A noite havia sido um sucesso estrondoso, imortalizado na atmosfera tensa e rústica da taverna. Saber que Von Fuchs passaria um bom tempo longe de Paris deu à codorna e ao bom vinho francês um sabor extra de vitória. Ao cruzar o portal de seu château, seus servos já haviam deixado a banheira de cobre preparada, com a água perfeitamente aquecida e aromatizada — o que, na rotina do lorde, geralmente significava que uma de suas fiéis e discretas empregadas logo iria lhe "fazer companhia" para relaxar as tensões do Grande Jogo.
No entanto, o descanso de um Primeiro-Ministro dura pouco. O sol logo nascerá em Versalhes, trazendo novos rumos para a nossa história.
Lorde Fluffybutt III abriu os olhos verdes lentamente, a luz suave da manhã filtrando-se pelas pesadas cortinas de seda de seu château. Ele acordou exatamente onde gostava de estar: no centro de sua imensa cama de casal, cercado por duas empregadas sortudas.
Para qualquer outro nobre de Versalhes, aquilo seria um risco. Para Fluffybutt, a matemática era exata: chance de traição zero, chance de doença venérea zero, chance de "acidentes de trabalho" — como um bastardo indesejado — absolutamente zero. A grande vantagem do Primeiro-Ministro era sua expertise cirúrgica em saber como controlar resultados imprevisíveis ou indesejáveis na interação com suas empregadas. Tudo era friamente calculado, consensual, higiênico e estritamente confidencial. Elas recebiam generosidade e proteção; ele, a garantia de que nenhuma adaga cruzaria seus lençóis.
Após se levantar com a agilidade natural de sua espécie e se despedir de suas companheiras, o lorde dedicou-se ao estômago. Fluffybutt não era homem de pequenas porções ou frescuras matinais quando um longo dia de Estado o aguardava.
Seu breve desjejum foi substancial, o equivalente exato a um robusto prato executivo paulistano: uma boa porção de proteínas, cortes frios de alta qualidade e o vigor necessário para sustentar um governante. Nada de migalhas de brioche; o felino precisava de energia real para o xadrez político.
Com os bigodes limpos, o colete perfeitamente ajustado e as luvas brancas calçadas, Fluffybutt subiu na carruagem oficializada com as armas do primeiro-ministro. O veículo cortou os caminhos de pedra em direção ao Palácio dos Espelhos — o coração nervoso da corte.
Enquanto as rodas carimbavam o cascalho, o felino revisava mentalmente suas defesas. Ele sabia que, ao cruzar aqueles portões, deixaria o mundo da lógica para entrar no território do absoluto absurdo. O Rei Leão VI o aguardava, e com ele, toda a sorte de excentricidades, paranoias e crises teatrais que só um monarca predador e instável poderia arquitetar após uma noite de excessos.
A carruagem parou. O lacaio abriu a porta. Lorde Fluffybutt III respirou fundo, ajeitou o punho da camisa e pisou no mármore do palácio. O show ia começar.
O Palácio dos Espelhos parecia estranhamente silencioso naquela manhã, um sinal claro de que a tensão nos bastidores havia atingido o ápice. Quando as pesadas portas da sala de audiências se abriram, Lorde Fluffybutt III deparou-se com uma visão rara: o Rei Leão VI estava de pé junto à janela, e seu rosto ostentava uma seriedade e uma crueza nunca vistas antes. A juba, geralmente desalinhada pelas farras, parecia eriçada de pura preocupação estretégica.
No entanto, o peso da coroa pareceu diminuir em um segundo. O rosto do monarca iluminou-se imediatamente assim que o arauto anunciou a entrada do Primeiro-Ministro.
— Theo! Meu inestimável lorde! — rugiu o rei, a voz ecoando pelos afrescos do teto enquanto ele avançava a passos largos em direção ao felino. — Sua mente brilhante é necessária mais uma vez!
O leão apoiou as imensas patas na mesa de mapas, inclinando-se com urgência.
— Relatos de rebelião nos campos e nas nossas colônias! — despejou o monarca, os olhos arregalados de indignação. — Os camponeses locais decidiram questionar os novos impostos, e os relatórios que cruzaram o oceano dizem que os colonos estão seguindo o mesmo caminho de insubordinação. Como lidar com duas frentes de rebelião ao mesmo tempo, Theo? E o mais importante... sem arruinar o cofre real, se for possível!
