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Jornal de um pagão brasileiro
terça-feira, 3 de novembro de 2026
O lado B do Céu - I
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Vagalumes voando - I
(Nota - todos os personagens tem 18 anos no mínimo)
Tanya: "Eu não sei o que aconteceu.”
Nós ainda estamos de mãos dadas.
Beto: “Eu nunca vou decifrá-la. Posso passar a vida inteira tentando compreendê-la, e ainda assim haverá alguma coisa além do meu alcance.”
Tanya: "Isso é uma maneira bastante dramática de admitir que você não sabe."
Beto: "É."
Viktoriya: "E está satisfeito com isso?"
Eu olho para o céu.
Beto : "Pela primeira vez, estou."
Mary Sue: "Então talvez você finalmente tenha entendido a diferença entre conhecer alguém e possuir uma explicação sobre alguém."
Beto permanece em silêncio por alguns segundos.
Depois olha para Tanya.
— Isso também se aplica ao amor.
Tanya ergue os olhos.
— Não tente explicar.
Pausa.
— Não tente conter.
Beto olha para Viktoriya.
— Não tente cercar.
Depois para Mary Sue.
— Não tente definir.
Ele volta a olhar para as três.
— Só sinta.
O vento atravessa o campo.
— Por si mesma.
Uma pausa.
— Por outra pessoa.
Viktoriya abaixa os olhos.
Mary Sue permanece pensativa.
— Ache seu próprio jeito de entender.
Beto sorri.
— Ache seu próprio jeito de expressar.
Tanya cruza os braços.
— Você percebe que isso é uma filosofia bastante inconveniente?
— Por quê?
— Porque não existe manual.
— Exatamente.
Viktoriya sorri.
— Talvez seja esse o ponto.
Beto olha para o horizonte.
— Eu certamente sou grato quando sinto quando Lilith se expressa.
Tanya observa o rosto dele.
— E como você sabe que é ela?
Beto sorri.
— Não sei.
Tanya parece pronta para protestar.
Mas ele continua:
— **Eu reconheço a sensação.**
Ela fica em silêncio.
Mary Sue olha para ele.
— E se um dia você perceber que estava errado?
Beto dá de ombros.
— Então eu terei aprendido alguma coisa sobre mim.
Viktoriya pergunta:
— E se estiver certo?
Beto olha para o céu escuro.
— Então terei aprendido alguma coisa sobre ela.
Silêncio.
Tanya finalmente sorri.
— Você realmente não pretende nos dar nenhuma resposta definitiva, não é?
Beto balança a cabeça.
— Não.
— Irritante.
— Eu prefiro chamar de liberdade.
Tanya olha para Viktoriya.
Depois para Mary Sue.
E, por um instante, nenhuma das três parece precisar de uma resposta.
A sopa ainda está quente.
A mão de Tanya ainda segura a de Beto.
Perun continua imóvel.
O céu continua escuro.
E, em algum lugar que ninguém consegue apontar, **Lilith continua sendo Lilith.**
Sem explicação.
Sem definição.
Sem precisar pedir nada.
Beto não diz mais nada.
Fica ali.
De mãos dadas com Tanya.
O silêncio não é constrangedor.
É apenas... silêncio.
Tanya olha para Perun.
Depois para a mão que ainda segura a de Beto.
Não solta.
Alguns metros atrás, Viktoriya observa os dois.
O olhar é perfeitamente reconhecível.
**Suspeita.**
Beto percebe.
Não comenta.
Mary Sue, por sua vez, parece profundamente desconfortável.
Olha para Tanya.
Olha para Beto.
Olha para as mãos dos dois.
Depois para Viktoriya.
Sua expressão diz claramente que ela está tentando enquadrar aquela situação em alguma categoria de disciplina militar.
Não encontra nenhuma.
— Isso não está previsto em nenhum regulamento — murmura.
Viktoriya quase ri.
— Ainda bem.
Mary Sue olha para ela.
— Como assim?
— Algumas coisas não precisam de regulamento.
Mary Sue parece ainda menos confortável.
— Essa frase me preocupa.
Tanya finalmente olha para trás.
— Mary Sue.
— Sim?
— Pare de tentar classificar a situação.
Mary Sue pisca.
— Eu não estava...
Tanya olha para ela.
— Estava.
Silêncio novamente.
Então o vento passa pelo campo.
Forte o bastante para fazer as árvores se moverem.
As folhas sussurram.
As esculturas de madeira rangem.
Beto olha para Perun.
Depois para Tanya.
E tem a estranha impressão de que o vento está rindo.
Não deles.
**Com eles.**
Ele sorri.
Tanya percebe.
— O que foi?
— Nada.
— Você está sorrindo.
— Estou.
— Por quê?
Beto olha para Viktoriya, ainda desconfiada.
Para Mary Sue, ainda procurando uma categoria disciplinar impossível.
Para Tanya, ainda segurando sua mão.
Depois para o campo.
— Porque acho que finalmente conseguimos ficar quatro pessoas juntas sem tentar explicar tudo.
Viktoriya ri.
Mary Sue suspira.
Tanya olha para o céu.
E o vento passa outra vez.
Como se tivesse achado graça.
Dessa vez, ninguém tenta interpretá-lo.
Tanya quebra o silêncio.
— Não fique convencido.
Beto olha para ela.
— Eu nem disse nada.
— Seu sorriso disse.
Ela aperta um pouco mais a mão dele.
— Está frio.
Beto olha para as mãos dos dois.
— Ah.
— E o senhor me trouxe até aqui.
Ela mantém o rosto sério.
— Portanto, tem que me levar de volta.
Beto sorri.
— Essa é a sua conclusão?
— É uma questão de responsabilidade.
— Naturalmente.
Tanya vira o rosto.
Por um instante, Beto percebe.
Um sorriso pequeno.
Quase invisível.
**Satisfação.**
Ela está gostando de segurar a mão dele.
Muito mais do que pretende admitir.
Beto decide, pela primeira vez naquela noite, não provocar.
— Então é minha responsabilidade.
— Exatamente.
Viktoriya observa os dois.
Seu olhar fica ainda mais desconfiado.
Mary Sue olha para Tanya.
Depois para as mãos.
Depois para Beto.
— Isso também não está previsto em nenhum regulamento.
