domingo, 19 de julho de 2015

Vasculhando as origens do culto da Serpente

Na mitologia, a serpente simboliza fertilidade, procriação, sabedoria, morte e ressurreição. Nas escolas mais antigas do misticismo, o símbolo do mundo era a serpente. A luz que surgia era metaforicamente definida como a serpente chamada Kundalini, que permanece adormecida na base da espinha da pessoa. A divinação ou o despertar do divino e das habilidades de uma pessoa vinha com os rituais e os ensinamentos trazidos pelo povo da serpente. 

Para compreendê-los, devemos olhar para as serpentes originais. Na China, foi um casal, com cabeça humana e corpo ofídico, quem criou os humanos. Na Suméria, foi Nin-Khursag e seu esposo Enki quem tinham a incumbência de criar trabalhadores. Para os Hindus, foi Ananta, a serpente cósmica, quem nos criou. Então se no alvorecer da criação do homem, nós fomos criados por seres semelhantes a serpentes, então o povo do culto da Serpente devem ser seus descendentes diretos, por sangue ou espírito. 

Outra serpente foi o filho de Enki, Ningizzidda, conhecido pelos Sumérios, Egípcios e Tibetanos. Ele habitou em Magan, conhecido por nós como Egito, identificado como Thot, que formou uma escolar de mistérios para propagar as ideias de auto-empoderamento e iluminação, mantendo os feitos e filosofias de seu pai. 

Eventualmente os Annunaki perderam o controle da terra e de sua população. Aqueles que seguiram a ideologia da Serpente deveriam estar preocupados em manter a relevância enquanto encaravam mudanças constantes, novas religiões e potenciais ameaças à suas terras, que eram prósperas. Para se protegerem e encorajar as pessoas a seguirem seu sistema de crenças, eles enviaram emissários [os Iluminados] e encontramos lendas destes Iluminados ao redor do mundo. Diversas culturas ao redor do mundo adoraram a Serpente e divindades ofídicas que eram lindas mulheres associadas com árvores e lagos. 

Entretanto uma figura central não era suficiente para assegurar a posição dos cultos da Serpente, principalmente diante de novas religiões e reinos que estavam adquirindo poder político e militar. Casamentos politicamente vantajosos eram arranjados com as famílias em ascensão. Um príncipe ou princesa serpente casando com uma pessoa dessas famílias traria comercio, prosperidade, conhecimento em como fazer uma sociedade coesa e os segredos do culto, que seriam transmitidos aos seus descendentes. Foi graças a esta sabedoria que a nova família reinante ganhou poder sobre seu povo e lhes permitiram avocar por sua divindade. Ainda assim, muitos destes casamentos tiveram fins trágicos. 

Por que seus casamentos terminaram de forma tão trágica? Talvez por que a princesa serpente sentia falta de seu lar. Ela também se viu dependente da boa vontade de seu esposo para garantir que ela era aceita na sociedade e frequentemente enfrentava censura, suspeita e ciúme, por sua origem estrangeira. Incapaz de fazer amizade, ela permanecia no ostracismo e perdia a afeição de seu esposo, aqueles que queriam sua queda apareciam. Em muitos casos a princesa retornava para casa, deixando suas crianças. Em outros, ela ou seu marido morriam. Ainda assim ela era lembrada por seus descendentes, que nasceram com grande força e inteligência, possibilitando suas famílias aclamar que os Deuses lhes deram o direito divino de reinar. 

Autora: Katrina Sisowath

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A Wilka como apropriação cultural

Aproveitando o texto de Maisha Johnson no Everyday Feminism eu irei expor como a Wilka [que é compreendido como o grupo da neo-wicca, pop-wicca, religiões da Deusa e Ecléticos] é uma apropriação cultural.
Apropriação cultural é quando alguém adota os aspectos de uma cultura que não é a sua própria. Considerando que uma religião é uma cultura, a Wicca possui princípios, valores e práticas que lhe são próprias. A Wilka não possui princípios, valores e práticas próprias, mas adota aspectos da Wicca e isto é apropriação cultural.
1. Ela banaliza a estupidez.
A Wilka não irá admitir que não é Wicca, por que existem muitas bobagens disseminadas na internet por celebridades pagãs e sacerdotes paraguaios.
2. Ela permite que as pessoas mostrem seu amor aos Deuses, mas mantém o preconceito contra a tradição.
Os tradicionalistas não são elitistas, mas os princípios, valores e práticas que a Wilka divulga acabam minando todo o sentido da tradição.
3. Ela faz a “bruxaria” parecer legal para o publico em geral – mas muito “pesada” quando feita por uma bruxa.
A sociedade ocidental é dominantemente cristã, mas a Wilka tem colorido e alvejado a Bruxaria com tons de esoterismo e misticismo genérico para torná-la mais aceitável ao público em geral.
4. Ela permite que vigaristas façam carreira como sacerdotes.
Insistindo na ideia do “faça você mesmo”, típicas de uma sociedade individualista, a Wilka agrega e acolhe qualquer um que se proclame como sacerdote.
5. Ela permite que apareça o culto à personalidade.
A falta de critérios dá espaço para sacerdotes paraguaios conquistem o público e ganhem influência. Sustentados por sua popularidade e sucesso comercial, os sacerdotes paraguaios constroem um culto à personalidade em torno deles.
6. Ela espalha estereótipos.
Para satisfazer sua necessidade de popularidade, reconhecimento e aceitação, a Wilka tem um comportamento que endossam o estereótipo de que a bruxa é uma pessoa que se veste como se estivesse em um cosplay.
7. Ela perpetua a histeria cristã.
A Wilka divulga eventos, encontros, rituais, receitas, práticas, sem qualquer critério e cuidado, para um público que pertence a uma cultura predominantemente cristã.
8. Ela insiste na ideia de que qualquer um pode ser o que quiser ser e que deve ser aceito e reconhecido tal como se apresenta.
Como não tem base, não tem mitos, não tem mistérios, não possui linhagem nem as práticas, a Wilka mantem o interesse e o apelo populista, exigindo ser aceita e reconhecida da mesma forma que aceita e reconhece qualquer um.
9. Ela prioriza as opiniões pessoais mais do que as práticas tradicionais.
Como qualquer um está autorizado ou capacitado para se apresentar como bruxo ou sacerdote, tanto faz qual a ideia, o conceito, o conteúdo, a origem ou o propósito do que se expõe. Debaixo do discurso pela diversidade se esconde a superficialidade e desrespeito que podem ser perigosos para quem tenta realizar tais práticas sem o adequado acompanhamento e treinamento.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Quirino, o Deus do povo

Na mitologia romana, Quirino (o mortal Rômulo) era um misterioso Deus. Veja também Jano Quirino. De início ele foi provavelmente um Deus sabino. Os sabinos tinham uma povoação perto do futuro sítio de Roma, e eles chamaram um de seus sítios, em que eregiram um altar, a Collis Quirinalis ("monte Quirinal") após Quirino; aquela área foi mais tarde incluída nas sete colinas de Roma, e Quirino tornou-se um dos mais importantes Deuses do estado como a forma deificada de Rômulo, o fundador e primeiro rei de Roma. Seu nome deriva de co-viri ("homens juntos"); tão como, ele personificava a força militar e econômica do populus romano coletivamente. Ele também alertava a curia ("casa do senado") e comitia curiata ("assembléia tribal"), os nomes de quem são cognatos com ele próprio. A esposa de Quirino era Hora. Em arte, ele era representado como um homem com barba e com roupa religiosa e militar. Ele era às vezes associado com a murta-comum. Seu festival era a Quirinália, no dia 17 de Fevereiro. Quirino foi citado na Eneida, de Virgílio.

Se Quirino era de origem sabina teria que ser anterior a Rómulo e logo a lenda que faz de Quirino a deificação de Rómulo não estará senão a fazer, de forma mítica, justiça à história: Foi Rómulo que levou este Deus Sabino para Roma, possivelmente aquando do rapto das sabinas. Este episódio romântico da fundação de Roma fundamenta a tese antes exposta de que a trindade suprema do panteão capitolino reflecte a realidade sociológica de uma cidade que foi de início um quartel sem bordel.

Portanto, quando Enio exalta Rómulo como rei bom e benemérito por exelência estava já a acender a fogueira da exaltação política onde Georges Dumézil ser viria a queimar porque foram os próprios clássicos que quiseram enfatizar o papel de “povo eleito” dos romanos com a criação do mito fundador de Rómulo transformado num semi-deus da tríade do Quirinal ao faze-lo incorporar o Deus Quirino. E assim apareceu entretanto a tríade arcaica romana venerada no monte do Quirinal que poderia ter sido mais poderosa do que a capitolina e que seria composta por Júpiter, Juno e Quirino.

O que sabemos sobre o Deus Quirino é mais mito do que lenda que pouco ou nada tem de confirmação histórica. No entanto muitas especulações tem sido feitas, precisamente em torno da tríade do Quirinal suposta mais arcaica que a capitolina ou pelo menos mais original.

No seu opúsculo “Jupiter, Mars, Quirinus et Janus”, Georges Dumézil ataca a proposta, aliás interessante, do professor da Faculdade de Direito de Dijon com uma tareia teórica de tal modo severa que se fica com a sensação de que a história mítica é uma ciência mais exacta do que a matemática e a mitologia uma disciplina tão bem certificada como o catecismo católico.

Claro que Georges Dumézil parte do pressuposto que a língua sabina era muito diferente da latina mesmo no caso de coabitantes dos mesmo montes, que esta era Úmbria mais precisamente Osca e que nunca poderia ter tido um Deus chamado Quirino porque não tinham o grafema qu*. No entanto tinham, como os gregos, o K e vários U e então quem pode provar a Dumézil que a grafia autenticamente sabina de Quirino não seria *Kyrinus, á boa maneira helénica, aliás?
M. Paoli néglige enfin le fait, assuré par l'analyse de l'homologue ombrien Vofîonus qu'ont donnée MM. Pisani1 et Benveniste, que Quirinus porte un nom bien latin, issu de *couirinos, et que, dieu du *couiriom ou des *couiriai (curiae), il a une valeur non pas ethnique, mais sociale; -- Jupiter, Mars, Quirinus et Janus”, Georges Dumézil.

