https://revistaforum.com.br/politica/flavio-bolsonaro-governar-por-decadas/
Atente ao ato falho. Décadas. Se isso não é uma declaração de golpe, eu desisto.
Escreva um texto crítico em tom de humor e sarcasmo.
Há uma ironia importante aí: “décadas” não é, por si só, uma declaração explícita de golpe. Mas é uma escolha de palavra politicamente muito reveladora quando aparece junto de propostas de mudança constitucional, ataques ao funcionamento das instituições e a ideia de manter um grupo político afastado do poder por décadas. A própria fala registrada foi de permanência do grupo no poder por esse período.
O pequeno detalhe chamado “décadas”
Tem certas palavras que escapam pela boca como quem não quer nada. A pessoa está ali fazendo discurso de campanha, falando de futuro, Constituição, Congresso, instituições... e, de repente:
“Décadas.”
Pronto.
A palavra caiu no chão e todo mundo fingiu que não ouviu.
Flávio Bolsonaro afirmou que, caso eleito, seu grupo pretende ficar “por décadas” no poder.
E aqui aparece uma questão interessante: democracia não funciona como contrato de aluguel com cláusula de renovação automática.
Em uma democracia, você ganha uma eleição. Governa dentro das regras. Tenta convencer o eleitorado novamente. Pode perder. Pode ganhar. Pode surgir outro partido, outro projeto, outro candidato.
O eleitor troca de ideia.
Essa é justamente uma das características inconvenientes da democracia.
Agora, quando alguém fala em permanecer no poder por décadas, enquanto simultaneamente defende mudanças na Constituição e questiona o funcionamento das instituições, talvez seja razoável parar por alguns minutos e perguntar:
“Desculpe, décadas como?”
Porque existe uma diferença monumental entre dizer:
“Quero que meu projeto político seja competitivo por décadas.”
e dizer:
“Nós vamos ficar no poder por décadas.”
Na primeira frase existe um projeto político.
Na segunda, começa a aparecer uma curiosa sensação de propriedade particular do Estado.
É como se o Palácio do Planalto viesse com escritura, IPTU e placa:
“Família Bolsonaro — patrimônio histórico. Favor não estacionar.”
E há outro detalhe particularmente saboroso nessa história.
O candidato também vem defendendo mudanças constitucionais, incluindo o fim da reeleição, alterações no Judiciário e outras mudanças que dependeriam de aprovação do Congresso.
Então temos uma equação curiosa:
“Não quero reeleição.”
“Quero ficar décadas no poder.”
“Vamos mudar a Constituição.”
=
O brasileiro olhando para a televisão e perguntando:
“Mas décadas de quê, exatamente?”
É claro que uma fala dessas não constitui, sozinha, prova de um plano golpista. Seria intelectualmente desonesto transformar uma palavra em sentença judicial.
Mas também seria ingenuidade tratar a palavra como se tivesse sido escolhida por acidente meteorológico.
Principalmente porque o histórico recente brasileiro tornou qualquer conversa sobre permanência prolongada no poder, ruptura institucional e alteração das regras democráticas um assunto que merece atenção — não aplauso automático.
E existe uma diferença fundamental entre vencer eleições repetidamente e imaginar que uma vitória eleitoral autoriza um grupo a se perpetuar.
A primeira coisa é democracia.
A segunda depende de como isso seria feito.
Porque, em uma democracia, ninguém recebe o país de herança.
Nem presidente.
Nem partido.
Nem família.
Nem grupo ideológico.
Nem aquele sujeito que chega ao poder já fazendo planos para explicar aos netos como foi que conseguiu ficar lá.
Aliás, talvez o departamento de marketing tenha cometido um pequeno erro.
Em vez de:
“Vamos governar por décadas.”
Talvez fosse melhor:
“Pretendemos apresentar propostas e disputar eleições regularmente, respeitando a alternância de poder e as instituições democráticas.”
É menos emocionante?
Sem dúvida.
Não rende tanto meme?
Também.
Mas tem uma vantagem extraordinária:
parece uma democracia.
E talvez seja justamente esse o detalhe que deveria preocupar menos o cidadão brasileiro: não a palavra “décadas” isoladamente, mas o conjunto da frase, das propostas institucionais e da concepção de poder que ela sugere.
Porque eleição serve para escolher quem vai governar.
Não para escolher quem vai mandar para sempre.
Presidência não é monarquia.
E urna eletrônica não vem com botão:
“Confirmar proprietário vitalício.”
Criado com ChatGPT.
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