quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Derrubemos os muros

Comemorou-se recentemente na Alemanha o 25º aniversário da queda do Muro de Berlim. Um evento histórico que marcou a mudança de uma época, assim como a libertação de Nelson Mandela e a eleição de Barak Obama.
Inevitavelmente, em ano eleitoral, diversas empresas de comunicação de massas, dominadas por uma elite, divulgaram a data com alarde, como se isso provasse o quanto o socialismo ou os ideais de esquerda estão fadados ao fracasso. Mas há o que comemorar? Na Europa pós-muro, a situação é de crise, consequência direta do capitalismo neoliberal. Politicamente, a Europa vê a volta de velhos ideais que se achavam caducos ou superados, depois da 2ª Guerra Mundial.
O Muro de Berlim é explorado com claras intenções políticas, com textos tendenciosos e desonestos. O Muro de Berlim caiu, mas existem outros muros que dividem o mundo em dois. Existe um muro que separa a Cisjordânia de Israel, o muro que separa a Espanha do Marrocos, o muro que separa os EUA e o México, o muro que separa a Grécia da Turquia. Muros construídos pelo capitalismo, mas curiosamente os lacaios da elite não falam dessa vergonha.
No Brasil existem muros, embora não sejam físicos. O preconceito racial ainda é um estigma. Existe ainda uma forte misoginia velada na nossa sociedade. O fundamentalismo cristão levantou um muro na sociedade ao incentivar e justificar a homofobia. Sem falar no bairrismo que existe entre alguns estados e entre as regiões. Nesse ano eleitoral, colunistas das elites ergueram o muro que divide o Brasil entre PT e PSDB.
Então o Muro de Berlim caiu, mas para alguns os muros sociais devem permanecer, separando um grupo privilegiado do povão, que deve servir e trabalhar, sem queixas, sem direitos, sem participação, sem opinião. Por isso que tem gente que fala em auditoria dos votos, em impeachment da presidente recém-eleita, em intervenção militar, em secessão.
A existência destes muros são uma vergonha e denigrem nossa humanidade. Devemos lembrar do álbum The Wall, do Pink Floyd e devemos derrubar os muros. Com consciência e participação política de todos! Vamos tornar real o Plebiscito Constituinte!

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O Coelho como símbolo da Fertilidade e da Embriaguez

História Natural, abril 1997, v106, n3, p24, (2).

Interpretação do símbolo do coelho na iconografia asteca por Patricia Rieff Anawalt.

Resumo: O símbolo do coelho na iconografia asteca representam ideias sobre embriaguez, que tiveram significância tanto social quanto ritual na cultura asteca. Rituais que envolvem a bebida alcoólica, o pulque, foi representado junto com o símbolo do coelho para designar a fertilidade e responsabilidade social em beber.

Texto completo: Copyright 1997 Museu Americano de História Natural.

Pequeno, mas onipresente, o coelho figurou com destaque na iconografia antiga asteca. O Tochtli (Coelho) foi o oitavo de vinte sinais de dias no calendário ritual asteca. Utilizado em combinação com os números de 1 a 13, os sinais do dia renderam um ciclo de 260 dias. A imagem de um coelho simbolizava também a conduta desinibida de embriaguez, algo que os astecas desaprovavam. O Codex Mendoza, um manuscrito pictórico asteca que data de cerca de 1540, mostra três jovens sendo apedrejados até a morte por embriaguez.

A associação entre coelhos e embriaguez pode parecer estranho, mas era, na verdade, não tão remoto. Em tempos pré-hispânicos, a única bebida alcoólica do asteca era o pulque, que eles chamaram de octli. O pulque era fermentado a partir da seiva interior doce do agave e tornou-se mais potente através da adição de uma raiz de um tipo de acácia. Os espanhóis observaram que coelhos (coelhos mexicanos) viviam em algum lugar entre as plantas de agave, em lugares escuros e inacessíveis. Os astecas também deve ter feito esta conexão. Eles ainda consideravam Mayahuel, a Deusa do agave, como a patrona do oitavo dia, o Coelho.

As associações foram ainda mais longe. Ao invés do homem na lua, os astecas viam um coelho (como fazem os chineses). Como o prolífico coelho, deuses lunares estavam ligados com a fertilidade, provavelmente por que a menstruação sugeria um ciclo lunar. Além disso, o branco e viscoso pulque evocava o leite e o fluido seminal. Ligados à Lua e a planta agave, os coelhos incorporaram uma ampla gama de simbolismo de fertilidade.

