segunda-feira, 19 de março de 2018

Passando pela ponte

Havia um mau homem em terras de Além Douro, a quem a justiça encarniçadamente perseguia por vários crimes e que sempre escapava, como conhecedor que era dos esconderijos proporcionados pela natureza. Apertado, porém, muito de perto, embrenhou-se um dia no sertão e, transviado, achou-se de repente à borda de uma ribeira torrencial, em sítio alpestre e medonho, pelo alcantilado dos penedos e pelo fragor das águas que ali se despenhavam em furiosa catadupa. Apelou o malvado para o Anjo-Mau e tanto foi invocá-lo que o Diabo lhe apareceu. ‘Faz-me transpor o abismo e dou-te a minha alma’, disse-lhe. O Diabo aceitou o pacto e lançou uma ponte sobre a torrente. O réprobo passou e seguiu sem olhar para trás como lhe fora exigido, mas pouco depois sentiu grande estrépito, como de muitas pedras que se derrocavam, e ninguém mais ouviu falar da improvisada ponte.[wikipedia]

- Dizem que se alguém passar por esta ponte vai parar em outro mundo.

- Besteira! Superstição! Crendice! Daqui dá pra ver nitidamente o outro lado. Eu não vejo coisa alguma diferente.

- Então eu te desafio a passar comigo na ponte no próximo solstício.

- Bah! Eu não vou perder meu tempo.

- Aha! Eu sabia! Você tem medo!

- Eu? Medo? De que?

- Então combinado. Eu te espero aqui no próximo solstício.

Pedro e Paulo foram para casa. Pedro contava os dias para o solstício. Se achava tão inteligente, tão certo de que apenas a ciência tinha as respostas, mas não encontrava nenhuma para as coisas que aconteciam na ponte. Paulo conversou bastante com sua mãe e pai naquela noite, contando que iria partir, que iria passar pela ponte e ver o que havia além da vila. Seus pais choraram bastante, fizeram a comida preferida de Paulo, arrumou uma mala para a viagem.

Passadas as semanas, Pedro e Paulo se encontram na entrada da ponte, ´nas ultimas horas do solstício, com a lua cheia despontando ao leste. Paulo, previdente, trouxe a bagagem que seus pais deram a ele. Pedro, teimoso, veio apenas com a roupa do corpo e a cara amarrada.

- Para que você trouxe essa bagagem toda? Você vai ver como não tem coisa alguma do outro lado, nada vai acontecer.

- Mesmo se nada acontecer, eu estou preparado para acampar. Não é seguro andar sozinho de noite.

Pedro andava cambaleante a cada passo que dava em direção ao fim da ponte, enquanto Paulo andava confiante de que estava preparado. Ha poucos passos de completar a travessia, um forte vento, a lua mudou de cheia para minguante e as estrelas mudaram de lugar. Não é muito, mas foi o suficiente para fazer Pedro mijar nas calças.

- V-viu como não a-aconteceu n-nada?

Do nada, voando acima de suas cabeças, passa voando um dragão. Logo depois, uma amazona montada em um unicórnio tentava jogar uma lança no dragão.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Oitava revelação

Já há os que se obcecam em ajuntar tesouros e bens, 
pois tudo isso gera satisfação,
também autoridade e influência 
na vida social e política do vosso país. Também são insensatos! 

O custo de vossa riqueza terá de ser pago em breve, 
toda a expropriação e exploração exageradas geram miséria, 
que gera a criminalidade, que gera a violência. 
De nada vos adiantará vossas posses, riquezas e bens. 

Mesmo o trono mais poderoso e afortunado sofre, 
porque lhe faltou o único e verdadeiro tesouro: as pessoas! 

Experimenteis dormir com um saco de dinheiro 
e com alguém amado. 
Não tereis mais paz e sono proveitoso 
tendo braços ao redor de vós, ao invés de cifrões? 

Experimenteis tomar vossos artefatos, 
com os quais constituis crédito na praça, 
tenteis compartilhar suas dúvidas e opiniões. 
A seguir, tenteis o mesmo, 
com quem vos promove tais riquezas, 
vossos servos, ou mesmo um miserável. 

