(Nota - todos os personagens tem 18 anos no mínimo)
— Então concordamos que “impossível” é só um discurso. Que outras formas de conhecimento e apreensão podem ser testadas.
Tanya não responde.
Beto continua:
— Lembra de quem estava no seu nascimento?
O rosto dela endurece.
— Não era o padre ortodoxo.
Tanya olha de relance para Viktoriya.
— Não era a parteira.
Silêncio.
Beto dá um passo à frente.
— Tinha outra presença.
Tanya permanece imóvel.
— **Uma presença que a senhorita sentiu.**
Viktoriya percebe a mudança no rosto dela.
— Tanya?
— Eu me lembro.
A resposta sai baixa.
Beto não sorri. Pela primeira vez, não há provocação na voz dele.
— Então não estou pedindo que acredite em mim.
Tanya fecha os olhos por um instante.
— Você está pedindo que eu considere a possibilidade de que minha própria experiência seja uma evidência.
— Estou pedindo que não descarte a experiência simplesmente porque ainda não possui uma teoria capaz de explicá-la.
Tanya abre os olhos.
— Isso é uma distinção importante.
Mary Sue intervém, cautelosa:
— Mas também perigosa.
Beto olha para ela.
— Por quê?
— Porque uma experiência pode ser real sem que a interpretação dada a ela esteja correta.
Tanya imediatamente concorda.
— Exatamente.
Ela encara Beto.
— Eu senti aquela presença. Isso eu não posso negar.
Pausa.
— Mas você ainda não demonstrou que sabe **o que** estava presente.
Beto sorri discretamente.
— Não.
Tanya estreita os olhos.
— Então continuamos sem prova dos seus Deuses Antigos.
— Sim.
— E você parece estranhamente satisfeito com isso.
— Porque agora temos uma pergunta melhor.
Tanya fica em silêncio.
Viktoriya olha para os dois.
— Qual pergunta?
Beto responde:
— **O que foi que Tanya sentiu naquele dia?**
Beto:
— Pode descartar a minha interpretação. Mas não a experiência.
Tanya permanece em silêncio.
— Isso não é algo sustentado por evidências. Não pode ser reproduzido. Mas, mesmo assim, não deixou de ser real.
Beto inclina levemente a cabeça.
— Então, Tanya... o que sentiu naquele dia?
Por alguns segundos, ela não responde.
A expressão dela, normalmente tão controlada, muda.
Não é medo.
É algo mais incômodo.
Memória.
Tanya olha para as próprias mãos.
— Eu me lembro do frio.
Viktoriya franze a testa.
— Frio?
— Sim.
Ela fecha os olhos.
— Eu tinha acabado de nascer. Ou pelo menos é assim que minha memória deveria funcionar. Mas existe uma coisa que nunca consegui encaixar.
Beto não interrompe.
— Havia pessoas ao meu redor. A parteira. O sacerdote. Minha mãe.
Ela respira lentamente.
— E havia... outra coisa.
O gabinete fica silencioso.
— Não ouvi uma voz. Não vi um rosto. Não houve aparição.
Tanya abre os olhos.
— **Eu simplesmente soube que havia alguém ali.**
Viktoriya se aproxima.
— Alguém?
— Não sei.
Tanya olha para Beto.
— Essa é a parte que me incomoda.
— Por quê?
— Porque eu não senti hostilidade.
Pausa.
— Também não senti benevolência.
Ela procura as palavras.
— Era como estar diante de alguma coisa que não precisava de mim. Não queria nada de mim. Não precisava que eu acreditasse nela.
Beto permanece quieto.
Tanya continua:
— E, por algum motivo, senti que aquela presença já me conhecia.
Viktoriya arrepia-se.
Mary Sue não faz nenhuma piada.
Tanya olha para as três figuras representadas nos cartazes que ainda estão sobre a mesa.
— Durante toda a minha vida, encontrei pessoas dizendo que Deus estava do lado delas. O Partido dizendo que a história estava do lado dele. Governos dizendo que o futuro lhes pertencia.
Ela volta os olhos para Beto.
— Aquela presença não disse nada disso.
— O que ela disse?
Tanya responde imediatamente:
— **Nada.**
Silêncio.
— E talvez seja exatamente por isso que eu ainda me lembro dela.
Beto respira fundo.
— Então você não sabe o que encontrou.
Tanya balança a cabeça.
— Não.
— E não sabe se era um deus.
— Não.
— Nem um Deus Antigo.
— Não.
