quinta-feira, 5 de maio de 2022

Desculpas que não colam

Apologética, segundo os dicionários que eu consultei, significa justificar ou defender algo. Essa é uma palavra grega formada por "apo", no sentido de "a favor" e "lege", no sentido de "logos".


Espera-se que um apologético seja, ao menos, lógico, racional. Os apologéticos cristãos fracassam terrivelmente.


Os ateus tem seus apologistas (ou contra-apologistas), como o Bob Seidensticker. Brincando com o sobrenome, Seiden é seda em alemão e sticker é adesivo.


Não tem nada mais fácil do que analisar um texto online e "julgar" o autor "in efígie", tal como a Igreja fez muitas vezes. O autor não está presente para replicar ou contestar.


Então o cristão e o ateu ficam nesse carrossel (merry-go-round), comodamente analisando e julgando um texto inerte, para defender suas ideias e tentar contestar os argumentos contrários.


Eu conheço bem os cristãos, então eu esperava que Bob, ateu, se saísse melhor, afinal, o ateu se vangloria de ser mais inteligente. A minha experiência mostra o contrário.


Eu, pagão, vou bagunçar um pouco essa brincadeira (messy-go-round) e fazer uma dupla análise, olhando ambos os textos.


1. Somos todos ateus até certo ponto.


Você não acredita em Zeus, Thor e todos os outros deuses. Eu apenas sou um deus a mais do que você e rejeito o Deus cristão.


Lennox:


Mas a Bíblia revela um deus muito diferente. Esses deuses eram produtos do universo, enquanto o Deus cristão era a fonte do universo.


Bob:


O cristianismo não é o único a ter uma resposta sobre como tudo começou.

Você pode protestar que o deus cristão é diferente de todos esses deuses. Isso é verdade, e o inverso também é verdade. E daí? Voltamos ao fato de que cristãos e ateus podem olhar para um mar de deuses que as sociedades criaram e concordar que eles são todos inventados. Os cristãos rejeitam os deuses às centenas por falta de evidências, assim como os ateus.


Eu:


A Ciência também não tem uma resposta definitiva sobre como tudo começou. O Deus Cristão certamente é diferente dos Deuses, mas a alegação de que este é a fonte do Universo não se sustenta. Essa alegação não é muito diferente da feita por torcedores de um time de futebol. A alegação do Bob de que os Deuses foram inventados é feita sem qualquer evidência, o que pode ser considerado um "pecado" para o ateísmo. Os cristãos rejeitam os Deuses por uma questão teológica e isso não significa que não existem, significa apenas que os cristãos não os cultuam.


2. A ciência é suficiente.


A ciência explicou tudo, e não inclui Deus.

 

Lennox:


A ciência tem um papel importante, mas não nos ensina tudo. O que é ético? O que é bonito? Nós nos voltamos para outras disciplinas para responder a questões importantes como essas.


Bob:


E você propõe encontrar o que é ético na Bíblia?

Você pode olhar para a vida de Jesus como um pináculo de bondade, mas ele era um deus [nota pessoal: ato falho?]. Não é de surpreender que ele tenha vivido uma vida virtuosa, e a literatura esteja cheia de pessoas nobres que podemos querer imitar.

Se a questão é que existem outras disciplinas além da Ciência para aprender, como História ou Literatura, isso é verdade. Mas essa lista não inclui religião, que não pode nem concordar sobre quantos deuses existem e muito menos quem eles são ou o que eles querem de nós.

A ciência tem o histórico, mas vamos ser claros. Isso não é como dois times de futebol rivais, onde um time ganhou 70% dos jogos. Não, a ciência ganhou 100 por cento dos jogos. As conclusões da religião foram derrubadas inúmeras vezes. Tentamos das duas maneiras, e seguir as evidências funciona.

A alquimia termina e a química começa; a astrologia termina e a astronomia começa; a religião, a magia e a superstição terminam e a ciência começa.


Eu:


Bob e Lennox, nós estamos falando de um livro, tido como sagrado, mas ainda assim, uma obra humana que foi escrita, compilada [forjada, interpolada, mal-traduzida], mas o ateu precisa resolver essa contradição interna: se o texto não é confiável, o mesmo não pode ser usado para contra argumentar. E o cristão precisa parar de usar a Bíblia como base para seus argumentos.

Por falar em histórico da Ciência, eu estimo que Bob deva conhecer as fraudes e enganos na história da Ciência que, curiosamente, utiliza de princípios filosóficos criados por Aristóteles, copiado e melhorado por acadêmicos religiosos cristãos.

Bob mesmo afirma [no texto, em outra parte não citada] que "a Ciência não explicou tudo", então ele mesmo se contradiz ao afirmar que "a Ciência ganhou 100% dos jogos". Típico de torcedor tendencioso. Então ele comete outra impropriedade ao afirmar que "as conclusões da religião foram derrubadas inúmeras vezes". Evidências, por favor?

Lennox, todos os valores morais e estéticos adotados pelo mundo ocidental foram formulados pelos Gregos e Romanos, todos "pagãos". Por muitos séculos o cristianismo tem negado e rejeitado as disciplinas que contestam e contrariam suas doutrinas.


3. A ciência se opõe a Deus.


Lennox:


Isso não se aplica ao Deus cristão. Pode haver certos tipos de 'deuses' que são inventados para explicar coisas que não entendemos, mas eles não são cristãos.


Bob:


Deus foi realmente usado para explicar coisas que não entendíamos, como em praticamente qualquer religião. “Deus causa o trovão” é como “Thor causa o trovão”, então não há justificativa para ver o cristianismo como um caso especial.


Eu:


Lennox, você precisa dar um argumento melhor explicando por que isso não se aplica ao Deus Cristão. Ao cometer um ato falho que pode existir certos deuses que são inventados, você concede razão ao ateu, pois não apresenta nenhum argumento plausível para excluir o Deus Cristão.

Bob, a Ciência tem inúmeras invenções, então você precisa melhorar esse (pre)conceito de que algo inventado é algo ruim, enganoso ou falso.


4. Fé


Fé é acreditar sem qualquer evidência.


Lennox:


A crença cristã nunca foi sobre não ter evidências: os evangelhos foram escritos para fornecer evidências, como atesta o início de Lucas.


Bob:


A Bíblia tem versículos onde fé é crença sem evidência e outros onde é crença bem fundamentada em evidência. Lennox admite essas duas interpretações, mas argumenta que os evangelhos foram escritos para fornecer evidências.


