quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Conteúdo é tudo


Para quem é do rebanho.


Para quem é da alcatéia.

Divórcio do raciocínio

Conversa com o Gemini.
https://www.patheos.com/blogs/anxiousbench/2026/08/forging-the-chymical-wedding/

🤦 Típico. "Não li. Não gostei. Se tivesse lido, não entenderia."

Como se a Bíblia não tivesse sido adulterada e forjada.

Escreva um texto crítico em tom de humor e sarcasmo.


Ah, a clássica e milenar arte da ironia seletiva teológica! É fascinante observar como a reação diante de um texto crítico sobre literatura ou religião muitas vezes se resume àquele célebre e refinado diagnóstico: “Não li, não gostei e, se tivesse lido, com certeza não entenderia nada — mas tenho absoluta certeza de que é do diabo (ou de um charlatão)!”

O texto de Philip Jenkins (Forging The Chymical Wedding) aborda justamente como, no Renascimento, eruditos inventavam, forjavam ou "descobriam" escrituras e manifestos místicos (como as Bodas Químicas de Christian Rosenkreutz) para validar suas próprias agendas. O mais irônico é o choque indignado de certos leitores diante de uma "falsificação histórica", como se o conceito de reescrever, editar, cortar e dar aquele "trato de mestre" em textos sagrados fosse uma invenção pós-moderna e não o esporte oficial da humanidade há pelo menos três milênios.

Aqui está um ensaio crítico, temperado com o devido sarcasmo e veneno intelectual:

O Dogma do Analfabetismo Selecionado: Ou Como Julgar o Livro Sem Ler a Capa
Ah, a sublime arte da hermenêutica do pânico! Não há nada mais reconfortante no ecossistema do debate religioso do que a tradicional postura do leitor indignado: “Não li, odiei, e se me obrigarem a ler, garantirei não entender uma única vírgula.” É um método de análise literária de uma eficiência invejável. Economiza tempo, evita incômodos surtos de reflexão e preserva intacta aquela ignorância imaculada que deu tanto trabalho para construir.

Quando Philip Jenkins se atreve a lançar luz sobre as Bodas Químicas de Christian Rosenkreutz — aquele manifesto rosacruz do século XVII que é basicamente uma metaficção renascentista cheia de cúpulas secretas, alquimia e "autor-fantasma" —, a reação inquisitorial é quase reflexa. Pega-se o alfinete, aponta-se para o texto e grita-se: "Fraude! Forjadores! Pós-modernos corrompendo a verdade pura!"

Ah, a pureza! Essa entidade mística e intocada.

É de uma inocência quase comovente ver o proselitista moderno defender a inerrância e a intocabilidade dos seus próprios cânones enquanto aponta o dedo para a Alquimia ou para o Rosacrucismo. Como se a história das religiões não fosse, em si, o maior e mais sofisticado ateliê de restauração e edição de textos do planeta!

Dizer que o manifesto Rosacruz é uma "forja" e se escandalizar com isso é ignorar, com uma cegueira cirúrgica, como o seu próprio livro de cabeceira foi costurado. É fingir que os Concílios foram reuniões de poética inocente, e não debates acalorados onde bispos decidiam — entre uma anátema e outra — quais evangelhos iriam para a gráfica divina e quais seriam atirados à fogueira do esquecimento. É esquecer convenientes interpolações bíblicas, versículos adicionados séculos depois para resolver disputas doutrinárias locais e traduções "adaptadas" ao gosto do imperador da vez.

Mas claro, quando o padre ou o pastor edita, é "inspiração divina divina organizando o cânone". Quando um erudito renascentista como Johann Valentin Andreae escreve uma sátira alquímica refinada e cria um mito, aí é "uma falsificação diabólica e profana". A diferença entre a "verdade sagrada" e a "forja herética", pelo visto, é apenas o número de séculos que o texto conseguiu sobreviver sem que ninguém perguntasse pelo manuscrito original.

O texto de Jenkins mostra como as Bodas Químicas brincavam de "quebrar a quarta parede", zombando abertamente daqueles que buscavam segredos mágicos fáceis e livros falsificados para ganhar prestígio. Ou seja: o próprio livro do século XVII já satirizava o crédulo que não entende metáforas! O autor renascentista escreveu uma obra alertando contra charlatões e falsários, mas o crítico moderno — incapaz de decifrar duas camadas de alegoria — lê a superfície e grita "Heresia!". É a meta-ironia perfeita: o texto continua fazendo vítimas quatrocentos anos depois.

