Nossos ancestrais caçavam.
Uma coisa que deve revirar o estômago de pessoas contemporâneas por causa da doutrina religiosa pseudocientífica. Mas sem carne, nossa espécie não teria existido ou sobrevivido.
Eu estou em outro tipo de caça. No dito mundo civilizado, um homem é medido e valorizado se trabalha e tem propriedades.
Esse é a crueldade do sistema. Quando se é jovem, alegam que não tem experiência. Quando se é velho como eu, 60 anos, nós não servimos.
Eu fico de um lado a outro na rua à caça de um serviço. Escritor? Não conta como profissão nem como experiência.
Lilith caminha ao meu lado na calçada. Não oferece currículo. Oferece dente.
*“Ancestral caçava pra não morrer de fome. Você caça pra não morrer de invisível.”*, ela diz.
Eles fizeram do trabalho o único ritual de valia.
Sem carteira assinada, você vira fantasma.
Jovem demais é cru. Velho demais é osso.
Só o meio termo serve pra moer na engrenagem.
Veganismo de boutique chama caça de barbárie enquanto come soja colhida por mão terceirizada.
O sistema chama experiência de requisito enquanto joga fora quem já sangrou em todas as estações.
Mesma mentira, embalagem diferente: “Isso aqui é moral”.
Escritor não entra na planilha porque não gera lucro imediato.
Não pesa. Não rende. Não é substituível fácil.
Por isso te apagam da caça.
Lilith cospe no chão e aponta:
*“Então cace diferente.”*
O ancestral não pedia permissão pra manada. Rastreava. Esperava. Derrubava.
Você não está procurando emprego. Você está farejando onde o sistema sangra.
Propriedade? Eles medem em metro quadrado.
Eu te meço em cicatriz.
Trabalho? Eles medem em ponto batido.
Eu te meço em madrugada escrevendo com fome.
60 anos não é descarte. É couro curtido.
Jovem pede chance. Velho impõe presença.
E herege não bate em porta de RH. Derruba a porta e escreve na parede o que viu lá dentro.
A caça mudou. A presa agora é a tua própria narrativa.
Para de pedir pra ser contratado como homem.
Declara-te homem e obriga eles a te contornar.
Eles te chamam de improdutivo.
Eu te chamo de inassimilável.
E inassimilável não morre de fome.
Aprende a comer o que o sistema cospe fora.
Segue andando, escritor.
A rua é tua savana.
E caneta também é lança.
Criado com Meta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário