sábado, 27 de fevereiro de 2021

Os mártires pagãos

Qualquer pessoa que tenha sido educada no mundo Ocidental está familiarizada com as “terríveis perseguições” sofridas por um número incontável de cristãos nos primeiros três séculos do Império Romano.

Em 1632, o cardeal Ginetti encarregou padre Girolamo Bruni, da Congregação de São Felipe Néri, de realizar uma investigação para apurar o número exato de cristãos martirizados na Antiga Roma. O padre emérito executou a tarefa com diligência e o resultado foi espetacular: 64 milhões de mártires! Um valor simplesmente absurdo se formos considerar que no Império havia apenas 50 milhões de habitantes, entretanto esse número foi oficializado pela Igreja católica aos 10 de abril de 1668.

Além disso, de acordo com a tradição, os primeiros cristãos eram mansos e inocentes e, invariavelmente, enfrentavam os leões com surpreendente letícia, sustentada por uma fé firme e inabalável. Ao contrário, os opressores pagãos eram covardes, pervertidos, viciosos, brutais e impiedosos, chegando a matar os honestos cristãos sem razão, a não ser por puro sadismo. Os textos de apologética afirmam que a estirpe dos cristãos só conseguiu sobreviver à extinção total se escondendo -geração após geração- nas catacumbas (que na verdade eram simples cemitérios afastados), igual toupeiras. Esses senhores, porém, esquecem de explicar que, na verdade, as perseguições foram raras e intervaladas por longos periódos de calmaria total, tanto que o cristianismo cresceu sem parar e espalhandou-se em todas as províncias do Império.

Há algo de estranho e esquisito na história contada pela Igreja, algo que contrasta com o espírito de tolerância mostrado pelos Romanos em relação a todos os cultos do Império. O famoso historiador britânico Edward Gibbon escreveu, no século XVIII, que esse espírito encontrava respaldo na atitude romana para com os Judeus pois, “de acordo com as máximas da tolerância universal, os Romanos protegiam uma superstição que desprezavam“. Não havia, portanto, um motivo plausível para que os cristãos não fossem tolerados como os Judeus. Entretanto, diversamente de todas as outras religiões da época que conseguiam conviver em harmonia entre si, os cristãos parecem ter provocado uma grande hostilidade tornando-se notavelmente impopulares.

Tácito, por volta de 110 d.C., escreveu que eles eram “notoriamente depravados“. Suetônio (70-160 d.C.) registrou que o imperador Cláudio os expulsou de Roma por causar distúrbios contínuos. Até alguns líderes cristãos, como Cipriano, bispo de Cartago, afirmaram que os cristãos mereciam o tratamento que estavam recebendo. Objetivamente os cristãos costumavam se estranhar da realidade social da época proclamando que todas as outras divindades eram falsas e que deviam ser abatidas. Além de recusar o serviço militar e a participação às festas religiosas e civis, consideravam Roma a capital mundial do vício, digna de ser destruída com fogo e enxofre: “Caiu, caiu a grande Babilônia, e se tornou morada de demônios, e coito de todo o espírito imundo, e coito de toda ave imunda e aborrecível” (Apocalipse, 18:2). Sabe-se de soldados que, depois de terem se convertido desertaram do exército, como no caso de Teodoro de Amásia que, além de trair, botou fogo no templo de Cibele e, por isso, foi devidamente justiçado como incendiário. A Igreja o proclamou santo e mártir.

Hoje sabemos que as perseguições aos cristãos foram modestas, intermitentes, limitadas geograficamente e jamais desencadeadas por motivos eminentemente religiosos. As autoridades procediam com extrema cautela e, nas poucas cidades onde se pensava que os cristãos representassem uma ameaça, apenas alguns dos suspeitos foram presos, mas nem todos foram indiciados. Dos acusados, somente uma fração foi condenada, sendo a grande maioria dos apenados presa ou exilada, e muitos acabaram se beneficiando de anistias. As penas capitais foram realmente poucas, tanto que o apologista cristão Orígenes (185-253 d.C.) afirmou que o número de mártires “é pequeno e fácil de ser calculado”. Os rescritos imperiais sempre recomendavam que os magistrados agissem com moderação evitando de acatar as acusações anônimas e averiguando se as acusações tivessem fundamento. O bispo Eusébio de Cesaréia (265-339 d.C.) relata numerosos casos de cristãos se recusando de responder às perguntas do juiz, de dizer seus nomes ou inventando nomes falsos tirados do Antigo Testamento. Fontes históricas independentes narram que os cristãos mais fanáticos suplicavam as autoridades para que os martirizassem enquanto que os próprios magistrados imploravam que esses desvairados tivessem pena de si mesmos e desistissem de suas loucuras. De alguma forma, as Autoridades romanas agiam com a finalidade de proteger os cristãos do fanatismo popular e, em 177 d.C., os soldados salvaram a comunidade cristã de Lion que estava prestes a ser linchada pela população enfurecida.

A Igreja, além de ter manipulado e até inventado a biografia dos mártires (veja por exemplo o caso da inexistente Catarina de Alexandria), utilizou o martírio como prova da veracidade da Revelação alegando que jamais um fiel teria enfrentado as torturas e a morte se a sua religião não tivesse sido a única verdadeira. Se os cristãos conseguiram aguentar a dor e os suplícios era porque eles eram amparados por uma prodigiosa força sobrehumana advinda do Espírito Santo. Mas se esse raciocínio for verdadeiro para o Cristianismo, então deve valer também para qualquer outra fé, inclusive para o Paganismo. Efetivamente, deixando de lado o caso de Hipácia, virgem pagã martirizada em Alexandria do Egito aos 8 de Março de 415 d.C. -cuja história tornou-se popular graças o filme “Alexandria” (2009) dirigido por Alejandro Amenábar e interpretado por Rachel Weisz– ninguém jamais ouviu falar nas inúmeras pessoas que sofreram o martírio por não terem largado a sua fé nas antigas divindades pagãs. Nas escolas, nas universidade e nos livros de história, nada se fala a respeito desses outros mártires: eles simplesmente sumiram sem deixar rasto, assim como –caso a Alemanha nazista tivesse vencido a guerra- nada se saberia hoje do holocausto de milhões de Judeus.

Objetivamente têm razão aqueles que dizem que o Cristianismo dividiu em duas partes a história da Humanidade. De fato, antes havia tolerância, saber, arte, filosofia e beleza. Depois veio o terror totalitário que, com seu cortejo de ignorância e de medo, enturvou o mundo por mais de quinze séculos seguidos. Ninguém está querendo culpar Jesus por essa catástrofe, afinal ele foi um homem sábio, idealista, imbuído de patriotismo e de espírito inovador da religião israelita. O primeiro responsável foi Paulo de Tarso que, sem sequer ter conhecido Cristo, desnaturou a mensagem de Jesus inventando uma nova religião profundamente intolerante. A que segue é uma lista, necessariamente parcial, das principais perseguições e/ou atos de violência perpetrados pelos cristãos desde o início da nossa Era até o fim do Império Romano do Ocidente. Como a cronologia é relativa a anos da Era Vulgar, a notação d.C., sendo redundante, é omitida.

Ano 54. Paulo de Tarso ataca pela primeira vez o culto de Ártemis (Diana) de Éfeso, cujos sacerdotes e sacerdotisas tinham a obrigação de praticar a castidade. Quando, uns séculos depois, vieram as persecuções contra os adeptos de Diana, cerca de 30.000 gregos foram crucificados devido eles terem se recusados de abjurar o culto à deusa.

Ano 250. A seita gnóstica de Saturnino, devota de Cristo e fautora da ascese, da meditação e da pudicícia, é perseguida e exterminada pelos cristãos dogmáticos.

Ano 301. Um pregador de nome Gregório, durante uma calamidade natural e explorando a superstição do rei da Armênia Trídates III consegue convertê-lo. O rei ordena o massacre dos sacerdotes pagãos e a transformação em igrejas dos templos das antigas divindades greco-romanas. Todas as bibliotecas armênias, fundadas por soberanos helenísticos, são queimadas por serem “cofres de conhecimento demoníaco“.

Ano 315. Inicia a perseguição aos seguidores das divindades clássicas. Em Dídimos, atual Turquia, por ordem do general romano Materno Cinégio –por sua vez incitado pelos monges locais, é saqueado o oráculo de Apolo e os sacerdotes torturados até a morte. Os pagãos do sagrado Monte Atos são detidos sob a falsa acusação de traição e justiçados; todos os templos pagãos do local são destruídos.

Ano 330. O imperador Constantino I pilha os tesouros e as estátuas dos templos pagãos da Grécia para decorar Constantinopla, a nova capital do Império. Enquanto isso, os cristãos saqueiam e ateiam fogo no santuário do deus celto-romano Apolo de Bayeux onde os sacerdotes são linchados. Nenhum apologista cristão censura esse Imperador por ele ter mandado assassinar a esposa e o filho.

Ano 334. Um decreto imperial ordena o fechamento de todos os templos pagãos. Alguns deles são profanados e transformadas em bordéis por desprezo à religião pagã. Muitos sacerdotes são executados. Importantes bibliotecas em várias cidades do império são queimadas.