A verdade é que a literatura oculta e os textos heterodoxos sempre tiveram um pecado imperdoável para a ortodoxia tacanha: eles exigem que o leitor pense, decifre enigmas, entenda o contexto e aceite a complexidade da condição humana. É muito mais fácil fechar os olhos, apontar o dedo e gritar "fraude", enquanto se abraça um texto que sofreu mais remendos ao longo da história do que uma colcha de retalhos medieval.

No fim das contas, a recusa em ler e compreender não é apenas preguiça intelectual; é um ato de preservação. Afinal, se o crente dogmático parar para analisar como os mitos, os símbolos e os próprios textos sagrados são construídos, corre o seríssimo risco de descobrir que a fronteira entre a "Palavra Revelada" e a "Ficção de Genio" é apenas uma questão de perspectiva — e de quem estava no controle da imprensa.

Criado com Gemini, do Google.

Quinhentos, 281 - 285


Sinta amor, não pena de ti; tenha paixão, não inveja destes. As letras indicam o Alfa e o Ômega, os livros encerram algum conhecimento das coisas.


Ainda assim, a fonte da Sabedoria é o Amor, a razão do Conhecimento é a Paixão. Não se obtém carinho dos livros nem se inventou palavras suficientes para definir ou extinguir o Amor.


Testamos os sábios da cidade e não houve aquele que sentisse aquilo que era objeto de seu conhecimento.


Pela evidência da pele e a prova da sensibilidade, nós demonstramos a supremacia do carinho, da paixão e do amor.


Horrorizados pelo vácuo de seus corpos e a inconsistência de seus livros, a cidade nos expulsou com o artificio do escândalo.

*Todas as imagens foram feitas com Gemini*
*Da obra Nisf el Alf, "Meio Milhar", de minha autoria, com o pseudônimo Houssin Olnaum*

Sucesso na Bienal





Quadrinhos criados com ChatGPT.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Quinhentos, 276 - 280


Que tal engenhosidade espontânea sirva de exemplo à mulheres que amadurecem e endurecem demais o coração.


Ela me levou à Cidade dos Livros, onde os passantes perambulam cheios de orgulho de seus livros.


Eu fiquei envergonhado de meu pequeno volume no meio de tanta gente inteligente com seus grossos livros.


A mulher, sábia companheira, segurou firme minha mão para evitar que eu escondesse meu bloco de anotações.


O que tenta esconder, profeta? Ainda sofre de autocomiseração? Falta-te amor para que sintas vergonha de algo que fazes?

*Todas as imagens foram feitas com Gemini*
*Da obra Nisf el Alf, "Meio Milhar", de minha autoria, com o pseudônimo Houssin Olnaum*

Obra pronta






Quadrinhos criados com ChatGPT.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O fim da ilusão

Conversa com o Gemini.

"Uma potência como a URSS deixou de existir em poucos anos, abandonando o primeiro sonho de construção de um Estado socialista, de operários e camponeses."

https://www.brasil247.com/blog/tudo-o-que-e-solido-desmancha-no-ar/

Nunca foi. Esse é o incômodo que muito colunista dito de esquerda não fala.

Sempre foi um regime estruturado em cima de um único partido, dominado pelos líderes.

Afinal, a própria teoria disse. Era inevitável. Uma questão de progresso, de evolução. O socialismo ocuparia o lugar do capitalismo. Não algo a ser imposto.

Escreva um texto crítico em tom de humor e sarcasmo.


O “Sonho” que Esqueceu de Perguntar aos Sonhadores

“Uma potência como a URSS deixou de existir em poucos anos, abandonando o primeiro sonho de construção de um Estado socialista, de operários e camponeses.”

Há algo verdadeiramente poético na melancolia da burocracia romântica. É admirável como certos analistas lamentam a queda da União Soviética como se um conto de fadas idílico tivesse sido tragicamente interrompido por um contratempo injusto — e não pelo colapso retumbante de um leviatã sufocado pela própria incompetência e pelo peso das suas contradições.

Falar em “abandonar o primeiro sonho de construção de um Estado de operários e camponeses” é de uma elegância lírica fascinante. A frase evoca a imagem quase bucólica de trabalhadores sorridentes, de macacão e foice em riste, reunidos em uma grande assembleia comunitária para decidir: “Sabe de uma coisa, camaradas? Cansei desse negócio de paraíso dos trabalhadores. Vamos fechar a firma, derrubar o muro e ver se a gente consegue comprar uma calça jeans.”

