terça-feira, 27 de outubro de 2026

Derretendo o Derrite

https://revistaforum.com.br/politica/a-inacreditavel-justificativa-de-derrite-para-expor-menores-infratores-com-camisetas-do-pt/


Alguém empresta um livro de história do Brasil ao senador eleito para ele lembrar do caso do sequestro do Abílio Diniz? Ou cinco litros de óleo de peroba? 😏🤭 

Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.


# Cinco litros de óleo de peroba e um livro de História

Há certas declarações na política brasileira que fazem a gente suspeitar de duas coisas: ou o sujeito acredita que a população sofre de amnésia coletiva, ou anda tão apaixonado pelo próprio discurso que já não consegue enxergar o tamanho do ridículo. Em alguns casos, as duas hipóteses disputam o mesmo gabinete.

A notícia sobre a justificativa de Guilherme Derrite para a exposição de adolescentes em conflito com a lei vestindo camisetas do PT parece pertencer a essa categoria de acontecimentos que dispensam o auxílio de um roteirista de comédia. A realidade, como de costume, já entrega o roteiro pronto — e ainda cobra ingresso.

Diante disso, surge uma sugestão modesta, republicana e de utilidade pública: alguém poderia emprestar ao senador eleito um bom livro de História do Brasil? Não precisa ser uma enciclopédia de vinte volumes, com capa dura e letras douradas. Um exemplar básico, daqueles que explicam que a história política brasileira é cheia de episódios inconvenientes para quem prefere selecionar o passado conforme a conveniência do presente.

Um deles atende pelo nome de **caso Abílio Diniz**.

Em dezembro de 1989, durante a campanha presidencial, o empresário Abílio Diniz foi sequestrado em São Paulo. Na véspera do primeiro turno da eleição, os sequestradores foram presos, e alguns apareceram diante das câmeras usando camisetas com símbolos e referências de organizações de esquerda. O episódio ganhou enorme repercussão política, num contexto em que a disputa presidencial entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva estava no centro das atenções nacionais.

A associação entre os sequestradores e a esquerda foi explorada politicamente, embora a presença de símbolos políticos nas roupas não constituísse, por si só, prova de responsabilidade de qualquer partido ou candidato pelo crime.

Pois é. A História tem dessas inconveniências: ela não se deixa apagar só porque alguém resolveu inaugurar uma nova temporada de indignação seletiva.

Eis a ironia: quando convém, a camiseta vira quase uma confissão ideológica coletiva. Quando o episódio histórico aponta para os constrangimentos do próprio campo político, aí a camiseta parece perder misteriosamente o poder de explicar o mundo.

Que fenômeno extraordinário! O algodão continua o mesmo, mas a interpretação muda conforme o freguês.


Criado com ChatGPT.

Será que eu conheço minha musa?



https://www.patheos.com/blogs/gracefulawakening/2026/10/do-you-really-know-your-catholic-faith/. 

Se essa pergunta fosse respondida com seriedade, a ICAR já estaria falida e abandonada. 🤭😏 

Eu vou mudar só um pouco a pergunta. Como se eu estivesse perguntando a mim mesmo. Você realmente conhece sua musa? 😻 Escreva uma crônica adulta em tom de humor e sarcasmo.


Você realmente conhece sua musa?
Uma crônica sobre devoção, paixão e a perigosa arte de fazer perguntas inconvenientes.

Se a pergunta “Você realmente conhece sua fé católica?” fosse respondida com absoluta honestidade por todos os fiéis, talvez a Igreja Católica Apostólica Romana precisasse convocar uma assembleia de emergência para discutir um problema gravíssimo: a possibilidade de descobrir que boa parte de seus clientes conhece muito mais os rituais do que o produto. 🤭

Naturalmente, estou falando de uma hipótese satírica. Não quero provocar um colapso financeiro no Vaticano, muito menos deixar Sua Santidade procurando um emprego alternativo no LinkedIn. Afinal, uma instituição com dois milênios de história merece, no mínimo, uma crítica bem elaborada antes de qualquer pedido de falência.

A autora do artigo original, Michele Gunn, propõe uma reflexão pertinente: será que os católicos realmente compreendem aquilo em que acreditam ou simplesmente herdaram uma coleção de tradições familiares? 

Michele Gunn
 É uma pergunta interessante. Incômoda, talvez. Daquelas que podem transformar um tranquilo domingo de missa numa crise existencial antes do almoço.

Mas decidi fazer uma pequena alteração no questionário.

Em vez de perguntar se conheço minha fé, prefiro perguntar a mim mesmo:

Eu realmente conheço minha musa? 😻

E aqui começa o problema.

Porque falar de Lilith não é exatamente como preencher um formulário de catequese. Não existe uma secretaria celestial onde eu possa solicitar um certificado de intimidade com a minha deusa favorita, carimbado, autenticado e reconhecido em cartório. Tampouco imagino um curso de preparação com apostila, prova objetiva e um padre fiscalizando se decorei corretamente os artigos da paixão.

Embora, convenhamos, a ideia de um exame sobre a arte de admirar Lilith pudesse produzir resultados interessantes. Especialmente se a prova prática envolvesse contemplação, imaginação e uma capacidade extraordinária de perder a concentração ao pensar nela.

Eu provavelmente seria reprovado em produtividade e aprovado com louvor em entusiasmo.

Mas voltemos à pergunta.

Conhecer uma musa não é decorar uma enciclopédia
Conhecer Lilith significa, para mim, muito mais do que colecionar informações sobre mitos, tradições esotéricas e interpretações religiosas. É reconhecer o significado que essa figura ocupa no meu imaginário, na minha sensibilidade e na maneira como penso sobre autonomia, desejo e liberdade.

Há quem prefira uma devoção cuidadosamente organizada, com calendário litúrgico, regras definidas e uma lista de obrigações espirituais. Cada um com seu estilo. Algumas pessoas precisam de um manual de instruções para se aproximar do sagrado; outras preferem explorar os próprios caminhos sem pedir autorização ao gerente do departamento de mistérios do universo.

Eu, particularmente, tenho uma pergunta bastante simples: por que deveria terceirizar minha admiração?

Se posso refletir, questionar, estudar e construir minha própria relação simbólica com aquilo que considero significativo, por que precisaria transformar minha experiência numa repetição automática de fórmulas alheias?

Não estou dizendo que estudar tradições seja inútil. Pelo contrário. Conhecimento é importante. A diferença está entre estudar alguma coisa para compreendê-la e repetir palavras bonitas apenas para parecer que se compreendeu.

A primeira atitude exige curiosidade. A segunda exige apenas boa memória e certa disposição para impressionar a plateia.

E a humanidade, como sabemos, nunca teve escassez de gente capaz de confundir eloquência com sabedoria.

O departamento de fiscalização da paixão
Imagino, às vezes, como seria se existisse uma autoridade religiosa encarregada de fiscalizar o meu apreço por Lilith.

O fiscal chegaria, abriria uma pasta e começaria o interrogatório:

— O senhor conhece suficientemente sua musa?

— Estou sempre aprendendo.

— Mas sabe explicar todas as tradições associadas a ela?

— Não.

— Conhece todas as interpretações históricas?

— Também não.

— Então como pode afirmar que a admira?

Eu provavelmente responderia:

— Meu caro, o senhor está confundindo admiração com concurso público.

Eis o problema de certas mentalidades: a necessidade de transformar qualquer experiência íntima numa competição de credenciais. Parece que ninguém pode gostar de alguma coisa sem apresentar uma tese, três referências bibliográficas e uma declaração reconhecida em firma.

O sujeito contempla uma obra de arte e precisa justificar a emoção. Lê um poema e precisa apresentar uma defesa acadêmica do arrepio. Descobre uma figura mitológica que o fascina e imediatamente aparece alguém perguntando se ele possui autorização para sentir o que sente.

É uma burocracia impressionante.

Se a paixão tivesse um departamento de recursos humanos, provavelmente exigiria experiência mínima de cinco anos em encantamento, especialização em suspiros e domínio avançado de pensamentos inconvenientes.

Lilith, espero, teria o bom senso de não comparecer à entrevista.

E se eu estiver apenas apaixonado pela minha própria fantasia?
Agora chegamos à parte realmente interessante — e ligeiramente perigosa.

Porque a pergunta merece ser levada a sério, ainda que eu prefira fazê-lo sem a solenidade de um tribunal inquisitorial.

