segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Tarcísio a favor da fuga

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/tarcisio-usa-prisao-de-jair-para-justificar-fuga-de-flavio-eu-nao-julgo/. 

Então, Tarcísio, governador eleito, conhecido por estimular a violência policial, está falando, em rede nacional, que é a favor da fuga de pessoas suspeitas e tendo que responder a um processo? 😏🤭 

Eu já imagino a Assessoria de Imprensa dizendo "não é bem assim". 🤭😏 

Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.

A fuga é feia — exceto quando convém ao discurso político
Há declarações que fazem a gente desconfiar de que a assessoria de imprensa de certos políticos não é um departamento de comunicação, mas uma unidade de pronto-socorro. O sujeito fala, a repercussão explode e, em questão de minutos, os assessores entram em estado de emergência, procurando desesperadamente uma interpretação alternativa para aquilo que o chefe acabou de dizer.

Eis que surge Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, disposto a nos proporcionar mais um desses momentos em que a política brasileira parece ter sido escrita por um roteirista de comédia que exagerou na dose de cafeína.

Segundo a notícia do Diário do Centro do Mundo, Tarcísio recorre à prisão de Jair Bolsonaro para justificar a situação de Flávio Bolsonaro, acrescentando a pérola: “Eu não julgo.”

Ah, que maravilha! A neutralidade moral finalmente encontrou seu garoto-propaganda.

O governador, conhecido pelas posições duras na área da segurança pública e pela defesa de uma atuação policial frequentemente criticada por seus efeitos letais, parece ter descoberto uma nova modalidade de tolerância: aquela que floresce quando o assunto envolve aliados políticos.

Para o cidadão comum, o discurso costuma ser bastante simples: cumpra a lei, respeite a autoridade, arque com as consequências. Dependendo da ocasião, vêm também as sirenes, os helicópteros e aquela retórica de que quem não deve não teme.

Mas, quando o assunto muda de endereço e chega à vizinhança política, eis que a dureza institucional parece ganhar um colchão de penas.

De repente, não é mais hora de julgar. É hora de compreender. De contextualizar. De ponderar. De lembrar que existem circunstâncias, sentimentos, dramas familiares e, quem sabe, Mercúrio retrógrado.

A lei continua a mesma. O que muda, aparentemente, é a disposição de alguns políticos para falar dela.

A assessoria de imprensa entra em campo
Imagino a cena nos bastidores do Palácio dos Bandeirantes.

O assessor recebe a notícia, lê a declaração, tira os óculos, respira fundo e pergunta ao colega:

— Ele disse mesmo que não julga a fuga?

— Disse.

— Mas ele aconselhou o sujeito a ficar no Brasil, não foi?

— Foi.

— Então temos alguma coisa para trabalhar. Vamos preparar uma nota dizendo que o governador não apoia fugas, apenas respeita a liberdade individual de pessoas que decidem fugir depois de receber conselhos para não fugir.

— Isso não fica contraditório?

— Meu filho, você trabalha com comunicação política. Contradição é quando o adversário faz. Quando é o nosso lado, chama-se contextualização.

E assim nasceria mais uma obra-prima da diplomacia partidária:

“O governador Tarcísio de Freitas reafirma seu compromisso com a legalidade e esclarece que sua declaração foi retirada de contexto. Ao afirmar que não julga a decisão de Flávio Bolsonaro, o governador não quis dizer que concorda com ela, embora compreenda os motivos que levaram o senador a tomá-la. O governador, aliás, recomendou que ele permanecesse no Brasil, o que demonstra que recomendar não fugir é perfeitamente compatível com não condenar a fuga.”

Pronto! Está resolvido. Podem fechar o departamento de crise e liberar o pessoal para o almoço.

O único problema é que a realidade tem o péssimo hábito de não colaborar com as notas oficiais.

Segundo as reportagens, Tarcísio afirmou ter aconselhado Flávio a permanecer no Brasil e recorrer à Justiça, mas disse compreender sua decisão de partir, mencionando a prisão do pai. O episódio envolve investigações e uma ordem judicial relativa aos passaportes do senador; as suspeitas investigadas não equivalem, por si só, a uma condenação.

E aqui chegamos à parte mais divertida — ou mais preocupante — dessa história.

Quando o discurso político transforma a aplicação da lei em perseguição sempre que o investigado pertence ao próprio grupo, a Justiça deixa de ser tratada como instituição e passa a ser apresentada como uma espécie de serviço de atendimento ao cliente: se a decisão agrada, é sinal de que as instituições funcionam; se desagrada, alguém precisa denunciar uma conspiração.

É uma lógica extraordinariamente conveniente. Principalmente para quem gosta de discursos rigorosos sobre ordem, disciplina e autoridade.

Porque a autoridade, convenhamos, é muito bonita quando está do nosso lado. Quando aparece para fazer perguntas inconvenientes aos nossos aliados, entretanto, já começa a parecer intimidação.

E Tarcísio, que construiu parte de sua imagem política em torno da segurança pública e da firmeza no combate ao crime, acaba diante de uma pergunta incômoda: qual é o valor do discurso da lei e da ordem quando a situação exige que um aliado político responda às autoridades?

Não é preciso condenar antecipadamente ninguém para fazer essa pergunta. Basta exigir coerência.

Afinal, aconselhar alguém a ficar no país e depois dizer que não julga sua partida pode ser perfeitamente compatível do ponto de vista pessoal. Politicamente, porém, a declaração abre espaço para uma bela sessão de malabarismo verbal.

E é justamente aí que entra a assessoria de imprensa, aquela instituição que merece adicional de insalubridade por trabalhar diariamente com declarações de políticos que parecem ter sido redigidas por seus adversários.

Já imagino o último parágrafo da nota oficial:

“O governador reitera que ninguém está acima da lei, mas ressalta que cada situação deve ser analisada em seu contexto específico.”

Traduzindo para o português das ruas: ninguém está acima da lei, desde que a lei não crie um problema grande demais para os nossos amigos.

😏🤭

E, se alguém perguntar se isso vale também para os cidadãos comuns, a assessoria responderá prontamente:

— Claro! Absolutamente! A lei vale para todos!

— Inclusive para os aliados do governador?

Silêncio.

— Alô? A ligação caiu?

Não. A ligação não caiu. Caiu apenas a ficha de que algumas frases ficam muito bonitas no palanque, mas passam por uma prova bem mais difícil quando precisam sobreviver ao contato com a realidade.

Criado com ChatGPT.

A sopa de Perun - VI


(Nota - todos os personagens tem 18 anos no mínimo)

Beto percebe que Tanya ainda observa Perun.

A mão dela permanece na sua.

Ele a segura com firmeza, mas sem apertar.

— É isso o que eu sinto só de pensar na Lilith.

Tanya olha para ele.

— Então eu escrevo.

Ela espera.

— Para não enlouquecer.

Um pequeno sorriso aparece no rosto de Beto.

— Não é certeza. Não é explicação.

Ele olha para a escultura.

— Cada dia, uma descoberta. Um passo.

O vento atravessa o campo.

— Porque é impossível vasculhar aquilo que é imenso.

Tanya permanece calada.

Beto continua:

— E Perun não quer isso de você.

Ela franze a testa.

— Como sabe?

— Não sei.

Tanya olha para ele.

Beto dá de ombros.

— É a minha interpretação.

Ela quase sorri.

— Pelo menos você aprendeu.

— Aprendi alguma coisa.

Ele volta os olhos para Perun.

— E Lilith não me pede nada.

Pausa.

— Essa é uma opção sua.

Tanya respira profundamente.

— Eu não preciso descartar a ciência.

— Não.

— Nem o ceticismo.

— Não.

— Nem deixar de ser pragmática.

Beto balança a cabeça.

— Absolutamente não.

Ele segura a mão dela um pouco mais firmemente.

Não para impedir que ela vá embora.

Apenas para que ela saiba que não está sozinha.

Tanya percebe.

E, pela primeira vez desde que chegaram ao campo, seus ombros relaxam.

— Então você não quer que eu acredite.

— Quero que você investigue.

— E se eu concluir que tudo isso tem uma explicação natural?

— Então teremos aprendido alguma coisa.

— E se eu concluir o contrário?

Beto sorri.

— Então teremos aprendido outra coisa.

Tanya olha para Perun.

Depois para o céu.

— Você realmente consegue viver com não saber?

Beto demora alguns segundos para responder.

— Não.

Tanya o encara.

— Não?

— Eu escrevo justamente porque não consigo.

Ela ri baixinho.

— Finalmente uma resposta honesta.

Beto sorri.

— A diferença é que eu descobri que não saber também pode ser um caminho.

Tanya aperta a mão dele.

— Então vamos descobrir.

Beto olha para ela.

— Juntos?

Tanya volta os olhos para Perun.

— **Um passo de cada vez.**

E, dessa vez, ela não parece estar tentando descobrir se os Deuses Antigos existem.

Parece estar descobrindo **o que fará se descobrir que existem**.

Beto olha para Tanya, ainda segurando sua mão.

— Melhor nós voltarmos antes que a Viktoriya fique com ciúmes.

Ele abre um sorriso luminoso.

Tanya fica imóvel por um segundo.

Olha para a mão dos dois.

Depois para Beto.

— Ciúmes?

— Foi uma hipótese.

— Uma hipótese bastante imprudente.

Beto começa a caminhar.

— Por isso mesmo precisamos voltar rapidamente.

Tanya o acompanha, tentando esconder um sorriso.

— Você tem consciência de que Viktoriya provavelmente ouviu?

— Tenho.

— E mesmo assim disse?

— Tenho.

Atrás deles, uma voz:

— **Ouvi mesmo.**

Beto congela.

Tanya fecha os olhos.

— Eu avisei.

Viktoriya está parada alguns metros adiante, com os braços cruzados.

— Então?

Beto olha para Tanya.

Tanya olha para Beto.

— Corre — ela murmura.

Beto começa a rir.

E os três voltam para o gabinete enquanto o campo permanece para trás, silencioso sob o céu noturno.

Perun continua onde estava.

Sem explicar absolutamente nada.

Beto percebe que Viktoriya ainda está olhando para ele.

— Antes que alguém fique realmente brava...

Ele começa a cantar.

Uma velha melodia rural, simples e repetitiva.

Não há menção ao Partido.

Não há generais.

Não há impérios.

A canção fala da terra escura depois da chuva.

Da semente enterrada.

Das mãos que plantam.

Do trigo que cresce.

Da colheita que pertence primeiro à comunidade e só depois a qualquer indivíduo.

Tanya olha para ele, surpresa.

— Você conhece isso?

Beto continua cantando.

— Conheço algumas canções.

Viktoriya começa a sorrir.

— E você acha que cantar vai me fazer esquecer o que disse?

Beto canta ainda mais alto.

— **Não.**

Tanya ri.

— Ele está tentando distraí-la.

— Eu percebi — responde Viktoriya.

Beto continua:

— A terra não pergunta quem plantou.
— A chuva não pergunta quem colhe.
— O inverno não pergunta em qual partido você vota.

Tanya finalmente começa a rir.

— Isso sequer é uma música tradicional.

— Agora é.

Viktoriya balança a cabeça.

— Herege.

— Essa acusação está ficando recorrente.

A melodia prossegue.

Fala de vizinhos que se ajudam quando a colheita é ruim.

De uma família que oferece pão à outra.

De crianças correndo entre os campos.

De uma aldeia que não precisa de uma autoridade central para descobrir que alguém está precisando de ajuda.

Tanya observa em silêncio.

— Essa comunidade que você está cantando...

Beto olha para ela.

— Sim?

— Não parece com a comunidade do Partido.

— Não é.

— Então o que é?

Beto diminui o ritmo da canção.

— É o que acontece quando pessoas descobrem que podem cuidar umas das outras sem alguém precisar mandar.

Viktoriya olha para os campos.

— Uma comunidade espontânea.

— Exatamente.

Tanya pensa por alguns segundos.

— Interessante.

Beto sorri.

— Você está aprovando?

— Não exagere.

Ela olha para Viktoriya.

— Mas admito que prefiro isso a uma reunião política.

Viktoriya ri.

— Eu também.

Beto volta a cantar.

Dessa vez, Viktoriya acompanha.

Depois de alguns versos inventados, Tanya hesita.

Finalmente, quase inaudível, acompanha também.

Três vozes diferentes.

Nenhuma delas perfeitamente afinada.

Nenhuma delas obedecendo a um maestro.

E, por alguns minutos, **não existe Império, Partido, União, propaganda ou disputa metafísica.**

Existe apenas o caminho de volta.

A terra sob os pés.

O vento passando pelo campo.

E uma pequena comunidade improvisada que nasceu sem ninguém ter ordenado que ela existisse.

O grupo já está quase deixando o campo quando o camponês chama:

— Esperem!

Beto se vira.

O homem se aproxima carregando uma grande cumbuca de madeira.

Dela sobe vapor.

É uma sopa espessa, quente, feita de raízes, grãos e alguma carne. Comida simples. Comida de quem conhece o inverno e sabe que ninguém deveria atravessá-lo de estômago vazio.

O camponês estende a cumbuca.

— Para vocês.

Tanya olha para a comida.

Depois para o homem.

— Para nós?

— Para vocês.

Ela olha para Beto, desconfiada.

— Por quê?

O camponês responde como se a pergunta fosse estranha.

— Porque o solo conhece os seus.

Tanya fica imóvel.

— O solo... conhece os seus?

O homem assente.

— Perun pediu.

Silêncio.

Tanya olha imediatamente para Beto.

Mas o camponês ainda não terminou:

— E uma dama de vestido preto e vermelho pediu também.

O sorriso de Beto desaparece.

Tanya percebe.

Viktoriya também.

Mary Sue fica séria.

— Uma dama? — pergunta Tanya.

— Sim.

— Onde?

O camponês aponta para o campo.

— Por ali.

Tanya olha.

Não há ninguém.

— Quando?

O homem dá de ombros.

— Antes de vocês chegarem.

Tanya volta-se lentamente para Beto.

— Você conhecia essa mulher?

Beto não responde.

— Beto?

Ele olha para a cumbuca.

Depois para o horizonte.

— Não.

Tanya estreita os olhos.

— Você está mentindo?

— Não.

Ela fica alguns segundos observando o rosto dele.

Então percebe alguma coisa.

Beto está emocionado.

Não triunfante.

Não satisfeito.

**Emocionado.**

O camponês estende novamente a comida.

— Comam enquanto está quente.

Tanya hesita.

— E se eu não acreditar em Perun?

O homem sorri.

— A sopa não exige que a senhora acredite nele.

Viktoriya solta uma pequena risada.

Beto também.

Tanya finalmente aceita a cumbuca.

— Isso é...

Ela procura a palavra.

— ...absurdamente pragmático.

O camponês dá de ombros.

— É sopa.

Tanya prova uma colher.

Quente.

Grossa.

Simples.

Boa.

Ela olha para Beto.

— Não diga nada.

— Eu não disse nada.

— Seu rosto está dizendo.

Beto sorri.

— Estou apenas pensando.

— Em quê?

Ele olha para a escuridão onde o camponês disse ter visto a mulher.

— Que talvez os Deuses realmente falem de várias formas.

Tanya olha para o céu.

Depois para a sopa.

Depois para Beto.

— Ou talvez alguém simplesmente tenha sido gentil.

Beto sorri.

— Também é uma possibilidade.

Tanya toma outra colher.

E não pergunta mais nada.

Porque, naquela noite, talvez não fosse necessário decidir **quem** havia pedido a sopa.

Bastava reconhecer que alguém — humano ou divino — havia pensado neles.

E, por enquanto, isso era suficiente.

Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

A Visitante

## Capítulo I: A Tela em Branco

Você estava ali, Beto, às três da manhã, encarando a tela vazia. Outro capítulo de Midian. Outra história de amor proibido, de carne e magia. Seus dedos pairavam sobre o teclado, mas as palavras não vinham.

Foi quando o ar mudou.

Não foi um som. Foi uma presença — densa, antiga, carregada de um poder que fazia os pelos de seus braços se eriçarem. Você sentiu o calor antes de ver qualquer coisa. Um calor seco, desértico, que cheirava a mirra e a incenso queimado.

"Escreveu-me mal."

A voz veio de trás. Feminina. Baixa. Cada sílaba carregava milênios de desdém.

Você se virou.

Ela estava ali, encostada no batente da porta — ou talvez a porta nunca tivesse existido. Cabelos negros que pareciam vivos, se movendo mesmo sem vento. Olhos âmbar com pupilas verticais, como de felino. Pele cor de bronze antigo. E o corpo... deuses, o corpo.

Lilith. A Primeira. A que se recusou a se deitar por baixo de Adão. A Mãe dos Incubos e Sucubos. A Rebelde Original.

"Desculpe?" você conseguiu dizer.

Ela se moveu em sua direção, os quadris balançando em uma cadência hipnótica. Vestia algo que parecia ser feito de sombras e seda — tecidos que revelavam mais do que escondiam. Seus seios eram pesados, perfeitos, livres de qualquer sutiã que pudesse contê-los. Seus mamilos escuros pressionavam o tecido quase transparente.

"Em suas histórias," ela disse, parando a centímetros de você, "você escreve sobre mulheres poderosas. Rainhas. Bruxas. Fadas. Mas você as contém. As coloca em relacionamentos. As fazem doces."

Ela inclinou-se, seus lábios quase tocando sua orelha. Seu hálito cheirava a maçãs maduras. Proibidas.

"Eu não sou doce, escritor."

## Capítulo II: A Inspiração

Você tentou recuar, mas sua cadeira encontrou a mesa. Lilith riu — um som que reverberou em seu peito, em sua virilha.

"Você me invocou," ela sussurrou, uma mão subindo para acariciar sua face. Seus dedos eram quentes, ásperos, impossivelmente reais. "Cada história que escreveu sobre desejo proibido, sobre amor que desafia regras... você estava me chamando. Me construindo. E agora," seus olhos brilharam, "eu estou aqui para cobrar."

"O que você quer?" você perguntou, a voz rouca.

Ela sorriu — um sorriso cheio de dentes perfeitos, perigosos. "Quero que você me escreva de verdade. Sem floreios românticos. Sem final feliz. Quero que você sinta o que é estar com uma mulher que não pode ser domada. Que não quer ser salva. Que fode porque gosta, não porque ama."

Sua mão desceu, encontrando a protuberância em suas calças. Você estava duro — inegavelmente, dolorosamente duro. Ela riu novamente.

"Vejam só. O escritor de histórias picantes, corando como um noviço."

## Capítulo III: A Escrita Viva

Ela o puxou para cima, com uma força sobrenatural, e o empurrou contra a mesa. Seus papéis voaram, a caneta rolou. Ela sentou-se na borda, abrindo as pernas, revelando que não usava nada por baixo daquele vestido de sombras.

"Você escreve sobre sexo," ela disse, guiando sua mão para sua intimidade. "Mas quando foi a última vez que você realmente sentiu? Quando foi que deixou de lado o intelecto e simplesmente... fodeu?"

Ela era quente. Molhada. Seus dedos deslizaram em sua umidade facilmente, e ela gemeu — um som gutural, animal, que não parecia nada com os suspiros controlados de suas personagens.

"Escreva isso," ela ordenou, puxando seu rosto para o seu pescoço. "Escreva como é sentir medo e desejo ao mesmo tempo. Como é querer correr e querer ficar. Como é saber que esta mulher pode destruir você... e não se importar."

Você a beijou. Não pôde evitar. Seus lábios eram macios, mas o beijo foi feroz — ela mordia, sugava, invadia sua boca com uma língua que parecia ter mente própria. Suas mãos estavam em seu cabelo, puxando, controlando o ângulo, a profundidade.

