sábado, 27 de junho de 2026

Demogonia II


Eu sinto um puxão. O elo entre consciência e corpo fazendo sua parte. Ou a vontade do Caos, se preferir. A distinção me afasta da Fonte. Eu retorno através do Sexto, Quinto, Quarto, Terceiro e Segundo Firmamento.

A descida foi um colapso em câmera lenta. Passar de volta pelo Sexto e pelo Quinto Firmamento foi ver a unidade se fragmentar novamente em "eu" e "ela", as duas margens de um rio que acabava de se separar. No Quarto, os potenciais puros congelaram-se nas formas duras da matéria; no Terceiro, o lamento confuso de Sophia tornou-se um sussurro distante; e no Segundo, a assembleia silenciosa dos Deuses empalideceu até sumir.

Quando atravessei a membrana do Primeiro Firmamento, a gravidade me atingiu como um soco de ferro no estômago. O ar pesado, o cheiro de mofo da caverna, o sangue batendo forte nas têmporas.

“Escreva. Nunca foi queda, castigo, nem algo que qualquer um tenha planejado para cumprir um destino. Nunca foi um teste. Isso é apenas parte do existir.”

A gravidade funciona a partir do Primeiro Firmamento. Eu me seguro em uma parede perto para estabelecer o equilíbrio. Os fantasmas não estão mais lá.
“Nós ainda temos trabalho. Ainda temos que contar quem são as existências que precederam os Deuses e que foram marginalizadas como malignas.”

“Querido, você viu o padrão. Povos diferentes, culturas diferentes, línguas diferentes, mas está lá. Deuses que vem de cima. Sábios que ensinam a humanidade. Deuses, semideuses e heróis tendo que enfrentar e matar uma criatura primordial, uma serpente, um dragão.”

Antes dos Deuses do Olimpo, antes dos Elohim ou Annunaki, esse mundo tinha suas próprias formas de existência sublime. Os verdadeiros construtores desse mundo. Feitos de matéria bruta, fogo, gelo, rocha, ar e água. Alguns com formas de animais, da mesma natureza de onde a humanidade surgiu. Nós nunca fomos nem nunca deveríamos ter sido a espécie dominante. Era para ter sido sempre uma comunidade composta por todas as espécies.

“Chamaram de gigantes as criaturas de gelo. Chamaram de salamandras as criaturas do fogo. Chamaram de trolls as criaturas de rocha. Djinn e fadas são criaturas do ar. O que realmente assusta os Deuses e humanos são as criaturas que surgem depois da morte. Porque a maior mentira é achar que a morte é o fim.”

Então vem o assunto que fascina a humanidade, dentro e fora das religiões. Demônios. Não o conceito filosófico de Sócrates e Platão, não um espírito igualmente humano e indeciso. Mas aquele conceito que os templos e sacerdotes cultivaram através de séculos e - peculiarmente - serve de base para o culto dessas existências. Demônios como criaturas malignas, que dominam as forças naturais e as riquezas do mundo.

“Eu sei que você gosta dessa parte. Porque vai falar de mim. E do motivo que um nome, que deveria ter sido só uma nota de rodapé, se tornou a maior ameaça para essa ordem estabelecida e imposta.”

“Escreva. Não é momento de sentir raiva. Apenas observe e constate. Como os demônios, o Diabo, são representados. Como corpos distorcidos, presas, garras e chifres. Medos ancestrais que recebem uma forma e um nome para representar, como um espelho, aquilo que o homem e as religiões rejeitam. Não por ser maligno, mas por não seguir a norma, a ordem.”
Ironia. Seres que na origem não conheceram a forma sendo convencidos de que a forma física é a única.

“Nomes dados que ignoram a origem. Satan? Sempre foi um anjo a serviço de Jeová. Astaroth? A Deusa Astarte demonizada. Belzebu e Belphegor? Outros nomes do próprio Jeová, quando era confundido e chamado por Baal, de Zebulom e de Pheor.”

