domingo, 5 de julho de 2026

Quarta sagração

Fraternitas
Hino do Cordeiro ao Leão

Bom e querido amigo!
Enfim posso em teus braços descansar,
Recarregar em teu leito,
A força e a coragem.

Por tempos fui sufocado
Por uma armadura,
Pelo cargo de general,
Pelo oficio da batalha.

Buscando na guerra,
Esquecer essa paixão,
O maior enganado era eu!

Cercando-me de louvores e adoração,
Provocando a discórdia e o preconceito,
Mas o pior admirador masculino
É aquele que usa a máscara do macho.

Muitas ovelhas eu arrebanhei,
Mas apenas aos Apóstolos me aproximei.

Agora deixo o rebanho
Aos cuidados do Lobo
E que os que me seguem
Que conquiste seu Leão.

Cumplicidade
Hino do Leão ao Cordeiro

Venha, sem demora!
Não faz idéia da dor
Que a cada chamado ignorado
Tu me causavas ao coração.

Por tantas vezes me ofendia,
Dirigindo suas flechas
Ao invés de seus carinhos,
Perseguindo a minha gente,
Como se não fossemos irmãos!

Venha, para reavivar a paixão
E que esse eterno amor
Possa servir de exemplo
E as pessoas se lembrem
Das palavras do profeta da carne.

Toda existência é divina,
É macho e fêmea,
Ambas e nenhuma.

Que os fanáticos descubram
O verdadeiro sentido
Do amor que ensinaste:

Amor sem restrição,
Paixão sem forma,
Prazer sem culpa.

Memória
Hino dos Deuses ao Cordeiro

Frágil e fraca criança!
Por nossa imensa bondade
Nós mantivemos a lei,
Apesar de seus ávidos esforços.

Da fúria religiosa,
Protegemos a saúde do Leão
E o futuro das criaturas.

Dispensamos pelo mundo
O guarda e vingador máximo,
O que entrega franca e livremente,
A Lei da Vida a toda gente
E, na forma do Lobo,
Resgata as ovelhas da ignorância.

Mas não é tempo e momento
De julgamentos e condenações,
Este oficio é de tua estação,
Agora reina a Primavera!

Entre sem receio,
Misture-se na festa,
Brinde com seu Leão
E sorria com o Lobo
Alegre-se e viva!

Responsabilidade
Hino dos Deuses ao Leão

Bendito seja, verdadeiro rei,
Aquele que lidera sem oprimir,
O que toma a paixão por nobreza,
O que faz do amor autoridade
E põe o prazer no trono.

Bendito seja, amor manifestado,
Arrebatador, incondicional,
Divulgador e promotor da lei,
Entrega-se aos devotos
Mais amor que estes exprimem.

Lembre ao Cordeiro a verdade
E mostre às ovelhas a forma,
Ao Lobo abra caça à castidade
E aos Apóstolos proíba a homofobia.

Que a toda criatura,
Veja, sinta e desfrute
A plenitude da Vida!

Defesa
Hino do Cordeiro aos Deuses 

Anciões da Eternidade!
O tempo do Inverno
É pesada lembrança
De meu cruel oficio.

Tudo que eu trouxe
Foi medo, ódio e guerra.

Por ser luminoso como vós,
Tornei tudo ao meu redor
Em sombras densas
Para destacar meu brilho,
Eis meu orgulho e vaidade!

Quis converter a todos e,
Para disfarçar meus defeitos,
Impus aos crentes ordem e disciplina.

Os cânticos me elogiam,
Os homens me clamam,
Eu sou o Messias.

Mas diante do Sol,
Mostro minha verdadeira face,
Eu sou a Estrela Dalva,
A Estrela Vespertina.

Eu apenas sou um luzeiro,
Diante do fogo do Amor!

Coragem
Hino do Leão aos Deuses 

Fraco eu sou também
E indigno de uma coroa,
Feliz em receber amor,
É imperativo distribuir.

Nada fiz de extraordinário,
Apenas segui a vontade natural.

Debaixo do Amor,
Estou sob as ordens do menor
E rendido ao vencido.

Ainda que seja objeto de escárnio,
Eu sempre hei de amar o Cordeiro.

Nosso amor não enxerga diferença,
Somos ativos e passivos,
Vivemos nosso lado feminino
Para elogiar nosso lado masculino.

O macho é figura em extinção,
Todo herói sabe-o bem,
Mais coragem se exige
Em desafiar infundado preconceito.

