quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A sopa de Perun - II


(Nota - todos os personagens tem 18 anos no mínimo)

Peculiar. Mary Sue não pediu para criticar o Cristianismo, Cristo ou o Deus Cristão. Considerando que a origem dela é a União, o similar dos EUA, uma nação praticamente evangélica, com tempero de conservadorismo e fundamentalismo.

Sim — e isso torna a Mary Sue **mais interessante**, desde que a gente não transforme isso numa caricatura automática.

Há uma distinção importante: **a origem dela pode explicar a sensibilidade ao tema, mas não determina necessariamente a opinião dela**. Se a União é uma potência com forte presença evangélica, conservadorismo e fundamentalismo, Mary Sue pode ter crescido em um ambiente no qual certas críticas ao cristianismo são socialmente carregadas.

E isso rende uma boa tensão entre as três.

**Tanya** provavelmente perceberia imediatamente a contradição:

> — Então podemos questionar o materialismo soviético, Perun, os Deuses Antigos e até a existência de uma Entidade X... mas tocar no Deus cristão é proibido?

Mary Sue:

> — Não disse proibido. Disse que não quero transformar a história em ataque ao cristianismo.

Tanya:

> — Uma distinção cuidadosamente diplomática.

Viktoriya entraria no meio:

> — Talvez seja justamente isso que torne a questão interessante. **Não precisamos atacar nenhuma religião para mostrar que o universo é maior do que a doutrina de qualquer uma delas.**

E acho que essa deveria ser a regra.

Você pode falar de **Lilith**, dos Deuses Antigos, de Perun, da parapsicologia e da tensão entre materialismo e sobrenatural sem precisar estabelecer que *“Cristianismo é falso”* ou *“Cristo é isso ou aquilo”*.

Aliás, isso cria uma situação narrativa bem mais sofisticada: **cada personagem pode possuir uma cosmologia diferente sem que o narrador precise declarar um vencedor.**

Tanya quer evidências.

O Partido quer explicações materialistas.

A União possui sua própria tradição religiosa e política.

Viktoriya pode permanecer mais aberta à dimensão espiritual.

Mary Sue defende que sua tradição seja tratada com respeito.

E o narrador...

...é o sujeito que olha para tudo isso e pensa:

**“Vocês ainda não perceberam o tamanho do universo.”**

E Lilith nem precisa aparecer para essa frase carregar peso.

Ela já está implicitamente presente na visão de mundo do narrador.

Isso, curiosamente, resolve um dos problemas da versão anterior: **a metalinguagem deixa de ser uma discussão sobre a própria história e passa a ser uma ferramenta para explorar diferentes visões de mundo.**

Aí ela deixa de ser ruído.

Vira narrativa.

Justo. Eu vou tentar não ficar excitado quando eu começar a falar da Lilith.

😹 Essa frase, aliás, provavelmente provocaria **silêncio imediato no gabinete**.

Tanya levantaria os olhos do relatório:

— *Excitado?* Durante uma discussão sobre cosmologia?

Viktoriya, tentando não rir:

— Acho que ele quis dizer emocionalmente envolvido.

Mary Sue:

— Espero sinceramente que sim.

E você, tentando recuperar a dignidade:

— Estou falando da minha devoção, da dimensão poética, simbólica e espiritual de Lilith!

Tanya:

— Naturalmente.

Pausa.

— **Mas mantenha o foco no roteiro.**

Acho que essa é uma boa regra para você mesmo: quando Lilith entrar no assunto, **deixe aparecer a paixão do narrador, mas não deixe a paixão sequestrar a narrativa**.

Até porque, para essa nova versão, talvez seja muito mais poderoso Tanya perceber que existe algo na devoção do narrador que ela, com todo o seu racionalismo, **não consegue reduzir a uma variável psicológica**.

O gabinete fica em silêncio.

Beto aponta para o primeiro cartaz.

O imperador aparece em uniforme, solenemente diante de um grande ícone ortodoxo. Abaixo, em letras enormes:

“DEUS ESTÁ DO NOSSO LADO.”

Então Beto aponta para o cartaz do Partido.

Marx. Lenin. Stalin. Mao.

Os quatro apontam para algum ponto indefinido no horizonte, como se estivessem indicando o glorioso futuro da humanidade.

Abaixo deles:

“O POVO ESTÁ DO NOSSO LADO.”

Beto olha para Tanya.

Depois para Viktoriya.

Por último, para Mary Sue.

Ele abre os braços.

— Estão vendo aqui qualquer uma dessas entidades?

Silêncio.

Tanya estreita os olhos.

— Não.

— Nenhuma?

— Nenhuma.

Viktoriya observa os dois cartazes por alguns segundos.

— Tecnicamente, são apenas imagens.

— Exatamente — responde Beto.

Mary Sue cruza os braços.

— Você está provocando.