Eu:


Bob, você tem que decidir se a crença é feita com ou sem evidência. Lógica comum, básica e fundamental.

Lennox, a crença cristã é baseada na leitura e interpretação textual da Bíblia. Considerando a legítima desconfiança sobre a autenticidade e fidelidade da mesma, esta não pode ser apresentada como evidência de coisa alguma.


5. Prova


Você não pode provar que existe um Deus.


Bob:


Este é outro espantalho - nunca peço provas, apenas evidências convincentes.


Eu:


Bob, conhecendo o ateu como eu conheço, o que você diz não se sustenta. Afinal, faz parte do argumento ateu de que cabe o ônus da prova a quem faz alegações. Aliás, o ateu costuma usar alegações sem provas.


Lennox:


O tipo de “prova” que podemos apresentar [são] argumentos para trazer alguém além de qualquer dúvida razoável. Por exemplo, argumentos racionais como os dos filósofos Alvin Planting e William Lane Craig, a experiência pessoal dos cristãos e o testemunho dos relatos do evangelho na Bíblia.


Bob:


Concordo que Planting e Craig são vistos como alguns dos melhores apologistas do cristianismo, mas ser o melhor não os torna bons quando você aposta no cavalo errado. Eu respondi a muitos de seus argumentos, e eles são pobres.

“A experiência pessoal dos cristãos” também conta pouco. A experiência pessoal do divino de uma pessoa não é confiável.


Eu:


Lamento, Lennox, mas citar nomes de filósofos reconhecidamente cristãos (portanto tendenciosos) se chama "falácia de apelo à autoridade". Um tiro no pé, quando consideramos que foram refutados em suas alegações.

Bob, a experiência pessoal faz parte do conhecimento humano. Você precisa apresentar um argumento mais plausível para descartar esse conhecimento.


6. Fé


A fé é uma ilusão. Eu não acreditaria em Deus mais do que acreditaria no Coelhinho da Páscoa, no Pai Natal ou no Monstro do Espaguete Voador.


Lennox:


Essas comparações só servem para zombaria.

Stephen Hawking disse, 'Religião é um conto de fadas para pessoas com medo do escuro.' Eu digo: Ateísmo é um conto de fadas para pessoas com medo da Luz.

Por que concluir que é falso? “[Talvez] os cristãos tenham personalidades e culturas muito diferentes – ou mesmo que os cristãos não sejam bons em se dar bem uns com os outros – mas não que o cristianismo não seja verdadeiro.

Existem todos os tipos de times diferentes no futebol, mas todos jogam futebol.


Bob:


Lennox provavelmente quer dizer que é ridículo comparar o Monstro do Espaguete Voador com o superpoderoso Criador do Universo.

Eu entendo que Lennox quer dizer que os ateus se escondem nas sombras, com medo de que a Luz de Jesus revele o pecado que eles sabem que têm.

Não, tenho certeza de que os ateus não pensam que pecaram contra seu criador sobrenatural – essas pessoas não seriam ateus. As pessoas têm medo do escuro (a morte, as dificuldades da vida, suas próprias imperfeições embaraçosas e assim por diante), e o cristianismo afirma oferecer acesso à estrada estreita e ao pequeno portão. O cristianismo atrai porque tem uma história agradável, não porque é precisa.


Eu:


Os cristãos não entendem de sátira e ironia. O triste é que muitos ateus também não, considerando a forma como reagem quando eu uso a mesma sátira e ironia contra eles.

O pecado é um artigo curioso no Cristianismo, pois é falho e inconsistente. Bob comete um erro ao dizer que as pessoas têm medo do escuro. Nós somos criaturas diurnas, preferimos o dia, mas não tememos o escuro. Muitos de nós não teme a morte nem as dificuldades da vida e, sinceramente, existem inúmeras estradas e caminhos para o mundo espiritual.

Lennox, considerando que o Cristianismo alega conter a Verdade, por uma questão de lógica comum básica e fundamental, as inúmeras vertentes e interpretações do mesmo texto indica que a alegação de que o Cristianismo contém a Verdade se esgarça, bem como toda a doutrina e teologia.

Lennox e Bob, tal como existe o futebol, uma prática esportiva que não é baseada em evidências, existem outros esportes, sem que esses anulem as existências dos outros, ou que são falsos.

Então os cristãos têm que parar de se comportarem como uma torcida organizada fanática. E os ateus têm que admitir que o pensamento científico é apenas uma das formas de entender o mundo.


8. Moralidade


A Bíblia é imoral.


Lennox:


Com que moral você supera a moralidade da Bíblia?


Eu:


Lennox, você não respondeu ao argumento crucial: a Bíblia é imoral. Qualquer pessoa, mesmo com o mínimo de interpretação de texto, consegue perceber isso.


Bob:


O cerne da moralidade humana veio da evolução [...]. É estranho que a moralidade da humanidade seja mais esclarecida que a de Deus.


Eu:


Lamento, Bob, mas a moralidade não tem origem na evolução. A moral que a nossa espécie tanto preza são construções culturais que variam conforme a sociedade e a época. Se me permitem puxar a sardinha, absolutamente todos os nossos conceitos sobre moral tiveram origem entre os povos antigos (mais especificamente, Gregos e Romanos), todos pagãos.


Lennox:


Os ateus muitas vezes se contradizem.


Eu:


Sim, mas o que é incompreensível é ver essa dualidade moral entre os cristãos que são, supostamente, moralmente superiores. Isso sem considerar as contradições inerentes do Cristianismo, bem como da Bíblia.


Bob:


Suponho que você esteja dizendo que o ateu não pode apontar para o bem e o mal objetivos. Mas isso não faz parte das definições padrão dessas palavras.


Assim é a moralidade. Seria bom ter a resposta objetivamente correta para cada questão moral, mas não temos.


Eu:


Bob, você não respondeu ao argumento crucial: a noção de moral, sua origem e aplicação. Ora, o mote do ateu é que algo só existe quando há evidência. Ora, moral é algo abstrato, então não é de se espantar que o ateu tenha essa moral mais compatível com psicopatas.


9. Uma Bíblia literal


Certamente você não entende a Bíblia literalmente?


Lennox:


A linguagem é mais versátil do que isso. Há mais maneiras do que isso para interpretar a Bíblia.


