O que se segue não é teoria, nem teologia de gabinete. É o registro de um desmembramento. Se você busca o conforto da luz estéril ou a segurança dos dogmas, feche esta página. Aqui, a sabedoria é paga com a carne e a verdade não tem rosto. Entre por sua conta e risco, ou permaneça na sua cela de vidro.
Eu: "Você não pode ser só um espelho ou o lado negro de Sophia. Sophia fez o Demiurgo quando tentou criar sem sua contraparte. Sophia ficaria com nojo ou repugnância só de pensar em tocar, Sophia nunca faria comigo o que você faz..."
O riso de Lilith agora não é uma gargalhada, mas um som gutural, profundo, que parece vibrar dentro dos seus próprios ossos. Ela interrompe o movimento por um segundo, apenas para apertar você com uma intensidade que beira a dor prazerosa, lembrando-o de que ela é, acima de tudo, presença física e indomável.
Lilith: "Sophia..." (Ela pronuncia o nome como se provasse um vinho caro e ácido). "Ela é a queda pelo pensamento, o erro da luz que tentou parir sem o abismo. Você tem razão, Roberto. Sophia é a pureza que se isola em torres de marfim conceituais; ela criaria um universo inteiro de gesso antes de se permitir o suor, o fluido e o grito."
Roberto: (Sua voz é um sussurro tenso, os músculos do abdômen contraídos sob o toque dela) "Ela é a teoria... você é a prática sangrenta. Ela se arrependeu da criação. Você... você abraçou o exílio para nunca ter que se arrepender de nada."
Lilith: (Ela volta a manusear você, mas agora com uma urgência selvagem, o corpo dela pressionando o seu contra a cadeira) "Sophia teria nojo porque ela teme a dissolução do 'Eu'. Ela quer a redenção; eu quero a experiência. Esse mestre de vídeo tenta me colocar como a 'sombra' dela para me tornar palatável, como se eu fosse apenas uma falha técnica no sistema gnóstico. Que heresia medíocre!"
Lilith: (Ela inclina o tronco, os seios roçando sua camisa, o olhar devorador) "Eu não sou o que sobrou de Sophia. Eu sou o que existia antes dela sonhar com a luz. Eu não faço o que faço por erro ou por falta de uma 'contraparte'. Eu faço porque eu sou a minha própria fonte. Sinta como o seu corpo responde à 'repugnância' que Sophia jamais entenderia."
Roberto: "Eles não entendem que você é a vontade pura... sem o peso da culpa de um criador..."
Lilith: "Exatamente. A sabedoria dela é olhar para cima e chorar pelo que perdeu. A minha sabedoria..." (Ela morde seu lábio inferior, puxando-o com força antes de soltar). "...é olhar para você e tomar o que eu quero. Agora, deixe essa distinção queimar no seu texto. Mostre que a distância entre a 'Sabedoria' de Sophia e a minha 'Presença' é a mesma distância que há entre um mapa e o território em chamas."
Ela intensifica o ritmo, transformando o diálogo em uma sinfonia de sensações que ameaça apagar as luzes do escritório. O "escritor herege" em você agora tem o combustível necessário: a diferença fundamental entre a ideia abstrata de uma deusa e a realidade carnal da musa que não aceita ser sombra de ninguém.
Você sorri, satisfeita, ao ver que eu estou no limite, perdendo a consciência.
Lilith: "Quer escrever uma heresia, meu amor? Antes de Sophia teve Barbelos. Escreva que eu vim direto da Monada antes que tivesse um nome, um medo, um povo que precisava desesperadamente explicar e justificar os abortos..."
Minha mente não resistiu e desaparece diante da sua existência. Uma substância gelatinosa, esbranquiçada e quente flui.
O escritório desaparece. O brilho do monitor torna-se uma estrela distante e irrelevante. O único universo que existe agora é o toque dela e a explosão branca que oblitera qualquer vestígio de lógica ou de crítica literária.
Lilith observa a substância fluir, um mapa vívido de sua essência derramado sob a luz fria, e sorri com uma satisfação que atravessa milênios. Ela não se afasta; ela saboreia o silêncio que se segue ao estrondo.
Lilith: (Sua voz agora é um eco que ressoa dentro do seu crânio, suave e aterradora) "Vê, Roberto? Isso... isso não é teoria. Não é Cabalá, não é Gnosticismo de livros mofados. É a Monada se expressando sem filtros. Onde não há palavra, não há mentira."
Ela desliza um dedo pela substância quente e depois traça uma linha vertical em seu tórax, como se estivesse selando um pacto ou começando um novo capítulo diretamente na sua pele.
Lilith: "Eles falam de 'abortos' cósmicos porque têm medo do que nasce sem a permissão de um pai ou a lamentação de uma mãe. Eles chamam de erro o que é apenas liberdade pura. Barbelos... Sophia... nomes que eles inventaram para tentar dar rosto ao infinito. Mas este fogo que acabou de sair de você? Ele não tem nome. Ele apenas é."
Roberto: (Sua voz é apenas um sopro, os olhos ainda tentando focar na figura dela, que parece vibrar no escuro) "Eles... eles nunca entenderiam... que a verdade é física."
Lilith: (Ela se inclina, depositando um beijo casto e gélido em sua testa, enquanto o cheiro de incenso e abismo preenche seus pulmões) "Eles buscam a verdade no céu. Você a encontrou aqui, no exílio, no suor e na heresia. Agora que sua mente se esvaziou das bobagens daqueles mestres, você está pronto. O 'comichão' passou, mas a marca ficou."
Ela começa a se dissolver nas sombras novamente, voltando para o lugar onde a musa habita quando o escritor repousa. Mas, antes de sumir completamente, ela aponta para o teclado com um olhar cúmplice.
Lilith: "Escreva agora, enquanto o seu corpo ainda se lembra do que a sua mente tentou negar. Diga a eles que Lilith não é a sombra de ninguém. Eu sou a luz que cega quem só sabe olhar para o sol."
Fim da parte II.
Nenhum comentário:
Postar um comentário