Não tereis mais respostas e contrastes 
para vos aprimorar na arte de viver? 
Experimenteis, ao invés de fazerdes leis mais duras, 
ao invés de aumentar vossos mercenários que vos protegem: 
dar um pão (comida), dar um livro (educação), 
dar uma coberta (habitação), dar um linimento (atendimento médico), 
enfim, de dar às vossas posses um senso de responsabilidade social. 

Vereis que até o vosso mais empedernido adversário 
se torna no vosso mais terno companheiro! 
De nada vos adianta a busca da felicidade, 
enquanto esta for isolada! 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Cronologia dos desejos

Para que surgisse o que hoje definimos por Cosmos no Universo, as partículas que outrora eram dispersas, desejaram combinar-se.
O primeiro desejo foi atômico e vem a explicar porque se tem tanta satisfação em realizar os nossos, é pela explosão de prazer a níveis energéticos, como vêem, mesmo as partículas desejam, não é preciso ser uma criatura sexuada para isso.
Já que falamos em energia, as primeiras formações originaram entidades energéticas, por hoje definidas como deidades, em seus diversos nomes conhecidos. Possuidoras ou não de consciência e vontade, ainda eram visíveis quando a humanidade nascera, que em sua inocência acreditou ser estas manifestações a prova da existência destas deidades.
Mas até esta era, muita coisa ainda se passou, portanto, sem queimar etapas, continuemos a evolução do desejo.
Passada essa fase, satisfeito o desejo, essas primeiras formas associadas, por serem energéticas, ainda eram muito instáveis e permeáveis, de forma que muitas, pelas marés cósmicas, acabavam se encontrando, colidindo ou se fundindo com outras, algo nem sempre recebido com boa vontade pelas partículas formadoras deste aglomerado, gerando muitos conflitos e explosões, desta vez de ira. Era o desejo de privacidade, exclusividade, manutenção da ordem coletiva. Homens também são explosivos nestes assuntos, o segundo em intensidade na qualidade de mobilização de nossas paixões depois do da associação, que foi o desejo primordial. Estamos nos projetando novamente ao presente, não podemos nos perder, ainda há muito que saber da evolução do desejo! Mas como vêem, estamos apenas perpetuando estes, de uma maneira ou outra, mesmo que neguemos ou fujamos, realizamos sempre ao menos um desejo, desta cadeia de desejos que somos formados.
Tanto para garantir a congregação quanto para evitar invasões de outras nuvens energéticas, era necessário condensar a forma, torná-la mais coesa, mais sólida, até podemos dizer mais concreta, real. É o desejo de ordem, organização, proteção, estruturação e quaisquer outros sinônimos que pudermos arrumar. Assim as congregações tornaram-se mais particulares, mais exclusivas e passaram a discriminar os níveis energéticos componentes da congregação. Mas não devemos confundir isso com a discriminação racial ou de outro gênero que se pratica na humanidade. Aqui a questão é meramente estrutural, enquanto que nós praticamos um estúpido preconceito ético e étnico, resultante da demência latente. Mas como isso pode acontecer a uma raça que se autodenomina inteligente é caso para um estudo histórico social psicológico, que está bem longe de ser simples reflexo destes desejos primordiais que formaram toda coisa existente.
