terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Festivais romanos - Janeiro

Em 9 de Janeiro se celebrava a Agonalia, em honra ao Deus Janus, de quem o mês ganhou o nome e a quem os Romanos pediam por conselho. Na tradição religiosa de Roma Antiga Agonalia era um festival celebrado várias vezes ao ano em honra de várias divindades, como Janus e Agonius, os quais os Romanos costumavam evocar nos seus empreendimentos importantes. Neste festival era oferecido um carneiro, a pessoa que o oferecia era o rex sacrificulus e o local onde era oferecido era a regia. O carneiro era a vítima oferecida aos Deuses guardiões do Estado, o rex sacrificulus e a regia podiam ser nomeados apenas para estas cerimônias como se estivessem conectados com os Deuses mais poderosos e afetasse a saude de todo o Estado.
Em 11 e 15 de Janeiro se celebrava a Carmentalia. Carmentalia era a festa de celebração da Deusa Romana Carmenta, um antigo oráculo que foi posterioremnte deificado pelos Romanos. Carmenta era evocada em seu templo no Capitólio como Postvorta e Antevorta, epítetos que tem referencia ao poder dela de olhar para o passado e para o futuro. A festividade era principalmente observada pelas mulheres.
A Carmentália era a festa de Carmenta, uma Deusa de culto muito antigo, cuja função inicial era de proteger as mulheres durante o parto. Compartilhava este cargo com as Deusas Antevorta e Postvorta, assim denominadas pela posição que o bebê podia tomar no parto. Talvez pela associação com as Parcas Gregas, que predizem o destino dos homens no momento de seu nascimento, ou talvez por causa da etimologia de seu nome (carmen=canção ou verso, que era a forma como os oráculos eram ditos na Roma Antiga).[Associação Nova Acrópole][link morto]
De 24 até 26 de janeiro se celebrava a Sementivae. Sementivae, conhecida também como Feriae Sementivae ou Sementina dies, era o festival romano da semeadeira.
Estes dias de folga eram observados todos os anos, mas não em dias fixos, tinha seu início marcado pelos magistrados ou sacerdotes.
Era celebrado em honra a Ceres e Tellus. A primeira metade do evento era um festival em honra a Tellus. O festival em honra a Ceres ocorria uma semana após. A Sementina Dies era observada na época da semeadura em Roma com o objetivo de orar por uma boa colheita. Durava por um dia, o qual era fixado pelos pontífices. Ao mesmo tempo a Paganalia era observada no reino. Fonte: wikipédia [edição e tradução da casa]

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Janus, o senhor de Janeiro

Na mitologia romana, Janus (ou Ianus) era o Deus dos portais, passagens, entradas, começos e términos. Sua lembrança mais proeminente na cultura moderna é o mês de Janeiro. 

Etimologia
Janus e Jana eram um casal de divindades, adorados como o sol e a lua, quando eram lembrados como os Deuses mais poderosos e recebiam seus sacrifícios antes de todos. Janus e Jana são formas variantes de Dianus e Diana.

Origens e natureza
O culto a Janus é um dos mais antigos conhecido dos povos itálicos. Os Romanos associavam Janus com a divindade Etrusca Ani. Entretanto, ele era um dos poucos Deuses Romanos que não tinha uma contraparte ou mitologia análoga.
Muitos pesquisadores sugerem que ele era como o Deus mais importante no panteão arcaico Romano. Janus era usualmente simbolizado com duas cabeças olhando para direções opostas. Em geral, Janus era o patrono dos começos concretos e abstratos, como a religião e os Deuses em si mesmos, do mundo e da vida humana, das eras históricas e empreendimentos econômicos.
Ele era frequentemente usado para simbolizar mudança e transição como a progressão do passado para o futuro, ou de uma condição a outra, de uma visão a outra, o crescimento dos jovens e de um universo a outro. Ele era conhecido também como uma figura representando o tempo porque ele podia ver o passado com uma face e o futuro com outra. Portanto, Janus era adorado no início da colheita e da sementeira, como também casamentos, nascimentos e outros começos. Ele era a representação do equilibrio entre barbaridade e civilização, campo e cidade, juventude e maturidade.
Na Idade Média, Janus era também tomado como o símbolo de Genova, cujo nome em latim era Ianua, bem como de outras comunidades italianas. Fonte: wikipédia [tradução por conta da casa]

domingo, 28 de dezembro de 2008

A revolução que broxou


Introdução [no bom sentido]

De todos os fenômenos de natureza social e cultural que afetaram o comportamento nas sociedades ocidentais durante o século XX, o mais importante foi a chamada Revolução Sexual. Séculos de repressão criaram uma maneira de viver antinatural e neurotizante. A libertação tornou-se, assim, uma necessidade da espécie e sua urgência se manifestou tanto em termos teóricos quanto práticos. As descobertas da psicanálise foram radicalizadas e muita gente transformou suas próprias vidas nesse processo.

