sábado, 24 de outubro de 2026

O eleitor não é inimputável


https://www.brasil247.com/blog/nao-transformem-os-eleitores-em-reus-por-suas-escolhas-e-assim-que-se-perde/


Um discurso bonitinho, mas é só um discurso. Não vai evitar as consequências se o Flávio for eleito. Então eu quero, sim, que o brasileiro se lasque.
Escreva uma crônica crítica em tom de humor e sarcasmo.


A ideia central do artigo é que transformar o eleitor em réu por ter votado “errado” é politicamente contraproducente: afasta justamente quem se pretende convencer. 
 Mas dá para fazer a crítica inversa: não chamar o eleitor de réu não significa absolvê-lo das consequências da própria escolha.

O eleitor não é réu — mas também não é inimputável
Existe uma coisa maravilhosa na democracia brasileira: o eleitor é soberano.

Existe outra coisa maravilhosa: depois de apertar o botão, ele continua soberano.

E existe uma terceira coisa, talvez menos divulgada nos comerciais eleitorais: a soberania vem acompanhada de consequências.

Li o discurso de que não devemos transformar eleitores em réus por suas escolhas. Bonito. Sensato. Civilizado. Quase dá vontade de colocar uma música instrumental ao fundo e terminar o texto abraçando uma árvore.

O problema é que existe uma diferença gigantesca entre responsabilizar moralmente o eleitor e simplesmente reconhecer que uma escolha coletiva produz efeitos coletivos.

Eu não preciso chamar ninguém de burro, minion, robô, pobre de direita ou qualquer outro apelido criativo do catálogo nacional de insultos políticos.

Posso simplesmente dizer:

Você votou.

Pronto.

Não precisa de tribunal.

Não precisa de promotor.

Não precisa nem de juiz.

A urna já fez o serviço.

Se amanhã Flávio Bolsonaro for eleito e começar a implementar o projeto político que seus eleitores escolheram, eu não vou bater na porta de cada eleitor com um megafone dizendo:

— EU AVISEI!

Até porque seria impossível. O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes e eu não tenho preparo físico para uma missão dessas.

Mas também não vou fingir surpresa diante das consequências.

Porque existe uma curiosa tradição brasileira: quando o resultado eleitoral agrada, o povo é soberano.

Quando desagrada, subitamente o povo vira vítima inocente de uma conspiração cósmica, da desinformação, do algoritmo, do WhatsApp, do pastor, do influencer, do vizinho, da mídia, da chuva, da Lua em Escorpião e provavelmente de Mercúrio retrógrado.

Não.

O eleitor é sujeito político.

E sujeito político significa também sujeito às consequências políticas.

O artigo tem razão quando critica a arrogância de quem olha para uma parcela da população e conclui:

— São todos idiotas!

Isso é estupidez política.

Mas existe um erro simétrico em transformar toda crítica ao eleitor numa espécie de violência antidemocrática.

Se eu digo:

— Não deveria ter votado nisso porque isso poderá destruir determinada política pública, restringir direitos ou fortalecer determinado projeto autoritário.

Estou fazendo crítica política.

Não estou criando a Casa Verde de Machado de Assis.

E aqui chegamos ao ponto em que eu assumo minha pequena dose de sinceridade politicamente incorreta:

se Flávio for eleito, eu quero, sim, que o brasileiro se lasque.

Não porque eu deseje sofrimento para milhões de pessoas.

Mas porque existe uma diferença entre desejar a desgraça e recusar-se a fingir que a escolha não tem consequências.

É quase como alguém entrar numa churrascaria, escolher comer três quilos de picanha, tomar cinco litros de refrigerante e depois reclamar que o estômago está fazendo greve.

Você pode até receber solidariedade.

Mas alguém provavelmente vai perguntar:

— E você esperava o quê?

Democracia não é um sistema de cashback.

Você não deposita um voto hoje e recebe amanhã exatamente o governo que imaginou na sua cabeça.

E muito menos existe a modalidade:

“Votei errado, mas gostaria de cancelar a compra antes da entrega.”

A urna não tem botão de arrependimento.

Não existe:

“Deseja realmente confirmar seu voto?”

SIM.

“Tem certeza?”

SIM.

“Última chance.”

PUTZ, PENSANDO BEM...

Depois que o resultado sai, começa a parte desagradável da democracia: viver com aquilo que a sociedade escolheu.

E isso vale para todos.

Inclusive para mim.

Se o candidato que eu considero melhor perder, eu também vou pagar impostos, enfrentar as decisões do governo, conviver com o Congresso, sofrer as políticas públicas e assistir ao país tomar caminhos que não escolhi.

A diferença é que eu não quero transformar isso numa cruzada contra o eleitor.

Quero apenas preservar uma coisa que parece ter desaparecido da política brasileira:

a capacidade de dizer que uma escolha foi ruim sem precisar transformar quem a fez em inimigo da humanidade.

Posso compreender por que alguém votou em Flávio Bolsonaro.

Posso estudar as razões econômicas, culturais, religiosas, territoriais, familiares, identitárias ou simplesmente emocionais.

Posso conversar.

Posso ouvir.

Posso tentar convencer.

Mas compreender não significa concordar.

Escutar não significa absolver.

Respeitar o direito de votar não significa declarar que toda escolha é igualmente boa.

A democracia exige tolerância com o eleitor.

Mas também exige maturidade para reconhecer que liberdade de escolha não é imunidade contra consequências.

E talvez seja justamente aí que esteja o problema.

A política brasileira descobriu duas maneiras extremamente eficientes de tratar o eleitor:

ou como gênio absoluto, quando ele vota em nós;

ou como pobre coitado manipulado, quando vota no adversário.

Talvez seja hora de tratá-lo como adulto.

Adulto pode ser enganado.

Adulto pode errar.

Adulto pode mudar de opinião.

Adulto pode votar contra os próprios interesses.

Adulto pode se arrepender.

E adulto também pode dizer:

— Fui eu que escolhi.

Isso não transforma o eleitor em réu.

Transforma-o em cidadão.

E cidadão não precisa ser humilhado.

Mas também não precisa ser infantilizado.

Portanto, não: eu não quero transformar o eleitor em réu.

Quero apenas abolir a figura do eleitor inimputável, aquela criatura maravilhosa que tem plena responsabilidade quando o resultado agrada e vira vítima indefesa da sociedade, da mídia, das elites e do algoritmo quando a escolha produz um desastre.

Se Flávio ganhar, haverá quem diga:

— Não culpem o eleitor!

Tudo bem.

Eu não vou culpá-lo.

Vou apenas olhar para o resultado, olhar para as consequências e dizer:

— Pois é. Agora vamos todos descobrir juntos o que estava dentro da caixa.

A democracia permite abrir a caixa.

O problema é que, depois de aberta, não adianta reclamar que ninguém avisou que havia uma motosserra dentro.

E, se a motosserra começar a funcionar, talvez seja um pouco tarde para descobrir que o manual de instruções estava disponível antes da eleição.

A crítica fica mais forte, a meu ver, quando separa “culpar moralmente o eleitor” de “reconhecer responsabilidade democrática e consequências concretas” — sem cair no elitismo de chamar milhões de pessoas de idiotas.

Criado com ChatGPT.

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