sábado, 25 de setembro de 2021

A Polaridade Sagrada

“As visões Wiccanas da divindade são geralmente teístas e giram em torno de uma Deusa e um Deus, sendo, portanto, geralmente dualista . Na Wicca tradicional, conforme expresso nos escritos de Gerald Gardner e Doreen Valiente, a ênfase está no tema da polaridade de gênero divino, e o Deus e a Deusa são considerados forças cósmicas divinas iguais e opostas”. – Wikipédia. [do verbete em inglês, traduzido com Google Tradutor]

“A Teoria da Polaridade mantém que toda atividade, toda manifestação, cresce de (e é inconcebível sem) a interação de pares opostos e complementares – positivo e negativo, luz e treva, conteúdo e forma, macho e fêmea, e assim por diante; e que esta polaridade não é um conflito entre ‘bem’ e ‘mal’, mas uma tensão criativa como a entre os terminais positivos e negativos de uma bateria elétrica. Bem e mal apenas aparecem com a aplicação construtiva ou destrutiva dessa tensão da polaridade (novamente, como no uso de uma bateria)”. – O Racionalismo da Bruxaria. Autores: Janet & Stewart Farrah. Obra: O Caminho das Bruxas. Tradução: Roberto Quintas.

“A identificação com o ser divino no prazer se realiza através dos ritos sexuais, todo ato sexual pode se tornar um sacramento.
No rito, o homem se identifica com o primeiro princípio e a mulher com o outro. Essa união reproduz o Hiero Gamos, o Casal Divino, o Andrógino, bem como o mistério da natureza desse mundo, um mundo que é manifestado e condicionado, em que a humanidade aparece como separados em uma dualidade, vão se unir por um instante. No orgasmo sexual, a lei da dualidade é suspensa, o êxtase ocorre e, no arrebatamento, conduz os celebrantes à iluminação absoluta”. – A Comunhão Pela Carne. Baseado no livro Shiva e Dioniso, de Alain Danielou, pg 131-134, 139-141.

Uma das características da Wica é a dualidade e eu acho necessário distinguir a “dualidade” da “dicotomia” típica [maniqueísmo – Bem vs Mal] das religiões abraãmicas. A dualidade é fundamental para o que eu chamo de polaridade sagrada, sem isso não ocorre o Hiero Gamos, sem isso, o mundo, a realidade, o universo, deixam de existir.

“Este é o aspecto mais misterioso, oculto e sombrio das antigas crenças e nisso há que se ressaltar o acerto do mito ao identificar a imensa escuridão - na qual a Deusa está imersa - o Deus que, através do espelho, se manifesta à Deusa, como sendo uma outra divindade, semelhante mas oposta, contrária mas não antagônica, com quem a Deusa, pelo Hiero Gamos, gera todo o universo, o mundo, a natureza”. – Espelho, espelho meu.

“A Deusa e o Deus são ao mesmo tempo opostos, complementares e necessários não só a criação como também a manutenção da vida. O culto wiccano expresso nos sabbaths, esbbaths e ritualísticas diárias representa o mecanismo para agradecer, exaltar, conectar-se e auxiliar os Deuses nesse processo”. – A ênfase matriarcal na Wicca.

"'Conhece-te a ti mesmo' é a voz do Deus, é o Dom do Deus. Ambas as capacidades são necessárias, se o homem não conhece a si mesmo será incapaz de compreender a natureza a sua volta. Mas ele não pode visar apenas o conhecimento interno, precisa equilibrar as duas coisas para ser pleno em sua existência". – A ênfase matriarcal na Wicca.

Então eu acho que a Wica é equivalente à escola Dvaita [filosofia baseado no vedanta], em contraste com a escola Advaita [que se baseia na não-dualidade].

No interesse de contraste e exercício mental, eu fiz algumas pesquisas.

A filosofia do Advaita Vedanta pode ser compreendido com os discursos de Nisargadatta Maharaj. Eu vi alguns vídeos falando de não-dualismo.

O Advaita Vedanta é bem parecido, ao menos conceitualmente, com o esoterismo ocidental chamado “I Am” de Saint Germain [ou o “Eu Sou”], originário da Teosofia de Helena Blavatsky. A Escola de Teosofia é, em si mesma, uma mistura de diversas escolas esotéricas. A senhora Blavatsky não teve qualquer escrúpulo ao se apropriar de trechos e obras de outras culturas para estabelecer sua doutrina esotérica. O “I Am” de Saint Germain é bem parecido com o conceito de Self que tem origem no Neoplatonismo e o conceito de Santo Anjo Guardião presente na Teurgia e na Maçonaria.

Mas esse termo tem outra concepção no Advaita Vedanta, o que é evidente, afinal, tem por base os Upanishads. Aqui o “Eu” é o “Ser”, no sentido de Existência Absoluta, ou Brahma. O salto de fé, se eu posso usar esse termo, consiste em alegar que nosso Self, ou nosso Atma, nosso Eu, nosso Ser, é o mesmo Eu e Ser de Brahma. Quando ocorre o despertar [outro conceito muito usado em inúmeras escolas esotéricas e de mistério], o ego se dissipa, não há mais o indivíduo, a personalidade ou a identidade. O que outrora estava adormecido tem a consciência de sua existência e esta é absoluta e plena.

O “conhecimento de si mesmo” da filosofia védica é diferente do conceito da filosofia helenística [tomando aqui Platão e as frases atribuídas a Sócrates] e é diferente do conceito da filosofia teosófica.

As questões [existenciais e filosóficas] persistem, as respostas do Advaita Vedanta não dissipa as dúvidas. Ora, se o Self é Absoluto, não há Atma. Se o Self é Absoluto, “isto” é igualmente responsável e autor da ilusão [Maya], da Ignorância, da dor e do sofrimento inerente à existência. Sem o mundo fenomênico, sem o corpo carnal, não haveria como adquirir qualquer conhecimento ou consciência.

“O erro, príncipe, de toda crença e religião, está em negar e rejeitar a Fonte da Sabedoria (viver) e a Ferramenta do Conhecimento (o corpo)”. – Asura Sutra.

Ao se desvencilhar do mundo fenomênico e da forma encarnada que o nosso Self se manifesta nesse espaço-tempo, as escolas de filosofia dármicas tornam-se indiferentes aos problemas que encaramos diariamente e que não serão resolvidos com meras palavras e filosofias.

Ao pensar em tudo isso, vejamos esse trecho de nossos rituais:
 “E tu, que pensas me procurar, sabe que a tua busca e anseio não te valerá, a menos que conheças este mistério: que se aquilo que procuras não encontrares dentro de ti, nunca o encontrarás fora de ti ”. - Carga da Deusa.

Eu acho que esse trecho pode ser entendido na forma da dualidade. Há o que está “fora do Self” e o que está “dentro do Self”. Em ambos os casos, existe a necessidade de uma busca, aquisição, percepção e discernimento. Para se descobrir o que há "dentro do Self", há que descobrir, conhecer, o que há "fora do Self", para, então, poder distinguir entre um e outro. Tal como Ulisses em sua saga, ele precisou empreender uma longa viagem para, só então, ao voltar para casa, descobrir que o tesouro que ele tanto procurava estava em seu lar.

Nosso Self tem duas naturezas, uma carnal e uma divina. Nós fomos feitos das cinzas dos Titãs e carregamos a faísca [fogo] dos Deuses.

Ao reconsagrar o corpo, o desejo, o prazer e o sexo, as religiões do Paganismo Moderno devolvem esse mundo e a natureza em que estamos inseridos como obras divinas.
Nesse caso, nessa cosmovisão, não há pecado, não há a luta do Bem contra o Mal, da Luz contra a Sombra.

A dualidade é aceita, percebida e interpretada como realidades intrínsecas, cabendo a nós, como filhos e filhas dos Deuses, conduzir nossas vidas para adquirir o conhecimento e atingir a evolução.
Isso nos torna responsáveis por nós, por nossa espécie, pela forma como interagimos entre nós e pela forma como utilizamos os recursos naturais.

“Toda existência tem dor e sofrimento, senão não estaria vivo.
A dor e o sofrimento são os meios que a natureza e a vida têm para nos ensinar”. – Asura Sutra.

Uma vez adquirido o conhecimento, nós podemos empreender o Caminho Iniciático, com o qual nós fazemos essa viagem para “dentro de nós mesmos” para, então, nos deparar com nossa verdadeira essência e existência, que é o nosso Self, retomando nossa verdadeira natureza [divina], o que nos reconecta com a Fonte, que é a Natureza. Assim, há uma reconexão [re-ligare] de forma dualista, de pares de opostos, mas não antagônicos, convivendo e colaborando para que a existência seja plena.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Cosmovisão Andina

Editado de Oakley Gordon, Ph.D.

Um fator primordial a ter em conta quando se contempla o Cosmovisão Andina (dada a natureza básica do Cosmos) é que ele é fundamentalmente diferente da cultura ocidental não nativa. Isso significa que não podemos simplesmente impor suas idéias diretamente em nossas próprias categorias conceituais. A tentação de fazê-lo, no entanto, é forte e bastante automática para que estamos acostumados a fazer sentido das coisas novas, relacionando-os com o que já sabemos.

Nós, no Ocidente temos essencialmente duas maneiras de ver a natureza básica da realidade; através da lente da ciência ou através da lente da religião (ocidental).Embora essas duas abordagens tenham algumas diferenças importantes que ambos surgiram dentro da nossa cultura e foram construídos sobre a mesma base filosófica. A cultura andina indígena, no entanto, não compartilha dessa fundação. Nem a ciência nem a religião tem uma contrapartida na cosmovisão andina, e o que eles têm (para o qual não temos termos correspondentes) não tem contrapartida na ‘nossa Cosmovisão’ (ou teríamos termos correspondentes).

Imagine, se quiser, uma visão da realidade que não foi influenciada pela Bíblia (onde Deus como o criador está fora da criação e que fez os seres humanos, isolados de todas as espécies, à sua imagem). Ele não foi influenciado pelos filósofos gregos clássicos que enfatizaram o intelecto (ou a razão) como a mais alta forma de conhecimento, nem foi moldada por Descartes (o “pai da filosofia moderna’), que propôs que a realidade consiste em dois reinos separados, um reino transcendente do espírito e da mente e um reino físico da energia irracional e matéria. Se quisermos explorar a ‘Cosmovisão Andina’ precisamos deixar a nossa maneira normal de pensar sobre o mundo e abordá-lo com espaço para que seja algo novo, precisamos mais acomodar novas informações (permitindo mudar a forma como vemos do mundo – abrir a mente, abstrair) e menos assimilar (fazendo novas informações se encaixam como nós já ver o mundo).

