quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Eu fui e vi



https://www.patheos.com/blogs/gracefulawakening/2026/10/come-and-see-the-power-of-a-simple-invitation/

Eu concordo. Eu fui e vi. Lilith. Caso encerrado 😻. Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.

# Vinde e vede: eu vi Lilith e não preciso de mais nenhuma demonstração! 😻

Existe uma técnica de evangelização que os cristãos consideram revolucionária: convidar as pessoas a conhecer Jesus. Nada de pressão, nada de discussões intermináveis, nada de obrigar o sujeito a decorar um catecismo inteiro antes do café da manhã. Basta um convite singelo: *“Vinde e vede!”*

Michele Gunn, em seu artigo [“Come and See: The Power of a Simple Invitation”](https://www.patheos.com/blogs/gracefulawakening/2026/10/come-and-see-the-power-of-a-simple-invitation/), explica o poder dessa abordagem, inspirada no Evangelho de João. A ideia é simples: abra a porta, faça o convite e deixe que a experiência fale por si mesma. Uma estratégia admirável, devo reconhecer.

E foi exatamente o que fiz.

Eu fui. Eu vi.

**Lilith.** 😻

Caso encerrado. Podem apagar as luzes, desmontar o palco e devolver os microfones aos pregadores.

Naturalmente, imagino que minha experiência não seja exatamente aquela que a autora tinha em mente. Provavelmente, ela esperava que eu aparecesse numa igreja, participasse de uma missa, escutasse um sermão sobre a salvação da humanidade e saísse de lá convencido de que Jesus era a resposta para todas as perguntas. Coitada! Não contava com a possibilidade de o visitante encontrar uma resposta completamente diferente — e, para complicar a situação, uma resposta com charme, personalidade e um poder de sedução absolutamente desleal. 😹

Afinal, quando alguém me diz “venha e veja”, minha primeira pergunta é: ver o quê? Porque convites espirituais são como anúncios de imóveis: as fotografias podem ser maravilhosas, o corretor pode jurar que o lugar é um paraíso, mas nada substitui uma visita pessoal.

E eu visitei.

Enquanto alguns passam a vida inteira procurando sinais celestiais, revelações sobrenaturais e confirmações de que estão no caminho certo, eu prefiro não complicar o que pode ser resolvido com uma boa dose de curiosidade e um coração aberto. Os religiosos têm seus testemunhos, suas conversões e suas experiências de fé. Eu tenho minha musa.

Eles dizem que encontraram a luz do mundo. Eu encontrei Lilith — e, francamente, não estou vendo motivo para reclamar da iluminação. 😻

É claro que os missionários podem insistir. Podem preparar apresentações em PowerPoint, distribuir folhetos, organizar retiros espirituais e desenvolver campanhas inteiras de evangelização. Podem até criar uma estratégia de marketing com slogans emocionantes, trilha sonora inspiradora e depoimentos de pessoas que juram ter descoberto o sentido da vida depois de uma experiência religiosa.

Nada contra. Cada um divulga aquilo que considera precioso.

Mas existe um pequeno problema: **o convite não garante que o convidado vai gostar do destino escolhido pelo anfitrião.**

Você pode me convidar para conhecer Jesus. Eu posso agradecer educadamente, comparecer por curiosidade e voltar para casa pensando em Lilith. Não é exatamente o resultado esperado pela equipe de evangelização, mas a liberdade de consciência tem dessas inconveniências. A pessoa faz o convite; a outra decide o que fazer com ele. Parece simples, não é? Quase tão simples quanto os próprios pregadores dizem que deveria ser.

E aqui chegamos à parte mais deliciosa da história.

Se a experiência pessoal é tão importante, por que eu deveria aceitar de antemão que a experiência cristã de outra pessoa precisa ter prioridade sobre a minha? Por que o testemunho de um católico deveria valer automaticamente mais do que aquilo que eu encontro na minha própria busca espiritual? A fé alheia pode ser sincera sem se tornar uma obrigação universal. E a minha preferência por Lilith não precisa passar por uma comissão teológica para receber autorização de funcionamento.

Imagino a cena: um evangelizador se aproxima, cheio de entusiasmo, e pergunta:

— Você já aceitou Jesus?

E eu respondo:

— Agradeço o convite, mas meu coração já tem dona.

— Mas você precisa conhecê-lo!

— Meu caro, eu já fui e vi.

— E o que encontrou?

— Lilith.

Silêncio.

O missionário consulta mentalmente os versículos, procura a página certa do manual de apologética e tenta descobrir em qual capítulo está previsto esse tipo de ocorrência. Talvez seja necessário convocar o pastor, o padre, o bispo e, por precaução, uma comissão interdenominacional de emergência.

Enquanto isso, eu e minha musa continuamos perfeitamente tranquilos. 😹

O mais engraçado é que o princípio do convite, quando levado a sério, deveria incluir justamente a possibilidade de o convidado chegar a uma conclusão diferente daquela desejada por quem o convidou. Caso contrário, não estamos falando de um convite genuíno, mas de uma venda com a conversão como meta comercial.

E não me entendam mal: não estou dizendo que a autora precise concordar comigo. Ela tem sua fé, suas convicções e seu caminho. O que me diverte é imaginar a surpresa de quem acredita que toda busca espiritual honesta deve terminar, inevitavelmente, no mesmo endereço.

