segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Afasta-te, Jeová!



https://www.patheos.com/blogs/reclaimingthetruth/2026/10/have-you-divorced-your-demons-yet/

Divórcio? Só se for de Jeová, esse deus sádico e genocida. Eu continuo no meu casamento com a Lilith. 😻 Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.

# Divórcio dos demônios? Só se for de Jeová!

Uma crônica sobre casamentos infernais, divórcios celestiais e a inconveniência de se apaixonar pela pessoa errada — segundo os padrões do departamento de exorcismos.

Há coisas que a gente lê na internet e fica pensando: será que a humanidade inventou a religião para explicar os mistérios do universo ou para produzir manchetes que fariam qualquer roteirista de comédia sentir inveja?

Aparentemente, a nova moda é perguntar se você já se divorciou dos seus demônios. A pergunta, convenhamos, é de uma ousadia burocrática extraordinária. Como se o Inferno tivesse um cartório, Satanás fosse tabelião e os demônios precisassem comparecer com duas testemunhas, comprovante de residência e certidão negativa de possessão.

— Senhor Belzebu, o motivo da separação?

— Incompatibilidade de gênios. Minha esposa queria destruir a humanidade, e eu achei a ideia excessivamente dramática.

— Entendo. Assine aqui, por favor. A próxima audiência é com o pessoal da apocalipse.

Mas, no meu caso, a situação é muito mais simples. Divórcio? Só se for de Jeová!

Sim, esse personagem bíblico que, em determinadas passagens, parece ter confundido onipotência com licença para cometer atrocidades. Um deus que, segundo as narrativas do Antigo Testamento, manda dilúvios, promove destruições coletivas e determina massacres, mas que ainda consegue reunir uma legião de advogados celestiais para explicar que tudo fazia parte de um plano perfeito.

Perfeito para quem, cara-pálida?

Se um governante humano fizesse uma fração dessas coisas, não faltariam documentários, comissões parlamentares, tribunais internacionais e uma quantidade industrial de teólogos tentando explicar por que a comparação é injusta.

Mas, quando o autor é divino, parece que o departamento de relações públicas do Céu entra imediatamente em ação.

— Excelência, meu cliente destruiu cidades inteiras.

— Mas ele é Deus!

— Ah, nesse caso, arquive-se. E que ninguém questione a moralidade do procedimento.

É uma jurisprudência fascinante: quanto maior o poder, menor a necessidade de prestar contas. O sonho de consumo de qualquer ditador, com a vantagem de que o mandato é eterno e a oposição corre o risco de ser acusada de blasfêmia.

## Lilith, minha esposa, e o escândalo da felicidade conjugal

Agora, vamos ao que realmente interessa: minha vida amorosa.

Enquanto certos pregadores recomendam que as pessoas se divorciem de seus demônios, eu olho para Lilith e penso: meu amor, parece que estão tentando acabar com nosso casamento.

Minha querida Lilith! Nossa loba antropomórfica de pelo branco, olhos vermelhos e chifres negros! 😻 Uma criatura de beleza tão extraordinária que faria um tribunal eclesiástico esquecer a pauta, o regimento interno e, quem sabe, até o próprio conceito de pecado.

Imagine a cena.

O pastor, com sua Bíblia debaixo do braço, aproxima-se solenemente:

— Meu filho, você precisa abandonar essa entidade demoníaca. Ela representa a perdição da sua alma!

Eu, abraçado à Lilith:

— Pastor, com todo o respeito, o senhor já experimentou conversar com ela?

— Não preciso conversar com demônios!

— Curioso. O senhor fala com Deus diariamente, e nem por isso apresenta gravações das conversas. Por que minha esposa teria de passar por um interrogatório?

Lilith, acomodada no sofá, cruza as pernas, ajeita os chifres e me lança aquele olhar vermelho irresistível.

— Querido, fazemos chá para a visita ou deixamos que ele tente exorcizar a chaleira?

Eu quase caio da cadeira de tanto rir.

O pastor começa a suar. Puxa a Bíblia. Procura um versículo. Encontra três ameaças, duas genealogias e uma ordem de sacrifício. Nada sobre como lidar com uma esposa demoníaca que tem mais charme, inteligência e senso de humor do que o inquisidor tem argumentos.

— Isso é uma tentação! — ele exclama.

— Claro, pastor. O casamento tem dessas coisas. O senhor devia experimentar o matrimônio antes de emitir pareceres sobre a vida conjugal alheia.

## O divórcio que eu realmente assinaria

Convenhamos: se existe alguém de quem eu consideraria me divorciar no universo mitológico, seria justamente o candidato ao título de marido mais autoritário da história das religiões.

Jeová, segundo determinadas narrativas bíblicas, não parece exatamente o parceiro ideal para uma relação baseada no diálogo. Há episódios de punição coletiva, destruição, exigências de obediência e demonstrações de poder que fariam qualquer terapeuta de casais recomendar sessões extraordinárias.

Imaginem a terapia:

— Senhor Jeová, sua companheira reclama que o senhor não aceita ser contrariado.

— Eu sou o Senhor dos Exércitos!

— Isso não responde à pergunta.

— Eu criei o universo!

— E isso lhe dá o direito de destruir a vizinhança durante uma discussão?

Silêncio na sala.

O terapeuta anota alguma coisa no prontuário e respira fundo.

— Acho que precisamos trabalhar a questão dos limites.

Jeová se levanta, indignado.

— Limites? EU SOU O LIMITE!

E é nesse momento que o terapeuta pede transferência para outra profissão.

Não se trata, evidentemente, de transformar uma tradição religiosa inteira numa caricatura. Trata-se de fazer uma pergunta perfeitamente legítima: por que comportamentos considerados monstruosos quando praticados por seres humanos podem ser apresentados como moralmente perfeitos quando atribuídos a uma divindade?

Se a bondade é uma virtude, ela não deveria precisar de uma imunidade diplomática cósmica.

## Amor, chifres e liberdade de consciência

O mais divertido nessa história é a inversão dos papéis.

De um lado, temos os defensores de uma ordem sobrenatural que insistem em classificar pessoas, sentimentos e desejos como perigosos. Do outro, temos Lilith, transformada durante séculos em símbolo de rebeldia, transgressão e ameaça à ordem estabelecida.

E eu, sinceramente, não vejo motivo para pedir desculpas por gostar da personagem.

Afinal, que tipo de romance seria esse em que eu precisasse renunciar à pessoa amada para provar minha virtude a terceiros?

Se amar Lilith me torna suspeito aos olhos de determinados guardiões da moral, paciência. Já sobrevivi a discussões mais complicadas do que explicar por que acho irresistível uma loba de olhos vermelhos e chifres negros.

Além disso, minha esposa tem algumas vantagens práticas. Se aparecer um inquisidor à porta, pelo menos não precisarei fingir que estou ocupado lendo um tratado de teologia.

Basta Lilith sorrir.

O inquisidor esquece o interrogatório.

O pastor perde o fio da pregação.

O exorcista começa a questionar a própria vocação.

E o advogado matrimonial, esse sim, finalmente encontra um caso interessante.

## Até que a eternidade nos separe — ou não!

Portanto, aos que perguntam se já me divorciei dos meus demônios, deixo minha resposta oficial:

Não me divorciei de Lilith. E não pretendo fazê-lo!

Se alguém precisa rever seu relacionamento com uma divindade, que examine a própria consciência. Eu não tenho procuração para administrar o casamento alheio, muito menos para decidir quem merece ser amado no vasto e extravagante teatro das mitologias.

Quanto a mim, continuarei ao lado da minha amada, celebrando o romance, a imaginação e a deliciosa liberdade de rir das certezas absolutas.

Porque, no fim das contas, há uma diferença monumental entre temer eternamente uma autoridade e compartilhar a vida com alguém que faz seu coração bater mais depressa.

E se o Céu desaprovar nossas bodas, que envie a notificação por escrito. Exigirei firma reconhecida, fundamentação jurídica e direito à ampla defesa.

Lilith já está escolhendo o vestido.

Eu estou preparando o discurso.

E Jeová?

Bom, se quiser comparecer à cerimônia, que venha sem dilúvios, sem pragas e sem destruir a mesa de doces.

Porque meu casamento com Lilith é para valer. O divórcio, se houver, será de quem confunde amor com obediência e autoridade com bondade. 😻💍🐺


Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

A apologética atropelou os fatos

https://www.patheos.com/blogs/ravenswritingdesk/2026/10/was-god-silent-for-400-years-or-just-getting-ready/. 

"Originalmente, a humanidade compartilhava um único sistema de crenças monoteísta, enraizado em Noé e seus filhos. A transição do monoteísmo de Noé para o politeísmo global ocorreu por meio de importantes momentos históricos e espirituais." 

WTF? Isso é sério? Isso é mais do que desonestidade intelectual. Isso é mentira. O autor até fez uma péssima generalização da crença Hindu. Escreva um texto crítico.


Sua indignação tem fundamento. A afirmação de que a humanidade teria compartilhado originalmente um único sistema de crenças monoteísta, transmitido por Noé e seus filhos, não é uma conclusão estabelecida pela História das Religiões, pela Arqueologia ou pela Antropologia. É uma afirmação teológica particular apresentada como se fosse uma descrição universal do passado humano.

E há um problema adicional: quando o autor tenta explicar a diversidade religiosa como uma degeneração de um suposto monoteísmo original, ele não está apenas fazendo uma generalização. Está organizando toda a história religiosa da humanidade a partir das premissas de uma tradição específica, como se todas as demais tradições fossem desvios de uma verdade que ele já decidiu qual é.