A Cosmovisão Andina é mística em sua essência. O misticismo é a crença de que palavras (incluindo crenças) são, na melhor das hipóteses, placas de sinalização ou projetos de como se conectar diretamente com a natureza subjacente sagrada da realidade, e que é essa conexão com o sagrado, não as palavras ou crenças, isto é de importância fundamental. A Cosmovisão Andina não é principalmente sobre suas crenças, é sobre a experiência da realidade que se torna possível com essas crenças, é sobre a relação com a Natureza e com o Cosmos, que se torna possível com essas crenças. Aldeias vizinhas no Peru diferem um pouco no que eles acreditam, assim como paqos (místicos / xamãs) dentro da mesma aldeia, mas essas diferenças são irrelevantes para ser um Paqo, para o que importa é que eles podem realizar por essas crenças. O que eles podem realizar surge a partir da relação amorosa e solidária com a Natureza e do Cosmos que se torna possível e alimentada com a Cosmovision (Ainy e Munay).

Aqui é a minha representação da cosmovisão andina. Imagine o Cosmos como consistindo apenas de filamentos de energia organizados em uma enorme teia tridimensional. Onde os filamentos se juntam para formar um feixe ou um nó é o que experimentamos como um objeto. Você é um nó, assim como eu, como é minha caneca de café sentada aqui ao meu teclado enquanto eu digito. Há algumas consequências importantes dessa visão de mundo:

Tudo no universo é parte desta rede de filamentos e assim, em última instância tudo no universo está ligado a todo o resto. Isto significa que um fluxo de informação ou energia ou influência pode existir entre nós e qualquer outra coisa, incluindo outras pessoas, as estrelas, o rio, o vento, e o resto do Cosmos.

Embora esses feixes de filamentos, esses nós na rede de filamentos, são distintos um do outro são partes realmente inseparáveis de um todo maior, unificada que é o Cosmos. Perceber o mundo como um conjunto de objetos isolados e experimentar a nossa consciência como limitada a apenas o nosso próprio ser, mas é uma maneira de se aproximar do Cosmos, a maneira mais suportado pelo nosso Cosmovision ocidental. A capacidade de realmente experimentar o Cosmos como um todo indiferenciado é uma meta definição de cada abordagem mística da qual estou familiarizado, incluindo a do Cosmovision andina.

Enquanto os nós que constituem os seres humanos podem diferir na forma como o são organizados a partir dos nós que compõem uma pedra ou uma árvore, todos nós estamos apenas feixes de filamentos de energia e as diferenças entre nós é menos na perspectiva andina do que na perspectiva da cultura ocidental (onde a diferença entre ser uma pedra e ser humano é imensa, de fato). A diminuição da diferença entre os tipos de objetos na cosmovisão andina é amarrado pelo menos parcialmente, a sua visão de que tudo é consciente (mesmo que em níveis muito diferentes).

Na consciência andina Cosmovisão é um atributo inerente dos filamentos, em vez de ser um subproduto de um sistema nervoso avançado. A ideia de que estrelas, árvores e até mesmo pedras são conscientes é tão longe como a minha disciplina da psicologia vê a consciência como para tornar a idéia parece absurda a partir dessa perspectiva. Consciência, no entanto, do ponto de vista do intelecto, é e deve continuar a ser o último mistério do universo, para a consciência, ao mesmo tempo que pode ser experimentado, não pode ser compreendido. O intelecto tentando entender a consciência é como uma faca que tenta cortar seu próprio limite. A consciência precisa ser separado de todos os nossos conceitos sobre o assunto, incluindo o que pensamos sobre o pensamento e sobre ser auto-consciente e assim por diante. Ao invés de consciência sendo algo da realidade dúbia porque é tão inacessível intelectualmente, é vez a coisa mais real no universo, pois a consciência é que a partir do qual a nossa capacidade de pensar emerge. Mas eu discordo.

De todos os nós de filamentos no nosso bairro do Cosmos, talvez, o mais importante é a Pachamama, a grande feixe de filamentos, a incrível Ser(?) espiritual, que é a nossa mãe cósmica do planeta Terra. Enquanto eu chamo de Pachamama um “espiritual” sendo que ela não é um espírito transcendente que residem na grande rocha que chamamos Terra. Cultura ocidental, essencialmente, só nos dá duas opções para visualizar “espírito”, que o espírito é transcendente (por exemplo, uma alma que desce do céu para habitar o reino físico), ou que “espírito” não existe. Os Andes fornecem uma terceira opção, que o próprio planeta é um grande ser espiritual, que o sagrado não está separado dos filamentos, mas é imanente em si. Pachamama não é o grande ser espiritual que reside, ela é o grande ser espiritual que é e não está.

Outros Seres importantes (‘outros nós’ na rede de filamentos) incluem os Apus. Os Apus são os grandes seres que são os picos das montanhas majestosas. Enquanto o Apus são fisicamente parte da Pachamama eles também são os próprios seres. Esta é uma característica comum da cosmovisão andina. O Cosmos é um enorme teia de filamentos mas tem lugares onde os filamentos se juntam para formar um nó. A Pachamama é apenas um nó em toda a rede, mas ela é ela mesma; o Apus são apenas parte do nó que é a Pachamama, mas eles próprios são bem; um campo cultivado (chamado de ‘chakra’ em sanscrito) é apenas parte da Pachamama, mas antes de plantar o campo os moradores comunicam e fazer oferendas de gratidão ao chakra (a filha do Pachamama), bem como à própria Pachamama.

Quanto mais nos entrar em detalhes sobre a Cosmovisão andina mais variações vamos encontrar entre os indivíduos, aldeias e regiões dos Andes. As próprias crenças são de pouca importância, o que é importante é a relação amorosa e solidária com a Natureza e o Cosmos que se torna possível dentro dessa cosmovisão, dentro desta relação de algumas coisas bonitas e mágicas podem ocorre que não pode ser compreendido pelo intelecto.

A Cosmovisão andina nos abre para toda uma nova maneira de entender a realidade, toda uma nova área para nós para explorar.

A Tradição Mística Feliz

Editado de  qentiwasi.co

A tradição andina não é complexa. Na verdade, é simples. Como a vida.
A vida é muito simples: Nós escolhemos a felicidade.

Felicidade não significa nossas vidas serem perfeitas. Nós seria aborrecido tola se não houvesse desafios ou oportunidades de crescimento pessoal. Um aspecto central da nossa humanidade é chegar além de onde estamos, como nos envolvemos do “agora”.

Algumas tradições e escolas de psicologia espirituais nos diz que não é nossa circunstância que nos fazem infelizes, é nossa reação a circunstância. Eles dizem que a felicidade é um estado de espírito. Você pode ser feliz, não importa o que está acontecendo se apenas você escolhe ser. Verdade. Mas não é provável, pelo menos para a maioria das pessoas. Nós não estamos apenas “lá” ainda.

Então, como podemos chegar “lá”? As maneiras como são variadas como cada um de nós. No entanto, certas visões de mundo e cosmologias espirituais parecem ter um bloqueio em simplificar as nossas complexidades.

Muitas linhas de sabedoria oriental perguntam: Qual é o sentido da vida? A resposta deles é A Consciência. Os místicos andinos concordam. O que é tão útil sobre a visão de mundo mística andina, no entanto, é que o objetivo não é cultivar a consciência de modo que você pode saltar além do humano (como interpretado por algumas linhas orientais etc), a experiência satori, alcançar o nirvana, ou ‘escapar da roda do karma’. Em vez disso, os mestres andinos diriam que a nossa missão é não liberar o sofrimento, mas ‘ser alegria’. E em primeiro lugar o estado da nossa energia que deve importar.

Esta é uma mudança de foco que conta! A maneira andino não é o estar sob a árvore contemplando, mas estar desperto alegre, feliz totalmente engajados na vida.

Os místicos andinos acreditam que a nossa verdadeira natureza é alegre, feliz, em contentamento, mas que esqueceram essa verdade. O caminho deles é lembrar que somos seres de alegria. É simples assim. Tudo o que eles ensinam-nos impulsiona para a frente para o efeito singular: Para lembrar quem realmente somos e viver como quem realmente somos, felizes sempre.

Original: https://despertar.saberes.org.br/saberesancestraistradicionaisnativos/sabedoria-sagrada-andina-cosmologia-incas-1/

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Asura Sutra

O príncipe que está recluso no palácio não se distingue do Iluminado que se recolhe no Nirvana.
O príncipe despertou para a realidade ao sair do palácio. O Iluminado voltou a sonhar em seu casulo de perfeição.
O príncipe conheceu a vida porque esta é tangível. O Iluminado quer voar como borboleta com asas de seda.
O príncipe procurou respostas aos problemas que o Profeta, o Messias e o Iluminado começaram com as doutrinas que disseminaram.
O príncipe passou por várias escolas para aprender. O Iluminado criou outra restrição ao fundar sua escola.
O príncipe adquiriu conhecimento enquanto estava receptivo. O Iluminado construiu um obstáculo ao elaborar sua doutrina.
O príncipe encontrou o Profeta, o Messias e o Iluminado em uma encruzilhada. Todos estavam confusos e perdidos.
Vede, príncipe, que sem o contraste não haveria indignação.
Vede, príncipe, que as circunstâncias são semeadas pelos ventos da vida.
Vede, príncipe, que a ordem dos fatos ocorrem naturalmente.
Vede, príncipe, que a vida e a natureza são impessoais.
Vede, príncipe, que os efeitos atingem a todos, indistintamente.
Vede, príncipe, que, mesmo sem sabedoria, os animais agem conforme o que é certo.
Vede, príncipe, que ninguém ensina ao animal o que comer.
Vede, príncipe, que o animal não se abriga da chuva.
Vede, príncipe, que os seres não cosem roupas para cobrir o corpo.
Vede, príncipe, que, mesmo sem calendário, o animal sabe a estação do acasalamento.
Vede, príncipe, que, mesmo sem lei ou tribunal, o animal sabe as regras.
Vede, então, príncipe, que a sabedoria vem da natureza e da vida.
Foi-te dado a fome, coma para se alimentar.
Foi-te dado a sede, beba para se hidratar.
Foi-te dado o corpo, usa-o para que existas.
Se te sobra alimento, divida-o, compartilhe.
Se te sobra água, divida-a, compartilhe.
Se te sobra tecido, divida-o, compartilhe.
Se te sobra terra, divida-a, compartilhe.
Pois a todos a natureza concede a dádiva do divino, a todos pertence.
Tudo que existe tem seu sentido, sua razão, seu lugar e sua função.
Toda existência tem dor e sofrimento, senão não estaria vivo.
A dor e o sofrimento são os meios que a natureza e a vida têm para nos ensinar.
Com a morte, aprendemos que tudo que vive, finda, para que outros possam nascer.
Com a doença, aprendemos que tudo tem o mesmo direito de existir, mas que o veneno tem seu antídoto.
Ouça, então, príncipe, o que a natureza e a vida têm a te dizer.
Para que adquiras o Conhecimento, te foi dado teu corpo.
Para que saiba usá-lo é que tu tens que passar por experiências.
Então que toda escola consiste apenas nisso: adquira domínio e maestria sobre seu corpo antes de operar nos mecanismos que giram a natureza e a vida.
Então todo conhecimento oculto se resume que o maior mago é o que é mestre de si mesmo.
Quando o artífice não domina a ferramenta, não há obra, se fica submisso aos impulsos.
Quando o corpo domina, não há sossego, mas perturbação.
Então toda religião consiste em saber que Disciplina é Liberdade.
O erro, príncipe, de toda crença e religião, está em negar e rejeitar a Fonte da Sabedoria (viver) e a Ferramenta do Conhecimento (o corpo).
Vive, então, meu príncipe e abençoada seja toda sua experiência.
Bendita é a fome, para que saiba apreciar a comida.
Bendita é a sede, para que saiba apreciar a bebida.
Bendita é a morte, para que saiba apreciar a vida.
O deserto existe para que haja floresta.
A guerra existe para que haja paz.
Vive, então, meu príncipe, sem temor, que tudo tem um propósito, não existe acaso nem coincidência.
Ainda que esteja em terra distante, enfrentando inimigo feroz, ou encarcerado.
As forças que geraram o evento podem se alterar, aumentar, diminuir, convergir ou dispersar.
A natureza está sempre fluindo, sempre se movendo.
O inverso disso é a estática, a indiferença, não há sabedoria aqui.
A beleza da cachoeira está no confronto entre a água e a pedra.
Para fortalecer o corpo, o exercício é necessário.
Então a mente, sua alma, seu espírito, serão forjados no conflito.
O outro é teu companheiro e professor.
Ouça, dos lábios mais simples, a Sabedoria que vem do divino.
Ainda que não reconhecida, imerecida, exagerada, aceita o fardo, resultado da ação e da palavra, sua ou de outro, aprenda e se adapte, adquira o conhecimento que resultará na mudança.
Saiba, príncipe, que há reciprocidade.
O que recai em ti, recai em todos.
Tu recebe o que dá.
Se não precisa, rejeite.
Aprenda a estabelecer relações de colaboração.
Aquilo que é conquistado em parceria, deve ser dividido.
Com trabalho, empenho e disciplina, tudo é possível.
Tal como o Bem e o Mal está em nós, está em nossas mãos viver no Inferno ou no Paraíso.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Festival da lua na China

