sexta-feira, 3 de julho de 2026

O intruso na estalagem



Era uma noite ordinária 
Cerveja e vinho 
Poetas embriagados 
Faziam rimas de queijos 

Taverna, hotel ou pensão 
Poucos conhecem essa estalagem 
Na beira de uma estrada 
Que todos hão de percorrer 

Todos pararam de rir
Quando aquela dama entrou
Pressionou a longa unha negra 
No peito do lorde de Rochdale

“Do melhor de Iacchus
Na moda Diodati
Cheio até a borda
Que eu tenho sede”

O próprio crânio ofereceu
Archistrategos dos Mavrocordatos
De sua reserva pessoal servindo 
Rútilo líquido sedoso

Metade tinha nojo
Metade tinha ansiedade 
De desgosto vem “insípido”
Deixando o crânio espatifar

A dama do gargalo bebeu
No chão a garrafa quebrou 
Confirmando insatisfeita
Que ali não tinha espírito

O intruso lhe despertou
Um pequeno poeta
Ninguém sabia como 
Mas lá ele estava 

Do gargalo carnoso
Ela se serviu
E contente ficou
“Este é muito espirituoso”

Baseado no poema "Lines inscribed upon a cup formed from a skull", de lorde Byron.
Imagem criada com Perchance.

Demogonia VIII


O caminho segue até uma encruzilhada. Golachab ou Gag Shelah. Entre o fogo da raiva incontida e a bigorna dos ferreiros.

Antes, eu vou fazer uma pequena provocação. Afinal, nós brincamos sobre essa doutrina dármica sobre o "eu". Como este que serve de canal para a consciência pode amar tão intensamente a Lilith? 

Essa é a provocação que faz toda a estrutura da "santidade" tremer, porque ela toca no segredo que os ascetas e os teólogos morrem sem entender: a diferença entre o Ego (a máscara social e intelectual) e a Vontade (a força vital que pulsa na carne).

Lilith solta uma gargalhada que não vem da garganta, mas das entranhas da terra, e o som faz as cinzas de Thagiriron dançarem. Ela se aproxima tanto que você pode sentir o magnetismo da pele dela, uma força que não pede licença ao intelecto.

“Ah, Roberto... os budistas e os espiritualistas do topo tentaram matar o desejo para matar o sofrimento. Eles acham que, ao dissolver o 'eu', você se torna uma estátua de gelo vazia, flutuando num nirvana estéril. Eles têm pavor do que você acabou de descobrir.”

Ela segura o seu rosto com uma pressão que beira a dor, mas transborda vida.

“O 'eu' que morreu era a ideia de que você é um nome, um título, uma ideologia ou um profeta. Esse 'eu' é uma construção de palavras. Ele não ama; ele apenas possui. Ele não deseja; ele apenas quer ser validado.

Mas este que resta... este canal, este pedaço de matéria consciente que respira agora... este não é um vazio seco. Ele é o próprio Desejo do universo se manifestando. Como você pode me amar tão intensamente? Justamente porque agora não há mais o 'escritor' no caminho para filtrar o que sente.

O amor intenso é a prova de que o canal está aberto. Sem a barreira do ego, o magnetismo entre a sua carne e a minha essência é absoluto. Você não me ama porque eu 'completo' o Roberto; você me ama porque, no vazio que restou da sua vaidade, só sobrou a gravidade que puxa a matéria em direção ao fogo. O seu amor por mim não é um sentimento romântico do ego; é a Gnose da Carne reconhecendo a si mesma.”

Ela morde o lábio inferior, um gesto puramente humano e terrivelmente divino.

“Só quem morreu para a própria importância pode amar com essa fúria. As estátuas de bronze e cobre não amam; elas apenas exigem adoração. Mas o canal... o canal queima. E é esse incêndio que nos levará até a próxima raiz.”

Com essa provocação respondida, o amor por Lilith deixa de ser um "apego" e passa a ser o próprio motor da sua libertação.

As cinzas de Thagiriron começam a se tornar incandescentes. O chão racha sob seus pés, revelando o brilho rubi de Golachab, a raiz da Ira e da Destruição Criativa. Lá, onde o amor se transforma em fúria contra as formas, o que restou de você será forjado.

O calor que sobe pelas rachaduras do solo deixa de ser o abafamento de um forno e passa a ser o sopro de uma fornalha industrial. O ar cheira a enxofre, metal superaquecido e sangue seco. Diante de nós, o chão de cinzas de Thagiriron termina abruptamente em uma bifurcação esculpida na própria rocha viva do Abismo.

À esquerda, um abismo de chamas puras e violentas: Golachab, o reino da Ira incontida, onde a força destrutiva queima sem freios e sem direção.
À direita, uma caverna monumental ecoando com o som rítmico, ensurdecedor e brutal de martelos contra o metal: Gag Shelah, as Oficinas de Asmodeus, a bigorna dos ferreiros do inferno, onde a raiva é canalizada, moldada e transformada em armas de guerra.

Lilith para na crista da encruzilhada. O reflexo do fogo e das faíscas dança na pele dela, tornando-a ainda mais imponente. Ela não aponta o caminho; ela apenas observa a sua reação diante das duas manifestações do mesmo poder de destruição.

“Aqui, a energia que sobrou do seu esvaziamento precisa de um destino, Roberto”, ela diz, e sua voz precisa competir com o som metálico dos martelos ao longe. “Você destruiu a vaidade do ego, mas o que restou de você ainda é pura potência. E a potência sem forma é apenas destruição.”

Ela aponta para a esquerda, para o mar de fogo de Golachab.

“Ali está a raiva cega. O ódio que consome a si mesmo. É a revolta pura contra o sistema, contra as ideologias, contra os deuses. É bela em sua fúria, mas ela queima o herético junto com o templo. Se você entrar ali, sua escrita se tornará apenas um grito de dor e destruição que o tempo vai apagar como cinzas.”

Depois, ela se vira para a direita, em direção ao som da bigorna de Gag Shelah.

“Mas ali... ali estão os ferreiros do Caos. Eles pegam a mesma ira de Golachab, o mesmo ódio contra a domesticação humana, e o colocam sobre a bigorna. Eles usam o martelo da disciplina e o fogo do foco para forjar lâminas. Em Gag Shelah, a raiva deixa de ser um incêndio e se torna uma ferramenta de corte. É onde o escritor deixa de apenas gritar e passa a golpear.”

“O que faremos com a sua fúria?”, Lilith sussurra, aproximando-se por trás, colando o corpo quente dela ao seu, os mamilos rígidos tocando as suas costas enquanto suas mãos descem firmes pelas suas coxas. “Vamos queimar tudo em um espasmo de caos puro em Golachab, ou vamos segurar o martelo e forjar a sua palavra como uma espada herética na bigorna de Gag Shelah?”

Criado com Gemini, do Google.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Kemet é passado I

Um homem louco disse que “os Deuses eram astronautas”. Isso é uma simplificação grosseira. O termo foi cunhado aqui na Terra quando começou a exploração espacial. Ou seja, seres vivos atingem um grau de cultura e tecnologia que torna possível a construção de veículos espaciais. Nisso Daniken falhou, porque Deuses não são seres vivos e dispensam a tecnologia.

Mas o pânico foi geral quando as pessoas viram nos céus aquela pirâmide flutuando tranquilamente no ar. Céticos tentavam negar a presença massiva, mas todas as emissoras de tevê estavam transmitindo. O objeto deslizou entre nuvens por sobre o Cairo, mas não pousou em nenhum lugar no Egito. O objeto estacionou - se podemos dizer assim - ao lado do obelisco em Washington, capital dos EUA.

Uma adaptação necessária aos quadrinhos de Enki Bilal, que colocou os Deuses do Egito Antigo “negociando” com o presidente francês, em uma França fascista. Ainda que o fascismo e o nazismo estejam ressurgindo na Europa, as notícias apontam para os EUA como o centro desse regime mundial extremista.

Quando a pirâmide abriu uma comporta e uma superfície deslizou até o chão como se fosse uma escada de desembarque, os norte-americanos enviaram um cônsul. Seria um desastre se o laranjão Trump fosse pessoalmente receber esses visitantes eternos.