Obviamente que ao chegar a este ponto a argumentação a Georges Dumézil deixa de ser científica para ser tipicamente ideológica e politica. Na verdade, a teoria da trifuncionalidade indo-europeia é uma ideologia fascista encapotada de cientificidade e de tipo racista que tem contra ela o argumento básico de que se fosse um facto sociológico arcaico estrutural estaria patente em toda a história europeia antiga e não apenas na medieval e não teria sido preciso a perspicácia delirante de Dumézil para descobrir que a estruturação mitológica das trindades arcaicas procuravam difundir na sociedade a organização social ideal dos povos indo-europeus quando a mais bem organizada das sociedades antigas, a egípcia, era piramidal e usava as tríades divinas apenas para demonstrar que esta se baseava na evidência socialmente empírica de que a unidade social fundamental é a célula familiar composta por pai, mãe e filhos. Por outro lado as tríades arcaicas pré patriarcais, suspeitas na Tridivas arcaicas das culturas de origem egeia e cretense, eram baseadas nas três idades da vida da mulher: Mãe > avó, mãe > filha e filha > neta.

E quando se pretende demonstrar o indemonstrável duma tese cujo suporte fundamental é ideológico pode chegar-se ao extremo da falta de rigor afirmando:
Quando se conhece o panteão, ou o essencial do panteão, de outras cidades itálicas, verifica-se que ele se adapta sem esforço ao quadro trifuncional. Em Iguvium, antiga cidade religiosa dos ûmbrios, na Itália central, textos (as Tábuas Eugubinas) deram a conhecer o grande ritual durante o qual são adorados três Deuses, denominados colectivamente Grabovii, e os seus comparsas respectivos: um é Júpiter, o segundo é Marte, o terceiro chama-se Vofionus, do qual se deriva o nome, em virtude de uma análise fonética rigorosa, conforme ás leis do úmbrio, de um *leudhyon-, do radical do alemão Leute, «as gentes», próximo sem duvida pelo sentido do latim (aparentado também) liberi, «os homens livres» (P. Kretschmer). é o equivalente de Quirinus.

Se for possível navegar nos mares prosaicos da fonética de Vofionus a *leudhyon- sem nos afundarmos em passagens estreitas intermédias, que o autor nem sequer se atreve a enumerar, é porque a fonética não é de facto uma ciência radical com vagas muito grandes, pois qualquer um ali pode surfar à vontade, e tão aleatória que chega a bastar a intuição para encontrar analogias étmicas inaudíveis como é o caso de *leudhyon-.

Pelo contrário, o mais plausível é até que o nome da tribo dos Grabovii seja uma evolução de *Karbowis, literalmente os bois ou os boieiros de *Kar (tal como os Deuses sumérios eram representados como touros). Por isso é que o seu Deus tutelar seria Vofionus, “literalmente o senhor boi”. A troca dos bês pelo vês terá sido uma pecha linguística arcaica cretenses que teria sido partilhada tanto pelos falares nortenhos lusitanos particularmente minhotos como por alguns dilectos itálicos.

A afirmação é mais dogmática e inexplicável do que a teoria da consubstancialidade da Santíssima Trindade que incendiou o mundo quando Ário colocou um i em homoousios transformando a igualdade divina em mera semelhança.

Se a impiedade já era apanágio dos cépticos racionalistas clássicos ainda mais o tem sido com os positivistas e ateus modernos.
Ao procurar saber alguma coisa mais sobre Vofîonus ficamos impressionados com o poder profético da hermenêutica do trifuncionalismo porque a pobreza informativa sobre os Deuses Grabovii é tanta que os torna quase inefáveis.

Entretanto vão aparecendo outras entidades divinas: Trebo Giovio, Fiso Sancio; Fisovio Sancio (Fisovius = Fiducius), Tefro Giovio, Torsa Giovia, Hondos Giovios, Marte Horse, Hondos Çerfios, Çerfos Martios, Prestata Çerfia, Tursa Çerfia, Marte Hodie, Giove Pater, Puemonos Popricos > Vesuna.
Trebo / Tefro Giovio indicia um Deus que na Lusitânia foi Trebapolo e que estaria relacionado com os trovões.
A suspeita com que se fica é a de que, de acordo com a tradição da Úmbria, o nome de Jove seria um mero epíteto dos Deuses das tempestades que na tradição anatólia tinham o nome da cidade que os adorava.
Obviamente que o senso comum parece identificar Pomona com os pomos e Epona com os póneis e do mesmo modo Bofiano com os «bofes» dos bois mas o mais sensato é pensar que aconteceu tudo ao contrário. De resto, por esta lógica os Grabovius seriam todos Deuses boieiros já que seriam seguramente taurinos com a única diferença de que os bois de Vofîonus eram brancos como os que pertenciam a Neptuno.

Assim sendo não sabemos de a divindade Úmbria seria Vofîonus, Wofine, Vofione ou Vufiune. Nem sequer sabemos se seria masculina ou feminina. De facto, tudo aponta para que se trate de uma Vaca Sagrada cujo nome mais arcaico seria *Kaukina, variante da suméria Damkina, esposa ou mãe de Enki, e que pode ter evoluído para Anat / Atena.
Em Coptos, no antigo Egipto, Ka-hedj (alma brilhante) era um touro branco dedicado ao Deus Min, que representava a energia cósmica, ou seja, sem qualquer relação com a 3ª função de Dumézil.
Bom, mas Dimezil entenderia que o Egipto, se bem que de cultura muito mais arcaica, ou por isso mesmo, não saberia diferenciar o clero da nobreza e esta do povo e, ainda que bem organizada e piramidal não era de cultura indo-europeia. Concedamos então que Vofionus / Bovião poderia ser Ka-hedj mas não era o touro branco de Min mas o boi Ápis que, apesar de negro tinha um triângulo branco na testa e que tinha um culto funerário osiríaco de grande popularidade nacional!

Tanto pela etimologia como pela semântica podemos fazer correlacionar Vofionus / Bovião tanto com o boi Ápis como com Anubis que era reconhecidamente Apolo Liceu o Deus que por ter um gado de nuvens, que Hermes roubou, era boieiro também, ainda que descuidado. Ao identificar Vofionus / Bovião com um Deus jovem e viril como Apolo ou Zeus Velchenos podemos estar no caminho certo confiando nos falares ibéricos a polícia é «bó-fia» quando incomoda a «má-fia» calão de que ninguém sabe a etimologia por não ser termo digno de erudição mas que por isso mesmo será primitivo, rústico e arcaico. Mesmo assim, sendo a «bófia» um conjunto de «bofes» e estes jovens másculos e adultos derivará a sua origem do arcaico culto esquecido a Vofionus / Bovião.

Seja como for, neste périplo especulativo pelas cercanias etimológicas de Vofîonus ainda não encontramos a sombra nem de Quirinus, nem de Janus, nem de nenhuma função de particular peculiaridade popular que se pudesse encaixar, nem que fora à podoada, no mito dumeziliano da trifuncionalidade que se de facto fosse essencial à estruturação do pensamento mitológico indo-europeu teria deixado marcas indeléveis nos panteões conhecidos e que os clássicos já teriam identificado há muito! Se mais nenhuma objecção houvesse contra a banalidade inútil das teorias de recorte fascista de Georges Dumézil bastaria referir que no único exemplo na mitologia clássica que poderia servir de prova se esvai depois duma análise crítica superficial.

Na falta de provas arqueológicas decisivas a análise da verdade sobre a realidade do Deus Quirino deve seguir as linhas das diversas propostas feitas até hoje de acordo com a lógica da razoabilidade.
Quirinus não é de facto um mero epíteto de Marte mas é duvidoso que seja menos belicoso do que este.
O facto de Quirinus ter desaparecido praticamente de cena e de não fazer parte do panteão clássico tem deixado desde a antiguidade a suspeita de que ele nunca terá sido um Deus autónomo mas um mero epíteto de um Deus guerreiro como Marte. No entanto, alguns historiadores gregos conseguiram identificar o latino Quirino com o grego Eniálio.

Quirino é de facto a sobrevivência do Deus *Kaurano postulado noutras reflexões sobre os antigos Deuses da caça e guerra dos povos neolíticos egeus e anatólios. Pode ter sido Crono, o arcaico Deus grego da segunda geração, que na Itália era Saturno e que terá feito parte da tríades capitolina em vez de Juno.

Marte Gradivus era o Deus das marchas guerreiras por ter sido o Deus solar *Kar de que derivou também Car-io-ceco ou Marte Carioceco que era o Deus lusitano da guerra. Tal como os Gra-bovios seriam os bois de *Kar como eram os bois do gado de Apolo.
Embora se suspeite com boas razões que Marte nunca tenha tido o epíteto de Silvano e por isso as inovações a estes Deuses revistam a forma de Marte Silvano por mera perda da > de separação a verdade é que o simples facto de a aceitação de um culto particular a Marte > Silvano ter tido livre curso significa que havia boas razões para acreditar no lado pacífico de Marte enquanto guardião da agricultura.
De resto, na Roma antiga, Belona era a Deusa da guerra herdada do tempo do matriarcado como Minerva e Marte era inicialmente um Deus agrícola ligado à fertilidade da terra. Pelo menos assim foi na sua origem etrusca.

Por outro lado, é duvidoso que Quirino, enquanto derivado do culto do Deus *Kaurano, não possa ter sido o Deus guerreiro dos sabinos.