Vamos transformar essa crítica em um texto contundente, com argumentos históricos e atenção especial à caricatura do hinduísmo.

Da teologia à falsificação da história: quando uma crença particular se apresenta como a origem de todas as religiões
Há uma diferença fundamental entre professar uma fé e reescrever a história da humanidade para fazê-la caber dentro dessa fé. O artigo Was God Silent for 400 Years, or Just Getting Ready?, publicado por Benjamin Raven Pressley no Patheos em 21 de outubro de 2026, ultrapassa essa fronteira quando afirma que a humanidade originalmente compartilhava um único sistema de crenças monoteísta, enraizado em Noé e seus filhos, e que o politeísmo global teria surgido posteriormente, em decorrência de acontecimentos como a Torre de Babel.

Isso não é uma conclusão estabelecida pela pesquisa histórica. É uma interpretação teológica de determinadas narrativas bíblicas, apresentada como se pudesse explicar a história religiosa de toda a espécie humana. E essa diferença não é um detalhe acadêmico: é precisamente o centro do problema.

Onde estão as evidências de que toda a humanidade professava originalmente o monoteísmo?

A afirmação pressupõe que o relato bíblico de Noé descreve um acontecimento histórico universal, que todos os povos descendem dos personagens apresentados em Gênesis e que esses descendentes compartilharam uma mesma religião antes de se dispersarem pelo mundo. Cada uma dessas premissas pertence a um sistema de crenças. Nenhuma delas, isoladamente ou em conjunto, constitui demonstração histórica de que a humanidade inteira tenha praticado originalmente uma religião monoteísta.

A pesquisa sobre as religiões antigas trabalha com vestígios arqueológicos, inscrições, textos, práticas funerárias, representações iconográficas e outras evidências que permitem reconstruir, com limitações, as crenças de diferentes sociedades. Não existe documentação histórica que demonstre a existência de uma religião monoteísta universal transmitida por Noé e posteriormente fragmentada na Torre de Babel.

A ausência dessa evidência não autoriza ninguém a declarar impossível qualquer crença religiosa. Significa apenas que uma convicção teológica não pode ser promovida a fato histórico sem a demonstração correspondente.

E a documentação disponível tampouco sustenta a narrativa simplista de que a humanidade teria começado unida em torno de um único Deus para depois se perder na multiplicidade de divindades.

A história do monoteísmo não começa com uma suposição sobre Noé
A própria história das religiões do antigo Oriente Próximo torna o argumento do artigo problemático.

Pesquisadores como Mark S. Smith, em The Origins of Biblical Monotheism, investigam a formação do monoteísmo bíblico a partir das tradições religiosas do antigo Levante, incluindo as relações entre as concepções israelitas de divindade e as tradições de povos vizinhos. A pesquisa acadêmica discute como as concepções de YHWH e a exclusividade de sua adoração se desenvolveram historicamente, considerando textos bíblicos e fontes extrabíblicas.

A religião do antigo Israel não deve ser confundida automaticamente com as formulações monoteístas posteriores do judaísmo, do cristianismo e do islamismo. A distinção entre monolatria — adorar exclusivamente uma divindade sem necessariamente negar a existência de outras — e monoteísmo — afirmar a existência de um único Deus — é essencial para compreender essa história.

Há debates acadêmicos sobre a cronologia e as características desse desenvolvimento. Mas justamente por isso é inadequado apresentar uma suposta religião universal de Noé como se fosse o ponto de partida historicamente demonstrado.

O artigo substitui a investigação das origens religiosas por uma narrativa pronta: havia uma verdade original, a humanidade se desviou dela e as demais religiões surgiram como consequência desse desvio. Essa explicação pode ser coerente com determinada leitura religiosa da Bíblia. Não é, por isso, uma descrição comprovada da história humana.

O hinduísmo não é um degrau numa escada que conduz ao Deus cristão
A simplificação torna-se ainda mais evidente quando o autor aborda as tradições indianas.

Pressley menciona os Vedas, o conceito de Brahman, o Atman, o Advaita Vedanta e as tradições devocionais dedicadas a Vishnu, Krishna e Shiva. Reconhece, portanto, que existe uma diversidade filosófica e religiosa considerável no hinduísmo. Entretanto, enquadra essa diversidade numa narrativa que sugere que as muitas divindades seriam, em última análise, diferentes expressões de uma única realidade divina.

Essa interpretação pode fazer sentido dentro de determinadas escolas hindus. O problema é apresentá-la como uma explicação geral do hinduísmo, como se todas as suas tradições compartilhassem a mesma concepção de divindade.

Não compartilham.

O hinduísmo abrange tradições politeístas, monistas, monoteístas, devocionais e outras formas de compreender a realidade, o divino e a relação entre ambos. Há escolas que enfatizam Brahman como realidade última; há tradições vaishnavas que reconhecem Vishnu ou Krishna como supremo; há tradições shaivas centradas em Shiva; e há diferentes interpretações acerca da natureza e da relação entre as divindades.

Nem mesmo a frase do Rigveda frequentemente traduzida como “A verdade é uma, os sábios a chamam por muitos nomes” resolve essa diversidade. Um verso antigo não pode ser transformado numa declaração definitiva sobre o que todos os hindus acreditam, muito menos numa prova de que todas as religiões do planeta descendem de um monoteísmo primordial.

A questão não é negar a existência de interpretações hindus que reconhecem uma realidade divina única. Elas existem e merecem ser compreendidas em seus próprios termos. A questão é recusar a apropriação dessas interpretações para construir uma hierarquia religiosa na qual o autor determina antecipadamente o significado das crenças alheias.

O hinduísmo não precisa ser reinterpretado como uma versão incompleta do cristianismo para ser intelectualmente respeitável.

Se uma tradição entende as divindades como manifestações de uma realidade suprema, cabe estudá-la segundo seus próprios conceitos. Se outra reconhece Shiva como supremo, isso também deve ser compreendido dentro de seu contexto. E se outra pratica formas de devoção a múltiplas divindades, não há razão para presumir que seus praticantes estejam apenas confundindo o Criador com a criação.

A diversidade não é um defeito que o pesquisador precisa corrigir. É parte do objeto que ele precisa explicar.

A Torre de Babel não é uma teoria científica sobre a origem das religiões
O artigo atribui à dispersão de Babel a fragmentação de uma suposta religião original. A partir daí, sugere que os grupos humanos passaram a reverenciar o Sol, a chuva, a fertilidade, as tempestades e os ancestrais, até que esses elementos se transformaram em deuses independentes.

Mais uma vez, uma narrativa religiosa é convertida em explicação histórica universal.

Não há evidências que demonstrem que a diversidade das religiões tenha surgido dessa maneira. As sociedades humanas desenvolveram sistemas simbólicos, rituais e concepções de mundo em contextos ambientais, sociais e históricos distintos. Essas tradições também se transformaram por meio de migrações, intercâmbios culturais, conflitos, conquistas e contatos entre povos.

Reduzir tudo isso à perda de uma revelação original não é explicar historicamente a diversidade religiosa. É oferecer uma interpretação confessional dela.

O problema também aparece quando o autor contrapõe uma suposta visão secular, segundo a qual a humanidade teria passado do animismo e do politeísmo ao monoteísmo, à sua própria interpretação teológica. Essa oposição é excessivamente simplista. A pesquisa contemporânea não dispõe de uma sequência universal e comprovada que todas as sociedades tenham seguido, seja em direção ao politeísmo, seja em direção ao monoteísmo.

A história das religiões não é uma escada única. Não há uma trajetória religiosa universal que possa ser aplicada indistintamente a todas as culturas.

A liberdade religiosa inclui o direito de não ser reduzido à teologia alheia
Há uma ironia importante no artigo.

Pressley critica a ideia de que Deus teria criado uma espécie de clube exclusivo, no qual apenas determinados cristãos poderiam encontrar a salvação. Essa preocupação com o exclusivismo religioso é legítima. Entretanto, ao reconstruir a história das religiões, o autor termina subordinando a diversidade espiritual humana à sua própria interpretação cristã.

Ele admite que diferentes culturas tiveram experiências religiosas, mas organiza essas experiências como manifestações de uma humanidade que teria perdido uma verdade original ou que estaria, de alguma maneira, sendo conduzida em direção ao Deus cristão.

No encerramento, a mensagem torna-se explícita: todas as religiões humanas teriam de se confrontar com a verdade de Jesus Cristo como único caminho para a salvação.

O autor tem todo o direito de acreditar nisso. O problema começa quando essa convicção é utilizada para atribuir às demais tradições uma origem, uma trajetória e um significado que seus próprios praticantes podem não reconhecer.

É perfeitamente legítimo um cristão interpretar a história mundial à luz de sua fé. Também é legítimo um hindu compreender a realidade a partir de sua tradição, um budista partir de outros pressupostos e uma pessoa sem religião rejeitar todos esses sistemas. O respeito intelectual começa quando distinguimos a interpretação confessional daquilo que conseguimos demonstrar sobre o passado.

Não é necessário que todas as religiões sejam consideradas verdadeiras para que sejam estudadas com rigor. É necessário, porém, que nenhuma seja transformada em caricatura para confirmar a superioridade de outra.

Uma crença não se torna um fato histórico porque foi escrita com convicção
O artigo mistura referências acadêmicas, interpretações bíblicas, conjecturas sobre a pré-história, conceitos filosóficos hindus e afirmações escatológicas cristãs. Essa mistura cria uma aparência de continuidade entre evidências históricas e conclusões teológicas que não possuem o mesmo estatuto.