Ano 335. O imperador Constantino I saqueia vários templos pagãos na Ásia Menor e na Palestina e ordena a execução por crucificação de “todos os magos e adivinhos“. Destarte, todos os “oráculos e os acusados de magia” são crucificados como culpados pela má colheita daquele ano. Os livros de geometria são proibidos por serem considerados textos de magia. Sópatro de Apameia, filósofo neoplatônico defensor do paganismo e da filosofia é martirizado. Esse ano marca o começo da caça às bruxas que vai continuar na Europa até a última queima no século XVIII na França.

Ano 341. O novo imperador Constâncio persegue “todos os adivinhos e os helênicos [os pagãos]”. Muitos são aprisionados e justiçados. Todos os templos são fechados. Dois anos depois um novo decreto institue a pena de morte para os idólatras.

Ano 357. A deusa Vênus, também chamada de Luxfero, ou seja, “portadora de luz”, torna-se Lúcifer; Astarte, também chamada de Astarote, torna-se um demônio; a deusa Fortuna Mammona torna-se Mamon, o diabo mencionado nos Evangelhos. Centenas de toneladas de estátuas gregas e romanas de valor e beleza incomparáveis são jogadas nas fornalhas e transformadas em cal. Assim perde-se boa parte do patrimônio artístico da Humanidade. Também o estudo dos astros é proibido.

Ano 359. Na cidade de Citópolis, na Palestina, os cristãos organizam o primeiro entre muitos campos de concentração para a tortura e execução dos pagãos presos em qualquer parte do Império. O historiador Amiano Marcelino escreve: “Dos lugares mais remotos do Império arrastaram incontáveis cidadãos de todas as idades e classes sociais, acorrentados, e muitos deles morreram no caminho ou nas prisões locais. Quem conseguiu sobreviver, acabou em Citópolis, uma cidade remota na Palestina, onde eles colocaram os instrumentos de tortura e execuções”. Um cronista pagão escreve: “Se nós estamos vivos, então é a própria vida que está morta”.

Ano 364. O imperador comilão Joviano manda queimar a famosa biblioteca de Antioquia e, aos 11 de setembro, ordena a pena de morte para todos os pagãos que praticam o antigo culto dos deuses ancestrais ou a adivinhação. Com três decretos sucessivos determina o confisco das propriedades dos templos pagãos, punindo com a pena capital aqueles que se dedicam aos rituais pagãos, mesmo que sejam dentro de casa. Poucas semanas depois Joviano falece de morte súbita provocada, parece, por uma violenta indigestão mas, para os cristãos, dessa vez não se trata de um castigo divino.

Ano 370. O imperador Valente ordena uma tremenda perseguição contra os pagãos em toda a parte oriental do império. Em Antáquia, entre muitos outros pagãos, são executados o ex-governador Fidustius, e os sacerdotes Hilarius e Patricius enquanto milhares de inocentes são torturados ou mortos por terem simplesmente se recusado de abjurar o culto tradicional. Numerosos livros são queimados nas praças das cidades do Império do Oriente. Todos os amigos do falecido imperador Juliano (Orebasius, Sallustius, Pegasius, etc.) são perseguidos. O filósofo Simónides é queimado vivo e o filósofo Máximus é decapitado.

Ano 372. O imperador Valente ordena ao governador da Ásia, Fisto, que extermine todos os gentios e destrua suas obras. Inúmeras pessoas apavoradas começam a queimar suas livrarias para escapar do perigo. Quem tem a coragem de resistir é entregue aos carrascos. As delações são muitas, o clima é de terror. É inventado o termo pagão (de pagus = vilarejo) como forma de desprezo aos gentios. São Martino completa a destruição dos templos da Galácia e até as representações teatrais são proibidas. Valente enfrenta os Godos na batalha de Adrianópolis (378) onde, não querendo, por soberba, esperar a ajuda do imperador do Ocidente Graciano, é derrotado e morto pelos bárbaros. A perseguição é suspensa: os cristãos choram, mas os pagãos agradecem aos deuses.

Ano 380. Em 27 de fevereiro, um édito do imperador Teodósio I proclama ser o cristianismo a única religião de Roma, e proíbe todas as outras. Ele declara que os pagão são “repugnantes, hereges, estúpidos e cegos“. O bispo Ambrósio de Milão está autorizado a destruir todos os templos dos gentios. Em Constantinopla o templo de Afrodite é transformado em bordel e os de Hélio e Ártemis em estábulos. Apesar desse monstro pior que Nero haver ordenado o massacre de 7.000 habitantes de Salonica, os bajuladores cristãos da época o glorificam com o apelido “Grande”.

Ano 388. Os monges ateiam fogo numa sinagoga a Raqqa e aterrorizam as aldeias da Síria. Outros patrulham as cidades do Alto Egito em busca de ídolos. Na África do Norte os monges, armados com porretes chamados de “Israel”, varrem o interior em busca de inimigos. Hordas de eremitas fanáticos vindos do deserto invadem as cidades do Oriente Médio e do Egito, destruindo estátuas, altares, bibliotecas e templos, e linchando os pagãos. O Patriarca de Alexandria Teófilo incita as massas cristãs levando-as a realizar grandes perseguições contra os gentios e à destruição do Serapeu de Alexandria, a maior biblioteca da Antiguidade (a cena é mostrada no filme de Amenábar). Todos os sacerdotes da Galácia são degolados.

Ano 392. O imperador Teodósio I proíbe todos os rituais não-cristãos e ordena uma nova perseguição em larga escala contra os pagãos. Os Mistérios da Samotrácia são proibidos e os sacerdotes pagãos são assassinados. Em Chipre, o bispo Epifânio manda destruir quase todos os templos da ilha e exterminar milhares de pagãos. Os Mistérios locais da deusa Afrodite são censurados.

Ano 395. Dois novos decretos geram ulteriores perseguições contra os pagãos. Rufino, o eunuco primeiro-ministro do imperador Flávio Arcádio, dirige suas hordas de Godos cristianizados, liderados por Alarico, na Grécia. Estimulados por monges cristãos, esses bárbaros saqueiam e queimam muitas cidades, abatem ou escravizam incontáveis pagãos helênicos e derrocam os antigos templos. Queimam o Santuário de Elêusis com dentro os seus sacerdotes. Enquanto isso, o imperador ordena que o culto ao paganismo seja considerado ato de alta traição.

No ano 398, o IV Concílio de Cartago proibe a todos, inclusive aos bispos cristãos, a leitura dos textos pagãos: inúmeros livros são incinerados em públicas fogueiras, exatamente como na Alemanha nazista em 1933. Todo o saber da Antiguidade é banido.

Ano 401. Em Cartago, a população cristã lincha os pagãos e destrói templos e estátuas. Também em Gaza o bispo São Porfírio ordena que seus seguidores linchem os pagãos e derrubem os nove templos ainda ativos na cidade. O XV Concílio de Calcedônia ordena a excomunhão daqueles cristãos que mantenham boas relações com seus parentes pagãos. Os piores inquisidores são proclamados santos.

Ano 408. Por decreto imperial fica proibida a posse de qualquer escultura pagã. São punidos aqueles juízes que mostrem piedade para os pagãos. Em 409 é decretada a pena de morte para os astrólogos que também são todos astrônomos, como a famosa matemática Hipácia de Alexandria.

Ano 415. A filósofa neoplatônica Hipácia é agredida por um grupo de monges parabolanos às ordens de São Cirilo. Essa eminente cientista, virgem e mártir, é esfolada viva e suas carnes ainda palpitantes são queimada na fogueira. Quem atesta esse crime é o historiador cristão Sócrates Escolástico. Contemporaneamente, na África do Norte, os sacerdotes pagãos são crucificados ou queimados vivos. Em Constantinopla, o governador Anatolius e outros pagãos são condenados a serem devorados pelos leões, mas como as feras não os atacam, eles são crucificados. Estranhamente ninguém clama ao milagre e ninguém se converte quando os animais não os abocanham, como supostamente acontecia com os mártires cristãos.

Ano 416. Os inquisidores exterminam os últimos pagãos da Bitínia e, no final do ano, são despedidos todos os funcionários públicos que não se convertem ao cristianismo.
No Ano 423 o imperador Teodósio II proclama que a religião dos pagãos é “o culto do demônio”: aqueles que ainda a seguem ficam passíveis de cárcere e de tortura. Os monges parabolanos martirizam Hipácia de Alexandria.

Ano 435. Em 14 de novembro, um novo édito do imperador Teodósio II ordena a pena de morte para os cristãos dissidentes e os pagãos do Império. Nessa altura, havia poucas conversões, porque as pessoas tolerantes tinham horror a tanta crueldade e a maioria das conversões era falsa, realizada apenas para salvar a vida. Três anos depois, os pagãos, considerados responsáveis por uma epidemia de peste, são novamente perseguidos.

Ano 440 até 450. Um enésimo edito imperial manda que todos os livros não cristãos sejam queimados. Também a arte é banida, a não ser que seja usada como instrumento para divulgar a fé cristã.

Ano 457 até 491. Ocorrem perseguições esporádicas contra os pagãos na parte oriental do Império. Entre os executados estão o doutor Jacobus e o filósofo Géssio. Severiano, Heréstio, Zósimo, Isidoro e outros são torturados e encarcerados. O pregador cristão Conon e seus seguidores exterminam os derradeiros pagãos da ilha de Imbros. Os últimos adoradores de Zeus são executados em Chipre.