Por causa de seus poderes positivos e negativos como um promotor da fertilidade e da embriaguez, os astecas cercaram o pulque com ritual e regulação. Frei Bernardino de Sahagun, o maior dos cronistas astecas, disse que entre as primeiras palavras de um novo rei para as pessoas eram advertências sobre os resultados malignos e variados do pulque, a raiz do mal e da perdição. E ainda, como uma fonte de força, o pulque foi dado a mulheres grávidas e lactantes e, ocasionalmente, para guerreiros. Os astecas também bebiam pulque como parte de, pelo menos, doze cerimônias anuais e honravam uma dúzia ou mais de Deuses do pulque conhecidos coletivamente como os Quatrocentos Coelhos. Por exemplo, a cada 260 dias, em 2 de coelho, um grande caldeirão de pedra esculpida em forma de um coelho foi colocada diante de uma imagem de um Deus principal do pulque e cheio até a borda. As pessoas mais velhas e guerreiros eram autorizadas a mergulhar os canudos na bebida espumante e beber o seu conteúdo.

Entre os vizinhos dos astecas foram os Huastecs ao norte, um povo dedicado à bebida forte. Segundo a lenda, um dos primeiros líderes Huastec desgraçou-se na grande celebração em homenagem a descoberta do pulque. Só ele entre a multidão reunida não conseguiu parar de beber das quatro taças da bebida potente. Só ele pediu mais uma rodada, ficou bastante embriagado e, antes de todas as pessoas, jogou fora sua tanga. Posteriormente Huastecs formaram seu próprio comportamento infame por este antepassado lendário - o da quinta taça - resultando em um padrão de conduta bizarra. Frade Sahagun escreveu que não só o Haustecs deformaram suas cabeças, quebravam e mancharam os dentes e pintam o cabelo de amarelo e vermelho, os homens também andavam sem tangas e agiam como se estivessem bêbados.

Na visão desdenhosa dos astecas, os Huastecs estavam completamente ultrajados, se não hipnotizados. Um bom exemplo da ambivalência asteca em relação ao pulque, à embriaguez e todas as questões associadas é a adoção de uma Deusa da fertilidade Huastec em seu próprio panteão elástico. Esta divindade foi nomeada Tlazolteotl, "Divindade Imunda" (referindo-se ao excesso sexual) e tinha nítidas associações lunares. Em um documento pictórico pré-hispânico, a Deusa é mostrada usando um anel de nariz "lunar", um símbolo comumente associado com os Deuses do pulque. Ela também está ao lado de um céu noturno, onde a lua é descrita como uma enorme panela de pulque em forma de anel de nariz, preenchida com um coelho, dando outro exemplo desse complexo de símbolos de fertilidade interligados.

A promoção e manutenção da fertilidade estava no centro do sistema religioso asteca. Em duas das dezoito grandes cerimônias anuais dos astecas, mesmo as crianças mais novas foram alimentadas com a bebida potente. E um pictórico asteca contém uma representação do festival Pillahuana (a embriaguez de crianças), durante a qual meninos e meninas com idade entre nove e dez anos dançam, bêbados de pulque, e realizam atos sexuais.

Por causa da importância ritualística profunda do pulque, talvez seja compreensível que o uso indiscriminado da bebida alcoólica na vida cotidiana foi considerado profano. Somente anciãos que haviam cumprido todas as responsabilidades sociais podiam livremente beber o pulque fora de um contexto ritual.

Após a conquista espanhola, a embriaguez se tornou um problema crescente no México, aumentada com a introdução de bebidas alcoólicas fortes, destiladas. No entanto, ainda se pode encontrar pulque sendo vendido no mercado aborígene no México central, muitas vezes tirado de um balde de lata na traseira de um caminhão ou às vezes tirado de um tambor de madeira velha. É um líquido aquoso, pálido, de aparência leitosa, que não tem cheiro e não tem um gosto bom. Em algumas áreas, é aromatizado com frutas, como abacaxi. Um copo tem aproximadamente a potência de uma cerveja - não tão forte como a bebida asteca antiga, que foi reforçada com a adição da raiz diabólica.

