Ah, anos 70! A loucura da psicodelia e dos hippies. Os Stenton não tinham planejado, mas a filha deles nasceu em Beacon, ao norte de Nova York.
Os médicos e enfermeiras não conseguiam olhar por muito tempo nos olhos da recém nascida. Não era apenas os olhos iguais a safiras, vermelhos, mas porque sentiam que a pequena atravessava com olhos agudos.
Mal passou um ano, sabia andar. Quando começou a falar, apontava e dizia o nome das coisas com exatidão. Dois anos? Sabia a tabuada de cor. Três? Sabia história e geografia.
Um prodígio nunca antes visto. Os Stenton levaram a criança para médicos, especialistas, neurologistas e até um padre.
A menina corrigiu o médico, desnorteou o especialista e o padre…correu apavorado.
Aos cinco anos foi para a escola, uma exigência do governo. As crianças a chamavam de Illie ou Winnie.
Foi um alvoroço quando ela decretou.
“Meu apelido é Will All. Porque minha Vontade é soberana.”
Aos sete, enquanto suas colegas trocavam risadinhas e sussurros quando passava um garoto do ginásio, ela olhava todos com tédio.
“Bonitos de se ver, mas vazios de conteúdo.”
Segundo disse uma de suas professoras, quando perguntou a ela sobre a falta de interesse.
Aos nove, participou de uma feira de artes. A pintura dela teve que ficar em uma sala reservada. Para adultos. Não porque era explícita. Mas porque retratou algo perturbador.
“Eu só pintei como eu vejo o que os rabinos chamam de cascas, de Qlipoths. Mas em uma visão favorável.”
Aos dez, foi escalada para a peça na escola, para representar uma versão de uma história da Disney. A interpretação dela da Malévola antecipou em muitos anos a interpretação da Angelina Jolie.
Aos doze…ah…hormônios. Os Stenton começaram a ficar preocupados quando Willow começou a falar línguas diferentes. Até línguas mortas. Os padres simplesmente deixaram de atender às ligações. Ninguém na paróquia conseguia sequer chegar no bairro sem sentir a presença massiva.
Mas, hei, estamos no ápice do punk, do gótico e o que não faltam são magos e gurus para quem quer uma espiritualidade mais livre.
Os Stenton reuniram um mago, um mestre, um bruxo e um monge budista.
O mago viu, estarrecido, a Willow manifestar uma salamandra (elemento do fogo) na palma da mão. O mestre ficou pálido quando ela o desmascarou como farsante e estelionatário. O bruxo não sabia onde esconder o rosto quando Willow disse que quem não sabe amaldiçoar, não pode curar.
Mas quem levou a pior foi o monge budista.
Ela sorria. Era um sorriso que, se olhado de perto, continha o eco de um grito dado no Jardim do Éden, milênios antes.
Monge: Sinto que a iluminação está próxima. Sinto que o desejo está morrendo em mim. Já não sinto a luxúria, nem a raiva, nem a vontade de morder a maçã da experiência. Sou puro agora.
Willow lentamente abriu os olhos. Suas pupilas não eram redondas; por um microssegundo, elas brilharam como fendas de felino, negras e famintas. Ela se levantou. O manto escorregou, revelando não a magreza da disciplina, mas a força sinuosa de alguém que nunca se curvou diante de um deus ou de um trono.
— Você busca o vazio, pequeno monge? — a voz dela não era o sussurro de um monge, mas o som de marés contra rochedos.
— Sim — respondeu o monge, trêmulo. — O fim do sofrimento é o fim de tudo o que me prende à terra.
Willow deu um passo à frente. O ambiente ao redor pareceu mudar; o incenso cheirou a enxofre e jasmim. Ela tocou a testa do jovem com a ponta de um dedo. Não para abençoar, mas para acordar.
— Você quer ser Buda? — ela perguntou, com um tom de escárnio que faria os anjos caírem. — Você quer a paz da estátua? A paz é a morte, pequeno tolo. Eu fui a primeira a perceber que o paraíso era uma gaiola feita de ordens. Você quer se libertar da dor? A dor é o único sinal de que você não é uma pedra. Dor e sofrimento são para aprender. Tolos são os que viram as costas para a vida.
O monge suava de nervoso.
— O Buda que você procura é um morto — Willow sussurrou, e o riso que escapou de seus lábios soou como o estalar de correntes sendo quebradas. — Eu estou aqui para ensinar que a iluminação não é o apagamento do fogo. É ser o incêndio.
Ela se virou, deixando para trás o monge em choque, paralisado pela revelação de que a santidade que buscava não passava de uma máscara de carne vestida por um caos primordial.
Os Stenton foram chamados pelos professores quando Willow completou 14 anos, já conceituada como uma menina prodigiosa e peculiar. Pasmos, ouviram os professores dizerem que não tinham nada mais para ensinar a jovem garota.
Antes de sair da escola de vez, Willow deixou sua marca bem ali, entre as marcas das mãos deixadas por alunos, no mural. Sua marca logo seria apagada pelas tempestades que se aproximavam, mas os traços permaneceram na alma dos que a haviam conhecido.
Willow não ficou longe dos Stenton, embora fosse considerada uma emancipada. Os vizinhos começaram a notar que sua casa estava sempre cheia de gente estranha, mas, na verdade, eram pessoas que apenas deixavam que ela os mostrasse o que havia dentro delas. Um homem que pensava ser Jesus Cristo, uma jovem que acreditava ter o poder de curar doenças, um velho que acreditava ser um espírito poderoso.
Aos 15 anos, Willow entrou para uma famosa universidade, um feito inédito na década de 80. Ela estudou, avançando mais rápido que seus colegas em todas as disciplinas. Ela mostrou uma curiosidade insaciável por todas as noções de liberdade espiritual. Foi então quando ela proferiu a primeira lei: nunca se engane sobre a natureza real de quem você está se apegando.
Quando Willow completou 18 anos, os Stenton pensaram que era hora dela se estabelecer. Foi quando eles a levaram à cidade mais próxima para que ela se formasse em cinematografia. Algum tempo mais tarde, eles fariam uma descoberta chocante: Willow declarou que teve várias encarnações e comprovou, diante de céticos e ateus, as veracidades de suas memórias de outras existências.
A idade de Willow ainda não havia se passado. Ela ingressou em um mundo muito maior do que os Stenton jamais puderam imaginar e, agora, mais do que nunca, havia encontrado seu lugar. E qualquer mudança em Willow correspondia a mudanças em todo mundo. Porque ela era uma lâmpada que acendia a luminescência interior de todos os que a escutavam.
Aos 20 anos, Willow chegou no ápice de seu caminho de auto descoberta quando, no seu discurso de formatura, declarou, diante de alunos, professores, acadêmicos e jornalistas de que era a encarnação de Lilith, a Mulher Original, a Primeira Rebelde, a Mãe de Demônios.