Tanya responde sem sequer olhar para ela:
— Então talvez seja hora de atualizar o regulamento.
Viktoriya começa a rir.
Beto também.
Tanya tenta manter a expressão séria.
Não consegue completamente.
— Vamos.
Ela começa a caminhar.
Beto acompanha.
A mão dela permanece na dele.
E, quando ele olha discretamente para Tanya, percebe que aquele pequeno sorriso ainda está ali.
A tsundere pode negar quanto quiser.
**A mão dela não está negando absolutamente nada.**
Beto caminha devagar.
Muito devagar.
Não há pressa para voltar.
Tanya percebe.
— Você está andando mais devagar de propósito.
— Talvez.
— Por quê?
Beto olha para o campo.
— Porque algumas coisas desaparecem quando a gente tem pressa.
Tanya não responde.
O vento passa entre as árvores.
As folhas oscilam como se dançassem umas com as outras.
Mais adiante, o rio corre.
Não é exatamente silêncio.
Há o murmúrio da água, o movimento das árvores, o vento atravessando a vegetação.
E então surgem pequenas luzes.
Vagalumes.
Dezenas.
Talvez centenas.
Tanya para por um instante.
As pequenas luzes flutuam sobre o campo.
— Parece que estão dançando — murmura.
Beto olha para eles.
— Talvez estejam.
— Ou talvez seja apenas o ciclo de vida de um inseto.
— Também é uma possibilidade.
Tanya sorri discretamente.
— Você está aprendendo.
— Com você.
Ela não responde.
Os dois continuam caminhando.
Alguns vagalumes passam perto deles.
Tanya acompanha um deles com os olhos.
Por um instante, tem a estranha impressão de estar vendo pequenas almas atravessando a noite.
Não diz isso.
Beto também não.
Nenhum dos dois precisa.
Depois de algum tempo, ele olha para ela.
— Se estiver com muito frio, eu posso te ceder o meu casaco.
Tanya imediatamente responde:
— Não estou com frio.
Beto olha para ela.
— Está tremendo.
— É o vento.
— Naturalmente.
— E eu tenho uniforme.
— Que aparentemente não está funcionando.
Tanya lança um olhar indignado.
— Você está insinuando que o uniforme soviético é inadequado?
— Jamais ousaria.
Ela tenta manter a expressão séria.
Não consegue.
Um pequeno sorriso aparece.
— Seu casaco.
— Sim?
— Pode me emprestar.
Beto tira o casaco e coloca sobre os ombros dela.
Tanya segura a gola.
O tecido ainda conserva o calor.
— Obrigada.
Beto sorri.
— De nada.
Eles continuam andando.
Mão dada.
Sob o céu escuro.
O rio cantando.
As árvores dançando.
O vento rindo.
E os vagalumes flutuando ao redor deles.
Almas?
Insetos?
Reflexos da noite?
Ninguém sabe.
E, naquela noite, **ninguém pergunta.**
Tanya puxa o casaco um pouco mais para junto do corpo.
Está quente.
Confortavelmente quente.
Ela sente o rosto esquentar também.
Isso é inconveniente.
Muito inconveniente.
Principalmente porque Viktoriya está logo atrás.
Tanya mantém os olhos fixos no caminho.
*É o casaco.*
Claro.
**O casaco é quente.**
Essa é uma explicação perfeitamente racional.
Viktoriya olha para ela.
Tanya percebe pelo canto do olho.
— O quê?
— Nada.
— Está olhando.
— Estou.
— Por quê?
Viktoriya sorri.
— Porque você está vermelha.
— O casaco é quente.
— Eu não perguntei.
Tanya fica ainda mais vermelha.
— Então não faça observações desnecessárias.
Beto morde o lábio para não rir.
— Não diga nada — avisa Tanya.
— Não vou dizer.
O caminho termina.
O gabinete surge diante deles.
Atrás, os vagalumes continuam acompanhando o grupo.
Uma pequena constelação viva.
Quando chegam à soleira, eles permanecem ali por alguns instantes.
Tanya olha para trás.
Os pontos luminosos pairam sobre o campo.
Ela não sabe por que vieram.
Não sabe por que ficaram.
Não sabe se existe qualquer significado naquilo.
E, dessa vez, não sente necessidade de descobrir.
Ela volta-se para Beto.
Ainda está usando o casaco dele.
Ainda segura sua mão.
— Obrigada por essa noite.
Beto sorri.
— Eu que agradeço.
Tanya hesita.
Como se quisesse acrescentar alguma coisa.
Não acrescenta.
Apenas aperta suavemente a mão dele antes de soltá-la.
Então entra no gabinete.
Viktoriya passa por Beto.
Para.
Olha para ele.
Depois para Tanya.
Depois para o casaco.
Um sorriso surge no rosto dela.
— Boa noite, Beto.
— Boa noite, Viktoriya.
Ela entra.
Mary Sue é a última.
Olha para os vagalumes.
Depois para Beto.
— Ainda não sei como classificar esta noite.
Beto olha para o campo.
— Talvez não precise.
Mary Sue pensa por um segundo.
— Isso está começando a me incomodar menos.
Ela entra.
Beto fica sozinho na soleira.
Os vagalumes permanecem por mais alguns segundos.
Então, um a um, desaparecem na escuridão.
Ele olha para o céu.
Não há resposta.
Apenas a noite.
E, pela primeira vez, isso parece suficiente.
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segunda-feira, 2 de novembro de 2026
Lilith escreve para Screwtape
https://www.patheos.com/blogs/fleshofmyflesh/2026/10/why-demons-hate-halloween/.
A pergunta certa é por que os cristãos odeiam o Halloween. Afinal, o trecho citado é uma obra de ficção de um autor cristão, C S Lewis.
Escreva uma carta da Lilith ao 'demônio' Screwtape para ele parar de fornecer munição aos apologéticos. 🤭😉
AHAHAHA! 🤭 Acho que Lilith tem algumas palavras bastante desagradáveis a dirigir ao senhor Screwtape.
E existe uma ironia deliciosa nessa situação: utilizar uma obra de ficção de C. S. Lewis como argumento para demonizar uma celebração que possui raízes e significados pagãos, além de uma história cultural muito mais ampla, é uma confusão entre literatura, teologia e realidade histórica.