Na mitologia chinesa, o arqueiro Hou Yi e a sua esposa, Chang’e, foram separados após ela beber um elixir que a fez voar até a Lua e se tornar uma Deusa. Essa é uma das lendas que explica o surgimento do Festival da Lua, ou Festival do Meio do Outono, uma tradição que começou durante a Dinastia Tang, há mais de três mil anos. E começa a ser celebrada a partir de amanhã, na China.
O feriado de três dias é aproveitado pela população para reunir as famílias, agradecer as colheitas, viajar pelo país e se deliciar com os famosos bolinhos da lua cuja forma e sabor variam nas diferentes regiões do país. Uma das tradições mais importantes da festa é trocar presentes ou encontrar parentes e amigos.
O Festival da Lua é realizado no décimo quinto dia do Oitavo Mês Lunar, que este ano cai no dia 21 de setembro. Além da própria China, o feriado também é celebrado em outros países da Ásia, como Japão, Laos e Singapura.
"Tudo é muito tradicional, colorido. Comemos e preparamos os bolinhos da lua com diferentes texturas e recheios e nos sentamos para ver a Lua, que fica mais brilhante nessa época", afirma Peng Lu, residente de Pequim.
Edição: Arturo Hartmann 

Original: https://www.brasildefato.com.br/2021/09/20/china-comemora-o-festival-da-lua-a-partir-do-dia-21
Apesar de ser um país laico e ateu, as tradições populares são mantidas.


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

As Vias Santas

Introdução

As Vias Santas são práticas para desenvolver e aprimorar a espiritualidade a partir de propostas de exercícios, sem fixar em modelos ideais. As propostas são o resultado das minhas pesquisas e estudos sobre diversas religiões, antigas e atuais.

Como o interesse e a escolha cabe ao indivíduo, algumas condições devem ser preenchidas:
Aprender
Praticar
Assimilar
Testar
Aperfeiçoar
Descartar

O mais crucial e importante é que, quem aceita e se propõe a executar os exercícios, tenha autodisciplina e determinação. A situação na qual eu me encontro aconteceu exatamente por eu ter falhado em minha autodisciplina.

A base das propostas que eu exponho pode ser praticada por toda pessoa, utilizando as ferramentas mais disponíveis e acessíveis que dispomos, que é o corpo, a natureza, o mundo. Ao atingir a maestria sobre essas ferramentas, o praticante terá as condições necessárias para atingir sua meta, seja esta a Redenção ou atingir o Nirvana.

Heresia

A civilização humana expressou ao longo de muitos séculos e milênios, diferentes formas de crenças, constituiu inúmeras religiões e, creio, que eu posso afirmar que a espiritualidade humana pode ser dividida em três temas:

A necessidade imperativa de seguir regras
A crucial exigência de nos relacionarmos com o divino
A obsessiva preocupação com o que vai acontecer com nossa alma após o desencarne

Eu posso afirmar que são quatro os homens que marcaram e alteraram a forma como o ser humano encarou estas questões, a saber:

Zaratustra
Sidarta Gautama
Jesus Cristo
Mohamed

Deles procedem as religiões majoritárias que dominam o mundo contemporâneo, porém, paradoxalmente, o comportamento humano geralmente tende para o pensamento e ação extremamente opostos ao que se crê. Não é exagero dizer que, em dois mil anos de história, a civilização humana enfrentou inúmeras guerras, causadas ou influenciadas por estas religiões.

Talvez, penso eu, que isso acontece porque estes Iluminados não queriam seguidores, mas imitadores, pois uma crença, uma religião, uma espiritualidade, só se tornam eficientes quando o indivíduo estuda, compreende e pratica os preceitos ali contidos.

Eu aqui proponho a remoção de intermediários, a busca pelo divino deve ser pessoal, sendo desnecessária a figura do padre, do pastor, do rabino, do iman, do sacerdote. Ao invés de colocar modelos e padrões idealizados, manifestados, por algum Iluminado, eu irei focar em ações práticas que vão abraçar, tanto nossa vida mundana, quanto a sagrada.

Isto me coloca em um dilema, pois uma das características marcantes das religiões majoritárias é a negação, rejeição, do que é mundano. Mesmo se considerarmos outras vertentes, uma adaptação é necessária porque a religião também é um produto, um comércio, esse aparente abismo entre dinheiro e espiritualidade pode ser desbaratado quando se entende que as práticas visam colocar as coisas em seus devidos lugares. com seus devidos valores, pois o problema não é o dinheiro (comércio, riqueza), mas a forma como o usamos e a posição que isso ocupa em nossas vidas. Nós dominamos e possuímos as coisas. O dinheiro deve ser uma ferramenta para ser usada. Usar as coisas de forma consciente evita a acumulação, segregação, desigualdade e outras consequências dos péssimos hábitos humanos. Para alcançar tal condição, nós devemos ser mestres de nossas vidas e a maestria só se torna realidade quando nós obtemos disciplina. Quando nos conhecemos e controlamos a nós mesmos, nós conhecemos e controlamos o mundo. Resumindo em uma frase: “Disciplina é Liberdade”.

Advertência

Eu advirto ao leitor que prossiga a leitura apenas e somente se estiver pronto para explorar áreas além dos limites socialmente estabelecidos. Desde que eu comecei a escrever e traçar meu caminho espiritual, eu tive a coragem e a ousadia de duvidar, questionar e contestar estes limites arbitrários e foi isto, não o crime que me alegam, que me conduziu à prisão. Os próximos capítulos são completamente desafiadores e não são nada convencionais, prossiga com cautela.

Vias dos Sentidos

Os sentidos são nossas ferramentas para perceber o ambiente que nos cerca e que podem, se direcionados e condicionados, nos fornecer uma interpretação equivocada do que se chama realidade. Quando pensamos nossa humanidade em relação à cultura e à linguagem, as distorções podem ser notadas.

No campo da crença, da religião, da espiritualidade, a doutrinação pode se tornar um problema para se atingir os objetivos almejados, mas aqui, tal como foi dito, não se visa rejeitar, negar, nem separar, o mundo material do mundo espiritual.
Em continuidade ao que foi dito, o descondicionamento, o reaprendizado da percepção, bem como uma reformatação, do que se chama realidade, passa pelo uso crítico e consciente dos sentidos.

Via da Visão

Nós vemos o reflexo, a imagem, daquilo que um objeto reflete a partir da luz incidida sobre ele. A proposta, então, é por jogos que usem a ilusão de ótica. O uso de outros sentidos, além da visão, na percepção dos objetos, vão nos dar outras dimensões, mas creio que o uso de programas de edição de imagens é mais eficiente para que sejamos capazes de entender que a visão é uma captação superficial que, frequentemente, resulta em engano e decepção.

Via do Olfato

Um sentido útil, mas pouco explorado. O cheiro pode ser o primeiro sinal, antes do sabor ou da decomposição, do estado de um alimento. Nossa higiene passa por este sentido, nós podemos nos sentir sujos ou limpos, fedorentos ou perfumados. A proposta, então, é visitar o campo, parque ou fazenda, para que ampliemos nossa biblioteca olfativa.

Via do Paladar

A boca e a língua são organismos que estão presentes também em nossa sexualidade. Nosso mundo contemporâneo está repleto de indústrias e empresas que exploram comercialmente a área da alimentação, muito embora seja mais comum elas visarem o lucro, não a nossa nutrição. Eu creio ser justo afirmar que nós somos uma geração criada e acostumada com a “junk food” e eu não me refiro, nem me limito, às lanchonetes de “fast food”. Só recentemente se concluiu que o consumo exagerado de sal e açúcar industrializados é prejudicial à nossa saúde. A proposta, então, é para experimentarmos mais “naturais”, produtos "orgânicos", com pouca gordura, condimentos, temperos e químicas. A reeducação alimentar se tornou uma questão de saúde pública, o que comemos auxilia na nossa saúde e bem-estar. O comer bem, o que inclui a mastigação, tem mais a ver com o comer certo, com a absorção dos nutrientes que nosso organismo necessita, isso não significa que devemos adotar uma dieta, ou vegetarianismo.

Via da Audição

Música, incluindo o canto, são formas que se pode explorar, além da vibração sonora. Ao que tudo indica, nosso universo é formado por elementos (partículas/energias) que estão em constante vibração. Mantra e orações são estímulos bem conhecidos para que nossa mente possa sintonizar com o transcendental, mas a música mundana também pode nos dar uma outra perspectiva da realidade. A proposta, então, é experimentar diversos estilos musicais, sozinho ou em grupo, na sua casa ou no teatro, com instrumentos ou somente com a voz humana. Use a sua voz, entoe um hino, um cântico, uma invocação, sinta a vibração sonora em seu corpo e a forma como isso altera o jeito como você percebe o ambiente (a realidade da vida).