Claro que temos pena de não ter tido acesso aos indícios de que Quirinos teria sido um antigo Deus do cereal dos latinos, como Dagon teria sido dos povos egeus, mas aceitemos que era assim no caso de todos os jovens Deuses activos do mundo arcaico: guerreiros por tradição paleolítica e agricultores incipientes por estarem a começar a revolução do neolítico. Quando Rebecca A. Allen afirma que “Quirino é simplesmente uma das muitas faces de Marte, cuja origem etrusca, como Romulus, foi ensombrada por influências estrangeiras e tão alterada que as suas intenções originais são quase imperceptíveis” lamentamos também que seja quase tudo evidente menos a possibilidade de Quirino ter sido uma entidade autónoma e neste caso de origem não etrusca mas possivelmente sabina ou de qualquer modo centro itálica de arcaica origem pelágica ou egeia.

Dionísio de Halicarnasso, escreve um dos vários mitos sobre Quirino. Durante um festival de Sabino ao Deus Quirino, uma rapariga de linhagem nobre dançou em honra do Deus. Ela foi inspirada pelo Deus e entrou no santuário de onde ela surgiu emprenhada por ele. Ela deu à luz um filho, Módio Fabidius que quando crescido se distinguiu por façanhas guerreiras. Ele decidiu fundar uma cidade e reuniu um grupo de companheiros. Depois de viajar uma certa distância, eles descansaram e neste lugar fundou uma cidade a que deu o nome Cures.

Dionísio de Halicarnasso, cotejando Varro, escreve que o nome de Quirino deriva de Cures, de cuja cidade ele é reivindicado ser o Deus. E prossegue dizendo que Cures deriva da palavra Sabina de farpa ou lança, curis o que implica, assim, uma associação com a Deus guerra Sabino. Tito Lívio, Plutarco e Ovídio também incluem esta associação etimológica com Cures.

Obviamente que os argumentos pelo absurdo não se fazem ao modo proposto porque de histórias absurdas está o inferno da política cheio! De resto, como não sabemos se Palmer fala de Quirino, se de quirites e como as cúrias foram criadas depois do rapto das sabinas no preciso número mítico destas fazia sentido no meio de tanta política diplomática realística e pacificadora que o membros das cúrias fossem nomeadas a contento das sabinas que falariam uma língua que não seria muito diversa da romana uma vez que eram tribos vizinhas pelo menos desde a queda de Tróia, ou seja há mais de 400 anos.

Mas na verdade, não faz muito sentido fazer derivar Quirino da cidade sabina de Cures, não tanto pelas razões apontadas por Palmer como indo contra o orgulho nacional emergente dos romanos, mas pela incoerência dos que o invocam a partir de um mito que torna tal pretensão impossível. Se a jovem sabina foi engravidada por Quirino de quem teve um filho que veio a fundar a cidade de Cures, Dionísio de Halicarnasso pensa mal quando postula que esta cidade veio a dar nome a Quirino, pai do fundador da cidade de Cures.

Estamos a falar de assuntos que começaram a ser registados por volta do 3º século antes de Cristo e que por isso não justificam tantas divergências fonéticas. A existência de Juno Curitis parece por água na fervura dos delírios etimológicos em volta do termo dos quirites.

Se a cidade de Faleri era o centro de um grande culto a Minerva que os romanos levaram para a sua cidade como Minerva (Capta) é possível que tivessem levado também aquela que era a patrona de todas as cúrias, Juno Curitis, o que deixa a suspeita de que a tríade que ali era adorada seria à maneira cretense exclusivamente feminina formada por Minerva, Juno > Curitis, sem qualquer espanto porque esta última é obviamente Perséfone / Corê que noutras circunstâncias pode mesmo passar por Atena Core. Juno Curi-tis tinha como parédro Jano Cúria-tius, literalmente o Deus das cúrias o que confirma que inicialmente este Deus estava casado com Juno...porque era a forma mais arcaica de Jove.
Do mesmo modo, Quirino seria a versão masculina de Curtis e por isso mesmo uma variante de Pluto, um “Deus menino” dos infernos do Kur sumério e Deus que está no fundo de toda esta etimologia desde *Kar, do lusitano Carioseco, de Curitis e de Quirino.
Um aspecto que importa relevar é que a etiologia italiana confirma a persistência de arcaicas tradições cretenses como sejam, neste caso, a de um “Deus menino” do amor do vinho e da guerra e que na qualidade de Zeus Velcheno seria simultaneamente Deus do céu, do mar e dos infernos subterrâneos antes de se diferenciar nos respectivos Deuses olímpicos. Obviamente que tanto Juno Curitis das cúrias romanas como Quirino Deus dos lanceiros sabinos, os quirites, permitem esclarecer a raiz da tradição cretense que evoluiu para os kouros gregos.

Na época lendária de Rómulo as cúrias eram dominadas pelos patrícios e por isso mantinham ainda a sua origem patriarcal anatólica. Do mesmo modo, na Grécia a Apa-turai revelava a festa da longa linha familiar do pai (apa) onde tur /kur expões a raiz cretense e taurina das cúrias bem como a relação do Deus Quirino com os infernos do *Kur, génese dos «curros» e «corrais» ibéricos.

Na verdade existe um grave equívoco na etimologia de Quirino baseada nas cúrias romanas. Se Quirino e quirites parecem derivar da mesma raiz quir- já «cúria» está longe de parecer ter a mesma raiz.
Não estamos seguros que a palavra «curia» se teria formado por mera sufixação como a romana cen-túria e a grega apa-túria porque de facto não teria tido na origem o significado de divisão administrativa como a centúria nem de festival como a apa-túria e estaríamos assim perante falsos cognatos.
O facto de os gregos conservarem um termo de formação igual deixa a suspeita de se tratar de um termo arcaico quiçá de origem micénica relacionado com o início da estrutura patriarcal da civilização mediterrânica depois da queda da talassocracia cretense.

No entanto, também não sabemos a etimologia exacta dos termos comparados. É certo que os romanos terão adquirido o termo «cúria» dos vizinhos tendo-o apropriado como se intuitivamente tivesse a semântica de uma reunião de dez famílias patrícias. No entanto se tivesse tido de facto esta origem etimológica por formação neologista seria uma *decaturia e nunca uma «cúria». Isso, no entanto não obsta que a analogia com a centúria não estivesse subjacente aos espíritos dos falantes como se de uma *decaturia. Na verdade, em todas as línguas muitas palavras novas são assim assimiladas e velhas palavras são de novo alteradas para ressoarem ao que melhor parecem ser sendo possivelmente esta uma das principais razões para certas etimologias arrevesadas ou de origem obscura.

Tudo aponta, sobretudo a realidade actual remanescente, que as cúrias se reportassem não aos seus membros, hoje cardeais, mas o local dos curros taurinos onde se realizavam as suas reuniões.
Corte no contexto das monarquias é o nome que se dá ao lugar onde o rei reside, seja permanentemente ou de passagem, assim como às pessoas da casa real e às que as acompanham. O nome parece derivar do latim cohors, que significa ajuntamento de gente em acto de guerra, debaixo do governo de uma pessoa.
É um facto que o conceito da corte portugueses resulta de uma semântica militar própria de uma colónia ocupada primeiro pelas legiões romanas e depois pelos visigóticos. Dito de outro modo, a fonética do termo é de origem militar mas a semântica evoluiu por ressonância com a cúria régia derivada da cúria católica e esta da romana.
Será então que os quirites pré-existiram às cúrias e ambos estes termos podem, por isso, ter uma origem etimológica diferente?

A constatação de que as cúrias eram patrícias e possivelmente de origem arcaica, ou pelo menos micénia, exclui a possibilidade, aliás lendária, de que estas tenham sido criadas por Rómulo.
Como se viu o termo «cúria» é o único que foge à relação etimológica que é inegável entre Quinino e quirites. Por isso não é possível seguir Robert E.A. Palmer na sua consideração de que o hipotético *co-viria está relacionado com os quirites. Isso não significa necessariamente que a instituição dos quirites romanos sejam um instituto arcaico e autóctone de Roma. Pelo contrário, nada desaprova o que dizem os autores antigos romanos de que os quirites derivavam da cidade de sabina de Cures onde afinal mais não seriam do que boieiros ou forcados de origem sabina e adoradores de Juno Quirites e de Jano Quirino caracterizados por serem portadores de forquilhas e varas de ferrão ou «aguilhadas» de picar os bois chamadas curis por eles.

A «aguilhada», pela sua estrutura tem aspecto de ter evoluído tanto para a lança como para o pilo, arma de mão branca que fez a fama e a fortuna das milícias romanas.
A relação desta arma, curis dos quirites, como os curetes ou couretas de En-kur / Enki e deste com Jano Quirino são incontornáveis.

No entanto, é pouco credível que os quirites fossem apenas curenses.

A única maneira de salvar alguma historicidade da lenda da instituição das cúrias por Rómulo seria a de que terá sido este ou por essa altura que os direitos de cidadania romana, até então exclusivos dos patrícios curiais, começaram a ser dados ao quirites. No entanto este alargamento dos direitos dos patrícios não terá ocorrido sem resistência e Rómulo terá acabado por pagar um elevado preço com a sua morte estranha, suspeita e macabra. A reacção ideológica dos beneficiários da filantropia de Rómulo, que eram sabinos, foi a incorporação da alma deste herói lendário do rapto das sabinas no Deus sabino dos boieiros e guerreiros que era Quirino.

Sendo assim, o mais plausível é que o lendário Rómulo alargou o número de cúrias aos sabinos integrados na urbs romana adoptando, por respeito à tradição das sabinas raptadas, o costume de consagrar todas as cúrias a Juno Quirites aparecendo assim o jus quiritis que, contrariamente aos pressupostos de Dumezil, sempre foi aristocrático e não popular. O mito de um Rómulo benfeitor começado por Enio já na era republicana terá sido refundado precisamente para justificar a bondade da república romana que as constantes guerras civis parecia não confirmar.