Fluffybutt manteve a cauda imóvel e a expressão serena, exatamente como o diplomata controlado que o rei tanto necessitava. O monarca, em sua paranoia habitual, não percebia que o incêndio nos campos franceses era o pavio que a raposa Von Fuchs tentara acender antes de ser escorraçada de Paris. Agora, o tabuleiro colonial também ardia.
Com duas frentes de revolta e um orçamento apertado, o Primeiro-Ministro precisaria usar cada gota de sua expertise. Ele ajeitou as luvas brancas e deu um passo à frente, encarando o mapa múndi estendido diante do leão.
Lorde Fluffybutt III deu um passo à frente, com a confiança de quem já havia mapeado cada movimento do oponente antes mesmo do jogo começar. As conversas regadas a cerveja e cenouras com Don Flopito na Baixa Boêmia não foram apenas entretenimento; elas forneceram o mapa mental das fraquezas coloniais. Como um escritor que conhece a fundo suas personagens e um mestre da liberdade de pensamento, ele sabia que tratar pautas distintas com a mesma bota militar seria um erro fatal para o tesouro.
— Vossa graça, nós temos uma oportunidade de ouro para mostrar ao mundo que a França é mais civilizada do que os buldogues ingleses e os coelhos espanhóis — começou o Primeiro-Ministro, a voz suave como veludo. — Os camponeses aqui pedem pão e alívio fiscal; os colonos pedem voz e dignidade. Tratá-los como um bloco único é desperdiçar pólvora e ouro.
Ele apontou para o ponto no mapa que representava o Norte da África:
— Eu mesmo irei até a Argélia para ouvir as queixas dos colonos. Tenho certeza de que posso resolver isso com o diálogo. As colônias servirão de exemplo global: mostrarão que sob o seu reinado, Majestade, a palavra tem mais peso que a espada. Se acalmarmos as colônias com diplomacia, as rebeliões camponesas perderão o fôlego, pois verão que o diálogo com o trono é possível e lucrativo.
O Plano de Ação
Lorde Fluffybutt III desenhou rapidamente a logística para garantir que o Rei não entrasse em colapso enquanto ele estivesse fora:
Diplomacia de Curto Alcance: Fluffybutt enviará uma delegação de "Gatos de Respeito" aos campos franceses para distribuir promessas de revisão tributária (adiando o conflito sem gastar um centavo imediato).
Missão Argélia: Ele embarcará com uma comitiva mínima — para não parecer uma invasão — levando apenas Sir Barnaby (como testemunha da "superioridade francesa") e alguns barris de vinho fino.
Gestão de Imagem: Enquanto estiver fora, o Rei deve manter as festividades no Palácio dos Espelhos para projetar uma imagem de total estabilidade e desinteresse pelas crises, mantendo sua "fama" de monarca inabalável.
O Pensamento de Fluffybutt: "Vou dar aos colonos a ilusão de serem ouvidos e aos camponeses a esperança de mudança. Enquanto eles discutem os termos, o tesouro real permanece intocado e Von Fuchs, lá em Viena, morderá a própria cauda de frustração ao ver que a guerra que ele planejou virou um simpósio de chá."
O calor do Norte da África era implacável, mas nem mesmo o sol escaldante da Argélia foi capaz de desalinhá-lo. Quando a fragata real francesa atracou no porto, Lorde Fluffybutt III desceu a rampa de madeira com a mesma elegância felina que exibia nos tapetes de Versalhes. Trajava um casaco de linho leve, porém impecavelmente cortado, e suas luvas brancas — sua marca registrada — permaneciam intocadas pela poeira do cais. Ao seu lado, Sir Barnaby, o embaixador inglês, bufava e usava um lenço para enxugar as dobras de seu rosto de Bulldog, claramente sofrendo com o clima.
O porto estava silencioso. Não havia tapete vermelho ou comitê de boas-vindas. Em vez disso, uma escolta de colonos armados e com rostos cobertos aguardava o Primeiro-Ministro. Eles esperavam um general arrogante ou um burocrata assustado; receberam um felino imperturbável que apenas ajeitou o lenço de pescoço e fez um gesto cortês com a pata para que indicassem o caminho.
A comitiva foi conduzida até uma tenda fortificada nos limites da cidade, onde o ar cheirava a tabaco, especiarias e forte tensão política. Ali estavam os líderes rebeldes das colônias: uma coalizão de figuras endurecidas pelo trabalho e pelo sol, cansadas de enviar riquezas para Paris sem receber nada em troca.
