sábado, 6 de dezembro de 2014

A Dança de Shiva

Eu escrevi no artigo “Pentagrama Invertido” este trecho:

“Essa relação espacial de que o que está em cima é superior ou dominante pode ser vista em muitas imagens católicas, onde o Santo pisa o Diabo, como também pode ser visto na estátua de Shiva sobre um demônio. Isso não faz o menor sentido, em termos espirituais, uma vez que “em cima” ou “em baixo” são referenciais humanos e terrenos. Para dar uma visão melhor deste simbolismo, eu gostaria de lembrar os muitos mitos em que o herói tem que superar ou vencer um animal (seu próprio ego material) para poder realizar uma missão. Entretanto o herói não pode matar o animal, senão mataria parte de si mesmo, tornando impossível de cumprir seu destino, levando o herói a assimilar, aceitar seu lado animal, dando ao herói os poderes mágicos necessários para terminar sua saga. Ou seja, Shiva não está “pisando” o demônio, mas sendo escorado por ele, dando a Shiva a base necessária para que Shiva seja Deus. A Matéria não está em confronto com o Espírito, nem está em sujeição, como querem muitos teóricos”.

Shiva e Kali são um Deus e uma Deusa do Hinduísmo difíceis de serem compreendidos pela mente ocidental. A dança de Shiva provoca o inverso da ação de Brahma, seus homens santos vivem em cemitérios e crematórios, sua fúria é temida por Vishnu e Brahma. Sua contraparte, Kali, é mais enigmática. Carinhosamente chamada de Kali Ma, ela enfrentou Raktabija, um Asura [demônio hindu] que estava desafiando os Deuses para lutar e Ela o derrotou comendo-o. Shiva é o Destruidor, Kali é a Devoradora.

Mircea Eliade e Joseph Campbell resumiram este mito perturbador e aterrador como o “mito do eterno retorno”. Em algum ponto, ciência e religião se tocam, quando falamos no princípio e fim do Cosmo, tal como nós o conhecemos. Tanto a religião quanto a ciência acreditam que o Cosmo irá se extinguir em algum momento, mas que outro aparecerá em seguida, das cinzas do Cosmo que se consumiu. Quem diria que a ciência acreditaria no mesmo princípio de que a existência física deste Cosmo é cíclica?

Voltemos a Shiva e a forma como Ele é representado, como se estivesse dançando, em cima de um Asura, dentro de um círculo, cuja a base que pode ser considerado o começo e o fim do círculo, senão a base da manifestação de Shiva.

Criação, Manutenção e Destruição, podem ser consideradas as formas em como a mente ocidental percebe a Trindade Brahma, Vishnu e Shiva. Shiva porta o tridente [trishula] que é o próprio simbolismo da Trindade e das três dimensões de existência. O círculo representa a ilusão da passagem de tempo das criaturas carnais enquanto o centro, imutável, como um espaço pleno, está Shiva regulando a manifestação material. Enquanto vivemos como forma material, somos perecíveis, como tudo que existe dentro da manifestação divina, incluindo o Cosmo. A dança de Shiva não tem a intenção de colocar o mundo físico, a matéria, a carne, como naturalmente malignas, como algo a ser expurgado, mas sim que devemos dominar nossas pulsões, usar o corpo para transcender a ilusão de Maya.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Apologia ao Frei Onfray

Humanos, por razões evolutivas, temos verdadeira alergia ao fortuito. Não foi por outro motivo que inventamos tantos panteões de deuses” – Hélio Schwartsman.

“Humanos, por razões evolutivas, por ter aversão ao fortuito, também inventaram as diversas ciências” – Profeta do Profano.

No mundo de Leucipo, há apenas átomos, vazios e movimentos efetuados pelos primeiros no segundo.

Esses átomos organizam-se e produzem simulacros. Eles existem em número ilimitado e, em associações relativas a sua forma, sua ordem e disposição, constituem a matéria e a substância de toda realidade, sem exceção”.

A questão permanece. Se a “matéria”, a “realidade”, é um “simulacro”, como decidimos o que é real, concreto, material e não imagem, ilusão?

Esses simulacros “são compostos de películas imperceptíveis que emanam dos objetos e penetram no corpo por seus orifícios. os átomos em suspensão no ar entram no interior do corpo pelo nariz, pelos olhos, pelos poros ou pelas orelhas. Os cheiros, os sabores as imagens, as impressões táteis, os sons são percepções que atraem essas estruturas em movimento no ar e seu trajeto do objeto e direção ao sujeito”. - Michel Onfray, Contra História da Filosofia, Volume I - As Sabedorias Antigas, pg. 42 – 43.

Tudo é átomo, inclusive o ar, então como os simulacros podem se movimentar sem resistência? Tudo é átomo, inclusive o corpo, o nariz, os olhos, os poros, as orelhas, que também são estruturas de simulacros construídas por átomos. O “corpo” não é um corpo. Tudo é átomo, inclusive a percepção? Tudo é átomo, inclusive o sujeito? Onde ficam os átomos ou o simulacro da percepção, do sujeito? A “percepção” não é uma percepção, o “sujeito” não é um sujeito.

E se nosso modelo de interpretação de nossas percepções não for suficiente para englobar todos os simulacros construídos pelos átomos? Não estaríamos limitando todo um Universo para nossa conveniência? E se os átomos também forem simulacros de partículas, energias e ondas que não tem existência física? Não estaríamos limitando toda uma Existência para nossa conveniência?

Eu sempre achei curioso como alguém define a realidade, geralmente dentro de um conceito arbitrário escolhido, um padrão, fora do qual todo aquilo que não se adequa é descartado.