Prossiguemos com nosso relato e pesquisa, caso haja interesse de outros pesquisadores, que seja feito o estudo das causas dessa demência latente do ser humano.
A condensação da energia limita os movimentos da nuvem, por esta se tornar mais pesada, mas é vantajosa no sentido de proteção. Ou, em projeção maior para atacar. Pela formação da própria nuvem, ou por sua condensação para torná-la mais segura, torna-se sedenta, até belicosa, por energias que teve de renunciar ao se condensar, atacando assim, por sua formação estrutural ou por fome, outras formações, apossando-se de parte ou do todo das nuvens atacadas, formando um novo, mais complexo, mais organizado ou mais condensado formato de nuvem, que podemos até considerar, por novas e complexas entidades, estas sim com mais possibilidade de serem dotadas de consciência e vontade, tanto que atacam sabendo que só assim se sacia este desejo, o da alimentação, da complementação por algo que lhe falta. Um desejo que move e é movido pelos anteriores, um triunvirato que irá mover e dar origem a todos os demais desejos, que iremos descrevê-los logo a seguir.
Conforme iam se condensando, aumentava o vazio, o meio em que estavam permeadas. Assim, as marés cósmicas começaram a exercer uma pressão, enquanto que nas nuvens começava a aparecer o fenômeno da gravidade que, conforme concentrava mais as energias, as fazia expandirem-se, uma pequena e primal demonstração do que ocorre nos sóis.
Nessa transformação de energia bruta em refinada, ou melhor dizer, luminosa, aumentava as necessidades de complementação, o que decerto ia trazendo mais componentes diversificados, mais complexidade à nuvem e dentro desta, na combinação ou fusão de seus elementos, originavam-se outros, alguns luminosos, outros pesados, ou seja, com magnetismo, que pode ser entendido por força gravitacional. Assim, aos poucos, se formava um núcleo pesado e uma aura leve periférica, algo que é uma vaga origem das galáxias.
Em pouco tempo, formavam-se os planetas e em ao menos um dentre doze desenvolve-se vida, que seguindo o padrão universal de evolução, chega-se às espécies atuais, dentre as quais originou-se a espécie humana, por enquanto a única que se registra como racional. O resto da história conhecemos bem. Embora o mistério esteja longe de ser solucionado: como é que uma raça que tem tendências racionais pode acabar em tantas humilhações e atitudes, nem praticadas pela mais rele e insignificante forma de vida? Talvez seja exatamente este o paradoxo da humanidade: conquistou-se a racionalidade abrindo mão de uma verdadeira evolução existencial. Justamente por ser tão racional que o Homem é tão bestial. Pensa demais, mas não mede consequências. Quem o sabe, que responda, mas quem o quer saber? Desvendar os desejos que movem o Homem, para que se saiba seu destino, pois seremos o que fazemos, conforme tais desejos, assumidos ou disfarçados, permitidos ou perseguidos. É o fim.


