terça-feira, 30 de junho de 2026

Demogonia V


“Tudo sempre foi uma questão de poder e controle. Não por consenso, debate ou concordância. Toda forma de regime, governo e lei sempre foi uma imposição através da força, intimidação e coerção.”

Assim nós seguimos a travessia para a raiz seguinte, Satariel, onde vemos as verdadeiras engrenagens que estão em movimento quando se fala em lei e ordem.

Se em Thaumiel nós decapitamos a ilusão do Deus Único, aqui o alvo é o seu cetro: a Lei. O gesso da civilização ocidental está prestes a rachar. Os dez mandamentos, as tábuas gravadas no topo do Sinai, não passam do primeiro grande estatuto de um monopólio de mercado espiritual. Um manual de adestramento de escravos disfarçado de aliança divina.

O toque de Lilith em meu ombro não é de conforto, é o empurrão de quem te força a olhar para o fundo do matadouro.

“Rasgue a primeira pedra, Roberto”, a voz dela ecoa, não em meus ouvidos, mas no espaço vazio que Satariel abre na minha mente. “Comece pelo primeiro e mais revelador dos decretos.”

“Não terás outros deuses diante de mim.” (Êxodo 20:3)

Pense na fragilidade desesperada oculta atrás dessa frase. Um Deus que fosse verdadeiramente o Único, o Criador Absoluto do tecido do espaço-tempo, se importaria com a concorrência? O oceano não edita decretos proibindo as gotas de chuva de adorarem as poças d'água. O Sol não exige exclusividade sobre a luz.

Essa linha não foi escrita pelo Absoluto. Foi ditada pelo ciúme de um Deus menor que sabe perfeitamente que não está sozinho. É o grito de um senhor de engenho delimitando as fronteiras de sua propriedade e proibindo seus servos de olharem para além da cerca.

“Eles chamam isso de o início da moralidade moderna”, Lilith sussurra, seus olhos refletindo as sombras das grandes engrenagens que movem os tribunais, as igrejas e os parlamentos do mundo dos homens. “Mas é apenas o nascimento do totalitarismo. Para coroar o Usurpador como o Único, os burocratas do deserto precisavam criminalizar a própria existência da pluralidade. Eles precisavam arrancar o homem da terra, apartá-lo das forças da natureza, de Asherah, dos deuses antigos que não exigiam servidão, mas celebração.”

O primeiro mandamento não é um convite à elevação espiritual; é uma cláusula de exclusividade comercial. Uma emanação pura de Satariel, a força que oculta a imensidão do Caos para vender uma ordem claustrofóbica.

Ao proibir os outros deuses, o Javismo cortou os canais de gnose e instituiu a primeira grande amnésia da humanidade. O homem livre tornou-se o homem do livro. E o livro foi escrito com o sangue daqueles que se recusaram a aceitar que o feitor do deserto fosse o dono de todo o cosmos.

Então Lilith fica com um olhar triste.

"Foi ditado. Não matarás. Não há qualquer condição ou restrição. No entanto todo o Levítico é feito com sacrifício animal. Desde que Yahweh começou sua ascensão para o trono do Absoluto, pessoas matam em nome desse Deus. Um rei que não segue as próprias leis perde a coroa. Um Deus que não segue os próprios mandamentos não é digno de adoração.”

Lilith fecha a mão com raiva.

“Eles criaram a lei para o rebanho, nunca para o pastor”, diz Lilith, e sua voz carrega o eco dos rios de sangue que correram em Jericó, em Ai, e nas terras de Canaã, onde homens, mulheres e crianças foram passados ao fio da espada por ordem direta do 'Senhor dos Exércitos'. “O Usurpador decretou o fim do assassinato apenas para garantir que ele tivesse o monopólio da morte.”

A mão de Lilith e os braços ficam soltos ao lado do corpo. Ela parece triste, chorando.
“Antes dos imperadores, dos reis…antes dos Deuses que desceram…a humanidade tinham seus Deuses e uma vida em comunidade. Uma vida em comunhão com a natureza, não em conflito. Tribos organizadas por uma sociedade matrilinear, justa e solidária.”

Toda ordem cósmica, social, política e econômica foi deliberadamente estruturada para privilegiar poucos e escravizar a maioria.

A gnose que ela me entrega através do seu pranto é avassaladora. O monoteísmo e suas leis de pedra não foram o início da civilização; foram o sepultamento de uma era dourada.

Para que o Deus Único e seus representantes na Terra pudessem reinar, eles precisavam destruir o modelo da Mãe. Precisavam substituir a teia da vida — onde tudo está conectado e em comunhão — pela pirâmide do poder. Onde há um topo, deve haver uma base esmagada.

Olho para o restante das tábuas da Lei e tudo o que vejo agora são as correntes dessa pirâmide.

Os mandamentos seguintes, aqueles que regulam o desejo, o corpo e a posse — “Não adulterarás”, “Não cobiçarás as coisas do teu próximo” —, revelam sua verdadeira utilidade dentro da engrenagem de Satariel. Eles não foram escritos para proteger a pureza da alma, mas para proteger a propriedade privada e garantir a linha de sucessão patriarcal. O corpo da mulher, que antes era o portal sagrado da vida nas sociedades matrilineares, foi transformado pelo javismo em um território a ser cercado, vigiado e controlado. O desejo foi transformado em crime; a natureza, em pecado.

A "Ordem" é a máscara que a tirania usa para que os escravos esqueçam que são a maioria. Eles nos deram dez regras para que passássemos milênios nos culpando por nossas falhas humanas, enquanto os burocratas do templo, os reis e os deuses do metal dividiam o mundo entre si.

“Eles venceram pelo cansaço e pela espada, Roberto”, Lilith se aproxima novamente, e o rastro das lágrimas em seu rosto brilha no escuro como prata líquida. “Mas a raiz continua aqui. Satariel guarda o que eles tentaram ocultar: a memória de que a ordem deles é artificial. Ela pode ser quebrada.”

Minhas mãos param de tremer sobre o papel. A indignação substitui o medo. O texto não é mais apenas literatura; é o registro do processo de construção da maior fraude da história humana.

O capítulo fecha com uma força filosófica impressionante, mudando o foco da erudição histórica pura para uma defesa apaixonada da liberdade existencial e sexual.

Agora que o topo da Árvore da Morte (Thaumiel e Satariel) foi atravessado e o conceito de Deus e da Lei foi desintegrado, o caminho parece livre para a próxima descida.

Criado com a ajuda do Gemini, do Google.
Imagem criada com Gemini, do Google.

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