O descrente fica ofendido quando vê que “ateísmo” é listado como uma religião. O caro dileto e eventual leitor irá ser condescendente comigo enquanto eu explico e analiso a verdade dessa acepção.

Antes de qualquer coisa, eu devo lembrar que religião não é simplesmente acreditar em Deus[es], eis o Budismo que exemplifica bem a questão. Religião é a crença de que um modelo, um padrão, um conhecimento, contém a verdade. A contestação ou crítica ao modelo, ao padrão, ao conhecimento é uma ofensa à verdade “anunciada”.

Diz o descrente: Para existir, para que se conclua pela existência, é preciso evidências. Quase sinto pena do descrente, pois ele concede à evidência uma qualidade transcendental. Algo só existe quando a evidência assim demonstra. A evidência está além do objeto, fato ou circunstância que ela supostamente representa.

Entretanto, o que são as evidencias, provas ou experiências nas quais a Ciência se escora para fazer suas afirmações? Primeiramente é necessário estabelecer um objeto de estudo, uma metodologia, uma coleta de material e trabalho de campo. Todos os itens são catalogados, separados e discriminados em suas características. A isto se chama amostragem, geralmente muito pequena se considerarmos o conjunto total. Esta amostragem é medida, pesada, dissecada para então ser colocada dentro de uma característica de conveniência. Então, cada evidencia até então apenas demonstra a existência da mesma dentro de um conjunto de realidade. O próximo passo é o de tentar comparar entre as amostragens e ver alguma similaridade, algum padrão entre as amostras ou resultados nos exames para, através de fórmulas e estatísticas, se definir o que se chama de leis da Ciência.

Qual é a "realidade" dos ateus? - A inexistência de Deus.

O Paraíso, para o ateu, é esta ilusão de ser mais racional, inteligente, lógico do que outras pessoas, simplesmente pelo fato de se dizer ateu.

O descrente, quando acuado em seus próprios argumentos, ou tropeçado nos exemplos que este mesmo usa para suas analogias, entra no mesmo raciocínio circular muito comum de se encontrar entre evangélicos.

O que se pode aprender ao percebermos a ciência como parte do contexto histórico é que mesmo ela é produto de uma concepção, de um padrão, de uma norma, de uma visão de mundo.

A maior dificuldade ao conceituar e ver quem são os Deuses e Deusas está em nossa percepção, que é finita e imprecisa, nós tendemos a ver a aparência/embalagem e não procuramos ver o conteúdo/essência.

Deus [ou pelo menos aqueles que sejam dignos deste título] não promete um mundo confortável e agradável, aprazível unicamente às necessidades humanas. Isto é aquilo que apenas "amigos imaginários" fazem. Discutir ou definir a existência de Deus nestes termos é incoerente, ilógico, irracional e um completo absurdo.

Há que se explicar muitas coisas quando se fala em Paganismo. Espera-se muitas coisas de nossos Deuses que Eles nunca, ao contrário do Deus Cristão, prometeram. Há que se ler na história, de forma séria e honesta, o que os Deuses Antigos nos davam, o que Eles esperavam de nós e o que nossos antepassados fizeram por Eles.

Uma coisa é certa: os Deuses Antigos nunca prometeram aos seus adoradores uma falsa paz, um falso amor, uma falsa salvação, uma falsa redenção. Eles nunca prometeram que a vida seria mais fácil ou mais branda se nós os adorássemos. Eles nunca nos condenaram nem nos julgaram por nossas falhas, jamais agiram como padrastos que apenas acusa a paternidade quando convém ou quando há uma obediência cega.

O que o ser humano (crente ou descrente) deveria perceber é que os mitos e das religiões não são (ou não deveriam ser) as donas da Verdade, mesmo porque a Verdade é dona de si mesma. Os mitos e as religiões são sistemas, como a Ciência, que aponta os indícios através dos quais se pode ter um vislumbre da Verdade.

A mitologia e a mitografia migrou do imaginário popular para a nobreza e para o clero, de onde vem a concepção moderna estereotipada da imagem do unicórnio. Sua origem e existência há muito foi integrada no imaginário, perdendo sua referência com a biologia das espécies e no mundo asséptico, estéril e mecanicista do ateu, qualquer coisa que não se encaixe ou não passe pelo escrutínio da ciência, o unicórnio é relegado a uma figura fantástica, impossível e improvável de existir, mera superstição e crendice, que deve ser expurgada. Impossível calcular a perda cultural que a humanidade teria se por acaso essa convicção se tornasse uma verdade absoluta e inquestionável.

No fundo, o transeunte apenas busca as mesmas coisas que nós. Quer respostas, quer conforto, quer segurança, quer ter uma ideia do que pode vir a seguir, quer ter a ilusão de que "sabe" de tudo e que tudo está sob seu controle.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A estética dos mitos

A noção de belo está presente nos mitos antigos. Este conceito varia conforme a cultura, a sociedade e a época. O que é belo sofre de variações dentro de uma mesma cultura conforme a idade de quem aprecia e de quem é apreciado.

Quando nos deparamos com os mitos clássicos, tal como herdamos de Hesíodo, devemos perceber que o mitógrafo reuniu os mitos conforme a concepção da época e refletiu a estética social e política da antiga Atenas. Chama a nossa atenção principalmente os mitos conturbadores e conflitantes dos Deuses anteriores aos Deuses Olimpianos, os Deuses Antigos, Deuses que chamamos Ctônicos.