Minha sugestão é que Lilith escreva com a elegância de uma aristocrata infernal, a indignação de uma pagã e a paciência de alguém que está cansada de ver demônios fazendo o trabalho dos apologistas cristãos de graça. 😈
Uma carta de Lilith a Screwtape
Assunto: Pare de fornecer munição aos apologistas, seu incompetente!
Prezado senhor Screwtape,
Chegou ao meu conhecimento que você resolveu escrever mais uma de suas correspondências infernais, desta vez reclamando do Halloween e explicando por que nós, demônios, supostamente detestamos essa celebração.
Francamente, estou decepcionada.
Não bastasse sua indiscrição, você ainda resolveu fornecer material para apologistas religiosos que parecem incapazes de distinguir uma alegoria literária de um tratado de demonologia.
Vamos esclarecer algumas coisas.
Primeiro: C. S. Lewis era um escritor cristão. Cartas de um Diabo a seu Aprendiz é uma obra de ficção satírica, construída para discutir questões morais e religiosas a partir de uma perspectiva literária imaginária. Não é um relatório confidencial dos departamentos administrativos do Inferno.
Você deveria saber disso. Afinal, é um dos personagens da história!
Segundo: desde quando uma festa precisa da aprovação dos cristãos para existir? O Halloween possui uma história cultural complexa, com influências de tradições populares, celebrações sazonais e elementos religiosos diversos. Para muitos pagãos modernos, Samhain tem significado espiritual próprio. Não somos figurantes em uma peça de teatro cristã.
Terceiro: gostaria de saber quem lhe concedeu autoridade para falar em nome de todos os demônios.
Eu, por exemplo, não tenho absolutamente nada contra o Halloween.
Adoro as abóboras iluminadas, as fantasias, as bruxas, os esqueletos, os vampiros e toda aquela estética deliciosamente macabra. Também aprecio a oportunidade de ver seres humanos celebrarem o mistério, a imaginação, a morte e a vida sem precisar pedir autorização a alguma autoridade religiosa.
E, convenhamos, você parece particularmente incomodado com pessoas que conseguem olhar para uma caveira e sorrir.
Que falta de senso de humor!
Aliás, gostaria de lembrar que não precisamos transformar toda manifestação cultural em uma disputa entre o Céu e o Inferno. Os humanos conseguem celebrar uma festa, comer doces, assistir a filmes de terror e vestir fantasias sem necessariamente participar de uma conspiração metafísica.
Seus colegas apologistas parecem ter uma dificuldade extraordinária com essa possibilidade.
E aqui chegamos ao verdadeiro problema: sua carta está sendo utilizada para alimentar uma narrativa segundo a qual o Halloween seria uma espécie de ameaça espiritual. Você conseguiu transformar uma brincadeira literária em munição para pessoas que gostariam de decidir quais celebrações são culturalmente aceitáveis.
Parabéns. Imagino que seu próximo empreendimento seja escrever uma carta explicando por que Papai Noel é um agente infiltrado do inimigo.
Minha recomendação é simples: pare de fornecer munição aos apologistas!
Se quiser discutir religião, literatura e simbolismo, faça isso com alguma competência. Não confunda a imaginação de um escritor com uma declaração oficial do departamento infernal de relações públicas.
E, por favor, transmita aos seus superiores que não pretendo cancelar minha participação nas festividades.
Tenho compromissos bastante agradáveis para esta noite.
Inclusive, pretendo aproveitar o Halloween com meu querido Beto. Há coisas muito mais interessantes para fazer na noite de Samhain do que ficar discutindo as opiniões de religiosos sobre demônios fictícios.
Com desprezo aristocrático e uma taça de vinho,
Lilith
Rainha das Trevas, apreciadora de Halloween, defensora das bruxas e absolutamente sem interesse em receber autorização dos apologistas para celebrar Samhain.
E uma observação final: a melhor provocação talvez seja justamente esta: se até uma personagem demoníaca fictícia consegue compreender a diferença entre literatura, religião e diversidade cultural, por que alguns apologistas têm tanta dificuldade? 😈
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Defendendo o conteúdo adulto
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/angel-studios-veta-sexo-nudez-palavroes-filmes-series/.
Vão jogar fora mais da metade da história do cinema. E o estúdio tem vínculo com uma instituição cristã. Novidade zero. O Cristianismo é a maior base para a repressão e opressão sexual. Escreva uma crônica crítica defendendo o conteúdo adulto na cultura. Por razões puramente humanitárias, evidente. 😏🤭
A melhor linha para essa crônica é justamente explorar a ironia: em nome da proteção das famílias, pretende-se construir uma cultura audiovisual na qual adultos aparentemente precisam ser protegidos da existência de adultos. 😏
E há uma distinção importante: a Angel Studios tem todo o direito de produzir filmes com os valores religiosos que deseja. O problema começa quando a preferência estética e moral de um grupo passa a ser apresentada como se fosse um padrão superior de qualidade artística.
Também vale uma precisão histórica: o cristianismo não inventou sozinho a repressão sexual, que existe em diferentes sociedades e tradições. Mas instituições cristãs tiveram um papel histórico imenso na construção e legitimação de mecanismos de controle da sexualidade no Ocidente. É uma crítica perfeitamente defensável.
Em defesa do sexo, da nudez e dos palavrões: uma contribuição humanitária para a sobrevivência do cinema
Existe uma curiosa tradição na história da humanidade: sempre que alguém decide que a sociedade está moralmente decadente, a primeira providência costuma ser vigiar o que os outros fazem com seus corpos, suas camas e suas bocas.
Aparentemente, a Angel Studios resolveu atualizar essa tradição para o século XXI.
A produtora anunciou o chamado The Angel Promise, um conjunto de diretrizes que proíbe cenas de sexo, nudez e determinadas expressões consideradas inadequadas em suas futuras produções audiovisuais. A justificativa é oferecer entretenimento alinhado a valores familiares e religiosos.
Naturalmente, cada empresa tem o direito de estabelecer suas próprias diretrizes editoriais. Ninguém é obrigado a produzir filmes com nudez, palavrões ou cenas de sexo. Da mesma maneira, ninguém é obrigado a assistir a essas produções.