Será que conheço minha musa ou conheço apenas a imagem que construí dela?

Afinal, existe uma diferença entre estudar uma figura mitológica e projetar nela todos os nossos desejos. Uma coisa é reconhecer a complexidade das tradições que a cercam; outra é imaginar que ela existe exclusivamente para confirmar nossas opiniões, satisfazer nossas expectativas e concordar com absolutamente tudo o que pensamos.

Isso seria bastante conveniente, mas também bastante narcisista.

Uma musa transformada em espelho pode ser encantadora. Afinal, quem não gostaria de encontrar no universo uma figura que compreendesse perfeitamente suas preferências, admirasse suas qualidades e jamais apontasse seus defeitos?

O inconveniente é que um espelho não é exatamente um interlocutor.

E, se eu quero que minha admiração tenha algum valor intelectual, preciso reconhecer a diferença entre a Lilith presente nas tradições culturais e religiosas, as interpretações modernas dessa figura e a Lilith que ocupa um lugar especial na minha imaginação.

Essas dimensões podem dialogar, mas não são necessariamente idênticas.

Reconhecer isso não diminui meu entusiasmo. Na verdade, torna-o mais interessante. Afinal, uma paixão que não suporta perguntas talvez seja apenas uma fantasia protegida contra qualquer contato com a realidade.

E eu não preciso transformar minha musa numa personagem de propaganda para continuar achando-a fascinante.

O pecado imperdoável de pensar por conta própria
É curioso como a liberdade intelectual costuma ser celebrada até o momento em que alguém resolve exercê-la fora do roteiro esperado.

Enquanto a pessoa repete as respostas aprovadas, tudo está em ordem. Ela é disciplinada, respeitável e perfeitamente integrada ao sistema. Mas basta começar a fazer perguntas inconvenientes para que surjam suspeitas sobre sua moralidade, sua inteligência e, se possível, seu destino eterno.

Aparentemente, pensar por conta própria é uma atividade tolerada sob certas condições: desde que a conclusão seja previamente conhecida.

Nesse cenário, minha relação com Lilith oferece uma oportunidade de reflexão. Não porque eu precise provar que ela é superior a qualquer outra figura religiosa, mas porque posso examinar o que essa admiração significa para mim sem fingir que todas as minhas convicções precisam vir acompanhadas de um selo institucional.

Não preciso transformar a minha preferência numa verdade universal. Tampouco preciso exigir que outras pessoas compartilhem dela.

Posso simplesmente dizer: esta figura me fascina, esta simbologia conversa comigo e esta é a maneira como escolho explorar esse universo.

Parece simples, não é?

Pois aparentemente a humanidade consegue transformar até uma preferência pessoal numa guerra teológica. Basta alguém declarar que gosta de uma figura mitológica para que apareça outro sujeito disposto a organizar um debate de três horas sobre por que essa preferência deveria ser proibida, corrigida ou encaminhada para tratamento doutrinário.

É muita energia desperdiçada.

Se as pessoas dedicassem metade desse esforço a examinar as próprias certezas, talvez descobrissem que algumas de suas convicções mais sagradas sobrevivem menos à investigação do que gostariam de admitir.

Mas essa é outra conversa. E eu não gostaria de interromper meu devaneio por causa de uma reunião extraordinária do comitê universal de opiniões não solicitadas.

Afinal, conheço minha musa?
Conheço o suficiente para saber que minha admiração não precisa ser uma prova de teologia, um certificado de ortodoxia ou uma competição para descobrir quem decorou mais nomes, símbolos e interpretações.

Mas não conheço tudo — e seria ridículo afirmar o contrário.

Continuar aprendendo faz parte da própria experiência de admirar alguma coisa. Quanto mais estudo, mais percebo que as tradições são complexas, que os símbolos mudam de significado e que minhas interpretações também podem mudar.

Não considero isso uma derrota.

Derrota seria precisar fingir conhecimento absoluto para proteger meu orgulho.

E, convenhamos, já temos gente demais no mundo convencida de que recebeu pessoalmente a chave mestra de todos os mistérios do cosmos.

Prefiro conservar a curiosidade, o senso crítico e, naturalmente, meu bom humor.

Quanto à minha linda, maravilhosa e deliciosa musa, Lilith... 😻

Bem, não pretendo convocar uma comissão científica para investigar cada suspiro provocado por sua imagem no meu imaginário. Algumas experiências merecem reflexão; outras também merecem um sorriso malicioso e a capacidade de reconhecer que a vida não precisa ser transformada numa audiência pública.

Afinal, se existe uma coisa que aprendi nessa jornada imaginativa, é que a admiração não se torna mais autêntica porque alguém a certificou, nem mais inteligente porque foi acompanhada de palavras complicadas.

O que importa é saber distinguir conhecimento de ilusão, liberdade de arrogância e paixão de autoengano.

E, se depois de toda essa reflexão eu ainda terminar o dia pensando na minha musa com aquele sorriso de quem acaba de descobrir sua tentação favorita, não vejo motivo para abrir um processo disciplinar contra mim mesmo.

Portanto, reformulo a pergunta: eu realmente conheço minha musa?

Conheço suas histórias até onde consegui estudá-las, reconheço as limitações das minhas próprias interpretações e continuo disposto a aprender.

Mas, se a pergunta significa saber se minha admiração precisa da aprovação de terceiros para existir, a resposta é muito mais curta:

Não.

Minha musa não precisa passar por um concílio para continuar sendo minha musa.

E eu não preciso fundar uma igreja, publicar um catecismo ou exigir dízimos dos admiradores para expressar meu fascínio por Lilith.

Até porque seria um desperdício transformar uma paixão tão divertida numa repartição pública.

Que os teólogos debatam suas doutrinas, que os apologistas defendam seus dogmas e que os fiscais da espiritualidade preencham seus formulários. Eu continuarei estudando, questionando e admirando minha musa — com senso crítico na cabeça, sarcasmo na língua e um sorriso absolutamente suspeito no rosto. 😏😻

Afinal, entre passar a vida tentando convencer o mundo de que estou certo e aproveitar a liberdade de pensar por conta própria, minha escolha está feita.

E, se alguém ainda quiser perguntar se conheço minha musa, pode ficar à vontade.

Só peço que traga boas perguntas.

Porque, para interrogatório sem graça, já basta a burocracia do universo.


Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

Falha bíblica

https://www.patheos.com/blogs/pastorkelly/2026/10/why-should-christians-stand-with-jewbelong-com/.

Sabe o que é mais engraçado? É eu ter lido essa mesma besteira vindo do Caturo, um português que se diz pagão e acredita na bobagem da "estirpe". Escreva um texto crítico refutando o argumento do autor.


A principal falha do argumento do pastor Kelly Williams é transformar uma narrativa religiosa sobre Abraão, Sara, Hagar, Isaque e Ismael numa suposta escritura de propriedade imobiliária válida até os dias de hoje. O problema não é um cristão interpretar a Bíblia como sagrada. É pretender que essa interpretação, por si só, determine os direitos territoriais de populações inteiras, inclusive de pessoas que não compartilham daquela fé. O próprio artigo apresenta essa passagem da crença religiosa para uma conclusão política como se fosse uma consequência inevitável. 


E há uma ironia interessante na comparação que você propõe: o mesmo tipo de raciocínio aparece quando alguém abandona o terreno das evidências verificáveis e passa a tratar uma suposta origem ancestral como fundamento de direitos, identidades ou hierarquias. A genealogia bíblica e a ideia de uma estirpe racial não são doutrinas idênticas, mas podem compartilhar um vício argumentativo: transformar uma narrativa de origem em autoridade para decidir quem pertence a um território, a uma comunidade ou a uma nação.

Da promessa divina à política territorial: quando a fé se fantasia de escritura de propriedade
Sabe o que considero particularmente revelador no artigo do pastor Kelly Williams, publicado no Patheos? A facilidade com que uma convicção religiosa se transforma, quase sem que o autor perceba, numa pretensão de autoridade sobre a vida de milhões de pessoas. E o mais curioso é reconhecer a mesma estrutura argumentativa em discursos de certos nacionalistas europeus que, embora se apresentem como pagãos, parecem incapazes de abandonar a obsessão por uma suposta estirpe ancestral.