Oriundos de Deuses ainda mais antigos e mais aterrorizantes e que geraram os Deuses do Olimpo, são Deuses abstratos, não tem uma definição, mas antes um fenômeno ou uma circunstância natural. Por sua essência e natureza obscura, são temidos e descritos muitas vezes como monstros. No entanto, sem a existência destes Deuses, sem que cumprissem com o que o Destino e a Fortuna lhes prescreveram, não surgiriam os Deuses dourados do Olimpo e não teria surgido a humanidade.

Um caso bem problemático e emblemático são as Górgonas, as Gréias e Equidna.

Fórcis é uma divindade marinha da mitologia grega. Filho de Pontos, deus do Mar e de Gaia, deusa da Terra. Casou-se com sua irmã Ceto, que engendrou filhos monstruosos: as Górgonas, Ladão, as Gréias e Equidna, a ninfa víbora. [Wikipédia]

Ceto é uma das divindades marinhas filhas de Pontos, Titã do Mar e de Gaia, a Mãe Terra. O nome Cetus, que significa "monstro", é como os antigos gregos denominavam as baleias, que para eles eram monstros marinhos.

Segundo Hesíodo, em sua Teogonia, Ceto era uma deusa extremamente bela que gerou filhas belas porém perigosas e odiadas pelos deuses.

Todavia, como é comum às divindades marinhas, Ceto possui um aspecto dual: enquanto era considerada dona de uma beleza divina, também eram vista com um monstro abissal capaz de gerar outros monstros iguais a si: as Górgonas, as Gréias e o dragão insone Ladão. Já Equidna, também sua filha, era uma criatura ambígua, com tronco de uma bela ninfa e cauda de serpente em lugar dos membros.

Ceto é então a personificação dos horrores e formas estranhas, coloridas e exuberantes que o mar pode produzir e revelar para os homens. [Wikipédia]

As primeiras gerações divinas tiveram diversas entidades monstruosas, porém em sua maioria eram apenas a personificação de alguns aspectos selvagens e violentos da natureza em seus instáveis primórdios. Os "monstros" propriamente ditos, por outro lado, eram somente feras violentas e perversas, nocivas à humanidade. Segundo a tradição, todos vieram da linhagem de Fórcis, gerados através de Equidna. [Grécia Antiga]

Górgonas eram divindades muito antigas e que já existiam quando Zeus assumiu o controle do Universo. Havia três Górgonas (Esteno, Euríale e Medusa) e três Gréias (Ênio, Pêfredo e Dino). [Grécia Antiga]

A Górgona é uma criatura da mitologia grega, representada como um monstro feroz, de aspecto feminino, e com grandes presas. Tinha o poder de transformar todos que olhassem para ela em pedra, o que fazia que, muitas vezes, imagens suas fossem utilizadas como uma forma de amuleto. A Górgona também vestia um cinto de serpentes entrelaçadas.

Na mitologia grega tardia, diziam-se que existiam três Górgonas: as três filhas de Fórcis e Ceto. Seus nomes eram Medusa, "a impetuosa", Esteno, "a que oprime" e Euríale, "a que está ao largo". Como a mãe, as Górgonas eram extremamente belas e seus cabelos eram invejáveis. [Wikipédia]

Medusa foi trazida para a Grécia da Líbia, onde as Amazonas líbias a adoravam como a Deusa Serpente. A Medusa (Metis) correspondia ao aspecto destruidor da Grande Deusa Tríplice Neith também chamada de Anath, Athene ou Athenna na África do Norte e Athana em1400 AC, em Minos, Creta.

A Medusa tinha originalmente o aspecto da deusa Atena da Líbia onde ela era a Deusa Serpente das Amazonas. Seu rosto era oculto e pavoroso. Estava escrito que nada nem ninguém poderia levantar seu véu, e todo aquele que se atravesse a fazê-lo morreria instantaneamente. Foram os gregos que separaram Medusa de Atena e as tornaram inimigas. [Alta Sacerdotisa]

Greias: Mulheres velhas, nome de Dino, Ênio e Péfredo, filhas de Fórcis e Ceto e irmãs das Górgonas, com as quais eram frequentemente confundidas. Já nasceram velhas. Todas as três, em conjunto, possuíam um só dente e um só olho, dos quais se serviam alternadamente. [Wikipédia]

O mito dessas Deusas ctônicas apenas nos é conhecido devido o mito de Perseu, um mito olímpico que se tornou mito da origem e identidade da Atenas antiga. Para a orgulhosa e soberana urbe, era uma questão social e política confirmar a supremacia de Atenas, confirmando a supremacia dos Deuses olimpianos. Essa tarefa coube a Hesíodo que recolheu, dos mitos dos Deuses Ctônicos, aqueles que o ajudassem na tarefa.

Os Gregos antigos não foram os únicos povos que tiveram um enorme trabalho em reformar sua mitografia para agradar os poderosos da época. Em diversas culturas e épocas é comum ver Deusas Serpentes serem mortas por um herói predestinado, por ser descendente do Deus Regente [ligado por descendência aos patriarcas e fundadores da urbe], mas isto não resolve o enigma da origem destes mitos, mais antigos, anteriores e pertencentes a algum povo dominado ou vencido pelos novos senhores.

Essa Legenda Áurea foi imitada pelos mais diversos senhores que tomaram o poder ao longo da história da humanidade e os casos mais patológicos são as religiões oriundas do monoteísmo abraãmico. Controversos e desafiadores, os Deuses Ctônicos nos lembram que as estruturas de poder, de ordem, de sociedade são artificiais e humanas. Negamos ou tentamos reformar esses mitos para se adequarem a uma visão de mundo limitada, como se estas estruturas, essas ilusões que criamos e produzimos, nos deixassem mais seguros, mas mesmo os mitos clássicos nos mostra que nossa carne foi feita das cinzas destes Titãs, ou seja, em nós habita a luz e a sombra. Nosso cosmo, nosso mundo, nossa natureza, nossa essência, são reflexos desta realidade divina. Assim como vemos o belo, vemos o mal apenas porque este está nos olhos de quem vê.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Dia de ação de graças

Hoje se comemora nos EUA o Thanksgiving Day, ou o Dia de Ação de Graças.