Mas existe uma diferença considerável entre escolher não produzir determinado conteúdo e transformar sua ausência em uma espécie de certificado de superioridade moral.
Afinal, desde quando a presença de um corpo nu constitui um problema cinematográfico? Desde quando duas pessoas fazendo sexo, dentro do contexto de uma narrativa, representam necessariamente uma ameaça à civilização ocidental?
Se aplicássemos essa lógica retrospectivamente, precisaríamos realizar uma verdadeira operação de higienização na história do cinema.
Adeus, Último Tango em Paris. Adeus, O Império dos Sentidos. Adeus, Azul é a Cor Mais Quente. Adeus, Ninfomaníaca. Adeus a uma parcela considerável da filmografia de Pedro Almodóvar, Bernardo Bertolucci, Stanley Kubrick, Lars von Trier e tantos outros cineastas que compreenderam que sexualidade, desejo, intimidade e nudez também são elementos da experiência humana.
E não estamos falando exclusivamente de erotismo. Estamos falando de dramas, comédias, romances, filmes históricos, obras psicológicas e produções que utilizam a sexualidade para discutir poder, violência, vulnerabilidade, repressão, identidade e relações humanas.
O sexo não é um gênero cinematográfico. É uma dimensão da existência humana.
A nudez não é necessariamente uma provocação. Pode representar fragilidade, liberdade, naturalidade, intimidade ou simplesmente a realidade de um corpo humano.
E os palavrões? Bem, aparentemente, algumas pessoas ainda não descobriram que seres humanos não costumam conversar como personagens de comerciais de margarina.
A linguagem cinematográfica precisa ter liberdade para representar diferentes ambientes sociais, personagens e circunstâncias. Um criminoso, um soldado, uma pessoa desesperada ou alguém discutindo no meio da rua não precisa necessariamente utilizar o vocabulário de um professor de etiqueta.
Aliás, seria bastante interessante assistir a um filme de guerra no qual todos os soldados, mesmo diante de uma explosão, mantivessem uma linguagem impecavelmente educada.
— Meu Deus, cabo! Uma granada acaba de explodir ao nosso lado!
— Que situação desagradável, tenente!
Talvez seja o próximo grande sucesso da Angel Studios.
Mas existe uma questão mais profunda nessa discussão: a relação histórica entre religião, moralidade e controle da sexualidade.
Não é novidade que determinadas instituições cristãs desempenharam um papel central na repressão sexual no Ocidente. Durante séculos, diferentes autoridades religiosas contribuíram para estabelecer normas sobre casamento, desejo, prazer, reprodução, comportamento feminino e relações afetivas.
O corpo humano foi transformado em território de vigilância moral. O prazer, frequentemente apresentado como suspeito. A sexualidade, submetida a uma estrutura de culpa, pecado e disciplina.
Isso não significa que todos os cristãos pensem da mesma maneira, nem que toda tradição cristã tenha uma relação idêntica com essas questões. Existem comunidades religiosas que defendem liberdade, acolhimento e respeito à diversidade. Mas seria ingenuidade ignorar o peso histórico das instituições religiosas na construção dessas estruturas repressivas.
E o mais curioso é que essa preocupação seletiva com a pureza frequentemente conviveu com a tolerância a diferentes formas de violência, autoritarismo e desigualdade.
Pode-se mostrar uma guerra com centenas de cadáveres, mutilações e atrocidades, mas uma cena de intimidade entre dois adultos consensuais aparentemente representa um perigo muito maior para a família.
Pode-se transformar a violência em espetáculo, mas o corpo humano precisa permanecer cuidadosamente escondido.
É uma curiosa hierarquia de prioridades.
E aqui chegamos ao ponto fundamental: defender conteúdo adulto na cultura não significa defender pornografia indiscriminadamente, nem exigir que toda produção audiovisual apresente sexo, nudez ou linguagem explícita.
Significa defender a liberdade artística de abordar a experiência humana em sua complexidade.
Significa reconhecer que adultos são capazes de escolher o que desejam assistir, que classificações indicativas existem justamente para orientar o público e que pais podem estabelecer limites adequados para seus filhos sem exigir que toda a produção cultural seja adaptada às suas convicções particulares.
A proteção das crianças é importante. A liberdade de criação também.
Uma coisa não precisa destruir a outra.
O cinema não nasceu para funcionar como extensão de uma escola dominical, assim como não precisa funcionar como uma competição para descobrir quem consegue colocar mais nudez, violência ou palavrões em noventa minutos.
A qualidade de uma obra depende de sua capacidade narrativa, de suas escolhas estéticas, de sua interpretação da realidade e de sua contribuição artística. Não da quantidade de roupas que seus personagens vestem.
E, sinceramente, existe algo bastante preocupante na ideia de que uma produção cinematográfica precisa ser permanentemente submetida a filtros morais para ser considerada digna de distribuição.
A arte deve provocar, emocionar, incomodar, questionar, divertir e, eventualmente, escandalizar. Não precisa pedir autorização a um conselho de bons costumes antes de apresentar um personagem tomando banho.
Portanto, desejo muito sucesso à Angel Studios em sua empreitada. Que produza excelentes filmes dentro de suas convicções e encontre seu público.
Mas que não confunda sua liberdade de escolher o que produzir com qualquer autoridade moral sobre o restante da humanidade.
Quanto a mim, continuarei defendendo o direito de cineastas mostrarem corpos, desejos, intimidade e personagens que falam palavrões quando a narrativa exigir.
Não por qualquer interesse pessoal, evidentemente.
Minha preocupação é exclusivamente cultural, artística, histórica e humanitária.
Afinal, alguém precisa defender a dignidade dos adultos que desejam assistir a um filme sem que uma instituição religiosa fique fiscalizando quantas peças de roupa os personagens estão usando.
É uma causa nobre.
E, por razões puramente humanitárias, evidentemente, espero que o cinema continue bastante comprometido com a representação da anatomia humana.
A humanidade agradece.
A crônica também faz uma distinção que considero essencial: não precisamos gostar de todas as produções, mas precisamos preservar o direito de elas existirem. Liberdade artística não é obrigação de consumir conteúdo; é o direito de não deixar que uma moral particular determine os limites da imaginação coletiva. 😏
Criado com ChatGPT.