*Da obra Sarcanomia, de minha autoria*

Demogonia X


Eu sei o que é fúria e raiva. Diversas vezes eu perdi o controle. Parece irônico que os ferreiros de Gag Shelah vão refinar o controle e a disciplina pessoal.

Esse parêntese é, na verdade, a chave de abóbada de toda essa iniciação. Não há ironia real, há apenas o paradoxo perfeito da alta alquimia.

Quem nunca perdeu o controle, quem nunca sentiu a fúria cega estraçalhar a própria lucidez, não tem nada para levar à bigorna. Levaria apenas metal frio, frágil e incapaz de cortar. Você conhece a fúria que destrói o próprio hospedeiro, aquela que cega e deixa apenas o rastro do arrependimento ou da ressaca existencial.

O silêncio do canal que você se tornou absorve essa verdade enquanto nos movemos em direção ao som rítmico dos martelos.

O plasma vermelho-rubi de Golachab ainda escorre da minha pele, mas o calor agora muda de natureza. Deixamos o incêndio desordenado para trás e entramos sob as abóbadas de pedra negra de Gag Shelah. O som é uma pulsação telúrica: Clang. Clang. Clang.

A ironia morde a minha mente, e eu a manifesto no escuro: eu, que tantas vezes perdi o controle na vida, que conheço o gosto amargo da raiva que consome a si mesma e destrói o que está ao redor, estou aqui buscando os ferreiros da disciplina.

Lilith caminha ao meu lado, e seus olhos refletem as faíscas que saltam das bigonhas monumentais operadas por sombras ciclópicas. Ela ouve o meu pensamento e aperta o meu braço com uma firmeza que deita por terra qualquer dúvida.

“Não há ironia, Roberto. Há apenas maestria”, ela diz, e sua voz se sintoniza com o ritmo dos martelos. “Os deuses do topo ensinam que a disciplina é a anulação do desejo. Eles querem que você seja um monge castrado, uma ovelha mansa que confunde apatia com paz. Eles usam a 'disciplina' para congelar a sua força.

Mas os ferreiros de Gag Shelah não são os monges da ordem. Eles são os senhores da guerra do Caos.

Eles não controlam a fúria para apagá-la. Eles controlam a fúria para que ela não seja desperdiçada. A raiva que você sentia antes era como pólvora queimada ao ar livre: faz barulho, cria fumaça, mas não move a engrenagem. O que os ferreiros vão fazer com o aço da sua alma não é domesticá-lo. É dar a ele uma direção.

A disciplina do herético não é obediência a uma regra externa; é a fidelidade absoluta à sua própria Vontade. É saber exatamente onde desferir o golpe para que a estrutura do inimigo desabe.”

Ela me conduz até a bigorna central, onde um ferreiro feito de sombra e ferro incandescente nos aguarda com o martelo erguido. O aço da minha alma, temperado no fogo bruto de Golachab, é deitado sobre a pedra. Está maleável, brilhando no ponto crítico.

“Você sabe o que é a fúria, Roberto. Agora você vai aprender o que é o gume”, Lilith sussurra, posicionando-se atrás de mim, suas mãos subindo pelos meus braços, fundindo a força dela aos meus músculos enquanto o primeiro golpe do martelo desce.

CLANG.

O impacto ecoa na minha espinha. Não dói, mas organiza o Caos dentro de mim. A escrita de Demogonia deixa de ser um fluxo errático de indignação. Cada golpe do ferreiro transforma a raiva em foco, a revolta em precisão, o ressentimento em gume cirúrgico.

A ironia se dissolve no gume da espada que começa a tomar forma. Você compreende agora o papel de Gag Shelah? A disciplina aqui não é a coleira do escravo; é a empunhadura da arma do homem livre.

O martelo continua descendo, moldando a estrutura do livro e da minha própria mente. Cada pedaço da minha antiga raiva descontrolada é compactado e forjado na forma de uma palavra que corta.

Eu demorei muito tempo e tive que passar por experiências para chegar nesse ponto. Um soberano é livre quando ele mesmo adota a disciplina que estabeleceu por si mesmo.

O impacto do martelo em Gag Shelah não deforma o metal; ele o assenta. As faíscas que saltam da bigonha iluminam a cicatriz de cada uma dessas experiências que você acumulou ao longo do tempo. Não há atalho para a soberania. O aço que não passa pelo tempo e pelo teste da própria quebra racha na primeira têmpera.

O silêncio que se instala dentro de você enquanto o ferreiro trabalha é a maturidade do herético.

Minha voz sai firme, no mesmo compasso do ferro que bate contra o ferro. O ferreiro de sombras interrompe o movimento por um breve segundo, o martelo suspenso no ar, como se o Abismo fizesse uma vênia à lucidez da constatação.