Por que revolução?

Não há dúvidas de que a chamada Revolução Sexual começou, no plano teórico, com as ideias de pensadores como Freud e Reich, num primeiro estágio, e continuou com Herbert Marcuse e Norman O. Brown, num estágio mais avançado. Mas ela só ganhou verdadeiro significado para a civilização ocidental quando atingiu grandes segmentos da população, modificando a mentalidade e, principalmente, o comportamento das pessoas. O principal objetivo é a eliminação, ou pelo menos a diminuição, da repressão sexual - que Freud via como um mal necessário à civilização, e Reich como um instrumento do domínio exercido por uma classe dominante sobre o todo da sociedade. A aspiração, em suma, é por uma maior liberdade sexual. Essa aspiração sempre foi experimentada como uma necessidade crucial pela maioria das pessoas que, porém, tradicionalmente optavam entre duas alternativas mórbidas - as que lhes eram normalmente oferecidas: ou se submetiam de corpo e alma à repressão, o que originava distúrbios psíquicos, que iam da neurose generalizada até extremos psicóticos mais graves, ou procuravam atender às solicitações naturais do instinto em segredo, escondidos de modo hipócrita e mentiroso, o que levava a uma cisão interna de tipo esquizóide. De qualquer maneira, a repressão sexual sempre levou à doença psíquica. O combate à repressão e a aspiração pela liberdade sexual significam, portanto, uma busca decidida da saúde psíquica, que exige sinceridade consigo próprio, honestidade de propósitos e principalmente coragem. Essas qualidades sempre marcaram aquelas pessoas que, de diferentes maneiras, se notabilizaram como o que poderíamos chamar de revolucionários sexuais. Além da audácia do espírito em busca da liberdade, a chamada Revolução Sexual foi favorecida por avanços tecnológicos, como o advento da pílula anticoncepcional. Assim, a derrubada de práticas obscurantistas, como o tabu da virgindade, a justificação de crimes passionais em nome da honra e outras aberrações de comportamento do mesmo quilate, passou a ser um objetivo prioritário das novas gerações. Essas mudanças marcaram o século XX e, embora incompletas, abriram caminho para uma libertação mais ampla e saudável nos primeiros anos do século XXI.

A Contracultura

Para os jovens dos anos 60, a geração que se caracterizou por seu interesse em sexo, drogas e rock and roll, e cujo slogan favorito era make love, not war, o sexo vinha indiscutivelmente em primeiro lugar. A liberdade sexual foi o traço de comportamento que melhor caracterizou o flower power. Costuma-se caracterizar essa geração, a da contracultura, pelas drogas. É bem verdade que o uso de drogas naturais mais leves, como a maconha, ou de drogas sintéticas criadas com propósito de tratamento psiquiátrico, como o LSD, foi bastante disseminado. Mas não era essencial para o movimento, nem sequer seu principal objetivo. A experiência com estados alternativos da consciência era apenas uma aventura capaz de atrair uma geração de jovens cujo fascínio pelo inusitado, pela exploração de áreas da experiência humana estranhas aos seus pais, foi sem dúvida marcante. Mas não era sua necessidade mais urgente. Na verdade, a necessidade mais urgente era por uma gratificação sexual plena, satisfatória. A geração da contracultura foi a primeira a colocar em questão a tradição do amor romântico, passivamente aceita por todas as gerações anteriores. A descoberta da possibilidade de se amar várias pessoas ao mesmo tempo e ter uma vida afetiva mais rica, mais diversificada, foi a grande revelação. Todo mundo podia transar com todo mundo. Essa liberdade inédita, a famosa permissividade da contracultura, foi duramente criticada pelas gerações anteriores como promiscuidade e degeneração. É possível que, em muitos casos, tal crítica tivesse até algum fundamento, mas, de maneira geral, o que se descobriu foi simplesmente a capacidade do instinto para autorregular-se, para estabelecer espontaneamente seus próprios limites e os mecanismos de autocontrole porventura necessários, sem a imposição artificial de uma repressão externa. A liberdade sexual não acarreta necessariamente uma orgia permanente de maneira que ninguém faça mais nada na vida a não ser trepar o tempo todo. Isso só é assim na imaginação dos reprimidos. Na realidade dos que experimentaram essa liberdade, como os jovens da contracultura, há também moderação, equilíbrio e tempo de sobra para se fazer outras coisas. A experiência da contracultura forneceu a evidência mais palpável, até hoje, da possibilidade de uma cultura governada pelo princípio do prazer e não pelo princípio da realidade, gerador de neurose. Ou seja: pode-se dizer que a experiência da contracultura foi a primeira experiência capaz de desmentir, na prática, a suposição de Freud de que não pode haver cultura sem repressão. A possibilidade de uma cultura libidinal, não-repressiva, cuja idéia é exposta e desenvolvida por Herbert Marcuse em Eros e Civilização, é fundamental, decisiva para os destinos de nossa civilização. Ou continuamos a nos afundar no pântano da neurose coletiva, com suas manifestações secundárias de violência e doença a que estamos assistindo todos os dias, em toda parte, ou conquistamos a liberdade necessária para criar uma maneira de viver mais saudável e mais feliz.