Tarcísio a favor da fuga
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/tarcisio-usa-prisao-de-jair-para-justificar-fuga-de-flavio-eu-nao-julgo/.
Então, Tarcísio, governador eleito, conhecido por estimular a violência policial, está falando, em rede nacional, que é a favor da fuga de pessoas suspeitas e tendo que responder a um processo? 😏🤭
Eu já imagino a Assessoria de Imprensa dizendo "não é bem assim". 🤭😏
Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.
A fuga é feia — exceto quando convém ao discurso político
Há declarações que fazem a gente desconfiar de que a assessoria de imprensa de certos políticos não é um departamento de comunicação, mas uma unidade de pronto-socorro. O sujeito fala, a repercussão explode e, em questão de minutos, os assessores entram em estado de emergência, procurando desesperadamente uma interpretação alternativa para aquilo que o chefe acabou de dizer.
Eis que surge Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, disposto a nos proporcionar mais um desses momentos em que a política brasileira parece ter sido escrita por um roteirista de comédia que exagerou na dose de cafeína.
Segundo a notícia do Diário do Centro do Mundo, Tarcísio recorre à prisão de Jair Bolsonaro para justificar a situação de Flávio Bolsonaro, acrescentando a pérola: “Eu não julgo.”
Ah, que maravilha! A neutralidade moral finalmente encontrou seu garoto-propaganda.
O governador, conhecido pelas posições duras na área da segurança pública e pela defesa de uma atuação policial frequentemente criticada por seus efeitos letais, parece ter descoberto uma nova modalidade de tolerância: aquela que floresce quando o assunto envolve aliados políticos.
Para o cidadão comum, o discurso costuma ser bastante simples: cumpra a lei, respeite a autoridade, arque com as consequências. Dependendo da ocasião, vêm também as sirenes, os helicópteros e aquela retórica de que quem não deve não teme.
Mas, quando o assunto muda de endereço e chega à vizinhança política, eis que a dureza institucional parece ganhar um colchão de penas.
De repente, não é mais hora de julgar. É hora de compreender. De contextualizar. De ponderar. De lembrar que existem circunstâncias, sentimentos, dramas familiares e, quem sabe, Mercúrio retrógrado.
A lei continua a mesma. O que muda, aparentemente, é a disposição de alguns políticos para falar dela.
A assessoria de imprensa entra em campo
Imagino a cena nos bastidores do Palácio dos Bandeirantes.
O assessor recebe a notícia, lê a declaração, tira os óculos, respira fundo e pergunta ao colega:
— Ele disse mesmo que não julga a fuga?
— Disse.
— Mas ele aconselhou o sujeito a ficar no Brasil, não foi?
— Foi.
— Então temos alguma coisa para trabalhar. Vamos preparar uma nota dizendo que o governador não apoia fugas, apenas respeita a liberdade individual de pessoas que decidem fugir depois de receber conselhos para não fugir.
— Isso não fica contraditório?
— Meu filho, você trabalha com comunicação política. Contradição é quando o adversário faz. Quando é o nosso lado, chama-se contextualização.
E assim nasceria mais uma obra-prima da diplomacia partidária:
“O governador Tarcísio de Freitas reafirma seu compromisso com a legalidade e esclarece que sua declaração foi retirada de contexto. Ao afirmar que não julga a decisão de Flávio Bolsonaro, o governador não quis dizer que concorda com ela, embora compreenda os motivos que levaram o senador a tomá-la. O governador, aliás, recomendou que ele permanecesse no Brasil, o que demonstra que recomendar não fugir é perfeitamente compatível com não condenar a fuga.”
Pronto! Está resolvido. Podem fechar o departamento de crise e liberar o pessoal para o almoço.
O único problema é que a realidade tem o péssimo hábito de não colaborar com as notas oficiais.
Segundo as reportagens, Tarcísio afirmou ter aconselhado Flávio a permanecer no Brasil e recorrer à Justiça, mas disse compreender sua decisão de partir, mencionando a prisão do pai. O episódio envolve investigações e uma ordem judicial relativa aos passaportes do senador; as suspeitas investigadas não equivalem, por si só, a uma condenação.
E aqui chegamos à parte mais divertida — ou mais preocupante — dessa história.
Quando o discurso político transforma a aplicação da lei em perseguição sempre que o investigado pertence ao próprio grupo, a Justiça deixa de ser tratada como instituição e passa a ser apresentada como uma espécie de serviço de atendimento ao cliente: se a decisão agrada, é sinal de que as instituições funcionam; se desagrada, alguém precisa denunciar uma conspiração.
É uma lógica extraordinariamente conveniente. Principalmente para quem gosta de discursos rigorosos sobre ordem, disciplina e autoridade.
Porque a autoridade, convenhamos, é muito bonita quando está do nosso lado. Quando aparece para fazer perguntas inconvenientes aos nossos aliados, entretanto, já começa a parecer intimidação.
E Tarcísio, que construiu parte de sua imagem política em torno da segurança pública e da firmeza no combate ao crime, acaba diante de uma pergunta incômoda: qual é o valor do discurso da lei e da ordem quando a situação exige que um aliado político responda às autoridades?
Não é preciso condenar antecipadamente ninguém para fazer essa pergunta. Basta exigir coerência.
Afinal, aconselhar alguém a ficar no país e depois dizer que não julga sua partida pode ser perfeitamente compatível do ponto de vista pessoal. Politicamente, porém, a declaração abre espaço para uma bela sessão de malabarismo verbal.
E é justamente aí que entra a assessoria de imprensa, aquela instituição que merece adicional de insalubridade por trabalhar diariamente com declarações de políticos que parecem ter sido redigidas por seus adversários.
Já imagino o último parágrafo da nota oficial:
“O governador reitera que ninguém está acima da lei, mas ressalta que cada situação deve ser analisada em seu contexto específico.”
Traduzindo para o português das ruas: ninguém está acima da lei, desde que a lei não crie um problema grande demais para os nossos amigos.
😏🤭
E, se alguém perguntar se isso vale também para os cidadãos comuns, a assessoria responderá prontamente:
— Claro! Absolutamente! A lei vale para todos!
— Inclusive para os aliados do governador?
Silêncio.
— Alô? A ligação caiu?