Via do Tato

O toque está presente, tanto na percepção dos objetos, quanto na nossa sexualidade. A pele é o nosso maior organismo, então não apenas as mãos, mas os pés (sentir o chão, a terra, a grama molhada), além do corpo todo, podem ser usados como uma antena na (re)interpretação dos objetos e do ambiente em nossa volta. Existem obras de arte (instalações) que podem e devem ser visitadas, mas, com a ajuda de um/a parceiro/a, qualquer um pode experimentar tocar um objeto (ou uma pessoa - piscadinha) com os olhos vendados, com resultados extraordinários.

Os sentidos podem e devem ser usados para que exploremos a realidade, sobretudo se auxiliar a mente a questionar e contestar os modelos e padrões nos quais a sociedade nos inculca. Eu espero que a livre exploração te conduza para a reeducação. A quebra das convenções é desafiadora, senão perigosa, afinal, eu não acabei sendo preso unicamente pelo que eu penso, falo, escrevo ou acredito. O crime pelo qual eu fui acusado não tem vítima, senão as convenções que a sociedade quer (e exige) que você acredite (e reproduza, de forma inconsciente, como rebanho) que é real. E isso não é apenas em relação à minha crítica ao modo capitalista de produção, ao consumismo exagerado, mas também da violência (ódio, agressividade, discriminação, segregação, intolerância), que é a válvula de escape oferecido para mitigar a opressão/repressão sexual (recalque/frustração/negação da libido), ao invés da promoção do amor (curiosa e paradoxalmente objetivo das religiões majoritárias, desde que condicionado, controlado, limitado, o que me leva a concluir que fazem parte do sistema).

Se o uso dos sentidos irá resultar no questionamento e contestação da sociedade e do sistema, caberá a você. Se o questionamento e contestação nos levar a governos e sociedades mais justas e solidárias, caberá à humanidade. Se tudo isso resultar no fim do ódio e no começo do amor, eu espero, sinceramente, que isso passe pela forma como nós encaramos o corpo, o desejo, o prazer e o sexo. Este, talvez, será o maior desafio: encarar, entender e assimilar essa nossa sombra, a libido.

Via do Confinamento

Nós todos nascemos e fomos criados dentro de modelos, padrões, definidos por nossa família, nossa sociedade, nossa educação, nossa cultura e nossa religião. O que eu te proponho, leitor, é que nós precisamos resetar toda essa programação.
Considere isso um desafio e uma prova. De forma voluntária, o que eu te proponho é que busque o exílio, a vida de um ermitão, senão a vida de um preso, que é equivalente. Em local escolhido, organizado por uma instituição ou grupo, retire-se da vida social.

O processo pelo qual eu passei, por uma decisão judicial, teve um impacto profundo, pois, graças eu dou, eu tive as correntes que a sociedade nos impõe, removidas. De um dia a outro, tudo o que eu acreditava ser, ter e fazer, em coisa alguma me valeram. Toda aquela ilusão de individualidade, personalidade e até humanidade foram-me tirados.

A privação de coisas tão básicas, frequentemente ignoradas ou desprezadas, como o que comer, o que beber, o que vestir, onde habitar, onde dormir, nos dão outra perspectiva de vida, que é majorada, potencializada, pela reeducação necessária, ao nos ver obrigados a refazer a forma como nós convivemos com o outro.

A readequação a outras prioridades, a outras rotinas, quebra a programação que a sociedade nos impõem. Nós temos que reaprender a viver, a planejar, muitas vezes de forma improvisada, até chegar no ponto em que se vive somente pelo dia presente, abandonando o fardo do passado e deixando de se iludir com o amanhã sonhado, idealizado. O modelo de vida que nos é imposto da pessoa bem-sucedida é aquela que conquistou algum cargo importante e está cercada de patrimônio luxuoso (composto, na maioria, por produtos inúteis e desnecessários, constituídos por um consumismo, que gera a desigualdade social), mostra-se irreal e ilusório diante da realidade social da massa, mantida na miséria, na pobreza e na fome produzida por este sistema.

Ao viver confinado, nós reaprenderemos um estilo de vida que pode destruir nossa sociedade estruturada por esse sistema desumano. Nós reaprenderemos a conviver em comunidade, em solidariedade, em fraternidade, usufruindo de forma consciente aquilo que produzimos, compartilhando o excedente de forma igualitária. Outros benefícios são: o fim da segregação, da intolerância, do preconceito e da discriminação. Ao compreender e nos relacionarmos melhor com o nosso próximo, conseguiremos compreender e nos relacionar melhor conosco mesmos, com a vida, com o mundo e com o divino.

Via do Sexo

Por dois mil anos, desde que o mundo ocidental se submeteu à estranha doutrina do Cristianismo, nada mais perigoso, complicado, complexo e difícil do que recolocar o sagrado, o divino, o espiritual, no corpo, no desejo, no prazer e no sexo.

O que se conhece por aqui é a prática do Tantra que preconiza, além das posições para o ato sexual, o consumo de vinho (outro tópico) e carne, o que contradiz essa nova religião (igualmente estranha e importada), o vegetarianismo. Como a própria prática indica, há controle consciente do corpo, o ato sexual é a ferramenta para alcançar a transcendência e a comunhão com o divino.

Entretanto, antes de ascender a sua Kundalini, o bom senso recomenda preparações e regras, a menos que queira ser preso. O ambiente deve ser confortável e adequado. Caso haja mais de um participante, assegure-se que o/a(s) parceiro/a(s) está(ão) ciente e de acordo com os exercícios. Esta recomendação deve ser redobrada quando o contato sexual se der com algum espírito, entidade ou Deus/a(s).

Existem diversos livros de e sobre o tantra para serem consultados, então a minha recomendação final é que não se deve utilizar seu caminho espiritual como desculpa ou explicação para atos de violência (ou abuso) física e sexual. Segurança e consentimento são mandatórios. O intuito é o de recolocar o corpo e o sexo como ferramentas na busca pelo divino, não devem ser apropriados ou distorcidos para atender a agendas pessoais ou políticas.

Via do Psicoativo

Existem duas substâncias que são toleradas na sociedade contemporânea, muito embora tenham perdido muito de seu status e tenham sido constrangidas: cigarro e álcool. Curiosa e paradoxalmente, o consumo de maconha e derivados têm encontrado brechas nesta estranha e dúbia moral da sociedade. Mas algumas substâncias são encobertas por estereótipos e preconceitos que turvam o conhecimento. Existem alguns caminhos e práticas espirituais que se utilizam de substâncias enteógenas para o despertar e até a cura da humanidade.

O tabaco era, originalmente, utilizado nas Américas, por inúmeras culturas antes da colonização européia, no Culto aos Ancestrais. Eu posso citar o uso de cactus (mezcal), ervas (sálvia), raízes (jurema), folhas (coca, cannabis) e cogumelos. De vez em quando se fala no Santo Daime unicamente por usar ayahuasca. Essas substâncias e seu uso devem ser descriminalizadas, ressacralizadas, recolocadas no ato ritualístico. Isso nos leva à necessidade de uma estrutura, de um lugar adequado, de uma liturgia, de um grupo e de um sacerdócio.
Na qualidade de quem teve a sorte de conhecer e experimentar o que eu chamo de maná índigo, a presença de um facilitador, de uma pessoa experiente, ficou evidente. A alteração do estado da mente, induzida por um psicoativo, nos leva a questionar a realidade, bem como a percepção dela.

Via do Sangue

Para quem é mais velho, deve lembrar do sucesso que foi o jogo (video game) “Vampiro, a Máscara”, que foi assimilado e fomentado pela subcultura, até se tornar uma religião bastante ativa no underground da sociedade. Os que são jovens devem se recordar do pânico e histeria que acometeu essa mesma sociedade quando apareceu o jogo “Baleia Azul”, no qual adolescentes compartilhavam fotos de automutilação. Isso não é novidade alguma, apenas se tornou mais visível, psicólogos e psiquiatras podem indicar as causas, mas o mundo esquece que a autoflagelação está presente em algumas práticas, dentro do Cristianismo e do Islamismo. Na Índia, homens santos (sadhus), frequentemente perfuram o corpo com agulhas, ganchos e pregos.

A autoflagelação é uma forma de alterar o estado mental e inclui alterações metabólicas que mexem profundamente no nosso subconsciente, porque interfere no instinto, na nossa parte animal e na nossa sombra.
Por ser algo tão necessário e fundamental para nossa saúde e vida, o uso e controle do sangue, da circulação sanguínea, pelo uso de ferramentas ou sua ingestão, perpassa por inúmeros tabus que, talvez, eclipsaria o aspecto clínico e médico. Então eu recomendo precaução, cuidado, higiene e acompanhamento.

Última recomendação geral: leia, estude e pesquise. Sobretudo anote suas buscas, suas experiências e suas impressões. Ainda que você encontre guias e facilitadores, o seu caminho é somente seu. Ainda que você tenha um livro sagrado ou modelo idealizado, você precisa praticar por vontade própria. Você deve usar os seus pés para chegar ao seu destino.

domingo, 19 de setembro de 2021

Esponjamento é uma profissão

Tychiades:

Estou curioso sobre você, Simon. Pessoas comuns, livres e escravas, têm algum ofício ou profissão que lhes permite beneficiar a si mesmas e a outros; você parece ser uma exceção.

Simon:

Não entendo bem o que você quer dizer, Tychiades; colocar um pouco mais claro.

Tychiades:

Quero saber se você tem algum tipo de profissão; por exemplo, você é músico?

Simon:

Certamente não.

Tychiades:

Um médico?

Simon:

Não.

Tychiades:

Um matemático?

Simon:

Não.

Tychiades:

Você ensina retórica, então? Não preciso perguntar sobre filosofia; você tem tanto a ver com isso quanto o pecado.

Simon.

Menos, se possível. Não imagine que você está me iluminando sobre minhas falhas. Eu me reconheço um pecador - pior do que você pensa que sou.

Tychiades:

Muito bem. Mas possivelmente você se absteve dessas profissões porque nada grande é fácil. Talvez um comércio esteja mais no seu caminho; você é carpinteiro ou sapateiro? Suas circunstâncias dificilmente tornam uma negociação supérflua.

Simon:

Bem verdade. Bem, eu não tenho habilidade em nenhum desses.

Tychiades:

Mas em ...?

Simon:

Excelente, em minha opinião; se você o conhecesse, concordaria, tenho certeza. Posso afirmar que sou um mestre prático na arte a essa altura; se posso dar conta de minha fé é outra questão.

Tychiades:

O que é?

Simon:

Não, acho que não desenvolvi a teoria a respeito o suficiente. Por enquanto, tenha certeza de que tenho uma profissão e pare com suas críticas a esse respeito. Sua natureza você saberá em outra ocasião.

Tychiades:

Não, não; Eu não vou ficar desanimado assim.

Simon:

Bem, temo que minha profissão seja um choque para você.

Tychiades.

Gosto de choques.

Simon:

Bem, eu vou te dizer algum dia.