De facto, a inscrição úmbria covehriu- de Veletri, foi sempre considerada de difícil tradução.
Em princípio, o rigor das leis fonéticas tem pouca utilidade na análise linguística de falas desconhecidas, de línguas mortas ou muito antigas, mas obviamente que no caso de línguas recentes e bem conhecidas a fonética é quase tudo no estudo da sua evolução linguística.

Quando Bernard Sergent trata da génese e da expansão da cultura indo-europeia, abordando a organização socioeconómica, as instituições, e analisando em pormenor as suas raízes linguísticas e estabelece no livro “as Primeiras Civilizações (Volume III - Os Indo-Europeus e os Semitas de Pierre Lévêque) que Quirinus provem de *co-vir-inos está possivelmente a forçar a etimologia para provar a sua tese de ser este o Deus da terceira função, e por isso um Deus de paz ou, no mínimo, um Deus guerreiro de tempo de paz e armistício.

No entanto a equação *Co-vir-inos = co + vir-inos é redundante e desnecessária e tem o inconveniente de ser uma forma composta que teria que ser recente, obedecer à derivação linguística latina bem conhecida para ter a antiguidade adequada para fazer parte do mito fundador de Roma muito posterior à idade heróica dos Deuses homéricos.

Esta tese só tem a seu favor o facto de ser politicamente correcta o que incorre na falácia histórica das “causas actuais”. É duvidoso que este princípio se possa aplicar sem as devidas adaptações a pessoas e comunidades de épocas passadas cujos preconceitos e modos de ver e sentir o mundo e as coisas eram completamente diferentes dos modernos. Os princípios da fraternidade republicana actual devem ser encarados com prudência ao analisar a república romana que nos tempos lendários de Rómulo ainda não existiam porque as cúrias eram formadas apenas por patrícios e por isso mais patriarcais que fraternais.

Outros tentaram ir mais longe no conceito de irmandade de cama e mesa grato aos anarquistas pós modernos refundando a gaicidade muito para além de Gaia e indo bem mais longe do que a fundação da homofóbica Republica Roma. De facto, a relação atribuída a E. Littré de que “o termo co-viri significaria literalmente um homem vivendo com outro” é possivelmente um abuso interpretativo ao gosto homo-erótico moderno. Por estes pareceres tomados nos seus termos mais plausíveis, os quirites seriam boieiros e compadres que andavam e viviam juntos como em certas castas guerreiras orientais aristocráticas que praticavam a pederastia iniciática e a fidelidade a cultos arcaicos à Deusa mãe. Os grupos iniciáticos que sobreviveram até mais tarde proclamavam-se descendentes de cabiros, curetes e coribantes. Assim sendo, é muito possível que os romanos primitivos fossem um quartel etrusco sem mulheres que para sobreviverem tiveram que raptar sabinas chefiadas por curiões. Nesta mesma linha desta tradição xamânica apareceram mais recentemente os «curas» das aldeias católicas.
Estes cabiros que viriam a ter em latim o nome de curios ou curiões seriam primitivamente curetes e é então que as dívidas ou esclarecimentos por causas segundas aparecem. Os equivalentes aos pupilos dos curiões latinos seriam entre os sabinos os quirites que segundo alguns autores derivavam de co-viri ("homens juntos") personificando a força militar do populus romanus. A sua messe de oficiais teria sido a curia (depois "casa do senado") onde se teria reunido a comitia curiata litralmente a *curetada ou "assembléia tribal" dos curetas.

Sendo assim, é Quirites (cidadãos) que vem de Quirinus e não a inversa porque, neste caso, como nos demais, a regra é sempre a mesma: são os Deuses que dão o nome às coisas que com elas se relacionam e só excepcionalmente acontecerá o inverso, e, neste caso apenas quando as coisas se transformam em atributos divinos!

Quirites também só pode ser o equivalente fonético do helénico koureta, que todos os cidadãos romanos seriam enquanto recrutas ou reserva disponível em tempo de paz, mas mobilizados em tempo de guerra nos exércitos solares de Kar.

De facto, todos os autores apontam Quirino como sendo um Deus da guerra e de origem recente em relação à fundação de Roma para a qual apela o mito.
Para Thomas Bulfinch, Quirinus “was a war god, said to be no other than Romulus, the founder of Rome, exalted after his death to a place among the gods.” Outros apontam-no como uma importação relacionada também com as vicissitudes da fundação de Roma.
Se Quirino seria o Deus dos curiões significando inicialmente senhor ou Deus kouro quiri-tes significaria o mesmo mas talvez no plural ou seja literalmente kouroi.

Na mitologia romana, Quirino era um misterioso Deus provavelmente de origem sabina que enquanto Janus Quirinus era também um epíteto de Jano com funções de Deus supremo das tempestades e da guerra. Os sabinos tinham um templo que lhe era dedicado no "monte Quirinal", que foi mais tarde incluído nas sete colinas de Roma. Por vicissitudes políticas de história de Roma Quirino tornou-se um dos mais importantes Deuses do estado como forma deificada de Rômulo, o fundador e primeiro rei de Roma. E é então que a retórica mítica e a pseudo etimologia se misturam. Se Quirinus era o Deus da guerra das sabinas raptadas passou a ser o Deus da paz dos futuros quirites filhos dessas mães sabinas pois que para Deus da guerra Rómulo, e a cidade de Roma, tinham já o seu Marte e depois...um Deus de mulheres, para mais de origem estrangeira e rival não poderia fazer grandes guerras!

A casta sacerdotal dos Salii Collini estava associada com Quirino enquanto os Salii Palatini eram dedicados a Marte Grã-divus, supostamente o que marcha para a guerra mas que teria uma origem menos retórica.
Os quirites ó kauretas (=> mancebos «recrutas») têm o mesmo significado funcional derivado do Cures latinos ou do Kauros Grego.

Relacionando exacta etimologia com o nome de uma outra epopeia relativa à guerra de Troia, a Kafiria, podemos ficar com a quase certeza de que este termo significou armada, nome seguramente herdado da época da talassocracia cretense na qual todos os guerreiros eram marinheiros, como mais tarde no caso dos vikings. Interessante é verificar que o nome do cabrito, animal do capricórnico Enki, o Deus dos marinheiros sumérios, prece ter etimologia por esta origem.
A mitologia releva dum esforço intelectual colectivo para por ordem no mundo das representações sociais pelo que dificilmente saberemos o que seria uma religião primitiva sem artifícios culturais! Quer isto dizer que Quirinus pode ter outra explicação nesta história. O mais plausível é ter sido o nome do Deus supremo dos Sabinos que, uma vez associado ao panteão romano, já que vinha no dote das mães sabinas raptadas, teve que descer de posição, perder a função marcial e passar a ser um Deus pacífico, agrário e de fertilidade, o que não seria difícil de entender pelas razões anteriormente expostas. Mas isso acontecia com Marte bem como com todos os “Deuses manda chuva” que ou trovejavam na guerra ou armavam tempestades em tempo de paz para fertilizar a terra e os campos. De facto, o Deus da terceira função romana aparece em cena por mera aquisição de ocasião!
Esta assimilação de Deuses supremos de povos associados ou conquistados teria inevitavelmente que multiplicar o politeísmo o que contribui para a confusão aparente dos panteões, sobretudo entre as grandes potencias culturais como foi o caso da Babilónia e, mais tarde, de Roma.

Depois, Khiron, nome do bom centauro grego, iniciador sexual e militar de jovens e semideuses tem um nome que se parece por demais com Quirino (Khirin) e ambos com o barqueiro das almas Caronte e, por este, com Crono!
Este encontro de Deuses marciais nas profundidades infernais dos cemitérios vem já dos tempos sumérios dos Deuses de Kur.
E não é de espantar pois nenhum Deus mandava mais gente amada para a paz tumular das necrópoles do que os Deuses dos exércitos!

Que deidades de personalidades tão diversas se confundam num mesmo étimo deixa a suspeita de que o politeísmo tenha sido, também, uma consequência da evolução linguística por mutações fecundas, primeiro, porque enriquecedoras nas variantes do nome de Deuses ancestrais e depois, na criação de novos Deuses a partir das variantes desses mesmos nomes. Este fenómeno linguístico, reportado a outras palavras, deve ter sido fundamental no enriquecimento semiológico das línguas. Dada a tendência natural para a conservação dos étimos como forma de resistência à dissolução dos significados no ruído de fundo da oralidade, o erro fonético, que, por ser necessariamente comum e anterior à escrita pode ter a origem mais diversa (dislexia, aliteracia, más práticas e facilitismo juvenil, contaminação entre dialectos, pressão cultural de línguas dominantes, modismos e neologismos e jogos de palavras, gíria ou calão e códigos secretos, etc), só aparece como neologismo desde que a ele possa ser associada a formação de um novo conceito!

A este propósito pode aqui introduzir-se uma reflexão sobre a dialéctica da evolução linguística verificando que as línguas actuais são a resultante da pressão conservadora negentrópica do saber dominantes contra a acção da entropia do “princípio do menor esforço” sobre a memória social, ou seja, da austera autoridade imposta pela economia social sobre tendência libertina da indolência individual. Obviamente que as línguas são mutáveis porque a fonologia o permite mas também porque as línguas, não sendo inatas, têm que ser aprendidas correndo o risco de o serem de forma errada.
Como códigos de construção por interacção social as línguas sofrem as vicissitudes da cultura e só existem substancialmente pela acção hipercorrecta dos gramáticos que constantemente têm que lutar contra as forças dissolventes da ignorância por deficiência congénita ou por erro de aprendizagem o que justificou a existência de vários tipos qualitativos de linguagem que já na Suméria eram identificadas como próprias de crianças e de mulheres em contraponto com a língua escrita factos que os gramáticos modernos dicotomizaram em língua erudita e popular.