O líder dos rebeldes, um felino selvagem de grande porte e olhar severo, bateu a pata na mesa de madeira assim que Fluffybutt entrou.
— Esperávamos tropas, Lorde Primeiro-Ministro — rosnou o líder. — Esperávamos a resposta violenta do Rei Leão VI. Por que o trono envia seu maior diplomata em vez de seus canhões? Vocês acham que nossas exigências são uma piada que pode ser resolvida com palavras mansas?
Fluffybutt não recuou um milímetro. Com passos calmos, ele se aproximou da mesa de negociações, gesticulou para que Sir Barnaby se sentasse e olhou diretamente nos olhos do líder rebelde.
— Meus senhores, se vossa graça, o Rei, quisesse derramar sangue, ele teria enviado um general — começou Fluffybutt, a voz suave e controlada ecoando perfeitamente na tenda. — Mas ele enviou a mim. E eu não vim aqui para trazer promessas vazias. Vim porque a França reconhece que o futuro do Novo Mundo e de nossas colônias não pode ser governado pela força bruta, como os espanhóis fazem com seus coelhos ou como os ingleses fazem com seus cães.
Ele fez uma pausa, permitindo que Sir Barnaby soltasse um pigarro desconfortável, mas estratégico.
— Eu vim ouvir o que Versalhes ignorou. Mas exijo uma coisa em troca: que as armas sejam abaixadas enquanto a tinta corre no pergaminho. Se houver um acordo justo, as colônias prosperam, o comércio flui e o tesouro real permanece seguro. Se vocês escolherem a guerra, a Áustria e seus espiões rirão de nós enquanto dividem nossos espólios. O que preferem: ser os arquitetos de uma nova era comercial ou peões no jogo de Viena?
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os líderes rebeldes se entreolharam, desarmados não por canhões, mas pela audácia e pela lógica cortante do Primeiro-Ministro. A fofura diplomática misturada à autoridade real começava a fazer efeito.
O silêncio dentro da tenda tornou-se tão denso que era possível ouvir o som das areias do deserto batendo contra o tecido. Lorde Fluffybutt III deu um passo à frente, as patas brancas movendo-se com uma confiança que beirava a insolência.
Ele decidiu usar a informação de ouro que extraíra de Don Flopito: o ressentimento profundo contra a administração centralizada e insensível.
— Eu sei exatamente quais são suas angústias — afirmou Fluffybutt, a voz firme, sem o tom condescendente de Versalhes. — Aqui estão os líderes que sangram por esta terra, mas a Argélia é governada por um burocrata francês de peruca empoeirada, sentado em um gabinete em Argel, que prioriza as vontades de Paris sem considerar sequer uma das tradições que vocês prezam.
Ele fez uma pausa dramática, permitindo que o veneno da verdade se espalhasse entre os líderes rebeldes. Sir Barnaby olhou para Fluffybutt com os olhos arregalados; o Bulldog sabia que aquilo era um jogo perigosíssimo: abrir mão do controle direto da coroa.
— Eu proponho retirar esse espinho francês das patas dos senhores — continuou Fluffybutt, gesticulando como se removesse uma farpa invisível. — Proponho colocar o governo local nas mãos de representantes locais. Homens que conhecem este sol e este solo.
Houve um murmúrio de choque. Fluffybutt levantou uma pata para manter o controle:
— Com a proteção da frota francesa, evidente. Em troca da lealdade absoluta ao Rei Leão VI, do livre comércio sem as taxas extorsivas dos burocratas e da colaboração mútua, França e Argélia vão prosperar juntas como parceiras, não como senhor e escravo.
Os líderes rebeldes estavam atônitos. O que Fluffybutt estava fazendo era uma manobra brilhante de "Descentralização Estratégica":
Custo Zero: Ele não estava dando dinheiro, estava dando autonomia. Isso não esvaziava o cofre real; na verdade, economizava o salário de centenas de administradores franceses inúteis.
O Xeque-mate na Áustria: Se a Argélia estivesse satisfeita e autogovernada, as sementes de discórdia plantadas por Von Fuchs não teriam onde germinar.
A Armadilha da Lealdade: Ao dar-lhes o poder, Fluffybutt tornava os próprios líderes responsáveis pela ordem. Se algo desse errado, a culpa não seria mais de Paris.
O líder rebelde, o grande felino selvagem, estreitou os olhos, tentando encontrar a pegadinha naquelas palavras doces.