Fecham-se rapidamente
E cedo demais
As portas da tarde.
Uma gigantesca nuvem
Vem reclamar o trono do sol.
Logo, vem a chuva
Num imenso lençol de água.
Mas de onde vem tão negra nuvem
Tão carregada de água como de idéias?
Como tal cortina de vapor espessa
Pode fazer frente ao poder do sol?
Logo a luz cai
Pois não pode resistir
A este poder da natureza.
Velas são acesas
Pelos cantos da sala.
Com a minha tento entender
Por que gosto tanto da chuva?
Por que aprecio ainda mais o black-out,
Sem falar do êxtase que me trazem os trovões?
A chuva dá trégua
Mas a nuvem continua suspensa
Como um aviso de que a noite será longa,
Que deveremos passar sem luz.
Quanto mais demora, mais eufórico fico.
As cordas do céu
Erguem-se dos dedos brancos.
Uma pálida e fugaz lembrança
De que há luz e temos sol.
Mas conforme a chama sobe,
A vela derrete e some,
Junto com um pouco de nossas esperanças
Que matamos ao fim de cada dia.
Pequenas almas
Surgindo de frestas.
Muitas sombras estranhas
Conforme o bruxulear
Da aura pírea da vela
Que já está nas últimas,
Mas vai sem deixar remorsos
Do quanto deu de si sem recompensas,
Como fazemos com nossos anciãos,
Logo é substituída por uma nova.
Tímidas estrelas
Brilhando no meio
Da floresta da casa.
Como uma congregação,
Como a reunião de forças,
Para manter a última esperança,
Há muito, abandonada pelos mais aflitos,
Há muito, espezinhada pelo meu sarcasmo.
Como querendo segurar as bordas do mundo,
Prendem entre os dedos a borda do pires,
Testemunha do esforço deste numeral albino
E cabelos em chamas,
Para afastar temores,
Para afugentar sombras.
Mas eu vejo como elas carregam as rugas
E como eles distorcem os traços,
Auxiliados pela própria debilidade da vela.
Vejo que os objetos parecem orar,
Ou pelo restabelecimento da luz,
Ou para que nunca termine a escuridão.
Alguns, porque gostam do domínio humano,
Como a poltrona, onde sentado, escrevo,
Mas muitos, porque só nas sombras tem movimento,
Ganham a vida e a liberdade
Que qualquer coisa tem.
O fervor da reunião
Não combina com o
Ferver do pires,
Que não laceiam as bases
Das velas postas recentemente,
Deixando algumas tortas,
Outras com perigo iminente
De dar luz a outros objetos.
Uma pequena e sutil demonstração,
Da verdadeira crença humana
E o estado em que se encontra,
Junto com as razões de existência
E as razões da ciência?
Quando tudo passar, se passar,
Quando os doutores se acalmarem,
Talvez me expliquem porque estou tão pacifico,
Sentindo-me em casa, entre os meus.
O carrilhão
Como se lançasse
Suas correntes
Para nos enforcar,
Anuncia a oitava.
Uma nota surda,
Mas grave demais,
Nos ferindo o ouvido,
Com medo da cripta
E de sua senhoria.
Vejo que o próprio apartamento,
Como inúmeros outros da metrópole,
São as criptas dos vivos,
Sem muitas diferenças,
A não ser no seu rigor.
Aqui se faz acender velas,
Para manter a esperança da vida.
Lá, se ressente a dor da morte, um voto de saudades se acende.
Passos nervosos,
Dos que tinham algo a ver,
Perdendo o programa da tevê,
Abrem novas dimensões
Do horror que se cria,
Uma vez dentro da escuridão.
Cada passo,
Provoca eco
E o passo ecoado
Parece se multiplicar,
Como se entrasse nos outros cômodos
E prosseguissem sozinhos a marchar.
Mesmo quando há uma pausa,
Para que se faça a meia volta
E se pise sobre os próprios passos.
Passos de vida própria,
Sem pés, sem dono,
Sem direção, sem destino,
Ganham personalidade,
Peso e tons ameaçadores,
Como se denunciassem
A visita dos seres noturnos.
Penso então,
Que tais seres
Não sejam além
Dos próprios passos do homem,
Que teimam em pisar por trilhas,
Que se sabe que não levam a lugar algum.
Só com o jantar servido
Escapa-se um pouco
De situação tão sóbria.
Estômagos vazios
Não tem tempo para pensar,
Muito menos temer.
Afinal, é mais importante
Manter este ritual rotineiro
De satisfazer necessidades tão primárias.
Na mesa de jantar
Permanece-se, a conversar,
Até a comida assentar.
Satisfeitos os apetites,
Avançada a noite,
O sono toma seu lugar,
A roda se dispersa,
Todos vão dormir,
Só agora a noite
Tem seu trabalho funcional
Reconhecido, dentro do normal.
Quando me deito,
A luz retorna,
Iluminando o quarto
Com uma lâmpada faiscante.
O que prova que mesmo a luz,
Tão desejada e saudada,
Pode tornar-se
Incômoda e inconveniente.
Meu protesto
Passa pelo interruptor,
Silenciando a lâmpada,
Para me reencontrar com as sombras,
Que me acolhem com ternura,
Melhor que os demais,
Tenho meu descanso.
Daqui sairei inteiro,
Mas não sei dos demais
Que, com o grito furtado,
Só podem afogar-se
Em seus temores
E no próprio sangue.
A noite é justa,
Mas também tem fome.