Diversos textos foram publicados no Patheos e essa comemoração americana ganhou espaço aqui na Republica de Bananas.

O Dia de Ação de Graças é um feriado celebrado nos Estados Unidos e no Canadá, observado como um dia de gratidão a Deus, com orações e festas, pelos bons acontecimentos ocorridos durante o ano.

O dia de Ação de Graças era comemorado na quarta quinta-feira do mês de novembro, na região da Nova Inglaterra, eram festivais em agradecimento às boas colheitas realizadas no ano. Por esta razão, o Dia de Ação de Graças é comemorado no outono (do hemisfério norte), após a colheita ter sido recolhida e atualmente é comemorado na última quinta-feira de novembro.

No Brasil, o então presidente Gaspar Dutra instituiu o Dia Nacional de Ação de Graças, através da lei 781, de 17 de agosto de 1949. Em 1966, a lei 5110 estabeleceu que a comemoração de Ação de Graças se daria na quarta quinta-feira de novembro. Esta data é lembrada por muitas famílias de origem americana, por algumas denominações Cristãs Protestantes, como a Igreja Luterana IELB (de origem americana), a Igreja Presbiteriana, a Igreja Batista, a Igreja Metodista, universidades confessionais metodistas e cursos de inglês. Também celebram igrejas evangélicas como a Igreja do Evangelho Quadrangular e algumas igrejas da Assembleia de Deus. [Wikipédia].

Para os pagãos, será Mabon [hemisfério norte] ou Lughnasadh [hemisfério sul], muito embora eu prefira simplesmente evitar usar termos na língua galesa e usar o bom português mesmo e celebrar a Festa da Colheita.

A tradição pede reunir os amigos para um jantar, a fim de celebrar a fartura e comemorar as conquistas.

Também é costume retirar um tempo para dar uma atenção à sua casa, como consertar objetos estragados, restabelecer os estoques ou simplesmente fazer uma faxina.

As noites começam a ficar mais longas, desde o Solstício de Verão; aproxima-se a época da partida do Deus para a Terra do Verão, deixando a sua própria semente no ventre da Deusa, de onde renascerá (mantendo o eterno ciclo do nascer-morrer-renascer). [Wikipédia].

Algumas comunidades cristãs estão divulgando eventos para esta Celebração da Colheita, mas eu não vi um anúncio da Comunidade Pagã Brasileira.

Existem festa e celebrações pela colheita em diversos povos e países, na atualidade especialmente na antiguidade. Na tradição, a Celebração da Colheita era marcada pelo cultivo do trigo, mas no Brasil, com nossas dimensões continentais, temos diversas colheitas para celebrar. A mais conhecida é, sem dúvida, a Festa de São João. Devemos dar graças pelo que recebemos, em abundância, da natureza, pela bênção dos Deuses.

Isto é algo que eu aprendi durante o período de treinamento e guardo com carinho. Devemos fazer uma lista das bênçãos que recebemos. Somos ágeis para nos lembrar das dificuldades, mas lentos em agradecer as bênçãos. Parece um tanto cristão, mas a origem é bem pagã. A tudo dai graça e celebrai.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O ideal elevado

Dizemos: "Mantenha puro seu ideal mais elevado”. Mas qual é nosso ideal mais elevado? Como mantê-lo puro? O que pode conspurcar o ideal mais elevado? Por que perdemos nosso ideal elevado?

Usando o oráculo virtual [Google] achei esta resposta:

Na raiz de todos os desejos é o desejo de viver o seu ideal mais elevado. A imagem ideal que você tem para si mesmo, que você quer expressar e experimentar, é o mais alto ideal que você deseja manifestar em sua realidade viva. Você vai notar que cada vez que você dissuadir a partir deste ideal, nunca é bom para o seu ser. Se você está sempre alinhado com o seu eu ideal, em pensamentos e ações, você nunca vai se sentir em conflito dentro de si mesmo. É só quando você acaba vagando em pensamentos, ou toma medidas, que estão em conflito com o seu ideal mais alto, que você vai sentir uma sensação de conflito dentro de você.

A única razão pela qual um ser humano decide viver abaixo de seu/ sua "imagem ideal" é por causa de pensamentos limitantes (pensamentos baseados no medo) criados a partir de um lugar de ignorância de sua verdadeira natureza e seu verdadeiro poder. Quando você percebe plenamente o poder do seu ser, você não vai mais sucumbir a viver abaixo do seu ideal mais elevado. Você é um criador poderoso e você pode criar qualquer realidade que você deseja experimentar, por sua crença em sua manifestação. Quando você tem esse poder, não há desculpa para você nunca se rebaixar abaixo do ideal mais alto que você pode imaginar para si mesmo.

Muita gente sente falta de dignidade em suas vidas, porque eles sentem que têm de viver abaixo do seu ideal, a fim de "espremer a vida" ou de sobreviver de alguma forma. Enquanto você não vive seu ideal, não é possível para você se sentir digno de seu ser. Sua dignidade está profundamente enraizada com a imagem que você tem de mais alto ideal que você deve estar vivendo. Quando suas ações/pensamentos não estão alinhadas com esse ideal mais alto, você sente falta de dignidade em si mesmo. Algumas pessoas, infelizmente, decidir desistir de seu mais alto ideal em uma tentativa de agradar aos outros ou para atender às expectativas de outra pessoa - a única razão pela qual eles fazem isso é porque eles sentem que precisam “lutar”, e fazem coisas que não gostam de fazer, a fim de conseguir atravessar a vida. Enquanto você acredita neste pensamento de ausência, não é possível se alinhar com o seu ideal mais elevado e, portanto, fará com que você leve uma vida conflituosa.