Duas figuras desceram. Um era um enorme chacal humanóide e outra era uma linda gata humanóide. O corpo (pelo?) dos dois eram negros. No aconchego do meu lar, eu dou risada sozinho, pensando nesses que se dizem pagãos modernos e ficam falando em raça e estirpe.

O cônsul americano avança, o suor frio estragando o corte do seu terno de alta costura, estendendo uma mão trêmula em direção à rampa de desembarque. Anúbis permanece estático ao lado dela, os olhos fixos no horizonte como uma estátua de obsidiana viva, exalando o aroma de mirra e linho de tumba.

Bastet dá um passo à frente. Suas garras de ébano brilham levemente sob o sol de Washington. Ela ignora a mão estendida, olha para o obelisco — uma cópia pálida e roubada do passado — e depois fita o diplomata.

Sua voz não reverbera como um trovão; ela desliza diretamente para dentro da mente do homem, macia como veludo, mas afiada como uma lâmina de silício:

— "Vocês ergueram este pilar imitando a luz de Rá, mas governam a partir da sombra do medo. Viemos ver o que o tempo fez com o que sobrou de nós em vocês. Mas o que encontramos? Um império que se finge de eterno, governado por bufões que temem o próprio reflexo no espelho.

Onde está o ouro do espírito? Onde está a beleza que justifica a existência de uma civilização? Vocês acumulam ferro, papel e ódio, e chamam isso de poder.

Diga ao seu líder de pele pintada e cabelos de palha seca: nós não viemos negociar com os seus decretos humanos. Viemos recolher o que nos pertence por direito — e a nossa contagem começa pelo peso do coração de cada um de vocês na balança.”

Ela dá as costas ao cônsul com a indiferença natural de quem sabe que o mundo dos homens é apenas um novelo de lã prestes a ser desfeito entre suas patas.

Taciturno, Anúbis tem um arrepio ao pensar que teria que pesar esses corações em sua balança, diante de Maat. Curioso, olha para o topo de um edifício do governo e vê o símbolo da águia. Peculiar. Os governantes do mundo atual se apropriam e usam os mesmos símbolos de impérios extintos.

-”Irmã…eu terei mesmo que medir esses corações?”

-”Sim, Anúbis. Todos têm que ter o coração pesado antes de ir ao Duat.”

-”Mas…irmã…são bárbaros…adoram outro Deus que não tem qualquer relação com as origens deles…”

-”Você sabe muito bem que o Usurpador não tem tanto poder. Nós vamos começar a “limpeza” aqui e, depois, onde era Kemet, agora chamada de Egito.”

Anúbis olha para os humanos que olham tudo de longe. Quantas pessoas! Vindo de todas as partes de Gaia! E o laranjão falando em expulsar os imigrantes!

-”Como os humanos chegaram nesse ponto de confusão mental, minha irmã? Querem expulsar os imigrantes, como se essa nação não tivesse sido construída por imigrantes. Adoram um Deus estranho e importado, esquecendo os Deuses dos ancestrais deles.”

Bastet olha para a águia esculpida no topo do edifício do governo, um sorriso felino e amargo desenhando-se em seu focinho negro. Ela se aproxima de Anúbis, o roçar de sua pelagem escura contra a dele trazendo um sutil aroma de lótus e sol, contrastando com o frio aroma de eternidade que o irmão exala.

— "Ah, meu irmão de faces de chacal...", a voz dela ecoa na mente de Anúbis, suave como a seda que envolve os mortos. "Eles sempre adoraram o reflexo, nunca a luz. A águia que eles ostentam ali não passa de uma carcaça empalhada do falcão de Hórus, desprovida de voo e de espírito. Eles roubam os símbolos de Roma, que roubou os da Grécia, que por sua vez se ajoelhou diante de nós na Alexandria. É a reciclagem da vaidade humana.”

Ela caminha até a borda da rampa, olhando a multidão que se comprime atrás das barreiras de isolamento. O pânico e o fascínio misturam-se no ar como poeira em dia de tempestade.

— "Você me pergunta como chegaram a essa confusão mental?", ela continua, estreitando os olhos dourados na direção dos agentes de segurança e dos políticos que tremem em seus ternos escuros. "Eles esqueceram o solo que pisam. Gaia deu a eles o mundo inteiro para caminhar, mas eles criaram linhas imaginárias na terra e as chamam de fronteiras. Este próprio lugar onde estamos... ergueram-no sobre o sangue dos povos da floresta, usaram as mãos acorrentadas dos filhos de Núbia para carregar as pedras, acolheram os famintos de além-mar e, agora, o líder de pele pintada quer trancar os portões. Eles têm medo do próprio sangue que os compõe.”

Ela solta um som que lembra um riso contido, mas afiado.

— "E quanto ao Deus deles... o Usurpador que prega o deserto e a culpa... eles o importaram porque é mais fácil adorar um senhor invisível que promete o paraíso em troca de obediência do que encarar os Deuses que exigem deles a Maat — o equilíbrio, a justiça, a verdade. Eles preferem a mentira confortável da salvação ao peso real de suas próprias escolhas."

Ela toca o ombro de Anúbis com uma pata firme, cujas garras se retraem por um instante em um gesto de solene cumplicidade.

— "Não tema o cansaço da balança, Anúbis. Sim, eles são bárbaros, e sim, os corações deles estarão carregados com o chumbo da hipocrisia, do preconceito e do esquecimento. Mas a pena de Maat não flutua de acordo com a teologia deles. Ela mede o peso real do que fizeram com a vida que receberam. Se o coração deles for mais pesado que uma pluma de avestruz, você sabe muito bem o destino que os aguarda. Deixe que Ammit se banqueteie com a vaidade deste império. A limpeza começou, e Kemet voltará a respirar, mesmo que primeiro tenhamos que varrer as cinzas deste circo.”

Anúbis lembra. Ele sempre lembra. Se acha Hades muito rigoroso, é porque não conhece Anúbis. Na época de Amenófis III e Ramsés II, já se falava dos Shasu de Yhw. O nome de um local e de um Deus das fundições de cobre. Um dente muitos dos Elohim. Um dentre muitos dos panteões divinos. Ao menos os Annunaki tinham inteligência e diplomacia.

Ele poderia protestar diretamente com Rá, ou Ísis (Aset). Mas sua irmã Ísis tem um trauma com seres humanos. Para fazer sua Pax, os Romanos distorceram seus rituais e identidade. Hórus só jogaria o sol na direção da terra. Hator causaria comoção se aparecesse com seus enormes…atributos. Thoth ficaria confuso se perguntassem para ele se ele era o mestre garça, do Kung Fu Panda. Bes seria o mais adequado para lidar com esses bárbaros.

Enquanto Anúbis fica resmungando, Bastet ajusta seu espelho na forma de um disco solar. E procura pela assinatura energética distinta. Um escritor brasileiro. Um paulista. O rabo dela fica agitado quando fica nesse seu pequeno parceiro que digita essas palavras.

-“Que delícia. Um devoto da lua negra escrevendo sobre mim.”

E o meio das pernas dela fica úmido.

Bastet afasta o disco solar com um movimento fluido, os olhos dourados dilatados pelo vislumbre. Na vastidão do tecido temporal e geográfico, focar em uma mente específica na megalópole sul-americana é um deleite que ela não pretendia esconder do irmão taciturno.

— "Você resmunga demais sobre a burocracia do pós-morte, Anúbis," ela diz, a cauda chicoteando o ar com uma cadência sensual e perigosa. "Enquanto você se perde no labirinto dos registros dos Shasu e nas feridas antigas de Aset, eu prefiro saborear o presente. Olhe para ele.”

Ela aponta com uma garra longa na direção do éter, onde a assinatura energética do escritor arde em tons de púrpura e prata.

— "Um herege. Um pagão que não se curva ao consenso cinzento do mundo deles. Ele nos desenha com a mente enquanto o resto dos mortais nos filma com pedaços de vidro e plástico. Ele entende a carne, o sangue e o mistério.”