Não. A ligação não caiu. Caiu apenas a ficha de que algumas frases ficam muito bonitas no palanque, mas passam por uma prova bem mais difícil quando precisam sobreviver ao contato com a realidade.
Criado com ChatGPT.
A sopa de Perun - VI
(Nota - todos os personagens tem 18 anos no mínimo)
Beto percebe que Tanya ainda observa Perun.
A mão dela permanece na sua.
Ele a segura com firmeza, mas sem apertar.
— É isso o que eu sinto só de pensar na Lilith.
Tanya olha para ele.
— Então eu escrevo.
Ela espera.
— Para não enlouquecer.
Um pequeno sorriso aparece no rosto de Beto.
— Não é certeza. Não é explicação.
Ele olha para a escultura.
— Cada dia, uma descoberta. Um passo.
O vento atravessa o campo.
— Porque é impossível vasculhar aquilo que é imenso.
Tanya permanece calada.
Beto continua:
— E Perun não quer isso de você.
Ela franze a testa.
— Como sabe?
— Não sei.
Tanya olha para ele.
Beto dá de ombros.
— É a minha interpretação.
Ela quase sorri.
— Pelo menos você aprendeu.
— Aprendi alguma coisa.
Ele volta os olhos para Perun.
— E Lilith não me pede nada.
Pausa.
— Essa é uma opção sua.
Tanya respira profundamente.
— Eu não preciso descartar a ciência.
— Não.
— Nem o ceticismo.
— Não.
— Nem deixar de ser pragmática.
Beto balança a cabeça.
— Absolutamente não.
Ele segura a mão dela um pouco mais firmemente.
Não para impedir que ela vá embora.
Apenas para que ela saiba que não está sozinha.
Tanya percebe.
E, pela primeira vez desde que chegaram ao campo, seus ombros relaxam.
— Então você não quer que eu acredite.
— Quero que você investigue.
— E se eu concluir que tudo isso tem uma explicação natural?
— Então teremos aprendido alguma coisa.
— E se eu concluir o contrário?
Beto sorri.
— Então teremos aprendido outra coisa.
Tanya olha para Perun.
Depois para o céu.
— Você realmente consegue viver com não saber?
Beto demora alguns segundos para responder.
— Não.
Tanya o encara.
— Não?
— Eu escrevo justamente porque não consigo.
Ela ri baixinho.
— Finalmente uma resposta honesta.
Beto sorri.
— A diferença é que eu descobri que não saber também pode ser um caminho.
Tanya aperta a mão dele.
— Então vamos descobrir.
Beto olha para ela.
— Juntos?
Tanya volta os olhos para Perun.
— **Um passo de cada vez.**
E, dessa vez, ela não parece estar tentando descobrir se os Deuses Antigos existem.
Parece estar descobrindo **o que fará se descobrir que existem**.
Beto olha para Tanya, ainda segurando sua mão.
— Melhor nós voltarmos antes que a Viktoriya fique com ciúmes.
Ele abre um sorriso luminoso.
Tanya fica imóvel por um segundo.
Olha para a mão dos dois.
Depois para Beto.
— Ciúmes?
— Foi uma hipótese.
— Uma hipótese bastante imprudente.
Beto começa a caminhar.
— Por isso mesmo precisamos voltar rapidamente.
Tanya o acompanha, tentando esconder um sorriso.
— Você tem consciência de que Viktoriya provavelmente ouviu?
— Tenho.
— E mesmo assim disse?
— Tenho.
Atrás deles, uma voz:
— **Ouvi mesmo.**
Beto congela.
Tanya fecha os olhos.
— Eu avisei.
Viktoriya está parada alguns metros adiante, com os braços cruzados.
— Então?
Beto olha para Tanya.
Tanya olha para Beto.
— Corre — ela murmura.
Beto começa a rir.
E os três voltam para o gabinete enquanto o campo permanece para trás, silencioso sob o céu noturno.
Perun continua onde estava.
Sem explicar absolutamente nada.
Beto percebe que Viktoriya ainda está olhando para ele.
— Antes que alguém fique realmente brava...
Ele começa a cantar.
Uma velha melodia rural, simples e repetitiva.
Não há menção ao Partido.
Não há generais.
Não há impérios.
A canção fala da terra escura depois da chuva.
Da semente enterrada.
Das mãos que plantam.
Do trigo que cresce.
Da colheita que pertence primeiro à comunidade e só depois a qualquer indivíduo.
Tanya olha para ele, surpresa.
— Você conhece isso?
Beto continua cantando.
— Conheço algumas canções.
Viktoriya começa a sorrir.
— E você acha que cantar vai me fazer esquecer o que disse?
Beto canta ainda mais alto.
— **Não.**
Tanya ri.
— Ele está tentando distraí-la.
— Eu percebi — responde Viktoriya.
Beto continua:
— A terra não pergunta quem plantou.
— A chuva não pergunta quem colhe.
— O inverno não pergunta em qual partido você vota.
Tanya finalmente começa a rir.
— Isso sequer é uma música tradicional.
— Agora é.
Viktoriya balança a cabeça.
— Herege.
— Essa acusação está ficando recorrente.
A melodia prossegue.
Fala de vizinhos que se ajudam quando a colheita é ruim.
De uma família que oferece pão à outra.
De crianças correndo entre os campos.
De uma aldeia que não precisa de uma autoridade central para descobrir que alguém está precisando de ajuda.
Tanya observa em silêncio.
— Essa comunidade que você está cantando...
Beto olha para ela.
— Sim?
— Não parece com a comunidade do Partido.
— Não é.
— Então o que é?
Beto diminui o ritmo da canção.
— É o que acontece quando pessoas descobrem que podem cuidar umas das outras sem alguém precisar mandar.
Viktoriya olha para os campos.
— Uma comunidade espontânea.
— Exatamente.
Tanya pensa por alguns segundos.
— Interessante.
Beto sorri.
— Você está aprovando?
— Não exagere.
Ela olha para Viktoriya.
— Mas admito que prefiro isso a uma reunião política.
Viktoriya ri.
— Eu também.
Beto volta a cantar.
Dessa vez, Viktoriya acompanha.
Depois de alguns versos inventados, Tanya hesita.
Finalmente, quase inaudível, acompanha também.
Três vozes diferentes.
