sábado, 23 de abril de 2022

A festa da Chicharrona

Este é um costume folclórico da região de Extremadura, na Espanha.

A festa de La Carvochá e La Chicharrona é uma festa de Hurda recuperada nos últimos tempos por eminentes hurdanófilos, associações e amigos apaixonados pela cultura e pelo mundo popular "jurdaniano". Na realidade, trata-se de duas festas unidas numa só festa e num só lugar, Mesegal , uma pequena quinta em Pinofranqueado (Cáceres).

La Carvochá  é dedicado ao antigo culto das almas abençoadas de nossos ancestrais. Também é conhecido em outras partes da Extremadura como calvote ou calvotá , ou seja, o ato de assar castanhas na brasa. O Chicharrona anuncia a chegada do inverno e do tempo seco e, com eles, a hora de sacrificar o gorrinu [leitão].

Um festival complexo e ritualizado, onde se misturam numerosos personagens, como os bateristas, o mestre de cerimônias, o portador da tosquia das almas, o chicharrona e o bode -o chicharrón-, entre outros.

Fonte: https://ciudad-dormida.blogspot.com/2014/01/fiesta-de-la-carvocha-y-la-chicharrona.html
Traduzido com Google Tradutor.

Seu nome, "Chicharrona", vem de sua relação com um dos rituais mais profundamente enraizados na cultura rural da Extremadura: La Matanza. Com ela vem a banha, e com a banha fazem-se as torresmos, deliciosas farinhas e pãezinhos de açúcar.

Costuma encarnar-se todos os anos numa vizinha de Hurdana, geralmente uma rapariga de certa beleza e com as características que a tradição e o legado dos antepassados ​​atribuem a esta personagem, uma mulher de longos cabelos loiros. La Chicharrona é uma grande e mitológica Silvana, vestida com peles de cabra, que cobre os cabelos cor de palha com uma velha touca de pele de raposa ou de lobo, e que usa um enorme “chancáh”, uma espécie de tamancos ou velhos sapatos tufados . Ele usa peles de animais presas por um cinto largo, do qual pendem chocalhos e cabaças de videira. No pescoço, grandes colares formados por espigas de milho já descascadas e salsichas enroladas.

Em suas mãos, os símbolos de seu poder: uma bexiga de porco cheia de água e uma clava, emblema da mulher selvagem. No colo o fecundo símbolo de um pacote com castanhas, nozes e figos. Um pergaminho enrolado sai de sua bolsa: A licença. E ele traz ainda mais na bolsa encantada: o frio do inverno.

E é que se a Chicharrona desce às quintas de Hurdana é porque hoje é 8 de dezembro, cristianizado como o dia da Imaculada Conceição, "La Pura", A Virgem das Matanzas. É o dia em que os ventos frios tomam conta desta parte do mundo, e a data indicada desde tempos imemoriais para que La Chicharrona desça de seus domínios mágicos com a licença para que os humanos possam iniciar os rituais de Matanzas.

Agora que quase não há crianças para esperá-la, o baterista sai ao seu encontro, e nas ruas da cidade os mais velhos a recebem com canções antigas e melodias antigas que falam do frio seco que a Dama Selvagem traz, das quintas hurdanianas, da serra mágica e do momento mítico em que os dois mundos se encontram. E nós somos os adultos, locais e estrangeiros, que vêm beijar La Chicharrona, com a convicção de que trará sorte às nossas vidas e carne às nossas despensas.

Este ano, La Chicharrona foi escoltada ao estaleiro da fazenda El Mesegal, que os moradores da aldeia limparam com tanta boa vontade. Lá a espera El Chicharrón, um bode antropomórfico vestido de peles e coroado de chifres que inicia uma procissão lasciva que se cristaliza em uma dança ancestral ao som de gaitas de foles e tambores.

Dizem que ainda há casas em que, quando a escuridão e a noite já tomaram conta dos vales dos Hurdanos, se realizam os seranos, as reuniões noturnas onde se contam histórias e cantam-se canções.

