terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Chore por nós, Argentina!

Algo que deveria ser simples, o reconhecimento de direitos iguais para todos os cidadãos de um país democrático, cujo Estado é laico, tem provocado uma verdadeira guerra no Brasil, de ideias, claro.
Desde os meados dos anos 90, debatemos publicamente em nosso país a "união civil" entre pessoas do mesmo sexo. Há quinze anos, para ser mais exato, com o Projeto de Lei defendido por Marta Suplicy, iniciamos a questão - que é muito séria - em nossas terras. Desde 1995 nada mudou em relação à união entre pessoas do mesmo sexo no Brasil, pelo contrário, hoje em dia temos Projetos de Lei tramitando no Congresso Nacional que cerceia, ao invés de ampliar, os direitos civis das pessoas homoafetivas, como por exemplo, a PLC 7018, que tem por objetivo proibir a adoção de crianças e adolescentes por homossexuais.
Outro Projeto de Lei, menina dos olhos da militância LGBT, desde que foi eleita como bandeira principal do movimento, a PLC 122 até agora não anda, simplesmente emperrou, mesmo tendo passado por profundas modificações no texto original, visando a aprovação por parte da Frente Parlamentar Evangélica (FPE). O Pastor Silas Malafaia, o arauto dos evangélicos fundamentalistas homofóbicos, foi ao Congresso Nacional vociferar, como costuma fazer em seu programa diário, contra a PLC, chegando a ameaçar os candidatos que advogam as causas LGBT com o 25% do eleitorado evangélico. Não foi que deu certo?
Os três principais presidenciáveis - José Serra, Marina Silva e Dilma Rousseff - estão comendo na mão do eleitorado evangélico fundamentalista. Dilma Rousseff chegou ao ponto de firmar uma concordata com o Pastor Manoel Ferreira, líder de cinco milhões de fiéis das Assembleias de Deus (Ministério Madureira) que será a ponte entre a candidata e este eleitorado. Dilma rifou a união civil LGBT - dentre outras causas - dando sua palavra: se eleita, não tomará iniciativa junto ao Legislativo nas questões "caras" ao eleitorado fundamentalista, ou seja, não esperemos da futura presidente (?) nenhuma ação neste sentido!
Aliás, até agora não saiu da boca dos líderes do movimento LGBT brasileiro - cuja grande maioria é PT e apoia a candidata do governo - nem uma só palavra pública a respeito do assunto, nem mesmo uma crítica passageira, mesmo que de leve, o que demonstra quão turvas são as águas nas quais nadamos. Podemos dizer que o mesmo governo do Projeto Brasil sem Homofobia é o que rifou no balcão da negociata com um dos líderes fundamentalistas evangélicos, o povo LGBT. Eu desejo que o povo LGBT não se esqueça disso e que pressionem nossos líderes do movimento LGBT a tomarem posição clara e inequívoca no atual cenário, sob pena de perderem legitimidade junto ao povo que dizem tanto representar.
O silêncio dos líderes do movimento LGBT que apoiam Dilma Rousseff e que se alinham ao PT - penso eu - é fruto de oito anos de financiamento do movimento LGBT pelo governo Lula. O dinheiro investido que financia tantas causas nobres, como a questão da violência homofóbica, os projetos de prevenção contra o HIV/AIDS, o estabelecimento dos Centros de Referência para a população LGBT, o investimento financeiro das Paradas do Orgulho, culminando com a primeira conferência nacional LGBT para debater políticas públicas que distribuiu bolsas de viagem e alimentação para milhares de militantes LGBT; tudo isso, enfim, que de bom temos, neste momento é a mordaça do governo PT que cala a maioria dos líderes da militância.
Talvez seja esse o problema que compõe um dos lados dessa moeda que tem sido difícil de explicar - a aprovação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo na Argentina - pois aqui reside talvez a grande diferença entre um movimento LGBT autônomo e um movimento LGBT financiado por um governo: a instrumentalização deste e sua cooptação, que o torna refém e lhe cala a boca quando o contexto exige exatamente o contrário: que os líderes LGBT gritem e alto, pela igualdade de direitos civis.
Espanha, Portugal e agora Argentina, três países onde o poder da Igreja ainda se faz sentir, principalmente junto às massas, embora a credibilidade da Igreja esteja abalada por conta - amarga ironia - dos escândalos sexuais de pedofilia por parte do clero, aprovaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Aqui talvez encontramos a segunda grande diferença entre esses países e o nosso. Explico.
