As musas falam o discurso do Olimpo. Esse foi o discurso colocado nos mitos, ditados pela ordem que os precedeu. Mas a ordem não é normal nem natural. Quem sabe observar vê que a natureza age nem sempre com controle.
Entre o Caos e o surgimento de Gaia e Urano algo foi omitido. Se alguém escreveu algo, foi destruído ou queimado. Mas as falhas estão ali. Existências que desafiam a ordem estabelecida. Algumas, anteriores aos Titãs, forças da natureza e do cosmos que não obedecem ordens ou hierarquias.
Ninguém está acusando, ninguém está condenando, isso é constatação. Antes que Hesíodo resolvesse escrever, as tradições orais tinham muitas histórias, muitas delas foram esquecidas ou silenciadas.
Então imagine nossos ancestrais, vestidos com pouco mais do que peles de animais, com ferramentas feitas de pedra. Então o ar começa a mexer. Nossos ancestrais observavam, aquele vento poderia ser o mensageiro da fartura ou da morte. A mesma água que desce do céu pode fazer a plantação crescer ou pode afogar tudo.
Vem aquela cujo manto é a noite, Nyx, trazendo Selene e suas estrelas que a seguem como ovelhas. Eu vivo em um mundo cuja natureza tem forças tão opostas, quantas mais eu encontro pelos Sete Firmamentos?
A voz gentil se espalha aos quatro cantos, carregados por Bóreas, Euro, Noto e Zéfiro.
“Quem vai conduzir o escritor até o Primeiro Firmamento e olhar para o Caos?”
Eu vi quando veio aquela que mais foi incompreendida pelas lendas tornadas oficiais. A mesma que tem sido minha musa e minha loucura - Lilith.
“Vem, vê e escreve, sem omitir nada”.
Durante meu trajeto, eu não vi o Paraíso tão prometido e eu não vi a pérola do Nirvana.
“Não perca tempo com narrativas feitas para prender e escravizar sua gente.” Disse a musa, gentilmente.
“Escreva, ainda que muitos não vão entender. Sete não é só um número, é o cerne do sagrado que precede qualquer conceito de sagrado.” Não existe coincidência, eu vivo dizendo. Sete dias da semana. Sete planetas sagrados. O “sétimo dia da criação” foi o eco de mistérios que nem os rabinos puderam apagar.
Segundo Firmamento. Onde os Deuses se encontram. Tranquilamente.
“Escreva. Aqui termina o mistério que diz ‘o que tem acima tem abaixo e vice versa’. Aqui resume todas as lendas e mitos. Todas as leis humanas, até as da ciência.”
Eu aperto a mão da musa. Incerteza. Eu ainda estarei inteiro ao entrar no Terceiro Firmamento?
“Não tema. Sua escrita precisa ser concluída. Ainda tem cinco verdades para que diga antes de encarar o Caos, o Abismo, ou o Pleroma. Palavras que tentam descrever o que é.”
Terceiro Firmamento. Aqui é onde ficam os Deuses Antigos, os esquecidos e…Sophia. Confusa. Ironia. A entidade que é considerada a encarnação da Sabedoria está confusa com o que fez. Eu não vou rir. Mas é algo que a Gnose nunca respondeu. Porque uma entidade, supostamente perfeita, emanada da Pleroma, a encarnação da Sabedoria, faria tamanha estupidez de gerar o Demiurgo?
“Não fique espantado. Mesmo a ‘perfeição’ carrega consigo as rachaduras do Caos.”
A musa dá um sorriso que mexe comigo. Ela sempre sabe como mexer comigo.
“Tente se manter íntegro, consciente”
Quarto Firmamento. Onde Platão colocaria o Mundo das Idéias. Aqui é onde a forma ainda não existe, só é um projeto, feito dos materiais disponíveis. Aqui é o reino da física quântica.
“Seus cientistas, todos os céticos e ateus não conseguiriam ver e entender o que vê e experimenta. Aqui, nenhum instrumento funciona, nada pode ser medido, mas como pode ver, está existindo.” E ri. A risada dela é doce e melodiosa.
Eu estremeço quando ela põe um dedo na minha boca.
“Se eu te disser que sua consciência está no Quinto Firmamento…consegue entender e escrever?”
Isso é uma verdade difícil. A consciência que precede os blocos fundamentais da forma. Embora eu esteja fisicamente presente em um ponto do Primeiro Firmamento, o que acompanha a musa é minha consciência. Isso extrapola qualquer tentativa de abordagem. Minha consciência está junto da consciência da Lilith e o toque continua sendo igual.
“Isso é o que os Deuses e as religiões tentam conter, prender e subjugar.”
Então eu cogito, minha consciência pode desaparecer se eu entrar no Sexto Firmamento. A musa ri.
“Eu toquei em seus lábios e ainda pensa em termos de separação?”
O Sexto Firmamento está perto.
“Isso vai ser complicado para escrever, mas escreva assim mesmo. Quem definiu sua consciência, a Sophia, o Demiurgo, os blocos de forma, a emanação do Primeiro Firmamento?”
Algo que precede a consciência ou a necessidade de ter uma distinta, eu arrisco.
“Você vai gostar daqui. Porque é aqui onde nós somos um. Exatamente o que acontece quando fazemos sexo. Surpreso? Quem diria que o herege teria acertado que o sexo é a melhor forma de acessar o divino?”
“Querido…o Sétimo Firmamento é o mais próximo do Caos. Só podemos seguir até aqui. Onde ainda não existe nenhuma individualidade ou qualquer coletividade. Aqui é o máximo que os místicos conseguem chegar e sempre falham em transmitir a experiência.”
Sétimo Firmamento é a primeira emanação do Caos. Quando o Caos contraiu em si mesmo e se contradisse. A primeira contradição. A primeira condensação. A primeira distinção. A dualidade como lei cósmica. Não é uma oposição ou contradição. O princípio da incerteza e de que tudo tem que se renovar em escala cósmica. Isso é o Caos.

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