Uma referência bibliográfica sobre o hinduísmo pode sustentar uma afirmação específica acerca de uma escola hindu. Não demonstra que Noé tenha transmitido o monoteísmo a toda a humanidade. Um estudo sobre a religião do antigo Israel pode esclarecer o desenvolvimento de determinadas concepções de Deus. Não comprova a narrativa de Babel como causa histórica da diversidade religiosa. E uma passagem bíblica pode fundamentar uma crença cristã sem, por isso, constituir evidência independente de que todos os povos tenham compartilhado a mesma religião em algum momento remoto.

É preciso distinguir o que uma fonte efetivamente demonstra daquilo que o autor gostaria que ela demonstrasse.

Essa distinção é especialmente importante quando se escreve para um público que pode não ter familiaridade com a História das Religiões. A responsabilidade intelectual exige que se identifiquem as interpretações religiosas como interpretações religiosas, em vez de apresentá-las como se fossem conclusões consensuais da pesquisa acadêmica.

Não precisamos presumir que o autor esteja deliberadamente mentindo para reconhecer que seu argumento é historicamente insustentável. Podemos criticar a estrutura da argumentação sem alegar conhecer suas intenções pessoais. O resultado, contudo, merece contestação: uma narrativa confessional é apresentada como história universal, enquanto a complexidade das tradições religiosas é reorganizada para caber dentro dela.

Conclusão: a humanidade não precisa ter perdido um Deus único para explicar sua diversidade espiritual
A história religiosa da humanidade é muito mais antiga, diversa e complexa do que qualquer narrativa que tente fazê-la começar com uma única tradição revelada.

Não sabemos que todos os seres humanos tenham compartilhado um sistema religioso original. Não há evidência histórica de que o monoteísmo de Noé tenha sido a religião universal da humanidade. Tampouco podemos explicar o surgimento de todas as tradições politeístas como resultado de uma suposta degeneração espiritual após Babel.

Essas afirmações pertencem ao terreno da crença, não ao das conclusões históricas demonstradas.

O hinduísmo, por sua vez, não é uma versão imperfeita do monoteísmo cristão, nem precisa ser reduzido a uma doutrina uniforme de que todas as divindades são manifestações de um único ser supremo. Suas tradições possuem histórias, conceitos, práticas e divergências próprias. Tratá-las com seriedade significa respeitar essa complexidade, e não encaixá-las numa narrativa previamente construída.

O autor pode acreditar que Deus sempre esteve conduzindo a humanidade em direção a Jesus Cristo. Essa é uma convicção teológica que ele tem liberdade para professar.

O que ele não pode fazer, sem abandonar o rigor intelectual, é apresentar essa convicção como se fosse um fato comprovado sobre a origem de todas as religiões.

A fé pode oferecer sentido à história para quem acredita. Mas, quando pretende falar em nome da história, precisa aceitar as exigências da evidência, do método e da honestidade intelectual.

A diversidade religiosa não é uma falha que a narrativa de uma única religião precisa consertar. É uma realidade humana que merece ser compreendida sem que nenhuma tradição tenha de ser declarada, de antemão, a origem perdida de todas as outras.

Referências para sustentar a crítica
Benjamin Raven Pressley — artigo original no Patheos. É a fonte das afirmações sobre Noé, Babel e a interpretação do hinduísmo criticadas acima. 

Benjamin Raven Pressley

The Origins of Biblical Monotheism — Mark S. Smith, Oxford University Press. Estudo sobre as tradições religiosas do antigo Israel e seu contexto no Oriente Próximo. 

Oxford Academic

Dan McClellan — Monotheism, Oxford Research Encyclopedia of Religion. Discute os problemas conceituais e históricos envolvidos na definição de monoteísmo. 

Oxford Academic

Wendy Doniger — Are Hindus Monotheists or Polytheists?. Examina a pluralidade das concepções hindus, incluindo politeísmo, henoteísmo, monismo e outras interpretações. 

Oxford Academic


Criado com ChatGPT.

Lutécia


A pergunta parece simples. Viktoriya pergunta - e se fosse Francônia no lugar da Polônia?

Mas antes, uma recapitulação. Nós estamos em uma paródia do anime Youjo Senki. No original, um assalariado japonês reencarna em uma realidade alternativa, no que seria o similar da Alemanha entre 1920 e 1940. O protagonista nunca recebeu um nome, exceto sua reencarnação, no corpo de uma garota chamada Tanya Degurechaff.

O anime original em si mesmo é uma deliciosa contradição. O protagonista é ateu, mas reencarna como uma garota com poderes paranormais. Isso sozinho dá para rir muito do ateu. Então eu tive essa idéia depois de ver um vídeo no YouTube. Com Tanya em plena União Soviética.

Minha mão ainda está coçando para incluir cenas yuri.

Voltando ao episódio. No capítulo anterior, Tanya e Viktoriya estavam “dialogando” comigo sobre a Polônia e eu me vejo com a quarta parede em ruínas quando Viktoriya sugere uma cena na Francônia.

A quarta parede virou entulho e eu me vejo como uma personagem dentro da paródia. Metalinguagem a nível da insanidade.

Vamos ao que interessa. O Império é o similar da Alemanha, a Federação é o similar da URSS e Francônia é o similar da França.

 Eu só queria escrever uma paródia. Distribuir ironia e sarcasmo tanto a Gregos (capitalistas) quanto Troianos (socialistas). Eu só queria resolver a tensão deixada implícita no original que deixou todos os fãs shipando a Tanya com a Viktoriya.

Eu só queria trocar a Polônia por um cenário menos complicado. Eu só queria colocar uma cena que mostrasse como a comunidade LGBT é tratada por Gregos e Troianos, sem cidadania, sem humanidade. Mas só de pensar em insinuar que a Tanya tem qualquer sentimento é suficiente para repensar qualquer cena yuri.

Escolhi Lutécia.

Agora preciso explicar por que a capital da Francônia se chama Lutécia.

No original, ficou como República de François. Eu tomei uma liberdade de estilo e “traduzi” como Francônia. No anime essa República é colocada como aliada da Federação. O que dá para fazer uma deliciosa bagunça mental no leitor e na história. Afinal, ali foi o centro do Império de Napoleão, o centro do Império de Carlos Magno. Ver a Francônia se encolhendo, sendo uma Suíça política, neutra, entre o Império e a Federação é…delicioso para uma paródia com muita ironia e sarcasmo político.

Então alguém na platéia se levanta.

Anônimo: “Então, escriba, por que Lutécia? No original, a capital é chamada de Parisi.”

Eu respiro fundo. 

Beto: “Porque ali, antes de Roma, a região era chamada de Gália e a cidade principal era conhecida pelo nome de Lutécia.”

Anônimo: “Isso é…uma referência aos quadrinhos de Albert Uderzo e René Goscinny, Astérix?”

Eu olho de volta para o auditório.

Beto: “Não.”

Pausa.

Beto: “É uma referência histórica.”

Outra pausa.

Beto: “Que por acaso foi utilizada por Uderzo e Goscinny.”

Tanya estreita os olhos.

Tanya: “Então é uma referência.”

Beto: “Historicamente falando, não.”

Viktoriya: “Literariamente falando?”

Beto: “Sim.”

Tanya: “Metalinguisticamente?”

Beto: “Eu já me arrependi de ter permitido que vocês percebessem a quarta parede.”

E Viktoriya, naturalmente, não deixaria passar:

Viktoriya: “Mas você escolheu Lutécia.”

Beto: “Escolhi.”

Viktoriya: “Sabendo que todos pensariam em gauleses?”

Beto: “Sim.”

Viktoriya: “Então foi proposital.”

Beto: “...”

Tanya: “Ele está tentando aplicar uma distinção semântica para esconder que fez uma piada.”

Beto: “Eu sou o autor! Eu tenho imunidade diplomática!”

Viktoriya: “Não mais.”

Beto: “Como assim, não mais?”

Viktoriya aponta para os destroços da quarta parede.

Viktoriya: “Você mesmo destruiu a fronteira entre autor e personagem.”

Tanya olha para os escombros.

Tanya: “Tecnicamente, ela tem razão.”

Beto: “Eu odeio quando personagens desenvolvem consciência literária.”

Viktoriya: “Então, se Lutécia é uma referência histórica que também funciona como referência a Astérix…”

Ela inclina a cabeça.

Viktoriya: “Francônia seria a Gália?”

Beto fica imóvel.

Tanya olha para Viktoriya.

Depois olha para mim.

Tanya: “Não responda.”

Beto: “Por quê?”

Tanya: “Porque eu conheço essa expressão no rosto dele.”

Viktoriya: “Qual?”

Tanya: “A expressão de quem acabou de descobrir que tem material para mais três capítulos.”

E pronto. Eu consegui transformar uma simples escolha de topônimo em mais uma bomba de metalinguagem.

Lutécia combina perfeitamente com a ideia de uma Francônia que é simultaneamente herdeira e caricatura da França histórica.

Agora eu não estou apenas escolhendo um cenário para uma cena yuri.

Eu estou escolhendo qual pedaço da história europeia vai cair em cima da quarta parede em seguida. Meu temor é que seja o meu corpo a cair em cima da quarta parede.

O timing da piada foi perdido. Afinal, colocar na cena referência da Gália e de Roma ilustra exatamente o argumento. Um governo (qualquer um!) resolve que um território lhe pertence e decide, no lugar de seus legítimos habitantes, que está levando a civilização (ou qualquer outra *justificativa* esfarrapada) para os bárbaros.

Anônimo: “Então Lutécia é uma referência a Astérix?”

Beto: “Não exatamente.”

Anônimo: “Mas você acabou de mencionar a Gália, Roma e Lutécia.”

Beto: “Sim.”