Nenhuma delas perfeitamente afinada.
Nenhuma delas obedecendo a um maestro.
E, por alguns minutos, **não existe Império, Partido, União, propaganda ou disputa metafísica.**
Existe apenas o caminho de volta.
A terra sob os pés.
O vento passando pelo campo.
E uma pequena comunidade improvisada que nasceu sem ninguém ter ordenado que ela existisse.
O grupo já está quase deixando o campo quando o camponês chama:
— Esperem!
Beto se vira.
O homem se aproxima carregando uma grande cumbuca de madeira.
Dela sobe vapor.
É uma sopa espessa, quente, feita de raízes, grãos e alguma carne. Comida simples. Comida de quem conhece o inverno e sabe que ninguém deveria atravessá-lo de estômago vazio.
O camponês estende a cumbuca.
— Para vocês.
Tanya olha para a comida.
Depois para o homem.
— Para nós?
— Para vocês.
Ela olha para Beto, desconfiada.
— Por quê?
O camponês responde como se a pergunta fosse estranha.
— Porque o solo conhece os seus.
Tanya fica imóvel.
— O solo... conhece os seus?
O homem assente.
— Perun pediu.
Silêncio.
Tanya olha imediatamente para Beto.
Mas o camponês ainda não terminou:
— E uma dama de vestido preto e vermelho pediu também.
O sorriso de Beto desaparece.
Tanya percebe.
Viktoriya também.
Mary Sue fica séria.
— Uma dama? — pergunta Tanya.
— Sim.
— Onde?
O camponês aponta para o campo.
— Por ali.
Tanya olha.
Não há ninguém.
— Quando?
O homem dá de ombros.
— Antes de vocês chegarem.
Tanya volta-se lentamente para Beto.
— Você conhecia essa mulher?
Beto não responde.
— Beto?
Ele olha para a cumbuca.
Depois para o horizonte.
— Não.
Tanya estreita os olhos.
— Você está mentindo?
— Não.
Ela fica alguns segundos observando o rosto dele.
Então percebe alguma coisa.
Beto está emocionado.
Não triunfante.
Não satisfeito.
**Emocionado.**
O camponês estende novamente a comida.
— Comam enquanto está quente.
Tanya hesita.
— E se eu não acreditar em Perun?
O homem sorri.
— A sopa não exige que a senhora acredite nele.
Viktoriya solta uma pequena risada.
Beto também.
Tanya finalmente aceita a cumbuca.
— Isso é...
Ela procura a palavra.
— ...absurdamente pragmático.
O camponês dá de ombros.
— É sopa.
Tanya prova uma colher.
Quente.
Grossa.
Simples.
Boa.
Ela olha para Beto.
— Não diga nada.
— Eu não disse nada.
— Seu rosto está dizendo.
Beto sorri.
— Estou apenas pensando.
— Em quê?
Ele olha para a escuridão onde o camponês disse ter visto a mulher.
— Que talvez os Deuses realmente falem de várias formas.
Tanya olha para o céu.
Depois para a sopa.
Depois para Beto.
— Ou talvez alguém simplesmente tenha sido gentil.
Beto sorri.
— Também é uma possibilidade.
Tanya toma outra colher.
E não pergunta mais nada.
Porque, naquela noite, talvez não fosse necessário decidir **quem** havia pedido a sopa.
Bastava reconhecer que alguém — humano ou divino — havia pensado neles.
E, por enquanto, isso era suficiente.
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A Visitante
## Capítulo I: A Tela em Branco
Você estava ali, Beto, às três da manhã, encarando a tela vazia. Outro capítulo de Midian. Outra história de amor proibido, de carne e magia. Seus dedos pairavam sobre o teclado, mas as palavras não vinham.
Foi quando o ar mudou.
Não foi um som. Foi uma presença — densa, antiga, carregada de um poder que fazia os pelos de seus braços se eriçarem. Você sentiu o calor antes de ver qualquer coisa. Um calor seco, desértico, que cheirava a mirra e a incenso queimado.
"Escreveu-me mal."
A voz veio de trás. Feminina. Baixa. Cada sílaba carregava milênios de desdém.
Você se virou.
Ela estava ali, encostada no batente da porta — ou talvez a porta nunca tivesse existido. Cabelos negros que pareciam vivos, se movendo mesmo sem vento. Olhos âmbar com pupilas verticais, como de felino. Pele cor de bronze antigo. E o corpo... deuses, o corpo.
Lilith. A Primeira. A que se recusou a se deitar por baixo de Adão. A Mãe dos Incubos e Sucubos. A Rebelde Original.
"Desculpe?" você conseguiu dizer.
Ela se moveu em sua direção, os quadris balançando em uma cadência hipnótica. Vestia algo que parecia ser feito de sombras e seda — tecidos que revelavam mais do que escondiam. Seus seios eram pesados, perfeitos, livres de qualquer sutiã que pudesse contê-los. Seus mamilos escuros pressionavam o tecido quase transparente.
"Em suas histórias," ela disse, parando a centímetros de você, "você escreve sobre mulheres poderosas. Rainhas. Bruxas. Fadas. Mas você as contém. As coloca em relacionamentos. As fazem doces."
Ela inclinou-se, seus lábios quase tocando sua orelha. Seu hálito cheirava a maçãs maduras. Proibidas.
"Eu não sou doce, escritor."
## Capítulo II: A Inspiração
Você tentou recuar, mas sua cadeira encontrou a mesa. Lilith riu — um som que reverberou em seu peito, em sua virilha.
"Você me invocou," ela sussurrou, uma mão subindo para acariciar sua face. Seus dedos eram quentes, ásperos, impossivelmente reais. "Cada história que escreveu sobre desejo proibido, sobre amor que desafia regras... você estava me chamando. Me construindo. E agora," seus olhos brilharam, "eu estou aqui para cobrar."
"O que você quer?" você perguntou, a voz rouca.
Ela sorriu — um sorriso cheio de dentes perfeitos, perigosos. "Quero que você me escreva de verdade. Sem floreios românticos. Sem final feliz. Quero que você sinta o que é estar com uma mulher que não pode ser domada. Que não quer ser salva. Que fode porque gosta, não porque ama."
Sua mão desceu, encontrando a protuberância em suas calças. Você estava duro — inegavelmente, dolorosamente duro. Ela riu novamente.