Entre nós, ainda sentimos o poder da Igreja Católica, contudo, desde os fins dos anos 80, cresce vertiginosamente no Brasil, a população evangélica de orientação fundamentalista, chegando a representar hoje 25% do eleitorado brasileiro, dado que nenhum político que visa a presidência do país pode, em sã consciência, ignorar, se quiser vencer e se instalar no Palácio do Planalto.
Por isso hoje estamos assim, vendo e ouvindo os principais presidenciáveis do país, seduzindo-os com promessas de não defender as bandeiras que eles desaprovam. Isso é medo de perder o voto evangélico.
Os representantes deste segmento no Congresso Nacional são aqueles sobre os quais escrevi na última coluna, aqueles que fazem um certo tipo de política que podemos classificar de "política teológica", ou seja, militam politicamente de acordo com suas doutrinas de fé. Como a maioria deles desaprova a orientação homoafetiva, trabalham eficazmente, até o presente momento, contra toda e qualquer reivindicação da população LGBT que visa igualar esta população aos demais cidadãos. Tais políticos conseguem, inclusive, a palavra da líder em intenções de voto para o cargo da presidência da República, de que se eleita, não tomará iniciativas pró-LGBT junto ao Legislativo!
Nossa vizinha Argentina possui um Senado composto por 72 senadores. Desses, 33 votaram à favor da aprovação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, 27 contra e 3 se abstiveram. A presidente Cristina Kirchner, não apenas defendeu publicamente o casamento homoafetivo, como criticou severamente a Igreja Católica, que na época da ditadura naquele país se postou ao lado dos ditadores, refrescando a memória do clero, sempre tão fugidia, que Direitos Humanos não é o forte deles, pelo menos naquele contexto.
O resultado, noticiado pelo mundo, foi a vitória dos Direitos Humanos, da democracia, do Estado Laico. A alteração de apenas uma palavrinha da lei que regulamenta os casamentos civis naquele país transformou-se na "Lei Áurea" de parte da população, que até aquele momento, era escrava maltratada da heteronormatividade. Desde então, os LGBT argentinos podem tanto quanto os heterossexuais argentinos. Isso é, realmente, a concretização do que aqui temos apenas no papel: "todos iguais diante da lei".
Enquanto isso, nas terras de Santa Cruz, muita Parada do Orgulho Gay, muitos Projetos como o Brasil Sem (não seria COM?) Homofobia, muitas conferências LGBT, muita ONG LGBT, muito debate, negociação, projetos e projetos e projetos... e o povo LGBT continua escravo maltratado da heteronormatividade, sempre rifado, sempre moeda de troca no balcão das negociatas e concordatas políticas!
Muitos se perguntam: o que há de errado no nosso país? Muitos perguntam aos quatro ventos: por que a Argentina conseguiu aprovar o casamento homoafetivo, enquanto que nós, brasileiros e brasileiras LGBTs lutamos há 15 anos e não conseguimos sair do lugar? Como que os países da Península Ibérica, tão culturalmente cristã como o Brasil conseguiu aprovar o casamento homoafetivo e nós não? Será o que acontece conosco?
Some as parcelas que aqui elenquei: crescimento exponencial da vertente fundamentalista evangélica, leia-se eleitorado, políticos covardes que para ganharem eleições rifam as bandeiras LGBT no balcão das negociatas com os evangélicos, militância LGBT financiada pelo governo, portanto, instrumentalizada e cooptada, e então você terá a resposta!
Diante desse quadro de trevas e águas turvas, peço: chore por nós, Argentina! Eu junto com vocês choro, primeiro de emoção, pela conquista de vocês; depois pelo meu povo LGBT brasileiro, que ao contrário de vocês, permanece escravo da heteronormatividade, do mau uso das Escrituras Cristãs, de políticos covardes e de uma militância LGBT instrumentalizada. Contudo, como profeta, ergo minha voz, na esperança de ver vencido o cativeiro que nos escraviza.
Autor: Márcio Retamero, recebido por e-mail.
Texto resgatado com Wayback Machine.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Novela cotidiana

