A todos vocês que estão mortos e a todos estes outros que ignoram, pois nós
fazemos parte deles, ignoramos que uma vez vivos, um dia a mais é um dia a
menos. Nós os incomodamos, mais por nosso ressentimento do que
propriamente pelo pesar da perda, que dela, nenhum de vocês precisam. Estes
ossos sejam testemunhas, destes ossos, que pedem a prova, da majestade da
morte e da presença do teu reino, nesta noite, entre nós. Estes ossos abram a
tumba aos nossos ossos, para a celebração desta noite. Aos nossos ossos, esteja
aberta a via calcinada de crânios, até a praça das costelas. O corso pavoroso
seguirá, pelas vielas dos úmeros, as ruas dos rádios e cúbitos, as avenidas dos
fêmures. Cada estrada desolada percorrida até os castelos da senhoria, castelos
firmados por muralhas de tarsos e metatarsos e por torres de falangetas.
Diante do umbral final, do portal de imensas arcadas dentárias carbonizadas, no
clamor dos redivivos, nós viemos pedir moradas e abrigo, pois já vem o dia,
arrastando a vida consigo. Nós recusamos, renunciamos ao mundo dos Homens,
amaldiçoamos toda a civilidade, toda a propriedade, toda a sociedade, toda a
moralidade e toda a religiosidade. Nós descartamos toda a ciência, toda
identidade, todos os sentidos e toda a carne ou peso inútil.
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