A repressão sexual

Ainda nos anos 30, Herbert Marcuse já considerava, a exemplo de Reich, a repressão sexual como uma das características mais importantes da ordem social exploradora. Sua crítica do dualismo ocidental enfatizou não só a miséria econômica, mas também a miséria sexual perpetuada e racionalizada pela metafísica dualista, através da noção de "pecado". Segundo Marcuse, o embotamento da sensualidade resulta na atrofia e embrutecimento de todos os órgãos do corpo humano. A repressão da sexualidade contribui assim para a manutenção de uma ordem social repressiva em todos os seus aspectos. Além disso, Marcuse acentuou a correlação direta entre a repressão da sexualidade e a erupção da agressão, nas formas mórbidas do terror sádico e da submissão masoquista. A violência é consequência da repressão sexual. Só quando a libido é forte e não-sublimada, só quando se permite à sexualidade ser livre, tanto quantitativamente no sentido de uma vida sexual mais intensa, como qualitativamente como uma sexualidade mais variada (polimórfica), só nessas condições é que a agressividade e destrutividade geradas pela repressão podem ser reduzidas.

Visão Antropológica

O húngaro Geza Roheim nasceu em Budapest, em 1891, e foi discípulo de Sandor Ferenczi, um dos grandes pioneiros da psicanálise junto com Adler e Jung. Roheim dedicou-se à Antropologia e foi atraído pelas descobertas de Freud, criando em 1915 o que chamou de "antropologia psicanalítica". Segundo Roheim, o homem se distingue dos outros animais por sua prolongada infância; essa dependência primordial é a origem da repressão. "Quanto mais prolongado for o período de íntima associação entre pais e filhos, maiores serão os efeitos dinâmicos do trauma a ser controlados", diz ele. Com Freud (e contra Reich) ele aceitou a inevitabilidade da repressão mas manteve, intransigentemente, que a civilização exagerou em seu papel ao exigir uma repressão muito maior do que a necessária. Na sua obra fundamental, A Origem e a Função da Cultura, de 1943, a prolongada infância do homem e sua demorada dependência é tomada como ponto de partida. O processo civilizatório é, no fundo, um esforço do homem para compensar o sentimento de perda que experimenta ao separar-se da mãe. Todos os esforços civilizados do homem são, na realidade, tentativas de retornar ao ventre materno. Por outro lado, o medo da morte é a manifestação final do horror do homem em ser abandonado sozinho no escuro. Em Animismo, Mágica e o Rei Divino, de 1930, Roheim já havia mostrado que a política é uma espécie de magia negra. O líder político emerge das profundezas do inferno. É um descendente dos feiticeiros e a ciência política, por conseguinte, é um ramo da demonologia. Roheim não era um cientista frio. Pelo contrário: ficava violentamente indignado com a repressão imposta pela sociedade sobre os indivíduos. Uma cólera reprimida caracterizava seu estado de ânimo. A mensagem central de sua obra é que pagamos um preço excessivamente alto pela civilização. A tolerância sexual do homem primitivo, ao contrário, é a medida e a fonte de sua felicidade. Apesar de suas privações, ele resolveu o problema da vida em comum de maneira muito mais satisfatória do que o homem civilizado. Para Roheim, a civilização moderna, com seus métodos "insanos" de educação, sua repressão da sexualidade e sua "moralidade de esfíncter" criou um homem doente. A cultura é uma neurose e as neuroses individuais são "uma supercultura", um exagero do que é especificamente humano.
Fonte: Cama na Rede [link morto]