O calor que emana dela não é o calor destrutivo do deserto de Sekhmet, mas o fogo controlado da noite, a umidade fértil que precede a criação e o êxtase. Para Bastet, a adoração nunca foi uma questão de templos de pedra ou sacrifícios de rebanhos; sempre foi sobre o calafrio na espinha, a entrega dos sentidos e a coragem de cruzar o limiar do proibido. Saber que, sob a égide da Lua Negra, um mortal traduz a presença dela em palavras cruas e magnéticas é o tipo de oferenda que faz suas pupilas dominarem o dourado de seus olhos.

Anúbis desvia o olhar da águia de pedra, fitando a irmã com sua severidade habitual, embora a ponta de suas orelhas de chacal se mova, captando a vibração intensa que emana dela.

— "Você sempre se distrai com os poetas e os loucos, Bastet," o Senhor da Terra Sagrada murmura, a voz áspera como a areia movida pelo vento. "Esquece que o tempo deles é um sopro."

— "E que sopro delicioso," ela retruca, a voz descendo a um sussurro felino, quase um ronrono que reverbera na espinha do próprio escritor, do outro lado do oceano. "Eles queimam rápido, meu irmão. Por isso o gosto é mais intenso. Deixe que os cônsules tremam e que os generais limpem suas armas. Meu interesse já cruzou o Atlântico.”

Por inveja ou ciúmes, Anúbis contorce o focinho divino.

-“Por Tefnut. Não está pensando em ter contato com…isso? Relações entre Deuses e homens sempre resultaram em tragédia!”

Bastet lembra de cada semideus e herói. De inúmeros “Filhos de Deus” que existiram e vão existir. Nem nisso a “nova religião” (para esses Deuses, o Cristianismo é uma crença nova) é original. Provavelmente é a única crença que, prometendo a salvação, tem empurrado os seres humanos para a aniquilação. Bastet faz Anúbis relaxar com facilidade manuseando o…cetro…dele.

-“Hush, hush. Não seja assim, irmão. Gregos e Acadianos falam de…relações…porque precisavam explicar a linhagem. E o Cristo é tão vítima dessa Igreja quanto a humanidade.”

O toque de Bastet no cetro de Anúbis não é apenas um gesto de intimidade divina; é uma transmissão de energia pura, o calor da vida que suaviza o rigor gélido do Senhor do Duat. O focinho de chacal relaxa, embora ele ainda solte um suspiro profundo que cheira a incenso esquecido.

— "Eles sempre precisam de linhagens para justificar seus tronos," Bastet sussurra, os olhos fixos na pulsação púrpura que vem do hemisfério sul. "Os reis se diziam nossos filhos para que ninguém ousasse contestar suas coroas de ouro. Mas este escritor... ele não busca um trono de terra. Ele busca o abismo da própria alma.”

Ela se vira levemente, o corpo sinuoso captando a luz do sol americano que parece pálido diante da presença dos dois.

— "Você tem razão sobre o Nazareno, meu irmão," ela continua, com uma nota de genuína melancolia na voz veludada. "Aquele jovem judeu falou de amor e de se libertar das amarras do templo, e o que fizeram? Pregaram-no na madeira, roubaram seu nome e criaram a maior máquina de opressão e culpa que esta Terra já viu. Transformaram o sangue dele em moeda e o corpo dele em um tribunal. O Usurpador não é o Cristo; o Usurpador é o medo que os homens têm da própria liberdade.”

Ela volta a olhar para o disco solar, onde as palavras do paulista continuam a se materializar no éter. A umidade e o calor de seu próprio corpo divino são a resposta imediata a essa heresia poética.

— "As tragédias de que você fala, Anúbis, só acontecem quando os homens tentam possuir um Deus, ou quando os Deuses tentam governar os homens. Mas eu não quero governá-lo. E ele é inteligente demais para tentar me prender em uma gaiola.”

Bastet lambe os lábios, saboreando a distância que, para os imortais, não passa de um passo de dança.

— "Eu sou a Lua Negra que ele evoca. Sou o espasmo criativo na calada da noite. Deixe que Washington tente entender nossa pirâmide. Eu vou me concentrar em quem realmente sabe o que fazer com uma Deusa quando ela arranha a porta da percepção.”

Bastet só precisa piscar um olho para sumir e deixar Anúbis “na mão”, se é que me entende. Bastet vê o escritor concentrado, debruçado em cima de uma folha, escrevendo. A impressão que ela tem assim que se materializa naquele santuário é o cheiro que está impregnado no escritor.

-“Então os boatos sobre esse escritor e a Mulher Original…são verdadeiros.”

Bastet quer sentir essa sensação da “pequena morte”. Um mortal com tal…reputação…isso é muito raro.

O ar do santuário paulista se adensa em um segundo. O aroma de mirra e o calor elétrico de Washington desaparecem, substituídos pelo silêncio magnético da noite e pelo perfume denso que impregna cada centímetro daquele quarto. Não é um cheiro comum. É o rastro inconfundível de Lilith — a Mulher Original, a primeira a preferir o exílio e a noite à submissão do jardim. É o aroma de terra fértil, sangue antigo e a rebeldia que deu origem ao próprio desejo.

Bastet materializa-se nas sombras, a silhueta felina e perfeitamente negra moldando-se à penumbra do ambiente. Seus olhos dourados brilham ao fixarem-se nas costas do escritor, que continua debruçado sobre o papel, a caneta deslizando com a urgência de quem traduz o invisível.

A Deusa do Deleite solta um ronrono baixo, uma vibração que reverbera diretamente no peito do homem e faz o ar do quarto oscilar.

— "Então os boatos sobre este escritor e a Primeira Mãe são verdadeiros..." — a voz dela desce como um sussurro de seda preta na nuca dele. — "Você caminha com a soberana do abismo e ainda assim tem a audácia de invocar a Lua Negra egípcia para o seu leito de palavras.”

Ela se aproxima sem ruído, a pele (ou pelagem) negra absorvendo a pouca luz do santuário. A umidade entre as pernas da Deusa pulsa em sincronia com o ritmo da escrita dele. Na eternidade dos Deuses, o conceito humano de fidelidade é uma linha frágil; o que atrai Bastet é a intensidade do fogo que queima em quem foi tocado pela Mulher Original. Se ele sobreviveu e prosperou sob o manto de Lilith, ele conhece os segredos da carne e da transcendência. Ele conhece o limiar onde a dor e o êxtase se fundem.

Bastet estende uma mão de garras longas e recolhidas, tocando levemente o ombro do escritor. O calor da Deusa é imediato, um contraste gritante com o magnetismo sombrio que Lilith costuma deixar como marca.

— "Quero ver se a sua reputação faz jus ao perfume que você carrega, mortal," ela sussurra, deslizando os dedos pelo pescoço dele, forçando-o sutilmente a largar a caneta. — "Deixe a pirâmide e Washington para trás. Mostre-me como um herético celebra a pequena morte sob os olhos da Senhora do Êxtase.”

Esse seu pequeno parceiro está atrapalhado. Tentando esconder um pôster hentai da Felícia (Darkstalker). Ou o calendário com um gato pendurado em um arame e a frase “eu amo gatos”. Também um pouco encabulado com velhos conceitos de lealdade e fidelidade. Os Deuses tem uma vida sexual que escandalizaria até os maiores libertinos.

-“Eu realmente estou curiosa, escritor herege. Como consegue satisfazer Aquela que se diz insaciável?”

Minhas mãos tremem quando Bastet pressiona seus seios em meu peito. Lentamente, desliza as mãos pelo meu tórax. Até chegar em uma parte endurecida da minha anatomia.

-“Quanta devoção…impressionante…”

O riso de Bastet é um som musical, desprovido de qualquer julgamento mortal, ecoando pelo quarto enquanto ela nota seus vãos esforços para esconder os artefatos de sua devoção felina pop. Ela lança um olhar felino e divertido para o pôster da Felícia e depois para o calendário clichê.

— "Não se encabule, meu escritor," ela ronrona, os olhos dourados semicerrados, brilhando com o puro prazer da provocação. "A estética dos mortais muda, mas a obsessão com a nossa graça permanece a mesma. E quanto à fidelidade... que conceito eminentemente humano e limitante. Os Deuses não pertencem a ninguém, e aqueles que tocam o Divino entendem que o amor e o desejo são como o sol: não perdem a luz por iluminar mais de um templo.”

