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A eleição no senado definiu o domínio da direita, conservadora e representante da classe patronal. E eu mantenho minha postura. Eu quero que o brasileiro se lasque.
Escreva uma crônica crítica em tom de humor e sarcasmo.
A ironia aqui é quase pronta: o Senado começa a discutir o fim da escala 6x1, e surge um senador eleito defendendo que o brasileiro possa trabalhar 12, 14, 16 horas por dia. A proposta é apresentada como “liberdade” — porque aparentemente, no novo dicionário político, liberdade é poder escolher quantas horas a pessoa quer vender da própria vida.
O país do expediente infinito
A eleição para o Senado deixou uma mensagem bastante clara: a direita saiu fortalecida, e junto com ela veio uma concepção muito particular de democracia, liberdade e relação entre capital e trabalho.
É aquela velha fórmula brasileira: o trabalhador tem liberdade.
Liberdade para trabalhar.
Liberdade para trabalhar mais.
Liberdade para trabalhar muito mais.
E, se possível, liberdade para trabalhar até esquecer o próprio nome.
Porque, afinal, que história é essa de querer tempo para descansar, ficar com os filhos, estudar, namorar, tomar uma cerveja, ler um livro ou simplesmente ficar olhando para o teto pensando na vida?
Isso é quase socialismo.
O senador eleito Mauro Mendes defendeu que trabalhadores brasileiros tenham mais liberdade para cumprir jornadas longas e citou brasileiros nos Estados Unidos que trabalham 12, 14 e até 16 horas por dia. Chegou a considerar absurdo que uma empresa possa enfrentar problemas por submeter alguém a jornadas excessivas.
Perfeito.
Finalmente alguém teve coragem de apresentar o verdadeiro projeto de país:
Brasil, potência mundial em horas trabalhadas.
Japão? Para trás.
Coreia do Sul? Amadores.
Estados Unidos? Referência.
Brasil terá o trabalhador definitivo: acorda antes do sol, trabalha até depois da lua, chega em casa quando os filhos já dormiram e, no domingo, descansa meia jornada para recuperar forças e voltar ao batente na segunda-feira.
E ainda agradecerá pela oportunidade.
Porque agora isso se chama liberdade.
A palavra é maravilhosa.
“Você quer trabalhar oito horas?”
Liberdade!
“Quer trabalhar dez?”
Liberdade!
“Doze?”
Liberdade!
“Dezesseis?”
Liberdade!
“E se eu quiser trabalhar só seis?”
Aí precisamos conversar com o departamento de Recursos Humanos.
A proposta do fim da 6x1, por outro lado, caminha justamente na direção oposta: reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas e garantir dois dias de descanso remunerado, sem redução salarial. A PEC precisa de 49 votos no Senado para ser aprovada em cada turno.
E é aqui que entra a parte mais interessante da história.
O eleitor brasileiro votou.
Escolheu seus representantes.
E agora está recebendo aquilo que escolheu.
Não há mistério.
Não existe surpresa.
Não existe “ninguém me avisou”.
Avisaram.
Avisaram durante anos.
Avisaram na campanha.
Avisaram nas propostas.
Avisaram no discurso.
Avisaram até com letras garrafais.
Mas existe uma característica fascinante do eleitor brasileiro: ele pode olhar para um sujeito defendendo redução de direitos trabalhistas, flexibilização, jornada maior e enfraquecimento da proteção social e concluir:
“Esse aí pensa como eu.”
Pois bem.
Então vamos experimentar.
Eu mantenho minha posição: eu quero que o brasileiro se lasque.
Não por sadismo.
Por coerência pedagógica.
Se uma sociedade escolhe sistematicamente políticos que tratam direitos trabalhistas como obstáculo ao desenvolvimento, depois não pode fingir surpresa quando esses direitos começam a ser desmontados.
Se você entrega o galinheiro à raposa e depois encontra poucas galinhas, talvez não seja necessário convocar uma comissão parlamentar de inquérito.
É matemática.
E há algo ainda mais curioso.
A direita costuma falar em meritocracia.
Ótimo.
Então vamos aplicar a meritocracia também à política.
Quem votou em quem prometia proteger direitos trabalhistas, terá direito de reclamar.
Quem votou em quem prometia flexibilizar esses direitos também terá direito de reclamar.
Mas haverá uma pequena diferença:
um deles estará reclamando do problema que tentou evitar.
O outro estará reclamando do problema que ajudou a eleger.
É a democracia brasileira entrando na fase premium:
“Eu não sabia que era isso que ele queria dizer.”
Sabia.
Estava escrito.
Só não parecia tão desagradável quando vinha acompanhado de bandeira, patriotismo, Deus, família, empreendedorismo e um discurso sobre “liberdade”.
Afinal, liberdade é uma palavra extremamente versátil.
Para o trabalhador, pode significar trabalhar 16 horas.
Para o empresário, pode significar negociar sem a interferência do Estado.
Para o político, pode significar ter uma maioria parlamentar suficientemente confortável para aprovar tudo isso.
E para o trabalhador brasileiro?
Bom...
Para o trabalhador brasileiro sobra a liberdade de escolher entre trabalhar muito ou trabalhar muito.
Mas há uma vantagem.
Pelo menos ele terá tempo para pensar sobre suas escolhas.
Durante o intervalo de quinze minutos.
Se houver intervalo.
E se a produtividade permitir.
Bem-vindo ao Brasil.
O país onde a classe trabalhadora pode finalmente conquistar aquilo que sempre sonhou:
a liberdade de trabalhar até não ter mais tempo para usufruir da própria liberdade.
A crítica fica mais forte justamente porque não precisa exagerar muito: a própria linguagem de “liberdade” aplicada à jornada de 16 horas já produz a sátira. E, no Senado atual, a disputa sobre a 6x1 realmente coloca em choque essas duas concepções de trabalho.
Criado com ChatGPT.
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