sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A sopa de Perun - IV



Beto olha para Tanya, ainda segurando sua mão.

— Melhor nós voltarmos antes que a Viktoriya fique com ciúmes.

Ele abre um sorriso luminoso.

Tanya fica imóvel por um segundo.

Olha para a mão dos dois.

Depois para Beto.

— Ciúmes?

— Foi uma hipótese.

— Uma hipótese bastante imprudente.

Beto começa a caminhar.

— Por isso mesmo precisamos voltar rapidamente.

Tanya o acompanha, tentando esconder um sorriso.

— Você tem consciência de que Viktoriya provavelmente ouviu?

— Tenho.

— E mesmo assim disse?

— Tenho.

Atrás deles, uma voz:

— **Ouvi mesmo.**

Beto congela.

Tanya fecha os olhos.

— Eu avisei.

Viktoriya está parada alguns metros adiante, com os braços cruzados.

— Então?

Beto olha para Tanya.

Tanya olha para Beto.

— Corre — ela murmura.

Beto começa a rir.

E os três voltam para o gabinete enquanto o campo permanece para trás, silencioso sob o céu noturno.

Perun continua onde estava.

Sem explicar absolutamente nada.

Beto percebe que Viktoriya ainda está olhando para ele.

— Antes que alguém fique realmente brava...

Ele começa a cantar.

Uma velha melodia rural, simples e repetitiva.

Não há menção ao Partido.

Não há generais.

Não há impérios.

A canção fala da terra escura depois da chuva.

Da semente enterrada.

Das mãos que plantam.

Do trigo que cresce.

Da colheita que pertence primeiro à comunidade e só depois a qualquer indivíduo.

Tanya olha para ele, surpresa.

— Você conhece isso?

Beto continua cantando.

— Conheço algumas canções.

Viktoriya começa a sorrir.

— E você acha que cantar vai me fazer esquecer o que disse?

Beto canta ainda mais alto.

— **Não.**

Tanya ri.

— Ele está tentando distraí-la.

— Eu percebi — responde Viktoriya.

Beto continua:

— A terra não pergunta quem plantou.
— A chuva não pergunta quem colhe.
— O inverno não pergunta em qual partido você vota.

Tanya finalmente começa a rir.

— Isso sequer é uma música tradicional.

— Agora é.

Viktoriya balança a cabeça.

— Herege.

— Essa acusação está ficando recorrente.

A melodia prossegue.

Fala de vizinhos que se ajudam quando a colheita é ruim.

De uma família que oferece pão à outra.

De crianças correndo entre os campos.

De uma aldeia que não precisa de uma autoridade central para descobrir que alguém está precisando de ajuda.

Tanya observa em silêncio.

— Essa comunidade que você está cantando...

Beto olha para ela.

— Sim?

— Não parece com a comunidade do Partido.

— Não é.

— Então o que é?

Beto diminui o ritmo da canção.

— É o que acontece quando pessoas descobrem que podem cuidar umas das outras sem alguém precisar mandar.

Viktoriya olha para os campos.

— Uma comunidade espontânea.

— Exatamente.

Tanya pensa por alguns segundos.

— Interessante.

Beto sorri.

— Você está aprovando?

— Não exagere.

Ela olha para Viktoriya.

— Mas admito que prefiro isso a uma reunião política.

Viktoriya ri.

— Eu também.

Beto volta a cantar.

Dessa vez, Viktoriya acompanha.

Depois de alguns versos inventados, Tanya hesita.

Finalmente, quase inaudível, acompanha também.

Três vozes diferentes.

Nenhuma delas perfeitamente afinada.

Nenhuma delas obedecendo a um maestro.

E, por alguns minutos, **não existe Império, Partido, União, propaganda ou disputa metafísica.**

Existe apenas o caminho de volta.

A terra sob os pés.

O vento passando pelo campo.

E uma pequena comunidade improvisada que nasceu sem ninguém ter ordenado que ela existisse.

O grupo já está quase deixando o campo quando o camponês chama:

— Esperem!

Beto se vira.

O homem se aproxima carregando uma grande cumbuca de madeira.

Dela sobe vapor.

É uma sopa espessa, quente, feita de raízes, grãos e alguma carne. Comida simples. Comida de quem conhece o inverno e sabe que ninguém deveria atravessá-lo de estômago vazio.

O camponês estende a cumbuca.

— Para vocês.

Tanya olha para a comida.

Depois para o homem.

— Para nós?

— Para vocês.

Ela olha para Beto, desconfiada.

— Por quê?

O camponês responde como se a pergunta fosse estranha.

— Porque o solo conhece os seus.

Tanya fica imóvel.

— O solo... conhece os seus?

O homem assente.

— Perun pediu.

Silêncio.

Tanya olha imediatamente para Beto.

Mas o camponês ainda não terminou:

— E uma dama de vestido preto e vermelho pediu também.

O sorriso de Beto desaparece.

Tanya percebe.

Viktoriya também.

Mary Sue fica séria.

— Uma dama? — pergunta Tanya.

— Sim.

— Onde?

O camponês aponta para o campo.

— Por ali.

Tanya olha.

Não há ninguém.

— Quando?

O homem dá de ombros.

— Antes de vocês chegarem.

Tanya volta-se lentamente para Beto.

— Você conhecia essa mulher?

Beto não responde.

— Beto?

Ele olha para a cumbuca.

Depois para o horizonte.

— Não.

Tanya estreita os olhos.

— Você está mentindo?

— Não.

Ela fica alguns segundos observando o rosto dele.

Então percebe alguma coisa.

Beto está emocionado.

Não triunfante.

Não satisfeito.

**Emocionado.**

O camponês estende novamente a comida.

— Comam enquanto está quente.

Tanya hesita.

— E se eu não acreditar em Perun?

O homem sorri.

— A sopa não exige que a senhora acredite nele.

Viktoriya solta uma pequena risada.

Beto também.

Tanya finalmente aceita a cumbuca.

— Isso é...

Ela procura a palavra.

— ...absurdamente pragmático.

O camponês dá de ombros.

— É sopa.

Tanya prova uma colher.

Quente.

Grossa.

Simples.

Boa.

Ela olha para Beto.

— Não diga nada.

— Eu não disse nada.

— Seu rosto está dizendo.

Beto sorri.

— Estou apenas pensando.

— Em quê?

Ele olha para a escuridão onde o camponês disse ter visto a mulher.

— Que talvez os Deuses realmente falem de várias formas.

Tanya olha para o céu.

Depois para a sopa.

Depois para Beto.

— Ou talvez alguém simplesmente tenha sido gentil.

Beto sorri.

— Também é uma possibilidade.

Tanya toma outra colher.

E não pergunta mais nada.

Porque, naquela noite, talvez não fosse necessário decidir **quem** havia pedido a sopa.

Bastava reconhecer que alguém — humano ou divino — havia pensado neles.

E, por enquanto, isso era suficiente.

Criado com ChatGPT.

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