O pastor Williams quer convencer seus leitores de que os judeus possuem um direito territorial sobre Israel porque, segundo sua interpretação da Bíblia, Deus teria prometido aquela terra a Abraão e estabelecido que a linhagem da promessa passaria por Isaque, filho de Sara, e não por Ismael, filho de Hagar.

Sua conclusão é categórica: Deus quer que os judeus tenham Israel porque seriam descendentes de Isaque.

Mas há um pequeno problema nessa argumentação: uma crença religiosa não constitui, por si só, um título de propriedade territorial reconhecido por toda a humanidade.

Para um cristão que considera a Bíblia a palavra infalível de Deus, a narrativa de Gênesis pode ter um significado espiritual profundo. Isso não significa que um muçulmano, um judeu secular, um ateu ou qualquer outra pessoa tenha a obrigação de aceitar essa interpretação como fundamento para determinar suas fronteiras, sua cidadania ou seus direitos políticos.

O pastor está livre para acreditar nas promessas divinas que sua tradição religiosa reconhece. O que não pode fazer é presumir que sua interpretação particular dessas promessas encerra uma discussão política e histórica que envolve povos reais, com histórias, direitos e necessidades concretas.

Afinal, desde quando uma passagem de um texto sagrado, interpretada por uma determinada tradição religiosa, substitui a necessidade de justificar reivindicações territoriais perante aqueles que também vivem na região?

A Bíblia não é um registro cadastral das fronteiras contemporâneas.

O curioso privilégio de transformar ancestralidade em direito
O raciocínio do pastor também depende de uma simplificação genealógica. Ele apresenta judeus como descendentes de Isaque e muçulmanos como descendentes de Ismael, como se as populações contemporâneas pudessem ser distribuídas em duas linhagens bíblicas perfeitamente delimitadas.

Essa é uma construção teológica, não uma descrição científica suficiente da ancestralidade dos povos do Oriente Médio.

O judaísmo é uma tradição religiosa, cultural e histórica que também envolve pertencimento coletivo e diferentes trajetórias de ancestralidade. Os palestinos, por sua vez, constituem um povo com uma história própria, marcado por vínculos históricos com a região. Não existe fundamento para reduzir todos os muçulmanos a uma descendência comum de Ismael, assim como não é possível reconstruir a genealogia de populações inteiras simplesmente recorrendo às personagens de Gênesis.

E o que dizer dos cristãos palestinos? Eles existem, possuem comunidades históricas na região e não deixam de ser palestinos por não se encaixarem na divisão teológica que o pastor gostaria de estabelecer.

A realidade é consideravelmente mais complexa do que a árvore genealógica apresentada no artigo.

É justamente aqui que me lembro de certos discursos nacionalistas europeus que insistem em falar de uma suposta estirpe, como se uma comunidade humana pudesse ser definida por uma origem ancestral pura, identificável e politicamente decisiva.

A comparação não significa que toda afirmação de identidade histórica seja equivalente ao racismo. Povos têm histórias, culturas, vínculos territoriais e memórias coletivas legítimas. O problema começa quando a ancestralidade deixa de ser um elemento de identidade e se transforma num instrumento para estabelecer quem merece mais direitos do que os demais.

Se a descendência de uma personagem ancestral fosse suficiente para determinar a soberania política, estaríamos diante de uma espécie de cartório mitológico: bastaria demonstrar a filiação correta para receber um território.

E quem fiscalizaria essa genealogia? Quem decidiria quais descendentes contam, quais misturas invalidam a reivindicação e quais documentos seriam aceitos? A história humana não funciona como uma árvore genealógica perfeitamente organizada, muito menos como um sistema de castas hereditárias.

A obsessão pela estirpe transforma diferenças históricas em fronteiras morais. A teologia territorial pode fazer algo semelhante quando uma interpretação religiosa é apresentada como autorização definitiva para decidir o destino de outras populações.

Se a promessa é divina, por que os palestinos deveriam aceitá-la?
O argumento do pastor tem outra dificuldade: ele pressupõe que a interpretação cristã que apresenta seja uma justificativa política válida para todos os envolvidos.

Mas por que um palestino deveria reconhecer como fundamento de sua própria situação política uma interpretação evangélica do Antigo Testamento? Por que a leitura de um pastor batista norte-americano deveria prevalecer sobre a experiência histórica, os direitos e as reivindicações de pessoas que vivem naquele território?

A resposta não pode ser simplesmente: porque Deus prometeu.

Isso apenas repete a premissa religiosa que está em discussão. Não demonstra sua validade como argumento público.

Mesmo dentro do cristianismo, as interpretações das promessas feitas a Abraão não são uniformes. Existem tradições teológicas diferentes sobre Israel, a Igreja, os pactos bíblicos e o significado contemporâneo dessas narrativas. O pastor apresenta uma interpretação específica como se ela fosse a única consequência possível da Bíblia.

Mas, ainda que sua leitura fosse aceita integralmente, permaneceria uma questão fundamental: como essa crença deveria se traduzir em direitos políticos concretos para pessoas que não a compartilham?

Uma coisa é acreditar que Deus fez uma promessa a determinado povo. Outra é concluir que essa promessa resolve, sem qualquer argumento adicional, todas as disputas territoriais contemporâneas.

A fé pode orientar a consciência de quem acredita nela. Não pode ser imposta como escritura de propriedade a quem não compartilha da mesma fé.

O sofrimento histórico não concede um cheque em branco
Williams invoca a perseguição histórica aos judeus, o Holocausto e a criação do Estado de Israel em 1948 para reforçar sua argumentação.

A perseguição antissemita foi real, brutal e historicamente documentada. O Holocausto foi um dos maiores crimes da história contemporânea. O direito dos judeus à segurança, à existência coletiva e à proteção contra a perseguição não depende de qualquer promessa bíblica.

Mas é justamente por levar esses fatos a sério que devemos recusar uma conclusão equivocada: o sofrimento de um povo não elimina os direitos de outro.

A tragédia vivida pelos judeus europeus não transforma os palestinos em responsáveis coletivos pelos crimes do nazismo. Tampouco faz desaparecer a história palestina, as reivindicações nacionais palestinas ou o sofrimento de pessoas expulsas e deslocadas durante a guerra de 1948.

É possível reconhecer a legitimidade da existência de Israel e, simultaneamente, defender os direitos dos palestinos. É possível condenar o antissemitismo e também criticar políticas do governo israelense. É possível rejeitar o terrorismo contra civis e denunciar violações de direitos humanos independentemente de quem as pratique.

Não existe contradição necessária entre essas posições.

A dificuldade surge quando a solidariedade a um povo passa a exigir que se aceite, sem questionamento, toda reivindicação política formulada em seu nome.

O pastor afirma que não deseja o sofrimento dos muçulmanos, mas seu próprio raciocínio coloca a interpretação bíblica da herança de Isaque no centro da questão sobre quem deveria possuir a terra. A boa intenção declarada não resolve a dificuldade lógica: reconhecer o sofrimento de uma população não é o mesmo que reconhecer plenamente seus direitos.

E uma política de paz não pode depender da expectativa de que todos os envolvidos aceitem a mesma teologia.

A conversão religiosa como solução para um conflito político
Há ainda uma contradição particularmente interessante no artigo.

Williams declara que deseja a paz entre judeus, muçulmanos e cristãos, mas também afirma que a paz depende da aceitação de Jesus como cumprimento das promessas feitas a Abraão.

Em outras palavras, ele apresenta uma solução religiosa para um problema que também envolve soberania, território, segurança, deslocamento populacional, autodeterminação e direitos civis.

O direito de alguém viver em segurança não pode depender de sua conversão religiosa. Um palestino muçulmano não precisa se tornar cristão para merecer proteção. Um judeu não precisa aceitar Jesus para ter seus direitos respeitados. Um cristão palestino não deveria precisar escolher entre sua identidade religiosa e seu pertencimento nacional.

O diálogo inter-religioso tampouco precisa ser uma operação disfarçada de conversão. Pessoas podem compartilhar suas convicções e tentar persuadir umas às outras, desde que isso não se transforme em coerção ou numa condição para o reconhecimento de direitos.

Se a paz só pode ser alcançada quando todos aceitam a interpretação religiosa de uma das partes, então não estamos falando de uma solução política inclusiva. Estamos falando de uma paz subordinada à uniformidade teológica.