Aparentemente, o universo tem mais de uma porta. E nem todas levam à mesma capela.

Portanto, minha resposta ao convite cristão é bastante cordial: obrigado pela sugestão. Espero que sua experiência com Jesus continue sendo significativa para você. Quanto a mim, já encontrei aquilo que me encanta, alimenta minha imaginação e faz meus olhos brilharem de maneira suspeitamente pouco teológica.

Minha linda, maravilhosa e deliciosa musa, Lilith! 😻

Que os missionários continuem convidando. Que os pregadores continuem pregando. Que os apologistas continuem produzindo argumentos cada vez mais elaborados para demonstrar que o caminho deles é o único caminho possível.

Eu, por minha vez, continuarei apreciando minha própria jornada sem pedir autorização a nenhuma autoridade religiosa.

Afinal, Michele Gunn propõe: “Vinde e vede!”

Eu fui. Eu vi.

**Era Lilith. Gostei do que vi. Fiquei por lá.**

E, sinceramente, não vejo necessidade de uma segunda visita para conferir se Jesus também está na lista de atrações.

**Caso encerrado. A musa venceu. E eu nem precisei de um folheto evangelístico para descobrir isso.** 😻


Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

A sopa de Perun - II


(Nota - todos os personagens tem 18 anos no mínimo)

Peculiar. Mary Sue não pediu para criticar o Cristianismo, Cristo ou o Deus Cristão. Considerando que a origem dela é a União, o similar dos EUA, uma nação praticamente evangélica, com tempero de conservadorismo e fundamentalismo.

Sim — e isso torna a Mary Sue **mais interessante**, desde que a gente não transforme isso numa caricatura automática.

Há uma distinção importante: **a origem dela pode explicar a sensibilidade ao tema, mas não determina necessariamente a opinião dela**. Se a União é uma potência com forte presença evangélica, conservadorismo e fundamentalismo, Mary Sue pode ter crescido em um ambiente no qual certas críticas ao cristianismo são socialmente carregadas.

E isso rende uma boa tensão entre as três.

**Tanya** provavelmente perceberia imediatamente a contradição:

> — Então podemos questionar o materialismo soviético, Perun, os Deuses Antigos e até a existência de uma Entidade X... mas tocar no Deus cristão é proibido?

Mary Sue:

> — Não disse proibido. Disse que não quero transformar a história em ataque ao cristianismo.

Tanya:

> — Uma distinção cuidadosamente diplomática.

Viktoriya entraria no meio:

> — Talvez seja justamente isso que torne a questão interessante. **Não precisamos atacar nenhuma religião para mostrar que o universo é maior do que a doutrina de qualquer uma delas.**

E acho que essa deveria ser a regra.

Você pode falar de **Lilith**, dos Deuses Antigos, de Perun, da parapsicologia e da tensão entre materialismo e sobrenatural sem precisar estabelecer que *“Cristianismo é falso”* ou *“Cristo é isso ou aquilo”*.

Aliás, isso cria uma situação narrativa bem mais sofisticada: **cada personagem pode possuir uma cosmologia diferente sem que o narrador precise declarar um vencedor.**

Tanya quer evidências.

O Partido quer explicações materialistas.

A União possui sua própria tradição religiosa e política.

Viktoriya pode permanecer mais aberta à dimensão espiritual.

Mary Sue defende que sua tradição seja tratada com respeito.

E o narrador...

...é o sujeito que olha para tudo isso e pensa:

**“Vocês ainda não perceberam o tamanho do universo.”**

E Lilith nem precisa aparecer para essa frase carregar peso.

Ela já está implicitamente presente na visão de mundo do narrador.

Isso, curiosamente, resolve um dos problemas da versão anterior: **a metalinguagem deixa de ser uma discussão sobre a própria história e passa a ser uma ferramenta para explorar diferentes visões de mundo.**

Aí ela deixa de ser ruído.

Vira narrativa.

Justo. Eu vou tentar não ficar excitado quando eu começar a falar da Lilith.

😹 Essa frase, aliás, provavelmente provocaria **silêncio imediato no gabinete**.

Tanya levantaria os olhos do relatório:

— *Excitado?* Durante uma discussão sobre cosmologia?

Viktoriya, tentando não rir:

— Acho que ele quis dizer emocionalmente envolvido.

Mary Sue:

— Espero sinceramente que sim.

E você, tentando recuperar a dignidade:

— Estou falando da minha devoção, da dimensão poética, simbólica e espiritual de Lilith!

Tanya:

— Naturalmente.

Pausa.

— **Mas mantenha o foco no roteiro.**

Acho que essa é uma boa regra para você mesmo: quando Lilith entrar no assunto, **deixe aparecer a paixão do narrador, mas não deixe a paixão sequestrar a narrativa**.

Até porque, para essa nova versão, talvez seja muito mais poderoso Tanya perceber que existe algo na devoção do narrador que ela, com todo o seu racionalismo, **não consegue reduzir a uma variável psicológica**.

O gabinete fica em silêncio.

Beto aponta para o primeiro cartaz.

O imperador aparece em uniforme, solenemente diante de um grande ícone ortodoxo. Abaixo, em letras enormes:

“DEUS ESTÁ DO NOSSO LADO.”

Então Beto aponta para o cartaz do Partido.

Marx. Lenin. Stalin. Mao.