Quando você não vive o seu mais alto ideal, você está vivendo uma vida "medíocre" na melhor das hipóteses. Um monte de gente se resignou a viver uma vida medíocre por causa de sua forte crença nos pensamentos sem fundamentos. Eles se sentem "derrotados" pela vida, e desistem diante de suas circunstâncias, porque eles acham que é muito difícil alinhar os seus pensamentos com seus desejos, em meio à negatividade de sua realidade. Pode ser que você está vivendo uma realidade altamente negativa, onde você se sente enjaulado e preso atualmente, mas agora que você está percebendo a verdade de sua natureza (o seu poder como um criador), não há desculpa para aceitar a derrota ou a desistir de seus sonhos/desejos, em seu mais alto ideal.

Os pensamentos que você dá atenção aos irão moldar a sua realidade e este é o seu poder. Mas se você optar por se concentrar sobre a limitação/pensamentos negativos, em seguida, esse mesmo poder pode se tornar sua maior desgraça porque esta atenção irá atrair uma realidade limitada. As pessoas que conseguiram superar as circunstâncias mais difíceis, para viver a vida de seu mais alto ideal, são os únicos que desenvolveram a força de concentrar seus pensamentos, desenvolvendo uma convicção no bem-estar de vida e fazem um compromisso de ficar alinhados com o seu mais alto ideal . Sua realidade começa com a sua mente, é sempre de dentro para fora, é sempre sobre o que está acontecendo "dentro" de você e não o que está acontecendo fora de você. Pare de dar atenção aos pensamentos limitantes, não importa o quão atraente seu convite pode ser e assumir o compromisso de permanecer fiel ao seu ideal mais elevado - a vida sempre vai trabalhar para você, quando você ficar resolvido a nunca defender a negatividade.

Fonte: Calmdownmind

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Em nome da Deusa

Eu estou tentando prosseguir na minha jornada e superar minha mania em criticar ao invés de promover. Mas é difícil aturar cada vez que alguma figura pública do Paganismo escreve um discurso como se sua opinião fosse um texto sagrado.

Eu não consigo aceitar o discurso de Erick Dupree, assim como todo esse monoteísmo que prevalece no Dianismo e em outras “religiões da Deusa”.

Eu não posso aceitar o discurso de Aidan Kelly que procura conciliar o Paganismo com o Cristianismo.

Eu não posso aceitar que pagão algum faça o mesmo tipo de discurso que um cristão [padre ou leigo] faria.

Então se meus caros diletos e eventuais leitores me desculpam, eu vou criticar o texto de Aidan Kelly que, como se fosse um sacerdote cristão, ousa afirmar que fala em nome da Deusa.

Aidan Kelly diz, em nome da Deusa:

Eu sou o Um e os Muitos. Estou em cada Deus e cada Deusa. Todos os caminhos são meus”.

Monoteísmo puro. Dion Fortune foi desafortunada ao dizer que todos os Deuses são o Deus e que todas as Deusas são a Deusa. Aidan Kelly acaba de transformar a Deusa Estrela em um Jeová travestido. Nem todos os caminhos são da Deusa, nem todos os caminhos levam a Roma.

Eu sou a realidade por trás de todas as religiões, e toda a fé vem de conhecer-me”.

Considerando os aspectos das religiões abraâmicas, com o sexismo, a misoginia, o machismo e o patriarcado, a presença da mulher e mesmo da Deusa é quase inexistente, o que torna essa afirmação totalmente errada.

Todo o poder no Ofício é meu e vem de mim. Ele vem através de você, não de você”.

Diversos ramos do Paganismo e da Bruxaria discordam dessa frase. O Ofício não seria conhecido nem praticado sem o poder e a presença do Deus.

Eu me dou a cada um de vocês, pois, por si mesmo, você nunca poderia alcançar-me. Eu fiz por você o que você nunca poderia ter feito para si mesmo, pois eu te amo como uma mãe ama seu filho primogênito, que é o que você é, como todo ser é”.

Este certamente é um trecho inspirado no trecho da Carga da Deusa que diz: “E você que busca conhecer-me, saiba que sua procura e ânsia serão em vão, a menos que você conheça os mistérios: pois se aquilo que busca não se encontrar dentro de você, nunca o achará fora de si. Saiba, pois, eu estou com você desde o início dos tempos, e eu sou aquela que é alcançada ao fim do desejo”. No entanto, Aidan Kelly esqueceu da presença do Deus no mistério da Wicca Tradicional.

Honre a memória de meu servo Gerald Gardner, para ele restaurou minha adoração em sua Terra”.

Honre as forças com as quais ele me serviu e o grande trabalho que ele realizou. Não se incline sobre suas fraquezas humanas”.

Algo que o próprio Aidan Kelly não faz. Ele é uma persona non grata nos círculos tradicionais pelos livros de autoria dele atacando Gerald Gardner.

Todos os que seguem o seu caminho levará o seu nome. Não estabeleçam leis humanas para se separarem”.

Isto deixa de fora muitos grupos que se identificam como sendo Wicca sem o ser.

Todos os que optam por aceitar meus presentes e me seguem são seus irmãos e irmãs. Rejeitar qualquer um deles é rejeitar-me”.