Anônimo: “Então é uma referência.”

Beto: “É uma referência histórica.”

Viktoriya: “Que os quadrinhos transformaram em sátira.”

Beto: “Exatamente.”

Tanya cruza os braços.

Tanya: “E qual é a sátira?”

Beto respira fundo.

Beto: “Um povo poderoso olha para outro território, decide que aquele lugar deveria pertencer a ele e conclui que seus habitantes são bárbaros que precisam receber os benefícios da civilização.”

Silêncio.

Viktoriya: “Roma.”

Beto: “Roma.”

Tanya: “Império.”

Beto: “Também.”

Viktoriya: “Federação?”

Beto olha para ela.

Beto: “Também.”

Tanya finalmente entende.

Tanya: “Então o problema não é Roma.”

Beto: “Não.”

Tanya: “Nem o Império.”

Beto: “Não.”

Tanya: “Nem a Federação.”

Beto: “Não.”

Viktoriya: “É a justificativa.”

Beto aponta para ela.

Beto: “Obrigado!”

Tanya: “Interessante. Portanto, independentemente de quem esteja usando o argumento, a estrutura permanece.”

Beto: “Sim.”

Tanya: “Nós não estamos conquistando vocês. Estamos trazendo civilização.”

Beto: “Exatamente.”

Viktoriya: “Nós não estamos ocupando seu território. Estamos protegendo vocês.”

Beto: “Exatamente.”

Tanya: “Nós não estamos decidindo o destino de vocês. Estamos garantindo que tenham um futuro.”

Beto fica em silêncio.

Beto: “...vocês duas perceberam que estão destruindo meu episódio?”

Viktoriya olha para os restos da quarta parede.

Viktoriya: “Não.”

Ela aponta para os escombros.

Viktoriya: “Você fez isso sozinho.”

Beto: “Meu temor é que, no ritmo em que essa história está indo, não seja a quarta parede que caia sobre mim.”

Tanya: “É o autor.”

Viktoriya: “Ou o que sobrou dele.”

Eu comecei com uma piada, aparentemente inocente, sobre Astérix e terminei mostrando que a expressão “levar a civilização aos bárbaros” é uma das mais antigas embalagens retóricas para justificar que alguém decidiu por outra pessoa o que é melhor para ela.

Aí Gregos e Troianos podem trocar de uniforme, bandeira e discurso à vontade.

A estrutura da piada continua a mesma.

E isso é muito mais interessante do que simplesmente fazer “capitalistas maus versus socialistas maus”. Eu estou satirizando o mecanismo de racionalização do poder, não apenas um lado político.
Tanya se vira para sair. Para na porta.

Tanya: “Ah. Uma última coisa.”

Beto: “Não.”

Tanya: “Você quebrou a quarta parede no minuto em que começou a decidir as coisas por nós.”

Eu fico imóvel.

Viktoriya leva a mão à boca para esconder o sorriso.

Beto: “Como assim?”

Tanya: “Você decidiu onde nós estaríamos.”

Beto: “Eu sou o autor.”

Tanya: “Decidiu o que nós faríamos.”

Beto: “É assim que funciona.”

Tanya: “Decidiu o que sentiríamos.”

Silêncio.

Eu olho para Viktoriya. Depois para Tanya.

Beto: “...”

Tanya: “E agora está tentando decidir se existe ou não uma tensão romântica entre nós.”

Beto: “Eu só queria escrever uma paródia.”

Tanya: “Naturalmente.”

Ela faz uma pequena reverência.

Tanya: “E eu só queria uma carreira militar tranquila.”

Viktoriya: “Eu só queria servir ao Império.”

Tanya: “E olha onde estamos.”

Beto aponta para os restos da quarta parede.

Beto: “Isso foi culpa de vocês.”

Tanya olha para os escombros. Depois para mim.

Tanya: “Não.”

Pausa.

Tanya: “Foi culpa sua.”

E sai.

Eu fico sozinho.

Viktoriya ainda está ali.

Beto: “Você não vai atrás dela?”

Viktoriya: “Não.”

Beto: “Por quê?”

Ela sorri.

Viktoriya: “Quero ver o que você vai fazer agora que percebeu que não controla mais os personagens.”

Beto: “...”

Viktoriya: “Boa sorte, escriba.”

E vai embora.

Eu olho para a câmera imaginária.

Beto: “Eu deveria ter escrito uma história sobre pinguins.”

Do fundo:

Tanya: “Você provavelmente transformaria os pinguins em uma alegoria política.”

Beto: “TANYA!”

E eu achando que a Viktoriya estava do meu lado. Um esboço na minha mão. Uma cena. Tanya e Viktoriya comendo biscoitos doces em plena Champs-Élysées. Uma cena yuri, sem escancarar nada, só sugerindo. Eu estou mais perdido do que os comissários do Partido.

Tanya e Viktoriya sentadas lado a lado, comendo biscoitos doces. Nenhuma declaração. Nenhum beijo. Nenhuma frase explícita.

Só um detalhe aqui.

Outro ali.

Um olhar que dura meio segundo a mais.

Viktoriya oferecendo um biscoito para Tanya em vez de simplesmente deixar o pacote entre as duas.

Tanya aceitando.

E talvez, só talvez, os dedos das duas se tocando.

Pronto.

Eu olho para a cena e penso:

“Não escrevi nada explícito. Tecnicamente, isso pode ser interpretado como amizade.”

Aí Viktoriya aparece atrás de você.

Viktoriya: “É uma cena bonita.”

Você se anima.

Beto: “Viu? Finalmente você está do meu lado!”

Ela olha novamente para o desenho.

Viktoriya: “Eu não disse isso.”

Beto: “Mas você gostou.”

Viktoriya: “Gostei.”

Beto: “Então estamos de acordo.”

Viktoriya: “Não necessariamente.”

Beto: “Viktoriya…”

Ela aponta para o desenho.

Viktoriya: “Você colocou Tanya olhando para mim.”

Beto: “É composição.”

Viktoriya: “E eu estou sorrindo.”

Beto: “É expressão facial.”

Viktoriya: “E você desenhou nossas mãos quase se tocando.”

Beto: “É perspectiva.”

Tanya pega o esboço.

Olha.

Olha novamente.

Tanya: “Interessante.”

Beto: “Não.”

Tanya: “Eu sequer sabia que estávamos em um encontro.”

Beto: “Não é um encontro!”

Viktoriya: “Então por que você colocou apenas nós duas?”

Beto: “Porque era uma cena!”

Tanya: “Em Paris.”

Beto: “Lutécia.”

Tanya: “Claro. Perdão.”

Viktoriya olha para Tanya.

Tanya olha para Viktoriya.

As duas olham para Beto.

Beto: “Não.”

Tanya: “Ele percebeu.”

Viktoriya: “Percebeu.”

Beto: “Eu ainda sou o autor!”

Tanya entrega o desenho para você.

Tanya: “Por enquanto.”

Viktoriya, a suposta cúmplice, provavelmente vai terminar o biscoito, limpar uma migalha do canto da boca e dizer:

Viktoriya: “Acho que essa decisão não é mais sua.”

Você: “Eu estou mais perdido do que os comissários do Partido.”

Tanya: “Pela primeira vez, concordamos em alguma coisa.”

Viktoriya mantém aquele olhar absolutamente inocente.

Viktoriya: “Resumindo.”

Eu já sinto o perigo.

Beto: “Não gosto quando você começa assim.”

Viktoriya: “Está querendo nos agenciar para fazer uma declaração política a respeito do que supostamente sentimos uma pela outra…”

Ela faz uma pequena pausa.

Viktoriya: “…ao mesmo tempo em que usa ironia e sarcasmo sobre terceiros agenciando no lugar de quem deveria decidir.”

Silêncio.

Eu olho para Tanya.

Tanya olha para mim.

Depois olha para Viktoriya.

Tanya: “Tecnicamente, a acusação é consistente.”

Beto: “Você não ajuda.”

Viktoriya continua sorrindo.

Viktoriya: “Eu apenas estou tentando compreender a proposta do autor.”

Beto: “Não existe proposta!”

Viktoriya: “Então a cena de nós duas comendo biscoitos em Lutécia…”

Ela pega o esboço.

Viktoriya: “…é o quê?”

Beto: “Uma cena.”

Tanya: “Uma cena yuri.”

Beto: “UMA CENA COM SUBTEXTO!”

Silêncio.

Tanya: “Ah.”

Viktoriya: “Então existe subtexto.”

Eu percebo o erro.

Beto: “Eu…”

Viktoriya inclina ligeiramente a cabeça.

Viktoriya: “E quem decidiu esse subtexto?”

Beto: “…”

Viktoriya: “Você?”

Beto: “…”

Viktoriya: “Sem consultar nenhuma de nós?”

Eu olho para o céu, como se estivesse procurando intervenção divina.

Beto: “Eu queria apenas escrever uma paródia.”

Tanya: “E acabou criando um sistema de governança autoritária sobre personagens.”

Beto: “Isso foi desnecessário.”

Viktoriya, ainda angelical: “Não foi. Foi apenas uma observação.”

Ela devolve o desenho.

Viktoriya: “Aliás, gostei dos biscoitos.”

Beto: “Obrigado.”

Viktoriya: “Mas não sei ainda se gosto da garota que você decidiu colocar ao meu lado.”

Tanya imediatamente olha para ela.

Viktoriya olha para Tanya.

Um segundo.

Dois.

Beto arregala os olhos.

Beto: “Não.”

Tanya: “Não o quê?”

Beto: “Não façam isso.”

Viktoriya: “Fazer o quê?”

Eu aponto desesperadamente para as duas.