Assim, a linguagem como código de transmissão da cultura enquanto memória do adquirido histórico entra nos jogos sociais envolvendo-se e perdendo-se nas querelas de poder e nas guerras religiosas gerando escravidões em nome dos Deuses e provocando revoluções por equívocos de linguagem. De qualquer modo a linguagem como a vida é sempre uma luta termodinâmica de produtividade neguentrópica em resultado da luta constante contra a força dissolvente da entropia sobre a memória cultural.
Mas, ainda assim, as variantes dos nomes de Deus acabariam por ser fecundas no plano linguístico e geradoras de novos Deuses no plano da mitologia pagã!

Por mais estranho que pareça Collina, antes de se transformar no genérico de pequeno monte da latinidade já era o monte que veio a ser o Quirinal o que não teria ocorrido por mero acaso.
Claro que nesta etimologia forçada o Proto-Indo-European não explica a queda do duplo «ele» latino e faz derivar um diminutivo em ina de um substantivo terminado em -en. Obviamente que Collina e colis derivam de uma forma de linguagem pré-romana que já se reportava para o culto de Deuses das montanhas que seriam antepassados de Kur-Ano / Quirino. Assim, na tríade do Quirinal tínhamos Jove, Deus pai do céu, Marte, Deus filho a fazer a guerra na terra e Kur-Ano > Crono / Quirino, Deus avô, destronado e ocioso no submundo. Por alguma razão se dizia que o monte do Capitólio teria sido dedicado a Saturno, porque este monte era romano como o Quirinal era sabino. Assim, em ambos os lugares se adorava o mesmo “Senhor do Monte” mas com nomes ligeiramente diferentes porque correspondiam a evoluções separadas do mesmo conceito a partir de uma cultura arcaica comum que nem era indo-europeia porque seria egeia ou cretense e que no caso das tríades latinas só aparenta dar razão à tese dumezileana porque os Deuses saturninos da idade de ouro eram deuses populares na medida em que eram fartos como todos os Deuses infernais e liberais porque tinham sido destronados e viviam ociosos.

Autor: Artur Felisberto.
Fonte: Numancia.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Quão tradicional é uma tradição

Quando falamos em Paganismo Moderno, Caminhos Espirituais e Religiões Iniciática, um tema em comum surge, especialmente quando falamos em Bruxaria e Wicca – a tradição.
Tradição (do latim: traditio, tradere = entregar ou "passar adiante"), é a continuidade ou permanência de uma doutrina, visão de mundo, costumes e valores de um grupo social ou escola de pensamento.
Ao nível da etnografia, a tradição revela um conjunto de costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças, lendas, música, práticas, doutrinas e leis que são transmitidos para pessoas de uma comunidade, sendo que os elementos passam a fazer parte da cultura.
Designam-se como costumes as regras sociais resultantes de uma prática reiterada de forma generalizada e prolongada, o que resulta numa certa convicção de obrigatoriedade, de acordo com cada sociedade e cultura específica. [Wikipédia]
Essa é a teoria, a definição do dicionário. Mas o conceito de tradição está dentro de um contexto cultural e faz parte de uma linguagem. Tal como os outros domínios do conhecimento humano, eu não posso deixar de incluir que aquilo que se entende por tradição está sujeito a entendimentos, interpretações e experiências pessoais.
Destarte, eu acho importante repetir alguns textos de meu blog, bem como reproduzir alguns comentários feitos no Patheos que eu achei pertinente.
Tradição é algo que cresce e evolui. Não está gravado na pedra, mas é mais como um discurso; se você começa com uma séria de premissas, ideias e valores, você desenvolverá ideias e práticas que são consistentes com o conjunto inicial. Tradições religiosas evoluem de acordo com as circunstâncias sociais, culturais e políticas. [Yvonne Aburrow]
A tradição não evolui. As espécies evoluem. Por processos ditados pela natureza. Uma tradição não é um organismo. A tradição não mudou, foram os hábitos e costumes das pessoas que são membros ou sacerdotes das mesmas que mudaram. [Roberto Quintas]
O problema é que estas “tradições” não são um todo coerente, mas um amálgama, acidental e proposital, de ideias que aconteceram de estarem todas disponíveis para as mesmas pessoas naquele tempo.
O que eu defino como “tradição” é: eu combinei um sistema de prática espiritual e magia, compreensivo e envolvente. Ao fazê-lo, eu usei as ideias que estavam disponíveis para mim.
Todo criador de uma tradição fez o mesmo. Cada um ou [mais frequente] seus seguidores asseguraram que este amalgama particular é o Caminho Certo. Mesmo quando eles adotam uma atitude mais moderna que exista qualquer Caminho Certo, o conceito de um Caminho Certo é preservado sem questionamento por todos os tradicionalistas. [Brian Rush]
Sua definição está longe de ser de uma tradição. Alguém simplesmente não combina “um sistema de prática espiritual e magia, compreensivo e envolvente” usando “ideias que estavam disponíveis”. Uma tradição está baseada na herança que é passada através das gerações. Até onde eu posso falar, uma tradição não é sobre o Caminho Certo, ou o Caminho Verdadeiro, é sobre preservar a herança que recebemos de nossos ancestrais. Até onde eu posso falar, uma tradição não tem um fundador, mas existe uma fonte cultural que pode ser achada pelo folclore, que está baseado em uma antiga herança ensinada e preservada através de gerações. Estes caminhos são um todo coerente enquanto sistema, então eis por que parece que excluem algumas ideias, práticas ou metáforas. Quando e se não há um todo coerente, então existe um “empréstimo” de outra coisa, mas isto não torna caminho algum inválido ou indigno. [Roberto Quintas]
Volte através das gerações e os ancestrais, em algum ponto, no início da tradição, alguém fez exatamente o que eu descrevi. Então, nas gerações seguintes, as pessoas mistificaram o que tal pessoa fez, menosprezando quem tentava fazer o mesmo.
Fundadores de tradição são humanos, além do mais eram seres humanos que pensavam como eu. Eles inovaram, eles criaram, eles fizeram algo novo, misturando e combinando ideias que estavam disponíveis.
Estas culturas antigas das quais o Paganismo Moderno se inspira estão mortas. Seus descendentes desenvolveram algo novo. E uma nova espiritualidade é necessária para ser relevante no mundo novo. Nós ainda podemos usar a velha sabedoria enquanto for relevante [e geralmente é]. Mas nós não devemos ficar atados ou limitados pelo velho. [Brian Rush]
Esta é uma área cinza. Sim, novas ideias vieram enquanto os povos tiveram contato com diferentes culturas. Existem, então, dois resultados: sincretismo e assimilação. Então há o teste do tempo, se e apenas quando uma “nova” ideia serve ou funciona, se ela resiste através de gerações, então é uma ideia que vem de uma tradição.
A ideia e conceito de tradição devem estar separados da ideia e conceito de costume. Uma tradição é algo que resiste através do tempo e gerações. Uma tradição sustenta a si mesma mesmo quando atravessa diferentes povos, mas que compartilham os mesmos valores e crenças. Mesmo quando um poder maior sobrepuja a tradição, ela resiste e sobrevive, em um disfarce sincrético, dentro da religião oficial.
As culturas antigas que nós estamos tentando redescobrir não estão mortas, sequer desenvolveram algo novo, elas apenas assimilaram e sincretizaram os dogmas e rituais das religiões oficiais. Muitas das festas religiosas da Igreja [para citar um caso conhecido] têm profundas raízes nessas antigas religiões "mortas", a despeito das afirmações da Igreja que esta é uma “tradição da Igreja" [o que nos leva a algo que é dito ser uma tradição, mas é uma invenção].
Folclore, mito, pesquisa histórica vem a calhar para que possamos redescobrir nossas raízes e origens, sintonizado com nosso tempo [isto pode ser o que você define como “combinar”], tal como nossos ancestrais fizeram [ou em outros termos: Paganismo não é algo “velho” ou “campestre”, mas uma crença e religião de um tempo e sociedade daqueles que reconhecem a existência dos Deuses]. Mas você tem alguma razão, uma vez que estamos reconstruindo algo que estava ausente por quase dois mil anos.
Religião e tradição é parte da cultura, como a linguagem, e “evolui”, não como a Teoria de Darwin, mas como um processo humano de cruzamento, assimilação e sincretismo cultural. A religião e a tradição "emprestam" de várias fontes para se expressarem, mas os valores, os mistérios, o divino e o sagrado intrínsecos da religião e da tradição permanecem os mesmos. [Roberto Quintas]

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Festas, folias e cultos fálicos

«Folia» s. f. dança rápida ao som do pandeiro em que entra muita gente; • pândega; • folguedo. < (Fr. folie, loucura) «(eu)foria» < Gr. euphoría < eu, bem + phorós, = portador (de objectos sagrados nas festas carnavalescas de Dionísio) = «folião» = • s. m. farsante; • folgazão; • histrião; • dançarino;
É óbvio que é muito duvidosa a etimologia de «folia» perante a «euforia» dionisíaca dos «foliões» carnavalescos com a qual se assemelha muito mais do que com as loucuras francesas.

«Folgar • < Lat. follicare, v. tr. dar folga a; • dar descanso a; • alargar; • desapertar; • pôr à vontade; • v. int. ter descanso; • divertir-se; • «foliar»; • gozar;
«Folia» • (Fr. folie, loucura), s. f. dança rápida ao som do pandeiro em que entra muita gente; • pândega; • folguedo.