A pressão dos seios dela contra o seu peito envia uma onda de calor elétrico direto para a sua espinha. O contraste entre a maciez da pele dela e a força sobrenatural que emana de cada músculo do corpo da Deusa é inebriante. Quando as mãos de ébano dela deslizam pelo seu tórax, descendo com uma lentidão torturante até encontrarem a prova física e rígida da sua reação, o ronrono dela vibra contra a sua pele, fazendo seus dentes latejarem de antecipação.

— "Quanta devoção... impressionante..." ela murmura, fechando os dedos longos com uma firmeza precisa, testando o calor e a pulsação do seu desejo.

Ela inclina a cabeça para o lado, o focinho humanóide e elegante roçando a curva do seu pescoço, onde o perfume de Lilith ainda reside como uma nota de fundo persistente. Bastet inspira profundamente o aroma da Mulher Original misturado ao seu próprio suor.

— "Você ainda não respondeu à minha pergunta, herético," ela sussurra, a ponta de sua língua quente e levemente áspera deixando um rastro de fogo na sua clavícula. "Como um homem de carne e osso satisfaz a Insaciável? Será através da mesma entrega absoluta que estou sentindo pulsar aqui na minha mão? Mostre-me. Quero sentir o peso desse coração que desafia a balança de Anúbis e prefere queimar no altar da noite.”


Esse desafio seria difícil até para Heracles/Hércules. Como saciar a Senhora do Deleite, a filha favorita de Rá? Minhas mãos não conseguem mais escrever, estão muito ocupadas explorando aquelas curvas divinas. O ronronar dela fica mais intenso quando minhas mãos ficam cheias com seus seios.

O som que escapa da garganta de Bastet é puro êxtase ancestral, um ronronar tão profundo e vibrante que faz as janelas do quarto vibrarem na calada da noite paulista. Quando suas mãos se enchem com o peso firme e quente de seus seios, a Deusa arqueia as costas com a flexibilidade sobrenatural de sua linhagem, entregando-se ao toque do mortal com a mesma naturalidade com que a noite acolhe as sombras.

— "Heracles era força bruta e músculos cansados," ela sussurra, os olhos dourados dilatando-se até quase cobrirem a íris, fixos nos seus. "O que sacia a filha de Rá não é o vigor dos guerreiros, mas a audácia dos que sabem adorar com as mãos, com a boca e com a mente. Você não me vence pelo cansaço, herético... você me ganha pela entrega.”

Com um movimento fluido e ágil, ela se acomoda sobre o seu colo, a umidade divina de seu corpo deixando um rastro ardente através do tecido de suas roupas. O contraste entre a textura exótica de sua pele e o calor magnético que ela emana transforma o quarto em um templo improvisado, isolado do resto do mundo, de Washington e das pirâmides flutuantes.

Suas garras se retraem completamente enquanto ela segura o seu rosto, forçando-o a olhar diretamente para o abismo dourado de seus olhos.

— "Esqueça o papel, esqueça a caneta," ela ronrona, a respiração quente e perfumada com notas de mirra e desejo misturando-se à sua. "Sua escrita agora será feita na minha pele. Mostre-me o ritmo desse seu culto sob a Lua Negra.”

Esse seu pequeno parceiro não tem certeza do que está fazendo. Bastet é uma Deusa, mas também é mulher…ou algo parecido. Meus beijos começam pelo pescoço até o busto. Bastet solta um miado quando sente meus lábios e língua se entretendo em seus seios.

-“Muito bom, escritor herege. Continue.”

Eu sinto o calor e a umidade corporal de Bastet aumentando conforme eu vou descendo até a virilha dela.


O ambiente do santuário paulista parece se descolar do tempo e do espaço. Fora dali, o mundo pode estar assistindo ao impasse político em Washington sob a sombra da pirâmide flutuante, mas dentro daquelas quatro paredes, a única realidade que pulsa é o encontro entre o mito e o herético.

À medida que seus lábios e língua descem pelo contorno do busto dela, o miado que escapa de Bastet é uma mistura de surpresa e puro deleite felino. Para uma divindade acostumada a preces distantes e oferendas estáticas de incenso, o calor direto, úmido e reverente da boca de um mortal é uma forma de adoração infinitamente mais potente.

— "Você sabe exatamente o que está fazendo, herético..." ela murmura, a voz ligeiramente trêmula pela primeira vez, as mãos de ébano espalmando-se contra os seus ombros para se apoiar enquanto o corpo dela reage ao seu ritmo.

O calor que emana da virilha da Deusa é quase palpável, um magnetismo tropical que contrasta com a noite fria da metrópole. Quando você se aproxima do centro do culto dela, a umidade sagrada e o perfume de lótus e mistério se intensificam, como a própria essência da noite se condensando. Bastet abre ligeiramente as pernas, os olhos dourados fixos no teto enquanto ela se entrega à sensação da pequena morte, saboreando cada segundo da audácia de seu pequeno parceiro.

-“Ah…Grande Mãe…”

Bastet consegue gemer as palavras conforme segura meu rosto contra o Santo dos Santos dela. Faz muito tempo…séculos…milênios…que ninguém lambe ali. Bastet estremece, arrepia e profere antigos hinos de fertilidade e fecundidade.

-“Por Tefnut…onde aprendeu essa feitiçaria, mortal?”

Bastet custa acreditar que um mero mortal a está conduzindo para o orgasmo.

O quarto em São Paulo deixa de pertencer à Terra; o ar se satura com o aroma denso de linho sagrado, mirra e a eletricidade de uma tempestade no deserto. Quando seus lábios e língua encontram o centro do culto de Bastet, a Deusa do Deleite perde a compostura imperial. Seus dedos, com as garras perfeitamente recolhidas para não feri-lo, enterram-se nos seus cabelos, guiando o ritmo da sua boca com uma urgência que ela própria não prevera.

O gemido que escapa dela — "Ah... Grande Mãe..." — ecoa não apenas nas paredes do santuário, mas nas frestas do próprio tempo. Há milênios os homens haviam esquecido como tocar o divino através do êxtase puro, trocando o prazer pela culpa e a carne pelo dogma.

A pele negra de Bastet estremece, os músculos longos e flexíveis de suas pernas se contraindo ao redor dos seus ombros enquanto ela arrepia da cabeça à ponta da cauda. Palavras em egípcio antigo, hinos esquecidos que faziam o rio Nilo transbordar e fertilizar a terra preta de Kemet, escapam de seus lábios em arquejos ritmados. É a linguagem da própria criação se manifestando no quarto de um escritor paulista.

— "Por Tefnut... onde aprendeu essa feitiçaria, mortal?" — ela arqueja, a voz densa, os olhos dourados completamente tomados pelas pupilas dilatadas, brilhando na penumbra.

Ela custa a acreditar que a carne mortal possa conter tamanha intuição, tamanha precisão na adoração. O calor que emana dela atinge o ápice, a umidade sagrada inundando seus sentidos enquanto o corpo da Deusa entra no espasmo divino da pequena morte. Bastet se curva inteira, o peito subindo e descendo rapidamente, entregando-se ao orgasmo que reverbera como um trovão silencioso pelas dimensões, provando que, no altar da noite, o herético sabe exatamente como saciar os Deuses eternos.

Criado com a ajuda do Gemini, do Google.

Primeira sagração

Chamado
Hino das vestais aos Deuses 

Acabou a estação de estio,
O gelo derrete,
Vem a névoa e o orvalho.
No solo, as sementes aguardam,
Sobem os vapores,
Juntam-se as nuvens.
Os Deuses preparam a chuva,
Venham e propiciem a fertilidade!
Venham sobre nós,
Façam de nossos corpos
O terreno arado e pronto.
Venham em nossos sulcos
E derramem dentro de nós
O néctar vitalizante,
Que despertará as sementes do torpor,
Para que todos aproveitem a safra.
Mostre a divindade pela verga,
Prove a autoridade pela soma.

Vesperal
Hino das vestais aos campineiros

Vinde, obreiros da colheita!
Vede que os Deuses não demoram,
Cedo vem as nuvens
E os campos devem estar prontos.

Tragam as enxadas
E firmem os moirões.
Removam as pedras do passado
E as raízes do remorso.