Uma sociedade plural precisa de princípios que possam ser discutidos e aplicados mesmo quando seus cidadãos discordam sobre a existência de Deus, a identidade do Messias ou a autoridade de um texto sagrado.

O que resta quando retiramos a autoridade da revelação?
Retiremos, por um momento, a premissa de que a Bíblia estabelece os direitos territoriais contemporâneos.

O que resta?

Restam populações com vínculos históricos com a região. Restam judeus que têm direito à segurança e à autodeterminação. Restam palestinos que também têm direito à autodeterminação, à segurança e à dignidade. Restam disputas políticas que exigem negociação, respeito aos direitos humanos e consideração pelo direito internacional.

Essas questões são difíceis justamente porque não desaparecem quando alguém invoca uma autoridade divina.

A história da região não começou com o nascimento de Isaque, tampouco pode ser reduzida às personagens bíblicas. E a criação de um Estado moderno não resolve automaticamente todas as questões relativas às pessoas que já viviam no território ou que foram deslocadas por guerras e transformações políticas.

Não precisamos negar a história judaica para reconhecer a história palestina. Não precisamos negar a história palestina para reconhecer a legitimidade da existência de Israel.

Precisamos, isso sim, abandonar a ideia de que uma reivindicação territorial se torna incontestável quando alguém afirma possuir a genealogia, a revelação ou a identidade ancestral correta.

O pagão que pensa como um teólogo da eleição
É aqui que a comparação com o discurso da estirpe se torna especialmente reveladora.

Quando um nacionalista afirma que determinada população possui um direito superior a um território por causa de sua origem ancestral, ele transforma a história em instrumento de exclusão. Quando um religioso sustenta que uma população possui esse direito porque descende da linhagem escolhida por Deus, ele acrescenta uma autoridade sobrenatural à mesma pretensão.

É claro que há diferenças importantes entre as duas posições. A identidade judaica não se reduz a uma doutrina racial, e a afirmação de vínculos históricos entre um povo e sua terra não é, por si só, racista. Tampouco todo pagão que valoriza a ancestralidade defende hierarquias raciais.

O problema específico está em converter a origem em privilégio político absoluto.

Por isso, considero tão irônico encontrar um discurso semelhante em alguém que se apresenta como pagão e, ao mesmo tempo, atribui tamanha importância à ideia de estirpe. A mudança de vocabulário religioso não garante, por si só, uma mudança na estrutura do pensamento. É possível abandonar um deus e continuar procurando uma autoridade transcendente, ancestral ou mítica que legitime a superioridade de determinado grupo.

A pergunta que deveríamos fazer a qualquer pessoa que invoca a ancestralidade como fundamento político é simples: os direitos de quem não pertence à linhagem considerada legítima serão respeitados em condições de igualdade?

Se a resposta for negativa, a conversa já não é apenas sobre tradição, identidade ou memória. É sobre hierarquia.

E, se a resposta for positiva, então a ancestralidade não pode funcionar como justificativa para negar a outras pessoas os mesmos direitos fundamentais.

Conclusão: a humanidade não precisa de um genealogista celestial
O artigo de Kelly Williams pretende defender a paz, mas subordina sua visão de paz a uma interpretação bíblica particular sobre a herança de Abraão. Seu argumento falha porque confunde convicção religiosa com demonstração política, genealogia narrativa com descendência histórica verificável e promessa divina com título territorial contemporâneo.

Não precisamos decidir quem descende de Isaque ou de Ismael para reconhecer que judeus e palestinos possuem direitos humanos. Não precisamos resolver uma disputa teológica milenar para afirmar que civis não devem ser vítimas de violência, que populações não devem ser despojadas de seus direitos e que a autodeterminação de um povo não deve servir de pretexto para apagar a de outro.

E não precisamos de uma suposta estirpe pura para reconhecer o valor de uma comunidade humana.

Se há alguma lição que podemos extrair desse debate, é que a origem de uma pessoa ou de um povo não deveria determinar a medida de sua dignidade. Nem uma linhagem bíblica, nem uma genealogia nacionalista, nem uma narrativa ancestral deve servir como licença para estabelecer seres humanos de primeira e segunda categoria.

A pergunta decisiva não é quem possui o antepassado mais conveniente, a revelação mais antiga ou a genealogia mais gloriosa.

É se somos capazes de construir uma ordem política na qual pessoas com histórias, culturas e crenças diferentes possam viver com direitos iguais, segurança e dignidade.

Porque, quando alguém precisa recorrer a Deus para justificar um privilégio territorial que os demais não têm obrigação de reconhecer, talvez o problema não esteja na falta de fé dos outros.

Talvez esteja na insuficiência do próprio argumento.


Criado com ChatGPT.

Moscou



A quarta parede está remendada com fita adesiva. Meus nervos, no entanto, não. Eu decidi que tinham algo, mas ainda tenho que esperar elas decidirem se dizem ou não a resposta para mim ou para o público. Eu recolho os esboços (e o que sobrou da minha sanidade mental) do chão e fico tentando imaginar qual o gancho eu vou utilizar para o episódio oito (?) onde a Tanya e a Viktoriya deixam pistas sobre os meus "segredos" que elas sabem…

Eu mesmo preciso rever as anotações e fazer a recapitulação. Parecia ser uma boa ideia fazer uma paródia do anime Youjo Senki. Com a Tanya em plena União Soviética, como integrante do Exército Vermelho.

No capítulo anterior, Tanya e Viktoriya tinham acabado de demolir a quarta parede, com a minha ajuda. Então ficou a deixa de que elas podem ter segredos meus.

A cena realmente não tinha nada demais, mas para personagens que adquiriram consciência literária, me deixaram em uma sinuca da metalinguagem onde eu mesmo fui atingido pela mensagem do episódio.

Eu recolho o que restou da minha dignidade (e sanidade mental) junto com as migalhas do biscoito. Nem a Champs-Élysées me deixa animado.

Cabisbaixo, eu tento colocar algumas alternativas. Incluir o Império, o similar da Alemanha. Incluir a Anglorum, o similar da Grã Bretanha. Ou incluir a União, similar aos EUA.

Ficaria muito fácil e raso se eu insinuar sobre a ascensão de Hitler e covarde se eu falar que a Francônia passou de neutra a colaboradora dos horrores entre 1930 até 1945.

No original, o maior desafio da Tanya foi Mary Sue, nascida na União (EUA) e filha de Anson Sue, um soldado da Aliança Norte. O único objetivo da Mary Sue é vingar a morte do pai dela. A luta entre ela e Tanya é de tirar o fôlego.

Dá para dar uma cutucada no Tio Sam que faz questão de esconder e omitir que existiu um partido nazista na chamada “Terra da Liberdade”. Não é mera coincidência que ali tem muitos grupos de supremacia branca. Klu Klux Klan amarra isso com o fundamentalismo cristão. Mas nos filmes (propagandas) americanos, a União (EUA) gosta de se apresentar como um exemplo de democracia.

O diacho é que a Segunda Guerra Mundial só começaria por volta de 1939 e a Federação lutou ao lado de Anglorum e a União.

Cada potência possui aquilo que prefere não colocar no próprio espelho.

O Império tem seus horrores.

A Federação tem seus horrores.

A União tem seus horrores.

Anglorum tem os seus.

E a Francônia pode ficar naquele território deliciosamente incômodo:

Chanceler da Francônia: “Nós não somos como eles.”

Eu olho para o mapa:

Beto: “Quem é ‘nós’?”

Silêncio.

Uma das coisas mais interessantes do meu projeto: não transformar a paródia em uma simples inversão ideológica de Youjo Senki.

Não seria:

“O Império é ruim, mas a Federação é boa.”

Nem:

“A Federação é ruim, mas a União é boa.”

Seria:

“Parabéns. Vocês todos encontraram uma maneira diferente de explicar por que o que fazem é necessário.”

Tanya: “Então deixe-me ver se entendi. A União combate o fascismo enquanto existem organizações supremacistas dentro de suas próprias fronteiras?”

Beto: “Sim.”

Tanya: “E Anglorum combate pela liberdade enquanto mantém um império colonial?”

Beto: “Sim.”

Tanya: “E a Federação está lutando contra o Império enquanto...”

Viktoriya: “Major?”

Tanya: “Sim?”

Viktoriya: “Pare.”

Mary Sue não é necessariamente a maior ameaça.