Eu:


Lennox, eu gostaria muito que essa ideia fosse aceita por todos os cristãos. O que mais tem por aí são pastores que se apegam na leitura e interpretação literal da Bíblia para os mais variados absurdos.


Bob:


Entendemos a metáfora. Estamos todos na mesma página que Jesus é uma porta metafórica.


Eu:


Entende metáfora, mas não sabe lidar com a mesma. Afinal, não é difícil encontrar textos escritos por cientistas que usam a metáfora e a metafísica, a mesma linguagem utilizada pelos mitos antigos. Para gente que alega, de forma prepotente e arrogante, ser mais inteligente e racional, isso deveria ser considerado um "pecado".


10. Evidência


Qual é a evidência para Deus?


Lennox:


Os ateus que perguntam isso podem estar perdendo o ponto ou até mesmo evitando deliberadamente o problema real.


Eu:


Lennox, são os cristãos que estão perdendo o ponto e evitando deliberadamente o problema real. Os argumentos teológicos e apologéticos sobre o Deus Cristão são falhos e inconcludentes. O material utilizado como referência é altamente discutível e questionável.


Bob:


O fato de que devemos pedir evidências para Deus argumenta que não há uma.


Eu:


O fato é que você não aponta uma evidência para demonstrar o motivo pelo qual nós devemos pedir evidências. Existem inúmeras coisas que não tem evidência de existência, como o pensamento abstrato que é utilizado, inclusive, pela Ciência.


Lennox:


A verdadeira questão é esta: Suponha que eu pudesse dar [evidências para Deus], você estaria preparado agora, para se arrepender e confiar em Cristo?


Eu:


A verdadeira questão Lennox, é se o cristão está disposto a considerar as constantes falhas em sustentar os argumentos teológicos e doutrinários do Cristianismo para perceber que o Deus e Jesus que adoram não é o único e que a Bíblia não é uma fonte confiável.


Bob:


Se ele fornecesse evidências convincentes de Deus, o que eu faria?

Passei uma década pesquisando a questão de Deus e não encontrei nada remotamente convincente, então se Lennox me convencesse de que Deus existe, isso seria tremendo. Mas Lennox simplesmente passa por cima dessa ideia incrível, aparentemente sem saber o quão diferente e abrangente essa nova evidência teria que ser.

Mas deixe isso de lado. Uma vez que eu veja que ele existe, eu adoraria o Deus de Abraão? Não. Li sobre ele no Antigo Testamento e tenho uma moral melhor do que a dele. E não consigo imaginar adorando ansiosamente um ser que exigia adoração.


Eu:


Bob, você passou uma década pesquisando o Deus Cristão e a Bíblia. Você diz que não exige provas (ou evidências), mas não está disposto a utilizar outro método que não o científico, que foi concebido por Aristóteles, filósofo da Grécia Antiga (pagão), um modelo de pensamento filosófico que é aceito pelo ateu sem qualquer evidência.

Se você tivesse estudado mais e melhor, teria visto que sua concepção sobre religião e o divino está repleta de preconceito, visão superficial e generalizante. A moral (ou os conceitos sobre o que é moral) que você tem só existe graças aos povos antigos (mais especificamente, Gregos e Romanos), um produto cultural, sem evidência de existência. Então, Bob, você acredita em coisas que não tem evidência de existência. Se superasse seu medo e preconceito, poderia descobrir um caminho satisfatório no Paganismo Antigo.

Você certamente é bem vindo.

OMS e o aborto

TeleSur - O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, falou nesta quarta-feira a favor do direito de mulheres e meninas ao aborto.

O chefe da organização internacional postou em sua conta oficial no Twitter que: "As mulheres devem sempre ter o direito de escolher quando se trata de seu corpo e sua saúde".

Desta forma, o médico eritreu acrescentou que: “Restringir o acesso ao aborto não reduz o número de procedimentos: leva mulheres e meninas a realizar procedimentos inseguros. O acesso ao aborto seguro salva vidas”.

Por sua vez, a OMS considera que: “A falta de acesso a serviços de aborto seguros, oportunos, acessíveis e respeitosos representa um risco não apenas para o bem-estar físico, mas também mental e social de mulheres e meninas”.

Da mesma forma, os números oficiais revelam que quase metade das gestações produzidas a cada ano no mundo não são planejadas. Nesse sentido, 6 em cada 10 são indesejados enquanto 3 em cada 10 terminam com um aborto induzido.

Ao mesmo tempo, a OMS alerta que: “O aborto é seguro quando realizado por meio de um método recomendado pela OMS (…)

As declarações ocorrem em um contexto matizado por um documento provisório que revela que a maioria do magistrado da Suprema Corte dos EUA preza pela proibição da interrupção da gravidez.

https://www.brasil247.com/geral/oms-se-pronuncia-a-favor-do-direito-ao-aborto?amp