Fool (n.) c.1275, do francês antigo "fol", "maluco, pirado", também um adjetivo significando "louco, insano"; do latim follis "fole, sacola de couro," na vulgata usada no sentido de "falastrão, cabeça oca". Tmabme como sanscrito Vat-ula- "insano", literalmente. "avoado, cabeça de vento" < > «fút-il» / «Vaz-io».

Portanto, é na tradição grega das festas carnavalesca que deve ser encontrada a etimologia da euforia dos foliões do carnaval e de outras farras e festanças e não na folie francesa que seria uma conotação «foleira» se não fosse o prestígio pedante da língua dos afrancesados trazidos pelas invasões francesas.

Comos
Filóstrato, o Velho, imagens 2 (trad. Fairbanks) (retórico grego 3º sec. a. C): "[ uma descrição Ostensiva de uma pintura grega antiga em Neapolis (Nápoles):] O espírito Komos (Comus) (Folia), a quem os homens devem os seus festejos, está parado à entrada de uma câmara – de portas dourada, penso eu mas para as fazer é uma lenta questão, por o tempo actuar supostamente durante a noite. No entanto, a noite não é representado por uma pessoa, mas sim pelo que é sugerido estar acontecendo e a esplêndida entrada indica um rico par de recém-casados deitados num sofá. E Comos acabou de chegar como jovem para se juntar aos jovens, delicado mas já adulto, corada pelo vinho e, embora erecto, ele acaba adormecido sob a influência da bebida.
Enquanto dorme reclina o rosto sobre o peito pelo que a garganta não é visível, e eleva a mão esquerda até à orelha.

E o que há mais a revelar? Bem, que mais senão os foliões? Não ouvem as castanholas e a nota estridente da flauta e o canto desafinado? As tochas dando uma luz fraca suficiente para que os foliões possam ver o que está à sua frente, mas não o suficiente para que possamos vê-los. O estridor das gargalhadas aumentando e as mulheres correndo junto aos homens, vestindo sandálias masculinas e roupas em estranha moda de cinta apertada, pois a orgia permite que as mulheres se mascararem como homens e os homens possam trajar de mulher e macaqueiem a caminhada das mulheres. As suas grinaldas estão já murchas, mas esmagadas na cabeça por conta da corrida frenética dos dançarinos que já perderam a sua aparência alegre; porque o espírito livre das flores despreza o toque da mão levando-os a murchar antes do tempo."
O que é mais fascinante na descrição de Filostrato e o carácter actual das pândegas gregas que em muto pouco diferiam das modernas excepto no lado travestido que os modernos reservaram para o carnaval.

Komos (ou Comus) era o Deus da folia, pândegas e festas. Ele era o filho e ocopeiro do Deus Dionísio. Komos foi retratado tanto como um jovem alado, ou como um satyriskos (sátiro infantil) com patê de calvície e as orelhas de burro.
Kama - o Deus hindu do érotisme, do desejo sexual e do amor apaixonado (na «cama»).

Un como (en griego antiguo κῶμος, kỗmos) era una procesión ritual festiva en la Antigua Grecia. Se puede definir como un grupo de hombres en movimiento comunitario. Las prácticas precisas que este término bien atestiguado en la literatura griega comprende son confusas.
Se trataba de una expresión de sociabilidad no confinada únicamente en la esfera de las prácticas religiosas públicas, como por ejemplo las Dionisias, las Faloforias y otras celebraciones unidas al importante culto de Dioniso; si no que a veces se presentaba como una forma de ritual privado, que participaba en festividades como las celebraciones nupciales, y estaba estrechamente unido a importantes prácticas sociales como los banquetes. En este dominio, el como daba rienda suelta al deseo de frenesí y de jolgorio que seguían a las prácticas convivales; constituía un importante componente de la vida social de la Antigua Grecia.
Tal relación es sugerida y confirmada por Aristóteles, referida a la derivación etimológica de κωμῳδία, de κῶμος y ᾠδή/ ôdế, «canto».
Sin embargo, Aristóteles, en la tercera parte de la obra, evoca también la tradición de que el término komoedia derivado de kom-, provenía del término que en dialecto dórico indicaba el pueblo, en el sentido geográfico. En tal caso los orígenes de la comedia habría que buscarlos en los espectáculos y en las farsas mímica megarienses que se desarrollaban, justamente, en los pueblos. Sin embargo, permanece oscuro el saber a través de cuáles voces, las formas expresivas del «canto de la juerga», o de la pantomima, se desarrollaron en la Comedia griega antigua de las Dionisias del siglo VI A.C.

Neste caso, a origens da comédia seria olhar para os espectáculos e as farsas mímicas de Megara, que tinham lugar precisamente nas aldeias. A metamorfoseda piada, popular e improvisada num verdadeiro género teatral viria a acontecer na Sicília.

El helenista español, Francisco Rodríguez Adrados, de común acuerdo con Wilhem, interpreta el término κῶμος «como el conjunto de coros y celebraciones de los concursos de las Grandes Dionisias (el ditirambo, la tragedia, la comedia y el drama satírico)», a tenor de la investigación lingüística del primer fragmento de las didascalias de los concursos de estas fiestas, fragmento recogido en IG II 971. Afirma que el coro de las tres manifestaciones teatrales son «comos, que frecuentemente entran en la orquestra entonando himnos, plegarias y súplicas, cantando luego trenos o peanes impetrando o celebrando la victoria, bendicen o maldicen, todo ello con escarnio o alegría desenfrenada; salen cantando el éxodo, a menudo ejecutando acciones rituales». Lo anterior le sirve para argumentar que el como no es patrimonio de la comedia y que la identificación con ésta se produjo a pesar de que el comienzo de las representaciones oficiales de tragedias en Atenas comenzaron en 534 a C., y las de la comedia en 485 A.C. Infiere que el sentido de la palabra como en komoidía y su derivada kómikos pudo pues haberse producido por oposición a tragoidía y tragikós, por la razón que fuera, igual que ciertos comos se han denominado tragoidíai. Y debido a esto, el término komo en la komoidía designa a «los coros de carácter no trágico». – Wikipédia.

O hípercorrectivismo de Francisco Rodríguez Adrados não pode ser contestado senão por quem saiba mais do assunto do que ele!
Toda a gente sabe que o que começa em comédia pode acabar de maneira trágica, do mesmo modo que “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”! Por isso, não pode ser contestado por ninguém que a farsa não tenha entrado nos primeiros esboços do teatro grego de mistura com a tragédia nem que a comédia não seja tão antiga ou mais que a tragédia ainda que esta tenha começado oficialmente em Atenas quase um século antes da comédia! Porém, ninguém pode contestar que este formalismo aconteceu no seio das festividades culturais das Grandes Dionisíacas sendo por isso no seio do culto deste deus que deve ser encontrada a origem tanto dos nomes das duas grandes formas teatrais como do estranho termo grego κῶμος.

É evidente que tanto Aristóteles como todos os eruditos que o seguiram na busca da etimologia do κῶμος grego se esqueceram de indagar junto da comitiva de Como, o filho de Dionísio, como se deveria interpretar esta palavra, seguramente pré grega porque da mesma origem será seguramente o «comício» latino.
«Comício» < Lat. comitiu = cidadãos que se juntam para discutir assuntos de interesse público > assembleia popular entre os antigos Romanos.
Ora, o termo latino sobrevaloriza precisamente o lado popular do termo dando razão a Aristóteles que o considerava a komoedia derivada de kom-, do termo emdialecto dórico relativo a pessoas do povo.
Na verdade desde sempre o povo diverte-se espontaneamente muito mais com farsas brejeiras do que com representações demasiado trágicas. Não se podendo brincar com coisas sérias o povo reserva o lado dramático da vida para os entendidos e consagrados à religiosidade.
Dados os rigores económicos da época antiga e a típica frugalidade diária da alimentação de Grécia clássica os Komos eram antes de mas uma boa oportunidade para tainas, pândegas, patuscadas e «comes e bebes»! No fundo pouca diferença haveria do que depois continuou a acontecer nas festas e romarias da cristandade tão concorridas quanto divertidas como eram as romarias minhotas…e a Senhora dos Remédios e para as quais se ia cantando e dançando com o farnel à cabeça ou aos ombros.

Comida.
De facto, o contexto do deus Comus reporta-nos para as folias populares que em tempos arcaicos aconteceriam com carácter espontâneo sempre que o povo podia comer bem e beber melhor em festas comemorativas fora em festividades públicas com pompa e circunstância fosse em festanças privadas mais ou menos informais. De facto os casamentos presididos ou não porHimeneu serão, desde tempos imemoriais, motivos bastantes para folias de «comitivas» intrusivas que de forma solidária e oportuna se viriam juntar à festa dos «comensais».
A este propósito, seria interessante saber a etimologia da palavra «comer» de uso comum que, por isso mesmo, varia muito nas línguas latinas.
«Comer» < Lat. *comedere < Lat. edere (comer).

É, não obstante, o ponto de vista teoricamente certo. Antes de tudo, há a circunstância de que os falantes de uma língua nada sabem espontaneamente da história dela e a manejam apesar de tudo de maneira plenamente eficiente. Depois, há a observação de que muitas vezes o conhecimento histórico, aplicado à análise sincrônica, a torna absurda. Por exemplo, port. comer vem do lat. comedere, em que com” era um prefixo com a idéia de «reunião»; mas é claro que “com” no verbo português é a raiz e distingue esse verbo de beber (<< deglutir um alimento sólido» versus «ingerir um alimento líquido»); (...). Finalmente, na análise histórica partimos sempre de uma análise sincrônica, tomada como ponto de partida (lat. comedere, por exemplo, sem cogitar de formas anteriores indo-européias que historicamente a explicariam). É sincronicamente que consideramos comedere = com + ed + ere. -- Estrutura da Língua Portuguesa - Joaquim Mattoso Câmara Jr.
A verdade é que os falantes passam ao lado do que os eruditos pensam saber com majestosa e soberana sobranceria porque se ficam sempre por aquilo que lhe parece e assim pelo menos raramente se enganam.