Este ritual, curiosamente, tem uma enorme semelhança com outros que encontramos durante a Idade Média em lugares tão distantes como a Europa Central, antigos ritos ítalo-germânicos em que as famílias depositavam certas noites do ano comida e bebida para Lady Abundia, com a convicção de que com este ágape noturno ganhariam a benevolência das Boas Senhoras e a fartura da família durante um ano inteiro.

Fonte: https://blogs.hoy.es/extremadurasecreta/2017/12/05/la-chicharrona-de-las-hurdes-senora-de-las-matanzas/
Traduzido com Google Tradutor.

As raízes da difamação

Autora: Maura Martins

As bruxas são personagens femininas muito comuns em contos de fada e na ficção. Nessas histórias, elas normalmente aparecem como idosas, feias, com nariz adunco, frequentemente mexendo em um grande caldeirão no qual fazem suas poções.

Mas a verdade é que esse imaginário, de certa forma, é uma criação do cristianismo, que passou a simbolizar as bruxas como o lado mais sombrio do feminino, incapaz de ser "domado" em uma sociedade comandada por homens. Antes disso, as bruxas já existiam, mas eram vistas como curandeiras, pessoas sagradas dentro de sua comunidade.

Neste texto, contamos a você como se deu esse processo de "criminalização" das bruxas, especialmente pela Igreja Católica.

A ideia das bruxas já existia em culturas antigas. Elas apareciam, por exemplo, na mitologia do Oriente Médio, e eram representadas como mulheres que teriam condições de acudir e ajudar o seu grupo em situações difíceis. Eram mulheres sábias que faziam visitas domiciliares às famílias, realizavam partos, tratavam da infertilidade e curavam a impotência.

Não se sabe exatamente em que momento a imagem das bruxas começou a pender mais a coisas negativas do que positivas. No entanto, alguns pesquisadores acreditam que isto se iniciou antes mesmo do nascimento de Cristo, a partir de uma expansão cultural indo-europeia que valorizava os deuses masculinos da guerra, que passaram a sobrepujar as divindades femininas.

Assim, as bruxas — que eram sempre mulheres — foram sendo gradualmente associadas aos elementos do feminino tidos como mais perigosos, como a capacidade de conhecer a fundo e manipular a natureza. Vale lembrar que parte de suas atividades envolvia a cura de enfermidade por meio das ervas.

Com o advento e a difusão do Cristianismo, passa-se a demonizar crenças e rituais entendidos como "pagãos", ou seja, anteriores à doutrina cristã. As bruxas, então, seriam exemplares perfeitos para serem exibidos como contraponto a uma suposta moralidade do Cristianismo.

No século XIII, quando a peste negra devastou a Europa, a Igreja Católica acentuou a ideia do diabo, de modo a responsabilizar algum ente por uma tragédia que ninguém conseguia entender ou explicar. Os adoradores do diabo, portanto, seriam também culpados pelas milhares de mortes que dizimaram as famílias no velho continente.

Para ressaltar isso, a Inquisição da Igreja Católica, que havia sido criada há décadas, destinou seus esforços na identificação e punição das causas (não católicas, é claro) dessas mortes em massa. As bruxas, afeitas a rituais tidos como pagãos, passaram a ser consideradas demoníacas.

Sendo assim, passou-se a espalhar que essas mulheres participavam de assembleias em que praticavam sexo promíscuo, dançavam nuas e comiam carne de bebês humanos. Em seguida, a Igreja Católica produziu um livro chamado Malleus Maleficarum, que ajudaria os "caçadores de bruxas" a identificar as mulheres perversas que seriam potencialmente presas fáceis para o diabo.

A obra, que também era chamada de "Martelo das Bruxas", funcionava como uma espécie de manual inquisitório e trazia indicações para se identificar um praticante de heresias. Dentre as indicações, estavam a de verificar se a pessoa possuía "marcas do diabo" no corpo (como verrugas e cicatrizes), se ela aparecia nos sonhos de outras pessoas e se possuía em casa instrumentos ligados à magia (como pilões, velas e certas plantas).

Nem é preciso dizer que esse livro, e o clima de histeria religiosa que circulava na Europa, foram responsáveis pela promoção de uma verdadeira chacina. Nos anos 1600, o continente estava tomado pelo movimento de ódio em direção a essas mulheres consideradas bruxas.