Deu no jornal virtual "A Bola":

O Instituto Sangrai denunciou, este domingo, que uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil. A organização não-governamental brasileira fez ainda saber que a maioria das mortes está relacionada com violência doméstica, noticia O Globo.
Um estudo levado a cabo por aquela entidade revela registos morte de 41.532 jovens e mulheres adultas, entre 1997 e 2007. Destas, 40 por cento tinham entre 18 e 30 anos. Nos casos de violência domestica, os filhos são normalmente testemunhas do crime.
O Brasil é o 12.º país onde há registos de mais homicídios de mulheres. A Secretaria de Políticas para as Mulheres tem dados que permitem saber que houve um aumento de cem por cento de denúncias de violência contra as mulheres no mesmo período.

Ou seja, a cada duas horas uma Mercia, uma Eliza são vítimas da violência. Mas a Imprensa não noticia estes casos. Por que, então, apenas o caso da Mercia e da Eliza ganharam espaço na Mídia a ponto de se tornar a nossa novela cotidiana?
Mercia mereceu sair do limbo das estatísticas porque é uma mulher de classe média, advogada e linda. O caso ganhou destaque nacional não por causa dos detalhes divulgados, mas porque seu principal acusado é um homem que possui um nivel social e educacional menor. Sem falar que é pardo e ex-policial.
Eliza mereceu sair do limbo exatamente por que o principal acusado é uma celebridade, um jogador de futebol com centenas de admiradores. E tudo o que se comenta dela é que ela fez filmes pornôs, que participou de orgias, que era uma "maria chuteira", uma "oportunista", que "se deu mal" ou que "achou o que procurava". Eliza foi duplamente assassinada.
A Imprensa apenas reforça a misoginia e a violência institucionalizada contra a mulher, esse ginocídio que tem raízes em nossa cultura patriarcal. E porquê não? Afinal, tragédias e crimes são o que mais vendem notícias. E o brasileiro acompanha a cada dia os capítulos dessa novela cotidiana, enquanto outras mulheres menos afortunadas continuam sendo vítimas da violência física e sexual.
Texto resgatado com Wayback Machine.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Noites selvagens dos padres

O Vaticano acusou uma revista italiana de provocar um escândalo e desacreditar a Igreja Católica ao publicar nesta sexta-feira uma reportagem sobre sacerdotes homossexuais.
Destaque na capa do semanário Panorama, de tendência conservadora, o artigo intitulado As Noites Selvagens dos Padres Gays diz que padres da capital italiana teriam uma vida dupla ao rezar missas pela manhã e freqüentar festas e ambientes homossexuais à noite.
Durante 20 dias um repórter, cujo nome não foi publicado pela revista, percorreu bares e discotecas romanos frequentados por homossexuais. Com uma câmera escondida, ele documentou o comportamento dos supostos sacerdotes, inclusive durante relações sexuais.
Algumas das fotos foram publicadas para ilustrar o artigo, que traz declarações de sacerdotes e seminaristas cuja identidade foi mantida em sigilo.
Segundo o artigo, um dos pontos de encontro dos padres homossexuais da capital seria a discoteca Gay Village, onde um seminarista teria declarado ao repórter que "a Igreja pesca os próprios filhos no ambiente homossexual".

'Dor e surpresa'

"A finalidade do artigo é evidente: criar escândalo, difamar todos os sacerdotes com base na declaração de um dos entrevistados, segundo a qual 98% dos sacerdotes que ele conhece são homossexuais, e desacreditar a Igreja", diz uma nota divulgada pelo Vigariado de Roma sobre a reportagem.
"Os fatos contados provocaram dor e surpresa na comunidade eclesiástica de Roma, que conhece bem seus sacerdotes. Eles conduzem uma vida feliz e coerente com a vocação de testemunhar o Evangelho e o modelo de moral para todos."
O diretor da revista, Giorgio Mulè, se defendeu das criticas do Vaticano, dizendo que a reportagem é bem documentada.
Ele declarou ao jornal Il Giornale que pode fornecer nome completo e endereço dos padres que foram filmados durante ato sexual.

Estrangeiros

Na nota do Vigariado, o Vaticano defende os cerca de 1,3 mil sacerdotes de Roma da acusação de vida dupla. Segundo as autoridades eclesiásticas, eles se dedicariam a testemunhar o Evangelho.
Por outro lado, o Vaticano lança dúvida sobre a comunidade de padres estrangeiros que vivem na capital italiana, para onde vêm sobretudo para estudar em Universidades Católicas.
"Em Roma vivem muitas centenas de padres provenientes de todo o mundo para estudar, mas que não são do clero romano nem estão empenhados na pastoral", afirma a nota.
Recentemente, o Vaticano anunciou que iria fazer uma inspeção junto aos sacerdotes estrangeiros da capital, sem oferecer mais explicações sobre o motivo de tal verificação.
A carta do Vigariado pede que os padres homossexuais assumam seu comportamento e deixem o sacerdócio, ao mesmo tempo em que promete maior vigor no controle do clero.
"Ninguém os obriga a permanecer padres, desfrutando apenas dos benefícios. Deveriam ser coerentes e se expor. Não queremos seu mal, mas não podemos aceitar que por causa do comportamento deles a honra de todos os outros seja lesada."
Fonte: O Globo

Nota da casa: Até quando os Católicos vão manter essa farsa e hipocrisia? Apostasia Já!
Texto resgatado com Wayback Machine.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Ensino religioso estimula preconceito

