quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Quem controla os corpos?



https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/megan-fox-criticas-plataforma-conteudo-pago/.

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/kylie-jenner-sutia-250-milhoes-victorias-secret/. 

Por que essas mulheres incomodam tanto? Por que quando uma mulher tem consciência de seu corpo e sensualidade ela é perseguida? Cadê a liberdade de expressão?


A sua pergunta toca numa contradição muito profunda da nossa sociedade: a mulher é incentivada a ser bonita, sensual e desejável, mas, quando assume o controle da própria sensualidade, pode ser punida justamente por isso.

Parece que existe uma condição implícita: ela pode exibir o corpo, desde que faça isso nos termos considerados aceitáveis por quem a observa. Pode ser sexy, desde que não pareça sexual demais. Pode ganhar dinheiro com a própria imagem, desde que não desafie os valores morais de determinados grupos. Pode despertar desejo, mas não deve decidir livremente o que fazer com esse desejo, com o próprio corpo e com a atenção que recebe.

E é aí que os casos de Megan Fox e Kylie Jenner, que você compartilhou, entram numa discussão muito maior do que a vida de duas celebridades.

1. O problema não é apenas a sensualidade. É quem tem o controle.
Quando uma mulher assume a própria imagem, escolhe como se apresentar e decide monetizar sua sensualidade, ela deixa de ocupar exclusivamente o papel que lhe foi atribuído: o de objeto de desejo alheio.

Ela passa a ser também sujeito de suas escolhas.

Isso incomoda determinados setores porque contraria uma lógica antiga: a de que a sexualidade feminina precisa ser administrada pela família, pela religião, pela sociedade ou mesmo pelo público que consome a imagem dessa mulher.

Há uma diferença enorme entre alguém não gostar de determinado conteúdo e considerar que a pessoa que o produz merece ser humilhada, perseguida ou privada de oportunidades.

Você não precisa aprovar as escolhas de uma mulher para defender o direito de ela fazê-las.

E essa é uma das provas mais importantes da liberdade individual: respeitar a autonomia de alguém mesmo quando suas escolhas contrariam os nossos valores pessoais.

2. A liberdade parece valer mais para umas mulheres do que para outras
Existe também um componente de gênero nessa reação. A sexualidade masculina costuma ser tratada como sinal de virilidade, enquanto a feminina pode ser transformada em motivo de vergonha.

Isso não significa que todo homem seja celebrado por sua sexualidade, nem que toda crítica a uma mulher seja machista. Significa que há um padrão cultural persistente no qual mulheres são julgadas por expressarem algo que, em outros contextos, é explorado comercialmente para vender produtos, filmes, roupas e perfumes.

O caso de Megan Fox é especialmente interessante porque, segundo a reportagem do DCM, ela pretende associar sua presença na plataforma à possibilidade de controlar a própria imagem e participar do negócio.

Já no caso de Kylie Jenner, as críticas à escolha para vestir o sutiã milionário da Victoria's Secret também envolvem uma discussão sobre a valorização de celebridades e influenciadoras em detrimento de modelos tradicionais. Portanto, nem toda crítica ao episódio é necessariamente uma condenação da sensualidade feminina.

Mas há uma questão importante: por que tantas vezes a discussão sobre o que uma mulher faz com o próprio corpo se transforma em um julgamento sobre o caráter dela?

Uma mulher pode ser sensual sem ser vulgar. Pode ser sexualmente livre sem estar disponível para ninguém. Pode vender conteúdo erótico sem vender o direito de outras pessoas ultrapassarem seus limites. E pode simplesmente gostar de se sentir bonita e desejada, sem precisar justificar isso.

3. E a liberdade de expressão?
A liberdade de expressão protege a possibilidade de expressar opiniões, inclusive opiniões desagradáveis, conservadoras ou contrárias à sexualização da sociedade. Mas ela também protege o direito de defender a autonomia sexual e de criticar o moralismo.

O problema começa quando a crítica deixa de ser uma opinião e se transforma em assédio, ameaça, perseguição ou tentativa de retirar direitos de alguém.

É importante distinguir três coisas:

Discordar: alguém pode considerar que plataformas de conteúdo sensual não combinam com seus valores.

Criticar: alguém pode questionar a indústria, os padrões de beleza, a exploração comercial da sexualidade ou as decisões de uma celebridade.

Perseguir e censurar: é outra coisa tentar intimidar uma mulher, ameaçá-la ou impedir que ela exerça uma atividade legal simplesmente porque sua sexualidade incomoda.

A liberdade de expressão não elimina as consequências de uma manifestação, nem torna qualquer conduta automaticamente legítima. Mas tampouco deveria ser um privilégio reservado a quem se comporta de acordo com a moral dominante.

E há uma ironia: quem exige liberdade para defender valores conservadores também precisa reconhecer a liberdade de quem escolhe viver de maneira diferente.

4. O que realmente parece incomodar?
Talvez seja a combinação de três fatores: sexualidade, autonomia e poder econômico.

Uma mulher sensual que depende da aprovação alheia pode ser considerada aceitável enquanto corresponder às expectativas do público. Uma mulher que decide como se apresentar, estabelece seus próprios limites e transforma sua imagem em uma fonte de renda pode desafiar essa relação de poder.

Isso não torna toda iniciativa comercial emancipadora. A indústria da beleza e do entretenimento também explora inseguranças, impõe padrões corporais e transforma a aparência em mercadoria. É legítimo questionar essas estruturas.

Mas criticar uma indústria é diferente de culpar as mulheres que trabalham nela ou que encontram prazer e autonomia nessa expressão de si mesmas.

A emancipação não pode significar que a mulher só é livre quando faz as escolhas que outras pessoas consideram corretas.

E quero destacar uma coisa: não é necessário transformar Megan Fox ou Kylie Jenner em modelos perfeitos de emancipação feminina para defender seus direitos. Elas podem ser celebridades, empresárias, mulheres sensuais e figuras controversas ao mesmo tempo. Sua autonomia não depende de serem impecáveis ou de concordarmos com todas as suas decisões.

No fundo, sua pergunta vai além dessas duas mulheres. É sobre que tipo de liberdade estamos dispostos a aceitar para as mulheres.

Porque uma sociedade realmente livre não é aquela em que todas as mulheres se comportam da mesma maneira. É aquela em que elas podem fazer escolhas diferentes sem que isso as torne alvos legítimos de humilhação.


Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

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