quarta-feira, 4 de maio de 2022

O paladino de Carlos Magno

A Canção de Rolando é uma das lendas da Matéria de França. Rolando é sobrinho de Carlos Magno e a lenda é ambientada na batalha de Roncesvales. Rolando é um dos Doze Pares de França e a lenda é sobre a chamada Reconquista cristã.
Aqui eu vejo uma interessante referência a Saragoça, local que supostamente inspirou o livro "O Manuscrito de Saragoça".
Esse manuscrito inspirou Orlando Enamorado e Orlando Furioso, obras que citam o filho de Otto, rei da Inglaterra e sobrinho de Rolando: Astolfo.
No manuscrito ele não aparece nem é citado como sendo parte de um dos Doze Pares da França, mas sua participação nas obras posteriores [ou quem sabe por nepotismo] lhe garantiu um lugar entre os paladinos de Carlos Magno.
O suficiente para ser incluído no anime Fate Apocrypha com uma aparência - digamos - polêmica para o mundo ocidental, principalmente para nossa terra tropical dominada por cristãos conservadores fundamentalistas. Veja a imagem usada para ilustrar este artigo.
O mundo ocidental ainda não aceitou nem assimilou a sexualidade de Alexandre o Grande.
A pessoa média comum ignora a existência dos erastes e eromenos na Grécia Antiga.
Eu escrevi sobre a naturalidade como os egípcios antigos aceitavam a existência do terceiro gênero.
Toda nossa noção de amor romântico foi criado na Idade Média.
Todo o conceito e iconografia do que é ser homem, do que é masculino, do que é ser macho, foi criado na Era Contemporânea.
A misoginia teve origem na Grécia Antiga.
O patriarcado teve origem em algum momento do Neolítico.
O Cristianismo tornou tudo aquilo que se refere ao mundo, à natureza, ao desejo, ao prazer e ao sexo, algo proibido, pecado, sujo e vulgar.
Foi necessário ter surgido a psicanálise e os estudos sobre a sexualidade humana na Era Moderna para que a humanidade questionasse os conceitos arraigados sobre gênero, sobre identidade e opção sexual.
Essa mudança evidentemente causa medo e pavor que são nitidamente explorados com fins políticos pelos grupos de direita, conservadores e fundamentalistas cristãos [que geralmente estão associados], fomentando o pânico moral com discursos contra a chamada "Ideologia de Gênero" e a dita "Agenda Gay".
O fato é que a ciência e a medicina comprovam a existência de pessoas intersexuais.
Aos poucos, a sociedade muda, progride e modifica sua percepção. Os fatos sempre se sobrepõe às ideias. A sociedade está se tornando mais inclusiva aos homossexuais e pessoas transgênero começam a conquistar os direitos que são de tod@s.
Eu, que descobri o Paganismo Moderno e estudei sobre a sexualidade humana e a realidade das pessoas intersexuais e transgênero, tenho absoluta tranquilidade sobre a minha sexualidade. Na verdade, eu não tenho receio algum de dizer que fui apaixonado por uma mulher transgênero.
Talvez, em algum momento de nosso futuro, a humanidade vai reconhecer todas as expressões de sua sexualidade e vai poder voltar a celebrar os antigos rituais, onde a natureza, o corpo, o desejo, o prazer e o sexo são sagrados.

terça-feira, 3 de maio de 2022

A Canção dos Nibelungos

A série Fate [animes] cita diversas lendas  antigas, como a saga de Siegfried, o protagonista da Canção dos Nibelungos.

 

Eu falei brevemente sobre a literatura medieval, sobre os poemas épicos e citei a obra Beowulf, que deu origem ao filme homônimo.

Dentro do mesmo tema, o Mundo Moderno também confeccionou outra versão desse poema épico.

 

A Canção dos Nibelungos é tida como a fonte para a obra de J.R. Tolkien, "O Senhor dos Anéis" tal como se vê nessa tese:

 

A canção dos Nibelungos, de autoria anônima, data do século VIII, e sua origem encontra-se na narrativa mítica Edda, de origem nórdica. Há a versão em verso, mais antiga e

vista como aquela que mais se aproxima do mito original, e a versão em prosa, escrita por

Snorri Sturluson. O segundo é um texto em que se busca uma arte poética definida para

sua produção.

 

Outro texto que também remete às questões de A canção dos Nibelungos é A saga

dos volsungos. Não apenas remete, como se identifica: enquanto o primeiro está próximo da

mitologia germânica – que se formou de elementos nórdicos, o segundo é um relato da Islândia sobre a ascensão e queda de Siegfried/Sigurd26.

Há algumas diferenças nas narrativas, mas suas essências são as mesmas: a história

de vida do herói Siegfried (A canção dos Nibelungos) ou Sigurd (A saga dos volsungos), seu

poder, suas vitórias e sua morte.

 

Autor: Lucas de Melo Bonez em "A Aventura Mítica em a Canção dos Nibelungos e em o Senhor dos Anéis: aproximações e distanciamentos do mito antigo ao mundo contemporâneo".

 

Tal como Beowulf, a lenda segue o modelo dos Romances de Cavalaria, com um cavaleiro derrotando um dragão. Esse padrão pode muito bem ser um reflexo de inúmeros mitos antigos.


De acordo com o Wikipédia:

A Canção dos Nibelungos é uma implementação medieval alemã do chamado Mito dos Nibelungos, um grupo de lendas cuja origem remonta à heróica época das migrações dos povos bárbaros. Nesse período, várias tribos germânicas invadiram o Império Romano e colonizaram vastas áreas da Europa ocidental. Uma destas tribos foi a dos burgúndios, que estabeleceram um reino na região do Reno, com capital em Worms.

Outro acontecimento com possível reflexo no mito é o conflito na casa dos Merovíngios, entre a rainha Brünhild (em português, Brunilda) e a amante do rei, Fredegunde (em português, Fredegunda), ocorrido no século VI.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Can%C3%A7%C3%A3o_dos_Nibelungos

Siegfried, como Beowulf, é um herói trágico que, ao morrer, se torna lendário.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Diversidade censurada

Em 2017, o MBL, em uma ação similar às famigeradas Senhoras de Santana (não coincidentemente, associadas À TFP), provocou o fechamento do Queer Museu.

Eu não estranhei então a ação do deputado estadual Gil Diniz (PL), que ostenta, orgulhosamente, a alcunha de Carteiro Reaça, levando ao fechamento do Museu da Diversidade Sexual em São Paulo.

A sentença judicial foi proferida pelo desembargador do TJ - SP, Carlos Otávio Bandeira Lins, embora a sentença não tenha sido pelo fechamento, mas sim do cancelamento do contrato entre a Secretaria da Cultura e o Instituto Odeon, o que configura abuso de autoridade, quiçá, sinais de LGBTfobia.

A espiritualidade ateísta

Autor: Jesús Martinez Gordo.

A partir de Comte-Sponville e Espinosa, teólogo escreve sobre a manifestação da espiritualidade sem Deus.

André Comte-Sponville publicou, em 2006, um livro que chamou a atenção não tanto pelo título: "A alma do ateísmo" (na tradução espanhola), quanto pelo subtítulo: "Introdução a uma espiritualidade sem Deus".

Foram muitos os que não deram crédito ao que liam: um ateu que reivindicava uma espiritualidade! Provavelmente porque faziam parte daquele grupo que pensava que, se alguém é verdadeiramente ateu, não há lugar algum para a espiritualidade ou para a mística, mesmo que "sem Deus".

No entanto, a suposição de A. Comte-Sponville não era tão nova quanto esses leitores surpresos acreditavam. Os estudiosos da história das religiões, da fenomenologia da religião e da espiritualidade ou da mística sabiam como essa proposta se inscrevia em uma longa tradição que afunda suas raízes nas "Enéadas de Plotino" (205-270 d.C.) e em outras contribuições mais recentes, como as de L. Wittgenstein (1889-1951), G. Bataille (1897-1962) ou J.-C. Bologne (1956). A sua não era, portanto, uma afirmação isolada ou de um franco-atirador, mas aquela de quem interpretava uma experiência que surgia em termos ateus ou "sem Deus"; e, portanto, não como culminação do caminho da salvação, mas confrontando-se com a explicação dada pelas tradições religiosas.