As aulas de ensino religioso nas redes públicas de ensino do País utilizam livros com conteúdo preconceituoso e intolerante, afirma um estudo da Universidade de Brasília (UnB) que analisou as 25 obras temáticas mais usadas nas escolas.
Pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, o ensino religioso nas escolas deveria garantir "o respeito à diversidade cultural religiosa, vedadas quaisquer formas de proselitismo". Segundo a pesquisa, "Laicidade e o Ensino Religioso no Brasil", ocorre o contrário: as publicações estimulam homofobia; impõem o cristianismo (em especial o catolicismo); não destacam religiões afro-brasileiras e indígenas; ignoram pessoas sem religião e estigmatizam a pessoa com deficiência.
De acordo com a pesquisa, alguns livros relacionam o nazismo com falta de religião, afirmam que a ciência só é legítima quando "ligada à ética e a Deus" e criticam o homossexualismo.
Alguns números do levantamento comprovam o cenário alarmante. Das 192 vezes em que algum líder religioso e secular foi citado nas obras, Jesus Cristo apareceu em 81 delas. Líderes indígenas e Moisés, por exemplo, apareceram apenas uma vez cada um. As referências aos grupos religiosos também não apresentam equilíbrio. Predominam as religiões cristãs (65%).
Para Debora Diniz, coordenadora da pesquisa, falta controle do Ministério da Educação sobre os livros de ensino religioso. "O MEC avalia livros de todas as disciplinas, por que não avaliar esses? Isso abre espaço para discriminação religiosa e interfere na formação dos cidadãos."
Fonte: Estadão

Preconceito e intolerância fazem parte da lição de casa de milhares de alunos brasileiros, afirma o livro "Laicidade: O Ensino Religioso no Brasil", lançado na última terça-feira (22) na Universidade de Brasília (UnB). O estudo analisou as 25 obras mais usadas para a disciplina nas escolas do governo federal.
“O estímulo à homofobia e a imposição de uma espécie de ‘catecismo cristão’ em sala de aula são uma constante nas publicações”, afirma uma das autoras do trabalho, a antropóloga e professora Débora Diniz.
Segundo a lei que regulamenta a disciplina, 945 de 1997, as escolas públicas brasileiras podem oferecer aulas de ensino religioso. Mas não devem favorecer nenhuma crença, e sim apresentar aos estudantes as diferentes fés, respeitando a diversidade cultural e religiosa do Brasil.
Mas segundo a pesquisa, não é o que acontece na prática. Jesus Cristo aparece 12 vezes mais que o líder budista Dalai Lama e 20 vezes mais que Lutero, referência intelectual para o Protestantismo, nas obras mais compradas pelas escolas federais. Calvino, outra referência protestante, nem mesmo é citado.
“Há uma clara confusão entre o ensino religioso e a educação cristã”, afirma Débora Diniz. A antropóloga reforça a imposição do catecismo: “Cristãos tiveram 609 citações nos livros, enquanto religiões afro-brasilieras, tratadas como ‘tradições’, aparecem em apenas 30 momentos”.
HOMOFOBIA
“Desvio moral”, “doença física ou psicológica”, “conflitos profundos” e “homossexualismo não se revela natural” são algumas das expressões usadas pelos livros escolares para se referir a quem se relaciona com pessoas do mesmo sexo. A pesquisa destacou ainda um exercício que traz a bandeira das cores do arco-íris e traz com a seguinte questão: “Se isso se tornasse regra, como a humanidade iria se perpetuar?”.
A pesquisa ainda sugere que os livros didáticos criam um ambiente de intolerância contra quem não tem religião. Em uma das obras analisadas, uma pessoa sem religião é relacionada ao nazismo. “Sugerem que um ateu pode ter comportamentos violentos e ameaçadores”, observa. “Os livros usam generalizações para levar a desinformação e pregar o cristianismo”, completa a especialista.
Para Tatiana Lionço, psicóloga e co-autora do estudo, uma das causas dos problemas é a falta de rigor para a seleção dos livros. Ela explica que, antes de chegar às mochilas, todo material didático, exceto os de religião, passa por avaliação do Programa Nacional do Livro Didático.
“Não há qualquer tipo de controle. O resultado é a má formação dos alunos”, opina Tatiana. “Se o Estado deveria ser laico, por que ensinar religião nas escolas?”, questiona.
“Se a religião for tratada na sala de aula, tem de ser de forma responsável e diversificada”, defende. As 112 páginas da publicação, lançada pelas editoras UnB e Letras Livres, ainda conta com a contribuição da assistente social Vanessa Carrião, do instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero.
Fonte: Guia do estudante

Nota da casa: Lamentável. Os nossos governantes perdem a melhor oportunidade para tornar o Brasil um país maduro.
Texto resgatado com Wayback Machine.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Lançada revista gay em árabe