Aidan Kelly fundou a NROOGD almejando receber reconhecimento e aceitação dos sacerdotes e sacerdotisas wiccanos. Esta linha pode ser entendida como uma tentativa desesperada de sancionar seus delírios.

Honre a memória de minha serva Doreen Valiente, poeta e sacerdotisa, pois ela falou com a minha voz e deu-lhe as minhas palavras. Estude-as, compreenda-as, viva-as”.

Isto também deixa de fora muitos grupos que se identificam como sendo Wicca sem o ser.

Dê meus dons livremente, dê a todos, porque eu sou a Deusa de toda a humanidade. Não presuma escolher quem pode receber os meus dons. Sou eu quem escolhe, não você”.

Eu discordo dessa postura de fazer da Wicca uma religião de massas.

Chamem-me para ter força para viver com honra e compaixão”.

Como bom praticante e estudante da Wicca Tradicional, eu chamo também ao Deus para a mesma intenção.

Ame a si mesmo; ame os outros até mais do que a si mesmo”.

A autoria dessa frase causaria uma briga em muitos caminhos espirituais.

Nunca deixem de aprender, porque eu lhe direi o que você nunca poderia saber por seus próprios esforços”.

Este é um trecho certamente inspirado na Carga da Deusa que diz: “Haverá assembleias, aos que anseiam aprender toda bruxaria, mas ainda não desvendaram seus profundos segredos. A estes eu ensinarei coisas ainda desconhecidas”. A Wicca tem seu mistério e seu caráter extático. No entanto, na história dos cultos de bruxas, essa função cabe ao Deus.

Abra o seu coração e você vai encontrar-me. Eu não vivo em outro lugar. Eu vivo dentro de você. Eu sou mais você do que você é”.

Este é um trecho certamente inspirado na Carga da Deusa que diz: “Pois eu sou a chama que queima no coração de todo homem e no cerne de toda estrela”. No mistério contido na Wicca Tradicional, o acesso e caminho para este coração são guardados pelo Deus.

Eu sou o conhecimento que habita em vós, porque eu sou alegria, sou amor, sou êxtase. Busque-me através da alegria, através da intuição, o que seu coração lhe diz é mais importante”.

Em diversas partes dos rituais da Wicca dizemos que a alegria e o êxtase são garantidos em vida, nesse mundo, tanto pela Deusa quanto pelo Deus.

Você não pode encontrar-me se você não me procura, nem se você me procurar, porque eu estive sempre aqui. Venho sem aviso prévio e derrubarei sua porta quando você menos me esperar”.

Um texto que repete o trecho da Carga da Deusa onde Ela diz que se não encontrarmos o que procuramos dentro de nós, não iremos encontrar fora de nós. Entretanto o Deus é quem é o Condutor, o Guardião da Porta e do Caminho.

O seu ego é quem impede de ver que eu estou aqui e sempre estou fazendo o que você precisa, a fim de conhecer-me. Saia do meu caminho; apenas a sua ignorância o impede de conhecer-me”.

Aidan Kelly fundou sua própria ordem, aviltou o nome de Gerald Gardner, deturpou, por razões e agendas pessoais, diversos princípios da Wicca. Ele é uma figura que infelizmente representa muitas das figuras que aqui no Brasil se arrogam o título de sacerdote, com o único propósito de formar um verdadeiro culto à personalidade em torno de si. Isto é ego, isto não é servir ao Deus e à Deusa.

sábado, 15 de novembro de 2014

Contra o Método

Autor: Paul Feyerabend

Capítulo XVIII

Dessa forma, a ciência aproxima-se do mito, muito mais do que uma filosofia científica se inclinaria a admitir. A ciência é uma das muitas formas de pensamento desenvolvidas pelo homem e não necessariamente a melhor. Chama a atenção, é ruidosa e impudente, mas só inerentemente superior aos olhos daqueles que já se hajam decidido favoravelmente a certa ideologia ou que já a tenham aceito, sem sequer examinar suas conveniências e limitações. Como a aceitação e a rejeição de ideologias devem caber ao indivíduo, segue-se que a separação entre o Estado e a Igreja há de ser complementada por uma separação entre o Estado e a ciência, mais recente, mais agressiva e mais dogmática instituição religiosa. Tal separação será, talvez, a única forma de alcançarmos a humanidade de que somos capazes, mas que jamais concretizamos.

A idéia de que a ciência pode e deve ser elaborada com obediência a regras fixas e universais é, a um tempo, quimérica e perniciosa. É quimérica pois implica visão demasiado simplista das capacidades do homem e das circunstâncias que lhes estimulam ou provocam o desenvolvimento. E é perniciosa porque a tentativa de emprestar vigência às regras conduz a acentuar nossas qualificações profissionais em detrimento de nossa humanidade. Além disso, a idéia é prejudicial à ciência, pois leva a ignorar as complexas condições físicas e históricas que exercem influência sobre a evolução científica. Torna a ciência menos plástica e mais dogmática: cada qual das regras metodológicas se vê associada a pressupostos cosmológicos, de modo que, recorrendo à regra, damos por admitido que os pressupostos sejam corretos. O falseamentismo ingênuo dá por admitido que as leis da natureza se apresentem de maneira clara e não oculta por perturbações de magnitude considerável, O empirismo aceita que a experiência sensória seja melhor espelho do mundo que o pensamento. O culto do argumento tem como certo que os manipuladores da Razão oferecem resultados melhores que os do jogo incerto de nossas emoções.

A alteração da perspectiva decorrente dessas descobertas conduz, uma vez mais, ao longamente esquecido problema do mérito da ciência. A ele conduz pela primeira vez na história moderna, pois que a ciência moderna se impôs a seus oponentes, não os convenceu.