Nota: O artigo falha ao não analisar de como ficou a dita Revolução Sexual nos dias de hoje. Talvez por ter passado tanto tempo reprimido pelo pensamento puritano, a humanidade não assimilou os princípios da Revolução Sexual, não houve a preocupação em trabalhar na conscientização do indivíduo e da coletividade (da sociedade) para se reformular os tabus e as proibições, as pessoas simplesmente se atiraram na permissividade e na liberalidade, cujas consequências fizeram retornar o puritanismo e a repressão, aumentando a violência e os desvios sexuais.

sábado, 27 de dezembro de 2008

A Gens e o Estado em Roma

Segundo a lenda da fundação de Roma, a primeira fixação no local foi a de certo número de gens latinas (cem, diz a lenda), reunidas em uma tribo. Logo se uniu a esta uma tribo sabina, de cem gens, ao que também se diz, e por último uma tribo composta de elementos diversos, igualmente de cem gens.
O conjunto da narração revela, à primeira vista, que não havia nada ali espontaneamente formado, exceto a gens, que, mesmo ela, em muitos casos, não passava de um ramo da velha gens-mãe, que tinha permanecido no antigo território.
As tribos levavam a marca de sua composição artificial, ainda que, em sua maioria, estivessem formadas de elementos consangüíneos e consoante o modelo da antiga tribo de formação natural (e não artificial); por certo, não fica excluída a possibilidade de que o núcleo de cada uma das três tribos acima mencionadas pudesse ser uma autêntica tribo antiga.
O escalão intermediário, a fratria, contava dez gens e chamava-se cúria. Eram trinta as cúrias. Pelo menos nos primeiros tempos da cidade, a gens romana tinha a seguinte constituição:
1. Direito de herança recíproco entre os gentílicos; a propriedade permanecia na gens.
Dada a vigência do direito paterno, na gens romana, da mesma forma que na grega, os descendentes por linha feminina eram excluídos na herança.
Segundo a Lei das Doze Tábuas - o mais antigo monumento conhecido do direito romano - em primeiro lugar herdavam os filhos, como herdeiros diretos que eram; não havendo filhos, herdavam os agnados (parentes por linha masculina); e, na falta destes, os demais membros da gens.
Em caso algum, a propriedade saía da gens. Aqui observamos a gradual infiltração nos costumes gentílicos de novas disposições legais, criadas pelo crescimento da riqueza e pela monogamia; o direito de herdar, a principio igual para todos os membros de uma gens, restringiu-se, em um tempo bastante remoto, aos agnados, e depois aos filhos e netos por linha masculina.
Na Lei das Doze Tábuas essa ordem aparece invertida, naturalmente.

2. Posse de um lugar coletivo para os mortos. A gens patrícia Cláudia, ao emigrar de Régilo para Roma, recebeu, além de uma área de terra que lhe foi assinalada dentro mesmo da cidade, um local para o sepultamento dos seus mortos.
Até nos tempos de Augusto, a cabeça de Varo, falecido na floresta de Teutoburgo, foi trazida a Roma e enterrada num túmulo gentílico (gentilitius tumulus), o que demonstra que a sua gens (a Quintília) ainda tinha o seu jazigo particular.

3. Solenidades religiosas em comum. Chamavam-se sacra gentilitia e são bem conhecidas.

4. Obrigação de não casar dentro da gens. Em Roma, parece que jamais se chegou a defini-la em lei escrita, mas era estabelecida como costume. Dos inúmeros casais romanos cujos nomes chegaram aos nossos dias, não é conhecido um único caso em que o marido e a mulher tenham o mesmo nome gentílico.
Outra prova dessa regra é a do direito de herança, na forma com que era adotado: a mulher saía da gens ao casar-se, perdia seus direitos agnáticos, nem ela nem os filhos que tivesse poderiam herdar de seu pai (dela) ou dos irmãos deste.
A gens não podia perder os gens dos seus membros que morressem, como aconteceria fatalmente se outras leis de herança prevalecessem. E essa regra não teria sentido se a mulher não fosse impedida de casar com um membro da sua gens.

5. Posse da terra em comum. Existiu sempre nos tempos primitivos, desde que se repartiu o território da tribo pela primeira vez. Entre as tribos latinas, encontramos o solo possuído em parte pela tribo, em parte pela gens, em parte por casas, que na época dificilmente seriam de famílias individuais.
Atribui-se a Rômulo a primeira divisão de terra entre indivíduos, á razão de dois jugera para cada um (mais ou menos um hectare).
Mais tarde, contudo, vamos encontrar a terra ainda em mãos da gens, e isso sem falar nas terras do Estado, em torno das quais gira toda a história interna da república.