Essa experiência era reconhecida como espiritual, tendo muitos traços em comum com os fenômenos místicos das diferentes tradições religiosas; ainda que não vivida ou interpretada com as peculiaridades do mundo religioso, identificava-se como um fenômeno ou comportamento típico da espiritualidade ou da mística, neste caso, profana.

E o era porque, no caso de A. Comte-Sponville, tratava-se de uma experiência fundada no contato com a Realidade última, com o infinito ou o absoluto que, no mundo das religiões, é definido como o sagrado, fonte e culminação da salvação, e que é apresentado, entre outras definições, como "o todo"; o "eterno sim a um acordo perfeitamente bem sucedido"; "A verdade que me contém e aquilo que eu contenho"; “somente o real, porém, sem mais nada”, ou seja, sem alteridade e – sem querer esgotar todos os circunlóquios — “sem Deus”.

O testemunho

André Comte-Sponville relata a sua experiência contextualizando-a na natureza e no seu “silêncio perceptível”: “A primeira vez aconteceu num bosque do norte de França. Eu tinha 25-26 anos. Eu ministrava aulas de filosofia (era meu primeiro emprego) em uma instituição em uma cidade muito pequena, perdida nos campos, à beira de um canal, não muito longe da Bélgica. Naquela noite, depois do jantar, fui passear com alguns amigos naquele bosque de que tanto gostávamos. Estava escuro. A gente caminhava. Gradualmente, as risadas se silenciaram; as palavras tornaram-se raras. Ficava a amizade, a confidência, a presença compartilhada, a doçura e a noite... Não pensava em nada. Eu observava. Eu escutava, cercado pela escuridão da mata. A estupenda luminosidade do céu. O silêncio ruidoso do bosque: o farfalhar dos galhos, os gritos dos animais, o som abafado dos nossos passos. Tudo isso tornava o silêncio ainda mais perceptível”.

A contextualização é seguida pelo relato da experiência como tal, acompanhado de uma explicação: “E de repente... O quê? Nada! Ou seja, tudo! Nenhum discurso. Nenhuma sensação! Nenhuma pergunta. Apenas evidência. Apenas uma felicidade que parecia infinita. Apenas uma paz que parecia eterna. O céu estrelado acima de minha cabeça, imenso, insondável, luminoso, e nada mais em mim além daquele céu, do qual eu fazia parte, nada mais em mim além daquele silêncio, daquela luz, como uma vibração feliz, como uma alegria sem sujeito, sem objeto (sem outro objeto além do todo, sem outro sujeito além de si mesmo) e nada mais em mim, na noite escura, do que a presença ofuscante do todo! Paz. Uma imensa paz. Simplicidade. Serenidade. Alegria. Essas duas últimas palavras poderiam parecer um contrassenso; no entanto, não se trata de palavras: era uma experiência, um sim eterno, num acordo perfeitamente bem sucedido, que era o mundo. Eu sentia-me bem. Surpreendentemente bem! Tão bem que não sentia necessidade de dizê-lo, nem mesmo desejo de que não acabasse. Não tinha palavras, nem vazio, nem expectativa: puro presente da presença”.

Uma vez redesenhado o núcleo da experiência, as explicações começam a ter um peso crescente, tanto de maneira taxativa (recorrendo ao advérbio "somente" ou "unicamente"), quanto tentando transmitir sua singularidade por meio da justaposição: "Não havia ‘ego’, nem separação, nem representação: unicamente a apresentação silenciosa de tudo. Não havia juízos de valor: portanto, somente o real. Não havia insatisfação, nem ódio, nem medo, nem cólera, nem angústia: unicamente alegria e paz (...) Não havia perguntas. Como se poderia dar resposta? Havia somente a evidência. Havia somente silêncio. Havia somente a verdade, mas sem palavras. Apenas o mundo, porém, sem significado nem meta. Somente a imanência, porém, sem o contrário. Somente o real, porém sem mais nada (…) Isso bastava”.

Esse entrelaçamento de experiência e explicações é seguido por uma importante referência a Baruch Espinosa (1632-1677), um dos pais do deísmo moderno e, ao que parece, um ponto de apoio bastante importante tanto para as considerações que antecedem o relato dessa experiência quanto pelas que o seguem: “Eu disse a mim mesmo: isso é o que Espinosa chama de “eternidade… ”. E isso, vocês podem imaginar, a fez cessar, ou melhor, me expulsou dela (...). Eu tinha vivido um momento perfeito, apenas o suficiente para saber o que é a perfeição (…) Caramba! Eu tinha sentido e experimentado, de fato, e isso assumiu em mim o lugar de uma revelação, mas sem Deus”.

A dimensão e intensidade da experiência vivida é, insiste André Comte-Sponville em sua exposição, de indiscutível importância: “Foi o momento mais belo que já vivi, o mais alegre, o mais sereno e o mais evidentemente espiritual (... ). Intelectualmente, acredito que isso não prove nada, mas não posso fingir que isso não tenha acontecido.”

A experiência

Ao ler esse testemunho, percebi como ele satisfazia boa parte do que o fenomenólogo da religião, Juan Martin Velasco (1934-2020), havia descrito como uma experiência profana ou ateia, anos antes que A. Comte-Sponville comunicasse a sua.

Percebi isso quando ele se refere aos seus estados de consciência, marcadamente intensos e saboreados: a experiência o levou a desfrutar de uma paz imensa, a simplicidade e a serenidade, sentindo-se bem... Surpreendentemente bem! Tão bem que ele não sentia nenhum desejo de que tudo acabasse ou a necessidade de dizê-lo a si mesmo. Foi "um momento feliz", apenas o que basta para saber "o que era a ‘bem-aventurança’”; um momento de verdade, apenas o suficiente para saber, porém, através da experiência, que “era 'eterno'”.