Tychiades:

Agora, eu digo; ou então saberei que você tem vergonha disso.

Simon:

Bem, então, eu sou esponjo.

Tychiades:

Ora, que homem sensato chamaria esponjamento de profissão?

Simon:

Eu, por exemplo. E se você acha que eu não sou são, reduza minha inocência de outras profissões à insanidade, e deixe que essa seja minha desculpa suficiente. Minha senhora Insanidade, dizem eles, é cruel com seus devotos em muitos aspectos; mas pelo menos ela desculpa suas ofensas, pelas quais ela se responsabiliza, como um professor ou tutor.

Tychiades:

Então, passar a esponja é uma arte, hein?

Simon:

Isto é; e eu professo isso.

Tychiades:

Então você é um esponjo?

Simon:

Que reprovação terrível!

Tychiades.

O quê! Você não enrubesce ao se chamar de esponjoso?

Simon:

Pelo contrário, deveria ter vergonha de não me chamar assim.

Tychiades:

E quando queremos distingui-lo para o benefício de quem não o conhece, mas tem oportunidade de descobri-lo, devemos dizer 'o esponjo', naturalmente?

Simon:

O nome será mais bem-vindo para mim do que 'estatuária' para Fídias; Tenho tanto orgulho de minha profissão quanto Fídias de seu Zeus.

Tychiades:

Ha, ha, ha! Com licença - apenas um detalhe que me ocorreu.

Simon:

Ou seja ...?

Tychiades.

Pense no endereço de suas cartas - Simon, o Esponjo!

Simon:

Simon, o esponjoso, Dion, o filósofo. Eu gostarei do meu assim como ele dele.

Tychiades:

Bem, bem, seu gosto por títulos me preocupa muito pouco. Venha agora para o próximo absurdo.

Simon:

Qual é ...?

Tychiades:

A inscrição na lista das artes. Quando alguém pergunta o que é arte, como a descrevemos? As letras que conhecemos, a medicina que conhecemos: esponjamento?

Simon:

Minha própria opinião é que tem um direito excepcionalmente bom ao nome da arte. Se você quiser ouvir, explicarei, embora não tenha feito isso da maneira adequada, como observei antes.

Tychiades:

Oh, uma breve exposição servirá, desde que seja verdade.

Simon:

Acho que, se você concorda, é melhor examinarmos primeiro a Arte genericamente; isso nos permitirá questionar se as artes específicas realmente pertencem a ele.

Tychiades:

Bem, o que é arte? Claro que você sabe disso?

Simon:

Muito bem.

Tychiades:

Diga logo, então, como você sabe.

Simon:

Uma arte, como ouvi certa vez um homem sábio dizer, é um corpo de percepções regularmente empregado para algum propósito útil na vida humana.

Tychiades:

E ele estava certo.

Simon:

Então, se a esponja tem todas essas marcas, deve ser uma arte?

Tychiades.

Se, Sim.

Simon:

Bem, agora vamos aplicar a esponja em cada um desses elementos essenciais da Arte e ver se seu caráter soa verdadeiro ou retorna uma nota rachada como cerâmica ruim quando é virada. Tem que ser, como toda arte, um corpo de percepções. Bem, descobrimos de imediato que nosso artista tem que distinguir criticamente o homem que vai entretê-lo satisfatoriamente e não lhe dar razão para desejar que ele tivesse esponjado em outro lugar. Ora, na medida em que ensaiar - que nada mais é do que o poder de distinguir entre a moeda falsa e a verdadeira - é uma profissão reconhecida, dificilmente você recusará o mesmo status àquilo que distingue entre homens falsos e verdadeiros; a autenticidade dos homens é mais obscura do que a das moedas; esta é, de fato, a essência da reclamação do sábio Eurípides: “Mas, entre os homens, como diferenciar a base? A virtude e o vício não marcam a carne exterior”. Tanto maior é a arte do esponjoso, que vence a profecia na certeza de suas conclusões sobre problemas tão difíceis. Em seguida, existe a faculdade de direcionar suas palavras e ações de modo a causar intimidade e convencer seu patrono de sua devoção: isso é consistente com compreensão ou percepção fraca?

Tychiades:

Certamente não.

Simon:

Então, na mesa, é preciso ofuscar as outras pessoas e mostrar a diferença entre amador e profissional: isso deve ser feito sem pensamento e engenhosidade?

Tychiades:

Não, de fato.

Simon:

Ou talvez você imagine que qualquer estranho que se dê ao trabalho pode diferenciar um jantar bom de um jantar ruim. Bem, diz o poderoso Platão, se o convidado não for versado em culinária, o tempero do banquete será indignamente julgado. O próximo ponto a ser estabelecido é que a esponja depende não apenas das percepções, mas das percepções regularmente empregadas. Nada mais simples. As percepções nas quais outras artes se baseiam frequentemente permanecem desempregadas por seu proprietário por dias, noites, meses ou anos, sem que sua arte pereça; ao passo que, se aqueles do esponjador perdessem seus exercícios diários, não apenas sua arte pereceria, mas ele com ela. Resta o 'propósito útil na vida humana'; seria preciso um louco para questionar isso aqui. Não encontro nada que sirva a um propósito mais útil na vida humana do que comer e beber; sem eles você não pode viver.

Tychiades:

Isso é verdade.

Simon:

Além disso, a esponja não deve ser classificada com beleza e força, e assim chamada de qualidade em vez de arte?

Tychiades:

Não.

Simon:

E, no âmbito da arte, não denota a condição negativa, de inabilidade. Isso nunca traz prosperidade ao seu dono. Tomemos um exemplo: se um homem que não entende de navegação assumisse o comando de um navio em um mar tempestuoso, ele estaria seguro?

Tychiades:

Ele não.

Simon:

Por que então? Porque ele quer a arte que o capacitaria a salvar sua vida?

Tychiades:

Exatamente.

Simon:

Segue-se que, se a esponja fosse o negativo da arte, o esponjoso não salvaria sua vida por meio dela?

Tychiades:

Sim.

Simon:

Um homem é salvo pela arte, não pela ausência dela?

Tychiades:

Isso mesmo.

Simon:

Então, esponjamento é uma arte?

Tychiades:

Aparentemente.

Simon:

Permita-me acrescentar que muitas vezes soube que até bons navegadores e motoristas habilidosos sofreram, resultando em hematomas e morte no primeiro, mas ninguém lhe contará de um esponjoso que naufragou. Muito bem, então, esponjamento não é o negativo da arte, nem é uma qualidade; mas é um corpo de percepções regularmente empregado. Portanto, emerge da presente discussão uma arte.

Tychiades:

Esse parece ser o resultado. Mas agora prossiga para nos dar uma boa definição de sua arte.

Simon:

Bem pensado. E imagino que o seguinte fará: esponjamento é a arte de comer e beber, e do falar pelo qual isso pode ser assegurado; seu fim [nota – no sentido de objetivo] é o prazer.

Tychiades:

Uma definição muito boa, eu acho. Mas eu o aviso que seu fim o colocará em conflito com alguns dos filósofos.

Simon:

Bem, se o esponjamento concorda com a felicidade quanto ao fim, podemos ficar contentes. E isso eu vou mostrar em breve. O sábio Homero, admirando a vida do esponjoso como o único bem-aventurado e invejável, tem isto: eu digo que nenhum fim mais justo pode ser alcançado do que quando o povo está em sintonia com a alegria. E geme a mesa festiva com carne e pão, e a concha do copeiro de uma tigela cheia para a taça o vinho doce molhe. Como se isso não tivesse deixado sua admiração bastante clara, ele dá um pouco mais de ênfase, bom homem, à sua opinião pessoal: isso em meu coração eu conto a maior bem-aventurança. Além disso, o personagem a quem ele confia essas palavras não é qualquer um; é o mais sábio dos gregos. Bem, agora, se Odisseu se importou em dizer uma palavra para o fim aprovado pelos estoicos, ele teve muitas chances - quando ele trouxe de volta Filoctetes de Lemnos, quando ele demitiu Tróia, quando ele impediu os gregos de desistir, ou quando ele fez o seu caminho para Tróia açoitando-se e vestindo trapos ruins o suficiente para qualquer estóico. Mas não; ele nunca disse que o fim deles era mais justo. E novamente, quando ele estava vivendo uma vida epicurista com Calipso, quando ele podia passar dias ociosos luxuosos, curtindo a filha de Atlas e dando rédeas a todas as emoções suaves, mesmo assim ele não teve seu fim mais justo; essa ainda era a vida do esponja. Banquetear era a palavra usada para se referir à esponja em sua época; o que ele diz? Devo citar as linhas novamente; nada como repetição: 'os banquetes estão em ordem'; e 'geme a mesa festiva com carne e pão'. Foi um notável atrevimento da parte de Epicuro apropriar-se do fim que pertence ao esponjamento para seu sistema de felicidade. Que era um pouco de furto - Epicuro não tendo nada, e o esponjoso muito, a ver com o prazer - logo lhes mostrarei. Presumo que prazer significa, em primeiro lugar, tranquilidade corporal e, em segundo lugar, uma alma imperturbada. Bem, o esponjoso alcança ambos, Epicuro nenhum. Um homem que está ocupado investigando a forma da terra, a infinidade dos mundos, o tamanho do sol, as distâncias astronômicas, os elementos, a existência ou não existência de Deuses, e que está envolvido em controvérsias incessantes sobre o fim - ele é uma presa não apenas para humanos, mas para perturbações cósmicas. Enquanto o esponjoso, convencido de que tudo vai para o melhor no melhor dos mundos possíveis, vivendo seguro e calmo sem tais perplexidades para perturbá-lo, come e dorme e deita de costas, deixando suas mãos e pés cuidarem de si mesmos, como Odisseu em sua passagem para casa da Síria. Mas aqui está uma refutação independente das pretensões de prazer de Epicuro. Nosso Epicuro, seja quem for sua Sabedoria, é ou não é fornecido com alimentos. Do contrário, longe de ter uma vida prazerosa, ele não terá vida alguma. Se for, ele os obtém por conta própria ou de outra pessoa? Se for o último, ele é um esponjoso, e não o que diz ser; se for o primeiro, ele não terá uma vida prazerosa.

Tychiades:

Como assim?

Simon:

Por que, se sua comida é fornecida por seus próprios meios, esse modo de vida tem muitas consequências; calcule-os. Você vai admitir que, se o princípio de sua vida é o prazer, todos os seus apetites devem ser satisfeitos?

Tychiades:

Eu concordo.

Simon:

Bem, uma grande renda pode possivelmente atender a esse requisito, uma escassa certamente não; consequentemente, um pobre não pode ser filósofo, ou seja, chegar ao fim, que é o Prazer. Mas nem o rico, que esbanja sua substância em seus desejos, irá alcançá-lo. E por quê? Porque gastar tem muitas preocupações inseparavelmente ligadas a ele; seu cozinheiro o desaponta, e você deve ter relações tensas com ele, ou então adquirir paz e sossego alimentando-se mal e perdendo o prazer. Então, dificuldades semelhantes ocorrem na administração da casa por seu administrador. Você deve admitir tudo isso.