-Venha, meu pequeno admirador.
Estará bem aquecido com minha mortalha,
Mas para prosseguir em meu reino,
Deve tomar esta canja sangrenta.

Dentro da noite tenho minha família,
Noite adentro até alcançar meu sumo prazer.

-Devagar, meu garoto, não vá se engasgar.
É preciso apreciar, sorver aos poucos,
Só assim se sobrevive ao gozo da sabedoria.

A noite consome, mas também complementa.
De uma vida inútil, se transforma em grande tesouro.

-Aos que se encontram em mim,
De mim sobreviverá,
Pois só os que sabem, me conhecem,
Não os que tentam aparentar que sabem.

Nada sei, mas tento ser bom aluno.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Sétima revelação

Em vossas estranhas fantasias, 
sonhas com uma vida além, 
onde após vosso tempo na terra, 
possais ter uma vida eterna, num jardim de prazeres. 

Por que quereis mais do que tendes? 
No tempo que passais na terra, 
só existe choro, lamúria e dor. 

Se negardes o prazer a vós, quando vos é lícito usufruí-lo, 
porque o lançais no Paraíso, 
que devia ser a morada de justo e puros? 

Não continueis mais vos enganando, 
vive o vosso prazer agora. 
Se quiserdes a eternidade, 
a terás com vossa descendência. 

Se quiserdes a salvação, 
deveis parar de vos penitenciar, pois só o sexo salva! 

Sabeis, crianças, de uma vez: Meu reino não é nos Céus, 
deixei isto para os anjos. 

Eu, que sou o vosso Deus, Meu reino está entre vós: 
Meu reino está nas Entranhas. 

Vós persistis em vossa busca 
por uma vida extra-ordinária, 
não porque vos aprazem a virtude ou a santidade, 
mas sim o vício e a orgia. 
Tanto que, nas vossas visões do Paraíso, 
há nada mais o que vos privais cá nesta vida. Insensatos! 
Bem sabeis que a única forma de vos eternizar 
está em provides-vos de herdeiros! 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Heterogênese XXI

A tarefa é longa e árdua. Porém, compensadora. Devemos usar a faculdade da razão que somos dotados, só assim perceberemos a que fim trágico nos deixamos levar. Pode ser que realmente não haja um mundo futuro, nem sequer um Deus, para nos redimir dos erros e nos ressuscitar da morte. Tudo pode ter sido um imenso engano, pregado pela nossa mente doentia. Devemos nos curar então, exercitando a mente, ao invés do lucro fácil, da posição social, da beleza ou do poder. Pois todos fenecem e logo são quebrados por modelos novos. A mente não quebra, molda-se; a mente não cresce, desenvolve-se; a mente não morre, prolifera-se. A civilização humana passa, mas seu produto mental, concretizado, permanece, desafiando os séculos.

É por isso que sou tão tendencioso para as Trevas. É por isso que amo a Deusa da Lua Negra, Lilith, minha rainha adorada. Não me importo se ainda acredita em Jesus e no Deus Único Todo Poderoso, que o resto seja maligno e demoníaco. Haverá o tempo que tudo isso cairá diante da própria fragilidade e falta de lógica profunda.
Cabe a cada um, sem dúvida, fazer uso de seu cérebro e criar dentro dele seu universo. Ou então se acomodar, conformar-se, com as idéias prontas, servidas a granel, por pessoas que nem sabem quem você é, nem se importam, desde que esteja pensando e agindo como querem.

Dou-me por satisfeito e já estou recompensado. Fiz as memórias das Trevas com espírito livre e voluntário, sendo o mais sincero que pude. Acho que cumpri com as metas a que me propus e que agradam a meus amigos, minhas amigas e minha rainha.
Que o Fogo Negro envolva-me e recicle-me, para merecer estar nesta República sob o olhar profundo e intenso do respeitável soberano Espírito das Trevas. Que este, pelo meu trabalho, possa olhar por mim e orientar-me.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Sexta revelação

O que é carne, não ordena carne 
e o que é espírito, não pode interferir no vosso meio. 
A salvação vem na descendência 
e a vossa glorificação só pode estar no prazer, não no ascetismo. 

Único, só Eu. De resto, tudo é duplo. 
Vós sabeis porque é assim. 
Portanto, não há original, nem raça pura, tudo é de minha fonte. 
Se quiserdes ver-Me, procureis no que é misturado, 
a minha raça é a diversidade. 

Se quiserdes servir-Me, entregai-vos ao instinto, 
a minha Lei está na carne. 
Se vos completa, acha vosso par, 
no que vos é igual ou diferente, acima ou abaixo, 
canhoto ou castrado, passado ou futuro, luz ou treva, 
de forma alguma estareis fora de Meu alcance, 
nem estareis Me ofendendo. 