Para os eruditos ibéricos comedere seria comer com o que em latim se expressava com a raiz era con- não se entendendo assim porque deglutir comissialmente não teria ser conedere. Os eruditos anglo-saxões preferem derivar o termo de comedo / comedones com o significado de comilões em que com- seria um intensificador! Como só os falantes ibéricos usam termos derivados de comedere poderia ficar-se a pensar que os ibéricos eram todos uns grandessíssimos glutões? De modo algum porque os eruditos é que pensam saber tudo mas ignoram por vezes o básico que o senso comum nunca perde.

Edible [adjetivo], do latim tardio edibilis, "comestível", do latim edere "comer", da raiz PIE [Proto Indo Europeu] *ed- "comer" (conforme sanscrito admi "eu como", do grego edo "eu como", do lituano edu "eu como", do hitita edmi "eu como" e adanna "comida"; do antigo irlandes ithim "eu como"; do gotico itan, antigo sueco e antigo inglês etan; do velho alto germano essan "comer"; do avesta ad- "comer"; do armenio utem "eu como"; da velha igreja eslava jasti "comer"; do russo jest "comer").

Obviamente que os latinos não usavam o termo comedere quando degustavam de forma «comedida» Na verdade, a ideia de que «comida» deriva do que é «comido», pelo verbo «comer», é absurda! Na mente do falante antes do acto de comer vem a «comida» que depois de consumida já não é nada senão fezes! Os objectos concretos não derivam de acções abstractas mas é antes coisa a inversa a que ocorre!
«Comer» vem de «comida» e não de comedere que, como adiante se verá, pode ter derivado dum nome divino comum. «Comer» < com(d)er < comider < «comida» + ere < «comida»? Obviamente que a «comida» em sentido retórico seria tanto os alimentos como o momento e acção e comer presidida por Comos, o filho de Dionóisio e deus da fraternidade e liberalidade comicial.

Começamos agora a entender porque é que os termos latinos derivados de comederetinham a conotação de glutonaria dos banquetes festivos. Também agora começamos a suspeitar que ou comedere ou Comos terão que rever a sua etimologia.
•comĕdus, glouton.
•cŏmes-tĭbĭlis, mangeable, comestible.
•cŏmes-tĭo, action de manger.
•cŏmes-tŏr, mangeur, consommateur.
•cŏmes-tūra, action de manger.
•cŏmēs-(t)ŭs, action de manger.
Três termos com a mesma raiz para a acção de comer parece imaginação demais de quem especula que seria de menos a dos falantes latinos! Obviamente que a acção de comer e o que é comido se confundem possivelmente na cŏmestūra, no momento do acto de comer, cŏmēsŭs,e lugar da comida, que seria o cŏmestĭo...e de que derivou o termo comício.

«Comício» < Lat. comitiu = cidadãos que se juntam para discutir (com “comes e bebes”)assuntos de interesse público => assembleia popular entre os antigos Romanos.
Reparando bem verificamos que todos os termos latinos relacionados com comedere revelam a raiz comest- muito próxima do nome do deus Comos. Sendo assim, é legítima a suspeita de que comedus e comedere se teriam afeiçoado para parecerem com tendo a etimologia com-ed-ere. Mas o facto de não ter sido *con-ed-ere reforça a suspeita de estarmos perante uma falsa etimologia.
«Comer» < *come(s)dere <= Comos + ter.

Não há que ter grandes dúvidas de que Comos era a mesma divindade que ente os hindus foi Kama. De resto, Comos não foi uma divindade grega muito diferenciada porque partilhava um terreno comum aos Erotes e a Potos.
Kama - o deus hindu do érotisme, do desejo sexual e do amor apaixonado(não penas na «cama»?)!
Comus Kama.
A relação da deusa mãe Kima com a comida está nos olhos de todas as mães, senhoras dos segredos da cozinha e donas de casa.

Para concluir, no fundo o povo comum reúne-se espontaneamente com alegria sempre que há comes e bebes e quando os tempos eram rudes e de carestia inventavam justificações míticas para o fazerem em feriados e dias fastos dedicados aos deuses da devoção corrente. As “festas dos rapazes”, mais próximas das actuais festas académicas, seriam momentos de diversão juvenil que na Grécia se formalizaram em festas dionisíacas e deram origem ao tão formalizado e comercial carnaval moderno.

Assim, ainda que a comédia e o drama sejam aspectos formais eruditos do lado espontâneo da vida comum e popular há que não esquecer que o nome do κῶμος grego e dos comícios latinos estão relacionados inegavelmente com o nome do deus grego das folias que era Como. Se entre os gregos este deus presidia sobretudo as folias dos casamentos entre os hindus o seu equivalente fonético Kama é mesmo o deus do amor.
Como foi que se ligou semanticamente o amor hindu com o amor casamenteiro grego para acabarem no lado popular dos comícios latinos?

Seguramente por meio da simpatia que a festividade gera entre comensais e comitivas que partilham a mesma mesa e a proximidade da cama muito antes da mesma fé que em tempos arcaicos era mais geral e comunitária que particular e familiar!

"Todos estão vestidos com suas melhores vestes e enfeitado com jóias; a alegria prevalece.Primeiro são os portadores da ânfora de vinho e o ramo videira. Em seguida é o condutor do bode sacrificial, que orgulhosamente avança feliz. Em seguida, uma jovem mulher, a Portadora da Cesta (Kanephoros), enfeitada e decorada em seus melhores ornamentos, leva adiante o cesto de figos sacrificial, a fruta mais sexual. Atrás dela vem os fortes Portadores do Falo (Phallophoroi) que transportam o Falo gigante em uma plataforma que o mantém ereto em um ângulo. É um poste vermelho longo, que é envolto em hera e tem dois olhos pintados nas laterais da cabeça."

O Sacerdote é seguido pelo portador do pote de legumes e ppor outros homens e donzelas. (Embora as mulheres casadas participar do sacrifício e festins, eles não estão na procissão, mas assistem do lado de fora. Neste festival os homens estão no comando, enquanto as mulheres dominam outras festas dionisíacas.

Nem por mero acaso a «cama» aparecia no megaron grego tanto para dormir como para comer.
Na Ática, que nos interessa mais de perto, havia os seguintes tipos de festivais dionisíacos:
Lênaias rurais; as grandes festas das Anthestêrias e as Oskho-phorias urbanas.
1 - As Lenhinas eram literalmente as “festa da lua”, os festivais rurais dos tonéis de vinho, aproximadamente em Janeiro, porque não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro. O termo grego Lenhia poderá ter a ver com a lenha com que se faziam as fogueiras de Inverno
2 -As Antestérias seriam literalmente as “festas em honra da deusa mãe, Antu”, que só não eram as “Maias” por serem realizadas aproximadamente em Fevereiro e Março, e, que por isso mesmo, seriam o equivalente das festas carnavalescas dos gregos e a antecessora da Páscoa. No entanto faziam parte dos cultos Eleusinos da Deusa Mãe Deméter. Era o mais antigo e grandioso dos festivais dionisíacos e por isso também chamadas de "Velhas Dionisíacas".
3 - As Oscofórias poderiam ser literalmente as “festas do «deus menino», (Dioniso, filho de deus do fogo que era Hefesto”). Este festival da colheita das uvas, realizava-se aproximadamente em Outubros, quando havia uma corrida de rapazes levando ramos de parreiras.

Os homens arrumaram o Phalus fora do santuário aonde os dançarinos cômicos irão dançar em volta dele.
Agora nós Te adoramos como Orthos, aquele que está ereto. E quando colocarmos duas pedras ou odres completos na base do Falo, então nós vamos reconhecer que Deus é Enorkhos.

Enorkhos = ἐνόρκιος = Voto, juramento?

Eles dizem que Dionysos e seu falo divino estão sempre juntos e assim Ele está conosco aqui no santuário.
Dentro do santuário ouvimos o sacerdote gritar: "Euphêmeite Euphêmeite!".

A Portadora da Cesta vem adiante e com uma concha espalha molho nos bolos que foram trazidos para o Deus. O sacerdote ora a Dioniso:
Ouçam bem. Senhor Dioniso, conçeda-me agora
Para apresentar o espetáculo e fazer o sacrifício:
Assim como Vós tens, eu e todo este povo;
Então mantenha com jubilo a Dionisia Rural;
Basta de esforço. E que este descanso
Restaure nossas almas e responda às nossas esperanças.
Antes de sacrificar o bode, o sacerdote diz:
Tu, o Bode, que é o Deus, veio e comeu as vinhas, mas agora as raízes trarão uvas em abundância e teremos vinho suficiente para derramar sobre Ti neste sacrifício. As mulheres proferiram o brado "Ololugê" e o bode é abatido."
EUFHMEITE = Não fale mal < *Kau-kima-tu!

Este grito "Ololugê" parece-se foneticamente com o «Aleluia»!

Na base da estátua de Zeus, Olímpia, Fídias colocou as doze divindades olímpicas em pares formados por um deus e uma deusa, como companhia da Hestiaretratou Hermes, deus do comércio. Há entre eles uma relação profunda: de amizade e afinidade de função. Hestia era a deusa do fogo e o paredro fonético e funcional de Hefesto.
Porém, no Verão celebravam-se na Grécia as festas chamadas Oscophoria,obviamente um culto agrícola relacionado com as uvas temporãs.

Nestas festas dionisíacas os herma eram cerimoniosamente vestidos e coroados ficando com o aspecto de “espantalhos de palhas”. Deste modo fica-nos a suspeita de que, mais do que para espantar os pardais por mecanismo que, de facto não seria muito plausível em etnologia animal, a verdade é que os espantalhos (< ish panta allyum, festa “das fogaças e dos fogachos” em honra de todos os deuses do fogo, e a que Hefesto cerimoniosamente presidia) seriam, tal como os palhaços (palliakius), rastos mnésicos degradados de cultos a deuses fálicos antigos!