Os quatro apontam para algum ponto indefinido no horizonte, como se estivessem indicando o glorioso futuro da humanidade.

Abaixo deles:

“O POVO ESTÁ DO NOSSO LADO.”

Beto olha para Tanya.

Depois para Viktoriya.

Por último, para Mary Sue.

Ele abre os braços.

— Estão vendo aqui qualquer uma dessas entidades?

Silêncio.

Tanya estreita os olhos.

— Não.

— Nenhuma?

— Nenhuma.

Viktoriya observa os dois cartazes por alguns segundos.

— Tecnicamente, são apenas imagens.

— Exatamente — responde Beto.

Mary Sue cruza os braços.

— Você está provocando.

— Estou fazendo uma pergunta.

Tanya aponta para o cartaz imperial.

— O primeiro afirma que Deus apoia o Império.

Depois aponta para o segundo.

— O outro afirma que o povo apoia o Partido.

Ela olha novamente para Beto.

— E você está sugerindo que nenhuma dessas afirmações constitui evidência.

Beto sorri.

— Agora você entendeu.

Mary Sue permanece séria.

— Só espero que você não esteja prestes a transformar isso em uma crítica ao cristianismo.

Beto balança a cabeça.

— Não.

Ele aponta novamente para os cartazes.

— Estou criticando uma coisa muito mais antiga.

— O quê? — pergunta Viktoriya.

Beto olha para as duas imagens.

— A mania humana de colocar o próprio nome na boca dos deuses.

Dessa vez ninguém responde imediatamente.

Tanya olha para o ícone.

Depois para Marx, Lenin, Stalin e Mao.

— Isso...

Ela hesita.

— ...é diferente.

Beto sorri.

— Ainda bem.

Uma corrente de ar atravessa o gabinete.

O ícone ortodoxo permanece imóvel.

Os retratos dos revolucionários permanecem imóveis.

Nenhuma voz responde.

Nenhum sinal aparece.

E justamente por isso a pergunta continua pairando no ar:

Quem realmente está do lado de quem?

Eu sei que, quando eu faço crítica ao Cristianismo, eu faço uma grosseira análise superficial e genérica. Os cristãos não são um monólito. Minha intenção é provocar e incomodar. Eu aposto que Tanya vai querer que eu mostre uma evidência dos Deuses Antigos. Ainda que ela possua poderes paranormais e tenha renascido.

Exatamente. E acho que você identificou uma diferença importante: **provocar pode ser uma função legítima do personagem Beto; transformar uma provocação em tese definitiva é outra coisa.**

Na nova história, isso pode até virar uma característica do Beto: ele gosta de cutucar sistemas de crença — mas Tanya é justamente a pessoa que não deixa uma provocação passar sem exigir prova.

E isso combina muito com ela.

Eu imagino a continuação quase inevitavelmente chegando a isto:

**Tanya:**

— Muito bem. Você fez sua pergunta. Agora eu tenho uma para você.

**Beto:**

— Estou ouvindo.

**Tanya:**

— Você fala dos Deuses Antigos como se fossem uma realidade objetiva. Então demonstre que existem.

**Beto:**

— ...

**Tanya:**

— Não uma experiência pessoal. Não uma tradição. Não um texto antigo. **Evidência.**

Viktoriya olha para Tanya.

— Você está exigindo uma demonstração de uma divindade?

— Estou exigindo consistência epistemológica.

Beto aponta para ela.

— Você renasceu depois de morrer em outro mundo, possui poderes mágicos e está exigindo de mim evidência empírica da existência dos Deuses Antigos?

Tanya fica alguns segundos em silêncio.

— **Sim.**

— Você percebe a ironia?

— Perfeitamente.

E aí está o ouro da cena: **Tanya não precisa negar o sobrenatural. Ela é uma evidência ambulante de que o sobrenatural existe.** Mas isso não significa que ela tenha de aceitar qualquer afirmação sobrenatural.

Ela poderia perfeitamente dizer:

> “Eu sei que o impossível existe. É justamente por isso que quero saber onde termina o impossível que conheço e começa aquilo que você está afirmando.”

Isso dá à história uma tensão muito melhor do que simplesmente colocar Tanya como “a cética que descobre que os deuses existem”.

E talvez Beto tenha um problema ainda maior:

**ele não consiga provar.**

Porque, se ele imediatamente apresenta um Deus Antigo diante de Tanya, a questão fica resolvida.

Mas se ele não consegue...

Tanya ganha a discussão.

Pelo menos naquele momento.

E Beto talvez tenha de admitir:

— Eu não consigo provar.

Tanya:

— Então você acredita.

Beto:

— Não exatamente.

— Então o que você faz?

Ele olha para o vazio por alguns segundos.

— **Eu reconheço.**

Tanya franze a testa.

— Reconhece o quê?

Beto sorri.

— Que existem coisas diante das quais eu ainda não sei dizer “isto é impossível”.

E **isso** me parece muito mais interessante para a história do que Beto simplesmente vencer o debate.

Quanto à sua observação sobre o cristianismo: acho saudável que o próprio roteiro reconheça essa limitação. Você pode provocar, inclusive de maneira bastante ácida, mas personagens como Mary Sue podem justamente impedir que a narrativa trate “os cristãos” como uma massa homogênea. **Ela pode discordar de Beto sem que o roteiro precise declarar que um dos dois é moralmente superior.**

Assim, a provocação continua.