— Estou fazendo uma pergunta.

Tanya aponta para o cartaz imperial.

— O primeiro afirma que Deus apoia o Império.

Depois aponta para o segundo.

— O outro afirma que o povo apoia o Partido.

Ela olha novamente para Beto.

— E você está sugerindo que nenhuma dessas afirmações constitui evidência.

Beto sorri.

— Agora você entendeu.

Mary Sue permanece séria.

— Só espero que você não esteja prestes a transformar isso em uma crítica ao cristianismo.

Beto balança a cabeça.

— Não.

Ele aponta novamente para os cartazes.

— Estou criticando uma coisa muito mais antiga.

— O quê? — pergunta Viktoriya.

Beto olha para as duas imagens.

— A mania humana de colocar o próprio nome na boca dos deuses.

Dessa vez ninguém responde imediatamente.

Tanya olha para o ícone.

Depois para Marx, Lenin, Stalin e Mao.

— Isso...

Ela hesita.

— ...é diferente.

Beto sorri.

— Ainda bem.

Uma corrente de ar atravessa o gabinete.

O ícone ortodoxo permanece imóvel.

Os retratos dos revolucionários permanecem imóveis.

Nenhuma voz responde.

Nenhum sinal aparece.

E justamente por isso a pergunta continua pairando no ar:

Quem realmente está do lado de quem?

Eu sei que, quando eu faço crítica ao Cristianismo, eu faço uma grosseira análise superficial e genérica. Os cristãos não são um monólito. Minha intenção é provocar e incomodar. Eu aposto que Tanya vai querer que eu mostre uma evidência dos Deuses Antigos. Ainda que ela possua poderes paranormais e tenha renascido.

Exatamente. E acho que você identificou uma diferença importante: **provocar pode ser uma função legítima do personagem Beto; transformar uma provocação em tese definitiva é outra coisa.**

Na nova história, isso pode até virar uma característica do Beto: ele gosta de cutucar sistemas de crença — mas Tanya é justamente a pessoa que não deixa uma provocação passar sem exigir prova.

E isso combina muito com ela.

Eu imagino a continuação quase inevitavelmente chegando a isto:

**Tanya:**

— Muito bem. Você fez sua pergunta. Agora eu tenho uma para você.

**Beto:**

— Estou ouvindo.

**Tanya:**

— Você fala dos Deuses Antigos como se fossem uma realidade objetiva. Então demonstre que existem.

**Beto:**

— ...

**Tanya:**

— Não uma experiência pessoal. Não uma tradição. Não um texto antigo. **Evidência.**

Viktoriya olha para Tanya.

— Você está exigindo uma demonstração de uma divindade?

— Estou exigindo consistência epistemológica.

Beto aponta para ela.

— Você renasceu depois de morrer em outro mundo, possui poderes mágicos e está exigindo de mim evidência empírica da existência dos Deuses Antigos?

Tanya fica alguns segundos em silêncio.

— **Sim.**

— Você percebe a ironia?

— Perfeitamente.

E aí está o ouro da cena: **Tanya não precisa negar o sobrenatural. Ela é uma evidência ambulante de que o sobrenatural existe.** Mas isso não significa que ela tenha de aceitar qualquer afirmação sobrenatural.

Ela poderia perfeitamente dizer:

> “Eu sei que o impossível existe. É justamente por isso que quero saber onde termina o impossível que conheço e começa aquilo que você está afirmando.”

Isso dá à história uma tensão muito melhor do que simplesmente colocar Tanya como “a cética que descobre que os deuses existem”.

E talvez Beto tenha um problema ainda maior:

**ele não consiga provar.**

Porque, se ele imediatamente apresenta um Deus Antigo diante de Tanya, a questão fica resolvida.

Mas se ele não consegue...

Tanya ganha a discussão.

Pelo menos naquele momento.

E Beto talvez tenha de admitir:

— Eu não consigo provar.

Tanya:

— Então você acredita.

Beto:

— Não exatamente.

— Então o que você faz?

Ele olha para o vazio por alguns segundos.

— **Eu reconheço.**

Tanya franze a testa.

— Reconhece o quê?

Beto sorri.

— Que existem coisas diante das quais eu ainda não sei dizer “isto é impossível”.

E **isso** me parece muito mais interessante para a história do que Beto simplesmente vencer o debate.

Quanto à sua observação sobre o cristianismo: acho saudável que o próprio roteiro reconheça essa limitação. Você pode provocar, inclusive de maneira bastante ácida, mas personagens como Mary Sue podem justamente impedir que a narrativa trate “os cristãos” como uma massa homogênea. **Ela pode discordar de Beto sem que o roteiro precise declarar que um dos dois é moralmente superior.**

Assim, a provocação continua.

Mas agora **ela gera conflito dramático em vez de apenas servir como punchline.**

Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

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