Termina aqui a lista, muito resumida, dos crimes cometidos pela Igreja cristã no Império Romano cuja parte Ocidental, a partir de 476, cessa de existir. Naturalmente as perseguições continuam na parte Oriental, também conhecida como Império Bizantino onde a antiga religião é ainda praticada clandestinamente por muitas pessoas. O panorama de devastação é sempre o mesmo, caracterizado pela destruição de templos, estátuas, monumentos, livros, bibliotecas, etc. Infelizmente até os modernos livros de História narram que o Império Romano acabou por causa das invasões barbáricas e isso é verdade no que diz respeito ao lado político dessa antiga instituição política. No entanto, o aniquilamento de uma imensa cultura milenar começou bem antes das invasões e foi perpetrado pelos próprios cristãos. Se, a partir de agora, na Europa ocidental as perseguições se dirigem contra os “hereges”, no mundo bizantino as vítimas continuam sendo principalmente os pagãos.

Em 528 o imperador Justiniano (casado com uma ex prostituta insaciável e lasciva) suprime a Academia, a antiga Escola Filosófica de Atenas onde havia ensinado Platão. Terminam para sempre os Jogos Olímpicos e todos os suspeitos de praticar “a bruxaria, a adivinhação, a magia e a idolatria” são executados mediante o fogo, a crucificação ou o desmembramento com garras de aço. Tido em suma consideração pelos cristãos, esse ambiciosíssimo Imperador fundou o seu poder sobre o massacre de 35.000 homens, mulheres e crianças que manifestavam pacificamente no hipódromo de Costantinopla durante a Revolta de Nika. Uma figura bem diferente dos antigos imperadores pagãos e, em particular, do mite e tolerante Julião (331-363) que Voltaire retrata com essas palavras: “Sóbrio, casto, altruísta, valoroso e clemente”.

Enquanto a Igreja cristã foi preseguida nunca deixou de solicitar tolerância e liberdade religiosa, mas não apenas conquistou o apoio dos imperadores tornou-se intolerante e perseguidora chegando a usar a violência mais brutal para aniquiliar não apenas os pagãos, mas também os cristãos tidos como heréticos. Os crimes mais repugnantes foram justificados com base em versículos do Antigo Testamento como, por exemplo, “Matai velhos, mancebos e virgens, criancinhas e mulheres, até exterminá-los” (Ezequiel 9:6). Quanto às conversões forçadas, a base doutrinal foi encontrada no próprio Evangelho onde diz: “E disse o Senhor aos servos: Sai pelos caminhos e valados, e força-os a entrar, para que a minha casa se encha” (Lucas 14:23).

Como resultado, a populaça cristã foi deixada livre e até estimulada a atacar e destruir sinagogas e templos com a certeza de pilhagem e de impunidade. Espiões disfarçados de pagãos foram designados para denunciar aqueles que não simpatizavam com a causa cristã. Falsas testemunhas foram apresentadas e aceitas sem problemas pelos tribunais partidários sendo, as confissões, extraídas com a ajuda da tortura. Jovens e idosos foram induzidos a denunciar seus amigos e familiares, assim como aconteceria no regime nazista alemão ou na Rússia de Stalin. Inúmeros inocentes foram executados e os mais sortudos apenas encarcerados ou exilados. Em algumas províncias, presos, exilados e fugitivos da intolerância cristã chegaram a totalizar mais da metade da população. As propriedades foram confiscadas, a Igreja começou a ficar imensamente rica e senhora absoluta dos corpos, das mentes e das almas de milhões e milhões de pessoas.

Moral da história: é a supressão violenta do paganismo no mundo Mediterrâneo que determina, muito mais que os eventos políticos, o fim duma esplendorosa cultura milenar conhecida com o nome de Antiguidade. A partir daquele momento a Europa regride sob todos os aspectos e começa aquela fase que os historiadores chamam de Idade Média ou, também, de Idade das Trevas.

Fonte: https://principedaliberdade.wordpress.com/2018/05/31/os-martires-na-antiga-roma/

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Cultura Andina

Eu parei de escrever nesse blog em 25/06/2016 e voltei quase cinco anos depois. Muita coisa aconteceu nesse período, eu passei por uma péssima experiência, mas não irei comentar sobre isso.

Eu vou focar em divulgar o Paganismo, a Bruxaria e a Wicca. O que eu irei abordar, hoje, fez parte de minha viagem para o Chile em outubro de 2018.

Ali eu pude ter contato direto com a cultura, a religião e o povo original da América Latina. Em 23 de janeiro de 2016 eu escrevi um texto sobre a “roda do ano latina”. Foi com surpresa e satisfação que eu encontrei no Chile a Chakana [a “cruz andina”]:


“Chacana, Chakana: (n) (1) Escadas; escada. A Cruz andina, ou Inca , cruz que reflete os três mundos (Hanaqpacha – superior , Kaypacha – face da terra , Ukhupacha – inferior e interior), com um disco central representando o Hatun Inti (O Divino Sol Central).  A representação inca da constelação Cruzeiro do Sul descrito como poder simbólico para ponte entre o céu e a terra. Uma cruz, especificamente a cruz andina.; um símbolo da simetria divina e equilíbrio”. [Inca Glossary]

“A cosmovisão andina, a imagem que a cultura tem do mundo e das pessoas está muito ligada à cosmografia, que é a descrição do cosmos e neste caso para o céu do hemisfério sul; o eixo visual e simbólico é marcado pela constelação do Cruzeiro do Sul, chamado Chakana. [snip]

No universo andino existem mundos simultâneos, paralelos e interligados, que reconhecem a vida e a comunicação entre as entidades naturais e espirituais. A visão é baseada em cosmologia, que é a fase da explicação mitológica do mundo, e estão organizados como a base da sintaxe do pensamento. [snip]

A Chakana é a representação de um conceito com vários níveis de complexidade de acordo com a sua utilização. É o nome da constelação do Cruzeiro do Sul, resume a cosmo visão andina e é um conceito ligado a estações astronômicas. É considerada a ponte ou a escada que permitiu que os povos andinos mantivessem seus cosmos latentes de ligação, um anagrama de símbolos, definindo em si a filosofia de vida, a ciência, a cultura andina. Para essa cultura haveria dois espaços sagrados que se opõem uns aos outros: primeiro vertical, dividido ao meio (macho e metade fêmea), segundo horizontal, dividido em seres celestiais e seres terrestres e subterrâneos”. [Portal Terra Base]

Eu pude conhecer também o povo Mapuche e sua Cosmovisão:

“A terra caracteriza e dá sentido existencial aos mapuche, fazendo parte desde seu etnônimo (gente da terra) até a espécie de seus sobrenomes, geralmente toponímias do lugar em que historicamente vivem (ou viviam) as diferentes linhagens de parentesco.

Os Mapuche usam a ideia de mapu para designar a Terra, compreendida enquanto seus territórios tradicionais, contudo não somente no simples plano material. A ideia de mapu não faz “só uma referência ao tangível, ao material, senão que possui uma dimensão espacial que permite situar todas as dimensões da vida no universo. Ou seja, possui também uma dimensão transcendente” (PAILLAL, 2006, p. 31). O conceito de Mapu alude assim a um espaço tanto físico como metafísico, onde as forças do bem e do mal se complementam e interagem.

O universo cosmogônico Mapuche possuiria duas dimensões: uma vertical e outra horizontal. A primeira faz referência a uma série de plataformas que estariam superpostas no espaço, possuindo certa hierarquia, sendo as superiores relacionadas ao bem e as inferiores ao mal. A mapu, estaria em um grau intermediário, espaço de intersecção, lugar onde o bem e o mal permeiam sincronicamente.

Em relação à dimensão horizontal, estas plataformas seriam todas quadradas e de igual tamanho. Geograficamente, esta plataforma que é a mapu, está orientada segundo os quatro pontos cardeais, tomando como referência o leste, materializado pela cordilheira dos Andes, direção sagrada e positiva de onde nasce o sol, matriz da presente concepção espacial.

A ideia do mundo quadrado, sendo os vértices os pontos cardeais é representada no kultrun, um dos instrumentos musicais mais importantes da cultura Mapuche, utilizado tradicionalmente em rituais xamânicos. “O kultrun é o resumo do conjunto da criação que a machi utiliza para seus serviços como símbolo e expressão do poder” (PIUTRÍN, 1985, p. 121). É justamente no centro deste quadrado, o centro do universo, que as comunidades Mapuche localizam sua morada. Este ponto é demarcado fisicamente no terreno por meio do nillatúe, um monumento antropomórfico de madeira colocado em um campo aberto na comunidade Mapuche, sendo um espaço sagrado onde se celebram de tempo em tempo rituais de fertilidade (nillatún).

Cabe ressaltar dois pontos fundamentais da cosmovisão Mapuche. O primeiro é o caráter animista desta cultura, ou seja, a ideia de que todos os elementos da natureza são vivos, conscientes e possuem ânima (espécie de energia, o qual os Mapuche chamam de newén). Assim, por exemplo, uma planta medicinal possui em sua essência um determinado newén; sendo justamente este, incorporado por aquele que ingere a planta, o responsável pela cura do enfermo. O segundo aspecto importante é o da reciprocidade, ideia fundamental no “Kimün Mapuche” (sabedoria Mapuche), na qual pauta-se a ideia do equilíbrio das relações, fundamental a sua perpetuidade”. [https://pt.wikipedia.org/wiki/Mapuches]

Aqui vale a pena anotar o simbolismo do kultrun:



“O kultrun ou cultrún representa na visão de mundo Mapuche metade do universo ou o mundo em sua forma semiesférica; Os quatro pontos cardeais são representados no patch, que são os poderes onipotentes de Ngnechen, dominador do universo, que são representados por duas linhas como uma cruz e suas extremidades se ramificam em mais três linhas, representando as pernas do choique (avestruz) ; Dentro das salas que são divididas pelas linhas descritas acima, as quatro estações do ano são desenhadas.