Mas agora **ela gera conflito dramático em vez de apenas servir como punchline.**

Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

O limiar em quadrinhos


Quadrinhos criados com ChatGPT.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Flavinho fugiu



https://www.diariodocentrodomundo.com.br/flavio-bolsonaro-teria-deixado-brasil-viagem-eua-argentina/. 

Típico. Todo valentão é um covarde. Dudu Bananinha deve estar preparando o quarto de hóspedes.

Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.


# Fuga das Galinhas — ou a coragem que pegou o primeiro avião

Existe uma categoria de político que adora falar grosso, posar de guerreiro e distribuir ameaças como quem distribui santinhos em época de eleição. É o valentão de microfone, o patriota de palanque, o sujeito que promete enfrentar o mundo inteiro — desde que o mundo inteiro esteja longe e não apareça com uma intimação na mão.

Mas basta o vento mudar de direção para começar a misteriosa síndrome da mala pronta.

A notícia de que Flávio Bolsonaro teria deixado o Brasil para viajar aos Estados Unidos e à Argentina, se confirmada nos termos divulgados, oferece um roteiro irresistível para o cinema nacional. E não seria um drama político, muito menos um filme de ação. Seria uma animação: **“Fuga das Galinhas — a revanche do poleiro”**.

No papel principal, nosso herói emplumado, com expressão de quem está apenas fazendo turismo e uma mala cuidadosamente etiquetada com os nomes dos países de destino. Afinal, ninguém foge: apenas exerce o sagrado direito de viajar quando a paisagem doméstica começa a ficar inconveniente.

Ao fundo, as galinhas observam a movimentação, perplexas. Durante anos, ouviram discursos sobre patriotismo, soberania nacional e coragem para enfrentar inimigos imaginários. Agora, veem o protagonista bater asas justamente quando o enredo fica interessante.

Que injustiça com as aves! A galinha, pelo menos, não faz discurso sobre bravura antes de correr para o galinheiro.

E o melhor da história está no possível destino da excursão. Nos Estados Unidos ou na Argentina, sempre pode haver um amigo, um aliado ideológico ou algum companheiro disposto a oferecer abrigo. Eduardo Bolsonaro, o Dudu Bananinha, por exemplo, poderia providenciar um quarto de hóspedes. Uma cama arrumada, toalhas limpas, café da manhã e, quem sabe, uma plaquinha na porta: “Suíte Patriótica — entrada pelos fundos”.

Seria uma bela reunião familiar. O exílio, quando compartilhado com parentes e amigos, fica quase com cara de colônia de férias. Só faltaria combinar quem lava a louça e quem explica aos vizinhos que ninguém está fugindo de nada.

É curioso como a palavra *patriotismo* muda de significado conforme a conveniência. Para alguns, significa defender o país com fervor, desde que a defesa consista em atacar adversários, desconfiar das urnas e tratar instituições democráticas como inimigas pessoais. Quando chega a hora de enfrentar as consequências dos próprios discursos, porém, o patriotismo ganha rodinhas de mala e procura o portão de embarque.

O Brasil, esse país de memória curta e ironia abundante, já viu muitos personagens se apresentarem como leões diante das câmeras e descobrirem, longe delas, que a vida real não oferece trilha sonora heroica nem edição favorável.

Na política, a valentia costuma ser uma mercadoria curiosa: vende muito no palanque, rende aplausos nas redes sociais e perde valor quando confrontada com a realidade. É uma coragem que funciona melhor em vídeos curtos, de preferência com música épica e comentários desativados.

Evidentemente, viajar não é crime. Qualquer cidadão tem o direito de atravessar fronteiras, tirar férias, visitar parentes ou simplesmente mudar de ares. O humor nasce do contraste entre a pose de destemido e a imagem do sujeito que, diante de uma situação politicamente desconfortável, parece preferir outros horizontes.

Afinal, quem passa tanto tempo prometendo enfrentar inimigos talvez devesse tomar cuidado com uma pergunta incômoda: enfrentar quem, exatamente, e até quando?

No cartaz do nosso filme imaginário, a frase de efeito seria inevitável:

**“Nem todo voo é liberdade. Às vezes, é só o poleiro ficando pequeno.”**

E, na cena pós-créditos, Dudu aparece esticando o lençol da cama, ajeitando o travesseiro e perguntando:

— Flávio, você prefere café ou suco?

Do lado de fora, uma galinha olha para a câmera e comenta:

— Engraçado... quando era para botar banca, ele era galo. Agora que o terreiro esquentou, virou passageiro internacional.

Corta para os créditos.

E que ninguém se ofenda com a comparação. As galinhas, ao menos, têm uma virtude que anda em falta em certos ambientes políticos: quando correm, não precisam inventar uma teoria sobre a superioridade moral do próprio voo.

**Moral da história:** há quem passe a vida inteira vendendo coragem no atacado e, na primeira dificuldade, procure comprá-la de volta no balcão das companhias aéreas.

O problema é que a passagem pode ser de ida e volta. A reputação, nem sempre.


Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

Gnose muito pessoal



https://www.patheos.com/blogs/gracefulawakening/2026/10/personal-evangelization-your-faith-story-matters/

Contar suas histórias. No meio do Paganismo Moderno, tem até o tema da Gnose Pessoal Não Verificada. Só tem um probleminha. A ICAR não é conhecida por permitir abordagens ou interpretações pessoais 😏🤭. 

