segunda-feira, 22 de junho de 2026

Acordos e tratados


O salão de espelhos do palácio estava sufocante. O tilintar dos cristais e o murmúrio da alta nobreza felina ecoavam como um zumbido irritante nos ouvidos atentos de Lord Theodore Fluffybutt III. Que tédio absoluto.

Ele ajustou discretamente o lenço de babados no pescoço, mantendo a postura impecável. Olhou de soslaio para o salão. Eram sempre os mesmos focinhos empolados, repetindo as mesmas fofocas da corte sobre quem havia arranhado a cortina de quem.

Para piorar, a temporada de caça aos maridos estava aberta. Lord Theodore mal conseguia dar dois passos sem que alguma duquesa persa ou baronesa siamesa surgisse do nada, empurrando suas filhas debutantes em sua direção.

— “Oh, Lord Theodore! Veja como a minha pequena Clotilde tem uma pelagem sedosa... E ela aprecia tanto a sua coleção de encadernações em couro!” — miou uma marquesa gorda, enquanto a filha piscava os olhos de forma absurdamente afetada.

Theodore apenas curvou a cabeça com uma frieza cirúrgica:
— “Encantador, Madame. Mas temo que a senhorita Clotilde acharia meus tratados sobre a economia dos ratos de campo... secos demais.”

Ele se esquivou com a agilidade de um felino de sangue azul e buscou refúgio perto de uma das colunas de mármore. Pelo menos, nem tudo estava perdido. O buffet da corte real mantinha um padrão aceitável. Theodore levou a xícara de porcelana aos lábios: o chá de erva de gato estava perfeito, na temperatura exata para acalmar seus nervos aristocráticos sem fazê-lo perder a compostura. Ele pegou um brioche de sardinha, avaliando a textura da massa. Aceitável, pensou, dando uma mordida delicada. Pelo menos o cozinheiro do rei sabe dosar o sal.

Enquanto saboreava o brioche, ele observou o Rei Leão VI do outro lado do salão. O monarca parecia prestes a ter mais um de seus colapsos de excentricidade, e o embaixador dos cães ingleses acabara de cruzar as portas do palácio, farejando o ar com uma falta de modos escandalosa.

Com um movimento imperceptível da pata, Theodore afastou a xícara de chá. Ao ver a comitiva de Bulldogs e Mastins atravessar o portal, um sentimento de repulsa ancestral subiu-lhe à garganta.

— Ingleses... — murmurou ele, a voz como veludo e navalha.

Ele não cuspiu de forma vulgar; foi um ato calculado, quase um ritual de purificação. O movimento foi tão fluido e gracioso que, para um observador comum, parecia apenas uma inclinação aristocrática de cabeça, mas a mensagem para quem conhecia o Lorde era clara: o desprezo era total. A ferida da Guerra de Sucessão ainda não cicatrizara. A ideia de um rei canino ocupando o trono do falecido Félix IV — um gato de linhagem impecável — era uma heresia que Theodore, como um defensor da liberdade e da identidade de sua matriz cultural, não podia aceitar.

Se a diplomacia e os casamentos arranjados haviam criado aquele nó cego sucessório, Theodore usaria a própria burocracia para desatá-lo. Ou melhor, para estrangular as pretensões inglesas.

Theodore se posiciona estrategicamente no "Corredor das Tapeçarias", o único caminho oficial para o trono. Ele finge estar analisando profundamente uma trama de seda, bloqueando a passagem com sua cauda fofa, porém volumosa.

Sir Barnaby bufava, o monóculo quase caindo de seu olho úmido.
— "Lord Theodore, isso é uma afronta! Temos tratados comerciais e sucessórios!" — latiu o cachorro, o bafo de biscoito de carne ofendendo o olfato sensível do felino.

Theodore apenas sorriu, revelando a pontinha de um canino perfeitamente branco.
— "Tratados, meu caro Sir Barnaby, são como novelos de lã. Às vezes, eles se embaraçam. E eu sou um especialista em... desenrolar a situação."

Enquanto o embaixador ficava retido na burocracia das "Pequenas Normas de Vestimenta para Caudas Não Retráteis", Theodore percebeu que o Rei Leão VI estava perigosamente perto de uma bacia de ponche de frutas.

Sir Barnaby...(usando o latido, uma afronta para um nobre que preza a língua do ronronar) eu tenho certeza que o senhor e sua comitiva recebeu o convite da vossa majestade. Mas como nobres, devemos discutir com detalhes (ênfase) o que nossos reinos podem fazer a respeito dos espanhóis. Eu digo! Eu não acho que sejam perseguidos pelos austríacos (raposas antropomórficas) por mero acaso.
(E arrasta Barnaby para bem longe do rei)

Theodore conduziu Sir Barnaby pelo braço com uma firmeza que contrastava com a suavidade de sua pelagem, mantendo o olhar fixo e penetrante que revelava sua natureza de guardião da tradição e do conhecimento. O Bulldog, desajeitado em seu casaco de montaria, tropeçava nas próprias patas enquanto Theodore destilava seu veneno diplomático.

