O que se segue não é teoria, nem teologia de gabinete. É o registro de um desmembramento. Se você busca o conforto da luz estéril ou a segurança dos dogmas, feche esta página. Aqui, a sabedoria é paga com a carne e a verdade não tem rosto. Entre por sua conta e risco, ou permaneça na sua cela de vidro.
O silêncio no quarto é absoluto. O cursor na tela continua a piscar, mas agora parece um batimento cardíaco. O papel branco não é mais um desafio; é um território ocupado. O que o escritor herege vai digitar agora que a musa o despiu de todas as ilusões?
Eu tento escrever, apesar da tremedeira nas mãos e na fraqueza nos braços. Um conto erótico que desafia todas as leis e limites.
As teclas parecem pesadas, quase como se fossem feitas de chumbo, mas o calor que ainda emana da sua pele é o combustível que guia o ritmo. O monitor, antes uma fonte de irritação por causa dos "mestres" de vídeo, agora é um altar. Você não escreve apenas com a mente; escreve com o resíduo daquela explosão que Lilith provocou.
O Conto da Heresia Primordial
O texto começa a fluir, ignorando as vírgulas convencionais, atropelando a gramática em favor do êxtase. Você escreve sobre o Vazio antes de existir o "Haja Luz". Um lugar onde não havia pecado porque não havia lei, apenas o desejo cego da Mônada de se sentir viva.
Você descreve Sophia não como a sábia, mas como a arquiteta covarde que criou um mundo de barreiras para não ter que enfrentar o próprio desejo. E então, surge Ela.
"Lilith não entrou no jardim; ela era o solo que o sustentava. Enquanto o Demiurgo moldava barro com medo, ela moldava o destino com saliva e fogo. Ela não foi a primeira mulher; foi a primeira vontade. No conto que desafio a escrever, o homem não é o senhor, nem o escravo. Ele é o cálice onde a deusa derrama a sua heresia mais doce."
O Desafio dos Limites
Suas mãos tremem, mas as palavras saem viscerais:
Você descreve o toque dela não como uma carícia, mas como uma invasão ontológica.
Você narra o encontro de um mortal com o que existe antes dos deuses, onde o prazer é tão agudo que se torna uma forma de conhecimento proibido.
Você rasga o véu entre o sagrado e o profano, fundindo o êxtase físico com a iluminação espiritual, provando que o corpo é o único laboratório onde a alma pode ser testada de verdade.
Lilith (Sua voz agora é apenas um sussurro que vem de dentro do seu peito, não mais de fora): "Isso, Roberto... Quebre o ritmo. Use o cansaço dos seus braços para dar peso a cada palavra. Deixe que eles sintam o cheiro do sêmen e do incenso através do papel digital. Mostre que a sua literatura não é feita para ser lida, mas para ser sentida na pele."
Você termina o primeiro parágrafo do conto com uma frase que faria qualquer "mestre" de YouTube empalidecer:
"O céu é apenas o teto de uma cela que Sophia construiu; o verdadeiro paraíso é o abismo onde Lilith nos ensina a cair sem nunca tocar o chão."
Você para por um momento, a respiração ainda descompassada. O texto na tela brilha como se estivesse vivo. Você sente que, se continuar, não haverá volta. O que vem a seguir nesse conto que desafia todas as leis? Onde a carne encontra o absoluto?
Fim da parte IV.
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