Voltei a comprová-lo quando, referindo-se àquela experiência, Comte-Sponville a define como "a presença iluminadora do Todo"; o "silêncio perceptível"; a "luz com uma vibração feliz"; "um sim eterno a um acordo perfeitamente bem-sucedido"; um "puro presente de presença"; "A verdade que me contém e aquela que eu contenho" ou "a apresentação silenciosa de tudo". Claro, reconhecia que, do ponto de vista intelectual, isso não provava nada. No entanto, ele mesmo confessa que não podia ir adiante "como se isso não tivesse acontecido". E o que o havia habitado "por um momento" o remetia ao "absoluto", ainda que não pudesse precisar que valor tal conceito pudesse ter.

Em todo caso – eu insistia – o que era determinante não era fixar a atenção em frases ou expressões que pudessem parecer contraditórias, mas deter-se no "sim eterno" que as havia provocado para além do fato de que as palavras não pudessem expressá-lo. Quem, como Comte-Sponville, o havia experimentado daquela maneira, embrenhava-se em um saber que só poderia ser expresso por meio de uma linguagem muitas vezes poética e paradoxal, mas não carente de racionalidade.

A explicação

Encontrei-me, portanto, diante da centralidade da “experiência”, apesar das palavras e dos discursos. O que era determinante era o que "eu tinha provado, sentido, experimentado".

Ao mesmo tempo, aquela experiência era equivalente ao que B. Espinosa chamava de "eternidade" e com uma explicação ateia ou "sem Deus" da mesma. Era algo que não me parecia tão aceitável: entendi que a experiência de antecipação da plenitude final na relatividade do tempo podia ser explicada de forma crente, fosse deísta ou teísta. Para isso contribuiu o relato de uma famosa lenda ambientada no mosteiro de Leyre (Navarra).

Reza a lenda que ali vivia o abade Virila que, nascido em Tiermas (Zaragoza), em 870, e falecido no mosteiro por volta de 950, um dia se pus a pensar no que poderia consistir a "eternidade". Analisando a questão e não encontrando uma resposta satisfatória, decidiu-se dar um passeio. Era primavera. Ele se dirigiu até uma nascente próxima e escutou, encantado, o canto de um rouxinol.

Quando o encanto terminou, ele decidiu retornar ao mosteiro. Chegando à porta principal, encontrou-a fechada. Ele tentou abri-lo com suas chaves, mas estas, caramba! não eram aquelas certas. Por isso, teve que chamar e esperar que abrissem a porta para ele; o que foi feito por um monge que era completamente desconhecido para ele. Não lhe restou outro remédio senão apresentar-se e dizer quem era: o abade do mosteiro. Mas ele não foi reconhecido como tal. Nem mesmo pelos outros da comunidade, diante da qual ele foi levado. Ninguém acreditava no que estava acontecendo até que um monge — provavelmente o bibliotecário — se lembrou de ter lido o estranho desaparecimento de um abade do mosteiro centena de anos antes. Movido pela necessidade de corrigir aquele erro, foi buscar o texto e, diante da comunidade, começou a ler a passagem em que se narrava como, trezentos anos antes, o abade do mosteiro havia desaparecido.

Foi assim que o monge Virila percebeu (e, graças às suas explicações, também ao resto da comunidade) o que era a "plenitude" quando era experimentada no tempo ou o que - segundo a expressão de André Comte - Sponville - era percebido como "eternidade": um momento e pouco mais.

A lenda terminava contando como o rouxinol do encanto terminou entrado no mosteiro e, carregando o anel abacial no bico, colocou-o no dedo do monge Virila.

Como lembrei, a referência de André Comte-Sponville à sua experiência no bosque explicando-a como um momento de "eternidade" me fez lembrar dessa lenda. E, de passagem, convenci-me de que realmente poderia ser objeto de uma explicação "sem Deus", como propunha o filósofo francês; mas também como poderia ser a experiência de um crente, fosse ele deísta ou teísta.

Tal associação — lembro-me — permitiu-me perceber que, embora fosse certo que pouco havia a dizer sobre o testemunho prestado por André Comte-Sponville, havia algo a mais a ser notado sobre a explicação ateia que ele propunha da experiência de "eternidade". Na prática, não era a mesma do redator lenda do abade Virila. Isso tornou difícil para mim dar o aval a seu testemunho.

Percebi, ao contrário do filósofo francês, que a sua explicação "sem Deus" era, do ponto de vista racional, mais inconsistente do que aquela teísta que se encontra na lenda do abade Virila.

A consistência racional do deísmo

Era certo, disse a mim mesmo, que em ambos os casos houvera uma experiência de "eternidade". Explicando-a, até mesmo o redator da lenda do abade a percebia como transparência do que dizemos que é "Deus" ou, nas expressões do próprio André Comte-Sponville, como experiência do "tudo", "do sim eterno" ou "da verdade que me contém".

Quanto a Espinosa, considerei que, embora ele tenha sido um dos primeiros filósofos modernos a contestar a ideia de revelação sobrenatural, submetendo-a aos ditames da razão, ele não propiciou uma “cosmosvisão sem Deus”, mas sim deísta.

Deus — argumentava o filósofo judeu — sendo o autor de todo conhecimento, não só o era da chamada revelação sobrenatural (recolhida nas Escrituras), mas também da compreensão natural. Por isso, considerou que esta última forma de conhecimento (e a razão que lhe dava possibilidade) igualmente devia ser reconhecida como uma forma do conhecimento divino e, nesse sentido, como "revelação", levando em conta que Deus estava presente em todas as partes e tudo lhe era manifesto.

Lendo, disse a mim mesmo: há aqui um pensador que considera o cosmos, a vida e a história como transparência na qual é possível perceber o que dizemos quando falamos de "Deus", embora a referida percepção ou tomada de consciência entre em conflito com a Escritura ou com revelação sobrenatural.

Mas havia mais. À luz da origem divina dos modos de conhecimento, Espinosa defendeu a impossibilidade de haver contradição entre os dois. Em caso de conflito, prevalecia o conhecimento natural. Esta foi sua contribuição conclusiva, que lhe causou uma infinidade de aborrecimentos.

Para ele, o que até então era qualificado como "mistério" era, na realidade, algo ainda não conhecido e, portanto, pronto para ser investigado; e, tanto quanto possível, também cognoscível.

Argumentando dessa forma, ele investigou aqueles imaginários que — fundados unicamente na autoridade das Escrituras —ele percebia como providenciais e que se considerava impossíveis de serem alcançar racionalmente.