PALLIUM ou A PROFANAÇÃO DOS FALOS.

O “santo dos santos” de qualquer procissão católica é o «pallium» que como vimos deriva a sua razão de ser do brilho triunfal do sol no étimo de halya de queveio o «alho» sempre tão ligado à boa sorte e à protecção contra vampiros.
Quer isto dizer que, debaixo do palio da vitória, era ostentado o sagrado corpo do deus dos exércitos. Os cristãos ostentam a hóstia consagrada na luneta da custódia que tem a forma áurea e resplandecente do sol de Mitra! Mal sabem os cristãos que sob o mesmo palio se ostentava outrora o mesmo orgulho resplandecente de deus Kar que era o Phallyum.

O Falo de Sacar seria, de facto, o santíssimo sacramento (< o fermento ou o poder mágico da fertilidade de Sacar ) e daí a referência clássica ao deus Phallo (> Pallas Atenas) como paredro de Dioniso.
As características especiais de Dionísio acabaram por atrair outros seres a princípio de origem heterogénea tais como os Sátiros, seres com características animalescas que representariam forças vigorosas da natureza, paixões e emoções da mente humana. Em geral são representados como covardes, sensuais, livres e bem-humorados e com um pénis em permanente erecção.

Havia também os Silenos, sátiros velhos, bêbados e lascivos. Já as Bacantes ouMénades eram entidades femininas, às vezes ninfas, às vezes mulheres, que tomavam parte no cortejo de Dionísio com os cabelos soltos e enfeites florais e cuja forma de contacto com a divindade era o êxtase, o entusiasmo. Vemos igualmente associados aDionísio os Centauros, representantes também da força e do vigor natural e amantes da embriagues e finalmente Pan, deus da vida rural.

Evidentemente que, não sendo os judeus os únicos a ter o interdito do nome próprio de Deus, P de Pan ou de «pénis» foi apenas um artifício para ocultar o nome do divino «caralho» de Kar < *Karallyum, “a festa e o gozo de Kar”, cobra solar, que alada por conseguir voar no céu durante o dia, já que de noite navegava numa barca no mar primordial?). Inicialmente teria sido também T ou D de teos ou deos pois deve ter havido uma forma em thalyum de que vem o «talo» das plantas, como da forma em D vieram as «dálias»…os «galhos», e os «alhos» que não se devem misturar com os «bogalhos».

Em boa verdade devemos estar em presença dum mito intelectualista que encobre a tradição mais arcaica das colunas fálicas da deusa mãe presentes na porta dos leões micénica e que em Gibraltar eram de Hércules e, de bronze no Templo de Salomão. Retorcidas como as cobras da sensualidade vieram a tornar-se as colunas salomónicas em estilo barroco de Bernini.
Mas…, se tal aconteceu terá sido bem mais tarde depois de ter sido esquecido o nome do deus oculto no Pálio < Pallium.

Sem o hallyum apenas restava o P de «pénis». Este seria genitivo, de tal modo que Phalyum se torna a sorte (lat. alia) e orgulho do «Pê», do Deus Pan.
Tudo leva a crer ter começado pelo som Phi dos Ofídios do culto da Grande Deusa a Terra Mãe, culto este que Moisés respeitou por estranha ordem divina:
«--- Faze uma serpente ardente e coloca-a sobre um poste. Todo aquele que for mordido, olhando para ela, viverá».
Ora, um poste com uma píton é um pálio e era no pau levantado ao alto que se efectuava o «empalamento» dos condenados.

Depos dos Egipcios abandonarem a mina no Vale de Tima durante o declinio no século XII DC, os Midianitas converteram o templo em um santuário deles por algum tempo. No santuário improvisado, no Santo dos Santos, os escavadores encontraram apenas um objeto, o mais intrigante de Tima - uma serpente  pequena de cobre com uma cabeça dourada, o antigo simbolo de fertilidade do Oriente Médio. Imediatamente recordou à "serpente de bronze" de Moisés, que se tornou um objeto de adoração.
"Removeu os altares idólatras, quebrou as colunas sagradas e derrubou os postes sagrados. Despedaçou a serpente de bronze que Moisés havia feito, pois até aquela época os israelitas lhe queimavam incenso. Era chamada Neustã"

Nehushtan < Nephushtan < *Nephiat An => Neptuno. De resto, esta tradição dos cultos fálicos entre os judeus manifestou-se ainda nas estranhas colunas de bronze que ladeavam a entrada do santo dos Santos do templo de Salomão. De facto, é sabido que um dos símbolos antiquíssimos da deusa mãe era formado por duas colunas fálicas. E são duas as colunas das armas de Espanha tal como eram dois os pilares de Hércules levantados em honra da deusa mãe da terra da Ibéria à entrada do estreito de Gibraltar (< Kiwra-Altar, lit. «os pilares do altar da Kiphura»). Sendo a cobra um animal solar e Atum o próprio deus sol, metade homem metade serpente como Abzu, então: Ophideo < O Phi Deo < Phi + Atum =Deo => Phitom. Cobras, falos e pilares eram símbolos antiquíssimos relacionados com os cultos da Grande Deusa Mãe e de seu filho amantíssimo, ora o deus menino do sol da alvorada ora o amante morto nas guerras quotidianas do sol posto.

Atum = Um Deus primordial que foi representado na forma de um ser humano e uma serpente. A versão do Deus egípcio Amon que cria Shu e sua irmã Tefnut via masturbação (ou expectoração). (Suméria) Um Deus criador na Mesopotâmia, mais tarde chamado Ea. => Aten (Aton) = O faraó Akhenaton decretou que ele era o único Deus em sua tentativa de estabelecer uma religião monoteísta.

No entanto, tudo leva a crer que esta tradição arcaica derivou para o culto do «Filho de Deus» nos cultos de fertilidade agrícula onde Eia/Enki = *Enkur/Kur/*kaukur foi:
Sacar < Saturno e Ósiris, no Egipto, Damuz < Thami-Chu < Ki-Ama-ish, lit. o “filho da deusa mãe *Kima” = Tiamat) na Caldeia, Adonis < At-An-Ish, lit. «filho de Anat/Atena», na Síria e Atis [< At-(An)-Ish] na Anatólia! E depois, Jesus Cristo < Jehu *Karestos < (Kiwe Kurish, o filho do deus do fogo do inferno) no cristianismo.

No Egipto o Pitom sagrado era um dos símbolos do terrível poder dos faraós, chamando-se «Uraeus» (< Uraneu) pela sua relação com os deuses uranianos. A cobra teve uma relação tão intima com Deus desde os começos da humanidade que existe a forte suspeita de ela ter sido o próprio Urano. De facto Gr. Ourá = cauda porque uráfoi cobra, pois… «Cobra» < Cupra, < Kap ura na = cabeça da cobra, campeã!

Hermes, Pane Dionísio eram os únicos deuses gregos que reunia ainda na sua simbologia alegórica e mítica este arcaico papel de «divinos filhos da Mãe» e da tradição solar de Aton!
Cupra, por ser da cor do cobre ou foi o cobre que recebeu este nome por ser da cor da cobra e ser extraído de Chipre, ilha das Cobras da deusa mãe cretense? Estranho, no entanto que de caupra > Capra tenha vindo a cabra, fêmea do bode ligado aos cultos caprinos (dionisíacos, báquicos e saturninos, carnavalescos, etc) de que o diabo herdou o aspecto e a má fama!
O santo padroeiro das festas do fogo de S. João tem todo o aspecto de ser o sucessor de Apolo não apenas pelo lado de Jovanes baptista, o mandaenos e gnósticos, mas pelo lado de Jovani, o evangelista do amor que foi o amado/eromeno de Jesus.

Os Ofitas fizeram um culto muito especial para esses répteis: eles os mantinham e os alimentavam em cestas, eles realizaram suas reuniões próximo aos buracos em que estes viviam. Eles colocavam pães em cima de uma mesa e, em seguida, por meio de encantamentos, seduzia a cobra até que esta vinha fazendo seu caminho entre as ofertas; só então eles partilhavam o pão, cada um beijando o focinho do réptil que tinha encantado. Isso, segundo eles, era o sacrifício perfeito, a verdadeira Eucaristia. "Onde está - nas orgias de Dionísio, no culto de Asclépio, ou nos mistérios de Sabazios que, segundo Arnobius, também fez uso da imagem da serpente - que é preciso olhar para as origens de tais práticas? Ou será que eles não lembram ainda mais os cultos de certas seitas pagãs que fizeram um culto especial da serpente da constelação Ophiuchus? Como nossos Ofitas, estes adeptos mantinham os répteis em seu peito e os acariciavam, como símbolos vivos da imagem celestial que eles adoravam."

A este propósito deve ser referido que o povo católico ibérico manifestou sempre um certo desdém pelo rigor da hagiologia já que era a melhor forma de iludir e convencer o clero a festejar os mitos tradicionais mantendo deste modo um paganismo mascarado de cristão. Assim se compreendem as confusões frequentes de S. João que é Baptista porque os bispos o determinaram mas, porque o seu ascetismo cairia mal numa festa desbraga, o povo trocou-o pelo que é evangelista.
Mantendo-lhe a roupagem ascética deram-lhe ares de pastor com o cordeiro pascal ao colo pois o evangelista apelava na sua epístola para os cristãos exclamando:
-- “ovelhinhas do meu rebanho”!
Ora, a verdade é que estamos perante uma manifestação da arcaica tradição do “Bom Pastor” iniciada por Hermes Crióforo.

Autor: Artur Felisberto.
Fonte: Numancia.