Apesar de suas críticas contra a embriaguez, os astecas eram fatalistas sobre a falibilidade humana e beber. Sua cosmologia até forneceu a justificativa para isso. Os astecas estavam envolvidos em prever o futuro, o dia de nascimento tinha um impacto decisivo sobre a pessoa ao longo da vida. Nenhum aniversário era mais lamentável que o nefando dia 2 Coelho. Qualquer pessoa nascida sob esta influência estava condenada a embriaguez. Alimentação, descanso, aparência pessoal, família, autoestima, saúde, tudo era esquecido com a preocupação constante com o pulque. Quando um homem nascido neste dia era visto gritando, chorando, ou brigando por estar sob o efeito do dia, diziam sobre ele: "Ele é como o coelho dele".

Fonte: Soy Chicano. [link indisponível/morto]

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ometeotl

Jaques Lafaye nos conta em “Quetzalcoatl e Guadalupe” a curiosa história da formação da identidade do México. O México, como muitos dos países latino-americanos, foi colonizado por espanhóis. O esforço dos colonizadores em “encaixar” sua visão e crença católica e cristã neste Novo Mundo produziu uma piedosa fraude que tornou Quetzalcoatl no apóstolo São Tomé e tornou a Deusa Tonantzin na Nossa Senhora de Guadalupe.

Essa distorção da realidade e da religião não são privilégios dos cristãos. Vemos isso no Paganismo Moderno, especialmente nas vertentes da neowicca, do Dianismo e outras “religiões da Deusa”. Promove-se praticamente um indisfarçável monoteísmo centrado na Deusa, como se isso fosse compensar ou trazer justiça para a humanidade que sofreu com o monoteísmo abraâmico e o patriarcado. Omite-se e distorce-se a figura e o papel do Deus no Paganismo Moderno, por razões e agendas pessoais.

Pesquisando no oráculo virtual [Google] algumas palavras coletadas do livro eu encontrei na mitologia asteca algo que se assemelha ao Monismo, o aspecto divino chamado Ometeotl. Para este pagão que vos escreve, a Mônada é a União [Hiero Gamos] resultante do Deus com a Deusa.

Vamos conhecer um pouco mais da mitologia asteca.

Ometecuhtli (O Senhor Deus) e Omecihuatl, A Senhora Deusa, formavam a dualidade criadora na religião mexica.

Ometecuhtli representa a essência masculina da criação. É esposo de Omecihuatl e pai de Tezcatlipoca vermelho (Xipe Tótec), Tezcatlipoca preto (Tezcatlipoca), Tezcatlipoca branco (Quetzalcoatl), e Tezcatlipoca azul (Huitzilopochtli). Também é chamado de Tonacatecuhtli [tonaka'tekutli], "Senhor da nossa carne".

Este é um Deus antigo, que não tinha templos e era quase desconhecido pelo povo, mas muito nomeado nos poemas das classes altas.

Omecihuatl (Senhora da Dualidade), Deusa que representa a essência feminina da criação na religião mexica. Esposa de Ometecuhtli. Também é conhecido como tonacacihuatl, Senhora da nossa carne.

Ometeotl é também chamado "in Tonan, in Tota, Huehueteotl", "a nossa Mãe, o nosso Pai". Como dualidade e unidade masculino-feminina, reside em Omeyocann, "o Sítio da Dualidade", que, pela sua vez, ocupa o mais alto lugar dos céus. São pais do Universo e tudo quanto há nele. Como "Senhor e Senhora da Nossa Carne e Sustento", subministra a energia cósmica universal da qual todas as coisas derivam, bem como a continuidade da sua existência e sustento. Prove e mantém o ritmo oscilante do universo e confere a cada coisa a sua natureza particular. É em virtude destes atributos que são chamados de "O Um Mediante O Qual Todos Vivemos" e quem "é o verdadeiro ser de todas as coisas, preservando-as e nutrindo-as". Por ser metafísicamente imanente, Ometeotl é chamado Tloque Nahuaque, amo do vizinho e o afastado ou o que está perto de todas as coisas e de quem todas as coisas estão perto. Sendo epistemologicamente transcendente, é chamado de Yohualli-ehecátl, Um que é Invisível (como a noite) e Intangível (como o vento). Recebe também os nomes de Moyocoyatzin, "o inventor de si mesmo" e Ipalnemohua, "o dador de vida".

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ometeotl

Realmente, nós temos muito que aprender com os povos antigos.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Seja meu o êxtase e a alegria na terra

Nós dizemos em nossos rituais a Carga da Deusa.

A versão mais conhecida diz em um trecho: “Cante, festeje, dance, faça música e amor, todos em minha presença, pois meu é o êxtase do espírito e minha também é a alegria sobre a terra”.