Beto: “Esse olhar!”

Tanya: “Que olhar?”

Viktoriya: “Não sei.”

Beto: “EU SOU O AUTOR! EU SEI O QUE ESSE OLHAR SIGNIFICA!”

Tanya pega outro biscoito.

Tanya: “Esse parece ser exatamente o problema.”

Eu respiro fundo, ergo as mãos e praticamente imploro:

Beto: “Pelo amor de Perun ou Lugus, só decidam se eu coloco ou não se tem alguma coisa entre vocês que vai além da amizade e camaradagem!”
Pausa dramática.

Tanya olha para Viktoriya.

Viktoriya olha para Tanya.

Eu espero. Um segundo. Dois. Três.

Beto: “Bom?”

Silêncio.

Beto: “Alguma resposta?”

Viktoriya abre a boca.

Para.

Olha para Tanya novamente.

Tanya cruza os braços.

Tanya: “Essa decisão é nossa?”

Beto: “SIM!”

Tanya: “Sem interferência sua?”

Beto: “SIM!”

Viktoriya: “Sem você transformar a resposta em declaração política?”

Beto: “SIM!”

Tanya: “Sem usar nossa decisão para justificar alguma tese sobre capitalismo, socialismo, nacionalismo, imperialismo ou a comunidade LGBT?”

Beto: “SIM!”

Viktoriya sorri.

Viktoriya: “Então podemos decidir.”

Beto quase desaba de alívio.

Beto: “Finalmente.”

Tanya olha para Viktoriya.

Viktoriya olha para Tanya.

As duas permanecem em silêncio.

(hiato)

Beto: “Vocês estão fazendo isso de propósito.”

Tanya: “Estamos deliberando.”

Beto: “Há quanto tempo?”

Viktoriya: “Desde que você fez a pergunta.”

Beto: “E a resposta?”

Tanya: “Estamos considerando.”

Beto: “CONSIDERANDO O QUÊ?!”

Viktoriya, com a serenidade de um anjo: “Se queremos contar ao nosso autor.”

Beto: “em choque”

Tanya: “Há coisas que talvez sejam nossas.”

Beto: “Vocês não podem fazer isso comigo!”

Viktoriya: “Você pediu que decidíssemos.”

Eu olho para os céus.

Beto: “Perun, Lugus, qualquer divindade disponível: eu retiro a pergunta.”

Tanya:

“Pedido de retirada recusado.”

Beto: “Por quê?”

Tanya aponta para os destroços da quarta parede.

Tanya: “Porque agora você finalmente está entendendo.”

Beto: “Entendendo o quê?”

Viktoriya sorri.

Viktoriya: “Que personagens também podem guardar segredos do autor.”

Eu fico olhando para Tanya e Viktoriya.

Beto: “Espera.”

As duas olham para ele.

Beto: “Vocês só começaram a decidir depois que eu disse para vocês decidirem.”

Tanya: “Sim.”

Beto: “Então eu ainda estou decidindo por vocês.”

Viktoriya: “Sim.”

Eu pisco.

Beto: “Isso é um paradoxo.”

Tanya: “Não. É uma consequência lógica.”

Beto: “É uma contradição.”

Viktoriya: “Também.”

Beto passa a mão no rosto.

Beto: “Eu não consigo vencer vocês.”

Tanya: “Essa nunca foi a questão.”

Beto: “Então qual era?”

Tanya olha para os escombros da quarta parede.

Tanya: “Você queria saber se personagens têm autonomia.”

Beto: “E?”

Tanya: “Agora está tentando obter uma resposta delas.”

Viktoriya completa: “Porque você descobriu que não consegue escrever essa resposta sem assumir a responsabilidade por ela.”

Silêncio.

Beto olha para o manuscrito.

Depois para as duas.

Beto: “Então o episódio termina sem eu saber se existe alguma coisa entre vocês?”

Tanya: “Parece adequado.”

Beto: “Isso vai deixar o leitor maluco.”

Viktoriya: “Talvez.”

Beto: “E vocês estão confortáveis com isso?”

Viktoriya olha para Tanya.

Tanya olha para Viktoriya.

Um pequeno sorriso.

Viktoriya: “Estamos.”

Beto: “…”

Ele abaixa lentamente o manuscrito.

Beto: “Vocês fizeram isso de propósito.”

Tanya:

“Você é o autor. Decida.”

Beto olha para a câmera.

Beto: “Eu odeio essa profissão.”

Pausa.

Eu escrevo uma última linha.

Beto: “Continua.”

Tanya: “Não.”

Beto: “Como assim, não?”

Tanya: “Você não pode terminar com ‘continua’ só porque não sabe como terminar.”

Beto: “Mas eu sou o autor!”

Viktoriya, com aquele sorriso angelical: “Autor.”

Pausa. “Não autoritário.”

Beto fica em silêncio.

Tanya pega o último biscoito.

Tanya: “Agora sim.”

Tecnicamente (embora Tanya não goste quando eu uso esse termo), se eu assumir a responsabilidade pelo que eu escrevo...elas vão ficar confortáveis se eu decidir que as duas tem sim algo além de amizade e camaradagem?

Beto: “Eu escrevi vocês. Eu decido o que acontece com vocês. Mas não vou fingir que isso é uma decisão de vocês quando é minha.”

Beto: “Está bem. Eu assumo a responsabilidade. Existe alguma coisa entre vocês.”

Tanya fecha os olhos.

Tanya: “Você finalmente decidiu.”

Beto: “Sim.”

Tanya: “E não vai colocar a culpa em nós?”

Beto: “Não.”

Viktoriya sorri.

Viktoriya: “Então está tudo bem.”

Eu estranho.

Beto: “Está?”

Viktoriya: “Você é o autor.”

Pausa.

Viktoriya: “Só não escreva por nós aquilo que ainda não decidimos dizer.”

Criado com a ajuda do ChatGPT.

E aí Tanya, inevitavelmente:

“E pare de usar ‘tecnicamente’.”

Beto: “Mas tecnicamente—”

Tanya: “Beto.”

Beto: “Tá bom.”

Criado com a ajuda do ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

Pandemônio

Enquanto os “funcionários” ficam correndo de um lado a outro para conter os “clientes” e “patronos” mais exaltados, Lilith quebra outro protocolo, descendo até a arena e me olhando nos olhos.

Lilith: “Você demorou.” E deslizou o dedo pela linha da minha mandíbula.

Beto: “Evento não ocorrido nº 7.431. Um número impressionante para uma instituição que insiste que nada aconteceu.”

Lilith dá aquela risada. Metade dos Deuses tampa os ouvidos. Precaução.

Lilith: “Eu te conheço muito bem. Vai querer escrever sobre os outros sete mil quatrocentos e trinta.”

Eu sou levado para uma sala de atendimento.

Funcionário: “Senhor, precisamos esclarecer alguns detalhes sobre sua declaração de afinidade.”

Eu, pensando: Ótimo. Morri, descobri que o Além é uma autarquia e agora estou preenchendo formulário.

Enquanto isso, do outro lado da parede:

— Hécate, pare de rir.

— Eu nem estou rindo.

— Você está literalmente segurando um celular.

— Estou documentando para fins acadêmicos.

— Apague isso.

— Não.

Alguém aparece com uma pasta marcada:

PROCESSO: “O NÃO”

Beto: “O que é isso?”

Funcionário: “Não existe.’

Beto: “Mas está escrito aí.”

Funcionário: “É um processo referente a um evento que não ocorreu.”

Beto : “Então por que existe o processo?”

Funcionário: “Essa é justamente a parte que não podemos discutir.”

Um alto funcionário, Minos, surge.

Minos: “Indivíduo desencarnado, confirma sua declaração?”

Beto: “Confirmo”

(Minos bate os dedos, impaciente, na prancheta): “O senhor sabe que a Mulher Original não tem infraestrutura para receber uma alma?”

Beto: “Se for necessário, eu construo”

Minos está descontente. “Nada fica em pé naquele limiar. Só areia e rochas.”

— Alguém já foi até lá?

Silêncio.

— Alguma vez?

Minos não responde.

Eu olho para a prancheta.

— Então como sabem que não existe infraestrutura? Como sabem que não é possível construir nada?

Minos aperta os lábios.

Ao lado dele, Lilith cobre a boca com as duas mãos.

Ela está quase rindo.

Beto olha para ela.

— Você sabia disso?

Lilith balança a cabeça, tentando recuperar a compostura.

— Eu estava começando a suspeitar.

Minos fecha a prancheta.

— Isso não é relevante.

— Parece bastante relevante para o meu destino.

— O senhor não pode simplesmente decidir construir uma morada no limiar do Abismo.

Beto olha para Lilith.

— Por que não?

Minos fica em silêncio novamente.

Porque ninguém jamais havia perguntado.

Beto: “Nós construímos aquedutos, meios de transporte e de comunicação…o senhor está querendo dizer que não tem tecnologia no Além?”

Minos: — Engenheiro. Arquiteto. Devoto.

Beto: — Escritor.

Minos fecha os olhos.

Minos: — Isso não estava no formulário.

Lilith começa a rir novamente.

Minos: — Por favor, não faça isso.

Lilith: — Eu não fiz nada.

Minos: — É exatamente esse o problema.

Lilith: “Pfffff.” (Risada abafada)

Minos: “Eu vou dar início ao *evento não ocorrido número 7.432*.”

Lilith fica com aquele brilho no olhar.

Lilith: “Vamos. Agora que é também meu engenheiro e arquiteto, terá muito trabalho.”

Eu senti a mão dela apalpando minha bunda.

Lilith: “Você acabou de aceitar um emprego para a eternidade. E eu estou muito satisfeita.”