Os piores países nessa caçada foram a França e a Alemanha. Num famoso caso ocorrido na cidade alemã de Würzburg, os juízes locais consideraram que a maior parte dos moradores estava tomada pelo diabo, o que levou que centenas de mulheres inocentes fossem condenadas à morte.

Original: https://www.megacurioso.com.br/educacao/121702-como-o-cristianismo-transformou-curandeiras-em-bruxas.htm

Nota: o cristão vai dizer: "ain, mas isso é passado". Atualmente as pessoas LGBT são o alvo.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

O enigma de Shugborough


Na cidade de Staffordshire (Inglaterra) tem o Monumento do Pastor, do século XVIII, baseado na pintura de Nicolas Poussin (1637) chamada "Et in Arcadia Ego". Nesse monumento existe uma gravura com as letras OUOSVAVV mais DM na segunda linha e em extremidades diferentes. Este pode ser um monumento do tipo memento moris.
A pintura, em estilo pastoral, foi baseada no relato deixado por Virgílio sobre uma tumba com uma inscrição memorial dedicada a Daphnis, juntamente com uma citação da idílica e utópica Arcádia, uma cidade considerada um Paraíso terreno e morada de Pan.
Daphnis era um pastor [siciliano] a quem é atribuído a invenção da poesia pastoral. Ele era tido como filho de Hermes, devoto de Artemis e aprendeu sua Arte diretamente com Pan.
A inscrição pode ser uma espécie de epigrafia latina, os romanos gravavam acrônimos em monumentos religiosos, honoríficos ou funerários.
Tanto a pintura quanto a escultura são da época da Renascença, tempo de transição entre a Idade Média e a Idade Moderna, de transição entre o feudalismo e o capitalismo, onde ocorreu uma intensa revalorização das referências da Antiguidade Clássica.
Entretanto, ao menos na literatura, essa reminiscência da Antiguidade Clássica esteve presente nas canções de gesta e nos romances de cavalaria. Desde Beowulf (século VIII) a Parsifal (século XIII), sagas e lendas antigas registram o folclore que preservou as antigas crenças.
O monumento parece dizer que ali é uma tumba, mas quem quer cujos restos estejam ali dentro, continua sua existência em Arcádia. Tal como nas lendas e mitos dos Celtas, a Terra do Verão nos aguarda.
Assim seja, assim é, assim será.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

O mistério do Coringa

Para encerrar essas postagens ambientados em Gothan, eu não estaria sendo justo se não falasse do vilão mais complexo e icônico.

Se Batman é explicado porque ele representa nosso superego, certamente o Coringa é explicado porque ele representa nosso Id, chamado também de subconsciente ou Sombra.

Batman é um herói sem superpoderes, compensado pela capacidade de dedução de um detetive e a tecnologia [um filme famoso chegou a fazer referência de que a "indústria Wayne" era concorrente da "indústria Stark"].

Coringa é um vilão sem superpoderes, igualmente inteligente, habilidoso com uso de armas e químicos e psicopata.

Mas é um equívoco dizer que o Coringa é o "nemesis" do Batman. Afinal, a Nemesis é uma Deusa ligada ao destino, equilíbrio e vingança divina.

O termo mais certo é arqui-inimigo. Enquanto Robin é um reflexo da infância perdida de Bruce Wayne, Coringa é o reflexo daquilo que ele, como Batman, pretende combater.

O encanto que o Coringa exerce é explicado porque inconscientemente vemos um reflexo de nós mesmos. Freud é o autor da teoria da psicanálise que dividiu nossa mente em três estados. Rudimentarmente, o Ego é o nosso lado consciente e o Superego é como o "auditor" dessa consciência. Mas falar que o ID é o subconsciente está longe de descrever o que é conhecido também como o lado da Sombra de nossa psiquê.

Grosseiramente, o Id é nossa mente natural, composta por nossos instintos, nossos desejos, medos, necessidades e aquilo que é chamado de pulsão. Na busca pela saciedade de nossos desejos e necessidades, que nos dá a sensação de prazer, que pode ser considerado inverso da sensação de dor, o ser humano tem, então, pulsões, que é essa tensão e intenção de agir. Nesse sentido, nossa mente natural não é diferente da dos animais.