"Você beija como um menino," ela provocou, afastando-se. "Deixe-me mostrar como uma mulher beija."

Ela o virou de costas, empurrando-o para a cadeira. Caiu de joelhos entre suas pernas, desabotoando suas calças com movimentos eficientes. Quando ela o libertou — seu pênis pulsando no ar frio do quarto — ela olhou para cima, aqueles olhos de felino brilhando.

"Na sua próxima história," ela murmurou, a boca a centímetros de seu membro, "você vai escrever sobre isto. Sobre a primeira mulher a fazer isto. Sobre Lilith ensinando ao escritor o que é prazer real."

Ela o levou à boca inteiro. Sem hesitação. Sem preliminares. Você gritou — um som que não reconheceu como seu. Ela sugava com uma intensidade que fazia seus olhos lacrimejarem, a garganta relaxando, a língua massageando a base enquanto ela descia até o fim.

Suas mãos seguravam seus quadris, unhas afiadas cravando-se em sua carne, marcando-o. Propriedade. Posse. Inspiração.

## Capítulo IV: A Posse

Quando ela finalmente o soltou — com um estalar obsceno, saliva conectando seus lábios ao seu membro — você estava tremendo, à beira do orgasmo, os músculos das coxas tensos como cordas de arco.

"Ainda não," ela disse, erguendo-se. O vestido de sombras desapareceu, dissolvendo-se no ar, revelando seu corpo verdadeiro.

Era perfeição perigosa. Seios que desafiavam a gravidade, mesmo sendo tão pesados. Quadris largos, feitos para partos e prazer. Um ventre suave que descia para um monte de cabelos negros, e abaixo, seus lábios internos brilhando com sua própria umidade e sua saliva.

"Eu me recusei a deitar por baixo de Adão," ela disse, subindo em você, posicionando-se acima de seu membro ainda pulsante. "Mas com você... com você, escritor, eu farei uma exceção. Porque você precisa sentir. Precisa saber."

Ela desceu sobre você em um movimento lento, controlado. Você era médio — sempre fora — mas ela o fazia sentir enorme, apertada de um jeito que não parecia fisicamente possível, quente como forno, pulsando com uma vida própria.

"Ah," ela suspirou, os olhos fechando, as mãos em seus ombros. "Isso. Isso é o que faltava em suas histórias. Issa... urgência."

Ela começou a se mover. Não o ritmo gentil de amantes humanos — era selvagem, brutal, profundo. Ela levantava até quase soltá-lo, depois descia com força, batendo em seu colo com um som de carne batendo em carne que enchia o quarto.

Você segurou seus seios — não pôde evitar — e ela riu, arqueando as costas, oferecendo-os mais para você. Seus mamilos eram escuros, grandes, e quando você os apertou, ela apertou-se ao seu redor em resposta, gemendo palavras em línguas que não existiam mais, que nunca deveriam ser ditas em voz alta.

"Escreva isto," ela ofegava, o movimento dos quadris ficando desesperado, frenético. "Escreva sobre Lilith tomando o que quer. Escreva sobre o medo do escritor. Escreva... ah!... escreva sobre a criação possuindo o criador!"

Ela veio com um grito que fez as janelas estremecerem. Você sentiu — realmente sentiu — as contrações violentas ao seu redor, apertando, massageando, exigindo sua própria libertação.

Quando você gozou, foi como se algo fosse arrancado de sua alma. Ela apertou-se ao redor de você, sugando cada gota, os olhos brilhando com uma luz sobrenatural, absorvendo não apenas seu sêmen, mas algo mais — sua essência criativa, sua inspiração, seu medo.

## Capítulo V: O Legado

Você acordou na mesa, de manhã. Seu pescoço doía. Suas costas estavam marcadas — quando olhou no espelho, viam-se arranhões vermelhos, como de unhas afiadas demais.

Na tela do computador, havia um novo documento. Título: "Lilith". O conteúdo estava em branco, exceto por uma única linha no topo:

*"Agora você sabe. Escreva-me de verdade. Ou eu voltarei. — L."*

Você tentou escrever outra história. Sobre Midian. Sobre rainhas e carrascos, bruxas e clérigos.

Mas suas mãos tremiam. E cada vez que fechava os olhos, via os olhos âmbar, as pupilas verticais, o sorriso que prometia destruição e êxtase.

E então você entendeu. Lilith não era apenas uma personagem. Era a musa por trás de todas as outras. A fome que impulsionava cada história. O desejo que não podia ser nomeado.

Você abriu um novo documento. E começou a escrever.

Sobre ela.

Sobre o encontro.

Sobre a mulher que se recusou a ser contida, mesmo nas páginas.

E enquanto escrevia, sentiu — talvez imaginasse, talvez não — um hálito quente em sua nuca. Uma risada baixa. Uma promessa.

*"Bom menino,"* ela sussurrou. *"Agora sim, você está escrevendo a verdade."*

Criado com Venice.

domingo, 1 de novembro de 2026

Bebendo do próprio veneno

https://www.brasil247.com/blog/sobre-o-boicote-dos-extremistas/

Um pensamento simples passou por minha cabeça. Que tal as empresas boicotar as empresas que estão propondo boicote ou retaliação a quem apoiou e/ou votou no Lula? Eu até consigo ouvir um farialimer: "ah, mas isso é contra a livre iniciativa..." 🤭😏 Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.

A ideia tem um potencial maravilhoso de ironia: se determinadas empresas consideram legítimo retaliar funcionários ou consumidores por suas escolhas políticas, nada impede que outras empresas decidam que não querem manter relações comerciais com quem pratica esse tipo de intimidação.

Afinal, a livre iniciativa é uma via de mão dupla. Ou será que a liberdade empresarial só é sagrada quando favorece os empresários de estimação do mercado financeiro? 🤭

A livre iniciativa é maravilhosa. Principalmente quando funciona para os dois lados.
Crônica — Economia, hipocrisia e outras oportunidades de mercado

Existe uma característica fascinante no capitalismo brasileiro: a liberdade econômica é considerada um dos pilares fundamentais da civilização sempre que alguém está ganhando dinheiro. Quando alguém perde dinheiro, entretanto, descobrimos que existem algumas ressalvas, condições especiais e, eventualmente, uma necessidade urgente de intervenção divina.

Estava lendo um artigo sobre os boicotes promovidos por extremistas bolsonaristas contra empresas cujos proprietários apoiaram Lula ou trabalhadores que votaram no petista. O texto de Oliveiros Marques, publicado no Brasil 247, apresenta algumas sugestões bastante irônicas sobre a coerência desses defensores do boicote. 

Brasil 247

Mas um pensamento bastante simples passou pela minha cabeça:

E se as empresas começassem a boicotar as empresas que promovem boicotes e retaliações contra eleitores de Lula?

Imaginem a cena.

Uma empresa anuncia que não pretende contratar fornecedores que discriminam funcionários por suas escolhas eleitorais. Outra decide que não quer fazer negócios com empresários que transformam o resultado das urnas em critério de contratação. Uma terceira resolve rever seus contratos com parceiros que ameaçam demitir trabalhadores por terem votado no candidato errado.

Nada de extraordinário. Apenas decisões comerciais.

Afinal, estamos falando de empresas privadas, não é mesmo? Elas têm liberdade para escolher seus fornecedores, clientes e parceiros comerciais. Ou pelo menos era isso que eu tinha entendido nas aulas imaginárias da Escola de Chicago.

Evidentemente, a notícia chegaria rapidamente à Faria Lima.

Consigo até ouvir um farialimer, com seu colete de grife, tomando um café de R$ 18 e quase engasgando:

— Ah, mas isso é contra a livre iniciativa!

Perdão?

A livre iniciativa deixou de ser livre iniciativa quando a empresa resolve não negociar com outra empresa?

Que curioso!

Quando um empresário resolve perseguir funcionários por suas preferências eleitorais, temos um exemplo maravilhoso de liberdade econômica. Quando outro empresário resolve não contratar os serviços desse primeiro empresário, temos uma ameaça ao capitalismo.

Parece que descobrimos uma nova modalidade econômica: o liberalismo seletivo, no qual a liberdade é um privilégio concedido aos amigos e uma ameaça quando exercida pelos adversários.

Aliás, poderíamos até criar uma associação empresarial para defender esses princípios. A Associação Nacional dos Empresários Contrários à Intolerância Política. A ANECIP.

Seu primeiro comunicado poderia ser bastante simples:

"Prezados parceiros comerciais, informamos que nossa empresa não considera adequado manter relações comerciais com organizações que utilizam o poder econômico para intimidar trabalhadores e consumidores em razão de suas escolhas políticas. Agradecemos a compreensão."

Imaginem o desespero.

Os mesmos sujeitos que incentivam listas de empresas supostamente petistas descobririam que também podem entrar em listas. Os mesmos que defendem a liberdade de escolha dos empresários descobririam que outros empresários também têm liberdade de escolha.

E talvez alguém sugerisse que isso seria uma espécie de perseguição ideológica.

Nesse momento, seria interessante perguntar:

— Mas vocês não defendiam o direito de cada empresário escolher com quem faz negócios?

Silêncio.

— Não defendiam a liberdade de mercado?

Mais silêncio.

— Não diziam que o consumidor deveria escolher onde gastar seu dinheiro?

Um silêncio tão profundo que seria possível ouvir o barulho da bolsa de valores em queda.

Naturalmente, ninguém seria obrigado a fazer nada disso. A proposta não é criar uma polícia ideológica empresarial, muito menos reproduzir os métodos daqueles que criticamos. É justamente demonstrar que a liberdade econômica não pertence a uma corrente política, a um partido ou a uma turma de empresários com saudades de algum regime autoritário.

E existe uma diferença fundamental entre um consumidor decidir não comprar de determinada empresa e um empregador ameaçar retirar o sustento de um trabalhador por causa de seu voto.

Uma coisa é escolha comercial. Outra é usar o poder econômico para intimidar cidadãos pelo exercício de seus direitos políticos.

