sábado, 27 de junho de 2026

O sol em Argélia II


O Palácio dos Espelhos parecia ainda mais imponente sob a luz do fim de tarde quando Lorde Fluffybutt III cruzou suas portas. Ele não perdeu tempo; o prazo de uma semana dado pelos rebeldes na Argélia corria contra ele. Com o pergaminho do tratado debaixo do braço e sua elegância habitual intacta — mantendo a pose digna de um Primeiro-Ministro felino —, ele solicitou uma audiência privada de emergência com o Rei Leão VI.

O monarca o recebeu em seus aposentos particulares, onde ainda mastigava uma enorme coxa de javali, cercado por mapas rasgados e conselheiros assustados.

Assim que Fluffybutt entrou, o Rei Leão VI bateu a pata na mesa, fazendo os cálices de ouro tremerem.

— Theo! Você voltou! — rugiu o soberano, com os olhos injetados de expectativa. — Diga-me que trouxe as cabeças dos líderes rebeldes! Diga-me que esmagou a insolência daqueles colonos!

Fluffybutt deu um passo à frente, mantendo a cauda perfeitamente alinhada e a expressão imperturbável de quem sabe exatamente como domar um predador. Ele fez uma reverência impecável.

— Vossa Graça, eu trouxe algo muito melhor do que cabeças, que apenas apodrecem e causam mau cheiro — disse Fluffybutt, a voz suave como veludo. — Eu trouxe a capitulação total da Argélia. Sem que uma única gota de sangue francês fosse derramada, e sem que um único centavo saísse do seu tesouro real.

Ele estendeu o pergaminho sobre a mesa, empurrando para o lado os restos do banquete do rei.

O leão estreitou os olhos, aproximando o focinho do documento.
— Autonomia? — rosnou o monarca, ao ler as primeiras linhas com óbvia desconfiança. — Você quer que eu assine a perda do meu território, Theo? Eu sou o Rei! Meu rugido deve ser ouvido em cada centímetro daquelas terras!

Fluffybutt deu um leve sorriso de canto, sabendo exatamente qual corda tocar na mente paranoica e vaidosa do rei.

— Majestade, o seu rugido será ouvido com ainda mais clareza agora. O que eu fiz foi remover os burocratas franceses que roubavam o seu ouro sob o pretexto de administrar a colônia. Eu dei aos líderes locais o fardo de governar. Agora, se o povo passar fome, a culpa é deles, não do trono. Em troca, eles juraram lealdade absoluta à sua coroa e nos garantiram o monopólio do livre comércio.

O Primeiro-Ministro inclinou-se, baixando o tom de voz para um sussurro conspiratório:

— Pense bem, Vossa Graça. Os ingleses gastam fortunas mantendo tropas para controlar seus cães. Os espanhóis vivem em guerra com seus coelhos. Mas a França? A França é tão civilizada, e seu Rei é tão magnânimo, que governa por meio da admiração mútua. Além disso... o ouro das taxas comerciais virá direto para os seus cofres, sem passar pelas mãos de intermediários. Enquanto o senhor descansa em Versalhes, a Argélia trabalha para o seu tesouro.

O Rei Leão VI piscou, processando a lógica avassaladora do felino. A ideia de receber ouro sem precisar gastar com exércitos — e ainda parecer o monarca mais evoluído da Europa diante de Sir Barnaby — era tentadora demais para o seu orgulho.

— Sem custos com guarnições? — perguntou o rei, a juba relaxando visivelmente.
— Nenhum franco, Majestade. Eles mesmos pagarão pela própria segurança para nos proteger — mentiu Fluffybutt levemente, omitindo os custos mínimos da frota de patrulha.

O leão soltou uma gargalhada estrondosa que ecoou pelas paredes do palácio.

— Theo, você é genuinamente brilhante! Deixe que os idiotas em Londres e Viena se esvaziem em guerras!

Com um movimento rápido de sua imensa pata, o Rei Leão VI pegou o sinete real, mergulhou-o na cera quente e carimbou o tratado de autonomia da Argélia.

Fluffybutt recolheu o pergaminho com as garras ocultas em suas luvas brancas. O prazo de uma semana seria cumprido. A Argélia estava pacificada, o bolso do rei estava seguro e, mais uma vez, o Primeiro-Ministro provara quem realmente movia as peças naquele reino.

Lorde Fluffybutt III guardou o pergaminho selado com uma precisão cirúrgica em um bolso escondido de seu casaco de linho, sentindo o peso do documento como se fosse ouro puro. Ele sabia que aquele pedaço de papel era a garantia de que não precisaria mais se preocupar com as areias da Argélia por um bom tempo.