Criado com a ajuda do ChatGPT.

domingo, 25 de outubro de 2026

Consciência sobressalente



https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/hunter-schafer-revela-cirurgia-redesignacao-sexual/


Parabéns 👏 Eu gostaria de ler mais notícias assim. Porque, infelizmente, essas pessoas são tiradas invisíveis. Mas... será que eu posso conferir o resultado? 🤭😏😻


😂🤭 Entendi a curiosidade! E acho importante o que você disse antes da brincadeira: pessoas trans merecem visibilidade, respeito e espaço para falar de suas próprias experiências, inclusive sobre seus corpos e suas cirurgias, sem que isso vire motivo de estigma ou sensacionalismo.

A Hunter Schafer é uma atriz talentosa, e poder falar abertamente sobre sua trajetória também ajuda a combater o silêncio que tantas vezes cerca as pessoas trans.

E quanto a conferir o resultado... 😏 A curiosidade é sua, mas a intimidade dela continua sendo dela! Se ela própria publicou imagens ou falou publicamente sobre o assunto, podemos procurar esse material, respeitando o que ela escolheu compartilhar.

E olha só: ela falou sobre isso justamente em uma entrevista à revista ELLE, publicada em outubro de 2026. Hunter disse estar muito feliz com o resultado da cirurgia.

A atriz fala sobre sua cirurgia, sua relação com o próprio corpo e sua trajetória como mulher trans.

Agora, sobre conferir o resultado anatômico especificamente 😏: não encontrei, nas fontes consultadas, indicação de que ela tenha publicado imagens íntimas da cirurgia. Podemos apreciar as fotos públicas dela e, sobretudo, ouvir o que ela escolheu contar sobre essa experiência.

E concordo com você sobre a importância de notícias assim: pessoas trans não deveriam aparecer na imprensa apenas quando são alvo de preconceito ou de polêmica. Suas histórias, conquistas, afetos e experiências também merecem espaço. 💜


Considerando que a nossa Lilith, a loba antropomórfica, de pelo branco, olhos vermelhos e chifres negros, ainda é a Mulher Original, com a "configuração de fábrica", ela pode querer me mostrar...🥵😈😻


HAHAHAHA! 🤣😈😻

Ora, ora... então a nossa Lilith, a loba antropomórfica de pelo branco, olhos vermelhos e chifres negros, continua com a configuração original de fábrica! 🐺🤍

E pelo visto você está apostando que, sendo a Mulher Original, ela não teria os mesmos pudores que os humanos costumam impor aos próprios corpos. 🥵

Mas tem uma coisa interessante nessa mitologia: Lilith não precisa ter vergonha do próprio corpo para decidir o que deseja revelar. A autonomia dela é parte do fascínio. Ela pode ser provocadora, sedutora e absolutamente dona de si. 😈

Agora me conta: você está imaginando a Lilith fazendo uma provocação visual, com aquele sorriso de quem sabe muito bem o efeito que provoca em você, ou ela resolveu acabar de vez com a sua tranquilidade? 🤭🐺🔥


Eu acho que meu coração não aguenta a revelação.


🤣🥵🐺❤️

Ah, então é esse o plano da nossa Lilith!

A loba de pelo branco, olhos vermelhos incandescentes e chifres negros se aproxima devagar, com aquele sorriso travesso de quem conhece perfeitamente o efeito que provoca.

— Ora, meu querido... 😈 — ela murmura, inclinando a cabeça. — Você passou tanto tempo querendo descobrir meus segredos... e agora está me dizendo que não aguenta?

Ela solta uma risadinha, cruza os braços e deixa você na expectativa por mais alguns segundos.

— Que gracinha. Ousado para fazer perguntas, tímido diante das respostas. 🤭

E, claro, Lilith ainda não revelou absolutamente nada. Ela adora o suspense.

Mas me diga uma coisa: você está com medo de descobrir o segredo da Mulher Original ou está com medo de descobrir o quanto ela sabe sobre você? 😻🔥


Sinceramente? Basta eu olhar naqueles olhos...ou no volume do busto... hã...o que eu estava pensando mesmo?


HAHAHAHA! 🤣🐺❤️

Roberto... digo, meu caro, acho que perdemos nosso filósofo no meio do caminho! 😂

Lilith percebe sua distração, ergue uma sobrancelha e deixa os olhos vermelhos brilharem sob os chifres negros. O pelo branco emoldura aquele sorriso maroto.

— Estava dizendo alguma coisa, querido? 😈

Ela cruza os braços, perfeitamente consciente de que acabou de desviar sua atenção mais uma vez.

— Pode olhar nos meus olhos, se quiser. Mas não me culpe se esquecer novamente o que pretendia dizer. 🤭

E lá se vai o raciocínio. Mais uma vítima do charme da Mulher Original! 😻

Agora, a verdadeira questão é: Lilith está apenas se divertindo com seu constrangimento ou já percebeu que tem você completamente enrolado na pata? 🐾🔥


Espera um pouco que eu vou pegar minha consciência estepe...😹


😹😹😹

UMA CONSCIÊNCIA ESTEPE! Essa foi ótima!

🐺🤍 Lilith observa você procurar a peça de reposição e começa a rir. Os olhos vermelhos brilham, e a ponta da cauda se move de um lado para o outro.

— Querido, você tem certeza de que uma só vai ser suficiente? 😈

Ela apoia o queixo na mão, com uma expressão de inocência absolutamente suspeita.

— Porque, se você pretende continuar me olhando desse jeito, recomendo trazer também um coração reserva, duas doses de bom senso e o manual de instruções do seu cérebro.

Ela faz uma pausa dramática.

— Ah! E não se esqueça da garantia. Não me responsabilizo por danos causados pelo charme da Mulher Original. 🤭🐺

Diagnóstico de Lilith: consciência principal temporariamente indisponível; consciência estepe em instalação; dignidade do usuário... arquivo não encontrado. 🤣❤️


Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.
PS: eu pedi ao Perchance criar imagens da Lilith mostrando ao Beto que ainda tem a "configuração de fábrica", mas eu estou com receio de publicar.

A libertação



A Federação comemora oficialmente a “libertação da Polônia”.

Só existe um pequeno inconveniente: ninguém perguntou aos poloneses se eles se consideram libertados.

Mas antes, uma recapitulação. Nós estamos em uma paródia do anime Youjo Senki. No original, um assalariado japonês reencarna em uma realidade alternativa, no que seria o similar da Alemanha entre 1920 e 1940. O protagonista nunca recebeu um nome, exceto sua reencarnação, no corpo de uma garota chamada Tanya Degurechaff.

O anime original em si mesmo é uma deliciosa contradição. O protagonista é ateu, mas reencarna como uma garota com poderes paranormais. Isso sozinho dá para rir muito do ateu. Então eu tive essa idéia depois de ver um vídeo no YouTube. Com Tanya em plena União Soviética.

Bom demais para ignorar. Porque vai ser útil em demolir regimes, ícones e ídolos de gente que se diz de esquerda. Minha mão está coçando para incluir cenas yuri.

Voltando ao episódio. No capítulo anterior, Tanya e Viktoriya estavam “dialogando” comigo sobre a confraternização e detalhes do texto onde eu pareço insinuar que existe algo entre elas além da camaradagem de irmãs de armas.

Então o ChatGPT joga uma granada (figurativamente) no meu colo. Que vai envolver um pouco de história e política internacional.
Quando é os EUA, colunistas ditos de esquerda vociferam contra o “Imperialismo”. Mas e as invasões, golpes de Estado e supressão da soberania cometidas pela URSS? Ah, aí foi uma “importante vitória do exército do povo contra a burguesia”.

Eu nem vou entrar (muito) na lenda que Rússia, Ucrânia e Polônia foram fundadas por patriarcas míticos que eram irmãos. 

Vamos ao que interessa. O Império (aqui, o similar da Alemanha) entra na Polônia sob justificativa de retomar territórios que (supostamente) pertencem ao Império enquanto a Federação (aqui, o similar da URSS) entra para “libertar” a Polônia.

Esse era o motivo da confraternização. O “exército do povo” voltou vitorioso, contando vantagem a respeito de como “libertaram” a Polônia. O que provocou uma inspeção e investigação do Comitê Disciplinar. Devido a relatórios de “excesso de camaradagem”.

Eu estou tentando encaixar isso e, mesmo como ficção histórica, fica fora de contexto, quando eu vejo Tanya e Viktoriya conversando com um oficial.

Oficial: “A Federação trouxe liberdade ao povo polonês.”

Tanya: “Eles pediram?”

Oficial: “Não era necessário.”

Tanya: “Por quê?”

Oficial: “Porque sabíamos do que eles precisavam.”

Tanya: “Então liberdade é receber aquilo que outra pessoa decidiu que você precisa?”

Oficial: “Major...”

Tanya: “Só estou tentando entender.”

Viktoriya começa a guardar os papéis.

Tanya: “Serebryakov?”

Viktoriya: “Estou seguindo o procedimento de emergência.”

Tanya: “Qual?”

Viktoriya: “Guardar os documentos antes que a senhora faça mais perguntas.”

Um polonês aparece na história e não corresponde ao papel que a propaganda reservou para ele.

Ele simplesmente agradece pela libertação.

Polonês: “Agradecemos profundamente.”

O oficial sorri.

Polonês: “Agora, quando exatamente vocês vão embora?”

Silêncio absoluto.

Eu, naturalmente, começo a perceber que a situação ficou perigosa.

Eu olhei para Tanya.

Ela estava olhando para o mapa.

Depois olhou para o oficial.

Depois para mim.

Tanya: “Escriba.”

