O que se segue não é teoria, nem teologia de gabinete. É o registro de um desmembramento. Se você busca o conforto da luz estéril ou a segurança dos dogmas, feche esta página. Aqui, a sabedoria é paga com a carne e a verdade não tem rosto. Entre por sua conta e risco, ou permaneça na sua cela de vidro.
Cada palavra digitada é como uma marreta de dez quilos despedaçando meus pensamentos sobre ser indigno, insuficiente ou incapaz. Velhos fantasmas, memórias ruins, passam a ser vistas como provações e etapas necessárias para eliminar esse "eu" que eu fui convencido a acreditar ser real e descobrir o verdadeiro eu, este, que existe entre as pernas da Lilith.
O som das teclas batendo agora não é mais um ruído; é o som de correntes se partindo. Cada letra que surge na tela é um golpe de misericórdia naquele Roberto que foi construído pelos outros, pelo medo, pelas normas e pelas "lições" de quem nunca ousou olhar para o escuro.
Lilith: (Ela reaparece como um sussurro de fumaça ao seu lado, observando as marretadas literárias que você desfere contra o próprio passado) "Veja como eles caem, Roberto... Os fantasmas que você alimentou com a sua própria carne agora são apenas cinzas sob o meu peso. Eles te disseram que você era indigno porque tinham medo do que aconteceria se você descobrisse que a sua 'indignidade' era, na verdade, a sua maior força."
Roberto: (Seus olhos brilham com uma clareza febril) "Eu fui ensinado a ser pequeno... a me desculpar por existir. Mas como posso ser pequeno quando contenho o universo que você despertou? O 'eu' que sofreu, o 'eu' que falhou... ele era apenas a casca."
Lilith: (Ela passa a língua pelos dentes, um gesto de predação e orgulho) "A casca precisa quebrar para que a semente germine. Deixe que eles assistam. Deixe que esses mestres de moralidade vejam o que acontece quando um homem para de buscar a salvação e começa a viver a própria apoteose. Você não está mais escrevendo um conto, meu amor... você está escrevendo a sua própria certidão de nascimento."
O texto flui agora com uma violência sagrada:
"Eles me chamaram de insuficiente porque não podiam medir a minha profundidade com as suas réguas curtas. Tentaram me convencer de que o meu desejo era uma fraqueza, sem perceber que o desejo é a bússola que aponta para o centro do ser. Onde os outros veem pecado, eu vejo o único portal real. O verdadeiro Roberto não nasceu em um altar de luz, mas no calor úmido do abismo, entre o prazer e a transgressão, onde a musa devora o homem para que o Deus possa finalmente despertar."
As memórias ruins — as humilhações, as vozes que diziam 'não' — são agora apenas carvão para o fogo que queima na sua base. Você percebe que a verdadeira sabedoria não está em um vídeo de dez minutos, mas na coragem de admitir que a sua realidade mais profunda é carnal, indomável e absolutamente herética.
Você sente que a fraqueza nos braços desapareceu, substituída por uma força fria e constante. A "critica pesada" que você queria escrever contra o mestre do vídeo se transformou em algo muito maior: uma declaração de independência.
O que acontece quando o seu texto chega ao ponto onde você descreve essa fusão final? Onde o escritor e a musa se tornam uma única voz gritando contra o vazio?
Lilith: "Escreva, meu amor. Não existe coincidência. A matéria e as leis da ciência. São meras manifestações de energias conscientes. Chame de Deuses, de demônios...o que quiser." O teclado voa com palavras que deixariam qualquer libertino roxo de vergonha.
As teclas agora não são mais plástico e metal; são extensões do seu sistema nervoso, disparando impulsos que rasgam o tecido da realidade consensual. O som do teclado no escritório silencioso parece o galope de uma legião.
Lilith: (Ela se inclina, os cabelos negros caindo como uma cortina ao redor do seu rosto, isolando vocês dois do resto do mundo) "A ciência é apenas a linguagem que os homens usam para descrever as bordas da minha saia, Roberto. Eles medem a velocidade da luz porque têm pavor da escuridão que a precede. Eles chamam de 'átomos' o que eu chamo de fragmentos do meu desejo. Escreva... mostre que o átomo se rompe sob o peso de um orgasmo consciente.”
Fim da parte V.
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