Há outro trecho onde se diz: “Pois meu é o êxtase do espírito e minha é a alegria do mundo; pois a minha lei é o amor para todos os seres”.

Em uma versão mais antiga há um trecho que diz: “Há uma porta secreta que eu fiz para estabelecer o caminho para experimentar mesmo na terra o elixir da imortalidade. Digam, ‘seja meu o êxtase e alegria na terra’”.

A maioria de nós nasceu em uma cultura que ficou soterrada pelo recalque, pela opressão e repressão ao corpo, ao desejo, ao prazer, ao amor e ao sexo, fruto da crença judaico-cristã. A postura do Paganismo Moderno é bem revolucionária em relação à maioria das religiões majoritárias ao colocar o corpo, o mundo, o desejo, o prazer, o sexo e o amor como parte do caminho e busca espirituais.

Em sua estrutura ritualística, a Wicca Tradicional celebra a fertilidade com o Grande Rito, não há como vivenciar e entender o mistério de nossa religião sem que o sacerdote incorpore o Deus e sem que a sacerdotisa incorpore a Deusa e realizem o Hiero Gamos. Esta liturgia ainda sobrevive em covens mais tradicionais, mas foi perdido com a popularização da Wicca e com a chegada da neowicca. Hoje em dia se fala com naturalidade no rito simbólico e em auto iniciação, abriu-se mão de diversos princípios tradicionais para se conseguir maior aceitação do público.

A história antiga mostra que nossos ancestrais sabiam como celebrar. Antigamente os festivais religiosos eram eventos populares, havia música, dança, canto, a multidão tinha alegria e êxtase nesses atos voluntários de adoração aos Deuses. Quanta coisa nós perdemos quando concedemos poder a uma instituição religiosa, quanto nós perdemos ao conceder uma autoridade a uma religião oficial. Tudo que se ouve nas igrejas é lamúria, choro, remorso, arrependimento, sofrimento, dor.

Em pleno mundo contemporâneo não vemos muitas demonstrações públicas de canto, dança, música, júbilo, alegria e êxtase. A Sociedade, o Estado e a Igreja nos permitem apenas o Carnaval, festas juninas, natal. Imaginar uma cidade inteira em festa por meses em louvor a um Deus ou uma Deusa é impensável, mesmo para as religiões oficiais. O que vemos nas mídias, em termos de entretenimento e notícia, é violência, tragédia, sofrimento, dor. Falar em amor, júbilo, alegria e êxtase em tais sociedade e cultura doentias é loucura.

Como percebemos, entendemos e realizamos a alegria e o êxtase na terra, em nossas vidas, em nossas cidades, em nossos países, parecem ser questões surreais. A alegria está ligada ao contentamento, a uma vida feliz, um sentimento de satisfação. A condição de estar contente ou ser feliz, nesse mundo consumista e egoísta, parecem ser impossíveis. O êxtase está ligado ao arrebatamento, ao estado de satisfação absoluta, quando obtemos um prazer total, onde nossas necessidades deixam de existir e vivemos na plenitude divina. A percepção de que o mundo “real” é uma simples miragem, espelho, reflexo, ilusão de algo maior, nesse mundo niilista e materialista, parecem ser sonhos.

O pagão, o bruxo e o wiccano vai além de celebrar, nós vivenciamos essa prática, diariamente, pois dizemos: “todo ato de amor e prazer” são os rituais de nossos Deuses.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Analogias religiosas

Que o descrente é péssimo em analogias para criticar as religiões isso eu escrevi aqui neste blog.

O Azarão publicou uma analogia religiosa típica do descrente.
Ali diz que religião é como um pênis.
"É bom ter um. É bom ter orgulho dele. Mas, por favor, não o use como um chicote em público nem comece a acená-lo para os ao seu redor. E, por favor, não tente enfiá-lo goela abaixo de meus filhos".

No perfil do Azarão no Google plus eu provoquei:
- Por que não vagina?
Ele respondeu [sem entender a provocação]:
Porque vagina eu adoraria que tentassem me enfiar goela abaixo!

Eu usei o oráculo do Google para ver se tinha alguma analogia com religião e vagina.
Eu encontrei vários comentários interessantes.