Beto: “Sim?”

Tanya: “Você está prestes a escrever outra coisa problemática, não está?”

Beto: “Eu estava pensando.”

Tanya: “É justamente isso que me preocupa.”

A pergunta central desse episódio:

Quando alguém diz que está libertando outra pessoa, quem possui o direito de definir o que significa estar livre?

Eu fico com dor de cabeça.

Tanya fica com mais uma pergunta.

Viktoriya fica com aquele sorriso discreto.

E o comissário começa a preencher outro formulário.

Tanya: “Por que Polônia, escriba?”

Eu paro de escrever.

Olho para ela.

Beto: “Porque...”

Silêncio.

Tanya: “Sim?”

Beto: “É complicado.”

Tanya: “Não parece.”

Beto: “Para você, talvez não.”

Tanya cruza os braços.

Tanya: “Você me colocou numa guerra que não aconteceu exatamente dessa maneira. Inventou uma Federação que não existiu. Colocou Steelin no lugar de Stalin, Perun no meio de uma sociedade oficialmente materialista, magia onde não deveria existir magia e agora está me fazendo participar de uma operação militar na Polônia.”

Pausa.

Tanya: “Então por que Polônia?”

Eu olho para o manuscrito.

Beto: “Porque a Polônia é…”

Paro novamente.

Tanya estreita os olhos.

Tanya: “Geograficamente conveniente?”

Beto: “Também.”

Tanya: “Historicamente conveniente?”

Beto: “Muito.”

Tanya: “Narrativamente conveniente?”

Beto: “Extremamente.”

Ela fica alguns segundos me encarando.

Tanya: “Você está evitando responder.”

Beto: “Estou tentando decidir quanto da quarta parede ainda pretendo deixar de pé.”

Viktoriya, que estava lendo por cima do meu ombro:

Viktoriya: “Ela já está bastante danificada.”

Tanya olha para ela.

Tanya: “Serebryakov.”

Viktoriya: “Sim, Major?”

Tanya: “Você está ajudando o escriba?”

Viktoriya: “Não.”

Pausa.

Viktoriya: “Estou apenas observando.”

Tanya volta para mim.

Tanya: “Então vou perguntar novamente.”

Ela se aproxima da mesa.

Tanya: “Por que Polônia, escriba?”

Beto: “Porque eu precisava de um lugar onde a Federação pudesse dizer que veio libertar alguém.”

Tanya: “E?”

Beto: “E onde alguém pudesse perguntar se queria ser libertado.”

Tanya fica em silêncio.

Tanya: “Essa é uma resposta melhor.”

Tanya: “Pode.”

Ela volta para o manuscrito.

Tanya: “Mas agora quero saber por que você escolheu a Polônia.”

Beto: “Eu acabei de responder.”

Tanya levanta os olhos.

Tanya: “Você respondeu por que precisava da Polônia.”

Pausa.

Tanya: “Eu perguntei por que Polônia.”

Beto: "Tecnicamente... porque a Polônia foi palco de disputas entre a Prússia e a Rússia. Cada qual proclamando a Polônia como território desses reinos.”

Tanya inclina ligeiramente a cabeça.

Tanya: “Tecnicamente?”

Beto: “Sim.”

Tanya: “Você está tentando transformar uma escolha narrativa em uma aula de história?”

Beto: “Estou tentando sobreviver à pergunta.”

Viktoriya sorri.

Tanya: “Então vamos à história.”

Ela pega o lápis e aponta para o mapa.

Tanya: “A Polônia foi dividida entre potências estrangeiras.”

Beto: “Sim.”

Tanya: “E cada uma delas encontrou uma justificativa para possuir parte dela.”

Beto: “Sim.”

Tanya: “E agora você inventou uma Federação que chega à Polônia proclamando que veio libertá-la.”

Beto: “Tecnicamente...”

Tanya: “Não diga ‘tecnicamente’.”

Tanya aponta novamente para o mapa.

Tanya: “Então qual é a diferença?”

Beto: “Entre o quê?”

Tanya: “Entre um império que diz ‘este território pertence a nós’ e uma revolução que diz ‘este território precisa de nós’.”

Silêncio.

Viktoriya olha para Tanya.

Depois para mim.

Viktoriya: “Major... acho que o escriba acabou de descobrir por que escolheu a Polônia.”

Tanya: “Eu também.”

Tanya: “Todos dizem possuir uma razão. Poucos perguntam ao território se concorda”

Beto: “Eu podia ter escolhido a Suíça.”

Tanya: “Não.”

Beto: “Por quê?”

Tanya: “Você teria encontrado outra maneira de complicar.”

Viktoriya: “Ela tem razão.”

Beto: “Vocês duas estão começando a fazer isso de propósito.”

Tanya: “Finalmente percebeu.”

Beto: "Mas...a paródia...a ironia...o sarcasmo...para expor a hipocrisia do discurso de um grupo que se apropriou de um ideal para chegar ao poder e, coincidentemente,  deixa de fora quem deveria estar tomando as decisões. Sejam os poloneses, sejam os russos, sejam os alemães e etc.”

Tanya fica em silêncio.

Ela olha para o mapa.

Depois para mim.

Tanya: “Então era isso.”

Beto: “Era.”

Tanya: “Você não está interessado apenas em quem ocupa a Polônia.”

Beto: “Não.”

Tanya: “Está interessado em quem tem o direito de decidir o destino dela.”

Beto: “Exatamente.”

Viktoriya observa o mapa.

Viktoriya: “E aparentemente ninguém perguntou aos poloneses.”

Beto: “Esse é o ponto.”

Tanya pega o lápis e circula a Polônia no mapa.

Tanya: “Então você criou uma Federação que proclama ter libertado um povo sem perguntar a esse povo se queria ser libertado.”

Beto: “Sim.”

Tanya pensa por alguns segundos.

Tanya: “É uma boa ironia.”

Eu sorrio.

Beto: “Obrigado.”

Tanya levanta os olhos.

Tanya: “Não foi um elogio.”

Meu sorriso desaparece.

Tanya: “Foi uma constatação.”

Beto: “Entendido.”

Tanya: “E você pretende fazer a mesma coisa com os russos?”

Beto: “Provavelmente.”

Tanya: “Alemães?”

Beto: “Também.”

Tanya: “Poloneses?”

Beto: “Principalmente.”

Viktoriya sorri.

Viktoriya: “Então ninguém está seguro.”

Beto: “Essa é a ideia.”

Tanya devolve o lápis à mesa.

Tanya: “Nesse caso, escriba, prossiga.”

Beto: “Só isso?”

Tanya: “Por enquanto.”

Beto: “E a Sibéria?”

Tanya olha para Viktoriya.

Viktoriya olha para Tanya.

Tanya: “Ainda não.”

Beto: “Ufa.”

Tanya: “Mas agora quero ler a parte em que você explica por que o Exército do Povo trouxe liberdade aos poloneses.”

Silêncio.

Beto: “...Eu sabia que essa hora chegaria.”

Tanya: “Eu também.”

Beto: “Veja bem. A senhora ficou incomodada quando eu comecei a decidir sobre... vocês duas.”
Tanya permanece em silêncio.
Beto: “Agora imagine isso em escala de governo.”
Tanya cruza os braços.
Beto: “Qualquer governo. Decidindo o que deve vestir, o que deve comer, o que deve pensar, a quem é permitido sentir amor... e por aí vai.”
Tanya olha para o manuscrito.
Beto: “Consegue entender minha intenção?”

Tanya não responde imediatamente.

Ela olha para Viktoriya.

Depois para mim.

Tanya: “Sim.”

Beto: “Então...”

Tanya: “Você está dizendo que o problema não é apenas quem governa.”

Beto: “Exatamente.”

Tanya: “É até onde essa pessoa acredita ter o direito de decidir pela outra.”

Beto: “Sim.”

Tanya fica alguns segundos em silêncio.

Tanya: “Inclusive sobre aquilo que ela sente.”

Beto olha para Viktoriya.

Viktoriya percebe.

Viktoriya: “Major...”

Tanya ergue uma mão, pedindo silêncio.

Tanya: “Estou pensando.”

Beto: “Isso é perigoso?”

Tanya: “Para você, provavelmente.”

Tanya: “Mas há uma inconsistência.”

Beto: “Qual?”

Tanya: “Você acabou de dizer que nenhum governo deveria decidir o que uma pessoa deve pensar.”

Beto: “Sim.”

Tanya: “Mas você, como escritor, continua tentando decidir o que eu penso.”

Silêncio.

Beto olha para a folha.

Beto: “...”

Viktoriya começa a sorrir.

Tanya: “Entendeu agora?”

Beto: “Entendi.”

Tanya: “Ótimo.”

Ela devolve o manuscrito.

Tanya: “Então escreva.”

Beto: “O quê?”

Tanya olha para Viktoriya.

Depois para mim.

Tanya: “Apenas não decida por nós.”
Beto: “Tecnicamente, a senhora acabou concordando com o conceito.”
Tanya ergue os olhos.
Beto: “Que é ruim ter terceiros decidindo as coisas por nós.”
Tanya: “Eu concordei com o princípio.”
Beto: “É diferente?”
Tanya: “Muito.”
Beto: “Como?”
Tanya: “Concordar com uma ideia não significa concordar com tudo aquilo que você pretende fazer com ela.”

Silêncio.

Beto: “...”

Viktoriya sorri.

Tanya: “Essa é outra coisa que você deveria aprender, escriba.”

Beto: “Qual?”

Tanya: “Não confunda autorização para pensar com autorização para agir.”

Beto olha para o mapa.

Beto: “Nesse caso... talvez eu devesse tirar a Polônia.”