Tychiades:

Oh, certamente, eu concordo.

Simon:

Na verdade, uma coisa ou outra certamente acontecerá e isolará Epicuro de seu fim. Agora, o esponjoso não tem cozinheiro com quem se zangar, nenhuma fazenda, administrador ou dinheiro para se aborrecer com a perda; ao mesmo tempo, vive da fartura da terra e é a única pessoa que pode comer e beber sem as preocupações das quais os outros não podem escapar. Que a esponja é uma arte, já foi amplamente provado; resta mostrar sua superioridade; e isso eu considerarei em duas divisões: primeiro, tem uma superioridade geral sobre todas as artes; e, em segundo lugar, é superior a cada um deles separadamente. A superioridade geral é esta: as artes devem ser instiladas à força do trabalho, ameaças e golpes - necessidades lamentáveis, todas elas; minha própria arte, cuja aquisição não custa nada, talvez seja a única exceção. Quem saiu do jantar em lágrimas? Com a sala de aula é diferente; ou quem saiu para jantar com a expressão lúgubre característica de ir à escola? Não, o esponja não precisa ser pressionado para colocá-lo na mesa; ele é dedicado à sua profissão; são os outros aprendizes que odeiam os seus, a ponto de fugir, às vezes. E vale a pena notar que a recompensa usual de um pai para um filho que progride nas artes comuns é exatamente o que o incentivador recebe regularmente. O rapaz escreveu bem, dizem; deixe-o ter algo de bom: que escrita vil! Deixe-o ir sem. Oh, a boca é muito útil para recompensa e punição. Novamente, com as outras artes, o resultado só vem depois que o aprendizado é feito; apenas seus frutos são agradáveis; 'a estrada longa e íngreme até lá. ' A esponja é mais uma vez uma exceção, visto que o lucro e o aprendizado aqui andam de mãos dadas; você agarra seu fim assim que começa. E enquanto todas as outras artes são praticadas apenas para o sustento que acabarão por trazer, o esponjoso tem seu sustento desde o dia em que começa. Você percebe, é claro, que o objetivo do fazendeiro na agricultura é algo mais do que a agricultura, o carpinteiro é algo diferente da carpintaria abstrata; mas o esponjoso não tem objeto oculto; ocupação e preocupação são para ele a mesma coisa. Então não é novidade para ninguém que outras profissões são escravas habitualmente e têm apenas um ou dois feriados por mês; Os estados mantêm alguns festivais mensais e alguns anuais; estes são seus momentos de diversão. Mas o esponjo tem trinta festivais por mês; todo dia é um dia de cartas vermelhas para ele. Mais uma vez, o sucesso nas outras artes pressupõe uma dieta tão abstêmia quanto a de qualquer inválido; coma e beba o quanto quiser, e você não fará nenhum progresso nos estudos. Outras artes, novamente, são inúteis para seu professor, a menos que ele tenha sua planta; você não pode tocar flauta se não tiver uma para tocar; a música lírica requer uma lira, a equitação um cavalo. Mas uma das nossas excelências e conveniências é que nenhum instrumento é necessário para o seu exercício. Pagamos outras artes, por estas somos pagos, para aprender. Além disso, enquanto o resto tem seus professores, ninguém ensina esponja; é um presente do céu, como Sócrates disse da poesia. Então não se esqueça de que, embora os outros tenham que ser suspensos durante uma viagem ou viagem, isso também pode estar em pleno andamento nessas circunstâncias.

Tychiades:

Não há dúvida acerca disso.

Simon:

Outro ponto que me impressiona é que outras artes sentem necessidade desta, mas não vice-versa.

Tychiades:

Bem, mas a apropriação do que pertence aos outros não é uma ofensa?

Simon:

Claro que é.

Tychiades:

Bem, a esponja faz isso; por que ele tem o privilégio de ofender?

Simon:

Ah, não sei nada sobre isso. Mas agora veja aqui: você sabe quão comum e mesquinho são os primórdios das outras artes; o de limpar, ao contrário, é nobre. A amizade, esse tema do encomiasta, não é nem mais nem menos, você vai descobrir, do que o começo da esponja.

Tychiades:

Como você descobre isso?

Simon:

Bem, ninguém convida um inimigo, um estranho, ou mesmo um mero conhecido, para jantar; o homem deve ser seu amigo antes de compartilhar comida e comida com ele, e admiti-lo à iniciação nestes mistérios sagrados. Sei que já ouvi muitas vezes as pessoas dizerem: Amigo, de fato! Por que direito? Ele nunca comeu ou bebeu conosco. Você vê; apenas o homem que fez isso é um amigo em que se pode confiar. Em seguida, dê uma prova sólida, embora não a única, de que é a mais real das artes: nas demais, os homens têm que trabalhar (sem falar no trabalho árduo e no suor) na postura sentada ou em pé, o que os marca para os escravos absolutos de sua arte, enquanto o esponjoso é livre para reclinar-se como um rei. Quanto à sua feliz condição, não preciso mais do que aludir às palavras do sábio Homero; ele é, e somente ele, que 'não planta, nem ara'; ele 'colhe onde não arou nem semeou'. Mais uma vez, embora a velhacaria e a tolice não sejam barreiras para a retórica, a matemática ou o trabalho com cobre, nenhum patife ou tolo pode se dar ao luxo de ser um esponjoso.

Tychiades:

Caro, querido, que profissão incrível! Estou quase tentado a trocar o meu por ele.

Simon:

Considero que já estabeleci sua superioridade em relação à arte em geral; vamos mostrar a seguir como ele se destaca nas artes individuais. E seria tolice compará-lo com os negócios; Deixo isso para seus detratores e me comprometo a prová-lo superior às maiores e mais honradas profissões. Por reconhecimento universal, são a Retórica e a Filosofia; na verdade, algumas pessoas insistem que nenhum nome, a não ser ciência, é grande o suficiente para elas; portanto, se eu provar que a esponja está muito acima mesmo dessas, a fortiori superará as outras como as servas de Nausicaa. Agora, ele goza de sua primeira superioridade sobre a Filosofia e a Retórica, e isso diz respeito à existência real; pode alegar isso, eles não podem. Em vez de termos uma única noção consistente de retórica, alguns de nós a consideram uma arte, alguns a negação da arte, alguns uma mera astúcia e assim por diante. Da mesma forma, não há unidade no assunto da Filosofia, ou em sua relação com ele; Epicuro tem uma visão, os estóicos outra, a Academia, os peripatéticos, outras; na verdade, Filosofia tem tantas definições quanto definidores. Até agora, pelo menos, a vitória oscila entre eles, e sua profissão não pode ser chamada de tal. A conclusão é óbvia; Eu nego totalmente que o que não tem existência real pode ser uma arte. Para ilustrar: existe uma e apenas uma Aritmética; duas vezes dois são quatro aqui ou na Pérsia; Gregos e bárbaros não discutem isso; mas as filosofias são muitas e variadas, não concordando nem sobre seus princípios nem sobre seus fins.

Tychiades:

Perfeitamente verdade; eles chamam de Filosofia um, mas eles fazem muitos.

Simon:

Bem, tal falta de harmonia pode ser desculpada em outras artes, sendo de natureza contingente, e as percepções em que se baseiam não são imutáveis. Mas essa Filosofia deveria carecer de unidade e até mesmo entrar em conflito consigo mesma como instrumentos desafinados - como isso pode ser tolerado? A filosofia, então, não é uma, pois considero sua diversidade infinita. E não podem ser muitos, porque é Filosofia, não filosofias. A existência real da retórica deve incorrer na mesma crítica. Que com o mesmo assunto todos os professores não devam concordar, mas manter opiniões conflitantes, equivale a uma demonstração: o que é apreendido de outra forma não pode existir. A indagação se uma coisa é isto ou aquilo, em lugar de concordar que é uma, equivale a uma negação de sua existência. Quão diferente é o caso do esponjamento! Para gregos ou bárbaros, um em natureza, assunto e método. Ninguém vai te dizer que essas esponjas desta maneira e aquelas daquilo; não há esponjadores com princípios peculiares, que se igualem aos dos estóicos e epicureos, que eu conheça; todos estão de acordo; sua conduta e seu fim igualmente harmoniosos. Esponja, acredito, nesta demonstração, é apenas a própria Sabedoria.

Tychiades:

Sim, acho que você lidou com esse ponto suficientemente; Além disso, como você mostra a inferioridade da Filosofia em relação à sua arte?

Simon:

Devo mencionar, em primeiro lugar, que nenhum esponjoso jamais amou a Filosofia; mas há registros de muitos filósofos que colocaram seus corações na esponja, à qual ainda permanecem constantes.

Tychiades:

Filósofos preocupados com o esponjamento? Nomes, por favor.

Simon:

Nomes? Você os conhece bem o suficiente; você só brinca de não saber por que vê isso como uma calúnia em seus personagens, em vez de como o crédito que é.

Tychiades:

Sim, eu lhe asseguro solenemente que não consigo imaginar onde você encontrará seus exemplos.

Simon:

Honra brilhante? Então, eu concluo que você nunca patrocina seus biógrafos, ou você não poderia hesitar sobre minha referência.

Tychiades:

Sério, desejo ouvir seus nomes.

Simon:

Oh, vou te dar uma lista; nem nomes ruins; a elite, se estou bem informado; eles irão surpreendê-lo. Aeschines, o socrático, agora, autor de diálogos tão espirituosos quanto longos, trouxe-os com ele para a Sicília na esperança de que eles conseguissem ganhar a atenção real de Dionísio; tendo feito uma leitura dos Milcíades , e descobriu-se famoso, ele se estabeleceu na Sicília para falar sobre Dionísio e esquecer a composição socrática. Novamente, suponho que você passará Aristipo de Cirene como um filósofo distinto?

Tychiades:

Certamente.

Simon:

Bem, ele também estava morando lá, ao mesmo tempo e nos mesmos termos. Dionísio o considerava o melhor de todos os esponjosos; ele tinha de fato um dom especial dessa maneira; o príncipe costumava enviar seus cozinheiros diariamente para receber instruções. Ele, eu acho, foi realmente um ornamento para a profissão. Pois bem, Platão, o mais nobre de todos vocês, veio para a Sicília com a mesma opinião; ele limpou alguns dias, mas se viu incompetente e teve que ir embora. Ele voltou para Atenas, sofreu muito com ele mesmo e então fez outra tentativa, com exatamente o mesmo resultado, no entanto. O desastre Siciliano de Platão parece-me ser comparável ao de Nicias.

Tychiades:

Sua autoridade para tudo isso, ora?