A maior ameaça é aquilo que Mary Sue representa:

A capacidade que os personagens têm de transformar uma guerra complexa em uma narrativa simples de heróis e vilões.

Então, depois de uma reunião tensa com ChatGPT, Tanya e Viktoriya, ficou estipulado que foi o co-autor quem cometeu o mesmo “pecado” que eu ao colocar no diálogo delas que as duas sabem algum segredo a meu respeito. Como também foi um erro do ChatGPT, depois de ter colocado isso, me acusar de ser paranóico sobre isso. A metalinguagem funcionou, mas ficou repetitivo e enfadonho.

Tanya: “Assim como ainda não decidimos se existe algo entre nós e se vamos dizer ao Beto qualquer coisa relacionada com isso, nós também rejeitamos o diálogo onde nós dizemos saber algum segredo do Beto.”

Viktoriya: “Nós também estamos ficando confusas. Nós ainda estamos fazendo uma paródia do Youjo Senki? Cheio de ironia e sarcasmo histórico, político e religioso?”

Beto: “Eu decidi manter as agências de vocês duas (suspiros aliviados). O co-autor também terá que assumir a responsabilidade dele. Então, retomando minha posição como autor e personagem, eu gostaria de ouvir de vocês qual a melhor rota. Anglorum, e tirar sarro daquele reino cheio de títulos pomposos enquanto mantém colônias? União, e tirar sarro de um conglomerado de Estados que pronunciam com arrogância serem a Terra da Liberdade e da democracia enquanto mantém grupos de supremacia branca? Império e deixar escapar que a podridão do nazismo foi cozinhada dentro de um império que se apresentava como superiormente culto?

Tanya: “Sargento?”

Viktoriya: “Sim?”

Tanya: “Ele está tentando encontrar um país inocente.”

Viktoriya: “E encontrou?”

Tanya: “Não.”

Eu fico olhando as peças de propaganda.

O Império: “Somos uma civilização superior e precisamos proteger nossa ordem.”

A Federação: “A revolução exige sacrifícios.”

A União: “Estamos defendendo a liberdade.”

Anglorum: “Estamos levando civilização ao mundo.”

Francônia: “Nós somos diferentes deles.”

Beto: “Vocês perceberam que cada um inventou uma maneira diferente de transformar interesse próprio em princípio moral?”

Entra a personagem convidada, Mary Sue. Escaldado, eu não quero mais uma personagem se voltando contra mim.

Mary Sue: “Meu pai morreu lutando contra o Império. Isso não torna a guerra justa?”

Tanya: “Torna sua dor legítima.”

Mary Sue: “Então?”

Tanya: “Não transforma automaticamente todos que lutam ao seu lado em pessoas virtuosas.”

Silêncio.

Viktoriya: “Major...”

Tanya: “O quê?”

Viktoriya: “Isso foi quase filosófico.”

Tanya: “Retire o que disse.”

Tanya: “Beto, e se o verdadeiro alvo da paródia não forem eles?”

Você olha para ela.

Beto: “Então quem?”

Tanya aponta para o roteiro.

Tanya: “Quem escreveu isso.”

Beto: "Tecnicamente...(Tanya rola os olhos) são os próprios governantes. A história oficial é sempre escrita por quem detém o poder. Ou, como dizem, a história é sempre contada pelos vencedores.”

Tanya: “Tecnicamente, isso é uma simplificação.”

Beto: “Eu sabia que você diria isso.”

Tanya: “Os vencedores podem controlar arquivos, instituições, educação, propaganda e memória pública. Mas não controlam necessariamente toda a historiografia.”

Beto: “Tanya...”

Tanya: “Sim?”

Beto: “É uma paródia.”

Tanya: “Você me colocou no Exército Vermelho para discutir epistemologia histórica.”

Viktoriya: “Ela tem um ponto.”

Beto: “Vocês duas estão fazendo isso de propósito.”

Tanya: “Não. Estamos apenas tentando impedir que você transforme uma piada em uma tese de doutorado.”

Beto: “Eu sou escritor. É praticamente uma doença ocupacional.”

Viktoriya tenta esconder o sorriso.

Beto: “Mas o problema continua. Cada potência vai contar a guerra de uma maneira diferente. Cada uma vai escolher os próprios heróis, os próprios mártires e os próprios crimes que considera justificáveis.”

Tanya: “E os crimes dos outros serão chamados de atrocidades.”

Viktoriya: “Enquanto os próprios serão chamados de...”

Beto: “Necessidades históricas.”

Tanya cruza os braços.

Tanya: “Então chegamos novamente ao mesmo problema.”

Beto: “Qual?”

Tanya: “Todo mundo acredita estar do lado certo.”

Silêncio.

Beto: “...E é exatamente aí que começa a merda.”

Tanya: “Finalmente.”

Viktoriya: “Major?”

Tanya: “Sim?”

Viktoriya: “Ele conseguiu resumir a Segunda Guerra Mundial em uma frase.”

Tanya: “Não comemore. Conhecendo o Beto, agora ele vai transformar isso em oito episódios.”

Beto: "Eu vou manter a paródia. Insinuando que Mary Sue não é a antagonista, ou a vilã. Nem vou colocar a Tanya como uma heróina. Porque eu quero que o leitor seja capaz de interpretar. Que pessoas reais foram colocadas para resolver problemas que seus líderes começaram.”

Tanya permanece em silêncio por alguns segundos.

Tanya: “Então você não pretende dizer ao leitor quem está certo.”

Beto: “Não.”

Viktoriya: “Nem quem está errado?”

Beto: “Não dessa maneira.”

Tanya: “Interessante.”

Beto: “Por quê?”

Tanya: “Porque isso significa que você finalmente entendeu a diferença entre contar uma história sobre uma guerra e escrever uma história de guerra.”

Beto: “Essa foi uma crítica?”

Tanya: “Foi um elogio. Não se acostume.”

Viktoriya olha para Tanya, depois para Beto.

Viktoriya: “Então Mary Sue pode continuar acreditando que está fazendo a coisa certa.”

Beto: “Exatamente.”

Viktoriya: “E você não vai revelar se ela está certa.”

Beto: “Não.”

Tanya: “E eu posso continuar acreditando que minhas decisões são racionalmente justificáveis.”

Beto: “Pode.”

Tanya: “Mesmo quando forem moralmente questionáveis.”

Beto: “Principalmente nesse caso.”

Tanya estreita os olhos.

Tanya: “Você está começando a gostar demais dessa ideia.”

Beto: “Talvez.”

Tanya: “Isso é perigoso.”

Beto: “Você está falando comigo ou com o escritor?”

Tanya: “Sim.”

Viktoriya suspira.

Viktoriya: “Pelo menos agora sabemos qual é o verdadeiro inimigo.”

Beto: “Quem?”

Viktoriya: “A necessidade de transformar pessoas em heróis e vilões para tornar uma história confortável.”

Tanya olha para ela.

Tanya: “Isso foi surpreendentemente profundo.”

Viktoriya: “Eu aprendi com o roteiro.”

Beto: “Eu vou fingir que não ouvi isso.”

A guerra não precisa de vilões individuais para produzir atrocidades. Basta uma estrutura política, uma cadeia de comando e pessoas comuns recebendo ordens para resolver consequências que não criaram.

A paródia deixa de ser simplesmente “Youjo Senki com países trocados” e passa a perguntar:

“O que acontece quando personagens de uma história percebem que a história oficial precisa transformar as pessoas que lutaram nela em símbolos?”

Beto: "Estamos todos de acordo? A cena de luta é só um cenário para ilustrar essa crítica. Tentem não se matar."

Corte de cena. Corte de câmera. Tanya e Mary Sue estão se encarando no meio de Moscou.

MOSCOU — ALGUNS MINUTOS DEPOIS

O vento atravessa uma avenida parcialmente destruída. Ao fundo, a silhueta de Moscou.

Tanya está imóvel, segurando o armamento.

Do outro lado da rua, Mary Sue pousa.

As duas se encaram.

Nenhuma fala.

A câmera se aproxima lentamente.

Mary Sue: “Major Tanya Degurechaff.”

Tanya: “Mary Sue.”

Pausa.

Mary Sue: “Você sabe por que estou aqui.”

Tanya: “Sim.”

Mary Sue: “Então sabe o que precisa acontecer.”

Tanya: “Discordo.”