Se religião é como pênis, religiões maiores são melhores?
Vamos parafrasear: religião é como vagina, quente e convidativa, mas uma vez dentro e contribuindo, as obrigações te tiram o tempo, o dinheiro e a liberdade [alguns colocaram razão].
Podemos brincar mais. Religião é como pênis/vagina. Todos nascemos com um/a. Então o descrente é aquele/a que quer extirpar seu órgão sexual. Então o descrente quer ser assexuado. Ou trocar de sexo. Ou ser transgênero. Ou quer ter a liberdade de se relacionar sexualmente com pessoas de seu próprio sexo. Ou tem vergonha de seu sexo. Ou é tímido/a em se relacionar intimamente com outras pessoas. Ou [como bom crente das religiões abraãmicas] acha que sexo é coisa de gente suja, vulgar e pecaminosa. Freud explica.
Se religião é como pênis/vagina, uma suruba é a missa? Pular a cerca é congregar em outra religião? Adultério é dizer ser de uma religião mas praticar escondido outra? Proselitismo é quando exageramos o tamanho/importância da religião? Cerimônias públicas são um atentado ao pudor?
Como ficaria a questão de desejar outro/a homem/mulher, sendo casado/a? Como ficaria a modificação do corpo [estética/plástica] para termos um corpo melhor?
Se a religião é como pênis, então apenas adultos sabem o que é, como funcionam e podem utilizar. Descrentes são como crianças que não amadureceram. Se a religião é como pênis, transar com uma vagina seria sincretismo. Usar a "porta dos fundos" seria superstição.
A coisa ficaria ainda mais interessante se incluíssemos outras partes do corpo [igualmente úteis no sexo] como boca, seios, ânus, mãos. Então teologia seria uma sexologia. Um bordel seria uma igreja. Uma prostituta seria uma sacerdotisa [e antigamente muitas eram]. Pílulas anticoncepcionais seriam a hóstia e a camisinha seria a "roupa de domingo".
Isso dá um sentido todo diferente ao termo "ir ao confessionário". Mas seria redundante ao termo "missionário" e "ajoelhar".

Considerando que o Paganismo Moderno, a Bruxaria e Wica Tradicionais são religiões que são sensuais e sexuais, faz muito sentido falar em pênis e vagina. Nós temos um Senhor e uma Senhora. Nós temos o Grande Ritual. Nós dizemos que "todos os atos de amor" são rituais de nossos Deuses. Então, dentro de uma cerimônia, celebrantes irão expor seus órgãos sexuais e usar, tudo em louvor e honra aos nossos Deuses.

Sem religião, sem pênis/vagina, não há amor e sexo. Sem religião, sem pênis/vagina, não existe humanidade. Então nós precisamos ter uma religião. Para esta religião, não falta até um livro sagrado: Tantra. Somente duas pessoas são necessárias e uma cama. E no êxtase, nos permitimos ser arrebatados para o Paraíso, com os Deuses.
Nisso eu concordo com Azarão. Religião é como sexo. Devia e deve ser sempre privado, íntimo, particular. E cada um cuidando de sua própria vida erótico-afetiva.

domingo, 26 de outubro de 2014

O Deus de Schrodinger

Caros diletos e eventuais leitores, este é um texto que não é um texto. Magritte em forma de palavras. Este é um texto que é tanto uma análise, quanto uma crítica, quanto uma reflexão, quanto uma paródia. Seja o caro dileto e eventual leitor crente ou descrente, coloque seu bom humor na frente.

Schrodinger foi um físico teórico que usou o paradoxo que leva seu nome para explicar como as partículas se comportam em nível subatômico, tornando-se um modelo mental para a Física Quântica. O paradoxo, conhecido como o Gato de Schrodinger, propõe um modelo mental onde um gato é colocado em uma caixa lacrada, junto com um frasco de veneno. Na caixa existe um mecanismo que pode ou não acionar o veneno, a questão de Schrodinger é que não é possível, depois de determinado tempo, afirmar se o gato está vivo ou morto. Se um observador abrir a caixa, o paradoxo permanece, pois a ação de pegar ou abrir a caixa pode disparar o mecanismo que aciona o veneno e matar o gato, em suma, a ação do observador altera a natureza do objeto observado. Schrodinger é ateu, como muitos cientistas. O que é curioso é que ele tenha que recorrer a uma analogia, um modelo mental, uma explicação filosófica, para explicar uma teoria científica. Muito mais curioso é ler um texto ou comentário ateu afirmando que a filosofia em nada contribuiu para a ciência.