Beto sorri.
— Então estamos exatamente onde deveríamos estar.
Tanya o encara.
— Não fique satisfeito demais.
— Por quê?
— Porque agora **eu quero descobrir**.
Beto observa Tanya por alguns segundos.
Ela ainda tenta recuperar o controle da respiração.
— Essa é outra interpretação minha — diz ele, calmamente. — Pode descartar.
Tanya ergue os olhos.
Beto aponta para ela.
— Perun te conhecia.
Tanya prende a respiração.
— Como os outros Deuses Antigos.
Viktoriya percebe imediatamente que alguma coisa mudou.
— Beto...
Mas ele continua:
— Porque, para mim, eles e elas estão presentes.
Ele toca o próprio peito.
— Aqui.
Depois aponta para o ambiente.
— Agora.
E finalmente aponta novamente para Tanya.
— **Em cada um de nós.**
Tanya começa a hiperventilar.
— Não.
Beto abaixa a mão.
— Eu disse que é a minha interpretação.
— Não é isso.
— Então o que é?
Tanya tenta respirar profundamente, mas não consegue.
— Quando você disse o nome...
Ela fecha os olhos.
— Perun.
O nome parece ficar suspenso no gabinete.
Viktoriya segura o braço dela.
— Tanya, respira.
— Eu estou respirando.
— Não está.
Tanya lança um olhar irritado para ela.
— Estou tentando.
Mary Sue observa Beto.
— Você conseguiu exatamente o que queria.
Beto nega com a cabeça.
— Não.
Ele olha para Tanya.
— Eu queria provocar uma reflexão.
Mary Sue aponta para Tanya.
— Ela está tendo uma crise existencial.
— É diferente.
Tanya finalmente consegue recuperar o fôlego.
— Beto.
— Sim?
— Se você estiver errado...
— Posso estar.
— ...isso não explica o que eu senti.
— Não.
— E se estiver certo...
Ela hesita.
— Isso também não explica.
Beto sorri.
— Agora você está pensando como filósofa.
Tanya fecha a cara.
— **Não abuse da sorte.**
Viktoriya finalmente ri.
Tanya olha para ela.
— O que foi?
— Nada.
— Viktoriya.
— É só que... pela primeira vez, você parece genuinamente interessada em uma coisa que não consegue classificar.
Tanya fica em silêncio.
Olha para o vazio.
E murmura:
— Talvez esse seja o problema.
Beto não responde.
Dessa vez, ele percebe que a provocação chegou exatamente até onde deveria.
**E para por aí.**
Beto respira fundo.
— Os Deuses Antigos não querem certeza.
Tanya permanece em silêncio.
— Nem obediência cega.
Ele olha para as três.
— Eles só querem que vivamos da melhor forma possível. Sem ameaças. Também sem recompensas.
Mary Sue franze a testa, mas não interrompe.
Beto continua:
— Porque daqui a cem anos, o Sol e a Lua vão continuar sua valsa.
Ele aponta para a janela.
— As estações vão continuar seu ritmo.
Depois olha para o chão.
— E esse solo vai lembrar de cada um de nós.
Silêncio.
— Essa é a minha crença.
Ninguém responde imediatamente.
Tanya é a primeira.
— Uma crença sem recompensa?
— Sim.
— Sem punição?
— Também.
— Sem promessa de eternidade?
Beto pensa por um instante.
— Não preciso de uma.
Tanya olha para ele, desconfiada.
— Isso é uma posição religiosa bastante peculiar.
— Eu sei.
Viktoriya sorri discretamente.
— E talvez seja justamente por isso que ele não está tentando convencer ninguém.
Mary Sue finalmente fala:
— Eu ainda discordo de algumas coisas.
Beto olha para ela.
— Tudo bem.
— E não quero que minha tradição seja tratada como caricatura.
— Justo.
Ela cruza os braços.
— Mas essa parte...
Mary Sue olha para a janela.
— ...eu consigo respeitar.
Tanya volta a encarar Beto.
— Você percebe que acabou de me oferecer uma cosmologia sem me pedir que acreditasse nela?
— Percebo.
— Estranho.
— Tanya...
— O quê?
— Você pode descartar a minha interpretação.
Ela fica em silêncio.
Beto sorri.
— Só não descarte a pergunta.
Tanya olha novamente para o céu.
Por alguns segundos, ninguém fala.
E, pela primeira vez desde que aquela discussão começou, **ninguém precisa vencer.**
Criado com ChatGPT.

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