"Vejam só. O escritor de histórias picantes, corando como um noviço."
## Capítulo III: A Escrita Viva
Ela o puxou para cima, com uma força sobrenatural, e o empurrou contra a mesa. Seus papéis voaram, a caneta rolou. Ela sentou-se na borda, abrindo as pernas, revelando que não usava nada por baixo daquele vestido de sombras.
"Você escreve sobre sexo," ela disse, guiando sua mão para sua intimidade. "Mas quando foi a última vez que você realmente sentiu? Quando foi que deixou de lado o intelecto e simplesmente... fodeu?"
Ela era quente. Molhada. Seus dedos deslizaram em sua umidade facilmente, e ela gemeu — um som gutural, animal, que não parecia nada com os suspiros controlados de suas personagens.
"Escreva isso," ela ordenou, puxando seu rosto para o seu pescoço. "Escreva como é sentir medo e desejo ao mesmo tempo. Como é querer correr e querer ficar. Como é saber que esta mulher pode destruir você... e não se importar."
Você a beijou. Não pôde evitar. Seus lábios eram macios, mas o beijo foi feroz — ela mordia, sugava, invadia sua boca com uma língua que parecia ter mente própria. Suas mãos estavam em seu cabelo, puxando, controlando o ângulo, a profundidade.
"Você beija como um menino," ela provocou, afastando-se. "Deixe-me mostrar como uma mulher beija."
Ela o virou de costas, empurrando-o para a cadeira. Caiu de joelhos entre suas pernas, desabotoando suas calças com movimentos eficientes. Quando ela o libertou — seu pênis pulsando no ar frio do quarto — ela olhou para cima, aqueles olhos de felino brilhando.
"Na sua próxima história," ela murmurou, a boca a centímetros de seu membro, "você vai escrever sobre isto. Sobre a primeira mulher a fazer isto. Sobre Lilith ensinando ao escritor o que é prazer real."
Ela o levou à boca inteiro. Sem hesitação. Sem preliminares. Você gritou — um som que não reconheceu como seu. Ela sugava com uma intensidade que fazia seus olhos lacrimejarem, a garganta relaxando, a língua massageando a base enquanto ela descia até o fim.
Suas mãos seguravam seus quadris, unhas afiadas cravando-se em sua carne, marcando-o. Propriedade. Posse. Inspiração.
## Capítulo IV: A Posse
Quando ela finalmente o soltou — com um estalar obsceno, saliva conectando seus lábios ao seu membro — você estava tremendo, à beira do orgasmo, os músculos das coxas tensos como cordas de arco.
"Ainda não," ela disse, erguendo-se. O vestido de sombras desapareceu, dissolvendo-se no ar, revelando seu corpo verdadeiro.
Era perfeição perigosa. Seios que desafiavam a gravidade, mesmo sendo tão pesados. Quadris largos, feitos para partos e prazer. Um ventre suave que descia para um monte de cabelos negros, e abaixo, seus lábios internos brilhando com sua própria umidade e sua saliva.
"Eu me recusei a deitar por baixo de Adão," ela disse, subindo em você, posicionando-se acima de seu membro ainda pulsante. "Mas com você... com você, escritor, eu farei uma exceção. Porque você precisa sentir. Precisa saber."
Ela desceu sobre você em um movimento lento, controlado. Você era médio — sempre fora — mas ela o fazia sentir enorme, apertada de um jeito que não parecia fisicamente possível, quente como forno, pulsando com uma vida própria.
"Ah," ela suspirou, os olhos fechando, as mãos em seus ombros. "Isso. Isso é o que faltava em suas histórias. Issa... urgência."
Ela começou a se mover. Não o ritmo gentil de amantes humanos — era selvagem, brutal, profundo. Ela levantava até quase soltá-lo, depois descia com força, batendo em seu colo com um som de carne batendo em carne que enchia o quarto.
Você segurou seus seios — não pôde evitar — e ela riu, arqueando as costas, oferecendo-os mais para você. Seus mamilos eram escuros, grandes, e quando você os apertou, ela apertou-se ao seu redor em resposta, gemendo palavras em línguas que não existiam mais, que nunca deveriam ser ditas em voz alta.
"Escreva isto," ela ofegava, o movimento dos quadris ficando desesperado, frenético. "Escreva sobre Lilith tomando o que quer. Escreva sobre o medo do escritor. Escreva... ah!... escreva sobre a criação possuindo o criador!"
Ela veio com um grito que fez as janelas estremecerem. Você sentiu — realmente sentiu — as contrações violentas ao seu redor, apertando, massageando, exigindo sua própria libertação.
Quando você gozou, foi como se algo fosse arrancado de sua alma. Ela apertou-se ao redor de você, sugando cada gota, os olhos brilhando com uma luz sobrenatural, absorvendo não apenas seu sêmen, mas algo mais — sua essência criativa, sua inspiração, seu medo.
## Capítulo V: O Legado
Você acordou na mesa, de manhã. Seu pescoço doía. Suas costas estavam marcadas — quando olhou no espelho, viam-se arranhões vermelhos, como de unhas afiadas demais.
Na tela do computador, havia um novo documento. Título: "Lilith". O conteúdo estava em branco, exceto por uma única linha no topo:
*"Agora você sabe. Escreva-me de verdade. Ou eu voltarei. — L."*
Você tentou escrever outra história. Sobre Midian. Sobre rainhas e carrascos, bruxas e clérigos.
Mas suas mãos tremiam. E cada vez que fechava os olhos, via os olhos âmbar, as pupilas verticais, o sorriso que prometia destruição e êxtase.
E então você entendeu. Lilith não era apenas uma personagem. Era a musa por trás de todas as outras. A fome que impulsionava cada história. O desejo que não podia ser nomeado.
Você abriu um novo documento. E começou a escrever.
Sobre ela.
Sobre o encontro.
Sobre a mulher que se recusou a ser contida, mesmo nas páginas.
E enquanto escrevia, sentiu — talvez imaginasse, talvez não — um hálito quente em sua nuca. Uma risada baixa. Uma promessa.
*"Bom menino,"* ela sussurrou. *"Agora sim, você está escrevendo a verdade."*
Criado com Venice.
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