Essa analogia pode ser usada para outras questões, como a existência dos Deuses. Crentes ou descrentes, segurem um pouco sua raiva e reação. Eu devo lembrar que a ciência não afirma que os Deuses não existem, apenas que não tem evidência de existirem. Eu devo lembrar também que o objeto de estudo da ciência é o mundo material, considerações sobre a existência pertencem ao objeto de estudo da filosofia e da religião.

Antes eu vou citar alguns resultados tirados do oráculo virtual [Google]:

“Da mesma forma, a existência de Deus pode ser visto como o conhecimento se o gato está vivo ou morto. Contudo, não podemos olhar na caixa o que torna o paradoxo como imutável. Você pode acreditar que o gato está vivo ou morto, não há nenhuma maneira de saber se você está certo e como não há maneira alguma de realmente olhar na caixa, esse estado paradoxal continua. Da mesma forma, se você olhar para a existência de Deus, você vai encontrá-lo e se você não fizer isso você não vai encontrá-lo”. [News24]

“A coisa sobre o gato de Schrodinger é que é uma tentativa de colocar um fenômeno que só existe no nível quântico e visualizá-lo em uma escala macroscópica, e, por várias razões, eu não acho que isso é possível. O gato estar vivo ou morto teria uma influência mensurável sobre o mundo real (ondas sonoras do batimento cardíaco, energia térmica, etc).

A coisa é, se existe um deus, deísta ou não, a sua existência deve ter algum tipo de efeito mensurável sobre o mundo real”. [skeptical avenger]

“Mas embora não se saiba se o gato esta vivo ou morto, assim como não se vê Deus, nem tão morto como Friedrich Nietzsche julgou estar, e nem tão vivo como queremos acreditar sim, porque como consequência ou como resultado, daquilo que somos é baseado naquilo que acreditamos, imagina qual a consequência em nós, o resultado em nós em acreditar em alguém que nunca vimos? Loucura? Insensatez? ou simplesmente o fato de que acreditamos, independentemente se vimos ou não, ou não o conhecemos tão bem quanto achamos que conhecemos a nós mesmos, ou a palma de nossas mãos.

Acreditamos porque sabemos que Ele está lá. De alguma forma ele está lá, e diga-se de passagem aqueles que por menor que sejam a sua fé, se apesar dos pesares se manterem firmes a essa pequena chama como o fogo de uma vela com um pequeno pavio, sim! esses serão os maiores sábios e homens de Deus assim como menores homens entre os próprios homens que você poderá conhecer, as mais preciosas lições estarão com eles não os holofotes, e você será um bem-aventurado se conseguir captar ao menos uma palavra”. [vontade descabida]

Caso a platéia ainda não dormiu, o paradoxo do gato de Schrodinger não é apenas se o gato existe ou não, se o gato está vivo ou morto, mas também que a observação altera a natureza do que é observado. Por mais objetivo e imparcial que seja o observador [pesquisador, cientista], sua mera presença [e bagagem cultural] irá alterar a natureza do objeto observado, bem como a interpretação [evidência] de sua existência. Eu sinto que estou começando a irritar os descrentes. Eu vou empatar esse jogo.

Se o paradoxo do gato de Shrodinger pode ser usado como uma analogia para a existência dos Deuses, então não há, em absoluto, qualquer afirmação exata que se possa fazer a respeito da existência dos Deuses, quem são Eles e qual a relação Deles com a natureza. A observação, a natureza do que foi observado, a impressão do que se observou, será sempre individual. Nenhuma pessoa, grupo, organização ou instituição pode fazer qualquer afirmação tendo por base sua visão, observação ou experiência pessoal [subjetiva] a respeito dos Deuses. Eu sinto que consegui irritar os crentes. Eu vou empatar de novo.

Crentes e descrentes fazem afirmações sobre e a respeito da existência dos Deuses com base na filosofia, não em fatos mesuráveis, quantificáveis, reproduzíveis. Nem poderiam ser, pois os Deuses não são objetos inertes, tente estabelecer padrões constantes e fixos para o comportamento humano e verão como há sempre exceções que desafiam a regra.

Descrentes tem razões de sobra para criticarem crentes, mas lhes falta razão quando fazem tábua rasa e jogam todas as religiões e religiosos no mesmo saco.

Crentes tem razões de sobra para criticarem descrentes, mas lhes falta razão quando não aplicam o mesmo rigor para analisar sua crença.