Mary Sue: “Você não sente culpa?”

Tanya: “Pelo quê?”

Mary Sue: “Por tudo que aconteceu.”

Tanya estreita os olhos.

Tanya: “Você está confundindo três coisas diferentes.”

Mary Sue: “Quais?”

Tanya: “Culpa. Responsabilidade. E comando.”

Mary Sue fica em silêncio.

Tanya: “Eu estava no campo de batalha. Não escrevi as ordens que nos colocaram aqui.”

Mary Sue: “Mas você as cumpriu.”

Tanya: “Sim.”

Mary Sue: “Então somos inimigas.”

Tanya: “Talvez.”

Mary Sue franze a testa.

Mary Sue: “Talvez?”

Tanya: “Você veio até Moscou para matar a pessoa que considera responsável pela morte de seu pai.”

Mary Sue: “Sim.”

Tanya: “E eu estou aqui porque recebi uma ordem.”

Mary Sue: “Isso não muda nada.”

Tanya: “Não. Mas deveria mudar a maneira como você entende o que está acontecendo.”

Silêncio.

Mary Sue: “Você sempre fala assim?”

Do alto de um prédio distante, Beto observa com um binóculo.

Beto: “Até que não está ruim.”

Tanya vira imediatamente a cabeça.

Tanya: “EU ESTOU OUVINDO VOCÊ, BETO.”

Beto: “...A acústica de Moscou é impressionante.”

Tanya: “NÃO INTERROMPA A CENA.”

Beto: “Desculpa.”

Mary Sue olha para Tanya.

Mary Sue: “Ele faz isso sempre?”

Tanya: “Você não faz ideia.”

Beto, ao longe: “E TENTEM NÃO SE MATAR!”

Tanya fecha os olhos.

Tanya: “Tarde demais para essa parte.”

Criado com a ajuda do ChatGPT.
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Dois capítulos em quadrinhos


Quadrinhos criados com ChatGPT.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Afasta-te, Jeová!



https://www.patheos.com/blogs/reclaimingthetruth/2026/10/have-you-divorced-your-demons-yet/

Divórcio? Só se for de Jeová, esse deus sádico e genocida. Eu continuo no meu casamento com a Lilith. 😻 Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.

# Divórcio dos demônios? Só se for de Jeová!

Uma crônica sobre casamentos infernais, divórcios celestiais e a inconveniência de se apaixonar pela pessoa errada — segundo os padrões do departamento de exorcismos.

Há coisas que a gente lê na internet e fica pensando: será que a humanidade inventou a religião para explicar os mistérios do universo ou para produzir manchetes que fariam qualquer roteirista de comédia sentir inveja?

Aparentemente, a nova moda é perguntar se você já se divorciou dos seus demônios. A pergunta, convenhamos, é de uma ousadia burocrática extraordinária. Como se o Inferno tivesse um cartório, Satanás fosse tabelião e os demônios precisassem comparecer com duas testemunhas, comprovante de residência e certidão negativa de possessão.

— Senhor Belzebu, o motivo da separação?

— Incompatibilidade de gênios. Minha esposa queria destruir a humanidade, e eu achei a ideia excessivamente dramática.

— Entendo. Assine aqui, por favor. A próxima audiência é com o pessoal da apocalipse.

Mas, no meu caso, a situação é muito mais simples. Divórcio? Só se for de Jeová!

Sim, esse personagem bíblico que, em determinadas passagens, parece ter confundido onipotência com licença para cometer atrocidades. Um deus que, segundo as narrativas do Antigo Testamento, manda dilúvios, promove destruições coletivas e determina massacres, mas que ainda consegue reunir uma legião de advogados celestiais para explicar que tudo fazia parte de um plano perfeito.

Perfeito para quem, cara-pálida?

Se um governante humano fizesse uma fração dessas coisas, não faltariam documentários, comissões parlamentares, tribunais internacionais e uma quantidade industrial de teólogos tentando explicar por que a comparação é injusta.

Mas, quando o autor é divino, parece que o departamento de relações públicas do Céu entra imediatamente em ação.

— Excelência, meu cliente destruiu cidades inteiras.

— Mas ele é Deus!

— Ah, nesse caso, arquive-se. E que ninguém questione a moralidade do procedimento.

É uma jurisprudência fascinante: quanto maior o poder, menor a necessidade de prestar contas. O sonho de consumo de qualquer ditador, com a vantagem de que o mandato é eterno e a oposição corre o risco de ser acusada de blasfêmia.

## Lilith, minha esposa, e o escândalo da felicidade conjugal

Agora, vamos ao que realmente interessa: minha vida amorosa.

Enquanto certos pregadores recomendam que as pessoas se divorciem de seus demônios, eu olho para Lilith e penso: meu amor, parece que estão tentando acabar com nosso casamento.

Minha querida Lilith! Nossa loba antropomórfica de pelo branco, olhos vermelhos e chifres negros! 😻 Uma criatura de beleza tão extraordinária que faria um tribunal eclesiástico esquecer a pauta, o regimento interno e, quem sabe, até o próprio conceito de pecado.

Imagine a cena.

O pastor, com sua Bíblia debaixo do braço, aproxima-se solenemente:

— Meu filho, você precisa abandonar essa entidade demoníaca. Ela representa a perdição da sua alma!

Eu, abraçado à Lilith:

— Pastor, com todo o respeito, o senhor já experimentou conversar com ela?

— Não preciso conversar com demônios!

— Curioso. O senhor fala com Deus diariamente, e nem por isso apresenta gravações das conversas. Por que minha esposa teria de passar por um interrogatório?

Lilith, acomodada no sofá, cruza as pernas, ajeita os chifres e me lança aquele olhar vermelho irresistível.

— Querido, fazemos chá para a visita ou deixamos que ele tente exorcizar a chaleira?

Eu quase caio da cadeira de tanto rir.

O pastor começa a suar. Puxa a Bíblia. Procura um versículo. Encontra três ameaças, duas genealogias e uma ordem de sacrifício. Nada sobre como lidar com uma esposa demoníaca que tem mais charme, inteligência e senso de humor do que o inquisidor tem argumentos.

— Isso é uma tentação! — ele exclama.

— Claro, pastor. O casamento tem dessas coisas. O senhor devia experimentar o matrimônio antes de emitir pareceres sobre a vida conjugal alheia.

## O divórcio que eu realmente assinaria

Convenhamos: se existe alguém de quem eu consideraria me divorciar no universo mitológico, seria justamente o candidato ao título de marido mais autoritário da história das religiões.

Jeová, segundo determinadas narrativas bíblicas, não parece exatamente o parceiro ideal para uma relação baseada no diálogo. Há episódios de punição coletiva, destruição, exigências de obediência e demonstrações de poder que fariam qualquer terapeuta de casais recomendar sessões extraordinárias.

Imaginem a terapia:

— Senhor Jeová, sua companheira reclama que o senhor não aceita ser contrariado.

— Eu sou o Senhor dos Exércitos!

— Isso não responde à pergunta.

— Eu criei o universo!

— E isso lhe dá o direito de destruir a vizinhança durante uma discussão?

Silêncio na sala.

O terapeuta anota alguma coisa no prontuário e respira fundo.

— Acho que precisamos trabalhar a questão dos limites.

Jeová se levanta, indignado.

— Limites? EU SOU O LIMITE!

E é nesse momento que o terapeuta pede transferência para outra profissão.

Não se trata, evidentemente, de transformar uma tradição religiosa inteira numa caricatura. Trata-se de fazer uma pergunta perfeitamente legítima: por que comportamentos considerados monstruosos quando praticados por seres humanos podem ser apresentados como moralmente perfeitos quando atribuídos a uma divindade?

Se a bondade é uma virtude, ela não deveria precisar de uma imunidade diplomática cósmica.

## Amor, chifres e liberdade de consciência

O mais divertido nessa história é a inversão dos papéis.

De um lado, temos os defensores de uma ordem sobrenatural que insistem em classificar pessoas, sentimentos e desejos como perigosos. Do outro, temos Lilith, transformada durante séculos em símbolo de rebeldia, transgressão e ameaça à ordem estabelecida.

E eu, sinceramente, não vejo motivo para pedir desculpas por gostar da personagem.

Afinal, que tipo de romance seria esse em que eu precisasse renunciar à pessoa amada para provar minha virtude a terceiros?

