Conversa com o Gemini:
You said
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-a-paulada-de-boulos-nos-lacradores-da-esquerda-de-apartamento/
Eu gosto do Guilherme Boulos. Mas eu fiquei cabreiro e confuso. Então ele é contra a crítica, não quer "superegos" ditando quem é ou não é de esquerda... fazendo exatamente isso?
Comente.
Gemini said
Entendo perfeitamente o teu dilema. Como alguém que se identifica como liberal, mas que também preza pela liberdade sexual, educação inclusiva e o respeito às matrizes religiosas africanas e ao paganismo, tu estás num espectro que valoriza a autonomia individual e a diversidade de pensamento. É natural que soe contraditório ver um líder político criticar o "patrulhamento" alheio fazendo, aparentemente, o seu próprio patrulhamento.
A "paulada" a que o vídeo (e o artigo do DCM) se refere foca num ponto central da estratégia política atual do Boulos: a distinção entre a esquerda teórica/acadêmica e a esquerda popular/pragmática.
Aqui estão alguns pontos para te ajudar a processar essa confusão:
1. O paradoxo da "crítica à crítica"
O que o Boulos está a fazer é uma disputa de narrativa interna. Quando ele fala contra os "superegos" ou a "esquerda de apartamento", ele está a atacar o que chama de purismo ideológico.
O argumento dele: Setores da esquerda que não estão "na lama" (nos movimentos de moradia ou na periferia) usariam a teoria para barrar qualquer avanço real que exija concessões ou diálogos com o centro.
A tua dúvida: Sim, ao rotular esses críticos como "lacradores" ou "esquerda de apartamento", ele está a exercer um julgamento de valor. É o clássico "estou a ditar que tu não deves ditar". Para quem vê de fora, parece que ele está a criar uma "hierarquia de legitimidade": só tem direito a criticar quem está na base.
2. Pragmatismo vs. Pureza
Para um escritor e pagão moderno como tu, que provavelmente lida com a marginalização de ideias e crenças, a palavra "heresia" (que usas para te descrever) é interessante aqui. Boulos está a ser visto como um "herege" por uma ala mais radical da esquerda justamente por se aproximar do sistema (Lula, alianças amplas). Ao atacar os "lacradores", ele tenta desviar a pecha de radical que a direita lhe impõe, mostrando que ele é "razoável" e focado em resultados, e não em debates identitários ou teóricos de Twitter.
3. A questão do "Superego"
O uso do termo "superego" é uma alfinetada psicológica. Ele sugere que esses críticos agem como uma autoridade moral repressora que impede a esquerda de ganhar eleições porque exige uma perfeição que não existe na vida real.
O problema: Se ele silencia a crítica interna chamando-a de "lacração", ele corre o risco de criar uma câmara de eco onde apenas a sua visão de "esquerda popular" é válida.
Como interpretar isso?
Se tu gostas do Boulos, talvez o que te atraia seja a coragem dele em enfrentar tabus. No entanto, o que viste nesse vídeo é o Boulos Político, que precisa de votos de quem não é de esquerda. Para conquistar o eleitor médio, ele precisa de se distanciar do estereótipo do "estudante de humanas que reclama de tudo".
É uma estratégia de sobrevivência eleitoral: sacrificar a harmonia com a "bolha" acadêmica para tentar falar com o trabalhador que não entende (ou não se importa com) o vocabulário da esquerda universitária.
Conclusão: Tu não estás louco por ver uma contradição. Existe, de facto, uma tensão entre pregar a unidade e, ao mesmo tempo, usar termos pejorativos para desqualificar críticos internos. A questão é se tu achas que esse "sacrifício" da polidez interna é necessário para que a esquerda consiga governar de forma mais inclusiva e livre, como tu defendes.
You said
Uma reunião popular não é necessariamente de esquerda, basta lembrar que o brasileiro é conservador e quase metade é de direita.
Então quando um líder assume ou se empenha em uma iniciativa como do MST, não está querendo direcionar a iniciativa para uma teoria política que ele está criticando?
Gemini said
Essa é uma observação muito perspicaz e toca na ferida do debate político atual no Brasil. Você tem razão: o fato de um movimento ser "popular" ou de massa não o torna automaticamente "de esquerda" nos moldes clássicos ou acadêmicos.
O que o Boulos parece estar tentando fazer — e que causa essa confusão que você sentiu — é uma manobra de reapropriação do conceito de "popular". Vamos analisar por esses dois ângulos que você propôs:
1. A contradição: Criticar a teoria, mas impor uma direção
Você pontuou bem: ao liderar ou apoiar iniciativas como as do MST (ou do MTST, no caso dele), ele está, sim, aplicando uma teoria política (o socialismo, a reforma agrária popular, o direito à cidade).
Quando ele critica os "superegos de apartamento", ele não está criticando a teoria em si, mas sim a forma como ela é comunicada. O argumento dele é:
A "Esquerda de Apartamento": Fica presa a termos técnicos, identitarismo radical e cancelamentos, o que afasta o brasileiro médio (que, como você disse, é muitas vezes conservador e religioso).
A "Esquerda do Boulos": Quer focar na "cozinha sólida", no prato de comida, no teto. Ele usa a estrutura teórica para organizar o movimento, mas tenta "limpar" o discurso para que ele pareça pragmático e não ideológico.
O risco, como você notou, é que ele acaba fazendo exatamente o que critica: ele dita que a "única esquerda válida" é a que ele representa, tentando empacotar uma ideologia profunda como se fosse apenas "senso comum popular".
2. O Brasileiro Conservador e a Disputa de Base
Você mencionou um ponto fundamental: o Brasil é majoritariamente conservador. Líderes como o Boulos sabem que, se a esquerda continuar falando apenas para quem leu os mesmos livros que eles, ela nunca terá maioria.
O MST como ferramenta: Para o Boulos, o MST não é apenas uma teoria de ocupação de terras; é uma forma de provar que a esquerda pode produzir alimentos, organizar pessoas e resolver problemas que o Estado não resolve.
A "Direção": Ele está tentando direcionar o descontentamento desse brasileiro (que pode até ser conservador nos costumes, mas sofre com o preço dos alimentos e do aluguel) para uma solução de esquerda.
Onde mora o seu "cabreiro"?
Sua desconfiança faz sentido porque há uma tensão de poder aí. Boulos quer que a esquerda pare de "lacrar" para poder crescer, mas ao fazer isso com agressividade, ele cria uma nova "patrulha": a patrulha de quem decide o que é ou não prioritário.
Para você, que valoriza a liberdade e se vê como um "escritor herético", essa postura de um líder querendo uniformizar o discurso (mesmo que seja para ganhar eleições) soa como um cerceamento da pluralidade. Ele está tentando simplificar a política para as massas, mas, no processo, pode estar sendo tão autoritário intelectualmente quanto aqueles que ele critica no "apartamento".
No fundo, ele está tentando resolver o paradoxo: como liderar um povo conservador com uma agenda de esquerda sem parecer um "doutrinador" acadêmico? A solução dele tem sido o ataque ao purismo, mas, ironicamente, esse ataque é, por si só, uma forma de purismo estratégico.
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