Entretanto, para viver em sociedade, o ser humano criou freios a essas pulsões, a esses instintos que, ao serem reprimidos, recalcados, formam essa cisão na psiquê tendo, de um lado, o Id e, do outro, o Ego, a parte de nossa psiquê construída e formada por nossa sociedade, por nossa cultura.

Esse nosso lado chamado de Sombra é composto por todos esses instintos, desejos, necessidades, sonhos, a busca pela saciedade do prazer e alívio da dor. Por causa da sociedade que nós criamos, surge esse eterno conflito entre o Id e o Ego que é, basicamente, a origem e causa de todas as nossas neuroses.

O Coringa é a personificação e encarnação de nosso Id, do nosso inconsciente, da nossa "Sombra".

O equivalente mais próximo, nos mitos antigos, são os Titãs, o Caos e seus descendentes, os Gigantes e outras criaturas míticas que configuram nas sagas como os monstros que os heróis e Deuses vencem.

Outro personagem que eu poderia citar como semelhante é o berserker, guerreiros que entravam em frenesi deliberado para lutar nas batalhas.

Dentre os Deuses, os que podem ser associados ao Coringa são Loki e Dionísio.

O Coringa é bem sucedido como personagem exatamente porque nós projetamos nele certos desejos que nós escondemos em nosso subconsciente e ele nos encanta exatamente porque aquilo que chamamos de loucura ou psicopatia é esse frenesi sagrado incontrolável dos guerreiros berserker.

O gênero dos Deuses

Steven Posch pergunta, no Pagan Square: os Deuses têm gênero?
Resposta rápida: sim.
Quando se fala em gênero, pode-se compreender ou como um conceito cultural ou como um fato biológico.
Ele pergunta, na sequência: o que significa dizer Deus/Ele ou Deusa/Elas?
Títulos são sinônimos e nós lhes atribuímos gêneros.
Tal como outras palavras, o sentido de gênero, na linguagem, é algo definido culturalmente.
Steven lista alguns exemplos demonstrando a ligação dos Deuses com corpos e fenômenos da natureza. Nós observamos e interpretamos o ambiente em nossa volta conforme os conceitos culturais que nós criamos. Nós projetamos para os corpos e fenômenos essa acepção cultural do que nós conceituamos como gênero, o mesmo ocorre com ideias abstratas. As definições de gênero são arbitrárias.
Steven introduz a questão de que as designações de gênero são produto de uma convenção e introduz a questão sobre o Deus da Floresta e as manifestações dEle, o confundindo com Baphomet.
Enquanto categoria de signo e símbolo da linguagem, o gênero é um produto cultural e social, mas como Judith Butler magistralmente explica, isso não nega nem omite as evidentes distinções sexuais dos seres.
O que se pode observar na natureza é a enorme variedade de sexualidades e um amplo espectro de gêneros. Desde seres unicelulares até organismos complexos e desde seres assexuados até seres sexualmente distintos. Essa diversidade e amplitude são mostradas nos mitos antigos que abordam todas as expressões da sexualidade. Então o predomínio de uma expressão sexual causado por circunstâncias sociais e políticas não exclui nem anula as outras.
Nós podemos entender e perceber o gênero sexual dos Deuses conforme a essência dos mesmos. Sendo os autores e geradores da realidade, da vida e da natureza, os Deuses, de estruturas simples, fazem surgir estruturas complexas. Portanto todas as expressões da sexualidade são manifestações divinas. O ápice da evolução consiste na sexualidade distinta e disto se extrai o conceito de princípio masculino, princípio feminino e princípio hermafrodita.
Aqui está contido um mistério do Caminho dos Bosques que parece escapar de seus adeptos, confusos e perdidos por causa de convicções e agendas pessoais.
Eu reafirmo que a cerimônia tradicional wiccana consiste no hiero gamos, na união sexual sagrada entre o Deus e a Deusa, ato que gera e mantém o mundo. Este é um ato heterossexual, inolvidável quando lemos o mitopoema de Dumuzzi e Inanna. Portanto identificamos o Deus com o princípio masculino e a Deusa com o princípio feminino.
O Deus se une à Deusa porque Ela tem algo que Ele precisa e perdeu. A Deusa se une ao Deus porque Ele tem algo que Ela precisa e perdeu. Da união sexual sagrada vem a descendência, nós, todos, ambos, filhos e filhas, carregando em nossos corpos tanto o masculino quanto o feminino, o que abrange todas as identidades, sexualidades, orientações e preferências (inclusive a assexualidade).
Reforçando, os mitos antigos abordam todas as expressões sexuais, inclusive aquelas consideradas proibidas ou tabu. Eu considero desnecessário inventar uma teologia específica para qualquer forma de sexualidade humana. Esta é a principal causa da falha e confusão no Paganismo Moderno: as pessoas acabaram trazendo consigo suas mágoas, seus ressentimentos, seus traumas e agendas pessoais.
O indivíduo tem a liberdade de escolher o Deus ou Deusa de sua preferência para prestar culto. O indivíduo tem os rituais para vivenciar sua espiritualidade e sua sexualidade. Como parte da vida e da natureza, a sexualidade é sagrada e deve ser celebrada. Celebremos!