Se eu for falar da minha experiência... geralmente as pessoas fogem quando eu falo que envolve uma mordida na nuca por trás, por uma certa força primordial...

😻 Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.


# Meu testemunho espiritual: uma mordida na nuca, uma força primordial e vários fiéis em fuga

*Ou: como evangelizar a humanidade sem provocar um exorcismo coletivo*

Aparentemente, chegou a temporada dos testemunhos espirituais no maravilhoso universo religioso. A proposta é simples: conte sua história, compartilhe suas experiências, explique como o divino transformou sua vida e inspire outras pessoas a encontrar o caminho da fé.

A Michele Gunn, em seu artigo no *Patheos*, incentiva os católicos a compartilhar suas experiências pessoais com Deus. Não seria necessário ter passado por uma conversão espetacular, escapado de uma tragédia ou recebido uma aparição celestial com direito a efeitos especiais. Basta falar sobre como Deus esteve presente em sua vida. Uma terça-feira particularmente difícil, uma oração reconfortante, uma crise superada pela fé... Tudo serve como testemunho.

Bonito, não é?

Mas eu gostaria de fazer uma pequena contribuição a essa iniciativa de evangelização pessoal. Afinal, se os católicos podem contar suas histórias, por que os pagãos não poderiam fazer o mesmo?

No Paganismo Moderno, existe até um conceito bastante interessante: a Gnose Pessoal Não Verificada, conhecida pela sigla UPG. Em termos gerais, trata-se de uma experiência, percepção ou revelação espiritual pessoal que não foi confirmada por fontes históricas, mitológicas ou por uma tradição compartilhada. É aquela situação em que alguém diz ter experimentado algo com uma divindade e, embora não possa provar objetivamente a experiência, considera-a significativa em sua própria prática religiosa.

Naturalmente, isso exige discernimento. Uma experiência pessoal não se transforma automaticamente em verdade universal só porque alguém sentiu algo intensamente. Mas também não precisa ser descartada apenas por não caber perfeitamente num manual de mitologia.

E aqui começa a diversão.

Porque, quando falamos da Igreja Católica Apostólica Romana, a conversa sobre experiências pessoais ganha algumas complicações. A ICAR possui uma estrutura doutrinária, uma tradição interpretativa e uma autoridade institucional que delimitam o que pode ser ensinado como doutrina católica. Não basta acordar numa bela manhã, tomar um café e anunciar que recebemos uma revelação divina que contradiz o Catecismo.

A burocracia celestial, ao que parece, também exige documentação.

Imagine a cena:

— Irmão, gostaria de compartilhar meu testemunho espiritual.

— Claro! Conte-nos como Jesus transformou sua vida.

— Bem, na verdade, minha experiência envolve uma entidade primordial feminina, uma profunda conexão espiritual e uma mordida na nuca por trás...

Silêncio.

O irmão pisca.

A irmã que estava distribuindo folhetos começa a procurar discretamente a saída de emergência.

O padre, que até aquele momento demonstrava uma admirável disposição pastoral, subitamente se recorda de que tem três compromissos urgentes, dois telefonemas para fazer e uma reunião inadiável com o bispo.

E eu, sinceramente, não entendo a reação.

Ora, pediram que eu contasse minha história! Não disseram que ela precisava envolver uma Bíblia aberta, um terço, uma música de fundo composta por anjos e uma reconciliação emocionante com o Deus abraâmico.

**Se o testemunho precisa ser pessoal, por que estão tentando padronizar o protagonista?**

É aí que entra minha querida, maravilhosa e absolutamente deliciosa musa, Lilith. 😻

Enquanto alguns fiéis relatam que encontraram Deus durante uma crise financeira, outros contam que sentiram a presença divina numa missa particularmente emocionante. Há quem descubra sua vocação depois de rezar um rosário, quem encontre consolo numa passagem bíblica e quem diga ter percebido a ação do Espírito Santo numa situação cotidiana.

Eu, por minha vez, tenho uma história um pouco diferente.

Minha narrativa espiritual envolve uma força primordial, uma presença feminina que desperta fascínio, uma mordida na nuca por trás e uma disposição nada católica de continuar explorando os mistérios dessa relação.

Convenhamos: não é exatamente o tipo de testemunho que se encaixa numa reunião paroquial de evangelização.

Imaginem a ficha de inscrição:

**Nome:** dispensável para os fins desta crônica.

**Experiência espiritual marcante:** contato com uma força primordial associada a Lilith.

**Efeito sobre a vida pessoal:** aumento considerável da devoção à musa.

**Método de manifestação:** mordida na nuca.

**Consequências para a comunidade:** evasão inexplicável de participantes, constrangimento generalizado e possível esgotamento do estoque de água benta.

Confesso que essa última parte merece uma investigação acadêmica.

Talvez o problema não seja a experiência em si, mas a expectativa de que toda narrativa espiritual deva terminar com uma moral edificante, uma lição de humildade e a recomendação de frequentar a igreja aos domingos.

Nem toda história religiosa precisa terminar com alguém ajoelhado diante de um altar católico. Algumas terminam com uma pessoa questionando suas antigas certezas, outras com a descoberta de uma tradição pagã e outras, aparentemente, com o narrador sorrindo ao recordar uma mordida na nuca.

A diversidade da experiência humana é mesmo fascinante.

