domingo, 16 de agosto de 2026

Segunda Sala: A Digestão

O capricho da senhoria faz com que a fuga acabe nos tragando mais para seu
intimo, nos emulsionando no suco gástrico, até formar um bolo digestivo, como
penas de aves no estômago do crocodilo, prontos para serem regurgitadas. Com
grande repulsa, vemo-nos sendo repostas as carnes e os ossos, tornando nossa
forma nessa miserável humana. Mas isto é feito apenas para decantar ainda mais
nossa essência, de forma que constantes reformas e demolições seguem-se, até
que se triture toda sobra ou consciência humana. Desta vez, nós estamos à
mercê das contrações estomacais e das marés enzimáticas, sofrendo os mais
diversos processos em cada parte desta parede viva viscosa, repicando de um
canto a outro, sendo esticados, picados, amassados, estirados, assados,
estuporados e demais formas de se preparar uma refeição.
Finalmente, depois de nós sermos coalhados e coados, começamos a ser
assimilados pelas artérias, que mais se parecem com um labirinto, formado por
corais cortantes, nem aqui há tréguas. Ainda iremos ser atacados por anticorpos
e demais mecanismos de proteção orgânica, mas sempre numa versão adequada
ao Mausoléu. Então, as veias são como catacumbas, os anticorpos são seus
habitantes; a sala de digestão é uma sala de necrópsia liderada por açougueiros,
mas ao todo, uma boa câmara de tortura de um calabouço frio e cruel. Tudo para
nos aperfeiçoar, tal como o ferro é laborado até obter aço temperado, resistente
e afiado.

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