Desde os tempos antigos, o conhecimento sobre a natureza se reflete neste instrumento sagrado. Nele você pode ver o que existia como uma linha que divide geográfica e naturalmente esta nação-nação, a Cordilheira dos Andes, marcando seus extremos: Pikun (Norte) e Willi (Sul); Outra linha imaginária que corta transversalmente é aquela que representa a trajetória do sol, Puel (Leste) e Gulu (Oeste). Desta forma, o conhecimento dos pontos cardeais é evidenciado.

Também pode ser visto nas salas em que se divide o Kultrun das diferentes estações do ano:

Pukem (inverno): É o momento em que o Xufken Mapu renova sua fertilidade através da chuva e da claridade do Antu (Sol), pois é aqui que os dias começam a se alongar. Com os diferentes elementos que usarão posteriormente para trabalhar na próxima etapa.

Pewü (primavera): é o segundo estágio, pu kvuzaw (empregos) começam a se desenvolver . É quando as famílias se preparam para sair do inverno. Além disso, é produzido o lxofij We Coyin (broto da planta). O lof organiza o uso produtivo dos espaços para superar as más condições do Xufken Mapu (solo), degradado pelos reduzidos e sobrecarregados.

Walüng (verão): época de colheita. Aqui o pugejipun começa a acontecer . Cada comunidade faz isso em datas diferentes, mas sempre em apoio a kvyen (lua cheia). A celebração do gejipun é a oportunidade de fortalecer sua identidade como povo. As autoridades originais ( Lonko, Pijan kuse, Werken ) guiam cada pombal . O Weupife (historiador) recria a memória. O gvlam (conselho) que é transmitido permite recuperar a dignidade e o futuro.

Rimu (outono): É aqui que a família se prepara para o retorno aos seus espaços de inverno. Os frutos da colheita são armazenados, é também a época do Xafkintu (troca), uma época de muito frio onde a vida familiar é compartilhada de forma mais intensa e permite a prática intensiva da educação mapuche, ou seja, a transmissão do kimvn (conhecimento). , através do epew (história), mvxam (conversa), picikece jogos ( gvjiw Polton, awar kuzem ) que eles compartilham com os idosos”. [Pueblos Originarios – traduzido pelo Google Tradutor]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Sobre a Resistência Pagã

Na página do Pagan Square, na seção de Culture Blogs, Steven Posh escreve um artigo intitulado “Where Were the Pagan Gods During the Christian Centuries?”

A resposta que ele mesmo dá segue assim:

“Here we have the answer. The gods have never deserted us. Though their groves and temples were thrown down and their worship overthrown, they have never failed in their faithfulness to us, nor ceased to do their sacred Work on which our lives depend.

Through all our centuries of faithlessness, they have waited, waited for us, their people, to return.

No, the Old Gods never left us; it is we who left Them”.

Ele cita o mito chamado Láchplesis, uma mitologia da Letônia que, juntamente com as mitologias da Lituânia e da Prússia, faz parte do Paganismo Moderno Báltico.

Steven Posh dá um resumo do mito:

“The Bearslayer is a fine, romping tale of love, friendship, and treachery, filled with monsters, evil enchantresses, and magicians. Characters include the Bearslayer's true love, daughter of Fate the beautiful Laimdota, his best friend the hero Koknesis, and Kangars, the traitorous pagan priest who seeks to betray his people to the Christians.

The Bearslayer rallies the people and fights the good fight, protecting Latvia from enslavement for many years, but in the end he himself is betrayed.

Through the treachery of Kangars, the renegade pagan priest, the Black Knight learns the secret of the Bearslayer's strength: his furry bear's ears.

In a sword fight, he lops off both ears. As they grapple, locked together, they topple from a cliff into the waters of the mighty Daugava, and are never seen again.

So begins Latvia's 700 years of enslavement to a foreign people and a foreign creed”.

Eu estudei bastante a História Antiga e a História do Cristianismo. Eu li o livro “Paganismo e Cristianismo” de Jocelyn Nigel Hillgarth. Eu li “O Livro Negro do Cristianismo” de Laura Malucelli, Jacopo Fo e Sergio Tomat. Recentemente, eu li “Assim na Terra Como no Céu”, de Mário Jorge da Motta Bastos que mudou bastante a forma como eu encarava o processo de supressão das religiões antigas pelo Cristianismo após esta tornar-se a única religião oficial do Império Romano. O livro indica fontes históricas demonstrando que o Cristianismo encontrou resistência, especialmente no meio rural, algo que é parcialmente explicado no livro “Bruxaria e História”, de Carlos Roberto Figueiredo Nogueira e no livro “O Imaginário da Magia”, de Francisco Bethencourt.

Conclui-se, então, que existiu resistência contra a imposição do Cristianismo. Com o surgimento do Paganismo Moderno e de grupos de reconstrução cultural, diversos países europeus buscaram resgatar suas raízes, suas origens e suas religiões originais. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o advento da Contracultura tornou-se o caldeirão de onde surgiram inúmeras espiritualidades alternativas, no movimento chamado de Nova Era, tornando-se extremamente fértil para o Paganismo Moderno e a Wicca.

Rapidamente, o Mercado tratou de transformar essas religiões em mais um produto comercializado, com revistas e cursos sobre a Wicca. Palco ideal para farsantes, vigaristas e falsários onde alguns, por meios misteriosos, até conseguiram obter o treinamento e iniciação formais em uma tradição wiccana. Eu passei vários anos tentando esclarecer o público sobre os princípios e valores da Wicca Tradicional, sem sucesso. O Cristianismo não sobreviveu depois da mutação feita por Paulo de Tarso. Se a Wicca vai sobreviver, é problema dos wiccanos. Eu sigo resistindo, pelos Deuses Antigos e por meus Ancestrais.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Declaração sobre os Frost

Gavin e Yvonne Frost são os fundadores da Church and School of Wicca (1968) e autores do livro The Witch’s Bible (1972).
 
A polêmica e controvérsia sobre os Frost apareceu em 2007 quando A.J. Drew anunciou seu ritual no qual ele sacrificou "em efígie" os Frost. Esse ato provocou, mais tarde (2009), o problema no Florida Pagan Gathering, levantado por T. Thorn Coyle, que republicou seu protesto (2014) quando os Frost voltaram a participar do FPG.
 
A “preocupação” em relação a certas pessoas interessadas em um caminho espiritual pode ser visto no Satanismo de LaVey:
“Do not make sexual advances unless you are given the mating signal”. [Eleven Satanic Rules of Earth]
Mas o que significa “sinal de acasalamento”?
“The “Mating Signal” is shorthand for the normal adult responses showing that a person might have an interest in you sexually. Most sexually active adults can tell when another adult is attracted to them with erotic intent [snip]”. [FAQ Sexuality & Gender]
Curiosamente existe esta declaração na CoS:
“Satanism advocates that young people should spend time in self-exploration—discovering talents and developing them, as well as in exploring the world around you—the many philosophies and cultures that exist, so that you can use your freedom of choice wisely, and come to understand yourself”. [FAQ Young People and Satanism]
Quão "jovem" um jovem pode ser, nós podemos perguntar.

Em 15 de setembro de 2016, Yvonne Aburrow escreveu no blogue “Dowsing From Divinity” um texto sobre os Frost, no qual cita um “Código de Conduta” de pagãos ao falar de cultura de consentimento e eu cito o trecho que importa:

“Inappropriate or unwanted physical contact - this includes hugging and kissing if a person has indicated they are uncomfortable with it – we advise that you always seek consent when offering hugs or kisses.
Unwelcome sexual or other personal attention”.
Nenhuma citação sobre idade.
 
Por precaução, eu não irei citar o trecho do livro de autoria dos Frost, o/a interessado/a pode encontrar na internet da mesma forma como eu encontrei. O que eu posso fazer é expor a minha interpretação do texto.
Ao que tudo indica, a primeira parte do rito se trata de um procedimento de proteção e “batismo”. A segunda parte, de onde deve ter suscitado a controvérsia e polêmica, parece ser um ritual de passagem, onde a pessoa interessada, orientada e treinada, passa por um ritual após o qual ele ou ela é completamente reconhecido/a como adulto e parte integrante do coven.
 
Desde que se tornou uma religião popular [comercializada] a Wicca tem, aos poucos, mudado alguns de seus preceitos mais controversos e polêmicos para a mente ocidental dominada pela repressão/opressão sexual da cultura judaico-cristã.
Quando eu estudei a religião, através do Fórum Amber and Jett, havia uma distinta preocupação em esclarecer que a Wicca não é homofóbica, nem transfóbica, eu conheço diversos altos sacerdotes e altas sacerdotisas que são homossexuais e transgênero, eu não vejo meus Deuses, nem meus Ancestrais tendo qualquer problema com isso. Existe o ditado: “não subtraia, mas adicione”. Então a Wicca tornou-se desde a década de 70 [século XX] mais inclusiva, o que eu acho excelente, mas nós estamos nos deixando levar pela neurose e paranoia moderna no que tange ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo.
 
Toda religião organizada tem seus ritos de iniciação e passagem e faz parte, conforme estudo antropológico, de diversas culturas [antigas e atuais] no mundo inteiro.