"Mithly" não é uma revista como as outras, mas não porque deve ser lida da direita para a esquerda. Lançada em abril, é a primeira revista gay a circular em árabe num país de maioria muçulmana, o Marrocos. O pioneirismo conseguiu uma divulgação inédita para a causa, mas vem causando polêmica nos jornais locais e o silêncio do governo do rei Mohammed 6º. No país, "atos licenciosos ou contra a natureza cometidos com indivíduos do mesmo sexo" podem ser punidos com prisão de seis meses a três anos, além de eventuais multas.
O site da revista (mithly.net), em árabe, já atingiu, desde sua criação, mais de 1 milhão de visitantes únicos, segundo Samir Bergachi, redator-chefe da "Mithly". Mas o fenômeno mesmo é que os 200 exemplares impressos em Madri e distribuídos em Rabat, a capital marroquina, de mão em mão, gratuitamente, na mais rigorosa clandestinidade, viraram notícia na Europa e nos EUA. O impacto do papel e de ser escrito em árabe clássico deu destaque internacional à revista, que deixou de ser uma rede de militância na internet para se tornar um instrumento de ação política inédito no mundo islâmico.
Para batizar a revista, foi necessário também sustentar o uso de um termo novo. "Homossexual" não tem equivalente em árabe, a não ser os pejorativos "zamel" (efeminado) ou "chaddh" (perverso). "Mithly" -- em tradução literal, "igual a mim" -- ganhou o que os especialistas chamam de "nova carga semântica", quando um sufixo ("y") amplia o significado de uma palavra já existente ("mithl", igual).
A publicação é iniciativa da associação Kif Kif, legalizada em 2005 na Espanha. Mais do que uma rede de contatos entre compatriotas gays de Madri, Paris, Roma e Montréal, os fundadores, todos marroquinos expatriados, pretendiam interferir na vida do país que deixaram para trás. A sede da organização em Rabat tem três mil inscritos, segundo seus líderes. A identidade dos associados permanece escondida; a Kif Kif nem sequer é legalizada no país. "O governo não responde nossas cartas", diz Bergachi, estudante de jornalismo da Universidade Complutense de Madri. "O que temos é o silêncio."
Escritórios fora do Marrocos, com 50 a 60 militantes em média, captam pequenas doações que, sozinhas, mantêm o site, a consultoria legal e, mais recentemente, a revista "Mithly".
Num projeto gráfico simples e com apenas 20 páginas, a revista não faz provocações nem procura atrair leitores com consumismo, pornografia ou "nus artísticos". Engajado, o primeiro número traz um artigo sobre o Dia Internacioial da Mulher, testemunhos de homossexuais que "saíram do armário", repercute as manifestações públicas contra o show do cantor britânico Elton John no festival Mawazine, em Rabat, e traz um conto do escritor Abdellah Taïa.
O marroquino Taïa, 36, vive autoexilado em Paris há dez anos. Por escrever em francês, alcançou boa projeção no circuito literário internacional: publicou três romances por uma das grifes do livro francês, a editora Seuil. Participa de festivais literários internacionais, como o Beiruth 39 (com 39 autores de menos de 39 anos, selecionados pela Unesco), e o mais famoso de todos, o de Hay-on-Wye, no Reino Unido (que começou no dia 27). Os romances de Taïa são todos autobiográficos, ficção misturada às memórias de sua vida na pequena cidade de Salem. Até mesmo no Marrocos, onde a Unesco registra 50% de analfabetismo, os livros de Taïa vendem bem: segundo ele, "Le Rouge du Tarbouche" ["O vermelho do turbante"] vendeu 15 mil exemplares. Como ele diz, é "muito, muitíssimo". Dificilmente os escritores brasileiros com sua idade e projeção atingem esse resultado.
Taïa é um ícone gay no Marrocos desde que, em 2007, foi capa da revista semanal de informação "Tel Quel", editada em francês. Com tiragem de 20 mil exemplares -- apenas 100 vezes a da "Mithly" --, é a mais progressista do país e acaba de ganhar uma irmã em árabe. Além de expor-se numa entrevista, Taïa publicou o texto "A homossexualidade explicada à minha mãe".
E por quê? "Porque nós, homossexuais, estamos emprestando a voz a uma sociedade que está presa no silêncio de uma ditadura." A situação é parecida nos outros países da África do Norte. Na Argélia, "todos os culpados de atos homossexuais são punidos com dois meses a dois anos de prisão" (artigo 338 do Código Penal), além de multa. Na Tunísia, o artigo 230 do Código Penal prevê prisão de até três anos por "sodomia consentida entre adultos". Como em inúmeros outros exemplos ao redor do mundo, os gays marroquinos são os primeiros a reagir à repressão moral -- que eles também foram os primeiros a sofrer.