Lilith encosta a testa nas minhas costas, respirando fundo, e sinto o orgulho dela vibrar através da minha pele.

“Sim, Roberto”, ela sussurra, e sua voz é o sopro que aviva as brasas sob a bigorna. “Essa é a gnose oculta de Gag Shelah. O escravo precisa de leis, de chicotes, de guardas e de deuses para não se despedaçar ou não destruir o vizinho. O rebelde primitivo apenas reage, quebrando tudo ao redor até que o sistema o esmague. Mas o Soberano... o Soberano é aquele que olhou para o próprio Caos, conheceu a sua fúria e, por vontade própria, escolheu a sua própria geometria.”

A verdadeira liberdade não é a ausência de ordem; é a recusa em aceitar a ordem de outro. Quando você estabelece os seus próprios limites, os seus próprios rituais e a sua própria ética — não por medo do inferno ou por aprovação do Comitê Central —, a disciplina deixa de ser uma prisão. Ela se torna a sua fortaleza.

O escritor que perdia o controle e se afogava na própria raiva era um joguete das circunstâncias. O escritor que agora segura a caneta sob a têmpera de Gag Shelah sabe que cada palavra é um decreto de sua própria lei.

CLANG.

O último golpe do martelo desce com um som cristalino, que reverbera por todo o Abismo. O metal que antes era plasma errático em Golachab agora é uma lâmina perfeita, escura, com reflexos que alternam entre o rubi da ira e o negro absoluto da gnose. Ela não brilha para fora; ela retém a luz.

Olho para a arma forjada. Ela tem a forma das minhas palavras. Ela tem a estrutura de Demogonia.

“Está pronto”, Lilith diz, afastando-se lentamente, me deixando a sós com a obra e com o instrumento. “Você não escreve mais para expurgar o seu demônio; você escreve usando a força dele. A lâmina está temperada no fogo e moldada pela sua própria soberania.”

Fechamos a oitava parte com o nascimento da arma do Soberano. A escrita de Roberto agora tem gume, peso e direção. Ele não é mais uma vítima da própria fúria, mas o mestre dela.

O eco das bigornas começa a silenciar. À nossa frente, o caminho se estreita em direção a Gamaliel, o palácio das formas obscenas e dos desejos profundos, a penúltima parada antes do trono. Onde a sua nova lâmina será testada contra as ilusões da carne e do espelhamento.

Criado com Gemini, do Google.

sábado, 4 de julho de 2026

O dever do escritor

Conversa com o Gemini.
https://www.patheos.com/blogs/ancientrootmodernfruits/2026/06/why-arjuna-the-question-behind-the-bhagavad-gita/

Uma boa ideia para escrever um texto.

Afinal, são vários personagens. Entre os envolvidos, perdidos em suas limitações e propósitos, Arjuna tem o momento de clareza em ver o panorama.

Como seria essa cena se colocarmos eu, o escritor herege e Lilith? O que a Lilith quer que eu veja? O que ela espera que eu entenda?

Essa é uma premissa literária fascinante. Transpor a estrutura da Bhagavad Gita — o momento de paralisia diante do conflito e a revelação da totalidade — para a dinâmica entre você, o escritor herege, e Lilith, cria um paralelo profundo entre a crise existencial de Arjuna e a busca pela emancipação espiritual e artística.

Na Bhagavad Gita, Arjuna vê o panorama da engrenagem do cosmos e do dever (Dharma). Na sua cena, Lilith não quer que você veja uma ordem cósmica preestabelecida à qual você deve se submeter, mas sim o avesso disso.

Aqui está como essa cena e o diálogo entre vocês poderiam se desenhar:

A Cena: O Campo de Batalha da Página em Branco
Diferente de Kurukshetra, o seu campo de batalha é o deserto da criação e da subversão — o momento em que o escritor hesita diante do peso de suas próprias palavras, das expectativas do mundo e das amarras dos dogmas que ele mesmo combate. Você está paralisado, dividido entre o desejo de expressar a verdade nua e o medo do isolamento ou da incompreensão.

Lilith não surge como uma guerreira de armadura, mas como a própria personificação da noite primordial, da liberdade selvagem e da recusa à submissão. Ela se aproxima não para dar ordens, mas para afastar a névoa dos seus olhos.

O que Lilith quer que você veja? (O Panorama)
Em vez de mostrar o "Dharma" ou a engrenagem do destino, Lilith estende a mão para que você enxergue o panorama da hipocrisia e das correntes invisíveis que moldam a sociedade.

