segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Terceira Sala: O Eflúvio

Tragados através dessas cavernas intrincadas, nós somos arremessados para a
forja do Fogo Negro, que consome toda alma, todo o espírito de qualquer coisa
existente. Na medida que dilui, também reconstrói, com faíscas de sua própria
essência. Da mesma forma que num tonel de vinho, onde nós seriamos os bagos
de uva, subimos e descemos, somos esmagados e rasgados, batidos e cozidos e
postos a fermentar. Nós passamos de estado sólido a gasoso e de gasoso a
sólido, em intervalos de tempo extremamente curtos, a fim de atingirmos o grau
de excelência que só um vinho tinto consegue. Imensas pás continuam a
revolver, enquanto nosso plasma flutua pelo tonel, adquirindo cor e volume, ou
cristalizando ao agarrar-se aos pequenos postes ou paredes da tina, enquanto a
fermentação não nos arrancar pela evaporação. Nós estamos prontos para ser
engarrafados, sendo as garrafas formadas pelos cristais que produzimos, até
criar uma pele lisa e sem defeitos, como uma pérola de jade cobrindo um
diamante bruto. Por nossa cromografia, nós seremos catalogados, alguns ainda
terão que ir a busca de cascas melhores, outro serão quebrados imediatamente
por terem ultrapassado a camada que lhe cabia. Lentamente, as bolas de gude
vão sendo empilhadas à esquerda, à direita, ao fundo, à frente, à cima e a baixo,
até completar todo um grado. Cada grade e espaço, nas posições e direções
certas, como a ordenação atômica de uma folha, onde aos bocados são formadas
camadas, para cada camada formar um tecido, que no conjunto resulta em um
organismo.

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