A ciência dominou pela força, não através de argumentos(isso é especialmente verdadeiro no que se refere às primeiras colônias, onde a ciência e a religião do amor fraternal foram introduzidas como algo natural, sem consulta aos habitantes e sem lhes ouvir argumentos). Hoje, damo-nos conta de que o racionalismo,inclinando-se para a ciência, não pode ser de qualquer valia em face da pendência entre ciência e mito e damo-nos conta, ainda, graças a investigações de caráter inteiramente diverso, que os mitos são muito mais válidos do que os racionalistas têm ousado admitir.

Somos, assim, forçados a suscitar a questão do mérito da ciência.

Exame do assunto revela que ciência e mito se superpõem sob muitos aspectos, que diferenças aparentemente perceptíveis são, com freqüência, fenômenos localizados que, em outros pontos, se transformam em similaridades e que as discrepâncias fundamentais resultam antes de propósitos diversos do que de métodos diferentes a tentarem alcançar um único e mesmo fim ‘racional’.

A busca de teoria é busca da unidade subjacente à complexidade que se percebe. A teoria dispõe as coisas em um contexto causal mais amplo que o contexto causal propiciado pelo senso comum: tanto a ciência quanto o mito recobrem o senso comum de uma superestrutura teorética.

Há teorias de diferentes graus de abstração e elas são utilizadas de acordo com os diferentes requisitos de explicação que se colocam.

A construção de teoria consiste em partir os objetos do senso comum para reunir os fragmentos de maneira diversa. Os modelos teoréticos nascem da analogia, mas gradualmente se distanciam do padrão em que a analogia se apoiava.

As idéias centrais do mito são vistas como sagradas. Teme-se que sofram ameaças. ‘Quase nunca se depara com uma confissão de ignorância’ e eventos ‘que fogem fortemente às linhas de classificação admitidas pela cultura em que ocorrem’ despertam a ‘reação do tabu’. As crenças básicas são protegidas por essa reação e também pelo artifício das ‘elaborações secundárias’ que, em nossos tempos, são séries de hipóteses ad hoc. A ciência, de outra parte, se caracteriza por um ‘ceticismo essencial’; ‘quando as falhas se acumulam rapidamente, a defesa da teoria se transforma inexoravelmente em ataquè a ela’. Isso é possível devido à ‘abertura’ do empreendimento científico, devido ao pluralismo das idéias que encerra e também devido a que ‘tudo quando escapa ou deixa de amoldar-se ao estabelecido sistema de categorias não é visto como aterrador, como algo a ser isolado e repudiado. É, pelo contrário, um ‘fenômeno’ intrigante — ponto de partida e desafio para a criação de novas classificações e de novas teorias’. Um estudo de campo a propósito da ciência leva-nos a descortinar quadro muito diverso.

Revela esse estudo que, embora alguns cientistas possam agir segundo o esquema descrito, a grande maioria segue trilha diferente.

O ceticismo é mínimo; dirige-se contra a maneira de ver dos oponentes e contra ramificações secundárias das idéias fundamentais que se defende, mas nunca se levanta contra as próprias idéias básicas. Atacar idéias básicas desperta reações de tabu que não são menos intensas do que as reações de tabu nas chamadas sociedades primitivas. As crenças básicas são protegidas por essa reação e, como vimos, por elaborações secundárias; e tudo quanto deixa de acomodar-se ao estabelecido sistema de categorias é declarado incompatível com tal sistema ou é encarado como algo escandaloso ou, mais freqüentemente, é simplesmente considerado como não-existente. A ciência não está preparada para fazer do pluralismo teorético o fundamento da pesquisa.

O dogmatismo pesado a que fiz alusão não é apenas um fato, mas desempenha também importantíssima função.

Sem ele seria impossível a ciência. Pensadores ‘primitivos’ mostraram maior percepção da natureza do conhecimento do que seus ‘esclarecidos’ rivais filosóficos. Torna-se necessário, pois, reexaminar nossa atitude em face do mito, da religião, da magia, da feitiçaria e em face de todas aquelas idéias que os racionalistas gostariam de ver para sempre afastadas da superfície da Terra (sem ter-lhes prestado maior atenção — típica reação de tabu).

A ciência reinar soberana porque seus praticantes são incapazes de compreender e não se dispõem a tolerar ideologias diferentes, porque têm força para impor seus desejos e porque usam essa força como seus ancestrais usaram a força de que eles dispunham para impor o cristianismo aos povos que iam encontrando em suas conquistas.

Contudo, a ciência não tem autoridade maior que a de qualquer outra forma de vida. Seus objetivos não são, por certo, mais importantes que os propósitos orientadores de uma comunidade religiosa ou de uma tribo que se mantém unida graças a um mito. De qualquer modo, não há por que esses objetivos possam restringir as vidas, os pensamentos, a educação dos integrantes de uma sociedade livre, onde cada qual deve ter a possibilidade de decidir por si próprio e de viver de acordo com as crenças sociais que tenha por mais aceitáveis. A separação entre Estado e Igreja deve, portanto, ser complementada pela separação entre Estado e ciência.

No espírito de cientistas e de leigos, a imagem da ciência do século XX é decorrência de milagres tecnológicos, tais como a televisão em cores, as viagens à Lua, o forno a raios infravermelhos e de informações vagas, mas nem por isso de menor força — algo como histórias fantasiosas — a propósito de como surgem tais milagres.

Segundo essas histórias fantasiosas, o êxito da ciência é o resultado de combinação sutil, mas cuidadosamente dosada, de inventividade e controle. Os cientistas têm idéias e dispõem de métodos especiais para desenvolvê-las. As teorias da ciência foram aprovadas no teste do método. Proporcionam melhor visão do mundo que idéias não passadas pelo crivo desse teste.

