Tanya... o que sentiu naquele dia?

Por alguns segundos, ela não responde.

A expressão dela, normalmente tão controlada, muda.

Não é medo.

É algo mais incômodo.

Memória.

Tanya olha para as próprias mãos.

— Eu me lembro do frio.

Viktoriya franze a testa.

— Frio?

— Sim.

Ela fecha os olhos.

— Eu tinha acabado de nascer. Ou pelo menos é assim que minha memória deveria funcionar. Mas existe uma coisa que nunca consegui encaixar.

Beto não interrompe.

— Havia pessoas ao meu redor. A parteira. O sacerdote. Minha mãe.

Ela respira lentamente.

— E havia... outra coisa.

O gabinete fica silencioso.

— Não ouvi uma voz. Não vi um rosto. Não houve aparição.

Tanya abre os olhos.

— **Eu simplesmente soube que havia alguém ali.**

Viktoriya se aproxima.

— Alguém?

— Não sei.

Tanya olha para Beto.

— Essa é a parte que me incomoda.

— Por quê?

— Porque eu não senti hostilidade.

Pausa.

— Também não senti benevolência.

Ela procura as palavras.

— Era como estar diante de alguma coisa que não precisava de mim. Não queria nada de mim. Não precisava que eu acreditasse nela.

Beto permanece quieto.

Tanya continua:

— E, por algum motivo, senti que aquela presença já me conhecia.

Viktoriya arrepia-se.

Mary Sue não faz nenhuma piada.

Tanya olha para as três figuras representadas nos cartazes que ainda estão sobre a mesa.

— Durante toda a minha vida, encontrei pessoas dizendo que Deus estava do lado delas. O Partido dizendo que a história estava do lado dele. Governos dizendo que o futuro lhes pertencia.

Ela volta os olhos para Beto.

— Aquela presença não disse nada disso.

— O que ela disse?

Tanya responde imediatamente:

— **Nada.**

Silêncio.

— E talvez seja exatamente por isso que eu ainda me lembro dela.

Beto respira fundo.

— Então você não sabe o que encontrou.

Tanya balança a cabeça.

— Não.

— E não sabe se era um deus.

— Não.

— Nem um Deus Antigo.

— Não.

Beto sorri.

— Então estamos exatamente onde deveríamos estar.

Tanya o encara.

— Não fique satisfeito demais.

— Por quê?

— Porque agora **eu quero descobrir**.

Beto observa Tanya por alguns segundos.

Ela ainda tenta recuperar o controle da respiração.

— Essa é outra interpretação minha — diz ele, calmamente. — Pode descartar.

Tanya ergue os olhos.

Beto aponta para ela.

— Perun te conhecia.

Tanya prende a respiração.

— Como os outros Deuses Antigos.

Viktoriya percebe imediatamente que alguma coisa mudou.

— Beto...

Mas ele continua:

— Porque, para mim, eles e elas estão presentes.

Ele toca o próprio peito.

— Aqui.

Depois aponta para o ambiente.

— Agora.

E finalmente aponta novamente para Tanya.

— **Em cada um de nós.**

Tanya começa a hiperventilar.

— Não.

Beto abaixa a mão.

— Eu disse que é a minha interpretação.

— Não é isso.

— Então o que é?

Tanya tenta respirar profundamente, mas não consegue.

— Quando você disse o nome...

Ela fecha os olhos.

— Perun.

O nome parece ficar suspenso no gabinete.

Viktoriya segura o braço dela.

— Tanya, respira.

— Eu estou respirando.

— Não está.

Tanya lança um olhar irritado para ela.

— Estou tentando.

Mary Sue observa Beto.

— Você conseguiu exatamente o que queria.

Beto nega com a cabeça.

— Não.

Ele olha para Tanya.

— Eu queria provocar uma reflexão.

Mary Sue aponta para Tanya.

— Ela está tendo uma crise existencial.

— É diferente.

Tanya finalmente consegue recuperar o fôlego.

— Beto.

— Sim?

— Se você estiver errado...

— Posso estar.

— ...isso não explica o que eu senti.

— Não.

— E se estiver certo...

Ela hesita.

— Isso também não explica.

Beto sorri.

— Agora você está pensando como filósofa.

Tanya fecha a cara.

— **Não abuse da sorte.**

Viktoriya finalmente ri.

Tanya olha para ela.

— O que foi?

— Nada.

— Viktoriya.

— É só que... pela primeira vez, você parece genuinamente interessada em uma coisa que não consegue classificar.

Tanya fica em silêncio.

Olha para o vazio.

E murmura:

— Talvez esse seja o problema.

Beto não responde.

Dessa vez, ele percebe que a provocação chegou exatamente até onde deveria.

**E para por aí.**

Beto respira fundo.

— Os Deuses Antigos não querem certeza.

Tanya permanece em silêncio.

— Nem obediência cega.

Ele olha para as três.

— Eles só querem que vivamos da melhor forma possível. Sem ameaças. Também sem recompensas.

Mary Sue franze a testa, mas não interrompe.

Beto continua:

— Porque daqui a cem anos, o Sol e a Lua vão continuar sua valsa.

Ele aponta para a janela.

— As estações vão continuar seu ritmo.

Depois olha para o chão.

— E esse solo vai lembrar de cada um de nós.

Silêncio.

— Essa é a minha crença.

Ninguém responde imediatamente.

Tanya é a primeira.

— Uma crença sem recompensa?

— Sim.

— Sem punição?

— Também.

— Sem promessa de eternidade?

Beto pensa por um instante.

— Não preciso de uma.

Tanya olha para ele, desconfiada.

— Isso é uma posição religiosa bastante peculiar.

— Eu sei.

Viktoriya sorri discretamente.

— E talvez seja justamente por isso que ele não está tentando convencer ninguém.

Mary Sue finalmente fala:

— Eu ainda discordo de algumas coisas.

Beto olha para ela.

— Tudo bem.

— E não quero que minha tradição seja tratada como caricatura.

— Justo.

Ela cruza os braços.

— Mas essa parte...

Mary Sue olha para a janela.

— ...eu consigo respeitar.

Tanya volta a encarar Beto.

— Você percebe que acabou de me oferecer uma cosmologia sem me pedir que acreditasse nela?

— Percebo.

— Estranho.

— Tanya...

— O quê?

— Você pode descartar a minha interpretação.

Ela fica em silêncio.

Beto sorri.

— Só não descarte a pergunta.

Tanya olha novamente para o céu.

Por alguns segundos, ninguém fala.

E, pela primeira vez desde que aquela discussão começou, **ninguém precisa vencer.**

Criado com ChatGPT.

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