Inscriptorum Hereticae
Jornal de um pagão brasileiro
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Eu fui e vi
A sopa de Perun - II
O gabinete fica em silêncio.
Beto aponta para o primeiro cartaz.
O imperador aparece em uniforme, solenemente diante de um grande ícone ortodoxo. Abaixo, em letras enormes:
“DEUS ESTÁ DO NOSSO LADO.”
Então Beto aponta para o cartaz do Partido.
Marx. Lenin. Stalin. Mao.
Os quatro apontam para algum ponto indefinido no horizonte, como se estivessem indicando o glorioso futuro da humanidade.
Abaixo deles:
“O POVO ESTÁ DO NOSSO LADO.”
Beto olha para Tanya.
Depois para Viktoriya.
Por último, para Mary Sue.
Ele abre os braços.
— Estão vendo aqui qualquer uma dessas entidades?
Silêncio.
Tanya estreita os olhos.
— Não.
— Nenhuma?
— Nenhuma.
Viktoriya observa os dois cartazes por alguns segundos.
— Tecnicamente, são apenas imagens.
— Exatamente — responde Beto.
Mary Sue cruza os braços.
— Você está provocando.
— Estou fazendo uma pergunta.
Tanya aponta para o cartaz imperial.
— O primeiro afirma que Deus apoia o Império.
Depois aponta para o segundo.
— O outro afirma que o povo apoia o Partido.
Ela olha novamente para Beto.
— E você está sugerindo que nenhuma dessas afirmações constitui evidência.
Beto sorri.
— Agora você entendeu.
Mary Sue permanece séria.
— Só espero que você não esteja prestes a transformar isso em uma crítica ao cristianismo.
Beto balança a cabeça.
— Não.
Ele aponta novamente para os cartazes.
— Estou criticando uma coisa muito mais antiga.
— O quê? — pergunta Viktoriya.
Beto olha para as duas imagens.
— A mania humana de colocar o próprio nome na boca dos deuses.
Dessa vez ninguém responde imediatamente.
Tanya olha para o ícone.
Depois para Marx, Lenin, Stalin e Mao.
— Isso...
Ela hesita.
— ...é diferente.
Beto sorri.
— Ainda bem.
Uma corrente de ar atravessa o gabinete.
O ícone ortodoxo permanece imóvel.
Os retratos dos revolucionários permanecem imóveis.
Nenhuma voz responde.
Nenhum sinal aparece.
E justamente por isso a pergunta continua pairando no ar:
Quem realmente está do lado de quem?
Eu sei que, quando eu faço crítica ao Cristianismo, eu faço uma grosseira análise superficial e genérica. Os cristãos não são um monólito. Minha intenção é provocar e incomodar. Eu aposto que Tanya vai querer que eu mostre uma evidência dos Deuses Antigos. Ainda que ela possua poderes paranormais e tenha renascido.
Exatamente. E acho que você identificou uma diferença importante: **provocar pode ser uma função legítima do personagem Beto; transformar uma provocação em tese definitiva é outra coisa.**
Na nova história, isso pode até virar uma característica do Beto: ele gosta de cutucar sistemas de crença — mas Tanya é justamente a pessoa que não deixa uma provocação passar sem exigir prova.
E isso combina muito com ela.
Eu imagino a continuação quase inevitavelmente chegando a isto:
**Tanya:**
— Muito bem. Você fez sua pergunta. Agora eu tenho uma para você.
**Beto:**
— Estou ouvindo.
**Tanya:**
— Você fala dos Deuses Antigos como se fossem uma realidade objetiva. Então demonstre que existem.
**Beto:**
— ...
**Tanya:**
— Não uma experiência pessoal. Não uma tradição. Não um texto antigo. **Evidência.**
Viktoriya olha para Tanya.
— Você está exigindo uma demonstração de uma divindade?
— Estou exigindo consistência epistemológica.
Beto aponta para ela.
— Você renasceu depois de morrer em outro mundo, possui poderes mágicos e está exigindo de mim evidência empírica da existência dos Deuses Antigos?
Tanya fica alguns segundos em silêncio.
— **Sim.**
— Você percebe a ironia?
— Perfeitamente.
E aí está o ouro da cena: **Tanya não precisa negar o sobrenatural. Ela é uma evidência ambulante de que o sobrenatural existe.** Mas isso não significa que ela tenha de aceitar qualquer afirmação sobrenatural.
Ela poderia perfeitamente dizer:
> “Eu sei que o impossível existe. É justamente por isso que quero saber onde termina o impossível que conheço e começa aquilo que você está afirmando.”
Isso dá à história uma tensão muito melhor do que simplesmente colocar Tanya como “a cética que descobre que os deuses existem”.
E talvez Beto tenha um problema ainda maior:
**ele não consiga provar.**
Porque, se ele imediatamente apresenta um Deus Antigo diante de Tanya, a questão fica resolvida.
Mas se ele não consegue...
Tanya ganha a discussão.
Pelo menos naquele momento.
E Beto talvez tenha de admitir:
— Eu não consigo provar.
Tanya:
— Então você acredita.
Beto:
— Não exatamente.
— Então o que você faz?
Ele olha para o vazio por alguns segundos.
— **Eu reconheço.**
Tanya franze a testa.
— Reconhece o quê?
Beto sorri.
— Que existem coisas diante das quais eu ainda não sei dizer “isto é impossível”.
E **isso** me parece muito mais interessante para a história do que Beto simplesmente vencer o debate.
Quanto à sua observação sobre o cristianismo: acho saudável que o próprio roteiro reconheça essa limitação. Você pode provocar, inclusive de maneira bastante ácida, mas personagens como Mary Sue podem justamente impedir que a narrativa trate “os cristãos” como uma massa homogênea. **Ela pode discordar de Beto sem que o roteiro precise declarar que um dos dois é moralmente superior.**
Assim, a provocação continua.
Mas agora **ela gera conflito dramático em vez de apenas servir como punchline.**