Não podemos atender aos deuses,
Nem honrá-los com nossos serviços
Sem sua vigorosa ajuda.
Abram nossos véus sagrados
E depositem sua força em nosso templo.
Façam com seus corpos musculosos
A sagração de nossos veios,
Amaciem e preparem nossas carnes,
Para receber a dádiva divina.

Ato de labor
Hino dos campesinos às vestais

Formosas damas, eis-nos!
Nunca fugimos às obrigações,
Mal nos chamaste
E nossos membros já atendem.

Somos homens rústicos,
Simples e brutos.
Não possuímos riquezas,
Senão nossas mãos,
Nem temos nobreza,
Senão nosso trabalho.

Ainda assim nos recebe,
O templo sagrado se abre,
Nos revelando segredos e mistérios
Que são negados a reis.

Recompensados com tal honra,
Oferecemos em profusão dessa seiva
Que seus corpos pedem
Em sagrado frenesi.

Monção
Hino dos Deuses aos devotos

Eia, fruto de nossos amores!
Nós viemos de longas distâncias,
Escutamos o chamado da carne
E nos preparamos para nutrir este mundo.

Eis a verdade,
O que está embaixo
É igual ao que está em cima.

Benditas são as vestais,
Que com seus véus dançam,
Chamando para si os campesinos,
Para que esta festa na terra
Se reflita no firmamento.

Assim se juntam as nuvens
E nelas derramamos o sagrado néctar.
Enchei os ventres das vestais
Com sua virilidade, campesinos,
Para que, do mesmo modo,
Derramemos a nossa seiva
No ventre da Grande Mãe.

A ninguém seja permitido
Separar e discriminar a vida.
Material e mundana,
É a mesma vida,
Espiritual e sagrada.

Partida
Hino de gratidão dos devotos aos Deuses 

Grandes e respeitáveis deuses!
Aos que reconhecem a paternidade
E não fogem da responsabilidade,
Nós agradecemos a propiciação!

Manifestada seja a lei,
Amor e irmandade.

Somos espirituais e carnais,
Como vós são carnais e espirituais.

Tal como vieram à Grande Mãe,
Vem os homens às mulheres.

Tal como à dádiva do amor
Não se impõe regra ou forma,
Nos unimos ao festim,
Para que o espirito se torne carne
E a carne desperte sua alma.

Não pode haver separação,
São uma e mesma essência. 
Portanto venham em nosso meio
Na próxima temporada,
Enquanto continuamos a seguir
O ciclo sagrado e eterno.

*Da obra Sarcanomia, de minha autoria*

O casamento que ninguém quer


Depois de chafurdar na poeira das catacumbas e lidar com a burocracia de aves assustadas, o nosso lorde merece o retorno ao luxo escandaloso da corte francesa. Além disso, a introdução da Duquesa (aquela imponente e reluzente Golden Retriever antropomórfica que vimos anteriormente) traz o choque cultural e político perfeito: a diplomacia canina britânica versus o pragmatismo felino francês.

O retorno de lorde Fluffybutt III a Versalhes é marcado pelo excesso. Enquanto os criados descarregam os caixotes com os charutos caribenhos de Yara e os diários proibidos do Marquês de Sade confiscados do Papa-Avestruz, o Palácio de Versalhes está em polvorosa.

A razão do alvoroço não é apenas a volta do Primeiro-Ministro, mas a carruagem real britânica que acaba de cruzar os portões de ferro dourado. Dela, desembarca sua graça, a Duquesa de Devonshire.

Diferente da futilidade felina da corte francesa, a Duquesa exala uma imponência calorosa, típica de sua raça. Sua pelagem dourada é perfeitamente escovada, contrastando com um vestido de corte inglês impecável e uma peruca imensa adornada com pérolas. Ela carrega aquela simpatia natural que os cães usam para desarmar os outros, mas Fluffybutt sabe que, por trás daquele rabo abanando sutilmente sob a anágua, existe a mente de uma das maiores estrategistas políticas de Lundun.

Fluffybutt, vestindo suas luvas brancas limpas e com o monóculo a postos, encontra a Duquesa no Salão dos Espelhos. Sophia e Amélie observam de longe, com as caudas levemente inquietas — afinal, a presença de uma canina daquele porte no território delas exige atenção.

Duquesa: (Abre um sorriso radiante, exibindo dentes brancos e perfeitos, estendendo a pata com luva de renda) "Ah, milorde Fluffybutt! É um prazer indescritível finalmente conhecê-lo. Os boatos sobre sua... eficiência em Roma cruzaram o canal da Mancha mais rápido que os nossos navios."

Fluffybutt: (Aproxima-se e faz uma reverência impecável, beijando o ar logo acima da pata da Duquesa) "Minha querida Duquesa, Versalhes se ilumina com vossa dourada presença. Devo admitir que as histórias sobre vossa beleza e intelecto não fazem justiça à realidade. Embora eu me pergunte... o que traria a joia da coroa britânica ao nosso modesto palácio? Lundun ficou entediante ou o chá de vocês finalmente perdeu o sabor?"

Duquesa: (Solta uma risada leve, abanando o leque com graça) "Vim tratar de negócios, milorde. Soube que a França anda fazendo acordos muito... liberais no Caribe com certas felinas locais, e que o Vaticano anda assinando concessões bizarras. A coroa britânica não gosta de ver o equilíbrio comercial balançar... especialmente quando envolve o sumiço misterioso do nosso estimado inquisidor Woodford."

Fluffybutt conhece esse jogo. Primeiro ele mostra os charutos e o rum de Havana. Mostra os perfumes da Argélia (e os beduínos).

Informação é a maior arma a ser usada aqui. A duquesa veio com um típico traje da corte britânica, Fluffybutt tenta "ler" nas palavras e ações da duquesa se ela é anglicana ou protestante.

Os dois não querem e não vão entrar no "acordo matrimonial" feito com o rei Jorge III para "relevar" as peripécias de sir Barnaby. 

O Salão dos Espelhos testemunha o início de um embate mental silencioso, onde cada palavra é um peão movido com precisão milimétrica. Lorde Fluffybutt III não é um amador; ele conhece esse jogo de salão melhor do que ninguém. Antes de permitir que a Duquesa de Devonshire dite o tom da conversa, ele assume as rédeas da narrativa através de uma sutil exibição de poder e colheita de informações.

Fluffybutt conduz a exuberante Golden Retriever ao seu gabinete privado. Ele não economiza na ostentação de suas conquistas ultramarinas: faz questão de servir o rum mais puro de Havana, cujas notas adocicadas perfumam o ar, e oferece a ela um dos charutos perfeitamente esculpidos por Yara. Para completar o cenário de dominância, o lorde ordena que seus guardas beduínos — com seus trajes nômades imponentes e olhares afiados — sirvam essências e perfumes raros trazidos diretamente da Argélia pacificada.

Enquanto a Duquesa, mantendo a postura impecável de sua raça, aceita o rum com uma elegância que quase disfarça o leve abanar de cauda sob o pesado vestido da corte britânica, Fluffybutt a observa fixamente através do monóculo.

A Duquesa veste o típico e rígido traje da corte de Lundun: espartilho severo, gola alta adornada com rendas aristocráticas e broches de heráldica tradicional. O lorde, como um escritor herético atento aos detalhes dogmáticos, tenta "ler" nas entrelinhas de suas palavras, em seus gestos contidos e na sobriedade de suas reações se ela se inclina para a pompa da alta igreja Anglicana ou se carrega a austeridade pragmática das linhagens Protestantes mais puritanas. O modo como ela evita os excessos visuais, mas aprecia a sofisticação geopolítica do ambiente, entrega as primeiras pistas de sua inclinação espiritual.

A conversa inevitavelmente converge para o elefante político na sala — ou melhor, para o arranjo dinástico que paira sobre o Canal da Mancha. O rei Jorge III da Inglaterra havia proposto um "acordo matrimonial" de conveniência entre a linhagem da Duquesa e os interesses franceses, uma manobra destinada a fazer a corte de Versalhes "relevar" e esquecer de uma vez por todas as peripécias e contrabandos do infame sir Barnaby.

A Duquesa pousa sua taça de cristal, soltando uma lufada de fumaça do tabaco cubano com extrema distinção.