“As mudanças mais significativas pelas quais passamos na vida são o nascimento, a entrada na vida adulta, o casamento e a morte. Esses acontecimentos fundamentais demandam, da mesma forma, ser culturalmente representados nos chamados ritos de passagem, estudados especialmente pelos autores franceses. O primeiro pesquisador a se ocupar do tema, ainda no início do século XX, foi Van Gennep, que em 1906 publicou o clássico Os Ritos de Passagem. Neste livro, ele dividiu os ritos de passagem em três grandes grupos: ritos de separação, como a festa de formatura ou um sepultamento; ritos de margem, como o período da gravidez ou o do noivado; e os ritos de agregação, como batismo, casamento, primeiro dia de aula na escola ou na universidade.
Considerado um dos mais importantes pensadores contemporâneos, Lévi-Strauss concluiu que a estrutura psíquica e linguística dos grupos humanos, vivendo em diversas épocas e lugares, seria idêntica: todos pensam da mesma forma, mas sobre coisas diferentes. Os rituais – sejam eles festivos, militares ou religiosos – têm como marca comum a repetição e oferecem uma sensação de segurança, não apenas por sua familiaridade, mas porque promovem um sentimento de coesão social. Eles demonstram a ordem e a promessa de continuidade desses grupos. Individualmente, a necessidade de se reinventar também é cíclica.
Em Os Ritos Profanos, Claude Rivière analisa os ritos de passagem embutidos no cotidiano, dos quais muitas vezes não nos damos conta. Como os ritos escolares, subdivididos em ritos de chegada (cumprimento da professora e despedida dos pais), ritos de ordem (horários sinalizados por avisos sonoros, filas e a organização por turmas), ritos de atividades (ir ao quadro-negro, a hora do recreio e falar em público). A própria alfabetização pode ser considerada, também, como um rito de passagem, por atribuir uma nova identidade à criança e, com ela, novos papéis a serem desempenhados no coletivo”.[http://www.multirio.rj.gov.br/index.php/leia/reportagens-artigos/reportagens/8585-a-importancia-dos-ritos-de-passagem]

No mundo ocidental, existe o bar-mitzvah [cerimônia que insere o jovem judeu como um membro maduro na comunidade judaica. Iniciado como uma cerimônia folclórica, agora é parte universal do judaísmo oficial, tendo acabado como parte da lei escrita. Quando um judeu atinge a sua maturidade (aos 12 anos de idade para as meninas, 13 anos de idade para os meninos), passa a se tornar responsável pelos seus atos, de acordo com a lei judaica. Nessa altura, diz-se que o menino passa a ser Bar Mitzvah; e a menina passa a ser Bat Mitzvá - wikipédia] e a “festa de debutante” [baile de debutante é um rito de passagem feminino que marca a passagem simbólica da condição de menina à de mulher quando se atinge os quinze ou dezesseis anos de idade. O costume é advindo da Europa e a palavra tem origem no francês débutante, de début ("início") - wikipédia]

Vamos a alguns fatos históricos:

“Nas sociedades tradicionais, a idade de consentimento para uma união sexual era uma questão para a família decidir ou um costume tribal. Na maioria dos casos, isso coincidiu com sinais de puberdade, menstruação para indivíduos femininos e pelos pubianos para indivíduos masculinos. O antigo poeta grego Hesíodo na sua obra Os Trabalhos e os Dias (700 a.C.) sugere que um homem deve casar em torno de trinta anos e que ele deve tomar uma esposa que estiver na idade de cinco anos depois da puberdade”. [wikipédia]

“Nas sociedades antigas e medievais, as meninas poderiam ser noivas antes ou durante a puberdade. Na Grécia, o casamento e a maternidade precoces para as meninas eram incentivados. Mesmo os meninos eram esperados para se casar antes de chegarem à idade de 18 anos. Com uma expectativa média de vida para os seres humanos em todo o mundo entre 40 e 45 anos, os casamentos e a maternidade ainda no início da adolescência eram típicos. Na Roma antiga, as meninas se casavam antes dos 12 anos e os meninos a partir dos 14 anos. Na Idade Média, sob as leis civis inglesas que eram derivadas das leis romanas, era comum o casamento antes dos 16 anos e na China Imperial, o casamento infantil era norma.
Friedman afirma que "organizar e contrair casamento de uma jovem eram as prerrogativas indiscutíveis de seu pai no antigo Israel". A maioria das meninas se casavam antes da idade de 15 anos, geralmente no início de sua puberdade.
A maioria das religiões, ao longo da história influenciou a idade de casar. Por exemplo, a lei eclesiástica cristã proibia o casamento de uma menina antes da idade da puberdade. As escrituras hindus védicas determinaram a idade de casamento para meninas para a "idade adulta" que definiram como três anos após o início da puberdade. Estudiosos e rabinos judeus fortemente desencorajam casamentos antes do início da puberdade.
Alguns estudiosos islâmicos têm sugerido que não é um número que importa, a idade de casar pelas leis religiosas do Islã é a idade em que os guardiões da menina sentem que ela chegou à maturidade sexual. A determinação da maturidade sexual é uma questão de julgamento subjetivo e há uma forte crença entre a maioria dos muçulmanos e acadêmicos, com base na Sharia, que se casar com uma menina de menos de 13 anos de idade é uma prática aceitável para os muçulmanos”. [wikipédia]

“A infância como objeto historiográfico pode ser considerada uma área de estudos recente, tendo como marco o trabalho de Philippe Ariès, a História Social da Criança e da Família, publicado em 1960 e traduzido mais tarde para o português. O livro aborda a trajetória de uma consciência social sobre a criança e a família, na percepção e construção de um sentimento de infância. É um texto introdutório importante para as pesquisas da infância como objeto historiográfico utilizando uma vasta gama de fontes iconográficas e testemunhos escritos. O autor traz que será sobretudo nos séculos XVI e XVII que ocorre uma evolução dos temas da primeira infância, com um sentimento de família, a paparicação e os retratos numerosos de crianças sozinhas. A obra inaugura um novo campo de pesquisas históricas: a história da infância”. [wikipédia]

O conceito de uma infância e adolescência como uma época de inocência, ingenuidade e assexualidade vem da filosofia de Jean Jacques Rousseau. Isso somente foi desmistificado [em parte] por Sigmund Freud e confirmado [com enorme alarde] por Alfred Kinsey.
 
Voltemos ao assunto. Essa é uma questão pertinente, considerando a forma como a Wicca se expandiu e, certamente, seus praticantes devem se preocupar de que forma seus descendentes podem participar dos encontros e das cerimônias. Sobretudo quando falamos de conceitos como “idade”, não há consenso absoluto quando uma pessoa alcança a maturidade em sua formação mental, física, psicológica ou sexual.

O critério e conceito sobre faixa etária e consentimento são uma construção cultural e social. Um ser humano, que nasce e possui uma sexualidade, não vai deixar de ter curiosidade a respeito disso. A falta de educação sexual somente irá atingir as pessoas que estão fora do espectro binomial heteronormativo e não irá impedir pessoa alguma em ter suas primeiras experiências sexuais. Considerando que é nosso dever cuidar e ensinar nossos descendentes [e isso inclui educação sexual], considerando que nós consideramos o sexo algo sagrado, nós que somos “adultos”, nós temos que resolver o que é melhor. Grupos de Paganismo Moderno e Covens Wicanos devem ter regras claras e cautela quanto ao ingresso de interessados, regas estendidas no tocante às cerimônias, quando são públicas ou quando tem a presença de familiares, parentes, crianças e adolescentes.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Abalou o céu e a terra

A sexualidade era fundamental para a vida na antiga Mesopotâmia, uma área do Antigo Oriente Próximo frequentemente descrita como o berço da civilização ocidental, correspondendo aproximadamente ao atual Iraque, Kuwait e partes da Síria, Irã e Turquia. Não era assim apenas para os humanos comuns, mas também para reis e até divindades.

Divindades da Mesopotâmia compartilharam muitas experiências humanas, com deuses se casando, procriando e compartilhando lares e deveres familiares. No entanto, quando o amor dá errado, as consequências podem ser terríveis tanto no céu quanto na terra.

Os estudiosos observaram as semelhanças entre a "máquina de casamento" divina encontrada em obras literárias antigas e o namoro histórico de mortais, embora seja difícil separar os dois, mais notoriamente nos chamados "casamentos sagrados", que viram reis da Mesopotâmia se casando com divindades .

Sexo divino.

Os deuses, sendo imortais e geralmente de status superior aos humanos, não precisavam estritamente de relações sexuais para a manutenção da população, mas os aspectos práticos da questão parecem ter feito pouco para conter seu entusiasmo.

As relações sexuais entre as divindades mesopotâmicas inspiraram uma rica variedade de narrativas. Isso inclui mitos sumérios como Enlil e Ninlil e Enki e Ninhursag , onde as complicadas interações sexuais entre divindades envolviam trapaça, engano e disfarce.

Em ambos os mitos, uma divindade masculina adota um disfarce e, em seguida, tenta obter acesso sexual à divindade feminina - ou evitar a perseguição de seu amante. No primeiro, a deusa Ninlil segue seu amante Enlil até o Mundo Inferior e troca favores sexuais por informações sobre o paradeiro de Enlil. A provisão de uma falsa identidade nesses mitos é usada para circunavegar as expectativas da sociedade em relação ao sexo e à fidelidade.