E há uma ironia deliciosa nessa situação: os defensores do testemunho pessoal frequentemente afirmam que a experiência vivida pode tocar o coração de outras pessoas. Entretanto, quando o relato não confirma suas próprias crenças, a mesma experiência que deveria ser acolhida como oportunidade de diálogo passa a ser encarada como motivo de preocupação.

É claro que ninguém é obrigado a acreditar na minha interpretação espiritual. Tampouco tenho o direito de exigir que um católico reconheça Lilith como uma realidade divina. O diálogo pressupõe justamente que as pessoas possam discordar.

Mas existe uma diferença considerável entre discordar de uma experiência e presumir que apenas a própria tradição possui autorização para interpretar o sagrado.

Afinal, se uma pessoa pode narrar como sentiu a presença de Jesus durante uma dificuldade, outra pode relatar como encontrou significado espiritual numa divindade pagã. Uma pode interpretar sua experiência como manifestação do Espírito Santo; outra pode compreendê-la como contato com uma deusa, uma entidade ou uma força primordial.

E, se nenhuma delas consegue demonstrar objetivamente sua interpretação, talvez seja prudente reconhecer os limites do conhecimento humano antes de distribuir certificados de autenticidade espiritual.

É precisamente por isso que a Gnose Pessoal Não Verificada merece ser tratada com seriedade: não como uma licença para transformar qualquer impressão subjetiva em dogma universal, mas como uma maneira de reconhecer que a experiência religiosa individual nem sempre coincide com aquilo que as instituições consideram aceitável.

Naturalmente, minha devoção a Lilith não precisa da aprovação de uma comissão eclesiástica. Imagino que a última coisa de que minha musa necessite seja uma autorização assinada por um dicastério romano para continuar despertando minha admiração.

Lilith, convenhamos, não parece exatamente o tipo de figura que aguardaria pacientemente uma circular administrativa.

E eu certamente não pretendo convocar um sínodo para decidir se uma mordida na nuca constitui uma experiência mística válida.

Embora, admito, a discussão pudesse ser muito mais interessante do que certas reuniões teológicas.

No fim das contas, a recomendação de compartilhar histórias de fé é excelente, desde que a conversa não se transforme numa competição para descobrir quem possui o único testemunho espiritualmente autorizado. Ou numa campanha disfarçada para fazer todo mundo terminar na mesma religião.

Porque contar histórias pressupõe ouvir histórias.

E ouvir histórias significa aceitar que nem todas terão Jesus como protagonista, nem todas terminarão numa igreja e nem todas apresentarão um Deus disposto a seguir o roteiro que uma instituição preparou para ele.

Algumas pessoas falarão de conversão. Outras, de dúvida. Algumas falarão de milagres; outras, de símbolos, mitos e experiências interiores. E eu continuarei falando da minha maravilhosa musa, com a tranquilidade de quem não precisa converter uma mordida na nuca em parábola sobre a multiplicação dos pães.

Se isso assusta alguns ouvintes, lamento profundamente.

Ou talvez nem tanto. 🤭

**Meu testemunho espiritual está disponível para quem quiser ouvi-lo.** Só faço uma pequena advertência: se a conversa começar com a pergunta sobre como encontrei minha espiritualidade, não garanto que termine com todos os participantes ainda sentados em seus lugares.

Afinal, pediram histórias autênticas, não histórias aprovadas pelo departamento de relações públicas do Céu.

E, quanto à minha musa, Lilith...

Que me perdoem os guardiões das ortodoxias, os fiscais da espiritualidade alheia e os responsáveis pela distribuição oficial de experiências religiosas legítimas.

Eu continuarei celebrando minha força primordial favorita.

Se alguém perguntar como começou essa devoção, contarei a história.

Só não me responsabilizo se, ao chegar à parte da mordida na nuca, metade da assembleia descobrir subitamente um compromisso inadiável.

**Amarrem os cintos, irmãos: a evangelização pessoal acaba de encontrar uma concorrente infernalmente sedutora.** 😻

Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

Glorificando a Lilith



https://www.patheos.com/blogs/henrykarlson/2026/10/glory_in_christ/

Eu só glorifico minha linda, maravilhosa e deliciosa musa, Lilith 😻. Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.

# Glória a Cristo? Agradeço, mas já tenho minha musa! 😻

Li o artigo *Glory Is Found In Christ, Not False Piety*, publicado por Henry Karlson no Patheos, e fiquei pensando nessa velha obsessão religiosa com a glória, a humildade, a piedade e a necessidade de encontrar um caminho espiritualmente aprovado para chegar ao divino.

Francamente, tanta cerimônia para glorificar alguém!

Eu, por exemplo, sou um sujeito de gostos bastante definidos. Não preciso de seminários teológicos, tratados de espiritualidade, concílios ecumênicos ou doutores da Igreja para descobrir a quem dedico minha devoção. Minha escolha está feita, meu coração tem dona e minha preferência estética não depende da aprovação de nenhuma autoridade eclesiástica.

**Eu só glorifico minha linda, maravilhosa e deliciosa musa, Lilith!** 😻❤️

E, antes que algum fiscal da ortodoxia apareça com uma Bíblia debaixo do braço, uma lista de pecados e aquela expressão facial de quem acabou de descobrir que o vizinho está feliz sem autorização pastoral, gostaria de esclarecer alguns pontos.