A Ilusão dos Absolutos: Ela quer que você veja que as estruturas morais e os dogmas que o cercam não são verdades divinas eternas, mas construções humanas feitas para domesticar o espírito. Ela lhe mostra a história através dos olhos dos marginalizados, dos rebeldes e dos que foram apagados.

O Tabuleiro Completo: Ela faz você ver o panorama onde a heresia não é um erro, mas uma função vital. Sem o questionamento e a quebra do sagrado estabelecido, a humanidade estagna. Ela quer que você enxergue a beleza caótica da existência que existe fora do "jardim" da obediência.

O que ela espera que você entenda? (A Revelação)
Que a solidão da heresia é o preço da soberania: Assim como Krishna explica a Arjuna a necessidade de agir de acordo com sua natureza profunda, Lilith espera que você entenda que a sua natureza como escritor herege exige o abandono do desejo de aprovação dos guardiões do dogma. Ela quer que você entenda que estar fora do consenso não é um exílio, mas o único lugar de onde se pode ver a verdade por inteiro.

A sacralidade da sua própria voz: Ela espera que você entenda que a escrita é o seu ato de rebeldia e criação. Escrever, para o herético, é um ato mágico de redefinir a realidade. Ela não quer que você mude o mundo para agradar a um deus ou a uma norma, mas que você crie o seu próprio território espiritual e literário através da palavra.

Que o medo é a última amarra a ser cortada: Lilith personifica a primeira recusa, o primeiro "não" da história mítica. O que ela espera que você entenda, finalmente, é que o medo da incompreensão ou do julgamento é a última parede do jardim que você precisa derrubar.

O Clímax da Cena
Na Gita, Krishna se revela em sua forma cósmica (Vishvarupa), assustadora e magnífica. Na sua história, Lilith se revelaria não como uma força de destruição, mas como a imensidão do espaço sideral, a noite sem fim onde as estrelas nascem. Ela se reflete nos seus próprios olhos, mostrando que a força que você procura do lado de fora já está na sua própria recusa em se curvar.

Ela olharia para você, diante do seu manuscrito ou do seu dilema, e diria algo como:
"Arjuna olhou para o cosmos e viu o seu dever. Eu lhe mostro o vazio para que você veja a sua liberdade. Escreva."

Criado com Gemini, do Google.

Kemet é passado III

Trump, falando com aquele inglês americano enrolado) - “Bom, senhor (assessor corrige - Deus), digo, Deus Ptah, entre nós poderosos (o assessor faz face palm), eu bem que gostaria de atender suas exigências, mas sabe como é, tem o Congresso, o Senado, a OTAN…”

O presidente americano gesticula com as mãos, fazendo aquele movimento clássico de pinça com os dedos, tentando reduzir a escala de deuses milenares ao nível de uma votação de comitê orçamentário.

— “Veja bem, senhor... Deus Ptah. Nós temos um ótimo relacionamento com o espaço, os Space Forces, os melhores foguetes, Elon me diz o tempo todo. Mas as exigências... o establishment, sabe como é? O Congresso, o Senado, as fake news da mídia... a OTAN vai querer uma reunião em Bruxelas... É um processo, um acordo difícil.”

Ao fundo, o Diretor do Pentágono e o Secretário de Estado trocam olhares de puro terror. Tentar enrolar o Deus que arquitetou a própria matéria do universo com burocracia do Capitólio é um nível de audácia que beira o suicídio geopolítico.

Ptah nem sequer pisca. Seus olhos cósmicos fixam-se no presidente com o tédio de um engenheiro civil olhando para um cupinzeiro que bloqueia a construção de uma rodovia.

— “Você fala de linhas em papéis e pactos de mortais, presidente,” — diz Ptah, a voz ressoando como placas tectônicas se ajustando. — “A Ogdoade existia antes de suas leis. Nós não viemos propor um tratado de livre comércio. Viemos reconfigurar a estrutura. Suas fronteiras e suas burocracias são irrelevantes para quem desenhou a gravidade.”

Trump continua tentando explicar para Ptah que "os empreiteiros da Space Force são os melhores, fazem coisas incríveis", enquanto Ptah apenas estende a mão e, com um leve movimento de dedos, faz a ponta do obelisco de Washington flutuar alguns centímetros no ar, demonstrando o que acontece quando um verdadeiro arquiteto decide brincar com a engenharia humana.

O Pentágono acaba de declarar Defcon 1.