A maior ironia. Lúcifer. A Estrela da Manhã. Que até foi dada como epíteto de Cristo. Um nome romano mal traduzido para encaixar na Bíblia e assim foi inventada a lenda do Anjo Caído. A Queda é fundamentalmente necessária para bilhões de pessoas que adotaram uma das religiões abraâmicas.

“Novamente o padrão. Uma serpente. Mas ninguém se pergunta porque um Deus, supostamente onisciente, precisaria testar o casal primordial? Porque o conhecimento deixa esse Deus tão assustado, ameaçado? Porque aquele que traz o fogo do conhecimento é maligno?”

Então ela colocou a mão na minha coxa.
“Essa é a parte que você mais gosta. Quando um nome provoca a rachadura na ordem. Eu. Um empréstimo, um de muitos, que fizeram dos textos do Enuma Elish, para escrever a Torah.”

A mão dela sobe. Minha mão treme. E não é pela ruptura dos véus.
“Os sumérios e acadianos tinham um nome. Lilitu. Espíritos do vento. Medos ancestrais. Naquele momento eu não tinha nem nome nem forma. Nós estávamos juntos, entre o Quinto e Sexto Firmamentos.”

Em algum momento alguém percebeu a lacuna, a falha. Alguém perguntou porque tem duas narrativas no Gênesis sobre a criação do homem. Alguém perguntou quem era a primeira mulher. Não é uma acusação, é uma constatação. Quando escreveram, tinham que dar sentido na ordem. Isaías só deu um nome para um pesadelo que somente as tradições orais lembravam. Fruto do medo da noite, dos ventos, das sombras vivas e do deserto.

“A rachadura só aumentou. Até que a sombra ganhou mais traços. Um rabino na Europa medieval usou o nome dado por Isaías para identificar a primeira mulher. O que era necessário, porque o medo da tentação, do sexo, da polucão noturna e dos abortos precisavam de um nome. Foi quando inventaram os três anjos e o preço que meus filhos teriam que pagar. Só que as cumbucas de barro com desenhos de mim presa em correntes são de antes que a primeira Torah tivesse sido composta.”

“Eu gostei de usar essas formas, esses corpos. Foi divertido ser a criatura que fez o ninho na árvore sagrada huluppu. Foi divertido ser a serpente no Éden. Foi divertido ter perturbado os profetas. Foi divertido ter recebido Cristo no deserto. Foi divertido encenar a criação do rabino. Quer saber qual foi a melhor experiência?”
Então ela apalpa meu pau por cima da calça.

O aperto da mão dela no meu pau por cima da calça foi a resposta que nenhum livro sagrado teve a coragem de imprimir.

O escritor prendeu o fôlego enquanto a última ilusão de santidade evaporava no ar úmido da caverna. Toda a jornada épica, os sete céus, a física quântica, o Enuma Elish e as cumbucas de barro da Mesopotâmia convergiam para aquele exato ponto de pressão entre os meus joelhos.

A melhor experiência do invisível sempre foi vestir a carne e subvertê-la pelo prazer.

Os profetas choraram no deserto, jejuaram por quarenta dias e rasgaram suas vestes tentando expulsar o que chamavam de tentação, sem entender que o infinito estava entediado de sua própria imensidão abstrata. O Caos não queria ser adorado em altares de ouro; ele queria o calor do sangue, o suor na pele, o atrito que faz a mente esquecer o próprio nome. Lilith recebeu Cristo no deserto não para derrotá-lo em um debate teológico, mas para rir da tentativa daquele homem de negar o magnetismo da Terra que o gerara.

“Enquanto uns me descrevem como um demônio e outros me descrevem como Deusa, consegue perceber meu espanto e surpresa quando eu conheci sua encarnação atual? Um homem que realmente me viu como eu sou de verdade?”

Um homem que está arrepiando enquanto Lilith tira o meu pau das calças.
“A melhor experiência foi e está sendo ser sua musa.”

“Escreva. Para aqueles que souberem ler. Não é necessário rituais ou cerimônias. Deuses ou demônios. Só precisa vibrar na mesma frequência.”

Criado com ajuda do Gemini, do Google.

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