A história fantasiosa explica por que a sociedade moderna dá à ciência tratamento especial e por que lhe concede privilégios que não beneficiam outras instituições.

A razão desse tratamento especial está, sem dúvida, em nosso pequeno conto de fadas: se a ciência encontrou método que transforma concepções ideologicamente contaminadas em teorias verdadeiras e úteis, a ciência não é mera ideologia, porém medida objetiva de todas as ideologias.

Contudo, o conto de fadas é, como vimos, falso. Não há método especial que assegure o êxito ou o torne provável. Os cientistas não resolvem os problemas por possuírem uma varinha de condão — a metodologia ou uma teoria da racionalidade — mas porque estudaram o problema por longo tempo e conhecem bem a situação, porque não são tolos e porque os excessos de uma escola científica são quase sempre contrabalançados pelos excessos de alguma outra escola.

No fundo, pouquíssima diferença há entre o processo que leva ao anúncio de uma nova lei científica e o processo de promulgação de uma nova lei jurídica: informa-se a todos os cidadãos ou aos imediatamente envolvidos, faz-se a coleta de ‘fatos’ e preconceitos, discute-se o assunto e, finalmente, vota-se.

Sem embargo, enquanto uma democracia faz algum esforço para esclarecer o processo, de sorte que todos o entendam, a ciência ou o esconde ou o distorce, para que ele se Amolde a seus sectários interesses.

Só os fatos, a lógica e a metodologia decidem — é o que nos diz o conto de fadas. Mas como decidem os fatos? Que função desempenham no avanço do conhecimento?

Não podemos fazer nossas teorias deles derivarem. Não podemos apresentar um critério negativo, dizendo, por exemplo, que as boas teorias são as teorias passíveis de refutação, mas não contraditadas pelos fatos.

A sugestão de que uma boa teoria explica mais que suas oponentes também não é admissível.

Voltando-nos para a lógica, damo-nos conta de que nem mesmo seus mais simples requisitos são satisfeitos pela prática científica e não poderiam ser satisfeitos, em razão da complexidade do material. As idéias de que os cientistas costumam valer-se para apresentar o conhecido e avançar rumo ao desconhecido raramente estão em estrita concordância com as injunções da lógica ou da matemática pura e a tentativa que se fizesse para levá-las a essa concordância roubaria da ciência a flexibilidade sem a qual é impossível alcançar progresso.

Anotemos: só os fatos não bastam para levar-nos a aceitar ou rejeitar teorias científicas, pois a margem que deixam ao pensamento é demasiado ampla; a lógica e a metodologia eliminam demais, são demasiado acanhadas.

Mais pormenorizada análise dos lances de êxito no jogo da ciência mostra, indubitavelmente que há uma larga faixa de liberdade a pedir multiplicidade de idéias e a permitir a aplicação de processos democráticos, mas que está obstruída pela política e pela propaganda do poder. Esse o ponto em que o conto de fadas do método especial assume sua função decisiva. Oculta a liberdade de decisão que os cientistas criadores e o público em geral têm, mesmo no que se refere às mais sólidas e avançadas partes da ciência, antepondo-lhes a repetição dos critérios ‘objetivos’ e assim protegendo os grandes nomes (os Prêmio Nobel; os chefes de laboratórios de organizações como a Associação Médica Americana, de escolas especiais; os ‘educadores’, etc.) contra as massas (os leigos; os especialistas em campos não-científicos; os especialistas em outros ramos da ciência): só importam os cidadãos que foram expostos às pressões das instituições científicas (sofreram longo processo de educação), que sucumbiram a essas pressões (foram aprovados no exame) e que estão, agora, firmemente convencidos da verdade do conto de fadas. Dessa maneira os cientistas se iludiram a si próprios e aos demais com respeito à tarefa a que se dedicam, sem, contudo, virem a sofrer qualquer real desvantagem: dispõem de mais dinheiro, mais autoridade e exercem maior atração do que merecem — e os mais estúpidos processos e mais risíveis resultados que alcançam em sua esfera de atuação vêm rodeados de uma aura de excelência. É tempo de reduzi-los às devidas proporções e de atribuir-lhes mais modesta posição na sociedade.

O processo não se restringe à história inicial da ciência moderna. Está longe de ser simples conseqüência do primitivo estágio das ciências, nos séculos XVI e XVII. Ainda hoje, a ciência pode tirar e tira vantagem da consideração de elementos não científicos.

Combinando essa observação com a percepção de que a ciência não dispõe de método especial, chegamos à conclusão de que a separação entre ciência e não-ciência não é apenas artificial, mas perniciosa para o avanço do saber. Se desejamos compreender a natureza, se desejamos dominar a circunstância física, devemos recorrer a todas as idéias, todos os métodos e não apenas a reduzido número deles. Assim, a asserção de que não há conhecimento fora da ciência — extra scientiam nulla salus — nada mais é que outro e convenientíssimo conto de fadas.

A ciência moderna, de outra parte, não é tão difícil e tão perfeita quanto a propaganda quer levar-nos a crer. Uma disciplina, como a física, a medicina ou a biologia, só parece difícil porque é mal ensinada, porque as lições comuns estão repletas de material redundante e porque a ela nos dedicamos já muito avançados na vida.

Quão freqüentemente não é a ciência aprimorada e impelida a novos caminhos por influências não-científicas!

O caminho que leva a tal objetivo é claro. Uma ciência que insiste em ser a detentora do único método correto e dos únicos resultados aceitáveis é ideologia e deve ser separada do Estado e, especialmente, dos procesos de educação.