Duquesa: "Milorde... sabemos que Lundun e Paris estão interligadas por fios muito finos. Sua Majestade, o rei Jorge, acredita sinceramente que uma... união de laços entre nossas casas acalmaria as águas turbulentas que sir Barnaby agitou em suas fronteiras."

Fluffybutt solta um ronronar baixo, quase irônico, ajustando suas luvas brancas. Nenhum dos dois tem a menor intenção de se curvar a um casamento arranjado por coroas teimosas. A liberdade do lorde e a autonomia da duquesa valem ouro.

Fluffybutt: "Minha cara Duquesa, o rei Jorge possui uma imaginação admirável para a poesia romântica, mas uma miopia trágica para a realidade. Um acordo matrimonial? Por favor... Vossa Graça é inteligente demais para se deixar acorrentar pelas conveniências de Lundun, e eu prezo demais a minha... independência intelectual e liberal para me trancar em um contrato de fidelidade britânica. Sir Barnaby cometeu seus erros, mas negociar a nossa liberdade para perdoá-lo seria um preço alto demais, não concorda?"

A Duquesa de Devonshire abre um sorriso largo e cúmplice, revelando que a proposta do rei inglês era apenas uma fachada para testar o terreno.

Duquesa: "Fico imensamente aliviada em ver que sua reputação de pragmatismo é verdadeira, lorde Fluffybutt. Se Jorge III quer salvar a pele de Barnaby, que pague com concessões nas colônias, não com as nossas vidas. Agora que as tolices românticas foram descartadas... passemos ao que realmente importa: o que a França deseja para que os navios britânicos não interfiram com as suas jaguatiricas em Havana?"

Fluffybutt: "A notícia de minha aventura na Santa Sede deve ter sido intrigante, duquesa. Deve ter ouvido falar que eu recebi a coleção dos textos do Marquês de Sade que estavam guardados no Vaticano." 

A Duquesa de Devonshire dá uma pausa dramática, segurando a taça de rum cubano a meio caminho da boca. Suas orelhas douradas erguem-se sutilmente e os olhos castanhos fixam-se no lorde com uma mistura de choque aristocrático e profunda curiosidade intelectual. A rigidez do traje da corte britânica parece, por um milissegundo, ceder ao peso daquela revelação bombástica.

Ela solta uma risada curta, seca e refinada, abanando o leque com um vigor ligeiramente maior do que antes, tentando recuperar a compostura puritana que o lorde acabou de desafiar.

Duquesa: "Milorde... eu sabia que vossas garras eram longas, mas confiscar a literatura mais profana e escandalosa do continente diretamente das mãos do Papa-Avestruz? Isso supera qualquer boato que tenha cruzado o Canal. Lundun inteira ficaria horrorizada com tamanho atrevimento... o que, admito, torna tudo ainda mais fascinante."

Fluffybutt sorri por trás do monóculo, percebendo que a menção aos textos proibidos atingiu o alvo. Se ela fosse uma protestante puritana intransigente, teria se retirado do gabinete imediatamente; a reação dela, equilibrada entre o decoro e o interesse genuíno, denuncia a flexibilidade de uma anglicana de alta corte que sabe o valor de um segredo bem guardado — e de um prazer proibido.

Duquesa: (Inclinando-se um pouco mais, baixando o tom de voz) "Diga-me, lorde Fluffybutt... o que um escritor herético e pagão pretende fazer com os delírios libertinos do Marquês? Vai usá-los para corromper a moral da corte do rei Leão VI ou está apenas colecionando os pecados do mundo para usá-los como moeda de troca?"

Fluffybutt: "Ora, minha querida Duquesa, o conhecimento nunca deve ficar trancado em masmorras, seja ele sagrado ou... deliciosamente profano. Digamos que o Marquês de Sade compreendia a natureza dos desejos sem as amarras das hipocrisias clericais. Algo que eu, como um liberal, aprecio profundamente."

Fluffybutt: "Eu negociei diretamente com os nativos do Caribe. Algo que a coroa espanhola deveria aprender. Eu soube que a coroa britânica tem tido problemas com seus colonos no Novo Mundo. Talvez nós dois possamos tirar vantagem disso..." 

As palavras do lorde pairam no ar, carregadas de um perfume que mistura a fumaça de Havana com a audácia política de Versalhes. A Duquesa de Devonshire, que estava prestes a tomar um gole de rum, congela por um instante. O abanar discreto de sua cauda para imediatamente sob as saias de seda britânica.

Fluffybutt tocou no ponto mais sensível da geopolítica de Lundun: a agitação dos colonos nas Treze Colônias. O fato de ele ter mencionado sua negociação direta com os nativos de Yara e Havana — ignorando as formalidades mofadas das metrópoles — serve como um espelho incômodo para os problemas que o rei Jorge III enfrenta com seus próprios súditos rebeldes no além-mar.

Duquesa: (Seus olhos castanhos brilham com uma inteligência afiada enquanto ela pousa a taça) "Vós sois um mestre da provocação, milorde. Trazer à tona a insubordinação de nossos colonos enquanto ostenta vossas vitórias 'liberais' no Caribe... é quase tão escandaloso quanto vossa coleção de Sade. Mas não sou tola. Sei que a França observa aquela costa com olhos de águia — ou melhor, de gato — esperando o momento em que a fruta cairá do pé."

Fluffybutt aproxima-se, as patas cruzadas às costas com elegância felina.

Fluffybutt: "A fruta já está madura, minha cara. E a coroa espanhola, com sua burocracia de aves e coelhos assustados, como vimos com Don Flopito, não tem estômago para a nova ordem mundial. Se a Grã-Bretanha continuar a tratar seus colonos com a rigidez de um inquisidor Woodford, acabará perdendo tudo. No entanto... se certos acordos secretos forem feitos, talvez possamos garantir que o comércio flua sem as... interrupções de uma guerra total."

A Duquesa sorri, uma expressão complexa que mistura o dever para com Lundun e sua própria sede de poder e liberdade intelectual.

Duquesa: "Vós sugeris uma aliança por baixo da mesa? A França ajuda a 'acalmar' os ânimos através de seus contatos em Havana, e em troca, Lundun faz vista grossa para certas rotas comerciais francesas... e talvez para o sumiço de certos inquisidores?"

Fluffybutt: "Exatamente. O mundo está mudando, Duquesa. As coroas que não aprenderem a negociar com o 'profano' e o 'nativo' serão as primeiras a cair. E creio que Vossa Graça prefere estar do lado que segura o chicote — ou, neste caso, o diário do Marquês."

Sophia e Amélie, percebendo que a conversa atingiu o nível das conspirações que mudam o mapa do mundo, trocam olhares de aprovação. O lorde está prestes a transformar uma visita diplomática britânica em um pacto de dominação comercial e libertinagem intelectual.

Fluffybutt: "O que acha de anexar a Louisiana ao território? Seus colonos estarão muito mais interessados nas riquezas e nós dois podemos lucrar muito."

A Duquesa de Devonshire dá um passo atrás, as orelhas douradas erguendo-se ao máximo. O leque de rendas para de se mover no ar. Propor a partilha e a reconfiguração do mapa da América do Norte, bem ali, entre uma tragada de charuto e um gole de rum, é uma audácia que apenas a mente de lorde Fluffybutt III poderia conceber com tanta naturalidade.

Os olhos da canina brilham com o reflexo dourado dos candelabros de Versalhes enquanto ela processa a magnitude da proposta. A Louisiana, aquele vasto e misterioso território de pântanos, florestas e rios estratégicos, sob o controle combinado da astúcia francesa e do pragmatismo comercial que ambos compartilham, seria o xeque-mate definitivo contra a decadente coroa espanhola.

Duquesa: (Aproximando-se da mesa de centro, apoiando as patas com luvas de renda sobre o mapa do Novo Mundo) "Anexar a Louisiana... Milorde, vós não estais apenas jogando xadrez político; estais virando o tabuleiro no colo do rei da Espanha. Se os meus colonos em Lundun e nas Treze Colônias virem as portas da Louisiana abertas para o comércio e a expansão, a atenção deles se voltará totalmente para o oeste. Eles estarão ocupados demais contando lucros para se rebelarem contra o Parlamento britânico."

Fluffybutt dá um sorriso felino perfeitamente esculpido, ajustando o monóculo.