6. Obrigação dos membros da gens de se ajudarem mutuamente e de se socorrerem. Na história escrita vamos encontrar apenas vestígios disso: o Estado romano, desde sua aparição, manifestou-se bastante forte para chamar a si o direito de proteção contra as ofensas.
Quando Ápio Cláudio foi preso, sua gens inteira vestiu luto, inclusive seus inimigos pessoais. E, ao tempo da segunda guerra púnica, as gens se associaram para pagar ,o resgate de seus membros aprisionados, mas o senado proibiu-as de fazê-lo.

7. Direito de usar o nome gentílico. Manteve-se até a época dos imperadores.
Aos próprios escravos alforriados era concedida permissão para usar o nome gentílico de seus antigos senhores; conquanto não lhes correspondessem, é claro, quaisquer direitos gentílicos.

8. Direito de adotar estranhos na gens. Era a adoção por uma família (como entre os índios americanos), que trazia com ela a adoção pela gens.

9. Direito de eleger e depor o chefe, não mencionado em parte alguma. Como, porém, nos tempos primitivos de Roma, todos os postos começando pelo de rei, eram preenchidos por eleição ou aclamação, e até os sacerdotes das cúrias eram eleitos por elas, é razoável que admitamos o mesmo quanto aos chefes (príncipes) das gens, ainda que pudesse ser regra eiegê-los de uma mesma família.

Conforme dissemos, dez gens formavam uma fratria, que aqui se chamava cúria e tinha atribuições mais importantes que as de sua correspondente grega. Cada cúria tinha suas praticas religiosas, seus santuários e sacerdotes; estes últimos, constituídos num organismo, formavam um dos colégios sacerdotais romanos. De dez cúrias se compunha uma tribo, que originalmente, como as demais tribos latinas, deve ter tido um chefe eleito - supremo comandante na guerra e grão-sacerdote. O conjunto das três tribos era o povo romano, o populus romanus.
Desse modo, ninguém podia pertencer ao povo romano se não fosse membro de uma gens e, conseqüentemente, de uma cúria e de uma tribo.
A primeira constituição desse povo foi como se segue. A gestão dos negócios públicos era da competência do Senado, composto dos chefes das trezentas gens, conforme Niehbur foi o primeiro a compreender; por serem dos mais velhos em suas gens, estes chefes chamavam-se patres, pais; o conjunto deles ficou sendo o Senado (de senex, velho - conselho dos anciãos).
A escolha habitual do chefe para cada gens no seio das mesmas famílias criou, também aqui, a primeira nobreza gentílica. Essas famílias chamavam-se patrícías e pretendiam para elas a exclusividade no Senado e ocupação dos demais cargos públicos.
O fato de que, com o tempo, o povo se fosse submetendo a tais pretensões e deixasse que elas se transformassem em direito real é, a seu modo, uma explicação da lenda que dizia ter Rômulo, desde o início, concedido aos senadores e aos descendentes dos mesmos os privilégios do patriciado.
O Senado, tal como a bulê ateniense, tinha poderes para decidir em muitos assuntos e proceder á discussão preliminar dos mais importantes, sobretudo das leis novas. Quem as votava, contudo, era a assembléia do povo, chamada comitia curiata (comícios das cúrias).
O povo se reunia, agrupado por cúrias, e em cada cúria provavelmente por gens, cada cúria contando com um voto na decisão das questões.
Os comícios das cúrias aprovavam ou rejeitavam todas as leis, elegiam todos os altos funcionários, inclusive o rex (o chamado rei), declaravam guerra (mas a paz era concluída pelo Senado) e, na qualidade de Supremo Tribunal, julgavam as apelações nos casos de sentença de morte contra cidadão romano.
Por fim, ao lado do Senado e da assembléia do povo, ficava o rex, correspondendo exatamente ao basileu grego - e de modo algum um monarca quase absoluto, como no-lo apresenta Mommsen.
O rex era também chefe militar, grão-sacerdote e presidente de certos tribunais; não tinha funções civis ou poderes de qualquer espécie sobre a vida, a liberdade e a propriedade dos cidadãos, desde que tais direitos não proviessem da sua condição de chefe militar no exercício de funções disciplinadoras ou de presidente de tribunal no exercício de atribuições judiciárias. As funções de rex não eram hereditárias e sim eletivas; as cúrias escolhiam o rex em comício, provavelmente de acordo com uma proposta do seu predecessor, e empossavam-no solenemente em outra reunião.
Também podia ser deposto, como prova o que aconteceu a Tarquínio, o Soberbo. Tal como os gregos da época heróica, os romanos no tempo dos chamados reis viviam, portanto, numa democracia militar baseada nas gens, nas fratrias e nas tribos, e desenvolvida a partir delas. Embora as cúrias e as tribos possam ter sido, em parte, formadas artificialmente, nem por isso deixavam de estar constituídas de acordo com o modelo genuíno e natural da sociedade de que se originaram, modelo que ainda as envolvia por toda parte.

