quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Sexta Estação: Alterconsciência

Nós chegamos a um nível tal, que já nos ocupamos pela sorte de terceiros, nesta
trilha desolada, pela qual empregamos nosso sofrimento. Para esquecer e
reviver, nós ajudamos aos calouros recém chegados deste purgatório, que
usualmente chamávamos de vida. Suportamos por eles, dores que nos
despedaçam, por estar além de nossas capacidades, mais antes por prazer do que
pena, pois o ofício da morte só se realiza plenamente pela dor que se toma e é
alheia. O grau de coragem não é para lançar-nos mais rapidamente ao Grande
Mausoléu, mas tanto para adiar quanto para abandoná-los, no momento em que
mais seríamos necessários. Pois aí está a auto-gestão da morte: ao perecer o que
já se encontrava falecido.
Assim, aos poucos, juntam-se mais ossos e acrescentam-se degraus nesta
jornada, pequenos cacos de almas que, ao serem dilaceradas por nós, levam um
pouco de nós para o processo, acrescentando nossas leis e aumentando os
obstáculos, com nossa crueldade. Por quanto mais nos espalharmos pelo
terreno, mais ainda nos realizamos e evitamos a última estação, pois aqui é que
se sente o prazer de trabalhar, só pelo trabalhar e pelo de dar trabalho. Mas é por
nossa própria influencia maléfica e fatal, que somo mais arrastados, com tanta
mais velocidade quanto nos apegamos. Quando cremos estar firmemente
arraigados, enraizados, nossas próprias raízes volatilizam e a explosão nos
projeta.

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