sábado, 14 de julho de 2007

Onde habita o sagrado

Eu admiro a cultura japonesa e, como pagão, gosto do pensamento do xintoísmo. Ali contém um conceito muito forte e poderoso, para expô-lo eu teria que colocar a questão: o que é sagrado? Geralmente, sagrado é algo separado, especial, algum lugar, alguma coisa que recebe a reverência das pessoas. O mesmo sentimento que faz alguém considerar a bíblia, um livro, feito de papel e tinta, algo sagrado, é o mesmo sentimento que faz uma estátua, uma casa, uma medalha, uma pessoa sagrada. Considera-se sagrado porque ali habita o espírito divino. Todas as pessoas que estão em nossa volta têm esse potencial e muitas o manifestam, através dos talentos que possuem ou de alguma forma de espiritualidade. Todos os animais e todos os minerais que aproveitamos, possuem a mesma potencialidade, devem ser usados com responsabilidade e reverência. O que não significa que devemos nos restringir de usá-los, nosso metabolismo e estrutura depende da transformação das matérias naturais em produtos que atendam nossas necessidades. Ao contrário do que imaginam os hindus e os vegetarianos, não estamos correndo o risco de comer um ancestral nosso, apesar de crermos no princípio da reencarnação.
Nesse sentido, temos o próprio universo como sagrado, afinal, este cosmo é uma manifestação da existência dos Deuses.
A existência em si é um mistério, a potencialidade de vida é um mistério, a ciência consegue explicar como foi possível que aqui a vida aparecesse, mas não consegue explicar porquê. Simplesmente não encontramos vida em outros planetas, nos esquecendo que até a pouco tempo as bactérias e os vírus não eram considerados existentes ou seres vivos. Uma vez que a crença da ciência é de que a matemática é a linguagem universal, porque em nosso planeta a vida se manifestou de tal forma a ponto de poder ser percebida por nós, herdeiros desta gens, mas não conseguimos perceber o mesmo potencial dentro do espaço conhecido, considerando que esse cosmo existe há muito mais tempo que nosso planeta? A ciência, bem como seus advogados, os ateus, consideram a razão acima da crença, o que não deixa de ser um princípio espiritual, pois a existência de uma consciência universal é igualmente um princípio esotérico.
Sendo a consciência, a razão, um princípio original, pré-existente, a forma pela qual a consciência pode se manifestar é extensa como o próprio cosmo. Este é, em seu cerne, o sentido de muitos mitos antigos, os Deuses são a Existência, a Consciência, a Razão, a Vida. Em um momento todos eram misturados, indefinidos, como uma gigantesca Nebulosa, até que, por evolução, conscientização e individualização, se expandiram naquilo que a ciência definiu como o Big Bang.
Assim, cada Consciência, em sua individualidade, pôde construir seu ser, enquanto gerava outras consciências, uma vez que eram seres vivos, embora com uma constituição extremamente diferente do que conhecemos. Algumas dessas consciências formaram os corpos estelares e algumas consciências formaram a este mundo, bem como as espécies. Cada consciência possui um grau de evolução e potencial, assim a consciência potencial de uma pedra não é a mesma de uma planta e um animal tem uma consciência potencial menor que a humana. Portanto, para cada ser humano encarnado, há potencialmente uma miríade de consciências potenciais querendo entrar nesse corpo, tendo por conseqüência pessoas com mais tendências animais que humanas.
Muitos não dizem que a pessoa é fria como pedra? Então, nem sempre são os que se foram que reencarnam, seria muito chato se reencarnasse o mesmo Mozart e seria terrível se reencarnasse o mesmo Hitler. Quando este mundo não puder mais portar formas de vida, tal como nós conhecemos, por culpa exclusiva nossa, não pela ira de Deus, certamente nossas consciências irão buscar algum lugar para habitar, como os Deuses escolhem habitar algum lugar, alguma coisa, alguma pessoa.

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