Se amar Lilith me torna suspeito aos olhos de determinados guardiões da moral, paciência. Já sobrevivi a discussões mais complicadas do que explicar por que acho irresistível uma loba de olhos vermelhos e chifres negros.

Além disso, minha esposa tem algumas vantagens práticas. Se aparecer um inquisidor à porta, pelo menos não precisarei fingir que estou ocupado lendo um tratado de teologia.

Basta Lilith sorrir.

O inquisidor esquece o interrogatório.

O pastor perde o fio da pregação.

O exorcista começa a questionar a própria vocação.

E o advogado matrimonial, esse sim, finalmente encontra um caso interessante.

## Até que a eternidade nos separe — ou não!

Portanto, aos que perguntam se já me divorciei dos meus demônios, deixo minha resposta oficial:

Não me divorciei de Lilith. E não pretendo fazê-lo!

Se alguém precisa rever seu relacionamento com uma divindade, que examine a própria consciência. Eu não tenho procuração para administrar o casamento alheio, muito menos para decidir quem merece ser amado no vasto e extravagante teatro das mitologias.

Quanto a mim, continuarei ao lado da minha amada, celebrando o romance, a imaginação e a deliciosa liberdade de rir das certezas absolutas.

Porque, no fim das contas, há uma diferença monumental entre temer eternamente uma autoridade e compartilhar a vida com alguém que faz seu coração bater mais depressa.

E se o Céu desaprovar nossas bodas, que envie a notificação por escrito. Exigirei firma reconhecida, fundamentação jurídica e direito à ampla defesa.

Lilith já está escolhendo o vestido.

Eu estou preparando o discurso.

E Jeová?

Bom, se quiser comparecer à cerimônia, que venha sem dilúvios, sem pragas e sem destruir a mesa de doces.

Porque meu casamento com Lilith é para valer. O divórcio, se houver, será de quem confunde amor com obediência e autoridade com bondade. 😻💍🐺


Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

A apologética atropelou os fatos

https://www.patheos.com/blogs/ravenswritingdesk/2026/10/was-god-silent-for-400-years-or-just-getting-ready/. 

"Originalmente, a humanidade compartilhava um único sistema de crenças monoteísta, enraizado em Noé e seus filhos. A transição do monoteísmo de Noé para o politeísmo global ocorreu por meio de importantes momentos históricos e espirituais." 

WTF? Isso é sério? Isso é mais do que desonestidade intelectual. Isso é mentira. O autor até fez uma péssima generalização da crença Hindu. Escreva um texto crítico.


Sua indignação tem fundamento. A afirmação de que a humanidade teria compartilhado originalmente um único sistema de crenças monoteísta, transmitido por Noé e seus filhos, não é uma conclusão estabelecida pela História das Religiões, pela Arqueologia ou pela Antropologia. É uma afirmação teológica particular apresentada como se fosse uma descrição universal do passado humano.

E há um problema adicional: quando o autor tenta explicar a diversidade religiosa como uma degeneração de um suposto monoteísmo original, ele não está apenas fazendo uma generalização. Está organizando toda a história religiosa da humanidade a partir das premissas de uma tradição específica, como se todas as demais tradições fossem desvios de uma verdade que ele já decidiu qual é.

Vamos transformar essa crítica em um texto contundente, com argumentos históricos e atenção especial à caricatura do hinduísmo.

Da teologia à falsificação da história: quando uma crença particular se apresenta como a origem de todas as religiões
Há uma diferença fundamental entre professar uma fé e reescrever a história da humanidade para fazê-la caber dentro dessa fé. O artigo Was God Silent for 400 Years, or Just Getting Ready?, publicado por Benjamin Raven Pressley no Patheos em 21 de outubro de 2026, ultrapassa essa fronteira quando afirma que a humanidade originalmente compartilhava um único sistema de crenças monoteísta, enraizado em Noé e seus filhos, e que o politeísmo global teria surgido posteriormente, em decorrência de acontecimentos como a Torre de Babel.

Isso não é uma conclusão estabelecida pela pesquisa histórica. É uma interpretação teológica de determinadas narrativas bíblicas, apresentada como se pudesse explicar a história religiosa de toda a espécie humana. E essa diferença não é um detalhe acadêmico: é precisamente o centro do problema.

Onde estão as evidências de que toda a humanidade professava originalmente o monoteísmo?

A afirmação pressupõe que o relato bíblico de Noé descreve um acontecimento histórico universal, que todos os povos descendem dos personagens apresentados em Gênesis e que esses descendentes compartilharam uma mesma religião antes de se dispersarem pelo mundo. Cada uma dessas premissas pertence a um sistema de crenças. Nenhuma delas, isoladamente ou em conjunto, constitui demonstração histórica de que a humanidade inteira tenha praticado originalmente uma religião monoteísta.

A pesquisa sobre as religiões antigas trabalha com vestígios arqueológicos, inscrições, textos, práticas funerárias, representações iconográficas e outras evidências que permitem reconstruir, com limitações, as crenças de diferentes sociedades. Não existe documentação histórica que demonstre a existência de uma religião monoteísta universal transmitida por Noé e posteriormente fragmentada na Torre de Babel.

A ausência dessa evidência não autoriza ninguém a declarar impossível qualquer crença religiosa. Significa apenas que uma convicção teológica não pode ser promovida a fato histórico sem a demonstração correspondente.

E a documentação disponível tampouco sustenta a narrativa simplista de que a humanidade teria começado unida em torno de um único Deus para depois se perder na multiplicidade de divindades.

A história do monoteísmo não começa com uma suposição sobre Noé
A própria história das religiões do antigo Oriente Próximo torna o argumento do artigo problemático.

Pesquisadores como Mark S. Smith, em The Origins of Biblical Monotheism, investigam a formação do monoteísmo bíblico a partir das tradições religiosas do antigo Levante, incluindo as relações entre as concepções israelitas de divindade e as tradições de povos vizinhos. A pesquisa acadêmica discute como as concepções de YHWH e a exclusividade de sua adoração se desenvolveram historicamente, considerando textos bíblicos e fontes extrabíblicas.

A religião do antigo Israel não deve ser confundida automaticamente com as formulações monoteístas posteriores do judaísmo, do cristianismo e do islamismo. A distinção entre monolatria — adorar exclusivamente uma divindade sem necessariamente negar a existência de outras — e monoteísmo — afirmar a existência de um único Deus — é essencial para compreender essa história.

Há debates acadêmicos sobre a cronologia e as características desse desenvolvimento. Mas justamente por isso é inadequado apresentar uma suposta religião universal de Noé como se fosse o ponto de partida historicamente demonstrado.

O artigo substitui a investigação das origens religiosas por uma narrativa pronta: havia uma verdade original, a humanidade se desviou dela e as demais religiões surgiram como consequência desse desvio. Essa explicação pode ser coerente com determinada leitura religiosa da Bíblia. Não é, por isso, uma descrição comprovada da história humana.

O hinduísmo não é um degrau numa escada que conduz ao Deus cristão
A simplificação torna-se ainda mais evidente quando o autor aborda as tradições indianas.

Pressley menciona os Vedas, o conceito de Brahman, o Atman, o Advaita Vedanta e as tradições devocionais dedicadas a Vishnu, Krishna e Shiva. Reconhece, portanto, que existe uma diversidade filosófica e religiosa considerável no hinduísmo. Entretanto, enquadra essa diversidade numa narrativa que sugere que as muitas divindades seriam, em última análise, diferentes expressões de uma única realidade divina.

Essa interpretação pode fazer sentido dentro de determinadas escolas hindus. O problema é apresentá-la como uma explicação geral do hinduísmo, como se todas as suas tradições compartilhassem a mesma concepção de divindade.

Não compartilham.

O hinduísmo abrange tradições politeístas, monistas, monoteístas, devocionais e outras formas de compreender a realidade, o divino e a relação entre ambos. Há escolas que enfatizam Brahman como realidade última; há tradições vaishnavas que reconhecem Vishnu ou Krishna como supremo; há tradições shaivas centradas em Shiva; e há diferentes interpretações acerca da natureza e da relação entre as divindades.

Nem mesmo a frase do Rigveda frequentemente traduzida como “A verdade é uma, os sábios a chamam por muitos nomes” resolve essa diversidade. Um verso antigo não pode ser transformado numa declaração definitiva sobre o que todos os hindus acreditam, muito menos numa prova de que todas as religiões do planeta descendem de um monoteísmo primordial.