Com um olhar de cumplicidade que beirava o cinismo, o Primeiro-Ministro deu o golpe final para tranquilizar a consciência do monarca:

— Além do que, Vossa Graça — disse Fluffybutt, ajustando suas luvas brancas com uma calma absoluta —, os líderes locais, agora cheios de dinheiro e com o controle do comércio, cuidarão para criar rapidamente uma polícia própria. A cobiça, Vossa Graça, é o melhor remédio contra rebeldes. Quando eles têm algo a perder, tornam-se os guardiões mais ferozes da ordem.

O Rei Leão VI soltou um rugido de aprovação, satisfeito com a lógica pragmática de seu "inestimável lorde". O felino, fiel aos seus princípios de liberdade e intelecto, acabara de converter uma guerra civil em um modelo de negócio lucrativo para a coroa.

O Rei Leão VI soltou uma gargalhada tão estrondosa que o som ricocheteou nos espelhos de Versalhes, assemelhando-se a um rugido de pura satisfação. Ele limpou uma lágrima de orgulho do canto do olho felino.

— Theo, meu inestimável lorde! Não é sem razão que Sir Barnaby sempre fica pisando em ovos quando tem que lidar com a França!

Fluffybutt ajeitou o punho de sua camisa, exibindo aquele meio-sorriso cínico e aristocrático que apenas os que detêm o verdadeiro poder conseguem sustentar:

— Ah, Vossa Graça... Eu não trocaria minha amada França por uma ilha úmida, cheia de cachorros, cerveja sem gelo e um parlamento cheio de raposas.

O leão rugiu de rir novamente, deliciado com o desdém de seu Primeiro-Ministro pela Coroa Britânica.

Com uma reverência impecável, Lorde Fluffybutt III despediu-se e deu meia-volta, retirando-se do salão com o "queijo na mão" — o tratado assinado, carimbado e perfeitamente costurado para garantir a glória do trono e o alívio dos cofres. O xadrez internacional estava ganho.

Ao cruzar os portões de Versalhes em direção à sua carruagem, a mente de Fluffybutt, o escritor e estrategista pagão moderno, já operava na próxima página de sua intriga. A Argélia receberia seu pergaminho no prazo exato de uma semana, preparando os lances para resolver os problemas domésticos.

O ex-administrador colonial francês permanecia trancafiado e sob a vigilância estrita dos buldogues de guarda de Fluffybutt. O homem saberia exatamente o seu lugar. O Primeiro-Ministro deixou ordens claras com seus capangas: qualquer miado mais suspeito, qualquer tentativa de enviar uma carta para os aliados de Von Fuchs na Áustria, e o burocrata simplesmente desapareceria nas águas profundas do Mediterrâneo, sem deixar rastros.

Como um verdadeiro mestre do jogo, Fluffybutt ia transformar rebeldes enfurecidos em súditos agradecidos, tudo isso antes do chá da tarde.

A carruagem do Primeiro-Ministro partiu a galope em direção ao porto, com o burocrata sob rédea curta e os camponeses prestes a entrarem, sem saber, na rede do felino mais perigoso da Europa.

O mar Mediterrâneo estava calmo, cortado pela proa da fragata com uma suavidade que combinava perfeitamente com o espírito de Lorde Fluffybutt III. Desta vez, o convés estava livre das queixas bufantes e do suor excessivo de Sir Barnaby. O lorde viajava com uma comitiva extremamente discreta, composta apenas por seus guardas mais leais e algumas de suas empregadas pessoais mais confiáveis, encarregadas de seu bem-estar e cuidado privado nas noites em alto-mar. O controle de riscos e a previsibilidade absoluta de sua rotina pessoal eram os verdadeiros luxos do Primeiro-Ministro.

Em sua cabine particular, à luz de uma lamparina que dançava conforme o balanço das ondas, Fluffybutt não olhava para o mapa da Argélia. Seus olhos verdes estavam fixos em um segundo pergaminho, estendido sobre a escrivaninha de mogno.

Aquele não era o tratado de autonomia que entregaria aos rebeldes coloniais. Era a sua obra-prima política: o plano estratégico que usaria, no devido momento, contra os camponeses franceses assim que retornasse à Europa.

Fluffybutt passou a pata enluvada sobre a tinta fresca do documento. Enquanto os camponeses nas províncias da França achavam que marchariam contra Versalhes com foices na mão, o felino já havia desenhado o tabuleiro de sua ruína pacífica:

A Ilusão da Concessão: O pergaminho detalhava uma série de pequenas isenções fiscais na taxa do trigo, direcionadas especificamente aos líderes das comunas camponesas mais ricas.

O Suborno Legalizado: Ao garantir que os líderes dos revoltosos ficassem subitamente satisfeitos e com os bolsos cheios, Fluffybutt cortaria a cabeça do movimento sem usar uma única guilhotina. Os líderes defenderiam a paz para proteger seus novos privilégios, deixando a massa de manobra camponesa sem direção.