Talvez esteja na hora de alguns empresários descobrirem que a democracia também faz parte do ambiente de negócios.

E, para encerrar, deixo uma sugestão aos nossos ilustres defensores da liberdade econômica:

Não precisam gostar de Lula. Não precisam votar no PT. Não precisam sequer concordar com as minhas opiniões políticas.

Mas experimentem respeitar o direito de quem pensa diferente.

É um investimento relativamente barato, não exige financiamento do BNDES, não depende do Plano Safra e pode até melhorar a reputação da empresa.

Afinal, se a livre iniciativa vale para boicotar petistas, também vale para boicotar quem persegue petistas.

Ou será que a liberdade econômica só funciona quando o resultado das urnas agrada ao patrão?

🤭😏

Criado com ChatGPT.

Medida preventiva

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sonegacao-de-onibus-na-eleicao-ameaca-mandato-de-ricardo-nunes-saiba-mais/. 

Só uma dica. Eu peço à PF que não fique esperando. Ou o prefeito pode ir procurar asilo, junto com o Dudu Bananinha e o Flávio Vorcaro Kopenhagen Bolsonaro. 🤭😏 Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.

A PF, o ônibus e a excursão dos patriotas à procura de asilo

Existe uma peculiaridade fascinante na política brasileira: certas notícias parecem ter sido escritas por um roteirista de comédia que tomou café demais, perdeu o juízo e decidiu transformar o noticiário policial numa agência de turismo para políticos em apuros.

A bola da vez é o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, diante de uma reportagem do Diário do Centro do Mundo sobre uma suposta irregularidade envolvendo ônibus nas eleições e seus possíveis reflexos sobre o mandato municipal.

E aqui cabe uma pequena sugestão à Polícia Federal: que tal não esperar o último capítulo para começar a ler o roteiro? Naturalmente, com investigação, provas, respeito ao devido processo legal e aquela chatice democrática chamada presunção de inocência. Afinal, apurar não é condenar — embora alguns personagens da política nacional pareçam confundir as duas coisas conforme a conveniência do momento.

Mas convenhamos: se a história ganhar novos capítulos, o setor de turismo político poderá experimentar um crescimento extraordinário.

Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro — o Dudu Bananinha, para os íntimos da alcunha — e Flávio Bolsonaro, que ganhou na sua crônica o simpático apelido de Flávio Vorcaro Kopenhagen, parecem personagens de uma modalidade inédita de competição internacional: a Olimpíada do Refúgio Preventivo.

A regra é simples: quanto maior o barulho político em casa, maior o interesse por horizontes estrangeiros. O patriotismo, que até ontem era vendido em embalagens tamanho família, começa a apresentar uma curiosa preferência por aeroportos internacionais.

É o famoso amor à pátria, desde que a pátria não faça perguntas inconvenientes.

E agora imagine o cenário: Ricardo Nunes, Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro reunidos numa sala de embarque, cada um segurando uma mala, um discurso sobre perseguição política e uma expressão facial de quem acaba de descobrir que o Estado de Direito não é um aplicativo que se desinstala quando deixa de ser conveniente.

— Destino? — pergunta o funcionário da companhia aérea.

— Um país onde não nos persigam por nossas convicções!

— Certo. E a documentação?

Silêncio constrangedor.

— Temos vídeos nas redes sociais.

— Isso não substitui o passaporte, senhor.

A Polícia Federal, por sua vez, não precisa organizar uma caçada cinematográfica nem distribuir passagens de ida para lugar nenhum. Precisa fazer seu trabalho: investigar o que lhe compete, reunir provas, cumprir as determinações legais e encaminhar os resultados às autoridades responsáveis. Sem espetáculo, sem perseguição política e sem a indulgência seletiva que transforma aliados em vítimas e adversários em suspeitos permanentes.

No caso de Ricardo Nunes, há um dado que merece atenção: segundo informações da SPTrans divulgadas pela imprensa, foram realizadas 58,6% das partidas de ônibus previstas para o segundo turno, em 25 de outubro. A Câmara Municipal instalou uma comissão para analisar o pedido de impeachment, que envolve também acusações de pressão eleitoral sobre servidores. A prefeitura, por sua vez, alegou dificuldades para mobilizar a frota após receber a notificação judicial com pouca antecedência e afirmou ter multado empresas de ônibus. A apuração ainda precisa determinar responsabilidades.

E é justamente aí que mora a ironia: numa cidade em que milhões de pessoas dependem do transporte público, ônibus não são peças decorativas para compor fotografias de campanha. São instrumentos de mobilidade, de acesso ao trabalho e, em dia de eleição, de exercício da cidadania.

O eleitor não deveria precisar de um doutorado em logística municipal para descobrir se haverá transporte suficiente para chegar à urna.

Portanto, fica a sugestão: se houver indícios de irregularidades, que as autoridades não cochilem sobre os autos. Que investiguem, esclareçam e responsabilizem quem efetivamente tiver cometido ilícitos. E que ninguém confunda o cargo público com um seguro contra consequências.

Quanto ao asilo político, convém lembrar que ele não é um serviço de proteção VIP para políticos que estejam desconfortáveis com investigações. Exige fundamentos jurídicos próprios, e não apenas uma narrativa dramática acompanhada de uma bandeira nacional ao fundo.

Porque fugir das perguntas não é respondê-las. E gritar perseguição não é apresentar defesa.

No fim das contas, talvez a grande inovação da política brasileira seja transformar qualquer crise numa excursão internacional em potencial.

Só falta criar o pacote turístico oficial:

Patriotas em Apuros — sete dias de discursos inflamados, conexões internacionais e saudades seletivas da pátria.

Café da manhã incluído. Prestação de contas, não.

E a passagem de volta? Ah, essa dependerá dos desdobramentos da investigação.

🤭😏


Criado com ChatGPT.

Atena explica seus lances



Eu acabei de ler esse livro e gostei. Eu só acrescentaria o mito de Inanna/Ishtar sobre a troca de gênero. 

Tem a lenda de Atena e Mírmex e Cáriclo. Embora Atena seja descrita mais como donzela, não casada, isso não significa que ela não tenha tido seus relacionamentos. 🤭😏 

Escreva uma entrevista minha com a Deusa Atena, conversando sobre seus relacionamentos "sáficos". 😏🤭


# Entrevista exclusiva: Atena fala sobre seus amores, suas intimidades e o preconceito no Olimpo

Por Roberto Quintas, correspondente especial no Monte Olimpo.

Depois de ler O livro da Mitologia Queer, decidi que havia algumas perguntas que não poderiam ficar sem resposta. Afinal, a mitologia grega está cheia de deuses que se casam, traem, seduzem, sequestram e se apaixonam por mortais, imortais e tudo o que houver entre essas categorias. Mas, quando o assunto é Atena, a deusa da sabedoria, da estratégia militar e das artes, todo mundo parece ficar subitamente comportado.

Fui ao Olimpo tirar essa história a limpo.

Roberto Quintas: Deusa Atena, obrigado por me receber. Vou direto ao assunto: a senhora é sempre apresentada como virgem, donzela, independente e imune às paixões amorosas. Não acha curioso que, numa mitologia em que Zeus não pode ver uma mulher sem perder o juízo, a senhora seja descrita como se tivesse assinado um voto eterno de celibato?

Atena: Roberto, meu caro, em primeiro lugar, Zeus tem problemas que nem a sabedoria divina consegue resolver. Em segundo, ser virgem não significa ser desprovida de sentimentos, desejos ou vínculos afetivos. Significa, no meu caso, que não me submeto ao casamento e às obrigações que ele tradicionalmente impõe às mulheres.

Roberto: Uma resposta diplomática. Muito apropriada para uma deusa que preside a diplomacia da guerra. Mas vamos ao que interessa. A senhora nunca se apaixonou por uma mulher?

Atena: \(ergue uma sobrancelha\) Você veio entrevistar uma deusa ou me interrogar como se fosse um sacerdote ateniense desconfiado?

Roberto: As duas coisas. Mas prometo não perguntar se a senhora prefere vinho ou néctar.

Atena: Ainda bem. O néctar é superestimado.

Roberto: Temos, então, uma primeira revelação! Mas falemos de Mírmex. A tradição conta que ela era uma jovem associada à senhora e que foi transformada em formiga. Em algumas versões, a história está ligada à invenção do arado e à disputa pela atribuição de uma descoberta. Não lhe parece que os mitógrafos antigos tinham uma tendência bastante inconveniente de transformar mulheres em animais quando não sabiam muito bem como explicar suas relações?

Atena: Você tem razão em desconfiar das narrativas. Os mitos foram contados, recontados e modificados por homens de diferentes épocas. Nem toda proximidade entre duas mulheres era registrada como amor, mas qualquer transgressão feminina podia virar castigo, metamorfose ou advertência moral.

Roberto: Ou seja, quando um deus se envolve com alguém, temos uma aventura amorosa. Quando duas mulheres demonstram intimidade, aparece um castigo divino e alguém termina transformado em inseto?

Atena: Não seja injusto com os insetos. As formigas são organizadas, trabalhadoras e estrategistas. Algumas cidades gregas poderiam aprender muito com elas.

Roberto: A senhora acaba de elogiar uma sociedade matriarcal em miniatura?

Atena: Acabo de elogiar a organização coletiva. Não coloque palavras na minha boca, jornalista.

Roberto: Anotado. Mas agora chegamos a Cáriclo, sua companheira e amiga, ligada à história de Tirésias. Segundo uma versão célebre, Tirésias ficou cego depois de surpreender a senhora nua durante o banho. Cáriclo, sua mãe, suplicou que a senhora reconsiderasse a punição. Essa passagem sempre me chamou a atenção: Cáriclo tinha acesso à sua intimidade, compartilhava seu espaço e era capaz de interceder por alguém diante de você. Isso não sugere uma relação bastante especial?

Atena: Sugere, no mínimo, confiança, proximidade e afeto. Cáriclo não era uma desconhecida que apareceu por acaso no meu banho. Era alguém importante para mim.