Embora escorada na tradição, a atual cultura repressiva nos países muçulmanos é um dado cultural relativamente novo, associado à recente islamização política. Abdellah Taïa cita o poeta árabe Abu Nuwas (756-814), que escrevia cânticos de amor aos rapazes. "É um clássico, e ainda é estudado nas escolas públicas", diz ele. "Todos sabem que era homossexual."
O mesmo acontece com Al-Jahiz (781-869), que escreveu um livro sobre "efebos e cortesãs", "um diálogo entre homens que amam mulheres e homens que amam homens". Nas "Mil e Uma Noites" (os manuscritos datam dos séculos 9º ao 18), não faltam histórias que narram, metaforicamente, relações de amor sensual entre pessoas do mesmo sexo. Não se trata de querer ver uma linhagem gay na tradição literária árabe. Segundo Mamede Mustafa Jarouche, 47, que assina a mais recente tradução brasileira do "Livro das Mil e Uma Noites" (Editora Globo) e dá aulas de árabe na USP, "nos tratados eróticos clássicos, e em boa parte da narrativa literária, não há exatamente uma visão essencialista sobre a escolha do parceiro". Jarouche, que morou no Cairo, conta que, em 2000, uma editora do governo egípcio teve a gráfica invadida por fundamentalistas que rasgaram livros de Abu Nuwas, que viveu, vale repetir, no século 8. E em 2001, na feira do livro do Cairo, houve uma tentativa de censurar a tradução árabe de "A sexualidade no Islã" (1975), do tunisiano Abdelwahab Bouhdiba, publicado no Brasil pela editora Globo.
Para a comunidade islâmica do Brasil, a tentativa de moralizar a literatura é uma volta aos "critérios claros" da religião. Um de seus líderes, o xeque Jihad Hassan Hammadeh, 44, diz que não há margem para dúvida na interpretação da lei corânica. "Homossexualidade é proibida, é pecado."
Nascido na Síria e vivendo em São Paulo desde 1991, o xeque não comenta os casos que ocorrem na comunidade islâmica que dirige. Mas não deixa de ser um tanto brasileira a solução que propõe: para ele, a religião dá ao crente a possibilidade de não divulgar seu pecado, para que haja espaço para voltar atrás. Assim, o acerto de contas acontecerá entre o fiel e Deus. "Se pecou, não divulgue."
Os marroquinos da "Mithly" estão divulgando, e além da repressão do Estado, recebem objeções intelectuais: publicar uma revista gay poderia ser um programa elitista e ocidental.
Paulo Hilu Pinto, 42, antropólogo da Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista na Síria contemporânea, enxerga o risco de "colonialismo militante" que pode haver na iniciativa. "O movimento gay organizado é libertador para quem?", questiona. "Um morador da periferia, que faz sexo com parceiros do mesmo sexo, pode nunca ter se enxergado assim." Hilu Pinto acredita que, com a moral religiosa, o gay pobre acaba se vendo como pecador. Os editores da "Mithly", de fato, pertencem a uma elite intelectual que mora e estuda na Europa. Os escassos 200 exemplares que circularam na capital marroquina não deixam de ser um sinal de elitismo, embora a íntegra da revista esteja disponível (e de graça) na internet. Mas não importa a tiragem: a mera existência da revista já é um respiro no abafado ambiente cultural do Marrocos.
O sociólogo marroquino Mohammed Mezziane, 47, afirma que a "Mithly" não propõe uma ruptura com o Estado ou com a religião. Pelo contrário, seu objetivo é integrar o discurso homossexual na vida do país. Cautelosos, os editores da revista ainda não reivindicam os temas da pauta ocidental, como o casamento gay ou as pensões e planos de saúde para parceiros do mesmo sexo.
O número 2 da "Mithly" sairá nesta terça, 1º/6, apenas na internet, com reportagem sobre o alto índice de suicídio entre os homossexuais. O terceiro número está prometido para o papel: julho é o mês do orgulho gay, e também é o aniversário de cinco anos da associação Kif Kif. Os editores preparam uma reportagem sobre o lesbianismo no mundo árabe, história ainda mais escondida. Samir Bergachi, o redator-chefe, diz que quando os tradicionalistas querem mostrar os riscos da descriminalização da homossexualidade no Marrocos, exibem imagens do Carnaval carioca.
A associação Kif Kif, segundo Bergachi, foi convidada para participar do congresso internacional de direitos LGBT, em 2011, no Rio de Janeiro. "Finalmente vou conhecer o Rio", comemora.
Autora: Izabela Moi
Fonte: Folha de SPaulo

Nota da casa: Uma versão arco-íris para a Revolução Islâmica. Em bom tempo, quem sabe assim os brimos descobrem que existem mais cores além do preto-e-branco.
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Análise do discurso racista/xenófobo

O que há em comum entre o racismo e a xenofobia são suas motivações psicológicas. Com uma colagem de textos, eu vou dar primeiro algumas definições.

A xenofobia é um dos fenômenos mais presentes na história e também um dos mais característicos de nossa sociedade. Em uma definição mais geral, pode-se dizer que é uma aversão pelo que é diferente, pelo outro, que geralmente nos assusta com sua alteridade. Mas é também um termo usado para denominar um transtorno psiquiátrico que gera um medo excessivo, sem controle algum, ao que é desconhecido – objetos ou pessoas. Este conceito também se estende, de forma um tanto polêmica, a qualquer discriminação de ordem racial, grupal – em referência a grupos minoritários – ou cultural.
O repúdio a culturas diferentes geralmente traz em sua essência o ódio, a animosidade, o preconceito, embora este possa provir também de outras raízes, como opiniões preconcebidas sobre determinados grupos ou coletividades, por pura falta de informação sobre eles; conflitos ideológicos que envolvem crenças em atrito, causados por um choque conceitual; motivações políticas e outros tantos fatores.
Em seu sentido mais restrito, a xenofobia tem como principal sintoma um medo descomedido e desequilibrado do desconhecido. Exclui-se assim o temor em seu aspecto natural. Deste ponto de vista, ela é considerada uma doença, causada por uma ansiedade de teor significativo, desencadeada após um período de exposição a um contexto ou a um objeto desconhecido e, por isso mesmo, assustador.[Info Escola]

A criança pequena em certos momentos mostra estranhamento diante de um rosto desconhecido. Com o processo de socialização, aprenderá a separar o "nós" (o que lhe é familiar) do outro (o que lhe é desconhecido). Vai ampliando o campo "familiar", mas sempre permanecerá nela algo desconhecido do qual não consegue se separar e representar. Na criança, portanto, permanecem restos não identificados e não simbolizados que lhe causarão estranheza e podem ser figurados como estrangeiro. Contudo, para a xenofobia infantil transformar-se em racismo é necessário o suporte do discurso racista.
O preconceito é um fenômeno psicológico e um produto da cultura. Está relacionado a mecanismos de defesa que sustentamos para afastar ameaças imaginárias. Quanto maior a nossa identificação com as características das pessoas que discriminamos, maior a força do preconceito. A criança internaliza atitudes preconceituosas dos pais com os quais se identifica. A escola, o grupo social e a mídia também são fontes de preconceito. Quanto menos praticarmos o exercício do pensamento e da reflexão, maior a necessidade de nos defendermos de pessoas e coisas que nos causam estranheza.
Outra relação fundamental para entendermos o preconceito é a sua associação com a paranóia. Como se institui a paranóia? Uma das teorias é fornecida pela psicanálise de Jacques Lacan. Na criança, o "eu" que marca a sua identidade é formado por volta dos 18 meses pela identificação e internalização do "eu" da pessoa que cuida - geralmente a mãe - deste pequeno ser, frágil e totalmente dependente. Este "eu", a princípio, é corporal. A criança que até essa idade apresenta percepções fragmentadas do próprio corpo vai constituir sua imagem corporal de forma integrada identificando-se pela incorporação da figura materna.
Porém, o "eu" estrangeiro nunca vai totalmente se integrar. Daí, sempre vão conviver dois "eus" no sujeito humano que estarão sempre em conflito. Se houver cisão interna e um deles for rejeitado e projetado para fora, poderá tornar-se discriminado e perseguidor. Ou seja, o sujeito coloca no outro seus próprios aspectos negativos para transformá-lo em vítima do preconceito e/ou perseguidor. A xenofobia e a paranóia, então, provêm das mesmas origens. Portanto, para falar sobre preconceito temos de pensar em nós mesmos como fontes alimentadoras.[Terra Magazine]

Em outros tópicos deste blog eu comentei a minha consternação em ver neopagãos fazendo discursos em defesa da "estirpe" e da "raça", como em "O perigo da ideologia política", "Gens e ethnos" e "Fantasmas do passado". Em termos gerais, fica claro que esses discursos são demonstrações de histeria, neurose e paranóia. Se levarmos em consideração que foi encontrado DNA de Neandertal em nosso DNA, se levarmos em consideração os fatos históricos e antropológicos, todos nós somos mestiços e descendentes de imigrantes, o que derruba todo esse mito moderno da "estirpe".
Texto resgatado com Wayback Machine.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Lavanderia Vaticano