O pequeno detalhe conveniente e habitualmente varrido para debaixo do tapete vermelho é simples: nunca foi um Estado de operários e camponeses. A não ser, é claro, que por “operários e camponeses” estejamos nos referindo à aristocracia vermelha do Comitê Central, aos burocratas encastelados na Nomenklatura e aos comissários que decidiam quem tinha direito a uma geladeira no ano seguinte e quem ganhava uma passagem só de ida para férias prolongadas na Sibéria.

A nostalgia seletiva adora ignorar a arquitetura real do edifício. O tal “sonho” não foi abandonado de repente nos anos 1990; ele nasceu engessado sobre a estrutura rígida de um partido único, no qual a vontade incontestável dos seus líderes era vendida pela propaganda como a própria "vontade do proletariado". O operário de verdade? Bom, o operário continuava na fila do pão, torcendo para que o fiscal do bloco não cismasse com o seu humor no dia.

Mas o suprassumo do charme intelectual reside na própria teoria original. Afinal, segundo os manuais dogmáticos da teleologia histórica, a transição não era uma escolha ou uma construção política viva, mas uma inevitabilidade científica. Uma questão de progresso, de evolução natural! A história marchava a passos largos e triunfantes rumo ao amanhã radiante, como quem pega um trem com hora marcada. O capitalismo estaria organicamente destinado a ser superado pela lógica irrefutável do progresso.

No entanto, quando a realidade insiste teimosamente em não colaborar com o panfleto, a teoria precisa ser aplicada na marra. E é aí que a “inevitabilidade” vira imposição. Se a evolução natural atrasa, empurra-se a história na ponta da baioneta. Se o camponês demora a perceber o progresso inevitável, cria-se um comitê para lembrá-lo, sob pena de fuzilamento, de que ele deve evoluir imediatamente.

O incômodo que muito colunista dito de esquerda prefere sublimar sob camadas de prosa saudosista é justamente essa desconexão fatal: a ideia absurda de que um regime hipercentralizado e autoritário representava a emancipação humana, e que o seu fim foi apenas um "lamentável desvio de percurso".

Se tudo o que é sólido desmancha no ar, às vezes o ar fica consideravelmente mais respirável. O maior espetáculo da história recente foi ver a própria “inevitabilidade histórica” desmoronar como um castelo de cartas de planejamento centralizado — provando que quando a teoria exige que as pessoas sirvam ao Estado em nome do amanhã, elas tendem a aproveitar a primeira oportunidade para exigir algo muito mais simples: o direito elementar de escolher o próprio presente.


O engraçado é que o autor usa uma frase do Marshall Berman . O que é sólido desmancha no ar. Mas muita gente de esquerda ainda se apega aos mesmos "heróis" e ícones...🤭😏


É a maior das ironias intelectuais. A frase "tudo o que é sólido desmancha no ar", popularizada por Marshall Berman no seu clássico livro sobre a modernidade, foi originalmente tirada do próprio Manifesto Comunista de Marx e Engels. A intenção era descrever o poder avassalador do capitalismo em dissolver tradições, dogmas e estruturas velhas.

O grande gracejo da história é ver essa mesma metáfora se voltar contra a própria liturgia da esquerda autoritária. O dogma que pretendia desmanchar o velho mundo acabou virando, ele próprio, uma relíquia sólida, pesada e petrificada — um museu de estátuas de bronze, retratos de líderes supremos, boinas e liturgias partidárias do século XX.

Existe um apego quase religioso a esses “heróis” e ícones de gabinete, como se questionar a estrutura do partido único ou o fiasco do planejamento centralizado fosse uma traição profana. Fica o paradoxo fascinante:

O discurso: Promove a crítica radical, a transformação contínua e a superação de mitos.

A prática nostálgica: Aflora um conservadorismo estético e doutrinário que trata a Nomenklatura soviética com a mesma devoção com que fiéis tratam relicários medievais.

Enquanto a realidade dinâmica do mundo desmancha dogmas a cada segundo, parte da colunística prefere ficar abraçada ao mastro do navio que afundou há trinta anos, garantindo que o naufrágio foi apenas um erro de navegação temporário — e que as estátuas no fundo do mar continuam reluzentes.

Criado com Gemini, do Google.