quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Quinta Sala: A Coroa

Do alto da Morte, nós vemos com doçura como a morte brinca com a vida,
adormecida em sua própria ilusão de que a morte é uma função da vida, quando
na verdade a morte se basta, visto que não é nascida e já está falecida, é sua
própria negação e justificativa. Já a vida depende do movimento dinâmico do
jogo que a morte lhe impõe e de pobres objetos e de pequenos atos, para se
satisfazer de si e exclamar a si: estou viva! Uma miserável tentativa, procurando
mais se convencer que se provar. Já a Morte é o pátio, o palco da morte e sua
pantomima, trazendo a vida como uma marionete, para um pequeno espetáculo
de ventriloquismo. O que parece se mover, se acha vivo, mas não é esperto; o
que parece se expressar, se acha eloqüente, mas não é legível; o que parece
dominar, se acha reinante, mas não é poderoso. Quando a morte se cansar do
brinquedo, simplesmente começará outro, tirado de sua imaginação e o próximo
boneco se sentira tão cheio de vida quanto o anterior e elegera a si como
exemplo de realidade, esquecendo que a coroa do real lhe é confiada pela morte,
coberta de realeza com um pedaço do manto da senhoria, a Morte. De sua
varanda, nós vemos o que ela vê e consente, deste planalto abrem-se mais
outros caminhos, que se estendem por todo o Reino das Trevas.

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