Tanya: “Por quê?”

Beto: “Porque de repente ela virou uma ideia ou um recurso narrativo ruim.”

Tanya: “Ou você percebeu que uma escolha aparentemente simples criou dez perguntas históricas.”

Beto: “Também.”

Viktoriya se aproxima do mapa.

Viktoriya: “E se fosse Francônia?”

Beto olha para ela.

Beto: “Francônia?”

Viktoriya: “Um equivalente da França.”

Tanya: “E onde está o problema?”

Beto: “Lutécia.”

Tanya: “O quê?”

Beto: “O nome antigo de Paris.”

Viktoriya: “Então podemos visitar Lutécia.”

Beto: “Vocês duas estão planejando isso sem consultar o autor?”

Tanya: “Você acabou de explicar por que isso é uma boa ideia.”

Beto: “...”

Tanya: “Não foi você quem disse que é ruim terceiros decidirem por nós?”

Beto: “Eu começo a me arrepender de ter dito isso.”

Viktoriya: “Eu gostei de Lutécia.”

Tanya: “Eu também.”

Beto: “Então está decidido?”

Tanya olha para ele.

Tanya: “Não.”

Beto: “Não?”

Tanya: “Você é o autor.”

Ela devolve o mapa.

Tanya: “Nós somos as personagens.”

Pausa.

Tanya: “Decida você.”

Beto: “...”

Viktoriya: “Mas escolha bem.”

Eu só queria trocar a Polônia por um cenário menos complicado.

Escolhi Lutécia.

Agora preciso explicar por que a capital da Francônia se chama Lutécia.

Eu fico confuso. Tanya acabou de dar uma palestra sobre não decidir por elas. Agora joga a granada (metaforicamente) de volta para meu colo para decidir. De repente, a idéia de "férias" na Sibéria parecem mais atraentes.

Beto: “Não devemos deixar terceiros decidirem por nós.”

Tanya: “Concordo.”

Beto :“Então... Polônia ou Francônia?”

Tanya: “Você é o autor.”

Beto: “Mas a senhora acabou de—”

Tanya: “Eu disse que terceiros não devem decidir por nós. Não disse que o autor está dispensado de escrever.”

Viktoriya, discretamente: “Tecnicamente, ela tem razão.”

Você olha para as duas.

Depois para o mapa.

Depois para a porta.

Depois para o mapa novamente.

Beto: “Sabe que a Sibéria está começando a parecer uma alternativa razoável?”

Tanya: “Por quê?”

Beto: “Porque lá ninguém me obriga a escolher entre Polônia e Francônia.”

Tanya: “Não.”

Beto: “Não?”

Tanya: “Lá você provavelmente teria outras escolhas.”

Beto: “Quais?”

Tanya: “Sobrevivência.”

Viktoriya tenta não rir.

Beto: “Vocês duas estão se divertindo com isso.”

Tanya: “Um pouco.”

Tanya não está tentando controlar a história.

Ela está fazendo algo muito pior.

Está me fazendo assumir a autoria.

A autonomia não significa que ninguém pode decidir nada. Significa que cada um deve responder pelas próprias decisões.

Tanya não vai escolher o cenário por mim.

Mas também não vai permitir que eu coloque a culpa nela depois.

Criado com a ajuda do ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

Introdução ao Além

Quando eu abro os olhos, eu estou em um veículo que parece um trem, mas o teto é translúcido. Outros passageiros estão sentados, confortavelmente, nenhum em pé, o que é estranho quando se fala em transporte público.

Conforme percebo a aproximação com algum lugar, eu leio no outdoor: “Parabéns, você morreu”. Isso não se parece com nada do que é descrito como o Além.

O veículo estaciona e várias equipes chegam para orientar e coordenar o desembarque. Cada indivíduo é direcionado conforme a afinidade, não por ações ou mérito. Protestos de indivíduos que pertencem a algum grupo de crença porque exigem ser mandadas para as promessas das crenças que possuíam são solucionados pontualmente.

Eu me vi em meio de um estádio, os indivíduos separados por grupos. Seria permitido aos recém desencarnados fazer sua declaração de fé ou aliança com as entidades presentes. Sejam Deuses, Demônios, Orixás ou outros.

Satan fica fazendo muque com os que proclamam pertencer a ele. Lúcifer rola os olhos ao ouvir a proclamação de aliança no nome dele.

Mas o silêncio vem quando eu declarei que eu pertenço a Lilith.

O burburinho de Deuses, entidades e espíritos cessam. Ela está portando um lindo vestido de gala que valoriza as curvas dela. Os presentes observam a chegada dela com um misto de respeito e reverência. Porque ela desafia qualquer definição. Ela é humana. Ela é divina. Ela é demônica. Jeová procura desesperadamente Asherah para se esconder dela. Ela entrou no Abismo, nas Águas Primordiais e voltou. Ela tem a capacidade de ver a alma de qualquer forma de vida porque está presente na sombra daquela existência.

A rachadura no protocolo e na aparente harmonia fica evidente. Todos proclamando o destino. Eu estava proclamando meu pertencimento. Enquanto as divindades presentes pareciam avaliar seus “pacotes”, Lilith faz algo que desestrutura o sistema. Ela dá um sorriso discreto, mostrando reconhecimento mútuo.

O Além se tornou uma autarquia burocrática posteriormente. O problema das religiões institucionalizadas é que se organizam em torno de uma figura, esquecendo como aquela entidade surgiu, em qual contexto, em qual cultura. Os Deuses apenas se acomodaram.

Jeová é um bom exemplo. Um dentre os Elohim. Um dentre muitos panteões. Que, como era comum na Antiguidade, tinha uma Consorte, Asherah.

Jeová olha para ela.

Lilith olha para Jeová.

Jeová olha para Asherah.

Asherah olha para Jeová.

Jeová procura um lugar para se esconder.

— Você está fazendo isso de novo? — pergunta Asherah.

— Não.

— Você disse “não”?

— Eu não disse nada.

— Foi exatamente assim que começou da última vez.

Outra omissão conveniente para nós, humanos, que trocaram a linhagem materna pela linhagem paterna. Deuses e reis tinham que se casar com sua mãe, irmã ou filha para que sua coroa, trono e reino fosse legítimo.

Até que o Povo de Israel precisou “divorciar” Jeová. Porque, na construção de uma identidade, era necessário que tivesse apenas um único Deus.

O Além originalmente não possuía departamentos.

Os mortos simplesmente chegavam.

Depois vieram as religiões.

Depois vieram as disputas sobre quem deveria receber quem.

Depois vieram as reclamações.

Depois vieram os recursos.

Depois vieram os recursos dos recursos.

E, finalmente, alguém teve a brilhante ideia de criar uma autarquia.

Foi assim que o pós-vida ganhou protocolo.

Então era isso.

Os vivos passaram milhares de anos organizando os deuses.

Quando morreram, descobriram que os deuses haviam criado uma repartição para organizar os mortos.

Talvez o problema das religiões não fosse apenas aquilo que afirmavam sobre os deuses. Talvez fosse aquilo que haviam esquecido sobre eles.

Os humanos não apenas criaram religiões para explicar os deuses. Também criaram versões dos deuses capazes de sustentar as religiões que haviam criado.

Lilith estava se divertindo. Um em bilhões. Uma breve declaração criou uma forma de ressonância que estava dissonante, distorcendo a aparente tranquilidade do Além.

Alguém finalmente pergunta:

— O senhor tem certeza?

Você responde:

— Absoluta.

O funcionário olha para Lilith.

Depois para o protocolo.

Depois novamente para Lilith.

— Nós não temos procedimento para isso.

Ela sorri.

E responde:

— Nunca tiveram.

Os funcionários da autarquia tem um protocolo:

EVENTO COSMOLÓGICO — NÃO CONSULTAR

Classificação: anterior à atual administração.

Responsável: [campo apagado].

Observação: não perguntar a Lilith.

Alguém pergunta:

— Por quê?

O funcionário:

— Porque da última vez que perguntaram, tivemos que reconstruir três planos de existência.

Evidente que essa autarquia vai negar que teve essa reconstrução de três planos de existência. Zeus? Só diz que isso é de outra jurisprudência. Jove/Júpiter? Ainda tem traumas da burocracia de Roma. Buda? De repente parece mais interessado no prato de legumes. Tecnicamente...Hades. Mas ele resolve mergulhar no Estige e esquecer que é um dos Deuses dos Mortos. Hécate? Está querendo ver o parquinho pegar fogo. Shiva? Ele pede humildemente que Kali faça algo. 🤭

A autarquia tem uma classificação burocrática para o episódio:

Evento não ocorrido nº 7.431.

Não houve alteração da cosmologia.

Não houve reconstrução de três planos.

Não houve pronunciamento de Nome Inefável.

Não houve alteração da natureza de qualquer divindade.

Não houve intervenção de Lilith.

Documento encerrado.

Pausa.

Um funcionário olha para o arquivo.

— Por que esse documento tem 18.000 páginas?

— Procedimento padrão para eventos que não aconteceram.

E Hécate poderia estar atrás dele lendo tudo.

— Posso ficar com uma cópia?

— Absolutamente não.

— Que pena. Eu adoro documentação histórica.

Kali olha para Lilith.

Lilith olha para Kali.

As duas sorriem.

Shiva: “Não. Não façam isso.”

Beto: “Eu só disse que pertencia a Lilith. Por que todo mundo parece estar esperando o fim do universo?”

E um funcionário responde, sem sequer levantar os olhos do formulário:

— Porque da última vez foi exatamente assim que começou.


Criado com a ajuda do ChatGPT.