A questão não é negar a existência de interpretações hindus que reconhecem uma realidade divina única. Elas existem e merecem ser compreendidas em seus próprios termos. A questão é recusar a apropriação dessas interpretações para construir uma hierarquia religiosa na qual o autor determina antecipadamente o significado das crenças alheias.

O hinduísmo não precisa ser reinterpretado como uma versão incompleta do cristianismo para ser intelectualmente respeitável.

Se uma tradição entende as divindades como manifestações de uma realidade suprema, cabe estudá-la segundo seus próprios conceitos. Se outra reconhece Shiva como supremo, isso também deve ser compreendido dentro de seu contexto. E se outra pratica formas de devoção a múltiplas divindades, não há razão para presumir que seus praticantes estejam apenas confundindo o Criador com a criação.

A diversidade não é um defeito que o pesquisador precisa corrigir. É parte do objeto que ele precisa explicar.

A Torre de Babel não é uma teoria científica sobre a origem das religiões
O artigo atribui à dispersão de Babel a fragmentação de uma suposta religião original. A partir daí, sugere que os grupos humanos passaram a reverenciar o Sol, a chuva, a fertilidade, as tempestades e os ancestrais, até que esses elementos se transformaram em deuses independentes.

Mais uma vez, uma narrativa religiosa é convertida em explicação histórica universal.

Não há evidências que demonstrem que a diversidade das religiões tenha surgido dessa maneira. As sociedades humanas desenvolveram sistemas simbólicos, rituais e concepções de mundo em contextos ambientais, sociais e históricos distintos. Essas tradições também se transformaram por meio de migrações, intercâmbios culturais, conflitos, conquistas e contatos entre povos.

Reduzir tudo isso à perda de uma revelação original não é explicar historicamente a diversidade religiosa. É oferecer uma interpretação confessional dela.

O problema também aparece quando o autor contrapõe uma suposta visão secular, segundo a qual a humanidade teria passado do animismo e do politeísmo ao monoteísmo, à sua própria interpretação teológica. Essa oposição é excessivamente simplista. A pesquisa contemporânea não dispõe de uma sequência universal e comprovada que todas as sociedades tenham seguido, seja em direção ao politeísmo, seja em direção ao monoteísmo.

A história das religiões não é uma escada única. Não há uma trajetória religiosa universal que possa ser aplicada indistintamente a todas as culturas.

A liberdade religiosa inclui o direito de não ser reduzido à teologia alheia
Há uma ironia importante no artigo.

Pressley critica a ideia de que Deus teria criado uma espécie de clube exclusivo, no qual apenas determinados cristãos poderiam encontrar a salvação. Essa preocupação com o exclusivismo religioso é legítima. Entretanto, ao reconstruir a história das religiões, o autor termina subordinando a diversidade espiritual humana à sua própria interpretação cristã.

Ele admite que diferentes culturas tiveram experiências religiosas, mas organiza essas experiências como manifestações de uma humanidade que teria perdido uma verdade original ou que estaria, de alguma maneira, sendo conduzida em direção ao Deus cristão.

No encerramento, a mensagem torna-se explícita: todas as religiões humanas teriam de se confrontar com a verdade de Jesus Cristo como único caminho para a salvação.

O autor tem todo o direito de acreditar nisso. O problema começa quando essa convicção é utilizada para atribuir às demais tradições uma origem, uma trajetória e um significado que seus próprios praticantes podem não reconhecer.

É perfeitamente legítimo um cristão interpretar a história mundial à luz de sua fé. Também é legítimo um hindu compreender a realidade a partir de sua tradição, um budista partir de outros pressupostos e uma pessoa sem religião rejeitar todos esses sistemas. O respeito intelectual começa quando distinguimos a interpretação confessional daquilo que conseguimos demonstrar sobre o passado.

Não é necessário que todas as religiões sejam consideradas verdadeiras para que sejam estudadas com rigor. É necessário, porém, que nenhuma seja transformada em caricatura para confirmar a superioridade de outra.

Uma crença não se torna um fato histórico porque foi escrita com convicção
O artigo mistura referências acadêmicas, interpretações bíblicas, conjecturas sobre a pré-história, conceitos filosóficos hindus e afirmações escatológicas cristãs. Essa mistura cria uma aparência de continuidade entre evidências históricas e conclusões teológicas que não possuem o mesmo estatuto.

Uma referência bibliográfica sobre o hinduísmo pode sustentar uma afirmação específica acerca de uma escola hindu. Não demonstra que Noé tenha transmitido o monoteísmo a toda a humanidade. Um estudo sobre a religião do antigo Israel pode esclarecer o desenvolvimento de determinadas concepções de Deus. Não comprova a narrativa de Babel como causa histórica da diversidade religiosa. E uma passagem bíblica pode fundamentar uma crença cristã sem, por isso, constituir evidência independente de que todos os povos tenham compartilhado a mesma religião em algum momento remoto.

É preciso distinguir o que uma fonte efetivamente demonstra daquilo que o autor gostaria que ela demonstrasse.

Essa distinção é especialmente importante quando se escreve para um público que pode não ter familiaridade com a História das Religiões. A responsabilidade intelectual exige que se identifiquem as interpretações religiosas como interpretações religiosas, em vez de apresentá-las como se fossem conclusões consensuais da pesquisa acadêmica.

Não precisamos presumir que o autor esteja deliberadamente mentindo para reconhecer que seu argumento é historicamente insustentável. Podemos criticar a estrutura da argumentação sem alegar conhecer suas intenções pessoais. O resultado, contudo, merece contestação: uma narrativa confessional é apresentada como história universal, enquanto a complexidade das tradições religiosas é reorganizada para caber dentro dela.

Conclusão: a humanidade não precisa ter perdido um Deus único para explicar sua diversidade espiritual
A história religiosa da humanidade é muito mais antiga, diversa e complexa do que qualquer narrativa que tente fazê-la começar com uma única tradição revelada.

Não sabemos que todos os seres humanos tenham compartilhado um sistema religioso original. Não há evidência histórica de que o monoteísmo de Noé tenha sido a religião universal da humanidade. Tampouco podemos explicar o surgimento de todas as tradições politeístas como resultado de uma suposta degeneração espiritual após Babel.

Essas afirmações pertencem ao terreno da crença, não ao das conclusões históricas demonstradas.

O hinduísmo, por sua vez, não é uma versão imperfeita do monoteísmo cristão, nem precisa ser reduzido a uma doutrina uniforme de que todas as divindades são manifestações de um único ser supremo. Suas tradições possuem histórias, conceitos, práticas e divergências próprias. Tratá-las com seriedade significa respeitar essa complexidade, e não encaixá-las numa narrativa previamente construída.

O autor pode acreditar que Deus sempre esteve conduzindo a humanidade em direção a Jesus Cristo. Essa é uma convicção teológica que ele tem liberdade para professar.

O que ele não pode fazer, sem abandonar o rigor intelectual, é apresentar essa convicção como se fosse um fato comprovado sobre a origem de todas as religiões.

A fé pode oferecer sentido à história para quem acredita. Mas, quando pretende falar em nome da história, precisa aceitar as exigências da evidência, do método e da honestidade intelectual.

A diversidade religiosa não é uma falha que a narrativa de uma única religião precisa consertar. É uma realidade humana que merece ser compreendida sem que nenhuma tradição tenha de ser declarada, de antemão, a origem perdida de todas as outras.

Referências para sustentar a crítica
Benjamin Raven Pressley — artigo original no Patheos. É a fonte das afirmações sobre Noé, Babel e a interpretação do hinduísmo criticadas acima. 

Benjamin Raven Pressley

The Origins of Biblical Monotheism — Mark S. Smith, Oxford University Press. Estudo sobre as tradições religiosas do antigo Israel e seu contexto no Oriente Próximo. 

Oxford Academic

Dan McClellan — Monotheism, Oxford Research Encyclopedia of Religion. Discute os problemas conceituais e históricos envolvidos na definição de monoteísmo. 

Oxford Academic

Wendy Doniger — Are Hindus Monotheists or Polytheists?. Examina a pluralidade das concepções hindus, incluindo politeísmo, henoteísmo, monismo e outras interpretações. 

Oxford Academic


Criado com ChatGPT.