sábado, 14 de julho de 2007

Um estranho chamado pecado

A maior pergunta de nosso tempo é por que são tão bem-sucedidas as religiões monoteístas. Além de recomendar a leitura do texto de Frederic Lamond eu gostaria de ponderar com minhas hipóteses.
O antropólogo Oliveira Marques diz em seu "Mitos das Religiões" que o princípio de todas as religiões foi o Medo. Como pagão eu discordo, uma vez que nós desenvolvemos mais uma forma de maravilhamento com a Existência. Mas devo concordar quando o espectro religioso recai sobre as vertentes monoteístas. O grande sucesso dessas religiões não vem somente da agressividade militarista gerada pela frustração sexual, como bem colocou Frederic, mas sobretudo de um bom uso do Terrorismo Psicológico em cima dessa programação cultural de sentir culpa, ressentimento ou remorso em determinados atos humanos, geralmente individuais.
Isto vem desde tempos imemoriais, culturas tentam com seus ritos apaziguar espíritos e Deuses/Deusas por eventos que prejudiquem a grupo, donde desde essas eras remotas se cria que os deuses/deusas estavam zangados por alguma falta nossa. Esse temor e medo foi desenvolvido pelas culturas e encontraram bom berço nos deuses guerreiros tribais que, em certos grupos, foram privilegiados com cultos exclusivos (um esboço do que viria a ser o monoteísmo) o que tornava tais grupos mais belicosos e tendenciosamente mais ambiciosos por conquistas. Conquistas militares geram butim, geram riqueza, geram poder e domínio religioso, o que tornou os deuses tribais guerreiros em deuses de um povo, de uma nação, de um país até elevar-se a categoria de Deus Universal. Estes foram os casos dos Persas com o Zoroastrismo, dos Judeus com o Judaismo, dos Cristãos com o Cristianismo e dos Muçulmanos com o Islamismo.
A despeito de todo seu fundo pagão e resquícios míticos de um politeísmo ancestral, todas essas religiões monoteístas centram seus dogmas na negação da essência humana, na separação entre o Espírito e a Carne, no conflito entre um Deus Criador e o Mundo Criado, na condenação moral de certos atos humanos considerados como afronta a este Deus.
Disto vem o sucesso, da virtual impossibilidade de não agirmos segundo uma natureza que nos foi dada (criada ou gerada) pelos Deuses e Deusas, consequentemente alimentando nossa necessidade em nos purificar diante dos Deuses e Deusas para evitar a fúria ou a retaliação divina.

Todas as campanhas missionárias de evangelização acabam visando este ponto crucial, essa programação cultural cruel potencializada pelas pregações contra o pecado. Quem é este estranho? Como podemos cultuar um Deus ou Deusa que nos formou tal como somos para depois apontar nossas faltas? Que Deus ou Deusa nos daria tão formosa e gratificante Vida apenas para depois condicionar o usufruto com modelos morais absurdos? Como podemos adorar um Deus ou Deusa que nos promete um Paraíso se nos privarmos dos mesmos deleites que podemos ter agora? Todas as promessas do Paraíso falam em prazeres, garantidos se seguirmos tais regras aqui, mas como podemos confiar em tal entidade que nos promete um Paraíso de prazeres que Ele/Ela considera malignos?
Uma vez eu escrevi de forma enigmática: "aquele que bate em minha porta e não abre é estranho ou salteador". Viver de forma plena e satisfatoriamente, este é o objetivo de nossa existência, esta é a prenda e única obrigação que temos aos Deuses e Deusas: fazer usufruto de nossos talentos e aproveitar ao máximo esse prato suculento que Eles e Elas nos oferecem a cada dia.

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