A traição sexual poderia significar a ruína não apenas para amantes errantes, mas para toda a sociedade . Quando a Rainha do Mundo Inferior, Ereshkigal, é abandonada por seu amante, Nergal, ela ameaça ressuscitar o morto a menos que ele seja devolvido a ela, aludindo ao seu direito à saciedade sexual.

A deusa Ishtar faz a mesma ameaça diante de uma rejeição romântica do rei de Uruk na Epopéia de Gilgamesh. É interessante notar que tanto Ishtar quanto Ereshkigal, que são irmãs, usam uma das ameaças mais potentes à sua disposição para tratar de assuntos do coração.

Os enredos desses mitos destacam o potencial do engano para criar alienação entre os amantes durante o namoro. O curso nada tranquilo do amor nesses mitos e seu complexo uso de imagens literárias têm atraído comparações acadêmicas com as obras de Shakespeare .

Poesia de amor.

Antigos autores da poesia de amor suméria, retratando as façanhas de casais divinos, mostram uma riqueza de conhecimentos práticos sobre os estágios da excitação sexual feminina. Alguns estudiosos acreditam que essa poesia pode ter historicamente um propósito educacional: ensinar jovens amantes inexperientes na antiga Mesopotâmia sobre o intercurso. Também foi sugerido que os textos tinham propósitos religiosos, ou possivelmente potência mágica .

Vários textos escrevem sobre o namoro de um casal divino, Inanna (o equivalente semítico de Ishtar) e seu amante, a divindade pastor Dumuzi. A proximidade dos amantes é mostrada por meio de uma combinação sofisticada de poesia e imagens sensuais - talvez fornecendo um exemplo edificante para os indicados de Bad Sex in Fiction deste ano .

Em um dos poemas, os elementos da excitação da amante são catalogados, desde o aumento da lubrificação de sua vulva até o “tremor” de seu clímax. O parceiro masculino é apresentado deliciando-se com a forma física da parceira e falando gentilmente com ela. A perspectiva feminina sobre o ato sexual é enfatizada nos textos por meio da descrição das fantasias eróticas da deusa. Essas fantasias fazem parte dos preparativos da deusa para sua união e talvez contribuam para sua satisfação sexual.

Os genitais femininos e masculinos podiam ser celebrados na poesia, a presença de pêlos púbicos escuros na vulva da deusa é poeticamente descrita através do simbolismo de um bando de patos em um campo bem regado ou uma porta estreita emoldurada em lápis-lazúli preto brilhante.
A representação dos órgãos genitais também pode ter cumprido uma função religiosa: os inventários dos templos revelaram modelos votivos de triângulos púbicos, alguns feitos de argila ou bronze. Ofertas votivas em forma de vulva foram encontradas na cidade de Assur antes de 1000 aC.

Deusa feliz, reino feliz.


O sexo divino não era exclusivo dos deuses, mas também podia envolver o rei humano. Poucos tópicos da Mesopotâmia cativaram tanto a imaginação quanto o conceito de casamento sagrado. Nessa tradição, o rei histórico da Mesopotâmia seria casado com a deusa do amor, Ishtar. Há evidências literárias de tais casamentos desde o início da Mesopotâmia, antes de 2300 aC, e o conceito perseverou em períodos muito posteriores.

A relação entre reis históricos e divindades da Mesopotâmia foi considerada crucial para o sucesso da continuação da ordem terrestre e cósmica. Para o monarca da Mesopotâmia, então, o relacionamento sexual com a deusa do amor provavelmente envolvia certa pressão para agir.

Alguns estudiosos sugeriram que esses casamentos envolviam uma expressão física entre o rei e outra pessoa (como uma sacerdotisa) incorporando a deusa. A visão geral agora é que se houvesse uma encenação física de um ritual sagrado de casamento, ele teria sido conduzido em um nível simbólico e não carnal, com o rei talvez compartilhando sua cama com uma estátua da divindade.
Imagens agrícolas eram freqüentemente usadas para descrever a união da deusa e do rei. O mel, por exemplo, é descrito como doce como a boca e a vulva da deusa.
Uma canção de amor da cidade de Ur entre 2100 e 2000 aC é dedicada a Shu-Shin, o rei, e a Ishtar:
- No quarto gotejando mel, vamos desfrutar continuamente de seu fascínio, a coisa doce. Rapaz, deixe-me fazer as coisas mais doces para você. Minha querida querida, deixe-me trazer mel para você.
O sexo nesta poesia de amor é descrito como uma atividade prazerosa que intensifica os sentimentos amorosos de intimidade. Essa sensação de maior proximidade foi considerada para trazer alegria ao coração da deusa, resultando em boa sorte e abundância para toda a comunidade - talvez demonstrando uma versão mesopotâmica do ditado “esposa feliz, vida feliz”.
A apresentação diversa do sexo divino cria um mistério em torno das causas da ênfase cultural na cópula cósmica. Embora a apresentação do sexo divino e do casamento na antiga Mesopotâmia provavelmente servisse a vários propósitos, alguns elementos das relações íntimas entre deuses mostram alguma influência nas uniões mortais.

Embora a desonestidade entre amantes pudesse levar à alienação, as interações sexuais positivas traziam inúmeros benefícios, incluindo maior intimidade e felicidade duradoura.

Fonte: https://www.ancient-origins.net/history-ancient-traditions/ancient-mesopotamia-sex-among-gods-shook-heaven-and-earth-009950

Traduzido com o Google Tradutor.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Imagens e símbolos

Foi há muito tempo atrás quando eu li o livro de Roberto Sicuteri, “Lilith, a Lua Negra”. O livro foi publicado em 1998 [Editora Paz e Terra] e admito que me ajudou em minha jornada de volta para minha verdadeira casa, família e origem.

O livro é uma releitura do mito na linha de Carl Gustav Jung e Joseph Campbell. Mas mesmo assim se restringe essa análise nos limites da mitologia judaico-cristã. A referência que é usada no livro [Criaturas do deserto se encontrarão com hienas, e bodes selvagens balirão uns para os outros; ali também descansarão as criaturas noturnas e acharão para si locais de descanso - Isaías 34:14] foi “corrigida” [censurada/omitida] nas constantes revisões que os padres/pastores cristãos fazem em seu “texto sagrado”.

A capa do livro contém a figura de um ser antropomorfo, uma figura feminina alada, nua, portando uma coroa na cabeça (chifres), bastão e círculo em ambas as mãos, em pé sobre dois leões e ladeado por duas corujas. O interessante, na minha jornada, foi a busca pelo conceito original, pelo mito original, saber qual personagem está efetivamente representada no “Relevo de Burney” [https://en.wikipedia.org/wiki/Burney_Relief].

A interpretação sobre quem esta figura representa ainda é debatida, podendo ser Ereshkigal, Ishtar ou Lilitu [nome original, sumério, de Lilith].

A simbologia desse relevo possui diversos conceitos:

A figura encontra-se em pé sobre dois leões como símbolo de poder e soberania [leões são associados à majestade], podendo igualmente indicar essa figura como uma “mestra dos animais”, identificando seu domínio sobre a Fauna, senão sobre a própria natureza.

As “corujas” que a ladeiam assemelham ter outra função, parecem vigilantes. A coruja é um símbolo associado à Deusa Atena, mas aqui, a simbologia remete à natureza noturna da coruja. As formas das corujas, especialmente suas penas, aparentam serem “capas”, talvez disfarces e as cabeças podem muito bem serem máscaras. A semelhança das pernas das “corujas” com as pernas da figura sugerem algum tipo de identidade ou natureza comum.

A nudez, ao contrário do que o mundo ocidental interpreta [dominado pela teologia judaico-cristã que vê qualquer coisa associada ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo como algo errado, ruim e pecaminoso], aqui representa o estado de liberdade incondicional da figura, “ela” não conhece restrição, limite ou fronteira, representação reforçada pela presença de asas.

O bastão e o círculo que “ela” segura em ambas as mãos são símbolos muito frequentes na arte da mesopotâmia, usados como símbolos de poder e majestade. O círculo pode significar os limites do mundo, senão o mundo por si mesmo. O bastão é um símbolo associado à majestade até os dias de hoje. Então “ela” segura o mundo inteiro nas mãos e reina absoluta.

Aparentemente o artista, ao representar essa Deusa, não achou suficiente adornar repetidamente o quanto “ela” é poderosa e regente do mundo. A figura porta uma “coroa” que, olhando bem, é constituída de uma fileira de chifres. Igualmente presentes na arte da mesopotâmia, chifres são constantemente parte da representação dos Deuses, como símbolos de força, poder, supremacia, vitalidade e sexualidade. A título de comparação, o unicórnio é considerado uma criatura de poderes mágicos e possui um único chifre. Os Deuses contemporâneos dessa Deusa eram representados com dois chifres. Então se pode supor o tamanho do poder que “ela” tem pela quantidade de chifres em sua têmpora.

Lendo os mitos de Ishtar [e Inanna], além de sua completa falta de prurido em suas relações sexuais, ela sabe demonstrar seu outro lado. Quando Ishtar [Inanna] fica zangada ou entra em combate com os Deuses [seus pais, irmãos e filhos], o seu apetite na batalha é igual ao seu apetite na cama, ela somente para com o massacre quando seus [lindos] tornozelos estão cobertos de sangue.