–1. O papa Joseph Ratzinger, na próxima semana, deverá sentir odor de dinheiro sujo, ao tomar contato com uma carta rogatória que será enviada ao estado do Vaticano. Acostumado ao odor de santidade emanados dos altares, Ratzinger poderá ter náuseas.
A rogatória será expedida pelo estado italiano, por solicitação de magistrados do Ministério Público de Perúgia. Ratzinger, talvez, se assuste com a volta, para o Vaticano, dos fantasmas de Roberto Calvi e Michelle Sindona, conhecidos como banqueiros de Deus e da Máfia.
Não foi sem causa ter Ratzinger dito, no domingo passado (16/5/2010), que “o pecado na Igreja é o verdadeiro inimigo a se combater”.
Como se percebe, Ratzinger vive tempos difíceis. No domingo passado, contou com o apoio de 200 mil fiéis, na na praça de São Pedro. Tratatou-se de uma rede de solidariedade diante das suspeitas de ter Ratzinger, para evitar escândalos a macular a Igreja, se omitido diante de casos de clérigo pedófilos.
–2. A primeira carta rogatória cuida de (1) lavagem de dinheiro sujo por meio de instituições religiosas e (2) de movimentações em contas-correntes no banco do Vaticano, conhecido por “Instituto per Le Opere Religione” (IOR), nascido após o escândalo do banco Ambrosiano, onde pontificaram os supracitados Roberto Calvi e Michelle Sindona.
–3. Na mira dos magistrados de Perúgia estão a ‘Congregazione Missionari del Preziossimo Sangue di Gesù’ e a ‘Propaganda Fide’, esta fundada em 1622 para cuidar da evangelização dos povos. A ‘Propaganda Fide’ detém um patrimônio imobiliário no centro histórico de Roma avaliado em 9 bilhões de euros.
Da rogatória poderão constar, também, pedidos de quebras de segredos bancários dos monsenhores Francesco Camaldo e de Evaldo Biasini, respectivamente com 60 e 83 anos de idade.
–4. Os magistrados de Perúgia investigam concessões de obras e serviços públicos a favorecer uma “cricca” (bando) comandada pelo construtor Diego Anemone e pelo engenheiro Angelo Balducci, correntista do IOR, membro leigo da ‘Propaganda Fide’ e ex-presidente do Conselho Superior de Obras Públicas da Itália. Segundo as investigações, a Construtora Anemone já restaurou imóveis da ‘Propaganda Fide’, além de reformas de igrejas.
–5. Em troca de favores, a Construtora Anemone (dois irmãos são sócios), por prestações, trocava concessão de obras públicas por apartamentos de luxo ou feituras de via reformas estruturais e decorativas.
Segundo os magistrados de Perúgia, os beneficiários seriam políticos, prelados e altos funcionários públicos, como, por exemplo, o general Francesco Pitorru, carabineiro lotado no serviço secreto e que levou dois apartamentos, e Ercole Incalca, o homem forte do ministério da Infraestrutura.
–6. Diego Anemone, o mais exposto dos irmãos, também cuidava de prestar favores sexuais. Estes eram prestados nas magníficas e luxuosas instalações do Salaria Sport Village, um centro de relaxamento pertencente a Anemone, com duas brasileiras no quadro de empregados: Monica da Silva Medeiros, fisioterapeuta, e a promoter Regina Profeta.
–7. O monsenhor Camaldo goza de prestígio na alta sociedade italiana, tem blog, facebook e recita orações no You Tube. Camaldo, em função religiosa, é quem coloca o solidéu na cabeça de Ratzinger, estica-lhe os paramentos e segura o microfone. Como escriturário, Camaldo participa do secreto conclave de eleição do papa e elabora a ata.
Para Laid Hidri Fathi, motorista tunisiano do construtor, Camaldo abriu as portas do Vaticano para a dupla Anemone e Balducci. Sem saber que estava na mira das investigações, Camaldo, quando da prisão preventiva de Balducci, deu declarações à imprensa: “ É uma pessoa de absoluta transparência moral, conhecida e estimada no Vaticano”.
–8. O monsenhor Biasini, responsável pela direção financeira da Congregazione Missionari del Preziossimo Sangue di Gesù, fez dela, como confessou, um caixa 2 da construtora de Anemone.
–9. Um novo filão de apurações começará em breve, segundo vazado da procuradoria de Perúgia. Trata-se de suspeita de roubalheira no Ano Jubilar, onde o Estado italiano e a Igreja mantiveram parceria.
Fonte: Walter Maierovitch

Nota da casa: A "capivara" do Vaticano está aumentando: de omissão e negligência (para não falar coisa pior) com os casos de lavagem de dinheiro, corrupção, concussão, prevaricação.
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