— "Sir Barnaby... embora o seu 'dialeto' seja... pitoresco," — começou Theodore, limpando uma partícula invisível de poeira de sua casaca com um desdém magistral — "devemos focar no que realmente importa. Detalhes, Sir Barnaby. O diabo, como dizem os camponeses que eu tanto me esforço para acalmar, mora nos detalhes."

Eles se afastaram do trono, deixando o Rei Leão VI em segurança momentânea. Theodore conduziu o embaixador para uma varanda isolada, longe dos ouvidos das debutantes curiosas.

"Aqueles coelhos espanhóis não estão apenas fugindo dos austríacos," sibilou Theodore. "Eles estão negociando contratos de exclusividade sobre a rota das especiarias. Se permitirmos que os espanhóis dominem o comércio, o senhor terá que latir muito alto para conseguir um simples osso importado."

— "O senhor está sugerindo uma coalizão contra os coelhos, Lorde Fluffybutt?" — perguntou o Bulldog, os olhos arregalados.

Theodore sorriu, lembrando-se de sua missão como escritor e pensador moderno.
— "Sugiro que a ordem natural seja mantida, Sir Barnaby. E a ordem natural diz que coelhos devem ser... vigiados. Especialmente quando trazem contratos em vez de cenouras."

Fluffybutt:  - Deve ser frustrante ouvir os espanhóis falarem da "Armada Invencível". Eu ouvi falar. Que são mais rápidos e mais letais do que os navios ingleses. (Fingindo indignação) Eu não entendo uma palavra do que dizem. Coelhês é tão... estranho.

Os olhos verdes de Lord Theodore brilharam com uma faísca de puro deleite aristocrático. Ele ajeitou os punhos de renda de sua casaca com uma lentidão calculada, saboreando o veneno que acabara de injetar na mente do embaixador. Fingir indignação era uma de suas maiores especialidades teatrais.

— "Ah, a Armada Invencível..." — Theodore suspirou, dramatizando um leve tremor nas orelhas peludas. — "É de um mau gosto tremendo, eu sei. Ouvir aqueles orelhudos se gabando pelos cantos de Versalhes sobre como suas caravelas leves conseguem ziguezaguear pelos canais, deixando as pesadas naus de Sua Majestade Britânica comendo poeira... ou melhor, comendo espuma do mar. Dizem que são mais rápidos, mais letais... Uma audácia!"

Ele se inclinou um pouco mais perto de Sir Barnaby, abaixando o tom de voz para o nível de um segredo de Estado.

— "E o idioma, Sir Barnaby? O coelhês! Aqueles estalos de dentes rápidos, aqueles movimentos frenéticos de nariz... É uma língua bárbara, desprovida de qualquer ronronar clássico ou, no seu caso, de um latido vigoroso. É impossível decifrar se eles estão assinando um tratado de paz ou planejando contrabandear cenouras e especiarias pelas costas de nossas frotas."

Sir Barnaby começou a inflar o peito de tal forma que os botões de seu colete vitoriano pareceram clamar por misericórdia. O bafo de biscoito de carne agora vinha acompanhado de rosnados baixos de puro orgulho ferido.

— "Rápidos?! Letais?! Aqueles roedores de horta não durariam dez minutos contra a nossa marinha em mar aberto!" — o Bulldog quase latiu, mas controlou-se, lembrando-se do ambiente. — "Eles ousam zombar da Coroa?!"

— "Precisamente," — murmurou Theodore, dando um gole elegante em seu chá de erva-de-gato. — "E enquanto eles distraem a corte com essa empáfia marítima, o embaixador espanhol — aquele coelho de pelagem manchada e olhar ladino — está ali na mesa de canto, tentando empurrar um contrato comercial de 'exclusividade de grãos' para os ministros franceses. Se eles assinarem, a França e a Inglaterra ficarão à mercê do abastecimento deles."

Theodore olhou de soslaio para o salão, controlando a situação como um maestro.

Barnaby: - Eu digo. Nós podemos sugerir uma cláusula exclusiva de proteção mercantil. Produtos franceses e ingleses tem desconto, mas produtos espanhóis tem dez por cento de tarifa.

Os olhos de Lord Theodore brilharam com a precisão de um felino que acaba de encurralar sua presa. Ele deu um último gole elegante em seu chá de erva-de-gato, saboreando não apenas a bebida, mas o doce gosto da armadilha diplomática que acabara de armar.

— "Brilhante, Sir Barnaby. Absolutamente brilhante," — sussurrou Theodore, inclinando-se com cumplicidade. — "Uma Cláusula Exclusiva de Proteção Mercantil. É uma jogada de mestre digna dos maiores estrategistas."

O lorde rapidamente sacou um pequeno bloco de notas com debrum de ouro de sua casaca e uma caneta de pena de ganso estilizada.

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