— Você fala como um libertador, Lorde Primeiro-Ministro — rosnou o rebelde. — Mas como saberemos que o Rei Leão VI não vai rugir contra este acordo assim que você cruzar o Mediterrâneo de volta?
Lorde Fluffybutt III deu um meio-sorriso, ajeitando o punho de sua camisa de linho.
— Porque vossa graça prefere um aliado próspero e leal a um inimigo faminto e rebelde que custa mil moedas de ouro por dia em munição. Eu sou a garantia. E eu nunca assino um contrato que não pretendo vencer.
Os líderes rebeldes se afastaram para o canto mais escuro da tenda. Entre olhares desconfiados e gestos largos, eles começaram a deliberar em sussurros rápidos, usando o dialeto local — uma língua áspera, moldada pelo deserto, completamente incompreensível para os ouvidos europeus.
Enquanto o destino do Norte da África era debatido naquela algazarra abafada, Lorde Fluffybutt III permanecia a imagem da tranquilidade felina. Ele ajeitou um grão invisível de poeira em seu casaco de linho leve e deu um gole lento em sua bebida. Não havia motivo para pressa. O Primeiro-Ministro sabia perfeitamente que aquela "autonomia" oferecida não seria plena; as amarras econômicas e os tratados de livre comércio ainda manteriam a Argélia sob a órbita de Versalhes. No entanto, os ganhos mútuos — o poder local para os chefes de tribo e o fim dos impostos abusivos dos burocratas — eram tentadores demais para que os líderes recusassem. Eles sabiam que a alternativa era a fome ou a pólvora.
Aproveitando o momento de espera, Fluffybutt inclinou-se ligeiramente na direção do embaixador inglês, que continuava a abanar-se com o lenço, visivelmente desconfortável com o calor e com a audácia da diplomacia francesa.
— Melhor tomar nota, Sir Barnaby — sussurrou Fluffybutt, com um brilho divertido nos olhos verdes —, para que a coroa britânica aprenda uma coisa ou duas com a França sobre como governar sem gastar um único xelim com exércitos.
Sir Barnaby, pego de surpresa, engoliu em seco. O Bulldog olhou para o felino, depois para os rebeldes que começavam a se realinhar para voltar à mesa, e forçou um sorriso amarelo de reconhecimento. A contragosto, o diplomata inglês teve que admitir internamente: a inteligência refinada de Fluffybutt acabara de dar uma aula de geopolítica.
O líder dos rebeldes adiantou-se, cruzando os braços robustos sobre o peito. O silêncio voltou à tenda, mas a tensão havia mudado de lado.
— Aceitamos seus termos de co-prosperidade, Lorde Primeiro-Ministro — declarou o grande felino selvagem, a voz grave ecoando com uma solenidade pesada. — Mas queremos o tratado assinado com o seu sangue e o selo real antes do pôr do sol. Se o burocrata francês não deixar Argel até amanhã, o acordo vira cinzas.
Fluffybutt sorriu, estendendo a pata enluvada. O primeiro incêndio estava apagado. Agora, restava saber como o Rei Leão VI reagiria ao descobrir que, para salvar os cofres da França, seu Primeiro-Ministro havia acabado de reinventar o conceito de Império.
Lorde Fluffybutt III segurou o sorriso, mantendo a mais perfeita expressão de poker — um jogo curioso de cartas e blefes que ele havia aprendido anos atrás com marinheiros nos cais mais perigosos do canal. O prazo dado pelos rebeldes era apertado, mas o felino viu ali a oportunidade perfeita para uma manobra clássica: usaria uma piada interna da corte francesa para desarmar os ânimos, massagear o ego de Sir Barnaby e, acima de tudo, ganhar o tempo necessário para cruzar o Mediterrâneo, conseguir a assinatura do Rei Leão VI e selar o destino da região.
Inclinando-se ligeiramente sobre a mesa de negociações, ele olhou para o líder dos rebeldes e depois para o embaixador inglês.
— Bom, os ingleses gostam de se gabar que o sol nunca se põe em seus domínios... — começou Fluffybutt, com um brilho astuto nos olhos verdes —, e nós, na França, costumamos dizer que vossa graça, o Rei Leão VI, é o próprio Rei Sol em pessoa.
O Primeiro-Ministro fez uma pausa calculada para as risadas. Sir Barnaby soltou uma gargalhada ruidosa de Bulldog que ecoou pela tenda, e até alguns dos líderes locais trocaram sorrisos contidos com o humor refinado do diplomata.