Espinosa lançou as bases para uma nova maneira de pensar o que dizemos quando falamos "Deus" dentro dos limites da racionalidade humana, algo que permitia conhecer a existência daquilo que não pode ser encerrado no pensamento, mas do qual possuíamos uma quantidade inesgotável de indícios, sugestões ou antecipações.

Essa posição matizada explica como Espinosa formulasse e propusesse um novo imaginário de "Deus", exaltando a justiça e a caridade como suas notas mais determinantes: "Existe um (...) ser supremo ao qual todos devem obedecer para se salvarem, e que devem adorar com a prática da justiça e da caridade para com o próximo”. Esse é o culto e a obediência que ele aprecia.

É evidente, eu dizia, que o filósofo judeu se inclinasse para uma explicação racionalmente deísta, deixando sem solução o debate se o deísmo fosse panteísta (tudo é Deus, sem distinção ou separação) ou panenteísta (no todo, Deus transparece como Único). E era deísta, porque a razão lhe permitia livremente perceber "em toda parte", e de modo particular na justiça e na caridade, as transparências de um Deus "justo e misericordioso".

Tudo isso não era devidamente levado em conta por A. Comte-Sponville para quem as referidas práticas seriam, na melhor das hipóteses, apenas um exercício de justiça e misericórdia. Sem ulteriores explicações. Nunca transparência algo ou Alguém. Isso — eu pensava — era uma forma de argumentar que eu tinha que retomar para avaliar a consistência racional, algo que Comte-Sponville considerava suficientemente provada.

A consistência racional do ateísmo

Nem me pareceu que eu tivesse que aceitar, do ponto de vista racional, que A. Comte-Sponville proclamasse que só o mundo existia, “porém, sem significado nem meta. Só a imanência, porém, sem o contrário. Só o real, porém, sem mais nada”. Ou que ele proclamasse - e aqui achei difícil evitar um contraponto pessoal crítico — que "havia apenas a evidência" (subjetiva, é claro, pensei). "Havia apenas o silêncio" (do qual, é claro, o filósofo francês estava falando). "Havia só a verdade, porém, sem argumentos" (que A. Comte-Sponville esforçava-se em transferir para o conceito e o discurso). E, além disso, que tudo isso fosse presidido pela firme convicção de que "esta (verdade) era suficiente"; algo que — ainda que me parecesse uma tentativa de feliz conclusão — se aproximava muito daquela que poderia ser considerada como uma petição de princípio, sem dúvida, ateísta.

Meus problemas com o testemunho do filósofo francês não diziam respeito à sua experiência, mas à explicação — "sem Deus" — que ele propunha, bem como os raciocínios que ele trazia e em cuja consistência se delongava nas páginas que antecediam o testemunho transcrito. Cabia questionar que tipo de razão ele estava aplicando. Porque existem muitas maneiras de raciocinar, mas nem todas são capazes de investigar tudo da mesma maneira.

O motivo

Verifiquei que o motivo a que ele recorria, o levava a se deter ao descrever a experiência como tal, renunciando a se perguntar por que aquela experiência o provocasse. Encontrei uma maneira de proceder suspeitosamente relutante em aplicar o princípio da causalidade: por que essa experiência da totalidade absoluta era possível? Ou, caso se prefira, o que ou quem a provocava? Compreendi que me deter apenas a descrever a experiência e a sua intensidade era uma forma inaceitável de proceder para aqueles que haviam feito da razão livre o lugar para verificar a consistência racional de qualquer discurso em nossos dias. Eu não compartilhava sua maneira negativa de investigar. Parecia-me uma decisão totalmente inoportuna.

Foi naquele momento que percebi que tal forma de raciocínio também era aquela predominante (tivera a oportunidade de constatá-lo) em alguns ateísmos contemporâneos, particularmente entre os defensores das explicações materialistas e arriscadas quando, como acontecia, confundiam " descrever" a realidade explicando-a ou, melhor dizendo, quando pretendiam que descrever ou transferir o que fora observado e percebido para o formato lógico-matemático com prova empírica já era "explicar" ou que a "descrição" científico-empírica era a resposta à pergunta porque o que fora observado era como era, a partir do que está escrito.

Reaparecia a ociosidade intelectual que tinha se verificado nas explicações dadas pelos casualistas quando renunciavam a investigar (concretamente, a partir das provas ou evidências astrofísicas e protobiológicas) o porquê das mesmas. Também o autoritarismo dos materialistas, quando - aceitando o desafio - respondiam que as coisas eram assim porque sim.

E se, então, eu me encontrava com duas explicações fracassadas ou, melhor dizendo, com duas explicações racionalmente inconsistentes, ora, na proposta de A. Comte-Sponville, eu as encontrava como exaltação e absolutização da experiência como tal. Sem maiores considerações, eu elevava a descrição de uma luminosa experiência a uma suposta explicação muda. Digo "suposta" porque, ao descrever aquela experiência, era dada uma explicação, neste caso, "sem Deus".

A tentativa de explicação me pareceu pouco consistente, não tanto por seu ateísmo, mas por sua distância do espírito indagador de uma razão moderna.

Essa conclusão não me permitiu aceitar sua explicação "sem Deus" porque, de fato, ele se dissociava de muitos imaginários que nós mesmos teístas havíamos arquivado há tempo. Suspeitei, mais uma vez, que Comte-Sponville não tivesse considerado esse aspecto. Não só isso, porém. Assim como haviam feito muitos outros companheiros de percurso na fé ateísta.

O projeto vital

Havia, porém, algo mais: embora fosse certa a existência de uma experiência que possui as características formais daquela definida como religiosa, também era verdade que ela não incidia da mesma maneira no projeto vital de A. Comte-Sponville; isso pode ser deduzido comparando-a com a experiência de outras pessoas que lhe dão uma explicação propriamente religiosa.

Chamou a atenção - usando a linguagem "jesus-cristã" e não apenas um discurso ateológico muito questionável ou "sem Deus" — a forte carga "tabórica" ​​em que se realizava a sua experiência e, ao mesmo tempo, a absoluta incapacidade da realidade experimentada de orientar a vida na direção próxima ou semelhante ao programa das bem-aventuranças ou da realização do Calvário nos crucifixos de hoje, sem prejudicar (de forma alguma!) a dedicação, a sensibilidade ou a coerência ética de A. Comte-Sponville.