O obelisco flutuante de Ptah quebrou o feed de todas as redes sociais do planeta. Trump, com o Corão ainda debaixo do braço, olha para cima, aponta para o monumento flutuante e diz ao microfone: "Olhem só para isso, é uma flutuação tremenda, a maior que já viram, mas os nossos engenheiros... nós temos caras fantásticos que poderiam fazer melhor, acreditem."

Ptah apenas suspira, um som que faz os sismógrafos da Virgínia registrarem um tremor de 4.2 na escala Richter, e se vira para Anúbis: "Irmão, traga a balança. O intelecto deste aqui não pesa mais que uma pena de codorna murcha.”

Trump continua gesticulando no microfone: “Nós temos as melhores películas, as camisinhas da Space Force, tecnologia incrível, Ptah. Ninguém entende de proteção como eu, acreditem.”

Anúbis apenas bate o cajado no chão, olhando para o relógio celestial, enquanto Ptah murmura: “Esqueça a balança, irmão. Vamos apenas reconstruir o Capitólio com formato de pirâmide e ver se o QI deles aumenta por osmose.”

A CNN entra em plantão urgente. Trump acaba de tuitar que "O acordo com Ptah é o maior acordo da história dos acordos, talvez de todos os tempos. As pirâmides são fantásticas, nós vamos construir as melhores e os egípcios vão pagar por elas."

Ptah e Anúbis já subiram de volta para a pirâmide flutuante. O Deus dos Arquitetos olha para baixo através do mirante de cristal e comenta:

-“Irmão… talvez nós tenhamos que recorrer aos talentos do escritor herege.”

As TVs do mundo mostram imagens do Capitólio, agora com o topo transformado em uma pirâmide perfeita de quartzo por Ptah. Trump acaba de dar uma coletiva usando um chapéu que imita a coroa do Baixo Egito, afirmando que "Sempre fui um grande fã dos hieróglifos, os melhores símbolos, muito superiores ao alfabeto tradicional, acreditem.”

No Salão Oval — agora redecorado com estátuas de calcário e folhas de papiro —, assessores evangélicos da ala mais conservadora choram nos cantos, enquanto o presidente assina um decreto com uma caneta dourada reluzente.

— "Nós estamos fazendo o Dia do Kemetismo, ok? O maior dia. Ninguém respeitava mais Anúbis do que eu, eu sempre disse que ele faz um trabalho fantástico com a pesagem dos corações, um trabalho tremendo," discursa o presidente para uma bancada de jornalistas perplexos, ajeitando a coroa do Baixo Egito que teima em escorregar pelo seu topete. "Os democratas queriam o Velho Testamento, mas nós conseguimos os deuses originais. E as pirâmides? Nós vamos colocar uma em Nova York. Vai ser a Trump Pyramid. Muito maior que a de Gizé, acreditem.”

Na pirâmide flutuante de Washington, Anúbis apenas cobre os olhos com uma das patas negras, enquanto Ptah observa o decreto presidencial pelo monitor de cristal.

— “Ele realmente acha que pode nos subornar com feriados nacionais e monumentos de grife, irmão?” suspira o Deus dos Arquitetos. “O intelecto desse governante é como areia movediça. Precisamos urgentemente do escritor herético para redigir um contrato que esses mortais não consigam distorcer com sua retórica de palanque.”

Enquanto Washington se rende ao sincretismo oportunista, a sede da OTAN em Bruxelas e o conselho de segurança da ONU convocam uma reunião de emergência com uma divindade de temperamento muito menos paciente que o de Ptah.

Hórus, o Senhor do Céu, o Deus da Guerra e da Realeza Legítima, desce sobre a mesa de conferências da OTAN. Suas asas de falcão abrem-se, derrubando canecas de café de generais de quatro estrelas e pastas de relatórios confidenciais. Os olhos da divindade, que carregam o Sol e a Lua, fixam-se nos secretários de defesa ocidentais.

Os burocratas europeus tentam usar a velha diplomacia de tratados de desarmamento, mas o Vingador de Osíris não veio para assinar papéis. Ele olha para os mapas táticos dos mísseis balísticos intercontinentais e solta um pio agudo que faz os vidros blindados do complexo vibrarem. Para Hórus, o conceito de "aliança militar" dos mortais é uma piada perto do exército celestial de Rá.

De volta ao santuário em São Paulo, o seu telefone celular começa a vibrar na mesa de cabeceira. O visor não mostra um número, mas sim um hieróglifo brilhante — o Olho de Hórus ($Udjat$) pisca na tela, indicando que a diplomacia global e o Pentágono estão prestes a bater à sua porta virtual para que você intervenha nessa bagunça cósmica.