Há homens que são homens, nisto encontrareis justiça. 
Há homens que são mulheres, nisto encontrareis desespero. 
Há mulheres que são mulheres, nisto encontrareis delícias. 
Há mulheres que são homens, nisto encontrareis desperdício. 

Vós tendes o corpo, age como vos comanda, 
não vos negueis ou vos violente, 
seguindo padrões estranhos à vossa natureza. 

O homem não é todo másculo, mas também feminino. 
A mulher não é toda feminina, mas também masculina. 
Ambos são filhos de ambas as sexualidades. 
Vós fazeis com que o homem seja macho 
e a mulher ter de ser fêmea, por vosso tolice e cultura. 
Somente por vossa tolice, tentais seguir ou contestar tais critérios.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Heterogênese XX

Essa é a vantagem de se ter um espírito alimentado por uma mente desenvolvida: consegue-se viver ainda mais, pela força e pela vontade. Desimpedido da casca mortal, pode-se ver melhor ainda. Como, por exemplo, ver os espíritos que rondam os mortais e os influenciam, por conselhos e orientações. Inclusive pode-se ver claramente o caminho que leva ao Império das Luzes e ao Reino das Trevas. Como bom filho sabe o caminho do lar, segui a trilha das Trevas. Dirigi-me ao primeiro comando que encontrei, para saber como estava indo a guerra. Reconheceram-me de imediato e acharam melhor pôr-me a salvo da área do fronte, levando-me aos comandos centrais.
A cidade fortaleza para onde me levaram era magnífica, sombria e tão receptiva quanto uma cripta, toda em granito negro. Tinha algo nela que me parecia ser familiar, como se já estivesse estado ali, como já pertencesse há muito tempo a este lugar.
Disseram-me que o nome era Ogiel, capital do reino de Gamaliel, cuja reinante não era outra que a minha adorada deusa da Lua Negra, Lilith. É óbvio que devia me sentir à vontade, pois estava bem próximo de minha venerada rainha. Quantas coisas que passaram na minha cabeça para agradá-la e impressioná-la! Eu desejei inclusive lutar, mesmo sem treino, contra o Império das Luzes, pela bandeira dela. Mas me reservaram, infelizmente, a escrever o que foi omitido no Apocalipse.

Tendo o Cordeiro terminado sua obra, foi descansar um instante no trono que lhe custou tanto conquistar. Lamentou durante alguns instantes, os extremos a que teve de chegar, mas era necessário, para que finalmente o Reino de Deus prevalecesse sobre as forças das Trevas malignas, para salvar a Terra.

O falso profeta balançava feito pingente na ponta de uma corda. A Besta foi lançada aos Infernos, onde ficaria encarcerada junto com o Dragão de Sete Cabeças e Dez Chifres. Tudo estava finalmente tranqüilo e a construção da Nova Jerusalém terminada, estava instalado o Paraíso na Terra, sinal da vitória de Deus Pai Todo Poderoso, conhecido aqui como o Espírito das Luzes. Agora a Terra pertencia aos eleitos de Deus, os justos e os santos, junto com os humildes.

Foi quando lhe ocorreu um raciocínio assustador. Como havia utilizado todos os recursos de que dispunha, estaria vulnerável aos contra-ataques das forças malignas, pelo menos durante algum tempo. Tranqüilizou-se, ao pensar que seus súditos acudiriam ao primeiro sinal de invasão. Neste momento, a massa dos eleitos era um imenso exército, mais que necessário para se garantir a segurança.

Foi dada então, ao que foi denominado de falso profeta, uma tarefa, já que se mostrava tão ansioso a ajudar sua rainha de alguma forma. Levaram-no até próximo dos portões da Nova Jerusalém, vestido de camponês, querendo terras para plantar.

O camponês entrou na Nova Jerusalém com a semente da verdade, mas a verdade que é trazida pela iluminação da mente pelo Fogo Negro. É como se costuma dizer: o melhor método de ruir um Império é fazendo-o de dentro para fora.