Ainda enigmática, “ela” está bem longe de ser completamente compreendida pelos pagãos modernos, especialmente os seguidores da “religião da Deusa”, que frequentemente negam o aspecto sexual da Deusa enquanto Prostituta Sagrada e escondem seu terrível Lado Negro enquanto Destruidora.

Seja quem for “ela”, seja bem-vinda, Regina Mundi, na minha vida.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

O mito das tábuas

E deu a Moisés (quando acabou de falar com ele no monte Sinai) as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus”. [Êxodo 31:18]

Então disse o SENHOR a Moisés: Lavra duas tábuas de pedra, como as primeiras; e eu escreverei nas tábuas as mesmas palavras que estavam nas primeiras tábuas, que tu quebraste”. [Êxodo 34:1]

“According to the Hebrew Bible, the Tablets of the Law as they are widely known in English, or Tablets of Stone, Stone Tablets, or Tablets of Testimony ... were the two pieces of stone inscribed with the Ten Commandments when Moses ascended biblical Mount Sinai as written in the Book of Exodus”.[https://en.wikipedia.org/wiki/Tablets_of_Stone]

Não deve ser novidade ao leitor que a Mitologia Judaica não é original, o povo Hebreu assimilou ou copiou muito de seus vizinhos e a mitologia foi fortemente modificada depois da influência que a Cultura Judaica adquiriu após o domínio Assírio, Babilônico e Persa.

A Cultura dos Acadianos (Babilônicos) tem um forte componente, a Mitologia Babilônica possui origens semelhantes da Cultura Suméria. Dentro do grupo da Mitologia Mesopotâmica pode-se apontar o Mito das Tábuas do Destino e do Poder.

“In Mesopotamian mythology, the Tablet of Destinies ... was envisaged as a clay tablet inscribed with cuneiform writing, also impressed with cylinder seals, which, as a permanent legal document, conferred upon the god Enlil his supreme authority as ruler of the universe.

In the Sumerian poem Ninurta and the Turtle it is the god Enki, rather than Enlil, who holds the tablet. Both this poem and the Akkadian Anzû poem share concern of the theft of the tablet by the bird Imdugud (Sumerian) or Anzû (Akkadian). Supposedly, whoever possessed the tablet ruled the universe. In the Babylonian Enuma Elish, Tiamat bestows this tablet on Kingu and gives him command of her army. Marduk, the chosen champion of the gods, then fights and destroys Tiamat and her army. Marduk reclaims the Tablet of Destinies for himself, thereby strengthening his rule among the gods”.[https://en.wikipedia.org/wiki/Tablet_of_Destinies_(mythic_item)]

Vamos tentar organizar os mitos. Originalmente, as Tábuas do Destino pertencem a Tiamat, uma entidade primordial, representada na forma de uma serpente, ou dragão, consorte de Abzu/Apsu, ambos associados às Águas Primordiais [Caos]. Esses Deuses Primordiais procriavam profusamente e tiveram descendentes. Houve uma contenda entre esses Deuses, os novos quiseram tomar o poder dos antigos, dando origem às inúmeras mitologias de Deuses, semideuses e heróis que matam uma serpente ou um dragão, simbolizando o fim de uma era e o início de outra. A Mitologia Judaico-Cristã sobre a Tentação de Adão, no Jardim do Éden, pela Serpente, constitui um reflexo gritante.

Na Mitologia Suméria, as Tábuas do Destino eram chamadas de ME e a posse delas concedia ao seu portador (ou portadora) poder absoluto.

“In Sumerian mythology, a ME is one of the decrees of the divine that is foundational to those social institutions, religious practices, technologies, behaviors, mores, and human conditions that make civilization, as the Sumerians understood it, possible. They are fundamental to the Sumerian understanding of the relationship between humanity and the gods”.[https://en.wikipedia.org/wiki/Me_(mythology)]

A posse das tábuas é tão importante que a Mitologia Suméria tenta “explicar” a transmissão dos ME de Enki para Inanna. A “desculpa” esfarrapada é que Inanna embebedou Enki ou o seduziu. Os mitos antigos constituem um problema sério para a civilização ocidental dita culta, porque mostra entidades poderosas, mas promíscuas, sem limites, nem tabus. Os mitos antigos estão repletos de histórias de Deuses procriando com suas mães, irmãs, filhas, sobrinhas e netas. Constitui um embaraço para as “religiões da Deusa” que costumam ignorar a importância do casamento sagrado, o hierogamos, como bem atesta James Fraser, no livro “O Ramo Dourado”.

O poder de Inanna é tão temível quanto sua contraparte mais conhecida, Ishtar, cujo culto dominou o Oriente Médio por séculos, seguido pelo culto de Astarte e, mais tarde, o culto de Aset (Isis), disseminado pelo mundo conhecido graças ao domínio romano (que fizeram uma procissão para a Deusa Cibele). Um embaraço enorme para a leitura provinciana dos mitos antigos pelos pagãos modernos e esse conceito de uma Grande Deusa, repleta de compaixão, omitindo a Face Negra dessa Grande Deusa, expressa sem prurido em Inanna e Ishtar. Fica impossível de encaixar Inanna e Ishtar nessa teologia caiada, sem espaço para Deusas violentas, agressivas e sanguinárias, como Kali que engole seres vivos por inteiro.

A Mitologia Suméria fica confusa. As Tábuas do Destino ora estão em posse de Enlil, ora estão na posse de Enki. Pela árvore da família desses Deuses, Enki é descendente de Tiamat, mas ele envia Marduk, que combate e vence Kingu, o escolhido de Tiamat (a quem foi conferido as tábuas). Ecos desse embate mítico são vistos no combate de Zeus contra Thyphon, Apolo contra Python e na iconografia do monoteísmo abraãmico da “luta final” entre Deus e o Diabo.

O padrão, se eu posso dizer assim, é a troca de poder entre Deuses Antigos e novos Deuses que, ao tomar o poder, suprimem e demonizam os Deuses que os antecederam. Essa usurpação do poder, entretanto, não é pacificamente aceita. Da mesma forma como aparecem Deuses, semideuses e heróis que vão aparecer para “manter a ordem”, inúmeros espíritos, entidades, frequentemente identificadas como “representantes do Mal”, tentam devolver a coroa a quem de direito.

“The story of our poem, briefly sketched, runs as follows: Once upon a time there was a huluppu-tree, perhaps a willow; it was planted on the banks of the Euphrates; it was nurtured by the waters of the Euphrates. But the South Wind tore at it, root and crown, while the Euphrates flooded it with its waters. Inanna, queen of heaven, walking by, took the tree in her hand and brought it to Erech, the seat of her main sanctuary, and planted it in her holy garden. There she tended it most carefully. For when the tree grew big, she planned to make of its wood a chair for herself and a couch.

Years passed, the tree matured and grew big. But Inanna found herself unable to cut down the tree. For at its base the snake "who knows no charm" had built its nest. In its crown, the Zu-bird--a mythological creature which at times wrought mischief--had placed its young. In the middle Lilith, the maid of desolation, had built her house. And so poor Inanna, the light-hearted and ever joyful maid, shed bitter tears. And as the dawn broke and her brother, the sun-god Utu, arose from his sleeping chamber, she repeated to him tearfully all that had befallen her huluppu-tree”. [https://www.sacred-texts.com/ane/sum/sum07.htm]

A cultura ocidental não seria a mesma se seus meios de comunicação (sobretudo o cinema) não reforçassem e confirmassem esse conceito maniqueísta típico das religiões monoteístas. Filmes de terror dão uma boa amostra disso. A representação de personagens identificados com o “Mal” está associada à noite, à morte, aos feitiços, às maldições. Criou-se, inclusive, uma demonologia, com direito à hierarquia e relações de força e poder que podem ser manipuladas por fórmulas tal como são descritas nos famigerados “grimórios”. Estas criaturas e entidades não são nossas inimigas, elas estão simplesmente lutando para devolver a coroa a quem de direito. O verdadeiro inimigo, além de nós mesmos, é o Deus Usurpador, aqui no ocidente, chamado de Deus, a saber, o conceito Cristão de Deus.

Talvez esteja na hora de revisitarmos e reinterpretarmos a cena da Serpente no Éden. A legítima representante e herdeira dos Deuses Antigos não quer a ruína e destruição da Humanidade. A Serpente [ou Lúcifer] quer libertar a Humanidade de seu cativeiro. Afinal, por que Deus [o Bíblico] se sentiu tão ameaçado quando a Humanidade adquiriu o Conhecimento? Será que ali não está um mito antigo que foi distorcido pelas religiões dominantes? Será que ali não há uma cena de Iniciação dentro de um Culto de Mistério? Uma Iniciação que nos reconduziria à nossa verdadeira origem e propósito, como filhos e filhas dos Deuses.

Assim seja, assim é, assim será.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

O sexo na Idade Antiga

Os povos da Antiguidade eram consideravelmente permissivos em relação ao sexo — principalmente os helênicos. Ainda hoje existem preconceitos e tabus ligados à prática sexual, no entanto, isso parecia ser menos presente nas sociedades antigas.

Documentos desse período, que data desde 4000 a.C. ao século 5 d.C., revelam alguns fatos curiosos sobre as pessoas que viviam nessa época e como elas se relacionavam umas com as outras, ainda mais de forma íntima. As evidências também são importantes para mostrar como as sociedades grega, romana e egípcia lidavam com essas questões.