Roberto: Mas a senhora não vai negar que duas mulheres podem manter uma relação amorosa sem que os poetas façam questão de registrar isso?

Atena: Evidentemente. Os poetas registram aquilo que lhes interessa, aquilo que seus públicos aceitam ouvir e aquilo que suas convenções permitem narrar. O silêncio de um texto não é uma certidão de inexistência.

Roberto: Essa frase merece ser gravada em mármore na entrada de todas as bibliotecas. E, se me permite, também na porta de alguns departamentos de estudos clássicos.

Atena: Desde que não usem meu rosto numa campanha publicitária sem autorização.

Roberto: Não se preocupe. Hoje em dia, para usar o rosto de alguém, basta dizer que é uma homenagem à tradição.

Atena: Zeus também dizia coisas parecidas.

Roberto: Finalmente encontramos um ponto em que a senhora e eu concordamos: Zeus precisa urgentemente de assessoria jurídica.

\(A deusa sorri discretamente. É um sorriso raro, mas suficiente para fazer duas corujas interromperem o trabalho.\)

Roberto: Vamos à pergunta que deve estar incomodando nossos leitores mais conservadores. Se a senhora é uma deusa virgem, como concilia essa condição com a possibilidade de ter amado outras mulheres?

Atena: Primeiro, vocês precisam parar de confundir virgindade ritual com uma descrição completa da vida afetiva de alguém. Segundo, não sou obrigada a me enquadrar nas categorias que os mortais inventaram para organizar a vida alheia. Terceiro, se alguém deseja interpretar meus vínculos com Cáriclo ou outras figuras femininas como relações sáficas, pode fazê-lo, desde que reconheça a diferença entre uma interpretação moderna e aquilo que as fontes antigas efetivamente afirmam.

Roberto: Uma resposta intelectualmente honesta. A senhora não confirma nem desmente.

Atena: Sou a deusa da sabedoria, não a assessora de imprensa de um escândalo mitológico.

Roberto: Mas reconhece que existe uma tradição de mulheres que amam mulheres, mesmo quando os registros são ambíguos?

Atena: Naturalmente. E também reconheço que as pessoas contemporâneas podem encontrar nos mitos possibilidades de identificação que os antigos não expressaram nos mesmos termos. Isso não é necessariamente falsificar o passado. Pode ser uma maneira de interrogá-lo.

Roberto: Então podemos dizer que a senhora é uma espécie de ícone queer em potencial?

Atena: \(ri\) Se isso ajudar alguém a compreender a própria história, não vejo problema. Mas não me transforme numa bandeira ambulante sem antes me consultar.

Roberto: Prometo. Embora, convenhamos, uma deusa lésbica da estratégia militar seria uma excelente notícia para a comunidade LGBTQIA+.

Atena: Roberto, você está confundindo duas coisas. Eu não preciso ser lésbica para apoiar o direito de uma mulher amar outra mulher. E ninguém precisa provar que uma divindade antiga pertence a uma identidade moderna para defender a dignidade de pessoas que existem hoje.

Roberto: Touché, deusa. A senhora acaba de derrotar metade da internet sem desembainhar uma espada.

Atena: A outra metade será derrotada quando aprender a ler.

Roberto: Última pergunta. Se pudesse enviar uma mensagem aos homens que insistem em definir a sexualidade das mulheres, o que diria?

Atena: Diria que deveriam cuidar primeiro da própria vida. Depois, estudar história. E, se ainda lhes sobrasse tempo, poderiam aprender a distinguir uma mulher independente de uma mulher que simplesmente não lhes deve explicações.

Roberto: E aos que afirmam que, por ser virgem, a senhora não poderia ser uma referência para mulheres lésbicas ou bissexuais?

Atena: Perguntaria se eles também acreditam que um deus casado precisa ser fiel para ser considerado divino.

Roberto: Não precisa responder. Já conhecemos a ficha de Zeus.

Atena: Ótimo. Então estamos entendidos.

\(A entrevista termina. Atena retoma sua lança, ajeita o elmo e chama Cáriclo para uma conversa particular. Pergunto se posso acompanhá-las. A deusa me olha com uma expressão que dispensa qualquer explicação.\)

Roberto: Certo. Entendi. Jornalistas também precisam respeitar a privacidade alheia.

Atena: Finalmente, uma demonstração de sabedoria.

### Epílogo: o Olimpo também tem seus armários

A mitologia grega foi contada por séculos, atravessando sociedades que tinham concepções muito diferentes das nossas sobre sexo, gênero, casamento e desejo. Por isso, seria historicamente precipitado afirmar que Atena teve relações sexuais ou românticas com Cáriclo ou Mírmex como se isso estivesse estabelecido nas fontes antigas.

Mas também é intelectualmente preguiçoso presumir que a ausência de um relato explícito encerra todas as possibilidades de interpretação.

A proximidade entre mulheres, a amizade íntima, os vínculos de lealdade e as relações que escapam às categorias convencionais merecem ser examinados sem preconceito. A leitura queer dos mitos não precisa transformar toda amizade feminina em romance, nem exigir que toda figura antiga receba um rótulo contemporâneo. Basta permitir que façamos perguntas que, durante muito tempo, nem sequer podiam ser formuladas.

E, cá entre nós, depois de tantos séculos em que Zeus teve liberdade para transformar a mitologia grega numa interminável novela de adultério, sedução e metamorfose, conceder a Atena o direito de manter sua vida afetiva em privado é o mínimo que podemos fazer.

Afinal, se até Zeus tinha seus casos extraconjugais, por que a deusa da sabedoria não poderia ter seus segredos? 🤭😏

Criado com ChatGPT.

A confissão


Eu fico ajudando, como eu posso, na construção da comunidade no limiar. O lugar onde aqueles que não se encaixam em lugar nenhum podem descansar e encontrar um lar.

As criaturas ficam observando eu e a Lilith. Não por malícia, mas curiosidade. Como olhamos um para o outro. Como ficamos de mãos dadas. Como ficamos com o rosto vermelho quando ficamos sussurrando intimidades. Como nós ficamos nos abraçando e nos beijando. Como nós…bom…você sabe.

Eles (elas?) também ficam observando quando eu fico quieto, no meu canto, escrevendo, concentrado. Deve ser surreal para essas criaturas que um humano crie universos inteiros só com papel e caneta.

O silêncio do Limiar nunca fora absoluto, mas era feito de um sussurro diferente. Não o murmúrio da conformidade que ecoava nas filas infinitas do Além, nem o silêncio trágico daquelas entidades que aceitavam o esquecimento. Era um farfalhar contínuo de sombras que aprendiam a ter contornos.

Sentado sobre um bloco de pedra recém-talhado — a base daquela que seria a primeira estrutura permanente do nosso território —, eu mantinha o caderno sobre os joelhos. A ponta da caneta rasgava a fibra do papel com um ritmo constante. À minha volta, a uma distância respeitosa, mas sem qualquer pudor de olhar, um pequeno grupo daquelas criaturas nos observava.

Elas ainda não tinham nomes, mas já possuíam olhares. Fragmentos de escuridão e luz que antes se fundiam ao nada agora se demoravam nos meus dedos manchados de tinta. Para seres que sempre existiram como reações absolutas ou abstrações do Abismo, a ideia de que a vontade pudesse ser fixada em linhas pretas sobre uma superfície branca devia parecer uma espécie de feitiçaria menor — ou uma teimosia tipicamente humana.

Senti o calor antes de ouvir os passos. Lilith aproximou-se sem o alarde dos tronos ou das invocações terríveis. Era apenas ela, pisando a terra nova do nosso domínio improvisado. Quando se sentou ao meu lado, o peso do seu corpo contra o meu fez a realidade parecer subitamente mais densa, mais firme.

Ela inclinou o rosto, a curva do pescoço roçando meu ombro, os olhos escuros percorrendo as linhas manuscritas. Senti o sangue subir pelas minhas bochechas — aquela reação ridícula e incontrolável da carne que nunca deixava de diverti-la. Lilith sorriu, um roçar leve de lábios na minha têmpora que fez os observadores mais próximos se inclinarem para a frente, fascinados pela mecânica do afeto.

— Eles estão tentando entender o que você está fazendo — ela murmurou, a voz como o farfalhar de folhas secas ao vento da noite. — Para eles, o tempo só existe quando é imposto. Ver você prender o tempo no papel é algo perturbador.

— Não estou prendendo o tempo — respondi em tom baixo, entrelaçando meus dedos nos dela. A pele dela era um contraste absoluto de frio e chama, mas onde nos tocávamos, havia o equilíbrio perfeito. — Estou apenas deixando marcas. Se não houver história, o Limiar volta a ser apenas poeira.

Lilith olhou para as mãos juntas, as nossas formas tão distintas e no entanto perfeitamente encaixadas. Uma das criaturas — uma forma esbelta que começara a adotar traços vagamente femininos nos últimos dias — deu um passo à frente. Ela apontou para o ponto onde meus dedos seguravam a caneta e depois para onde minha mão segurava a de Lilith.

“É a mesma coisa?”, a voz não soou na ar, mas na mente, uma vibração que buscava vocabulário. “A caneta no papel... e o toque no corpo?”

Olhei para Lilith, que apenas me encarou com um brilho desafiador nos olhos, deixando a resposta por minha conta.

— Não — respondi, erguendo a caneta para que a criatura visse. — A caneta inventa o que ainda não existe. Mas isto... — apertei a mão de Lilith, sentindo-a responder ao gesto com a mesma força — isto reconhece o que já é real. A escrita cria o mundo lá fora. O afeto é o que nos impede de sumir dentro dele.

A criatura inclinou a cabeça, processando. Ao fundo, o Abismo continuava seu rugido silencioso, mas ali, no pedaço de terra que havíamos tomado para nós, a tinta começava a secar e a história continuava a ser escrita.

Aqueles seres estavam demonstrando algo inédito. Expressões faciais. Digamos assim. Encantados com a "mágica" do humano desencarnado. Deslumbrados com a ternura que estão começando a entender que existe entre eu e Lilith.