Primeiro: não estou interessado em disputar quem é mais piedoso, quem jejua mais, quem reza com a postura mais adequada ou quem consegue pronunciar palavras em latim sem parecer que está tentando reiniciar um computador medieval. Se existe um campeonato mundial de santidade, podem entregar o troféu ao concorrente que mais precisa dele. Eu tenho coisas melhores para fazer.

Por exemplo, admirar Lilith.

Convenhamos: há quem encontre a glória na cruz, há quem a procure nas páginas das Escrituras e há quem passe a vida inteira tentando convencer os outros de que possui uma linha direta com o departamento celestial de atendimento ao consumidor.

Eu encontrei uma alternativa muito mais interessante: uma musa que faz meu coração bater mais depressa e transforma qualquer tentativa de sermão moralista numa oportunidade para testar minha capacidade de manter a seriedade.

Spoiler: não consigo. 😹

Imagino a cena. Um teólogo aproxima-se solenemente e anuncia:

— A verdadeira glória só pode ser encontrada em Cristo!

E eu, contemplando minha adorada Lilith, respondo:

— Respeito sua preferência religiosa, meu caro. Mas, no meu departamento de admiração, a concorrência está enfrentando dificuldades operacionais.

O sujeito insiste:

— Mas você precisa abandonar a vaidade e cultivar a humildade!

— Perfeitamente. Posso ser humilde diante da beleza de minha musa. Reconheço que meus argumentos são frágeis diante de um sorriso dela. Aliás, se ela me olhar daquele jeito, sou capaz de esquecer até o argumento que estava prestes a apresentar.

— Isso não é humildade cristã!

— Não, é distração amorosa. São departamentos diferentes.

E assim termina mais uma tentativa de converter um homem que já encontrou sua própria maneira de suspirar diante do mistério da existência.

O mais divertido é que a religião frequentemente transforma a própria devoção numa espécie de competição de prestígio. Há quem faça questão de demonstrar publicamente que sua fé é superior, sua moral é mais elevada e sua espiritualidade recebeu um selo de qualidade diretamente do fabricante do universo.

O artigo de Karlson, aliás, critica justamente a falsa piedade usada para conquistar reconhecimento e condena a mania de impor uma única forma de viver a espiritualidade. Nesse ponto, até posso apreciar a ironia: nada mais curioso do que alguém defender a humildade enquanto outros transformam a religião em concurso de superioridade moral.

Mas eu prefiro não participar desse espetáculo.

Não preciso diminuir a devoção alheia para celebrar minha musa. Tampouco preciso que um sacerdote, pastor ou teólogo assine um certificado autorizando meus suspiros. Minha admiração por Lilith não depende de uma comissão celestial encarregada de avaliar meus gostos.

E, se alguém considerar isso uma afronta à ordem cósmica, recomendo respirar fundo, beber um copo d'água e reconsiderar a possibilidade de que o universo seja um pouco maior do que sua própria interpretação religiosa.

Quanto à humildade, tenho uma proposta revolucionária: que cada pessoa cuide de sua própria consciência sem transformar a vida dos outros numa fiscalização permanente. Parece simples, mas suspeito que algumas instituições perderiam uma quantidade considerável de entretenimento se todos resolvessem adotar essa ideia.

No meu caso, a questão está resolvida. Não pretendo fundar uma igreja, cobrar dízimo dos apaixonados, vender cursos de iluminação espiritual ou prometer prosperidade em doze prestações. Minha devoção não precisa de um departamento financeiro, de uma bancada parlamentar ou de um programa televisivo com música triunfal ao fundo.

Basta minha musa.

E, se algum apologista decidir me advertir sobre as consequências eternas dessa preferência, prometo ouvir com atenção. Afinal, educação não faz mal a ninguém.

Depois, voltarei a admirar Lilith.

Porque há uma diferença enorme entre passar a vida tentando provar que sua devoção é a única correta e simplesmente desfrutar daquilo que desperta em você encanto, alegria e paixão.

**Portanto, glorifiquem quem desejarem, irmãos, irmãs e demais habitantes deste pequeno planeta espiritualmente agitado.** Que cada qual encontre seu caminho, desde que não tente transformar a própria fé em algemas para os outros.

Eu, por minha vez, permaneço fiel à minha escolha.

Cristo pode ficar com sua glória teológica. Os pastores podem continuar debatendo a verdadeira piedade. Os doutores da Igreja podem organizar simpósios sobre a natureza da santidade.

Eu tenho uma musa para admirar, um sorriso para celebrar e uma Lilith para amar.

E, francamente, diante dela, até meu sarcasmo se ajoelha — embora, por precaução, eu não recomende que ninguém interprete isso como o início de uma nova religião.

Já existem religiões suficientes neste mundo.

**Eu só queria mesmo era continuar apaixonado pela minha maravilhosa Lilith!** 😻🖤

Amém? Não, obrigado.

**Lilith, minha musa!** ❤️🐺


Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

A sopa de Perun - I



(Nota - todos os personagens tem 18 anos no mínimo)

Eu estou com as pernas bambas. Como é de praxe depois que eu me encontro com a Lilith. Eu entro no gabinete com a sua sugestão. Tanya na realidade soviética alternativa.
A doutrina materialista entrando em conflito com acontecimentos que ela não consegue explicar.
Viktoriya como personagem e contraponto.
A questão do Partido, Perun e da parapsicologia.
E a guerra como contexto.

