quarta-feira, 28 de outubro de 2026

No limiar

Lilith me levou até a “casa” dela. Falar que só tem areia e pedras é superficial.

Alguma coisa… algo que não deveria existir… está aqui. Para usar um termo científico, eu estou no *horizonte de eventos* cósmico. Não porque seja exatamente isso. É apenas a coisa mais próxima que meu cérebro conseguiu encontrar. Só havia um problema.
Buracos negros obedeciam a regras.
O Abismo, aparentemente, não. O Abismo come buracos negros como se fossem salgadinhos.

Tudo que é incompleto, imperfeito e indefinido está aqui. Pedra é gasosa, água é sólida e fogo é líquido. Cores são como frutos e o vento é vibração. O solo arenoso respira, vivo.

Lilith: “Esse é o meu povo”

Eu olho ao redor e penso:

Beto: “Como diabos eu construo uma casa num lugar onde a pedra não é sólida?”

Lilith: “Você queria construir.”

Beto: “ Eu não sabia que a matéria daqui tinha desistido de obedecer à física.”

Lilith : “Ela não desistiu.”

Lilith toca uma pedra.

Lilith: “Ela nunca começou.”

Um reino é um reino, ainda que desafie a geografia ou a cosmologia.

De imediato, eu descarto o livro de geometria euclidiana (assim como a física newtoniana). Felizmente eu li Lovecraft o suficiente para começar a ter um esboço. Que vai envolver a colaboração e concordância de cada uma dessas presenças.

Beto: “Lilith, por que eu preciso da concordância deles?”

Lilith : “Porque você quer construir aqui.”

Beto : “Mas você é a soberana.”

Lilith : “Sim.”

Lilith : “Então ordene.”

Lilith olha para ele.

Lilith: “Eu poderia.”

Beto: “E?”

Lilith : “Mas você não quer construir um lugar que obedeça a mim.”

Ela sorri.

Lilith : “Você quer construir um lugar onde meu povo queira permanecer.”

Primeira regra da arquitetura abissal: duas linhas paralelas podem se encontrar.

Segunda: uma parede pode decidir que prefere ser uma porta.

Terceira: nunca discuta com uma escada sobre qual direção é para cima.

Isso coloca um problema e um desafio extra. Convencer à "água" para irrigar as "plantas" e essas "pegarem do solo" o nutriente. Convencer aos "frutos" para brotarem de determinadas "plantas" depois que estás produzirem "flores". 

Projeto: primeira horta do Abismo

Requisito nº 1: convencer a água a permanecer líquida.

Requisito nº 2: convencer o solo a fornecer nutrientes.

Requisito nº 3: convencer a planta a absorver esses nutrientes.

Requisito nº 4: convencer a flor a produzir fruto.

Requisito nº 5: convencer o fruto a nascer naquela planta específica.

E Lilith observando:

— Está com dificuldades?

— Sua água não quer cooperar.

— Ela não é minha água.

— Como assim?

— Ela é água.

— Então quem manda nela?

Lilith dá de ombros.

— Talvez ela mesma.

Quando finalmente aparece uma flor...

Beto fica emocionado.

— Conseguimos!

O solo respira.

A água vibra.

A flor se abre.

Um pequeno fruto começa a surgir.

Beto: “Lilith! Olha!”

Lilith observa: “Parabéns.”

Beto: “Funcionou!”

Lilith: “Não.”

Beto: “Como não?”

Ela aponta para o fruto.

Lilith: “Ele ainda precisa querer amadurecer.”

Eu estou ajudando a formar uma comunidade entre coisas que, no mundo humano, jamais seriam consideradas comunidades.

E quando a primeira árvore finalmente produz frutos espontaneamente, talvez Lilith não diga nada. Ela só colocou um fruto na minha mão.

Eu mordo. E percebo que o sabor não corresponde a nenhuma fruta que eu já conheci.

Porque aquilo não foi apenas cultivado.

Foi consensualmente criado.

E consensualmente a "planta" cede o "fruto" e o "fruto" aceita seu papel de comida.
Eu nem comecei o planejamento da pecuária.

Eu fiz um esboço da primeira cooperativa agropecuária. Pela lógica que eu estabeleci, não basta o animal existir. As presenças teriam que estabelecer uma cadeia de consentimento para que a relação ser vivo → alimento → alimentação seja possível.

E isso abre uma questão filosófica ótima: o que significa “comer” num lugar onde tudo possui algum grau de agência?

Beto : “Precisamos de animais domésticos.”

O silêncio do Abismo.

Uma criatura : “Para quê?”

Beto : “Leite e carne”

Uma criatura olha para ele.

Uma criatura : “Você quer que eu produza leite para vocês?”

Beto : “Sim.”

Uma criatura : “Por quê?”

Eu tento explicar o ciclo natural, a cadeia alimentar, mas para essas criaturas, os próprios conceitos de “existência”, de “vida”, de “morte” e “renascimento” são desconhecidos.

Beto: “Quando saíram do Abismo, tiveram que deixar algo para vir para esse limiar, certo?”

As criaturas parecem fazer algo parecido com raciocínio.

Beto: “O Abismo vai querer trazer de volta o que saiu dele. Mas ao estabelecer um ciclo entre vocês, onde se dá e se tira, talvez o Abismo não venha reclamar o que pertence ao Abismo.”

Lilith observa de longe.

Eu percebo que ela está séria.

Beto: “O que foi?”

Lilith: “Você acabou de descobrir alguma coisa.”

Beto : “Acho que sim.”

Lilith olha para o solo vivo.

Lilith:  “Você está ensinando o meu povo a morrer.”

Eu estremeço.

Beto: “Não. Estou ensinando-os a…”

Eu procuro a palavra.

Beto: “...voltar.”

Aquilo que circula permanece.
Aquilo que é interrompido é reivindicado pelo Abismo.

Isso também resolve o problema anterior sobre alimentação. O fruto não “morre” para ser comido; ele cede sua forma, passa para outra existência e eventualmente retorna ao ciclo. A criatura não “perde” algo definitivamente; ela participa da circulação.

Eu, sem perceber, estou fazendo aquilo que as entidades mais antigas nunca fizeram: dei ao Abismo uma forma de vida que não existia antes.

Criado com a ajuda do ChatGPT.

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