Com a atmosfera consideravelmente mais leve, Fluffybutt desferiu o golpe de mestre para estender o prazo:
— No entanto, o sol se põe muitas vezes, senhores. E a navegação exige seu tributo. Eu preciso de exatamente uma semana para ir até a França, obter o selo real e voltar para a Argélia. Então, eu proponho o seguinte: eu vou deixar a Argélia amanhã, mas levarei comigo o burocrata francês na minha própria carruagem, destituído de suas funções imediatamente. Isso é aceitável para os senhores? Afinal... — concluiu o felino, com um aceno cortês e elegante —, eu faço questão de usar essa semana para que meus emissários conheçam um pouco mais de suas ricas tradições locais.
Os líderes rebeldes se entreolharam. Levar o odiado burocrata embora no dia seguinte era uma vitória visual e política imediata que eles poderiam apresentar ao povo. Dar uma semana para o retorno do tratado assinado parecia um preço incrivelmente justo por aquela concessão.
O grande felino selvagem bateu a pata na mesa, selando o acordo verbal.
— Uma semana, Lorde Fluffybutt. Nem um pôr do sol a mais. O burocrata parte amanhã, e nós aguardaremos sua fragata com o pergaminho real.
Fluffybutt ajeitou suas luvas brancas e levantou-se. A primeira parte do blefe internacional fora um sucesso estrondoso. Agora, ele tinha sete dias para fazer o instável Rei Leão VI assinar um documento que mudaria a estrutura do império, enquanto o burocrata deposto choramingava no porão do navio. O xadrez de Versalhes estava prestes a retornar ao seu território de origem.
A fragata real cortava as águas do Mediterrâneo com uma eficiência que parecia espelhar a mente de seu passageiro mais ilustre. Lorde Fluffybutt III observava a linha do horizonte, o vento agitando levemente os pelos de seus bigodes, enquanto pensava consigo mesmo que aquela negociação fora tão simples quanto pegar peixes em um barril. Com o burocrata francês devidamente trancafiado em uma cabine inferior — resmungando sobre a perda de seu prestígio — e os líderes rebeldes pacificados pela promessa de autonomia, o Primeiro-Ministro saboreava o silêncio da vitória.
Sir Barnaby, no entanto, não compartilhava da mesma serenidade. O Bulldog estava sentado em uma poltrona de couro no convés, observando o felino com uma expressão que misturava admiração e um desconforto profundo. Após longos minutos de silêncio, o embaixador inglês teve um momento de franqueza impensável para um diplomata de sua estirpe.
— Lorde Fluffybutt... — começou Sir Barnaby, a voz rouca e mais baixa que o habitual — eu estou começando a ficar com medo do senhor.
Fluffybutt não se moveu imediatamente. Ele manteve o olhar fixo no mar, permitindo que as palavras do inglês pairassem no ar salgado. Sir Barnaby continuou, gesticulando com uma pata trêmula:
"O senhor não usou um único canhão. O senhor desmantelou uma revolta secular em uma tarde, entregou o governo aos rebeldes e ainda os fez agradecer por isso. E tudo enquanto fazia piadas sobre o meu rei e o seu. Se o senhor é capaz de fazer isso com seus próprios súditos para salvar alguns francos, o que seria capaz de fazer com os meus se decidisse que Londres é um obstáculo?"
O Primeiro-Ministro finalmente virou-se, exibindo a calma magistral que o define. Ele deu um passo em direção ao Bulldog, as patas brancas movendo-se sem ruído sobre a madeira do convés.
— Medo é uma palavra forte, meu caro Barnaby — respondeu Fluffybutt, com um tom de voz que era puro veludo. — Eu prefiro chamar de "respeito pela eficiência". A guerra é um erro de cálculo, um desperdício de recursos que apenas beneficia raposas como Von Fuchs. Eu apenas escolhi o caminho que mantém o ouro no cofre e o sangue nas veias.
Ele fez uma pausa, o brilho verde de seus olhos tornando-se mais intenso.
— Mas fique tranquilo. Enquanto a Inglaterra for um bom parceiro comercial para a França, o senhor terá em mim apenas um colega de jantar... e não o arquiteto do seu próximo dilema colonial.
Sir Barnaby engoliu em seco e voltou sua atenção para o mar, subitamente muito interessado nas ondas. A fragata seguia seu curso, mas a relação entre as duas potências acabara de mudar silenciosamente.
Fim da primeira parte.
Imagem criada com Gemini, do Google.

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