quarta-feira, 20 de abril de 2022

A lenda do cavaleiro de Gotham

Promessa é dívida. Por ironia ou sarcasmo, eu costumo chamar a minha cidade de Sampa City por similaridade à cidade fictícia de Gotham City.
Aliás, [eu não estou recomendo um centavo por isso] eu recomendo assistir os seriados Gotham e Titãs na Netflix para mergulhar e entender mais sobre essa lenda contemporânea que gira em torno de um dos personagens mais icônicos e controversos, tanto nos quadrinhos como no cinema: Batman.

A imagem, segundo uma página de checagens, foi fabricada em maio de 2019 exatamente para comemorar os 75 anos do personagem, mas a inspiração e conceito inicial, o Deus Camazotz, faz parte da cultura e religião Maia. Outras lendas também envolvem pessoas que se tornam morcegos, como a de Leutogi e das Miniades [três irmãs que tiveram a péssima ideia de negligenciar o culto a Dioniso].

Mas a origem de Batman está intimamente interligada com a editora de quadrinhos, Detetive Comics, a mesma que nos proporcionou personagens icônicos como Super-Homem e Mulher-Maravilha [também citados aqui]. Não por acaso nem por coincidência, mais ou menos na mesma época as aventuras de Dick Tracy faziam sucesso no jornal. Outros detetives fictícios podem e devem ter influenciado na construção do Batman, como Sherlock Holmes e Hercules Poirot.

De acordo com o Wikipédia, os criadores de Batman, Bill Finger e Bob Kane podem ter sido inspirados no filme mudo "The Bat" [1926] e no Sombra [1930], outro detetive fictício que fez muito sucesso nos quadrinhos e nos cinemas.

Olhar o histórico do Batman é olhar o histórico do universo dos quadrinhos e do cinema. Desde sua origem até os atuais blockbusters, o Cavaleiro das Trevas é um personagem controverso, contraditório e polêmico. Sua aparência foi de um personagem pastelão com nuâncias homoeróticas até uma expressão mais obscura e sombria do arquétipo do justiceiro [ a Marvel tentou imitar com o Punisher].

Seus roteiristas o colocaram ora colaborando, ora combatendo o Super-Homem. Em outros multiversos existem inúmeras insinuações de seus envolvimentos amorosos com Selina Kile [Mulher-Gato] e Diana Palmer [Mulher-Maravilha] além de inúmeros dilemas, como a estranha relação deste com Robin, a colaboração com a Polícia e a complexa relação dele com Has-Al-Ghul.

