Conversa com o Gemini.
"Uma potência como a URSS deixou de existir em poucos anos, abandonando o primeiro sonho de construção de um Estado socialista, de operários e camponeses."
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Nunca foi. Esse é o incômodo que muito colunista dito de esquerda não fala.
Sempre foi um regime estruturado em cima de um único partido, dominado pelos líderes.
Afinal, a própria teoria disse. Era inevitável. Uma questão de progresso, de evolução. O socialismo ocuparia o lugar do capitalismo. Não algo a ser imposto.
Escreva um texto crítico em tom de humor e sarcasmo.
O “Sonho” que Esqueceu de Perguntar aos Sonhadores
“Uma potência como a URSS deixou de existir em poucos anos, abandonando o primeiro sonho de construção de um Estado socialista, de operários e camponeses.”
Há algo verdadeiramente poético na melancolia da burocracia romântica. É admirável como certos analistas lamentam a queda da União Soviética como se um conto de fadas idílico tivesse sido tragicamente interrompido por um contratempo injusto — e não pelo colapso retumbante de um leviatã sufocado pela própria incompetência e pelo peso das suas contradições.
Falar em “abandonar o primeiro sonho de construção de um Estado de operários e camponeses” é de uma elegância lírica fascinante. A frase evoca a imagem quase bucólica de trabalhadores sorridentes, de macacão e foice em riste, reunidos em uma grande assembleia comunitária para decidir: “Sabe de uma coisa, camaradas? Cansei desse negócio de paraíso dos trabalhadores. Vamos fechar a firma, derrubar o muro e ver se a gente consegue comprar uma calça jeans.”
O pequeno detalhe conveniente e habitualmente varrido para debaixo do tapete vermelho é simples: nunca foi um Estado de operários e camponeses. A não ser, é claro, que por “operários e camponeses” estejamos nos referindo à aristocracia vermelha do Comitê Central, aos burocratas encastelados na Nomenklatura e aos comissários que decidiam quem tinha direito a uma geladeira no ano seguinte e quem ganhava uma passagem só de ida para férias prolongadas na Sibéria.
A nostalgia seletiva adora ignorar a arquitetura real do edifício. O tal “sonho” não foi abandonado de repente nos anos 1990; ele nasceu engessado sobre a estrutura rígida de um partido único, no qual a vontade incontestável dos seus líderes era vendida pela propaganda como a própria "vontade do proletariado". O operário de verdade? Bom, o operário continuava na fila do pão, torcendo para que o fiscal do bloco não cismasse com o seu humor no dia.
Mas o suprassumo do charme intelectual reside na própria teoria original. Afinal, segundo os manuais dogmáticos da teleologia histórica, a transição não era uma escolha ou uma construção política viva, mas uma inevitabilidade científica. Uma questão de progresso, de evolução natural! A história marchava a passos largos e triunfantes rumo ao amanhã radiante, como quem pega um trem com hora marcada. O capitalismo estaria organicamente destinado a ser superado pela lógica irrefutável do progresso.
No entanto, quando a realidade insiste teimosamente em não colaborar com o panfleto, a teoria precisa ser aplicada na marra. E é aí que a “inevitabilidade” vira imposição. Se a evolução natural atrasa, empurra-se a história na ponta da baioneta. Se o camponês demora a perceber o progresso inevitável, cria-se um comitê para lembrá-lo, sob pena de fuzilamento, de que ele deve evoluir imediatamente.
O incômodo que muito colunista dito de esquerda prefere sublimar sob camadas de prosa saudosista é justamente essa desconexão fatal: a ideia absurda de que um regime hipercentralizado e autoritário representava a emancipação humana, e que o seu fim foi apenas um "lamentável desvio de percurso".
Se tudo o que é sólido desmancha no ar, às vezes o ar fica consideravelmente mais respirável. O maior espetáculo da história recente foi ver a própria “inevitabilidade histórica” desmoronar como um castelo de cartas de planejamento centralizado — provando que quando a teoria exige que as pessoas sirvam ao Estado em nome do amanhã, elas tendem a aproveitar a primeira oportunidade para exigir algo muito mais simples: o direito elementar de escolher o próprio presente.
O engraçado é que o autor usa uma frase do Marshall Berman . O que é sólido desmancha no ar. Mas muita gente de esquerda ainda se apega aos mesmos "heróis" e ícones...🤭😏
É a maior das ironias intelectuais. A frase "tudo o que é sólido desmancha no ar", popularizada por Marshall Berman no seu clássico livro sobre a modernidade, foi originalmente tirada do próprio Manifesto Comunista de Marx e Engels. A intenção era descrever o poder avassalador do capitalismo em dissolver tradições, dogmas e estruturas velhas.
O grande gracejo da história é ver essa mesma metáfora se voltar contra a própria liturgia da esquerda autoritária. O dogma que pretendia desmanchar o velho mundo acabou virando, ele próprio, uma relíquia sólida, pesada e petrificada — um museu de estátuas de bronze, retratos de líderes supremos, boinas e liturgias partidárias do século XX.
Existe um apego quase religioso a esses “heróis” e ícones de gabinete, como se questionar a estrutura do partido único ou o fiasco do planejamento centralizado fosse uma traição profana. Fica o paradoxo fascinante:
O discurso: Promove a crítica radical, a transformação contínua e a superação de mitos.
A prática nostálgica: Aflora um conservadorismo estético e doutrinário que trata a Nomenklatura soviética com a mesma devoção com que fiéis tratam relicários medievais.
Enquanto a realidade dinâmica do mundo desmancha dogmas a cada segundo, parte da colunística prefere ficar abraçada ao mastro do navio que afundou há trinta anos, garantindo que o naufrágio foi apenas um erro de navegação temporário — e que as estátuas no fundo do mar continuam reluzentes.
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