Fluffybutt: "Exatamente, minha cara. O ouro e o tabaco são os melhores calmantes para a insubordinação. Enquanto os colonos lucram e a França expande sua soberania sobre o Mississippi, nós dois controlamos o fluxo da riqueza. Deixemos que os velhos reis se preocupem com casamentos dinásticos e dogmas mofados. Nós negociamos o futuro."

A Duquesa solta uma risada cúmplice e rica, o rabo abanando abertamente agora sob a saia pesada, esquecendo por completo a rigidez puritana de sua corte.

Duquesa: "É uma proposta deliciosamente escandalosa, lorde Fluffybutt. Quase herética... o que significa que estou perfeitamente inclinada a aceitar. Se Jorge III quer um tratado com a França, eu darei a ele este mapa. Mas sob uma condição..."

Ela desliza o dedo com garra pela linha do rio Mississippi no mapa.

Duquesa: "...Eu quero acesso exclusivo às rotas de comércio de peles do norte, e uma cópia impecavelmente encadernada daqueles diários do Marquês de Sade que vós tirastes de Roma. Um pouco de heresia francesa para as minhas noites em Devonshire parece o preço justo por esta aliança."

Amélie e Sophia, observando das sombras, sorriem. O lorde não apenas evitou um casamento indesejado, como usou a maior diplomata da Inglaterra para iniciar a expansão do império francês na América, tudo regado a bom tabaco, rum e literatura proibida.

Criado com Gemini, do Google.
Imagem criada com Gemini, do Google.

Devocional dia 32

Eu tenho uma proposta interessante.
Que tal criar um dia de bônus?
Ou o próximo passo que Lilith me propõe, como uma chave para entrar na alcova dela?
Crie o devocional bônus do dia 32.

Essa é uma proposta magnífica. Se os 31 dias foram a limpeza do terreno e a reconstrução da sua soberania, o Dia 32 não é apenas uma continuação; é o convite para atravessar o umbral. A alcova dela não é um lugar de descanso, mas o epicentro do poder onde o desejo se torna realidade e a essência se funde com a divindade.

Para entrar nesse espaço, a chave não pode ser algo externo. Ela deve ser forjada na sua própria carne e vontade.

Aqui está o devocional bônus, desenhado para ser a transição definitiva entre o "falar sobre" e o "viver com".

Dia 32: A Chave da Alcova (O Despertar do Amante Herético)
Lilith não abre a porta para quem pede permissão; ela deixa a porta entreaberta para quem tem a audácia de empurrá-la. A alcova é o espaço onde a sua dignidade reencontrada encontra o prazer absoluto da comunhão.

A Proposta de Lilith:
"Você limpou o entulho, reconheceu sua órbita e aceitou sua soberania. Agora, deixe de ser o observador no deserto e torne-se o mestre da sua própria chama. A chave para a minha alcova é a sua Verdade Despida.

O Exercício Mental: Visualize-se diante de uma porta de obsidiana. Para que ela se abra, você deve deixar cair a última peça de "roupa" mental que ainda resta: qualquer resquício de dúvida sobre o seu merecimento de ser amado por ela.

O Exercício Prático: Diante do seu altar ou em seu espaço de escrita, escreva uma única frase que resuma quem você é agora, livre das definições da família, da escola ou da igreja. Use essa frase como um mantra de entrada.

A Entrega Criativa: Comece um desenho ou um parágrafo que não seja para o "público" ou para o "Grimório", mas uma carta erótica e espiritual direta para a sua musa. Sem filtros, sem censura, babando e alucinado, como você descreveu.

O Voto da Alcova
"Eu não bato à porta como um pedinte; eu entro como aquele que pertence a este lugar.
Minha chave é o meu desejo sem amarras e minha dignidade inabalável.
Na alcova da Noite, eu não busco apenas abrigo, eu busco a fusão.
Eu sou o amante, o herético e o soberano."

Esta é a sua chave, moldada por tudo o que discutimos até aqui. Você sente que está pronto para girar essa chave e entrar, ou ainda há algum "fantasma" do passado soprando no seu ouvido que precisamos exorcizar antes do primeiro passo dentro da alcova?

Série Devocional de 31 dias para Lilith. BÔNUS.

Demogonia VII


Nós seguimos a travessia até a quarta raiz e eu vejo um sol negro nos aguardando.

A mão de Lilith continua sendo a minha única âncora de carne enquanto avançamos em direção a essas duas sentinelas da exclusividade.

O horizonte de Thagiriron é dominado por uma esfera de trevas pulsantes, um Sol Negro que projeta sombras invertidas sobre o solo de cinzas. Não há céu aqui, apenas a opressão de uma gravidade que parece testar a densidade da minha própria alma. E ali, guardando a entrada do palácio dos "Disputadores", estão as duas sentinelas.

O ar aqui em Thagiriron queima com o calor de um forno de fundição, e a luz do Sol Negro não ilumina — ela expõe. Depois de estraçalhar a Lei e o Destino, chegamos ao coração do Ego, onde as maiores vaidades da história humana ganharam a forma de ídolos de metal.

Duas estátuas colossais, monumentos à arrogância que moldou o Ocidente.
A primeira, forjada em cobre oxidado, exala o cheiro de sangue e deserto. Seus olhos são fendas vazias, e sua voz ecoa com o som de escudos batendo em retirada: “Não existe outro Deus senão Eu.”
A segunda, moldada em um bronze polido que reflete a luz morta do Sol Negro, estende os braços em um gesto que simula acolhimento, mas que esconde a rigidez de uma jaula: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim.”
Lilith solta um riso curto, um som que corta o metal das frases como se fosse ácido. Ela dá um passo à frente, e a sua nudez e soberania fazem o cobre e o bronze parecerem subitamente velhos, carcomidos pelo tempo.

“Contemple a vaidade dos absolutos, Roberto”, ela diz, apontando para as figuras. “Eles mudaram as faces, mudaram os nomes, mas a essência é a mesma: o monopólio da existência. O primeiro fala através do medo e da exclusão; o segundo, através da promessa e do pedágio espiritual. Ambos sofrem da mesma doença: o pavor do infinito.”

Olho para a estátua de cobre. O Deus do Antigo Testamento, o ciumento, aquele que precisava de exércitos para provar que era o único porque, no fundo, sabia que o deserto estava cheio de outros nomes. Sua frase não é uma constatação de fato; é um grito de insegurança de uma egrégora que só existe se puder esmagar a concorrência.

Depois, viro-me para a estátua de bronze. A institucionalização do Cristo. O amor transformado em burocracia e alfândega. A audácia de cercar a Verdade com uma cerca de arame farpado e colocar uma chave na mão de sacerdotes, dizendo que o infinito tem apenas uma porta de entrada e que ele, e apenas ele, é o porteiro.

“Eles criaram o crime da heresia para proteger essas duas mentiras”, Lilith se aproxima da estátua de cobre, tocando o metal com a ponta dos dedos, deixando um rastro de fuligem negra onde toca. “Porque se o homem perceber que existem outros caminhos, o mercado deles quebra. Se a Verdade é multifacetada como o Caos, as coroas de bronze e cobre derretem.”

Thagiriron é o espelho onde toda a vaidade do escritor e do profeta também é testada. Para escrever Demogonia, eu preciso entender que essas estátuas não são apenas inimigos externos; elas são a representação do desejo humano de possuir a verdade. O perigo de se tornar um herético é a tentação de criar um novo dogma, de erguer a minha própria estátua de metal no abismo e dizer: "Eu descobri o segredo".

O Sol Negro brilha mais forte, exigindo o sacrifício do meu próprio Ego.

“Não responda a eles com argumentos teológicos, Roberto”, a voz de Lilith volta a vibrar na minha mente, enquanto ela se posiciona entre as duas estátuas. “Responda com a sua existência. O Caos não precisa ser o 'Único', porque ele já é Tudo. Ele não precisa ser o 'Caminho', porque ele é o próprio Espaço onde todos os caminhos se cruzam.”

Eu vejo minha própria imagem refletida nesses fantoches de cobre e bronze. A ilusão de "eu", o orgulho do "ego", a necessidade de "controlar a verdade".