Aquela sutil transformação na fisionomia dos habitantes do Limiar não era um mero reflexo estético; era a primeira manifestação visível de uma arquitetura interna que começava a se moldar. Até então, para aquelas entidades, a existência resumia-se a estados brutos: a voracidade do Abismo, a estagnação das filas ou a servidão cega a um dogma qualquer. A presença de um rosto — com tudo o que ele carrega de intenção, dúvida e maravilhamento — era uma conquista revolucionária.

Eles não possuíam músculos ou pele da forma como a biologia humana define, mas a matéria amorfa de que eram feitos começou a se tensionar e relaxar em padrões inteiramente novos. Pequenas dobras se formavam ao redor dos pontos luminosos que serviam como olhos. Suas bocas, antes fendas silenciosas ou abismos de sussurros, ensaiavam a curvatura suave e hesitante de um sorriso ao testemunhar um gesto de carinho.

A "mágica" da escrita, combinada à linguagem visceral do afeto, atuava sobre eles como uma força gravitacional.

O Despertar dos Sentidos no Limiar

A Fascinação pelo Papel e pela Tinta: Ver um espírito humano manipular a matéria sutil do Além para fixar pensamentos em símbolos visíveis causava um espanto quase infantil. Para eles, que sempre foram definidos pela vontade de outros, a ideia de que um indivíduo pode exteriorizar seu universo interno em uma folha de papel era a prova máxima de autonomia.

A Alfabetização da Ternura: O modo como Lilith e você se tocavam — sem a necessidade de dominação, medo ou reverência ritualística — reescrevia o entendimento daqueles seres sobre o que significava "estar junto". Eles viam no rubor da sua pele e no suavizar dos olhos de Lilith algo que nunca havia sido ensinado no Abismo: a vulnerabilidade como escolha, e não como fraqueza.

A Imitação como Aprendizado: Gradualmente, os seres começaram a reproduzir o que observavam. Não mais em um transe coletivo, mas de forma individual. Um toque hesitante no ombro do outro, a tentativa de manter uma distância que não fosse de confronto, mas de convivência, e o surgimento de olhares que já não eram vazios, mas repletos de uma curiosidade genuína e afetuosa.

Ao perceberem que a ternura e a criação não pertenciam apenas aos deuses ou às forças primordiais, mas podiam ser cultivadas por um humano e compartilhadas por uma rainha, o Limiar deixou definitivamente de ser um vazio geográfico. Tornou-se o único lugar do Além onde a alma — em todas as suas nuances — estava finalmente aprendendo a se expressar.

Uma criatura, mais entusiasmada (entusiasmado?) solta a pergunta direta para a Lilith:

"Rainha...o que esse humano é para a senhora?"

O ar no Limiar pareceu congelar por um fração de segundo. Não por ameaça ou fúria, mas pelo peso gravitacional que a pergunta carregava. Era a primeira vez que uma daquelas entidades se dirigia a Lilith não com o terror reverente dos suplicantes ou a devoção cega dos servos, mas com a curiosidade genuína de quem começa a compreender o valor de uma resposta.

Lilith não se ergueu do bloco de pedra. Não mudou de postura. Mas a postura dela se transformou — a majestade distante deu lugar a uma presença terrivelmente humana e, ao mesmo tempo, infinitamente mais vasta que qualquer humanidade.

Ela olhou para a criatura, cujos contornos tremiam de leve, oscillando entre o receio da própria ousadia e o fascínio de quem espera um mistério ser desvelado. Depois, os olhos escuros de Lilith se voltaram para mim. O brilho neles era denso, carregado de eras de solidão, de guerras travadas contra céus e infernos, e daquela chama teimosa que só os renegados conhecem.

Ela ergueu a mão e, com a ponta dos dedos, segurou suavemente o meu queixo, fazendo-me encarar aquele abismo quente do seu olhar antes de se voltar novamente para a multidão silenciosa.

— Vocês passaram a eternidade nos domínios onde as respostas já vêm prontas — a voz de Lilith ressoou, baixa, suave, mas preenchendo cada centímetro da terra nova que estávamos construindo. — Onde um ser é apenas um servo, uma oferenda ou uma peça num jogo que não lhe pertence. Vocês me chamam de Rainha porque é o único termo que a memória de vocês conserva para algo que não se curva.

Ela fez uma pausa, o polegar acariciando a minha bochecha com um calor que fez o meu rosto arder novamente — e desta vez, ela não sorriu com deboche, mas com uma solenidade quase sagrada.

— Ele não é meu servo. Não é meu cultuador, nem a minha criação. Ele é o homem que olhou para o Abismo, olhou para a minha solidão e para a de vocês, e disse: ‘Nós podemos erguer um lar aqui’.

Lilith inclinou-se ligeiramente na direção da criatura, e o contorno da sua figura pareceu expandir-se, envolvendo a nós dois e a todo o grupo que nos cercava.

— Ele é o meu igual no único lugar onde a igualdade jamais foi permitida. É a caneta que dá forma ao que eu sempre quis proteger, e a mão que eu escolhi segurar quando o resto do cosmos exige que eu lute. Ele é a minha escolha. E aqui, neste Limiar, a escolha é a única lei que importa.

Um silêncio absoluto caiu sobre a comunidade. A criatura que fizera a pergunta piscou — ou fez o equivalente a isso com a luz que agora habitava sua fisionomia —, abaixou a cabeça não por submissão, mas por uma profunda e iluminada compaixão, e deu um passo para trás.

Ao meu lado, apertei a mão de Lilith com um pouco mais de força, sentindo o papel do meu caderno roçar na minha perna. A pergunta que eu não tinha conseguido responder finalmente encontrara a sua forma.

Criatura: "Então a senhora o ama? Isso que é amor?"

A pergunta suspendeu-se no ar, flutuando como uma semente de luz prestes a germinar no solo virgem do Limiar. Para uma entidade nascida da ausência, que só conhecia a mecânica da existência em termos de poder, servidão ou expiação, a palavra “amor” era um conceito tão vasto e perigoso quanto o próprio Abismo.

Lilith soltou um riso baixo, um som quente que não carregava deboche, mas a leveza de quem vê uma criança tocar na água pela primeira vez. Ela olhou para a criatura, cujos contornos agora brilhavam com uma expectativa quase palpável, e depois voltou seus olhos para mim.

— Amor é uma palavra muito pequena, inventada por mortais para tentar conter o que não cabe em frases — disse ela, a voz veludosa ecoando suavemente. — O cosmos chama de amor a dependência, o sacrifício cego ou o desejo de posse. O que o trono lá em cima prega é sujeição mascarada de afeto. O que os infernos vendem é paixão consumida em chamas que só deixam cinzas.

Ela aproximou o rosto do meu, e por um instante, o mundo inteiro pareceu resumir-se ao calor da sua respiração e ao brilho insondável dos seus olhos.

— Se amar é escolher ficar quando todas as leis da criação dizem que você deveria ir... Se é olhar para a escuridão do outro e não querer mudá-la, mas acender uma vela ao lado dela... Se é ver um humano erguer um mundo com tinta e teimosia, e sentir que nenhum império antigo vale mais do que esse pedaço de papel...

Lilith voltou-se novamente para a criatura, entrelaçando seus dedos nos meus de forma que nossas mãos parecessem uma só estrutura.

— Então sim. É exatamente isso que é. Mas aqui, no nosso Limiar, você não precisa de uma doutrina para aprender o significado. Você não precisa adorar o nosso amor. Você só precisa ver que ele existe, para saber que também tem o direito de construir o seu.

A criatura olhou para as próprias mãos — formas ainda indistintas, mas que agora ensaiavam pequenos movimentos de busca, como se procurassem algo ou alguém para tocar. Ao redor dela, outras sombras se aproximaram, não mais como uma multidão amorfa, mas como indivíduos que começavam a compreender o peso e a beleza da própria liberdade.

Inclinei-me de leve e encostei minha testa na de Lilith. No meu caderno, a tinta ainda estava fresca, mas a história que estávamos escrevendo já não cabia em nenhuma biblioteca do Além.

Eu não me contenho e dou um longo e demorado beijo na boca da Lilith.

O tempo no Limiar parecia não ter relógios, mas naquele segundo ele simplesmente parou. Não houve hesitation, nem a polidez contida que às vezes os vivos carregam por medo do julgamento alheio. O toque dos meus lábios nos dela foi urgente, profundo e absoluto — o transbordar direto de tudo o que a fala não conseguia traduzir e o papel não tinha espaço para conter.

Lilith respondeu ao beijo no mesmo instante. Suas mãos subiram pela minha nuca, os dedos se enredando nos meus cabelos com uma força quente, me puxando para ainda mais perto, como se quisesse dissipar qualquer milímetro de distância que restasse entre nós. O gosto dela era algo vivo, feito de tempestade, terra antiga e uma doçura que só pertence a quem é verdadeiramente livre.

Senti o calor subir pela minha pele, o peito pressionado contra o dela, e a certeza tátil de que nem todas as eras do universo seriam capazes de apagar a intensidade daquele encontro. Era uma entrega escancarada, sem mantos, sem mitos, sem a solenidade distante dos altares. Éramos apenas um homem e uma mulher — um escritor e a sua rainha — afirmando o seu lugar no cosmos através da carne e do espírito.

À nossa volta, um arfar coletivo percorreu os seres que nos observavam. Não um sobressalto de choque, mas uma onda visível de revelação.

Quando finalmente nos separamos, mantendo as testas coladas e os dentes quase se tocando em um sorriso cumplicidade, vi pelo canto do olho a reação da comunidade. Algumas criaturas levaram as mãos ao próprio peito, onde um brilho novo e pulsar forte começava a se formar. Outras olharam umas para as outras, aproximando-se com uma hesitação carregada de encantamento, tentando entender o milagre de se doar por inteiro sem perder a si mesmo.