O descrente tem seu próprio método [caminho] para se situar no mundo, na vida, na existência. O crente tem seu próprio método [caminho] para se situar no mundo, na vida, na existência. Ao invés de ficarmos nos atacando, deveríamos discutir e debater as ideias, os argumentos. A experiência científica é válida dentro de seu escopo, a experiência religiosa é válida dentro de seu escopo, no fim, apenas quem passa pela experiência pode avaliar, de forma subjetiva, particular e pessoal, se a experiência é legítima.

Quanto ao gato e Deuses, eu devo ser um dos poucos religiosos que também é cético. O gato está e não está no texto. Os Deuses estão e não estão na natureza. Este texto foi e não foi lido. Nada é simples, quando tentamos colocar em palavras o Universo.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

As dezoito Ménades

Na mitologia grega, as Ménades, ou Mênades, (de mainomai, ”enfurecido”), também conhecidas como bacantes, tíades ou bassáridas, eram mulheres seguidoras e adoradoras do culto de Dioniso (ou Baco, na mitologia romana). Eram conhecidas como selvagens e endoidecidas, de quem não se conseguia um raciocínio claro.

Durante o culto, dançavam de uma maneira muito livre e lasciva, em total concordância com as forças mais primitivas da natureza. Os mistérios que envolviam o deus, provocavam nelas um estado de êxtase absoluto, entregando-se a desmedida violência, derramamento de sangue, sexo, embriaguez e autoflagelação.

Normalmente são representadas nuas ou vestidas só com peles de veado, com grinaldas de Hera e empunhando um tirso (bastão envolto em ramos de videira). [Wikipédia]

O viajante seguia pelo caminho entre o Bosque Sagrado quando teve sua passagem impedida por uma mulher.

- Não prossigas adiante! Aqui é solo sagrado.

- Quem és tu e a quem este solo é consagrado?

- Eu sou Licaste, meu nome é a chave para passar pelo espinheiro.

- Deixa-me passar que na volta te trago algo para aliviar teu sofrimento.

- Descanse teu cajado de freixo e leve este ramo de teixo.

O viajante segue e encontra um nemeton onde homens, mulheres, fadas e faunos dançavam alegremente em torno de uma bétula.

- Viajante venha dançar conosco!

- Quem és tu e a quem esta dança é oferecida?

- Eu sou Calícore, meu nome é a chave para entrar e sair da roda.

- Deixa-me passar que na volta te trago um bardo para cantar nesta formosa dança.

- Troque teu sapato de amieiro por esta bota de salgueiro.

O viajante segue e passa por uma taverna onde duas mulheres pareciam embaraçadas.

- Viajante, nos ajude! Entre na taverna e resgate nossa irmã!

- Quem sois vós e quem é vossa irmã? Quem vos prende a esta taverna?

- Estesícore é nossa irmã. Eu sou Rode e esta é Ereuto. Perdoe-a, viajante, por sua timidez. Nosso dever é levar nossa irmã para Calícore, nossos nomes são a chave do regozijo e do recato.

- Deixem-me passar que na volta vos trago um cavaleiro para defender sua virtude e um cavalheiro para ofuscar vossa vergonha.

- Tire o cardo de sua lapela e coloque essa flor de sorveira.

O viajante segue e passa por duas mulheres em uma disputa de velocidade. Uma estava vestida com uma simples túnica e a outra estava carregada de livros.

- Viajante, seja juiz nesta competição e diga qual de nós duas é mais rápida.

- Quem sois vós e por que disputam?

- Eu sou Oquínoe e esta é Protoe. Ela conhece apenas a força muscular enquanto eu conheço aquilo que o corpo não chega. Nossos nomes são a chave para resolver as diferenças entre a mente e o corpo.

- Deixem-me passar que na volta vos trago um justo juiz para vos conciliar.

- Leva contigo esta coroa de azevinho e este casaco de carvalho.

O viajante segue e passa por um grande jardim cuidado por quatro mulheres.

- Viajante, as flores brotaram e os frutos estão maduros. Vinde, faça a colheita conosco e aproveite dos frutos.

- Quem sois e de quem é este jardim?

- Eu sou Bruisa, eu cuido para que as flores cresçam. Esta é Eupétale, ela cuida que as flores desabrochem. Aquela é Arpe que faz da flor o fruto e a outra é Trígie que colhe o fruto do mistério. Nossos nomes são a chave para a vida eterna.

- Deixem-me passar que na volta vos trago o graal com a Água da Vida.

O viajante segue e encontra uma mulher ricamente vestida e adornada.