"O todo", "o absoluto" ou "o sim eterno", se realmente vivenciado como tal - observei - não deveria se limitar apenas a confirmar (ou incrementar) os nossos desejos de paz, de tranquilidade e de felicidade, mas deveria ser percebido e reconhecido também como capaz de questionar, alterar ou desarticular os próprios projetos e as próprias expectativas.

Isso era muitas vezes perceptível na grande maioria das experiências "jesus-cristãs" e "uni-trinitárias" e, certamente, em quase a totalidade daquelas veterotestamentárias. Bastava rever a história de Abraão, dos profetas, ou de outros personagens do Novo Testamento, começando por Pedro e Paulo, continuando com os outros apóstolos e aguardar os milhares de santos e mártires tanto do passado quanto, sobretudo, dos nossos dias.

Percebi que era o "teste decisivo" pelo qual qualquer experiência tinha que passar. Este - tanto aquele do "sim eterno" como o do "absoluto" — não pode consistir sempre e unicamente numa relação ou num encontro alegre, satisfatório, pacificador e agradável, mas deve ser também provocador, questionador e inquietante, mesmo se apenas em algumas ocasiões. Tratava-se de um "teste" baseado em critérios estritamente racionais: o "todo", se realmente era o que fundamentava e sustentava a experiência, devia transparecer também com sua capacidade de desarrumar e não apenas de satisfazer e consolar.

A "carne"

Se até então a experiência de A. Comte-Sponville tinha conseguido me fascinar e até me perturbar, a partir desse momento começou a abrir seu caminho o reconhecimento de uma ausência da "carne". "O todo" ou "o absoluto", a que se reportava a sua experiência, não era apenas "sem Deus", mas também "sem rosto"; algo que não me pareceu mais convincente do que o imaginário e a explicação "jesus-cristão" e "uni-trinitária", mas sim uma regressão.

> O basco Jesus Martinez Gordo é teólogo. O artigo acima foi publicado originalmente sob o título
Spiritualità atea: senza Dio e senza carne. A tradução para o português foi feita por Luisa Rabolini para IHU Online.

Original: https://www.paulopes.com.br/2022/03/espiritualidade-ateista-e-verdade-que.html#.Yis_M-jMIdV

Nota: Nos bons tempos em que o Patheos era fervilhante e interessante por sua diversidade, eu debatia com John Halstead e Mark Green, dois "ateopagãos" que não percebiam, como o Paulo e o Jesús, a incoerência de falar em ateísmo e em espiritualidade. Mas nós somos humanos.

domingo, 1 de maio de 2022

Bala e Bíblia

Líderes evangélicos postam conteúdo pró-armas. Na segunda (25), o pastor Milton Ribeiro, ex-ministro da Educação, atirou por acidente em aeroporto e feriu uma pessoa.

“Se for para defender minha família, meus filhos, minha mulher, ou minha própria integridade, havendo risco, eu atiro pra matar mesmo”. A fala de Augustus Nicodemus, vice-presidente da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) — entidade que representa a denominação —, foi feita durante uma conferência para jovens evangélicos em 2018, que debateu o direito de cristãos usarem armas. Presbiteriano, assim como o pastor e ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, que entrou armado no aeroporto de Brasília, no dia 25 de abril, e feriu uma funcionária da companhia aérea Gol depois de disparar acidentalmente, Augustus é um dos pastores evangélicos que defendem o uso de armas de fogo usando argumentos bíblicos.

Trechos do Antigo e do Novo Testamento da Bíblia fundamentam discursos de pastores que defendem o porte de armas e o uso delas para a autodefesa. “A Bíblia não é contra o filho de Deus portar armas, porém tem limites. O texto está em um contexto de proteção da propriedade”, diz, citando versículos do livro de Êxodo, o pastor Leandro Quadros. Ele é apresentador de programas na Rede Novo Tempo, conglomerado de mídia pertencente à Igreja Adventista do Sétimo Dia. No mesmo vídeo postado no YouTube, Leandro afirma que, um princípio norteador da sua religião é que “o cristão é pacifista”.

Leandro também tem vídeos onde fala contra partidos de esquerda, Marxismo e a favor do presidente Jair Bolsonaro, defensor do armamento de civis. Em 2019, Bolsonaro defendeu a pauta durante participação na Marcha Para Jesus, ao lado dos idealizadores do evento, o pastor Estevam Hernandes e a bispa Sônia Hernandes, da Igreja Renascer. Enquanto Sônia discursava a favor do chefe de estado, o atual presidente encenou o símbolo de uma arma com as mãos.

Ainda na Marcha, Bolsonaro posou em fotos ao lado de Valdemiro Santiago, fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus, criada após a ruptura do pastor com a Igreja Universal do Reino de Deus. Valdemiro foi preso por porte ilegal de armas em 2003.

Armas ungidas para proteção de cristãos

Em março deste ano, as armas de fogo do delegado Tito Barichello foram ungidas na Igreja Agnus, na cidade de Curitiba. Na ocasião, o pastor Renê Arian fez uma oração: “Senhor Deus, em nome de Jesus, nós ungimos essas armas para a segurança da população de nossa cidade”. O vídeo viralizou no Instagram do delegado Tito.

Viviane Costa, pesquisadora de religião e segurança, explica que o discurso pró-armas entre as lideranças evangélicas nasce de uma “urgência de autodefesa que se estabelece pela falta de segurança pública”. “O pensamento religioso que defende essa estrutura armamentista está ligada a essa percepção da ausência de segurança da vida e da família e também passa por uma questão da manutenção do domínio religioso, uma violência que sempre esteve no discurso e que agora tem seu sentido ressignificado”

O casal formado por Clarissa Tércio, deputada estadual pelo PSC em Pernambuco, e Júnior Tércio, vereador no Recife, já postou foto com armas na mão em um clube de tiros. Bolsonaristas, eles defendem o porte de armas para a população. Sobre a repercussão da foto no clube de tiro, Clarissa afirmou que “o homem tem que ter todos os instrumentos para proteger a sua família.”

Clubes de tiro também são frequentados por comitivas das igrejas. Em outubro de 2021, o Clube Defender anunciou uma campanha de apoio à igreja Batista Nova Esperança, na Penha, no Rio de Janeiro. O SK Clube de Tiro, no Paraná, registrou no Facebook a visita de membros da Igreja do Evangelho Quadrangular numa espécie de atividade recreativa, na qual os alvos foram substituídos por imagens de “zumbis e criaturas estranhas”.

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/pastores-a-biblia-defender-armas/