O Financiamento Colonial: O mais brilhante era que cada centavo dessas pequenas isenções na França seria coberto pelo lucro do livre comércio que a Argélia, agora autônoma e grata, enviaria diretamente para o tesouro real.

Fluffybutt deu um gole em seu vinho, soltando um ronrono baixo de satisfação. Os camponeses franceses nem veriam o golpe chegando. Eles achariam que haviam dobrado o Primeiro-Ministro com suas revoltas, sem perceber que estavam apenas assinando o termo de sua própria pacificação, financiados pelo açúcar e pelas especiarias do Norte da África.

Na manhã do sétimo dia, exatamente dentro do prazo estipulado, os penhascos brancos e as construções de Argel surgiram no horizonte.

Quando a fragata atracou, a multidão de colonos e rebeldes já se espremia no cais. A tensão era palpável. O grande felino selvagem, líder da insurreição, estava na vanguarda, com os braços cruzados e os olhos fixos na passarela do navio. O sol atingia o topo do céu. Faltavam poucas horas para o pôr do sol definitivo do prazo.

Lorde Fluffybutt III surgiu no topo da rampa. O casaco de linho impecável, o lenço de seda perfeitamente alinhado e o olhar sereno de quem dita as regras do mundo.

Fluffybutt desceu os degraus de madeira sem pressa. Ele enfiou a pata no bolso interno do casaco e puxou o pergaminho com o grande e pesado selo de cera vermelha do Rei Leão VI.

— Como prometido, meus senhores — disse Fluffybutt, sua voz aveludada projetando-se sem esforço sobre o silêncio do porto. — O sol ainda não se pôs. E o destino da Argélia agora pertence a vocês.

O líder robusto das colônias estendeu a pata e tomou o pergaminho. Seus olhos se arregalaram ao sentir o peso do selo de cera real e ler as palavras que garantiam a autoridade local. Ele sorriu, um sorriso largo de quem acredita ter vencido um império, sem jamais perceber a corda de dependência econômica que Fluffybutt acabara de laçar em volta do seu pescoço.

A notícia espalhou-se como fogo pelo porto de Argel. A tensão que ameaçava explodir em pólvora transformou-se instantaneamente em uma celebração dionisíaca. O Primeiro-Ministro foi conduzido como um convidado de honra ao palácio que, até o dia anterior, era a sede do odiado governo burocrático.

O banquete que se seguiu faria os excessos de Versalhes parecerem uma dieta de quaresma.

A Gastronomia: Chegaram travessas de carnes exóticas, marinadas em especiarias que Fluffybutt nunca vira na França.

O Alcoool: As bebidas locais tinham um odor tão potente e incandescente que seriam capazes de deixar o mais forte absinto parisiense com inveja.

A Hospitalidade: Como sinal de gratidão suprema, os líderes trouxeram suas melhores odaliscas para entreter o "Libertador".

Lorde Fluffybutt III, um pragmático por natureza e adepto do ditado "em Roma, faça como os romanos", não recusou a hospitalidade. Ele sabia que recusar seria uma ofensa diplomática — e ele raramente desperdiçava uma oportunidade de prazer bem calculada.

A Segurança do Primeiro-Ministro: Fluffybutt nunca deixava o acaso governar sua saúde. Antes de se entregar às festividades, ele já havia administrado em si mesmo um elixir reforçado contra doenças venéreas (uma fórmula secreta de seus boticários particulares) e trazia consigo um estoque de camisinhas importadas da Suécia, feitas do mais fino couro tratado. Com a "frente de trabalho" devidamente protegida, ele relaxou.

Enquanto a festa rugia madrugada adentro, o lorde permanecia com um olho no prazer e outro no horizonte. Em meio aos vapores do narguilé e às danças das odaliscas, ele tateou o segundo pergaminho em seu bolso — o plano para os camponeses franceses.

Ele deu um gole na bebida local, sentindo o calor descer pela garganta.

— Aproveitem sua liberdade, meus caros — pensou ele, observando os líderes rebeldes se embriagarem de poder e vinho. — Amanhã, o trabalho de vocês vai patrocinar a corrupção aos líderes dos camponeses franceses. O equilíbrio do mundo é mantido pela minha pata.

Na manhã seguinte, antes mesmo que a ressaca atingisse os novos governantes da Argélia, a fragata de Fluffybutt já estaria levantando âncora. O destino era a França, onde uma massa de camponeses enfurecidos esperava para ser "atingida" pela fofura diplomática e pelo suborno legalizado do Primeiro-Ministro.

Criado com Gemini, do Google.
Imagem criada com Dreamina.

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