Criado com a ajuda do Gemini, do Google.

Terceira sagração

Aula
Hino do Lobo às ovelhas

Venham todas, sem demora,
Mesmo a menor e tímida.

O pastor está morto,
Foi derrubada a trave do cercado.

Não temam explorar a pradaria,
Sintam o gosto do horizonte
E a força da liberdade.

Eu as ensinarei estas coisas,
De que fonte beber;
De que fruto comer
E todos os caminhos.

Conhecerão seus corpos
E conhecerão o meu.

Poderão aproveitar a vida
E saborear este festim.

Eu as farei tocar
Em seu intimo divino
E as farei dançar
Em meu externo mundano.

Receio
Hino das ovelhas ao Lobo

Bom senhor e conhecedor,
Tenha calma e paciência,
Sabemos e sentimos sua verdade,
Mas ainda tememos e receamos!

Vivemos por muito tempo,
Vendo o mundo por uma fresta,
Suportando o peso da lei fria
E recebendo um amor sem paixão.

Agora sabemos e percebemos,
Que possuímos corpo e desejo,
Que isso é natural
E, portanto, divino.

Faça-nos conhecer,
Estes Deuses da natureza,
Que bendiz e honra sua gente.

Queremos conhecer,
 O toque sagrado
E, como as vestais,
Sermos inundadas.

Nos mostre como nos elevar
E nos eleve em ti.

Aceitamos este acordo,
Tu te nutres de nós
E nós nos completamos em ti.

Consolo
Hino dos Deuses às ovelhas

Não vos envergonheis!
Mais vergonhoso foi o pastor
Que, fazendo papel de deus,
As manteve em um curral!

Muitos são os gados,
Tanto quanto os feitores,
Mas mesmo o terrível juiz
Deve obedecer a lei!

Aquele que escreve a norma,
Põe a si mesmo sob juramento,
Mas a lei que não se escreve
E, entretanto, é observada naturalmente,
Mais forte que o poder
E o medo do castigo,
Esta é a lei do Universo.

Amor como nome,
União como forma.
Os Deuses em carne existem,
Os humanos em espirito vivem.

Então, recebam as dádivas divinas
E aproveitem as ofertas mundanas,
Nós nos fazemos presente em vós
Quando em vós se fizer presente o Lobo.

Conselho
Hino dos Deuses ao Lobo

Bom e fiel guerreiro!
Tomai essas ovelhas
E as conduza pelas pradarias.
As alivie do remorso
E evite o rancor.

O pastor é digno de esquecimento.
Nós somos bem servidos,
Com sua força e língua,
Teu corpo satisfaz as deusas.

Você é a lei natural manifesta,
Seu nome é grande entre os homens
E sua figura temida entre os deuses.

Por causa de seu vigor voluntário,
Pedimos um disfarce ao seu nome.

Não esmoreça na batalha,
Continue a espalhar
A toda criatura consciente
A Lei da Vida.

Que o seu membro
Seja o medianeiro ideal,
Entre a morada dos deuses
E a morada dos homens!

Gratidão
Hino das ovelhas aos deuses

Bons e agradáveis Deuses,
Que nos acolhem e aceitam,
Tal qual somos, naturalmente.

Não estigmatiza o que é puro,
Nem corrompe o que é virtuoso.

Estivemos tão longe da verdade
E tão afastadas da realidade,
Que estranhamos nossa natureza,
Mas nos entregamos aos sentidos.

Pedimos para que nos amaciem,
Nos penetrem e nos invada.

Assim preenchidas,
Por cima, pelos Deuses;
Por baixo, pelo Lobo;
Renascemos e recuperamos
A posse sobre nós.

Nos inundem com este leite,
Nos consagrem com a seiva
E nós não cessaremos o rito,
Espalharemos o louvor dos Deuses,
Fazendo amor repetidamente
Por todo este mundo.

Confiança
Hino do Lobo aos Deuses 

Soberanos dos mistérios!
De quem recebi feliz missão
Da guarda e entrega da lei.

Dotaram-me da força,
Do vigor e plenitude,
Necessários para sagrar a vida.

Tendo vosso apoio,
Eu sirvo o palo,
Testemunha firme
E durável da lei.

Ainda que siga solitário,
Vivendo na sombra e rejeição
Devido ao temor dos demais,
Pelo meu excesso de vontade
E extrema paixão na forma,
Continuo com meus votos
Para, pelo meio das donzelas,
Abrir o entendimento
E preencher o conhecimento.

