Lilith me levou até a “casa” dela. Falar que só tem areia e pedras é superficial.
Alguma coisa… algo que não deveria existir… está aqui. Para usar um termo científico, eu estou no *horizonte de eventos* cósmico. Não porque seja exatamente isso. É apenas a coisa mais próxima que meu cérebro conseguiu encontrar. Só havia um problema.
Buracos negros obedeciam a regras.
O Abismo, aparentemente, não. O Abismo come buracos negros como se fossem salgadinhos.
Tudo que é incompleto, imperfeito e indefinido está aqui. Pedra é gasosa, água é sólida e fogo é líquido. Cores são como frutos e o vento é vibração. O solo arenoso respira, vivo.
Lilith: “Esse é o meu povo”
Eu olho ao redor e penso:
Beto: “Como diabos eu construo uma casa num lugar onde a pedra não é sólida?”
Lilith: “Você queria construir.”
Beto: “ Eu não sabia que a matéria daqui tinha desistido de obedecer à física.”
Lilith : “Ela não desistiu.”
Lilith toca uma pedra.
Lilith: “Ela nunca começou.”
Um reino é um reino, ainda que desafie a geografia ou a cosmologia.
De imediato, eu descarto o livro de geometria euclidiana (assim como a física newtoniana). Felizmente eu li Lovecraft o suficiente para começar a ter um esboço. Que vai envolver a colaboração e concordância de cada uma dessas presenças.
Beto: “Lilith, por que eu preciso da concordância deles?”
Lilith : “Porque você quer construir aqui.”
Beto : “Mas você é a soberana.”
Lilith : “Sim.”
Lilith : “Então ordene.”
Lilith olha para ele.
Lilith: “Eu poderia.”
Beto: “E?”
Lilith : “Mas você não quer construir um lugar que obedeça a mim.”
Ela sorri.
Lilith : “Você quer construir um lugar onde meu povo queira permanecer.”
Primeira regra da arquitetura abissal: duas linhas paralelas podem se encontrar.
Segunda: uma parede pode decidir que prefere ser uma porta.
Terceira: nunca discuta com uma escada sobre qual direção é para cima.
Isso coloca um problema e um desafio extra. Convencer à "água" para irrigar as "plantas" e essas "pegarem do solo" o nutriente. Convencer aos "frutos" para brotarem de determinadas "plantas" depois que estás produzirem "flores".
Projeto: primeira horta do Abismo
Requisito nº 1: convencer a água a permanecer líquida.
Requisito nº 2: convencer o solo a fornecer nutrientes.
Requisito nº 3: convencer a planta a absorver esses nutrientes.
Requisito nº 4: convencer a flor a produzir fruto.
Requisito nº 5: convencer o fruto a nascer naquela planta específica.
E Lilith observando:
— Está com dificuldades?
— Sua água não quer cooperar.
— Ela não é minha água.
— Como assim?
— Ela é água.
— Então quem manda nela?
Lilith dá de ombros.
— Talvez ela mesma.
Quando finalmente aparece uma flor...
Beto fica emocionado.
— Conseguimos!
O solo respira.
A água vibra.
A flor se abre.
Um pequeno fruto começa a surgir.
Beto: “Lilith! Olha!”
Lilith observa: “Parabéns.”
Beto: “Funcionou!”
Lilith: “Não.”
Beto: “Como não?”
Ela aponta para o fruto.
Lilith: “Ele ainda precisa querer amadurecer.”
Eu estou ajudando a formar uma comunidade entre coisas que, no mundo humano, jamais seriam consideradas comunidades.
E quando a primeira árvore finalmente produz frutos espontaneamente, talvez Lilith não diga nada. Ela só colocou um fruto na minha mão.
Eu mordo. E percebo que o sabor não corresponde a nenhuma fruta que eu já conheci.
Porque aquilo não foi apenas cultivado.
Foi consensualmente criado.
E consensualmente a "planta" cede o "fruto" e o "fruto" aceita seu papel de comida.
Eu nem comecei o planejamento da pecuária.
Eu fiz um esboço da primeira cooperativa agropecuária. Pela lógica que eu estabeleci, não basta o animal existir. As presenças teriam que estabelecer uma cadeia de consentimento para que a relação ser vivo → alimento → alimentação seja possível.
E isso abre uma questão filosófica ótima: o que significa “comer” num lugar onde tudo possui algum grau de agência?
Beto : “Precisamos de animais domésticos.”
O silêncio do Abismo.
Uma criatura : “Para quê?”
Beto : “Leite e carne”
Uma criatura olha para ele.
Uma criatura : “Você quer que eu produza leite para vocês?”
Beto : “Sim.”
Uma criatura : “Por quê?”
Eu tento explicar o ciclo natural, a cadeia alimentar, mas para essas criaturas, os próprios conceitos de “existência”, de “vida”, de “morte” e “renascimento” são desconhecidos.
Beto: “Quando saíram do Abismo, tiveram que deixar algo para vir para esse limiar, certo?”
As criaturas parecem fazer algo parecido com raciocínio.
Beto: “O Abismo vai querer trazer de volta o que saiu dele. Mas ao estabelecer um ciclo entre vocês, onde se dá e se tira, talvez o Abismo não venha reclamar o que pertence ao Abismo.”
Lilith observa de longe.
Eu percebo que ela está séria.
Beto: “O que foi?”
Lilith: “Você acabou de descobrir alguma coisa.”
Beto : “Acho que sim.”
Lilith olha para o solo vivo.
Lilith: “Você está ensinando o meu povo a morrer.”
Eu estremeço.
Beto: “Não. Estou ensinando-os a…”
Eu procuro a palavra.
Beto: “...voltar.”
Aquilo que circula permanece.
Aquilo que é interrompido é reivindicado pelo Abismo.
Isso também resolve o problema anterior sobre alimentação. O fruto não “morre” para ser comido; ele cede sua forma, passa para outra existência e eventualmente retorna ao ciclo. A criatura não “perde” algo definitivamente; ela participa da circulação.
Eu, sem perceber, estou fazendo aquilo que as entidades mais antigas nunca fizeram: dei ao Abismo uma forma de vida que não existia antes.
Criado com a ajuda do ChatGPT.
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