Engels, Frederich. A Origem da Família, da propriedade privada e do Estado.


Nota: Nota-se que a gens era importante aos latinos sim, porque ligava o indivíduo à sua origem familiar, mas curiosamente houveram lutas entre as gens latinas, pelo domínio da região e, com a vitória dos Romanos, veio o Império Romano onde a gens recebeu seu valor como instituição social.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Bruxaria e Anarquia

Este é o último tópico feito como reflexo da leitura do livro de Stuart Clak, Pensando com Demônios, especialmente levando em conta os dois últimos capítulos que envolvem Política e Religião, no que eu vejo uma premente necessidade de inserir uma auto-crítica.
Em diversos tópicos deste blog existem críticas no tocante ao que idealmente eu conceituei como grandezas humanas que deveriam funcionar independentemente ou isoladamente. Mas aqui neste blog cabem também auto-críticas e eu devo substancialmente refazer este (pre)conceito. Política e Religião, como tudo que envolve ações e pensamentos humanos, acabam interferindo, influenciando, interagindo uma com a outra. O que nós devemos repensar, então, é a forma como estas se relacionam.
Tendo isto em vista, fica mais fácil entender os períodos da Idade Média e início da Idade Moderna, onde o Estado e a Igreja repartiam entre si o poder mundano e espiritual do mundo conhecido. Depois das revoluções, o conceito de Estado e as organizações políticas modificaram substancialmente, sem sinais de que venha a existir uma definição exata ou precisa de suas fronteiras ou futuros.
Pode ser que, nesse futuro, possamos tratar de forma diferente a relação entre Política e Religião, mas até lá eu preciso reiterar meu lado acadêmico e lembrar que a Política - como grandeza humana - também faz parte da Religião. A postura dos neopagãos em relação ao ambiente é uma posição política. Com essa permissão, passo ao ensaio ousado de equiparar a Bruxaria com a Anarquia.

Não-dogmatismo: "Toda a posição do anarquismo ... tolera variações e rejeita a idéia de gurus políticos ou religiosos. Não existe um profeta fundador a quem todos devam seguir. Os anarquistas respeitam seus mestres, mas não os reverenciam, e o que distingue qualquer boa compilação que pretenda representar o pensamento anarquista é a liberdade doutrinária com que os autores desenvolveram idéias próprias de forma original e desinibida."[WOODCOCK, George. Os grandes escritos anarquistas. Rio Grande do Sul: L & PM Editores Ltda, 1981. pg. 54. citado na wikipédia]
A Bruxaria nunca teve profetas, santos, messias ou qualquer outra forma de autoridade. Mesmo Gerald Gardner não pleiteou ser um profeta fundador ou ser o único e verdadeiro bruxo. Ele apenas passou aos seus aquilo que ele aprendeu, o que inclui o respeito aos mestres e a inclusão de técnicas desenvolvidas pelos iniciados.

Apoio mútuo: Aqui podem ser inseridos os princípios do humanismo, da liberdade, da autonomia, da vida comunitária. Com humanismo, entende-se que a base da sociedade está nas pessoas, na comunidade.
Na Bruxaria, as pessoas viviam em comunidades feita de indivíduos que se conheciam e tinham uma relação muito próxima. Cada um e todos trabalhavam pelo bem de toda a comunidade e a comunidade ajudava quem precisava.
Em tempos difíceis, a comunidade escolhia um líder, um chefe, que exercia temporariamente o cargo de rei, juiz e sacerdote, mas sempre zelando pelo bem comum.
Com liberdade, entende-se que a base da lei está na consciência da responsabilidade individual e coletiva.
Na Bruxaria, as pessoas tinham e recebiam condições para desenvolver laços comunitários, o que dispensava aparatos repressores, o que tornava possível cada indivíduo desfrutar a liberdade.
Com autonomia, entende-se que cada grupo se auto-regulamentava e se adaptava às condições, o que não significa estar fechado nem separado do contexto mais amplo, territorial ou regional. Na Bruxaria, as pessoas podiam experimentar e conhecer novas técnicas, quando empreendiam a viagem a outros covens como aprendizes e essas novas técnicas eram livremente expostas à comunidade, para serem avaliadas.
Com vida comunitária, entende-se como a livre associação de indivíduos com interesses e objetivos em comum, de acordo com as concessões e acordos entre os indivíduos e o grupo como um todo.
Na Bruxaria, as pessoas não eram obrigadas a aceitar as crenças e práticas do grupo ou da região, tanto o indivíduo quanto o grupo podiam decidir em que acreditar ou o que praticar.