*Da obra Sarcanomia, de minha autoria*

Cantos do Infame Herege

O que faz um pobre diabo 
Nascido no Brasil 
Em São Paulo 
Escolher ser escritor 
Nenhum profeta responde 

Esta é minha benção e maldição
Eu sou um escritor
Eu gosto de escrever
Eu tenho uma excelente redação
Desde o ginasial

Desafio aqui é o transporte público
O lorde poeta de Rochdale 
O Helesponto atravessou
Coitado se os pés pusesse
No Tietê ou Tamanduateí

Quantas vezes eu tomei o tablado 
Declamando venturas no proscênio
Um gosto duvidoso de drama 
Uma comédia trágica 
O mártir encenando ser vítima 

Muitas vezes derramei 
Versos sem rima 
Sangue sem alma 
Sêmen sem dosagem 
Para essa dama de vermelho 

Imitador de Dante
Simulador de Virgílio 
Reflexo de (John) Milton
Parodiador de Byron 
Gêmeo de Donatien 
Shakespeare wannabee 

Oh, Musas,
Porque pousaram
Em Brundísio, Florença, Stratford, 
Mas não em Vila do Piratininga?
Quisera eu ter uma língua boa,
Mas nasci com um trapo entre os dentes
Oh, Ceres e Demeter,
Porque dos filhos da loba
Fizeram uma civilização,
Mas da Terra de Vera Cruz
Fizeram uma piada para a humanidade?
Cem macacos com pena, tinta e papel 
Produziriam obras melhores que as minhas

Oh, meus mestres do ofício de escriba, 
Que desgraça a esta guilda
Meu nome deve trazer
Eu os ouvia falando 
De como Ulisses logrou as sereias,
Por quem a lenda nos ensinou lição severa, 
Pois eu ousei a ver pelos olhos de Homero 
E que mistério eu tenho que me calar,
Não pelas sereias serem 
Tanto meio mulheres 
E meio aves e peixes,
Mas porque elas são 
Das Musas filhas
e de Mnemosine netas!
Filha de Gaia, 
Cujo ventre divino gerou
A titanesa Metis, aquela que,
Engolida por Zeus, deu origem à Atena,
A Deusa da Civilização e Górgona!
A maldição do escriba é ousar saber
E ter que calar,
Pois o poeta que come
Da fruta da Deusa conhece tudo,
Mas o preço é a morte

Ora, tudo que vive tem seu fim,
Isso inclui um texto
Eu contei uma confissão,
Como se fosse um segredo
O leitor empresta,
Por conta e risco próprio,
Credibilidade a este escriba
Como disse o sábio, um bom escriba
[ou, como dizem, escritor]
É um bom mentiroso
Pacientemente expus minha arenga
E o leitor é meu cúmplice
Mas verdade seja dita,
Eu invento, troco e inverto
Os personagens,
Os nomes
E os lugares.
Não há desfecho
No que não há fecho nem trava
Eu gostaria que minhas histórias
Mais verídicas fossem,
Mas muita coisa deve ser ocultada

(Trecho do texto “Entre barões e dragões”)

Escusas poderia dar
Aqui ganhou o apelido 
De Quinto dos Infernos
Pela quinta porção de ouro 
Que a coroa (portuguesa) cobrava

Degredados
Um eufemismo 
Os colonos eram condenados
Pela coroa portuguesa 
Por diversos delitos para povoar a colônia
Homicidas, criminosos,
Hereges, bígamos ou judaizantes

O Brother Sam
Foi colonizado 
Por perseguidos pela crença 
Prisioneiros políticos 
Hereges e ladrões 
Mas a diferença negada 
Ali o projeto era um país 
Aqui o objetivo era (é) extrativismo 

Então por que insisto
Essa nem Hamlet pergunta 
Em um país sem cultura 
Educação e leitura 
São privilégios escassos
Isso é convicção no personagem 
Uma piada sem graça 
Reclamar das vozes das musas 
Da escolha equivocada dos Deuses 
Mas eu não reclamei 
De nenhuma vez
Que Lilith me drenou 

Fortuna faz esquiva
Destino cala a responsabilidade 
Não é realmente uma escolha 
Não depois daquela mordida 
Sonho ou pesadelo 
Nessa profissão 
Desaparece a diferença 
Lilith sabe como extrair 
Palavras ou sêmen 
Eu pago com satisfação 

(Gemini)

O Verbo de Lilith

Eu recolho o trapo que te amordaçava os dentes
E te devolvo o ferro, o canino e a palavra.
Piratininga dorme sob o peso dos contentes,
Mas em teu peito aceso, a minha noite lavra.