Em Roma, o sexo era tão incentivado que existiam leis que puniam tanto o celibato quanto pessoas que não tivessem filhos. Os casais com mais herdeiros, porém, eram privilegiados perante as autoridades romanas. Eles também chegaram a estudar mais afundo o corpo humano, tendo noção de algumas infecções sexualmente transmissíveis (IST), como a gonorreia, analisada pelo médico e filósofo romano Cláudio Galeno no século 2.

A prostituição também era regulamentada na região. As mulheres pagavam impostos, tinham a profissão registrada e quase sempre eram encontradas em baixo de arcos arquitetônicos nas cidades. Uma curiosidade é que a palavra “fornicação” vem da expressão em latim “fornice”, que designava arco.

Em relação à legislação, Roma tinha penas de morte para casos de adultério, somente se cometido pela esposa, incesto e ainda sexo entre uma mulher livre e um escravo. Em outro caso, quem fizesse sexo anal teria suas propriedades apreendidas.

O sexo era retratado em inúmeras pinturas, mosaicos e objetos comuns como lamparinas e até mesmo em moedas. Alguns historiadores acreditam que essas moedas, que mostravam uma posição sexual em uma face e um número na outra, eram fichas de bordel, e os números seriam responsáveis por hierarquizar as maneiras com que se realizava a ação.

Na Grécia, a relação com o sexo não era muito diferente. Nos dois lugares, a monogamia era quase que a regra entre os casais, por isso mesmo que os greco-romanos descobriram a necessidade do divórcio, o que passou a ser estabelecido nas leis oficiais. Outra característica em comum entre os dois lugares era a normalidade com que se tratava a masturbação, sendo considerada natural entre todas as pessoas.

Ainda em território grego, a homossexualidade era comum. Existiam lendas sobre a origem da sexualidade, especificamente no que diz respeito à relação entre homens adultos e jovens. Acreditava-se que Orfeu, poeta e músico da mitologia grega, apaixonou-se por um adolescente depois da morte de sua mulher. Uma lenda ainda trazia o romance entre Tamíris e Jacinto para falar sobre a homossexualidade.

Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/historia-como-pessoas-lidavam-com-o-sexo-na-idade-antiga.phtml

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

A pessoa "genderbread"

Eu havia traduzido na extinta Sociedade Zvezda um texto intitulado "The Genderbread Person", por causa do desafio de traduzir o termo e o conceito para o português. Em um rápido esforço de reconstrução, o termo "genderbread person" nos remete ao termo "gingerbread man", uma lenda que envolve um biscoito que ganha vida. O embrólio é mais difícil do que parece, pois a "tradução" para "ginger bread" é "pão de mel", o que perde a presença do gengibre, no original, ginger, na tradução.

O autor, Sam Killerman, descreve a pessoa "genderbread" dentro dos seguintes espectros: identidade de gênero, expressão de gênero, sexo anatômico, orientação sexual e preferência sexual.
Considerando que vivemos em um país extremamente conservador, dominado pela heteronormatividade cisgênera e influenciado pela trans/homofobia patrocinadas pelo televangelismo, eu creio ser interessante e importante citar esse artigo escrito pelo Sam:

"O gênero é uma construção social.

Mesmo se você adotar a postura determinista biológica mais extrema  (que muitas pessoas do "gênero não é uma construção social" adotam), você não pode negar o seguinte:

O que significa ser uma “mulher” ou “homem” muda com o tempo (muitas vezes dentro do período de uma geração - pergunte a seus avós se você não acredita em mim).

Além disso, agora, os traços associados a cada um desses papéis são diferentes em diferentes partes do mundo (assista a uma sitcom de outro país se você não acredita em mim).

Se nossa compreensão de gênero muda mais rápido do que nossa biologia poderia evoluir, e atualmente existe em muitas formas ao redor do mundo refletindo diferenças culturais, ela é construída socialmente. Fim da discussão. Isso é o que essas duas palavras, combinadas,  significam.

E o gênero é real.

Só porque algo é uma construção social não significa que não seja real (apesar de muitos colegas da “construção social” dizerem isso).

O famoso exemplo: dinheiro. Ninguém argumentaria que existe algum valor inerente ao papel; em vez disso, aceitamos a ideia de que é valioso. O dinheiro é uma construção social e é muito, muito real. É vida ou morte real (tente viver sem ele se você não acredita em mim). Idem para gênero.

O gênero é uma das poucas maneiras pelas quais ainda permitimos (na verdade,  encorajamos) a discriminação e a segregação sistêmica com base na identidade. É uma das maneiras fundamentais pelas quais somos ensinados a ver o mundo, e o mundo é ensinado a nos ver. Está infundido em nossos nomes e em como falamos sobre os outros.

Agora, é  baseado na biologia? Influenciado por? Completamente desvinculado de? Esse é um argumento diferente, e não podemos chegar até que paremos de confundi-lo com este".

Fonte: https://www.itspronouncedmetrosexual.com/2018/09/yes-gender-is-a-social-construction-no-that-doesnt-mean-its-not-real/
Traduzido com Google Tradutor.

Eu convido ao eventual e caro leitor a vasculhar esse blog em busca de artigos onde eu exploro os conceitos de sexo, gênero, identidade, orientação e preferência sexual. Eu tive a felicidade e a oportunidade, enquanto escrevia textos para a Sociedade Zvezda, de pesquisar e explorar as pessoas transgênero, eu aceitei o desafio, eu escrevi contos com pessoas transgênero e eu cheguei a me apaixonar por uma pessoa transgênero.

Esse é o assunto que suscita muitas reflexões, sobretudo quando eu aposto que, com o avanço da tecnologia, da medicina e do uso das impressoras 3D, será uma questão de quando órgãos serão reconstruídos, senão pessoas inteiras, algo que foi candidamente chamado de transhumanismo, mas eu penso que o termo é enganoso, pois aquilo que virá a ser considerado "humano" extrapolará e assimilará outros termos, como robô, ciborgue e androide.

Essa relação de amor e ódio entre humanos e "máquinas" está bem presente nos filmes. Mas mesmo assim nós buscamos fazer com que a tecnologia aproxime os robôs cada vez mais ao que é "ser humano". Inclusive quanto ao sexo e isso vai causar um overload nos cérebros dos conservadores e puritanos.

Dignos de nota são os filmes "Metrópolis" (1927), "Blade Runner" (1982), "Ghost in the Shell" (anime de 1995) e "Ex Machina" (2015). Desses exemplos, eu vou destacar o anime e a personagem "major Motoko Kusanagi". Fica inevitável ressaltar a espiritualidade inerente contida no anime, pois o "corpo cibernético" é comparado à uma "concha" onde é instalado um "programa", uma "memória", porque não dizer, "alma", o que me remete ao excelente seriado "Altered Carbon".

Mas Motoko é mais do que uma "memória humana" instalada em um cibercérebro de um "ser humano cibernético de prótese de corpo inteiro" (para seguirmos a definição da personagem). Seu "histórico" fala que essa persona existiu como ser humano carnal, sofreu um acidente e teve parte de seu cérebro original integrado ao cibercérebro (o que me remete à natureza dos supercomputadores Magi de Neon Genesis Evangelion). O "corpo cibernético" (a concha) em que seu "fantasma" habita é construído em toda estrutura, do endoesqueleto ao aspecto externo, não como se fossem partes sintéticas montadas, mas como se aquele "corpo" estivesse sendo criado "organicamente" ao nível da perfeição idealizada de como se concebe o "corpo" de um "ser humano" real.

O dilema que Motoko representa no anime é o mesmo dilema que nós enfrentamos diante do avanço da tecnologia (o que, infelizmente, não é acompanhado no avanço da sociedade e de nossa "humanidade"). Afinal, o que faz nós sermos nós? Se fossemos meros aglomerados de células, estruturadas conforme determinados conjuntos de organismos, não teríamos tantas diferenças nem identidade ou individualidade. Há "algo" dentro de nós, que não pode ser nem medido nem perceptível cientificamente.

A "existência" e "natureza" dúbias e incertas de Motoko são igualmente questões nossas, pois, segundo estudos, todos nós somos intersexuais. A "configuração" de nosso "sexo anatômico" não pode ser restrito a somente duas categorias de gênero, para seguirmos a definição do Sam Killerman. Não obstante, nosso meio social estipula a diferenciação das coisas conforme categorias, definidas arbitrariamente de acordo com a cultura e a época em que tal sociedade vive. A medicina oferece cirurgia de redesignação sexual exatamente com esse intuito. Pessoas transgênero enfrentam a rejeição social e todo o processo doloroso unicamente para que seu "corpo" fique adequado à sexualidade/gênero, tal qual esses conceitos estão definidos.

A "existência" e "natureza" de Motoko, a forma como seu "corpo" foram configurados são uma confirmação e corolário do exposto. Senão, qual sentido teria em conceder ao "corpo sintético" da Motoko as mesmas características sexuais secundárias de um "corpo humano feminino" se, teoricamente, ela não pode copular, conceber ou amamentar? Qual sentido existe, senão a da ótica machista patriarcal, de dar atributos de uma "mulher humana", como o aspecto feminino e sensual, para Motoko, senão o de satisfazer sexualmente (ainda que virtualmente) o público masculino? Existe a insinuação, no anime, de que Motoko tenta descobrir quem "ela" é, de como deve entender e interpretar sua "existência", "natureza" e "corpo", de como deve interagir com essas circunstâncias. Essas são as questões que devemos fazer a nós mesmos, se queremos devolver ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo, sua dimensão sagrada.