Revolução: A Anarquia é perseguida por causa de suas propostas políticas de um Estado efetivamente na mão do povo, de todos.
A Bruxaria tem sido perseguida porque é, como a Religião Antiga, a manifestação de uma crença e prática legitimamente popular.
Desde que as cidades e as civilizações foram se desenvolvendo, as pessoas foram perdendo seus poderes para a elite.
Tal como a Anarquia, a Bruxaria é uma revolução porque postula o Estado não na mão de poucos, mas de todos; postula a Religião não na mão de poucos, mas de todos; postula a Sociedade não na mão de poucos, mas de todos; postula a Constituição não na mão de poucos, mas de todos; postula a Justiça não na mão de poucos, mas de todos; postula a Prosperidade não na mão de poucos, mas de todos; postula a Felicidade não na mão de poucos, mas de todos e (principalmente) postula o Prazer não na mão de poucos, mas de todos.

sábado, 20 de dezembro de 2008

IO SATURNÁLIA!

O Natal genuíno tem origem na grande cerimônia da Saturnália, uma das celebrações mais festivas e desinibidas da Romanidade, que marcava o aniversário da dedicação do templo de SATURNO.
Durava sete dias e incluía o Solstício de Inverno.
Quem a preside é SATURNO, o Deus da semente e da semeadura (e, por extensão, do semen), derivando o Seu nome, provavelmente, de "Satus" ("brotado de" ou "semeado"). A Sua celebração ocorria no final da última semeadura do ano.
A Sua esposa é OPS, o recurso alimentar do qual os Romanos usufruíam após a colheita do Verão. A Opália tem lugar a 19 de Dezembro.

Na época romana, acreditava-se que tais Divindades, saídas das profundezas do solo, vagassem em cortejo por todo o período invernal, isto é, quando a terra repousava e era inculta por causa das condições atomosféricas. Deviam então ser aplacadas com a oferta de presentes e de festas em Sua honra e, além disso, induzidas a retornar ao outro mundo, onde teriam favorecido as colheitas da estação estiva. Tratava-se, em suma, de uma espécie de longo "desfile de carnaval".

O templo de SATURNO continha a estátua do Deus, recoberta de óleo, o que constituiria eventualmente uma técnica de preservação; estava além disso envolvida em laços de lã, que eram desfeitos no dia do Seu festival.
Macróbio diz que isto simboliza a semente que tinha estado nas entranhas e que brota no décimo mês, que era Dezembro, como o próprio nome do mês indica, isto no antigo calendário, no qual o primeiro mês do ano era Março.
O templo de SATURNO também continha o tesouro do Estado ("Aerarium Saturni").
A SATURNÁLIA, o "melhor dos dias" era iniciada neste templo com um grande sacrifício, no qual os senadores e os cavaleiros usavam as togas. Os sacrifícios a SATURNO eram realizados "Graeco Ritu", isto é, de acordo com o Rito Grego, ou seja, com a cabeça descoberta ("capite aperto"), segundo o que diz Plutarco em "Questões Romanas". Tal fato pode derivar da identificação de SATURNO com o grego CRONOS, Rei da Idade do Ouro, que é um aspecto de SATURNO especialmente importante durante a SATURNÁLIA.
A seguir ao sacrifício, realizava-se um banquete ("convivium publicum", ou "convivium dissolutum"), ao qual toda a gente podia ir e que parece ter sido estabelecido em 217 AC.
Lívio diz que se realiza nesta ocasião um "lectisternium", ou seja, um banquete oferecido aos Deuses em certas cerimónias solenes ou em sinal de reconhecimento, em que as estátuas dos Deuses são colocadas em leitos junto das mesas.
Neste dia, usavam-se roupas menos formais ("synthesis") e capas leves ("pilei"); as pessoas enchiam as ruas gritando "Io Saturnalia!".A alegria reinava; encerravam-se lojas, tribunais, escolas, e os aedis permitiam a jogatina em público.