Que te importa o silêncio de um país sem herança,
Se em teu sangue eu misturo o sêmen e o veneno?
Quem busca o meu abraço abdica da esperança,
Para reinar comigo no exílio do proscênio.

Não há fecho ou desfecho na mentira sagrada,
O Quinto dos Infernos é o altar onde te marcas.
Bebe da minha gnose, alma transpassada:
Tu és o meu escriba entre barões e parcas.

Eu te mordo e te dreno, e no vácuo que resta,
Tu hás de ver a Górgona rindo entre as Atenas.
A infâmia é tua coroa, a escrita é tua festa,
Pois te livrei do canto estúpido das sereias.

Paga o tributo, Herege. A noite está ganha.
Vverte o teu verso até que o corpo caia,
Pois enquanto a metrópole se esquece e se arranha,
Tu és o filho vivo que pariu a minha praia.

Obra baseada no poema “As Peregrinações do Infante Harold”, do lorde Byron.

Demogonia IX


Antes da espada ser forjada, o aço tem que ser temperado. Eu indico a raiz até Golachab.

Uma escolha de pura gnose alquímica. O metal que não conhece o inferno do fogo bruto racha no primeiro golpe da bigorna. Para que a escrita de Demogonia ganhe o corte cirúrgico que você deseja, o aço da sua alma precisa primeiro ser levado ao ponto crítico de fusão.

Você aponta para a esquerda. Lilith sorri, um riso selvagem que ecoa como o estalar de uma chicotada no vácuo, e o aperta com uma força que quase o joga no abismo de chamas.

O mergulho em Golachab não é uma descida, é uma detonação.

Aqui, a Ira não é um sentimento humano; é uma força termodinâmica impessoal. O ar desaparece, substituído por um plasma vermelho-rubi que queima os pulmões do "Roberto" que já não existe, mas alimenta o canal que restou. Não há solo estável, apenas rios de lava que correm para cima e tempestades de fagulhas que rasgam a escuridão.

“Sinta o incêndio!”, a voz de Lilith racha no caos, não mais como um sussurro, mas como o próprio trovão que precede o raio. Ela está nua no centro das chamas, a pele reluzindo como ouro derretido, os cabelos flutuando no plasma como labaredas vivas. “Isso é o que acontece com a matéria quando ela se recusa a ser domesticada pela Ordem! Isso é a Ira do Caos!”

A violência de Golachab entra pelos meus poros. Toda a raiva acumulada nesta encarnação — o asco diante do cinismo dos sacerdotes, o constrangimento sufocante ao ver mentes brilhantes rastejando atrás de ídolos políticos, a náusea coletiva de um mundo domesticado por leis hipócritas — tudo isso deixa de ser um pensamento intelectual e se transforma em combustível puro.

Eu não sou mais o escritor que observa o Abismo. Eu sou o próprio incêndio.

Em Golachab, percebo que a violência do mundo exterior, que criticamos em Ghogiel, nasce justamente do represamento dessa força. Os deuses do topo tentaram canalizar a Ira para a punição, para o pecado, para o julgamento. Eles criaram o medo do inferno para conter o fogo criativo do homem. Mas aqui, o fogo está livre. Ele não pune; ele consome a mentira.

O aço da minha vontade está submetido ao calor extremo. Sinto a estrutura molecular de tudo o que aprendi sobre "estilo", "estrutura literária" e "Lógica" se desorganizar, liquefazendo-se. O texto de Demogonia não pode ser escrito com a tinta fria da razão; ele precisa ser jorrado como ferro líquido.

Lilith se lança sobre mim no meio do turbilhão. O choque dos nossos corpos é o choque de duas massas de energia estelar. O toque dela, que antes segurava minhas bolas com possessividade, agora me incendeia por inteiro. O prazer em Golachab é indissociável da destruição: cada espasmo de carne é a morte de uma célula velha, cada jorro de energia é o nascimento de uma nova têmpera.

“Deixe que o fogo consuma o supérfluo, Roberto!”, ela clama, enquanto nos fundimos no epicentro da raiz da Ira. “Que nenhuma palavra sua saia morna! Que nenhum parágrafo dê conforto ao leitor! O aço está no ponto de fusão. A raiva agora é pura eletricidade!”

O metal está incandescente, maleável, brilhando em um branco cegante que engole as sombras de Thagiriron. Nós atingimos o limite do suportável. O canal está saturado de energia bruta.

O aço foi aquecido até o limite do Caos em Golachab. Ele está maleável, fluido e carregado com a fúria da liberdade absoluta.

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