Por razões diversas, Batman é um pivô muito utilizado por sociólogos e psicanalistas para falarem de criminalidade, de estados mentais e da moralidade discutível dos justiceiros. Ele quase pode ser considerado um personagem que incorpora a sombra, conceito tão usado na psicanálise, mas nossa sombra é melhor representada por outro personagem igualmente icônico, controverso, polêmico e assustador: o Coringa.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Santa ingenuidade

Outra lembrança de minha infância e adolescência foi Batman, a série, que foi produzida entre 1966 e 1968 [e deve ter sido transmitido aqui no Brasil na década de 70].
A série agora é considerada cult, assim como os filmes B, uma grata herança que nos foi deixada pelo genial Ed Wood, que produziu e filmou Plan 9 From Outer Space, com ninguém menos que Bela Lugosi, o Drácula original do cinema.
O seriado mostrou como é difícil adaptar uma mídia [quadrinhos] a outra [cinema]. Tudo no seriado era exagerado, kitsch e improvisado. Com direito a representar gráficamente as onomatopéias típicas dos quadrinhos, a caracterização de cada personagem calcou a série para uma visão mais cômica e hilária do personagem sombrio de Gotham. Cada ator que interpretou os personagens tirados dos quadrinhos da DC Comics transformou e gravou certos tipos [tropes] que ainda são utilizados atualmente, tanto nos quadrinhos quanto no cinema.
Mas vamos esquecer as frases ditas pelo Robin, que antecederam os memes. Vamos esquecer os roteiros pastelões e inserções de pessoas comuns. Vamos esquecer a impagável cross-over entre Batman e Besouro Verde. Nos anos seguintes, tudo o que se comentava sobre o seriado era a estranha relação entre Batman e Robin. Nem mesmo com a inserção da Mulher Gato e da Batgril esses rumores cessaram. Na época, eu era inocente e ingênuo e eu ouvi algo dito pela gíria: "rolava meinha". Uma gíria criada para insinuar que Batman e Robin tinham um relacionamento homossexual, quiçá, como os erostes e os eromenos da Grécia Antiga.
Mas era década de 70, ainda vivíamos na Ditadura Militar. Somente na década de 80, com a chamada Abertura, a suposta redemocratização do Brasil é que tais suspeitas foram abertamente difundidas e discutidas publicamente. Relembrando que o mundo passava pela paranoia causada pelos grupos conservadores e fundamentalistas cristãos em torno da epidemia de AIDS, falar que personagens de seriados pareciam ser homossexuais era o suficiente para gerar protestos por parte desses grupos, como ainda acontece atualmente.
Eu cresci e foi educado com esse preconceito e somente com a faculdade, estudos, leituras e pesquisas pessoais é que eu pude estar consciente de que vivemos em uma sociedade heterocisnormativa. Cabem outras descrições, mas a heterossexualidade é considerado a norma e cisgênero é um conceito que nos remete à genética, padrões de gênero que são construções sociais.
Então, tanto por eu ser de esquerda, praticamente postulante da anarquia e pagão, eu ajudo da forma que eu posso a comunidade LGBT na luta pelo respeito e reconhecimento dos direitos, que são de tod@s.
Então o eventual e dileto leitor pode perguntar o que isso tem a ver com Paganismo. Ora, leitor, Robin é um personagem que pode muito bem ter sido construído a partir de outros Robins: Robin Goodfellow e Robin Hood.
Robin Goodfellow é um personagem presente em William Shakespeare na obra Sonhos de Uma Noite de Verão, está conectado com o folclore inglês do Puck, que pode ser descrito como uma fada ou um sátiro, certamente um trickster, vulgo trapaceiro ou malandro. Há a possibilidade desse Robin ter inspirado as lendas de Robin Hood.
Robin Hood é um personagem do folclore inglês mais ambientado na Idade Média, um personagem que encena o papel do justiceiro contra os abusos dos governantes contra o povo. As lendas de Robin Hood inclui um xerife, um rei usurpador e um rei legítimo, mas o intrigante é que Robin Hood é um personagem heróico, mas considerado fora da lei. Um personagem similar que certamente foi originado dele é o Zorro, ambos, também carregam o componente dos mitos do trickster.
Há a possibilidade das lendas de Robin Hood terem sido inspiradas pelas lendas de Reynard, que eu devo ter citado aqui, em algum lugar. Há a possibilidade que as lendas de Robin Hood terem sido inspiradas pelos mitos do Green Man, uma de muitas formas conhecidas de manifestação do Deus das Florestas.
Mas e Batman? Teria o Homem Morcego alguma referência em lendas, folclores ou mitos?
Aguarde os próximos capítulos, neste mesmo batcanal.