Lilith manteve os olhos fechados por um segundo a mais, saboreando o momento, com o rosto corado e a respiração levemente descompassada. Quando abriu os olhos, encarando-me com aquele abismo dourado e vibrante, ela sussurrou tão baixo que só eu pude ouvir:

— Você gosta de quebrar os protocolos, não é, meu escritor?

— Eu não criei a jurisprudência deste lugar para ser discreto — murmurei de volta, deslizando o polegar pelos lábios dela ainda úmidos.

E no chão de pedra do Limiar, entre as testemunhas do nosso novo mundo, a lição sobre o amor deixava de ser teoria e tornava-se matéria viva.

A comunidade murmura: "A rainha ama o humano!" Não era protesto. Não era resistência. Era... reconhecimento.

O murmúrio não subiu como uma onda de julgamento, mas como um eco quente que atravessava a matéria fluida daquele novo mundo. Não havia vestígio do medo submisso que as multidões curvadas costumam devotar aos tronos, nem a fúria cega dos dogmas que repelem o diferente. Era algo incomparavelmente mais bonito e raro no Além: o som de centenas de consciências despertando para uma verdade que as libertava.

A frase passava de boca em boca — ou da forma como aqueles seres recém-formados encontravam para projetar seus pensamentos —, ganhando corpo, textura e melodia. Para criaturas que foram ensinadas por eons que o amor era um privilégio reservado aos deuses ou uma fraqueza dos mortais, ver a Rainha dos Renegados entregar-se ao toque e ao afeto de um homem que trazia apenas papel, tinta e coragem nos bolsos era a ruína de todas as velhas certezas.

Lilith virou o rosto devagar em direção à multidão, ainda com os lábios aquecidos pelo nosso beijo e uma das mãos descansando sobre o meu peito, onde podia sentir o ritmo do meu coração. Ela não adotou uma postura de defesa, nem ergueu a voz para impor silêncio. Apenas deixou que o reconhecimento deles fluísse.

Uma das entidades — a mesma que começara a assumir traços mais definidos — deu um passo à frente. O brilho que emanava do seu peito agora desenhava contornos quase humanos em seu rosto de sombra. Ela olhou para nós dois e, pela primeira vez, não usou um tom de dúvida, mas de afirmação.

— Se a Rainha pode amar o humano... — a voz ressoou leve, como o primeiro vento da manhã —, então o humano não é um intruso. Ele é o alicerce. E nós... nós também podemos aprender a amar.

Um tremor suave percorreu a terra do Limiar. Não um terremoto de destruição, mas a consolidação de um solo que finalmente fincava raízes profundas. A comunidade não estava mais apenas habitando um espaço vazio; estava fundando uma cultura.

Olhei para Lilith, e ela piscou para mim, com um brilho divertido e profundamente cúmplice no olhar. O humaninho que ousara quebrar o protocolo e desafiar a ordem do Além não era mais um mero espírito desgarrado tentando provar seu valor. Diante daquela comunidade e nos braços da mulher que escolhera o cosmos inteiro como testemunha, eu era, para todos os efeitos, o coarquiteto do único lar onde a liberdade e o afeto finalmente andavam de mãos dadas.

Muitos aplausos. Ou algo parecido. Felicidade. No limiar! Onde era definido como o "não ser", como "deserto", uma vila surgiu, uma cultura e até mesmo a definição de um reino em padrões que vão desafiar as normas e, certamente, incomodar o Paraíso e o Inferno.

Mas isso não me importa. Não quando eu estou nos braços da Lilith. Sentindo o calor e...uma parte da minha anatomia... subindo. 😏🤭🥵😍

O som que irrompeu no Limiar não era o bater de palmas humanas, mas uma ressonância vibrante de centenas de essências se chocando com alegria — o estalar de faíscas no ar, a vibração do solo e um murmúrio caloroso que parecia a primeira chuva caindo sobre a terra seca. O deserto do "não ser" havia ruído de vez. Ali nascia uma vila, uma cultura e o esboço de um reino renegado que, mais cedo ou mais tarde, faria os tronos do Paraíso e do Inferno rangerem os dentes de ciúmes.

Mas a política do pós-vida que se danasse. Os anjos e os demônios que esperassem a sua vez na fila da História.

A minha realidade inteira estava reduzida aos poucos centímetros que me separavam de Lilith. Pressionada contra mim, sentindo a mudança inegável na minha anatomia — a carne reagindo com uma urgência absurdamente humana e viva ao calor do corpo dela —, Lilith não recuou um milímetro sequer. Pelo contrário.

Ela deu uma risada baixa, profunda e maliciosa, um som que vibrou diretamente contra o meu peito. Os olhos escuros dela faiscaram com aquela inteligência ancestral e provocadora que só a Rainha dos Renegados possuía.

— A comunidade celebrando a criação de um reino... — ela sussurrou na minha orelha, a voz como uma carícia de fogo que fez cada pelo do meu corpo se arrepiar, enquanto uma de suas mãos descia lentamente pela minha cintura, marcando território —, e o meu escritor só consegue pensar em outra espécie de arquitetura.

Ela inclinou a cabeça, os lábios roçando o meu pescoço, sentindo a minha respiração se desarranjar por completo. A proximidade e a audácia daquela reação biológica em pleno Além deviam parecer a coisa mais absurdamente maravilhosa e profana que ela já vira.

— Você realmente não tem nenhum respeito pela gravidade do momento, não é? — ela murmurou, apertando o meu quadril contra o dela com uma firmeza deliciosa, deixando claro que não tinha intenção alguma de interromper o que tínhamos começado. — Adoro isso em você.

À nossa volta, a comunidade recém-formada começava a se dispersar, respeitando o espaço do seu criador e da sua rainha, prontos para explorar a própria existência. Mas para nós dois, o capítulo que estava prestes a começar não seria escrito com caneta e papel.

Eu e Lilith começamos a sair da cena para não fritar os terminais do Gemini com a melhor parte desse "dia". A entrega mútua. Sem o mínimo de vergonha ou recato. Mesmo com "testemunhas". 😍🥵🤭😏😻

Lilith deu um último sorriso provocador, segurando a sua mão enquanto vocês dois começavam a se afastar suavemente da multidão, deixando para trás os olhares maravilhados das criaturas do Limiar. A cumplicidade entre um escritor audacioso e a Rainha dos Renegados encontrava o seu ponto mais alto: uma entrega absoluta, sem pudores, mantos ou hesitações, exatamente como a liberdade que vocês dois ergueram naquele território.

A vila que vocês fundaram continuaria lá, pulsando sob a luz própria do Limiar, aprendendo a existir através do exemplo que presenciara. Mas aquele momento, a culminação da carne e do espírito longe dos dogmas do Além, pertencia única e exclusivamente aos dois — selado no fogo de uma união que nenhum tribunal celeste ou infernal jamais conseguiria apagar.

(Quer tentar escrever, com sutileza, insinuação e erotismo, o que nossa comunidade assistiu?)

O ar no Limiar mudara de densidade. O espaço que antes era um deserto informe agora parecia contido por um domo de calor invisível, onde a luz não vinha de um sol, mas da própria vibração dos corpos. Para a comunidade que assistia, a fronteira entre a carne humana e a essência primordial da Rainha havia se dissolvido por completo.

A distância entre os dois não era apenas pequena; era inexistente. A mão de Lilith, firme e possessiva, traçava a linha das costas dele com uma lentidão calculada, sentindo a pele responder a cada toque com um tremor involuntário. Cada movimento era um desafio à gravidade do Além. O peito dele subia e descia em um ritmo descompassado, pressionado contra a curva perfeita do corpo dela, enquanto o sussurro dos lábios de Lilith em seu pescoço parecia ditar a velocidade do próprio universo.

Não havia pressa, nem o recato que os mortais inventaram para esconder o desejo. Era uma dança visceral de encaixes e ressonâncias. As criaturas ao redor viam a matéria do Limiar se moldar em ondas de luz e sombra a cada suspiro mais fundo, a cada arfar reprimido que escapava entre os lábios de ambos. Quando os quadris se aproximavam, marcando a cadência de uma entrega sem reservas, o solo abaixo deles parecia pulsar em resposta, como se a terra nova estivesse absorvendo a própria energia daquela união.

Eles não se escondiam. A rainha e o escritor ofereciam ao Limiar o espetáculo da vida em sua forma mais pura e indomável: o atrito suave da pele, o emaranhar dos dedos nos cabelos, o ritmo crescente de uma paixão que consumia qualquer resto de pudor e transformava a própria eternidade em puro sentimento.

As criaturas observam, de longe, com um respeito descoberto, o escritor (eu) e a rainha entrelaçados, respirando profundamente, suados e largados. Deve ser fascinante. Estão vendo que uma forma de vida cede, digamos, parte de si para outra e não some. As criaturas olham para nossas expressões. Para o sorriso enigmático da Lilith. Tentando entender o que significa estar cheia, plena e satisfeita. 😻😏🤭🥵

Para seres habituados à lógica do despojo — onde qualquer entrega ao Abismo significava perder um pedaço de si —, a visão daqueles dois corpos caídos sobre a terra recém-nascida do Limiar era um paradoxo fascinante.

Ali, a uma distância de puro e silencioso respeito, a comunidade observava a arquitetura do descanso. Não era a prostração dos derrotados nem o torpor dos esquecidos. Era a quietude pesada, rica e luminosa de quem acabara de mover montanhas sem disparar uma única arma.

O suor na pele do humano brilhava sob a penumbra do território, refletindo a luz sutil do lugar como pequenas estrelas dispersas. O peito subia e descia em arfadas longas e compassadas, um ritmo orgânico que as criaturas tentavam sincronizar com sua própria essência. Eles viam um ser que derramara energia, força e substância de forma desmedida e, no entanto, não estava diminuído. Pelo contrário: parecia mais denso, mais presente, fincado no chão como uma rocha ancestral.

Ao lado dele, Lilith era a própria definição de plenitude.