Simon:

Oh, existem muitas autoridades; mas especificarei Aristóxeno, o músico, um músico bastante importante, e ele próprio apegado a Neleu como um incentivador. Então, é claro, você sabe que Eurípides manteve essa relação com Arquelau até o dia de sua morte, e Anaxarco com Alexandre. Quanto a Aristóteles, aquele tiro em todas as artes era um tiro aqui também. Mostrei-lhe, então, e sem exagero, a paixão filosófica pela esponja. Por outro lado, ninguém pode apontar para um esponjoso que já se preocupou em filosofar. Mas é claro que, se nunca ter fome, sede ou frio é ser feliz, o esponjoso é o homem que está nessa posição. Filósofos com fome de frio você pode ver qualquer dia, mas nunca um esponjador com fome de frio; o homem não seria um esponjoso, só isso, mas um mendigo miserável, não melhor do que um filósofo.

Tychiades:

Bem, deixe isso passar. E agora o que dizer daqueles muitos pontos em que sua arte é superior à Retórica e à Filosofia?

Simon:

A vida humana, meu caro senhor, tem seus tempos e estações; há tempos de paz e há tempos de guerra. Eles fornecem testes infalíveis para o caráter das artes e de seus professores. Devemos considerar primeiro o tempo de guerra e ver quem fará o melhor por Simon e por sua cidade nessas condições?

Tychiades:

Ah, agora vem o cabo de guerra. Isso me faz cócegas, essa combinação esquisita entre esponjoso e filósofo.

Simon:

Bem, para tornar as coisas mais naturais e permitir que você leve isso a sério, vamos imaginar as circunstâncias. Notícias repentinas chegaram de uma invasão hostil; tem que ser cumprido; não vamos ficar parados enquanto nosso território periférico é devastado; o comandante-chefe emite ordens para uma reunião geral de todos os que devem servir; as tropas se reúnem, incluindo filósofos, retóricos e esponjadores. É melhor despi-los primeiro, como uma preliminar adequada para o armamento. Agora, meu caro senhor, dê uma olhada neles individualmente e veja como eles se moldam. Alguns deles você vai encontrar magros e brancos com desnutrição - todos pele de ganso, como se já estivessem feridos. Agora, quando você pensa em um dia difícil, uma luta corpo-a-corpo com a imprensa, poeira e feridas, o que é uma piada deplorável falar que esses famintos são capazes de aguentar? Agora vá e inspecione a esponja. Encorpado, carne de uma bela cor, nem branca como a de uma mulher nem bronzeada como a de uma escrava; você pode ver seu espírito; ele tem uma aparência aguçada, como um cavalheiro deve, e um alto, puro-sangue para arrancar; nenhum de seus olhares femininos encolhidos quando você está indo para a guerra! Um nobre lanceiro, e um nobre cadáver, se uma nobre morte for seu destino. Mas por que lidar com conjecturas quando existem fatos disponíveis? Faço a declaração simples de que na guerra, de todos os retóricos e filósofos que já viveram, a maioria nunca se aventurou fora dos muros da cidade, e os poucos que o fizeram, sob compulsão, tomaram seus lugares nas fileiras deixaram seus postos e foram para casa.

Tychiades:

Uma afirmação ousada e extravagante. Bem, prove.

Simon:

Retóricos, então. Destes, Isócrates, longe de servir na guerra, nunca se aventurou a um tribunal; ele estava com medo, porque sua voz estava fraca, eu entendo. Bem, então Demades, Aeschines e Philocrates, diretamente a guerra macedônia estourou, estavam com medo de trair seu país e eles próprios para Filipe. Eles simplesmente abraçaram seus interesses na política ateniense; e qualquer outro ateniense que ficasse do mesmo lado era amigo deles. Quanto a Hérides, Demóstenes e Licurgo, supostamente espíritos mais ousados, e sempre levantando cenas na assembleia com seus maus-tratos a Filipe, como eles mostraram sua destreza na guerra? Hiperides e Licurgo nunca saíram, nem mesmo ousaram mostrar o nariz além dos portões; eles se sentaram confortavelmente dentro de um estado de sítio doméstico, redigindo pequenos decretos e resoluções pobres. E seu grande chefe, que não tinha palavras mais gentis para Filipe na assembleia do que 'o bruto da Macedônia, que não pode produzir nem mesmo um escravo que valha a pena comprar' - bem, ele se animou e foi para a Beócia no dia anterior; mas a batalha não havia começado quando ele jogou fora seu escudo e fugiu. Você deve ter ouvido isso antes; era uma conversa comum não apenas em Atenas, mas na Trácia e na Cítia, de onde a criatura era derivada.

Tychiades:

Sim, eu sei de tudo isso. Mas então esses são oradores, treinados para falar, não para lutar. Mas os filósofos; você não pode dizer o mesmo deles.

Simon:

Ah, sim; eles discutem a masculinidade todos os dias, e fazem muito mais para desgastar a palavra Virtude do que os oradores; mas você vai descobrir que são covardes e evasivos ainda maiores. - Como vou saber? - Em primeiro lugar, alguém pode citar o nome de um filósofo morto em batalha? Não, eles não servem ou fogem. Antístenes, Diógenes, Crates, Zeno, Platão, Aeschines, Aristóteles e todos os seus companheiros nunca colocaram os olhos em uma ordem de batalha. Seu sábio Sócrates foi o solitário que ousou sair; e na batalha de Delium ele fugiu do Monte Parnes e foi seguro para o ginásio de Taureas. Era um procedimento muito mais civilizado, de acordo com suas ideias, sentar-se ali falando tolices suaves para jovens bonitos e provocando a companhia com sofismas, do que cruzar lanças com um espartano adulto.

Tychiades:

Bem, eu já ouvi essas histórias antes, e de pessoas que não tinham intenção satírica. Portanto, eu o absolvo de caluniá-los como forma de magnificar sua própria profissão. Mas vamos agora, se não se importar, com o comportamento militar do esponjoso; e também me diga se há algum registro de esponjas dos antigos.

Simon:

Meu caro, o menos educado de nós certamente já ouviu falar de Homero o suficiente para saber que ele faz o melhor de seus heróis como esponjadores. O grande Nestor, cuja língua destilava a fala melosa, passou uma esponja no Rei; Aquiles era, e era conhecido por, o mais correto dos gregos na forma e na mente; mas nem para ele, para Ajax, nem para Diomede, Agamenon tem tantos elogios de admiração como para Nestor. Não é por dez Ajaxes ou Achilleses que ele ora; não, Tróia teria sido levada há muito tempo, se ele tivesse em seu anfitrião dez homens como - aquele velho esponjoso. Idomeneus, da própria parentela de Zeus, também é representado na mesma relação com Agamenon.

Tychiades:

Eu conheço as passagens; mas não tenho certeza do sentido em que foram esponjosos.

Simon.

Bem, lembre-se das linhas em que Agamenon se dirige a Idomeneu.

Tychiades:

Como eles vão?

Simon:

Para ti, o copo está sempre cheio, Assim como para mim, quando te lista para beber. Quando ele fala do copo sempre cheio, ele não quer dizer que está perpetuamente pronto (quando Idomeneus está lutando ou dormindo, por exemplo), mas que ele teve o privilégio peculiar durante toda a sua vida de compartilhar a mesa do Rei sem aquele convite especial o que é necessário para seus outros seguidores. Ajax, depois de um glorioso combate único com Heitor, 'eles trouxeram para o nobre Agamenon,' dizem-nos; ele, você vê, é admitido na mesa real (e na hora certa também) como uma honra; considerando que Idomeneus e Nestor eram os companheiros regulares de mesa do rei; pelo menos essa é minha ideia. Creio que Nestor foi um exageradamente bom e habilidoso incentivador da realeza; Agamenon não foi seu primeiro patrono; ele havia servido seu aprendizado com Caeneus e Exadius. E se não fosse a morte de Agamenon, imagino que ele nunca teria abandonado a profissão.

Tychiades:

Sim, aquele era um esponjoso de primeira classe. Você pode me dar mais?

Simon:

Por que, Tychiades, o que mais era a relação de Pátroclo com Aquiles? E ele era um sujeito tão bom, em todos os aspectos, como qualquer grego de todos eles. A julgar por suas ações, não posso dizer que ele era inferior ao próprio Aquiles. Quando Heitor arrombou os portões e lutou dentro dos navios, foi Pátroclo quem o repeliu e apagou as chamas que se apoderaram do navio de Protesilau; ainda assim, ninguém diria que as pessoas a bordo eram ineficientes - Ajax e Teucer eram, um tão bom no corpo a corpo como o outro com seu arco. Um grande número de bárbaros, incluindo Sarpedon, o filho de Zeus, caiu diante deste esponjoso. Sua própria morte não foi comum. Foi preciso apenas um homem, Aquiles, para matar Heitor; Paris foi suficiente para o próprio Aquiles; mas dois homens e um Deus foram matar o esponjoso. E suas últimas palavras não se assemelharam às do poderoso Heitor, que se prostrou diante de Aquiles e rogou-lhe que deixasse seus parentes ficarem com seu corpo; não, eram os que se esperavam de alguém de sua profissão. Aqui estão eles: mas de ti eu teria enfrentado uma pontuação, e toda a pontuação que minha lança tinha dado à morte.

Tychiades:

Sim, você provou que ele é um bom homem; mas você pode mostrar que ele não era amigo de Aquiles, mas um esponjoso?

Simon:

Vou apresentar a você sua própria declaração para esse efeito.

Tychiades:

Que milagreiro você é!

Simon:

Ouça as falas, então: “Aquiles, ponha meus ossos não longe dos teus; Tu e os teus me alimentaram; deixe-me mentir com você”. E um pouco mais adiante ele diz: “Peleu me recebeu, e nutriu gentilmente, e teu cúmplice nomeado”, isto é, deu a ele o direito de passar a esponja; se ele quisesse aludir a Pátroclo como amigo de seu filho, não teria usado a palavra capanga; pois ele era um homem livre. O que é um capanga, escravos e amigos sendo excluídos? Ora, obviamente, um esponjoso. Consequentemente, Homero usa a mesma palavra da relação de Meriones com Idomeneus. E, a propósito, não é Idomeneu, embora fosse filho de Zeus, que ele descreve como 'par de Ares'; é o esponjoso Meriones. Mais uma vez, Aristogiton, pobre e de extração mesquinha, como Tucídides o descreve, não esponjou Harmódio? Ele também estava, é claro, apaixonado por ele - uma relação bastante natural entre as duas classes. Foi esse esponjoso, então, quem livrou Atenas da tirania e agora adorna a praça do mercado com bronze, lado a lado com o objeto de sua paixão. E agora eu dei a você um ou dois exemplos da profissão. Mas que tipo de suposição você faz sobre o comportamento do esponjoso na guerra? Em primeiro lugar, ele lutará de barriga cheia, como aconselha Odisseu. Você deve alimentar o homem que vai lutar, diz ele, por mais que seja de manhã cedo. O tempo que outros gastam em ajustar o capacete ou a couraça com nervosismo, ou em antecipar os horrores da batalha, ele se dedicará a guardar sua comida com um semblante alegre, e assim que os negócios começarem, você o encontrará na frente. Seu patrono ocupará seu lugar atrás dele, abrigando-se sob seu escudo como Teucer sob o de Ajax; quando os mísseis começarem a voar, o esponja se exporá a seu patrono, cuja segurança ele valoriza mais do que a sua. Se ele cair em batalha, nem o oficial nem o camarada precisam se envergonhar daquele grande corpo, que agora reclina um ornamento do campo de batalha como era antes da sala de jantar. Uma bela visão é o corpo de um filósofo ao seu lado, murcho, esquálido e barbudo; ele estava morto antes de a luta começar, pobre coitado. Quem não desprezaria a cidade cujos guardas são criaturas tão miseráveis? Quem não diria, ao ver esses manequins pálidos e peludos espalhados pelo chão, que ele não tivesse ninguém para lutar por ele e, assim, expulsasse seus pássaros de cela para preencher as fileiras? É assim que os esponjosos diferem dos retóricos e filósofos na guerra. Então, em tempos de paz, a esponja me parece tão melhor do que a filosofia quanto a própria paz do que a guerra. Seja gentil o suficiente para ver primeiro as cenas de paz.