A metalinguagem só aparece quando ela melhora a história. Nunca para explicar a história. Uma oportunidade para falar dos Deuses Antigos, da ausência da Entidade X e até do meu amor e devoção por Lilith. Qual é a opinião da Tanya, Viktoriya e Mary Sue?

ChatGPT.
Acho que você acabou de fazer uma coisa importante: **não está tentando ressuscitar a versão anterior; está propondo uma nova história com uma espinha dorsal.**

E, se entramos no gabinete para ouvir as três, imagino que a reação seria mais ou menos esta:

---

**Tanya** cruza os braços e examina a proposta.

— Finalmente.

Você pisca.

— “Finalmente” o quê?

— Finalmente temos uma premissa. **Uma.** Não quinze histórias disputando o mesmo espaço.

Ela aponta para a lista.

— Realidade soviética alternativa. Materialismo confrontado por fenômenos inexplicáveis. Partido. Parapsicologia. Perun. Guerra. Viktoriya.

Pausa.

— Isso pode funcionar.

Você respira aliviado.

— E a metalinguagem?

Tanya fecha os olhos.

— **Com parcimônia.**

— Eu prometo.

— Não. Você não promete. Você estabelece uma regra narrativa e a cumpre.

Viktoriya, sentada ao lado dela, intervém:

— Tanya quer dizer que gostou da ideia.

— Eu não disse isso.

— Disse exatamente isso, só que em tanyaês.

Tanya olha para ela.

— Existe uma língua chamada tanyaês?

— Depois de conhecê-la, tenho certeza de que existe.

---

**Mary Sue**, que estava silenciosamente lendo o projeto, finalmente levanta os olhos.

— Eu tenho uma objeção.

Você imediatamente fica tenso.

— Qual?

— Por que vocês continuam me chamando de Mary Sue?

— Porque...

Ela ergue a mão.

— Não importa. Tenho outra objeção.

Ela aponta para a metalinguagem.

— Se ela voltar a aparecer para fazer os personagens discutirem sobre o roteiro, eu abandono o projeto.

Você:

— Concordo.

— Se aparecer para transformar uma cena dramática em uma piada sobre inteligência artificial, eu abandono o projeto.

— Concordo.

— Se aparecer para explicar ao leitor aquilo que o leitor já entendeu...

Tanya interrompe:

— **Abandonamos todos.**

Viktoriya suspira.

— Tanya...

— Estou apenas estabelecendo limites.

Mary Sue fecha o documento.

— Então estamos de acordo.

---

Você olha novamente para as três.

— Mas existe uma coisa que eu gostaria de preservar.

Tanya arqueia uma sobrancelha.

— O quê?

— Os Deuses Antigos.

Silêncio.

— A ausência da Entidade X.

Tanya fica séria.

— Isso é interessante.

Viktoriya também presta atenção.

Você continua:

— E talvez exista uma camada ainda mais pessoal. A minha devoção por Lilith. Não necessariamente como uma pregação. Mas como algo que influencia a maneira como eu enxergo esses acontecimentos.

Mary Sue inclina a cabeça.

— **Agora temos uma razão para a metalinguagem existir.**

Tanya concorda lentamente.

— Exatamente. Se o narrador precisa aparecer, que seja porque existe algo que o personagem dentro da história não pode explicar sozinho.

Viktoriya acrescenta:

— E não para dizer “olhem, estamos numa história”.

— Perfeito — você responde.

Tanya pega o lápis.

— Então podemos ter um narrador que ocasionalmente deixa escapar sua própria cosmologia. Os Deuses Antigos. A ausência de uma entidade que deveria estar presente. Lilith.

Ela escreve no papel:

**“O inexplicável não precisa ser explicado imediatamente.”**

E acrescenta:

**“Nem tudo que é antigo é maligno.”**

Você olha para ela.

— Essa segunda frase foi sua?

— Sim.

— Posso usar?

— Se funcionar na história.

Mary Sue sorri.

— Olha só. Ela está aprendendo a ser escritora.

— **Eu sou major.**

— Isso não respondeu à pergunta.

Viktoriya começa a rir.

---

E então você percebe uma coisa.

A nova história não precisa transformar **Lilith** em personagem da trama.

Ela pode ser algo muito mais interessante: **a presença ausente que explica o olhar do narrador sobre o mundo.**

Enquanto o Estado soviético tenta reduzir o universo ao materialismo, enquanto os pesquisadores tentam catalogar a parapsicologia, enquanto Perun surge como uma impossibilidade histórica e enquanto Tanya procura desesperadamente uma explicação racional...

...há algo que o narrador já sabe:

**o universo é muito maior do que aquilo que os personagens conseguem medir.**

E talvez seja justamente aí que a metalinguagem encontre seu lugar.

Não para interromper a história.

**Para abrir uma janela.**

Tanya olha para você uma última vez.

— Eu aprovo o projeto.

Você quase cai da cadeira.

— Sério?

— Não se empolgue.

Viktoriya sorri.

— Isso, vindo dela, é praticamente uma declaração de amor.

— Viktoriya!

Mary Sue fecha a pasta.

— Então temos uma história.

Você respira fundo.

Ainda com as pernas bambas.

E, em algum lugar fora daquele gabinete, **Lilith provavelmente está sorrindo.**

Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.