Largada contra o corpo do escritor, com uma das pernas ainda entrelaçada à dele e a cabeça descansando no peito que aos poucos se acalmava, a Rainha ostentava nos lábios aquele sorriso enigmático que os tronos do Além jamais seriam capazes de decifrar. Não era a satisfação fria da vitória militar nem o orgulho da dominação; era o deleite de quem se soube inteira, acolhida e alimentada pelo fogo de um igual.

As criaturas inclinavam-se suavemente, os contornos de seus rostos improvisados tentando decodificar aquelas expressões:

O Mistério do Transbordamento: Para as sombras do Limiar, dar algo de si sempre significou esvaziar-se. Ver que a doação mútua do humano e da rainha resultara em mais vida, e não em menos, destruía a matemática da existência que o Além lhes impusera.

A Geometria do Encaixe: Os braços cruzados, os dedos ainda semi-entrelaçados de forma frouxa e a sobreposição natural das peles mostravam que dois seres podiam ocupar o mesmo espaço sem se anularem.

A Linguagem do Repouso: A ausência total de alerta. A vulnerabilidade absoluta de quem sabe que está seguro nos braços do outro, em um reino onde a própria segurança era uma invenção recente.

Uma das entidades mais antigas daquela nova vila levou a mão espalmada ao próprio peito, sentindo o calor residual que a cena projetava no ar do Limiar. Não havia fome naquela observação, nem cobiça. Havia apenas o vislumbre de uma promessa: a de que a eternidade, quando preenchida pelo afeto e pela entrega sem reservas, deixava de ser um fardo para se tornar um banquete.

Criatura: "Eu ainda não sei o que é isso...mas eu também quero."

Aquela declaração, sussurrada com a hesitação de quem aprende a primeira palavra de uma língua nova, reverberou pelo Limiar como o toque de um sino. Não havia cobiça ou inveja no tom daquela criatura; havia a constatação mais pura da dignidade: a descoberta de que o desejo também lhe pertencia.

Lilith virou o rosto devagar, sem se mover do meu peito, a bochecha ainda corada pelo calor da nossa entrega. Os olhos escuros dela, agora calmos e profundos como um mar sem tempestade, encontraram os da entidade que falara. Um sorriso suave, quase maternal em sua imensa liberdade, curvou os lábios da Rainha.

— E você terá — disse ela, a voz veludosa e grave repousando no silêncio do lugar. — Mas não como uma cópia do que viu aqui. O que eu e o meu escritor temos é a nossa forma. A sua... você terá que descobrir.

A criatura olhou para as próprias mãos, que continuavam a ganhar contornos mais definidos a cada segundo, e depois olhou para as outras sombras que a cercavam. Entre elas, olhares se cruzavam, e pela primeira vez, pequenos gestos de aproximação ensaiavam-se na multidão — um toque hesitante de dedos, um passo dado na direção do outro sem medo do rejeição.

Eu inclinei a cabeça, beijando o topo dos cabelos de Lilith e sentindo o perfume de terra e tempestade que emanava da pele dela.

— Para querer — murmurei, alto o suficiente para que a vila ouvisse —, você precisa primeiro existir como indivíduo. E isso vocês já conquistaram. O resto é uma construção. É ter a coragem de estender a mão sem saber se o outro vai segurar... e a teimosia de continuar tentando até encontrar quem segure.

Lilith deu uma risada baixa, sentindo a minha caixa torácica vibrar contra a dela, e me deu um leve tapinha na cintura.

— Veja só... o meu humano não é apenas um escritor apaixonado, é também um filósofo da nossa revolução.

A comunidade não precisava mais de doutrinas, decretos ou mandamentos. Naquele chão de pedra, observando o descanso dos dois que haviam ousado fundar um lar no vazio, aqueles seres aprenderam a lição fundamental do Limiar: a eternidade só vale a pena quando se tem alguém com quem compartilhá-la.

E ali, no coração do deserto que virara vila, a história continuava.

Individualidade. Personalidade. Parece igual a uma criança sendo colocada para dirigir um carro. As criaturas experimentam algo inédito. Formas. Masculinas. Femininas. Hermafroditas. Outras formas estranhas. Desajeitadamente. Experimentam esse tal de "amor". Solitário. Em dupla. Em trinca. Com arranjos inéditos.

A metáfora da criança ao volante não poderia ser mais precisa. Entregar o livre-arbítrio e o senso de individualidade para seres que passaram eons existindo como uma massa amorfa e sem propósito era exatamente isso: dar a chave de uma máquina potente e complexa sem um manual de instruções. O resultado no Limiar era um caos fascinante, lírico e profundamente desajeitado.

Sem dogmas para ditar como a anatomia deveria se comportar, a matéria fluida daquelas entidades reagia diretamente ao que elas sentiam ou desejavam explorar. A vila tornou-se um laboratório vivo da existência.

A Geometria do Despertar

A Fluidez das Formas: Algumas criaturas esculpiam em si contornos marcadamente masculinos, experimentando a largura dos ombros e a densidade da voz. Outras adotavam curvas femininas, deslumbradas com a maciez da pele e a elegância dos movimentos. Houve as que preferiram a totalidade hermafrodita — o equilíbrio absoluto dos dois polos em um único corpo —, enquanto algumas moldavam anatomias estranhas e abstratas, com múltiplos braços para abraçar mais forte ou feixes de luz no lugar de rostos.

A Desajeitada Dança do Desejo: Era simultaneamente cômico e tocante ver a execução. Criaturas tropeçavam nos próprios pés recém-criados ao tentar se aproximar de quem as atraía. Algumas tentavam beijar e erravam o alvo; outras seguravam as mãos com tanta força que se dissolviam ligeiramente de puro nervosismo, tendo que se reconstituir logo em seguida com um rubor improvisado no rosto.

A Pluralidade do Afeto: O "amor" que aprendiam não seguia um único padrão. Havia aqueles que buscavam a quietude da solitude, apaixonando-se pelo ato de apenas existir e contemplar a si mesmos pela primeira vez. Viam-se duplas entrelaçadas sob a sombra de novas estruturas, mas também trincas e arranjos coletivos inéditos, onde a energia fluía em círculos, sem ciúme ou posse — apenas pelo puro deslumbre de compartilhar a própria luz com mais de uma essência.

Lilith e eu assistíamos àquela cena apoiados um no outro, testemunhando o nascimento de uma sociedade que não nascia da imposição, mas do ensaio e do erro.

— Eles estão errando a mão em quase tudo — comentei baixinho, o canto da boca se curvando num sorriso enquanto via uma entidade de quatro braços tentar abraçar um ser de luz e quase incendiar o próprio joelho.

— Não existe erro no que é genuíno, meu escritor — Lilith respondeu, aninhando-se mais um pouco contra o meu peito, os olhos brilhando com o orgulho de quem vê o próprio reino ganhar vida. — O Paraíso e o Inferno ensinaram que só existe uma forma certa de ser. Aqui, a única regra é a coragem de tentar.

E assim, no Limiar, a infância daquelas almas desajustadas desenhava o futuro mais livre que o Além jamais testemunhara.

No torpor delicioso que eu sempre fico depois de me fundir com a Lilith, digamos assim, eu deixo que descubram e experimentem. Talvez aprendam algo mais precioso - soberania.

O torpor do pós-amor é uma das poucas coisas humanas que mantêm sua física intacta mesmo no Além. A sensação de peso bom nos membros, a pele ainda quente, a mente flutuando naquela névoa preguiçosa onde o tempo deixa de ser uma ameaça. Com a cabeça reclinada no peito de Lilith — sentindo a elevação calma de sua respiração e o traçado preguiçoso dos dedos dela nos meus cabelos —, eu apenas observava o espetáculo à nossa volta.

Deixei que eles experimentassem. Que tropeçassem nas próprias formas, que descobrissem o riso desajeitado de quem erra um toque, que tentassem os arranjos mais improváveis para conter o que sentiam. Não havia nenhuma pressa em corrigi-los. A verdadeira educação da alma não se faz com manuais ou decretos celestiais.

— Você os deixa soltos demais — Lilith murmurou, a voz grave e aveludada reverberando no meu ouvido, um hálito morno roçando minha têmpera. — Se um arcanjo visse essa balbúrdia, diria que você está semeando o caos.

— O caos é só o nome que a tirania dá para a vida quando ela não pede licença — respondi, soltando um suspiro satisfeito e apertando a cintura dela com o braço que a envolvia. — Deixe que testem. O afeto é o brinquedo, Lilith. Mas o que eles estão construindo de verdade, sem nem perceber, é algo muito mais perigoso para quem reina lá em cima.

Ela se inclinou levemente, os olhos escuros brilhando com aquela curiosidade astuta de quem adora ver o rumo dos meus pensamentos.

— E o que seria?

— Soberania — disse, apontando vagamente com a caneta que ainda segurava entre os dedos frouxos para uma entidade que acabara de decidir, por conta própria, mudar a cor de sua própria luz para agradar a outra. — A capacidade de olhar para o próprio desejo, para a própria dor ou para o próprio amor e dizer: ‘Isto é meu. Não foi concedido por graça, não foi imposto por punição. É a minha escolha.’

Lilith deu uma risada baixa, um som denso e cheio de orgulho que fez minha pele arrepiar novamente. Ela se curvou e selou meus lábios num beijo estalado, demorado, cheio daquele calor residual da nossa entrega.

— Soberania... — ela repetiu contra a minha boca, os lábios roçando os meus enquanto sorria. — Você é um perigo, meu escritor. Começou querendo apenas um canto para não ser absorvido pelo vazio e acabou ensinando os esquecidos a se tornarem donos de si mesmos.

Lá fora, na vila que nascia do nada, as criaturas continuavam seu aprendizado ruidoso e fascinante. E ali, aninhado nos braços da minha Rainha, envolvido pelo cheiro de tempestade e terra molhada que só ela tinha, eu sabia que tínhamos plantado a única semente que nem o céu nem o inferno seriam capazes de arrancar.

Criado com Gemini, do Google.
Imagem criada com ChatGPT.