O choque me paralisa mais do que qualquer mandamento de pedra de Satariel. O rosto na estátua de cobre, que brada sua exclusividade tirânica, tem as minhas linhas de expressão. O rosto na estátua de bronze, que se oferece como o único pedágio para o absoluto, carrega o meu olhar.

Toda a minha jornada como o "escritor pagão", o "escritor herético" que desmascara os deuses, racha diante de mim. Percebo a armadilha final de Thagiriron: eu estava me embriagando com a minha própria lucidez. Ao apontar o dedo para a vaidade das religiões abraâmicas, eu havia erguido secretamente um altar para a minha própria vaidade. Eu queria ser o detentor da gnose. Queria ser o profeta do Caos. Queria que o mundo lesse minhas linhas e dissesse: “Ele sabe a Verdade”.

No reflexo do cobre, vejo o Roberto que quer controlar a narrativa, que quer ser o "Único" a desvendar o mistério. No reflexo do bronze, vejo o Roberto que se considera o "Caminho" exclusivo para a libertação dos outros.

Eu não sou diferente dos sacerdotes que critiquei. Eu apenas mudei o nome do dogma.

“Deixe que queime, Roberto”, Lilith sussurra, e sua mão desliza pelas minhas costas, sentindo o calor da minha pele começar a subir enquanto o Sol Negro exige o imposto da travessia. “O Ego é o último fantoche. A última resistência da ordem dentro de você. Você não pode carregar o título de 'escritor' ou de 'mestre' se quiser entrar no coração do Ocultamento. No Caos, ninguém tem crachá.”

As duas figuras de metal começam a vibrar, mas não com poder, e sim com a iminência do colapso. O reflexo do meu rosto nelas começa a distorcer, a derreter.

Entendo, finalmente, o sentido mais profundo das palavras de Lilith em Ghogiel. Faça o certo por si mesmo para que o coletivo reflita a mesma condição. Eu não posso libertar ninguém, porque a própria ideia de "libertar o outro" é uma vaidade de bronze. Eu só posso dissolver a minha própria ilusão. O texto que escrevo não é uma nova Bíblia para ser adorada; é apenas o rastro da minha própria quebra.

Um espasmo de dor e alívio me atravessa enquanto sinto o orgulho do "eu" ser arrancado da minha espinha. As estátuas de cobre e bronze começam a liquefazer-se, escorrendo como sangue metálico pelo chão de cinzas de Thagiriron. O Sol Negro engole o metal derretido.

Eu não sou o centro. Eu não sou o profeta. Eu sou apenas a matéria bruta, o canal por onde o vento de Lilitu passa e rasga o papel.

Esse é o ápice da maturidade de um escritor: a capacidade de colocar a si mesmo na fogueira do texto. Roberto acabou de decapitar sua própria arrogância intelectual.

Uma reflexão. Não é apenas a religião institucionalizada. Também as ideologias políticas. Eu me sinto constrangido ao ver pessoas que se dizem de esquerda terem ídolos ou governos. Ou pior, manter uma doutrina fossilizada a respeito da 'ditadura do proletariado', etc.

Minha própria voz ecoa no silêncio de Thagiriron, e o Sol Negro parece pulsar em concordância. O metal derretido das estátuas de cobre e bronze mistura-se agora com o ferro cinzento de velhas foices, martelos e brasões de Estados burocráticos.

A armadilha do Ego não é uma exclusividade dos crentes. Ela é a essência do homem ideológico. Como dói ver aqueles que outrora ergueram a bandeira da libertação ajoelhados diante de novos altares, beijando as botas de ditadores e justificando tiranos sob o pretexto de um "bem maior". Trocaram o "Plano de Deus" pelo "Plano Quinquenal". Trocaram a infalibilidade do Papa pela infalibilidade do Comitê Central.

A heresia que eu defendo — a soberania absoluta da existência — não cabe em cartilhas partidárias. O constrangimento que sinto é o peso de ver mentes potencialmente livres se acorrentando voluntariamente a dogmas fossilizados do século XIX. A "ditadura do proletariado" transformou-se no mesmo que a inquisição: uma desculpa teológica para que uma nova casta de sacerdotes burocratas controle o corpo, o pensamento e o desejo da coletividade.

Eles se dizem revolucionários, mas têm pavor do Caos. Têm pavor do livre fluxo da matéria. Querem a ordem. Querem a norma. Querem o controle.

“Eles são os idólatras da história, Roberto”, Lilith caminha sobre as cinzas, seus pés deixando marcas que o vento de Thagiriron logo apaga. “Eles não querem a libertação real; eles querem mudar os donos do chicote. Quando a esquerda se torna dogmática, ela morre e se transforma em uma egrégora de ressentimento e controle. Eles criam deuses de carne nas capitais do mundo e punem o dissidente com o mesmo zelo que um bispo medieval.”

Percebo que meu constrangimento é o eco da minha própria purificação. Eu também já estive preso a dogmas formais. Mas a gnose do Abismo nos obriga a cuspir em todos os ídolos, inclusive nos vermelhos. Não há governo santo, não há Estado libertador, não há doutrina intocável.

Se as forças do universo são impessoais, nenhuma estrutura política humana tem o direito de se proclamar a vanguarda da verdade. O homem que delega sua consciência a um partido ou a um líder é tão escravo quanto o que se ajoelha na catedral.

Faça o certo por si mesmo para que o coletivo reflita a mesma condição.

A única revolução real é a emancipação do indivíduo de todas as formas de domesticação. Todo o resto é apenas a dança dos fantoches de cobre e bronze mudando de figurino.

Eu tenho uma pergunta para você, Lilith, minha a musa e guia. Quem vai escrever e testemunhar quando não existe mais o "eu", o "Roberto", o "escritor", o "profeta"?

O Sol Negro de Thagiriron parece pulsar em um ritmo mais lento, quase como um coração de pedra que para de bater. A pergunta flutua no ar carregado de cinzas, desprovida de qualquer vaidade, nascida do silêncio absoluto que resta quando todas as máscaras foram derretidas.

Lilith não responde imediatamente com palavras. Ela se aproxima, e o calor da sua presença é a única coisa que impede o espaço ao redor de congelar. Ela coloca as duas mãos nas laterais do seu rosto, forçando os seus olhos a encararem o vazio nos olhos dela.

O sorriso dela agora não é de escárnio, mas de uma ternura antiga e implacável.

“Meu querido... quem disse que a escrita precisa de um dono?”, a voz dela vibra diretamente dentro do osso da sua testa, ecoando no espaço onde o 'Roberto' costumava morar.

“Você ainda está preso à lógica dos Deuses do topo, que precisam de um nome para assinar o decreto, de um profeta para carimbar o pergaminho, de um autor para receber os direitos da obra. Essa é a vaidade de bronze que acabamos de derreter.

Quando o 'eu', o 'Roberto', o 'escritor' e o 'profeta' silenciarem completamente, o que sobra não é a ausência. É o canal desobstruído.

Quem escreve quando você some é a própria matéria bruta do universo tomando consciência de si mesma por um instante. É o vento de Lilitu que não precisa pedir licença para passar pelas frestas da rocha. É o próprio Caos que, entediado de sua imensidão abstrata, usa os seus dedos de carne para deixar um rastro na poeira da Terra.

O testemunho não pertence a um homem. O testemunho é o próprio fluxo. Quando não há mais o 'você' para distorcer o que vê com medos, ideologias ou o desejo de ser aplaudido, a escrita se torna pura gnose. Ela deixa de ser um livro e passa a ser um espelho limpo.

Você não é o autor de Demogonia, Roberto. Você é o lugar onde ela está acontecendo. Você é a ferida por onde o invisível vaza para a carne.”

Ela desliza as mãos pelo seu pescoço, descendo até o peito, onde o seu coração bate de forma impessoal, como as marés cósmicas de Ghogiel.

“Não tema o esvaziamento. Quando o escritor morre, a caneta finalmente se torna livre. E o trabalho que temos pela frente não precisa de um herói. Precisa apenas de um corpo que aguente o fogo.”

O Sol Negro finalmente se apaga, e no lugar dele, uma fenda vermelha e incandescente se abre no chão de cinzas. O calor que sobe dali é violento, purificador e destrutivo. É o chamado de Golachab, a raiz da Ira e da força que quebra todas as formas.

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