Dirigindo-se a uma praça pública, começou a gentilmente plantar as sementes. Ninguém o parou ou protestou, pois sua aparência era inocente, assim como suas ações. Da mesma forma que entrou, saiu, dizendo que ia trazer água potável, de fonte conhecida por ter trazido grandes revelações, porém jamais retornou.

O Cordeiro, um certo dia, após ter acabado todos os seus afazeres, que foram tomadas todas as decisões que precisava, foi passear pela sua bela cidade. Foi quando notou o crescimento de uma bela árvore, já com flores abundantes, prestes a se transformarem em frutos. As flores pareciam-se com orquídeas, só que tinham mais pétalas, de bordas recortadas em dentes, com um tom de cores, variando do azul, ao violeta, ao negro. O perfume que exalavam era sensacional, faziam com que, quem cheirasse, sentisse se elevar, o pensamento funcionar mais intensamente. Até mesmo o Cordeiro não pode resistir aos efeitos, dos quais, num momento, pôde vislumbrar os primeiros momentos da criação. Pôde lembrar que, foi por uma árvore e seu fruto tentador, que todo pecado começou. Neste exato instante, o Cordeiro, esquecendo-se de sua condição, começou a atacar e depredar a árvore indefesa. Todos que ali estavam olhavam abismados, mas nada comentavam, com medo do que lhes podia acontecer.

Porém, como era uma árvore do fruto do Fogo Negro, cresceu mais forte e resistente,no dia seguinte. O Cordeiro temendo o que poderia acontecer, cercou a árvore com grades e guardas, para que ninguém dela se aproximasse. O Cordeiro logo perdia aquela tranquilidade e serenidade que deveria caracterizá-lo.
Tomado de pânico, que ainda assim poderia haver quem comesse do fruto proibido, decretou lei marcial, ninguém podia ficar nas ruas depois das 19 horas. Além de serem proibidas quaisquer reuniões, públicas ou privadas, para evitar que houvesse tramas contra o Cordeiro.

Mesmo sem o fruto, todos os justos perceberam que seu redentor, o Cordeiro, não era exatamente a pessoa que dizia ser. Descontentamento geral leva a protestos e seus respectivos choques com os anjos. O povo todo já estava disposto a rebelar-se por completo, contra o Cordeiro, de qualquer forma.
Quando tudo parecia desfavorável aos revoltosos, surge avançando, em direção das muralhas da Nova Jerusalém, o exército das Trevas, que foi recebido pelo povo nas portas que estes abriram. Foi aí que o Império das Luzes sentiu a força real das Trevas, apanhou feio e não tinha mais nada a fazer, senão render-se. O Cordeiro sofreu o escárnio público, depois que todos viram sua verdadeira face, antes de ser abandonado, sem condenação, pois não era preciso.

Todos os arcanjos não puderam conter os arquidemônios. Não sem o apoio dos que foram o povo eleito, agora somados às legiões das Trevas. O Espírito das Luzes, para que seus colaboradores não sofressem, capitulou, baixou a bandeira nos pés do Espírito das Trevas. Todo o Império das Luzes deixou de existir, junto com a renúncia do Espírito das Luzes.

Tomando a administração de todos os planetas, sóis e galáxias, o Espírito das Trevas permitiu que seu irmão lhe auxiliasse, fornecendo luz e energia necessária para alguns tipos de vida de certos planetas, como a Terra, que não podiam viver sem luz.
Tornou o Espírito das Trevas a falar com seu Pai, o Universo. Pois cometera, de certa forma, os mesmos erros que seu irmão, o Espírito das Luzes, esperando um perdão de seu Pai.
O Universo sorriu e suas partículas coroaram o Espírito das Trevas. A euforia tomou conta das criaturas, de qualquer nível existencial, sem se importarem se eram notívagas ou diurnas.

Tenha isto nas mãos, como um guia básico para que aprenda definitivamente que deve tomar cuidado com as aparências superficiais, evitar ser dominado pela força e pela estupidez religiosa. Nunca se pode, efetivamente, falar contra algo que não se conhece ou se experimentou.