Tychiades:

Não sei bem o que são; mas vamos dar uma olhada neles, por todos os meios.

Simon:

Bem, você vai me deixar descrever como cenas civis o mercado, as quadras, as escolas de luta livre e os ginásios, o campo de caça e a sala de jantar?

Tychiades:

Certamente.

Simon:

Para comercializar e cortejar, o esponjoso dá um amplo espaço - eles são o refúgio da trapaça; não há satisfação a ser tirada deles. Mas na escola de luta livre e no ginásio ele está em seu elemento; ele é sua principal glória. Mostre-me um filósofo ou orador que esteja na mesma classe que ele quando ele tira a roupa na escola de luta livre; olhe para eles no ginásio; eles envergonham em vez de adorná-lo. E em um lugar solitário nenhum deles enfrentaria o ataque de uma fera; o esponjoso, porém, não encontrará dificuldade em eliminá-lo; sua familiaridade com a mesa gerou desprezo. Um veado ou javali pode erguer as cerdas; ele não se importará; o javali pode afiar suas presas contra ele; ele apenas retribui o elogio. Quanto às lebres, ele é mais mortal para elas do que um galgo. E então na sala de jantar, onde está seu par, para brincar ou comer? Quem mais contribuirá para o entretenimento, ele com sua música e sua piada, ou uma pessoa que não tem uma risada dentro de Simon, senta-se em uma capa puída e mantém os olhos no chão como se estivesse em um funeral e não em um jantar ? Se você me perguntar, acho que um filósofo tem tantos negócios em uma sala de jantar quanto um touro em uma loja de porcelana. Mas chega disso. Que impressão se tem da vida real do esponjoso, quando se compara com a outra? Primeiro, descobriremos que ele é indiferente à reputação e não liga a mínima para o que as pessoas pensam dele, ao passo que todos os retóricos e filósofos, sem exceção, são escravos da vaidade, da reputação e, o que é pior, do dinheiro. Ninguém poderia ser mais descuidado com os seixos na praia do que o esponjoso é com o dinheiro; ele tanto tocaria no fogo quanto no ouro. Mas os retóricos e, como se isso não bastasse, os filósofos professos, estão abaixo do desprezo a esse respeito. Não há necessidade de ilustrar no caso dos retóricos; mas dos filósofos cuja reputação é mais elevada no momento, um foi recentemente condenado por aceitar suborno por seu veredicto em um processo judicial, e outro espera um salário por dar a um príncipe sua empresa, e não considera nenhuma vergonha ir para o exílio em sua velhice e se contratar para pagar como um índio ou cita cativo. O próprio nome que sua conduta lhe rendeu não deixa seu rosto corado. Mas suas suscetibilidades não se limitam de forma alguma a eles; dor, temperamento, ciúme e todos os tipos de desejos devem ser adicionados; tudo o que o esponjoso está fora do alcance de; ele não cede ao temperamento porque, por um lado, tem fortaleza e, por outro, não tem ninguém para irritá-lo. Ou, se por acaso ele é levado à ira, não há nada de desagradável ou taciturno nisso; apenas diverte e diverte. Quanto à dor, ele tem menos para suportar do que qualquer pessoa, sendo uma das recomendações e privilégios de sua profissão exatamente essa imunidade. Ele não tem dinheiro, casa, escravo, esposa, nem filhos - esses reféns da Fortuna. Ele não deseja fama, riqueza ou beleza.

Tychiades:

Ele vai sentir dor se o suprimento acabar, eu presumo.

Simon:

Ah, mas você vê, ele não é um esponjoso se isso acontecer. Um homem corajoso não é corajoso se não tem coragem, um homem sensato não é sensato se não tem bom senso. Ele não poderia ser um esponjoso nessas condições. Estamos discutindo o esponjoso, não o não esponjoso. Se o corajoso o é em virtude de sua coragem, o sensato sensível em virtude de seu sentido, então o esponjoso é um esponjoso em virtude de esponja. Tire isso, e estaremos lidando com outra coisa, e não com um esponjoso de forma alguma.

Tychiades:

Então seus suprimentos nunca ficarão curtos?

Simon:

Manifestamente. Portanto, ele está tão livre desse tipo de dor quanto dos outros. Então, todos os filósofos e retóricos juntos são criaturas tímidas. Em geral, você pode vê-los carregando varas em suas caminhadas; bem, é claro que eles não iriam armados se não tivessem medo. E eles trancam suas portas elaboradamente, por medo de ataques noturnos. Agora, nosso homem apenas tranca a porta do quarto, para que o vento não a abra; se há barulho durante a noite, é como se não houvesse nenhum; ele viajará por uma estrada solitária e não usará espada; ele não sabe o que é o medo. Mas estou sempre vendo filósofos, embora não haja nada a temer, carregando arcos e flechas; quanto aos gravetos, eles os levam para o banho ou para o café da manhã com eles. Novamente, ninguém pode acusar um esponjoso de adultério, violência, estupro ou, na verdade, de qualquer crime. O culpado de tais ofensas não estará limpando, mas se arruinando. Se ele for pego em adultério, seu estilo daí em diante é retirado de sua ofensa. Assim como um pedaço de covardia traz a um homem não reputação, mas descrédito, assim, eu presumo, o esponjoso que comete uma ofensa perde seu título anterior e recebe em troca aquele próprio da ofensa. De tais ofensas por parte de retóricos e filósofos, por outro lado, não temos apenas exemplos abundantes em nosso próprio tempo, mas registros contra os antigos em seus próprios escritos. Há uma Apologia de Sócrates, de Aeschines, de Hiperides, de Demóstenes e, na verdade, da maioria de sua espécie. Não existe nenhum pedido de desculpas de esponjador, e você nunca ouvirá falar de alguém que está entrando com uma ação contra ele. Agora, suponho que você vai me dizer que a vida do esponjoso pode ser melhor do que a deles, mas sua morte é pior. Nem um pouco disso; é muito mais feliz. Sabemos muito bem que todos ou a maioria dos filósofos tiveram o destino miserável que mereciam, alguns por veneno após condenação por crimes hediondos, alguns queimando vivos, alguns por estrangulamento, alguns no exílio. Ninguém pode alegar a morte de uma esponja para igualar isso; ele come e bebe e tem uma morte feliz. Se lhe disserem que alguém morreu de forma violenta, certifique-se de que não foi nada pior do que indigestão.

Tychiades:

Devo dizer que você fez bem por sua espécie contra os filósofos. E agora olhe para isso do ponto de vista do patrono; ele faz valer o seu dinheiro? Parece-me que o homem rico faz a gentileza, concede o favor, encontra a comida, e tudo isso é um pouco desacreditado para o homem que as leva.

Simon:

Bem, sério, Tychiades, isso é bastante bobo da sua parte. Você não vê que um homem rico, se tivesse o ouro de Gyges, ainda é pobre enquanto janta sozinho, e não melhor do que um vagabundo se ele sai sozinho? Um soldado sem seus braços, um vestido sem sua púrpura, um cavalo sem suas armaduras, são coisas pobres; e um homem rico sem sua esponja é um espetáculo mesquinho e barato. O esponjoso dá brilho ao patrono, nunca o patrono ao outro. Além disso, nenhuma das reprovações que você imagina está ligada à esponja; você se refere, é claro, à diferença em seus graus; mas então é uma vantagem para o homem rico ficar com o outro; além de seu uso ornamental, ele é um guarda-costas muito valioso. Na batalha, ninguém estará pronto para enfrentar o homem rico com tal camarada ao seu lado; e dificilmente você pode, tendo ele, morrer por veneno. Quem se atreveria a tentar tal coisa, com ele saboreando sua comida e bebida? Portanto, ele traz não apenas crédito, mas seguro. Seu afeto é tal que ele correrá todos os riscos; ele nunca deixaria seu patrono enfrentar os perigos da mesa sozinho; não, ele preferia comer e morrer com ele.

Tychiades:

Você expôs seu caso sem perder um ponto, Simon. Não me diga que você estava despreparado novamente; você foi treinado em uma boa escola, cara. Mas gostaria de saber mais uma coisa. Há um som desagradável na palavra esponja, não acha?

Simon:

Veja se tenho uma resposta satisfatória para isso. Obrigue-me dando o que você considera as respostas certas às minhas perguntas. Esponjamento é uma palavra antiga; o que isso realmente significa?

Tychiades:

Conseguir o jantar às custas de outra pessoa.

Simon:

Jantando fora, na verdade?

Tychiades:

Sim.

Simon:

E podemos chamar esponjamento de jantar fora?

Tychiades:

O gravame está nisso; ele deve jantar em casa.

Simon:

Mais algumas respostas, por favor. Desses pares, qual você considera o melhor? Qual você escolheria, se tivesse escolha? Navegar ou não navegar?

Tychiades:

O último.

Simon:

Correr ou ficar parado?

Tychiades:

O último.

Simon:

Conduzir ou ser conduzido, atirar ou ser alvejado?

Tychiades:

Ainda o mesmo.

Simon:

Então eu presumo que um jantar fora é melhor do que um jantar?

Tychiades:

Indiscutível. Doravante, irei ter convosco de manhã e à tarde como um colegial para as aulas. E tenho certeza de que você deve fazer o melhor por mim, como seu primeiro aluno. O primeiro filho é sempre a alegria da mãe, sabe.

Luciano de Samósata, Diálogos, De Parasito.

Original: http://lucianofsamosata.info/wiki/doku.php?id=home:texts_and_library:dialogues:the-parasite

Traduzido, com edições, com Google Tradutor.

Luciano de Samósata viveu entre 125 DC até 180 DC. Samósata localizava-se na Síria. Seus escritos repletos de ironia e sarcasmo refletem a Filosofia do Ceticismo. Aparentemente nada era sagrado para ele, nem mesmo a Academia.