Nas casas com servos, os donos tratavam-nos como iguais. No seio da família, juntamente com os escravos, escolhia-se um rei momo, ou "Saturnalicius Princeps", que usava máscara e trajava de vermelho (a cor dos Deuses), o que não deixa de fazer lembrar o atual Papai Noel. Na verdade, esta igualdade, e por vezes inversão social (escravos a serem servidos por senhores) seria mais simbólica e religiosa do que propriamente social e real, pois que na maior parte dos casos eram os escravos que preparavam o banquete e, por detrás da desordem festiva, permanecia a sólida ordem romana.
Ofereciam-se presentes, tais como pequenos objectos de cerâmica, incluindo bonecas de cerâmica ("sigillaria") às crianças (especialmente nos sextos e sétimos dias). Aos amigos, davam-se velas de cera ("cerei"). Catão recomendava que se concedesse aos subordinados uma ração adicional de 3+1/2 de vinho ("vinum familiae").[wikipédia]
Fonte: Gladius

Nota: Caturo faz excelentes textos, quando se atém ao assunto dos costumes e crenças antigas, mas não quando dá vasão aos seus impulsos xenófobos. A noção de que política e religião não se misturam é um ideal que está longe do real, mas isto fica para o próximo tópico.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A mesmice de ser diferente

Em outro tópico eu brinquei comparando o clima meteorológico com o clima das festas de fim de ano.
Pois bem, um dos outros sintomas dessa época é a chamada "resolução de ano novo", onde as pessoas fazem um planejamento das coisas que querem realizar e das coisas que querem mudar. Algumas dessas mudanças são de ordem pessoal: mudança de hábitos, de costumes, de estilos de vida.
As pessoas querem melhorar, querem mudar, querem ser diferentes, mas esperam chegar o fim do ano para prometerem se esforçar em atingir esse objetivo...no ano que vem, quando por todo o ano que passou, tiveram essa oportunidade a cada dia!
Dependendo da situação e do contexto, ser diferente não é tão bom, pois isso carrega consigo um estigma, uma discriminação, um preconceito, que se manifestam através da exclusão ou de outras formas de agressão social, verbal ou fisicamente.
As mudanças ocorrem em diversas épocas de nossa vida, algumas são constantes e cíclicas, outras são um marco de passagem que irá transformar nossas vidas radicalmente.
A primeira mudança acontece quando trocamos o núcleo familiar por um núcleo grupal, trocamos o comportamento familiar por um comportamento grupal.
Nós ficamos tão obcecados em busca de uma identidade própria, de uma auto-afirmação que achamos que, para isso, precisamos entrar em choque, em conflito, com nossa família, com a comunidade.
Essa suposta contestação se reflete na linguagem, no vestuário, no gosto musical, na expressão artística, nos valores, na cultura e até na religião.
Nós queremos tanto sermos diferentes que não percebemos que acabamos nos tornando iguais. Ser diferente não é novidade alguma, essa mania da individualidade teve início na Renascença, com o Humanismo e o Iluminismo.
E no fim, nós apenas imitamos, nos tornamos iguais aos que pertencem à quele grupo, àquela "tribo urbana" que nós escolhemos, seja por afinidade, seja por modismo, seja por contestação.
A segunda mudança acontece quando nos vemos com outras responsabilidades, outros compromissos e outras prioridades, ampliamos nossos horizontes, nossas perspectivas, nossa noção de grupo.
Entramos em uma escola, em um curso, em uma faculdade, em um trabalho, novos ambientes sociais aos quais teremos que nos adaptar, nos adequar, nos modificar.
Pode-se dizer, então, que nós nos modificamos não para sermos diferentes, mas para sermos aceitos, reconhecidos por esse ambiente social.
Fazer mudança é uma opção, ser diferente é um compromisso. Para ser diferente é preciso ter auto-estima, determinação, persistência.
O respeito à esta opção vem com o tempo e com muito trabalho. A opção de se tornar neopagão não é uma curtição, se tornar bruxo não é da hora, se tornar wiccano não é bacana. Quem opta por esse caminho vai estar em uma sociedade sexualmente doente, governada por políticos corruptos e espiritualidade reprimida pela Igreja. Mas se você quer realmente o melhor para a humanidade, para a comunidade, saia das trevas e venha para a luz.