- Viajante, vinde e descanse. Eis que te concedo beber de minha fartura.

- Quem sois e de quem recebeste tal benção?

- Eu sou Cálice, em mim a Água da Vida é derramada sem desperdício. Meu nome é a chave para receber o Senhor.

- Deixa-me passar que na volta te trago quem possa te encher até a borda.

O viajante segue e encontra uma nobre dama em um vestido carmesim.

- Viajante, chegue bem perto e vêde como eu sou aquilo que corre em suas veias e que repousa no graal.

- Quem sois e de quem é o graal?

- Eu sou Acrete e conhecer-me é conhecer minha irmã que te levará ao Senhor.

A mulher chama por sua irmã e com as duas juntas chega outra terceira. A mulher se aproxima do viajante como um vulto.

- Viajante, eu ouvi teu chamado. Por Cálice e Acrete, eu vim. Tens as chaves para que possa ver ao Senhor?

- Eu tenho a vara, a medida, a coroa, o manto. Eis aqui as vinte cinco letras das árvores sagradas. Quem há de me mostrar ao Senhor?

- Eu sou Mete, o meu nome é a chave para evocar a sacerdotisa do Senhor. Vede, que ela veio por teu chamado.

- Viajante, está deixando o Mundo dos Homens. Sabes o que te espera?

- Dizei teu nome e mostra-me, formosa sacerdotisa.

- Eu sou Silene e silente eu te abro as portas do Universo. Vem e vede.

Abre-se o Firmamento e o viajante fica diante de uma mulher como jamais vira igual.

- Eu sou Egle. Vede em mim o esplendor do Senhor refletido em mim. Há algo que eu possa te oferecer por ter chego até aqui?

- Eu te peço, Véu do Santo dos Santos, que me conceda o canto e o instrumento.

Das dobras do vestido da mulher, semelhante ao vestido de uma galáxia, a mulher faz vir adiante uma jovem mulher, vestida em outro e prata.

- Viajante, eu entrego meus dons, sabedorias, estratagemas, técnicas para teu uso. Toque meu corpo de forma errada e tudo será reduzido às cinzas.

- Poderosa instrumentadora do Senhor, dizei teu nome e a quem serve?

- Eu sou Ione e teu dever agora é cuidar de mim. Leva-me para Calícore para que o encerramento seja o princípio.

O viajante começava a retornar de sua caminhada quando uma mulher de cútis toda branca e vestindo uma mortalha impediu sua passagem.

- Viajante, daqui não podes retornar.

- Quem és tu e por que não posso completar minha missão?

- Eu sou Enante. Por mim ninguém e todo mundo passa. Meu nome é a chave dos ossos. O que tens não pode me comprar, o que sabes não me impressiona e o que cantas não me seduz. A quem irá recorrer?

- Eu canto a vós, Senhor. O primeiro existente que nasceu neste mundo. Aceitou nascer, viver e morrer como todos que vem a este mundo, por que vós sois o mestre dos mistérios e conhecedor de todos os caminhos. Vieste a este mundo como o carvalho e o azevinho. Vós fostes posto no solo como semente, brotou, cresceu, floriu, frutificou e foi ceifado. Vós viestes a este mundo como o lobo e o cervo. Vós fostes posto dentro de um ventre, passou pela infância, adolescência, maturidade e senilidade. Conheceu o leite, comeu da terra, gerou muitos para depois aceitar a morte. Vós viestes a este mundo como a caça e o caçador. Vosso é o domínio dos grãos, do gado, das feras, da floresta. Por vós, tudo é santificado e sacramentado. Em vossos rituais nos reencontramos ao celebrar o êxtase da vida. Vós sois o arado que abre a terra, a chuva e a força que faz a semente brotar. Vós viestes a este mundo como bebê, criança, jovem e adulto. Vós fostes o camponês, o sacerdote, o guerreiro e o rei. Vós viestes a este mundo como filho, pai e consorte. Vosso é o domínio do amor, do desejo, do prazer, do sexo. Por vós, tudo é belo e divino. Em vossos bosques sagrados, nos santuários das cavernas, entre rios, vales, morros e encruzilhadas, nós festejamos. Vós sois aquele que nos tira do ventre e nos conduz para a tumba. Vós viestes a este mundo como vencedor e vencido, como herói e monstro. Vossa são as dádivas da vida e da morte. Ave Dioniso, ave Cernunnos, ave Herne, ave Pan!