segunda-feira, 6 de julho de 2015

A limpeza cultural

Operários bolivianos retiraram o altar para rituais satânicos e oferendas a entidades andinas da estrada que liga as cidades de La Paz e El Alto, por onde o papa Francisco passará na visita que fará ao país na semana que vem.

A “Curva del Diablo”, que normalmente abriga dezenas de velas e outros elementos usados nos eventos, estava hoje como qualquer outra parte da rodovia. Homens da prefeitura de La Paz e da Administradora Boliviana de Estradas (ABC) limparam o lugar e colocaram algumas pequenas plantas onde antes ficava o altar improvisado.

Membros da “Waka Katari”, um grupo que promove rituais andinos no local, ajudaram nos trabalhos e suspenderam os rituais até o fim da visita do papa à Bolívia, explicou à Agência Efe uma das integrantes, identificada apenas como Adriana. Segundo ela, o lugar é, na realidade, uma “waka”, local considerado sagrado na cultura andina e “não possui energia negativa”, ao contrário do que pensam as pessoas.

Na última segunda-feira, o grupo fez um ritual para pedir permissão para organizar o lugar e os integrantes se organizaram em turnos para garantir que ninguém usará o local nos próximos dias.

“Pedimos que respeitem o lugar por dez dias para que não haja enfrentamentos, porque se a prefeitura ou a ABC fizessem sozinhas o trabalho certamente haveria enfrentamentos e mortes”, indicou.

O papa Francisco visitará a Bolívia entre os dias 8 e 10, como parte de uma viagem pela América do Sul, que também inclui o Equador e o Paraguai. O pontífice chegará a El Alto, situada a 4 mil metros acima do nível do mar, e de lá irá a La Paz, a 3.600 metros de altitude, passando pela estrada em um veículo descoberto.

Há algumas semanas, as autoridades anunciaram limpariam a “Curva del Diablo” por conta da chegada do papa. Porém há três anos, o governo derrubou um altar de cimento que existia no lugar, depois que um corpo foi encontrado nas proximidades e a polícia suspeitou que o caso tivesse relação com os rituais.

No começo deste ano, organizações em defesa dos animais denunciaram que alguns bichos, como coelhos, cachorros e gatos, estavam sendo sacrificados em cerimônias satânicas na “Curva del Diablo”. Muitos dos ritos dos grupos supostamente satânicos aparecem misturados as crenças dos povos indígenas sobre o sacrifício de animais, particularmente lhamas, dedicadas à Mãe Terra para pedir boas colheitas e prosperidade.

A integrante do “Waka Katari” negou que as cerimônias sejam satânicas ou que tenha a participação de animais. Segundo ela, eles promovem apenas ritos ancestrais andinos.

EFE

NB - Mesmo no século XXI, o Cristianismo continua com sua limpeza cultural, demonizando outras crenças e cultos.

domingo, 5 de julho de 2015

Os feitos e a natureza de Pan

Vários deuses e deusas poderosos da Grécia jamais se incluíram entre os Doze Olímpicos. Pã, por exemplo, um tipo humilde, agora morto, contentou-se em viver sobre a terra na Arcádia rural. Hades, Perséfone e Hécate sabiam que sua presença não era bem-vinda no Olimpo. A Mãe Terra, por sua vez, era demasiado velha e apegada a seus hábitos para se adaptar à vida familiar de seus netos e bisnetos.

Contam que Hermes concebeu Pã com Driopéia, filha de Dríope; ou com a ninfa Eneis; ou com Penélope, mulher de Odisseu, que ele visitou sob a forma de um carneiro; ou com a cabra Amaltéia. Diz-se que ele era tão feio quando nasceu, com chifres, barba, rabo e pés de bode, que sua mãe fugiu assustada e Hermes o levou ao Olimpo para divertir os deuses. Mas Pã era irmão adotivo de Zeus e, portanto, muito mais velho que Hermes ou Penélope, a qual, segundo outra versão, o teria concebido com todos os pretendentes que a cortejaram durante a ausência de Odisseu. Há também quem o considere filho de Cronos e Réia: ou de Zeus e Híbris, que é a explicação mais plausível.

Ele vivia na Arcádia, onde cuidava de seus rebanhos, manadas e colméias, participava das folias das ninfas montanhesas e ajudava os caçadores a encontrar sua presa. Em geral, era tranqüilo e preguiçoso. Nada lhe apetecia mais do que uma sesta vespertina, e vingava-se daqueles que vinham perturbar o seu sono lançando-lhes, de dentro de uma cova ou caverna, um grito repentino, de arrepiar os cabelos. Apesar disso, os árcades tinham tão pouco respeito por ele que quando voltavam de mãos vazias depois de um longo dia de caça, ousavam ataca-lo com cebolas.

Pã seduziu diversas ninfas, entre elas Eco, que lhe deu Iinx e teve um fim desgraçado por amar Narciso; e Eufeme, a nutriz das musas, que lhe deu Croto, o Arqueiro do Zodíaco. Ele também se gabava de ter copulado com todas as mênades bêbedas de Dionísio.

Uma vez tentou violar a casta Pítis, que escapou dele facilmente, metamorfoseando-se num abeto, cujo ramo passou a ser usado desde então por Pã como grinalda. Em outra ocasião, perseguiu a casta Siringe do monte Liceu até o rio Ládon, onde ela se transformou em junco. Não conseguindo distingui-la do resto, ele cortou vários juncos ao acaso e os transformou numa flauta de Pã. Seu maior êxito amoroso foi Selene, a quem seduziu cobrindo seus pelos pretos de pele de cabra com tosões brancos bem lavados. Sem dar-se conta de quem era ele de fato, Selene aceitou montar no seu lombo, permitindo-lhe desfrutar dela como bem entendesse.

Os deuses olímpicos utilizavam para seu próprio proveito os poderes de Pã, apesar de desprezarem sua simplicidade e seu gosto por escândalos. Apolo

obteve dele a arte da profecia, e Hermes copiou uma flauta que Pã deixara cair, dizendo-se seu inventor e vendendo-a a Apolo.

Pã é o único deus que morreu na nossa época. A notícia de sua morte chegou através de Tamo, marinheiro cujo barco ia rumo a Italia, fazendo escala na ilha de Paxi. Uma voz divina gritou do mar:

- Está aí, Tamo? Quando chegar a Palodes, trate de anunciar a morte do grande deus Pã! E assim fez Tamo. A notícia foi recebida desde a costa com gemidos e lamentos.

Pã, cujo nome deriva habitualmente depaein, “pastar”, representa o “demônio”, ou “homem de pé”, do culto árcade da fertilidade, que mantinha grande semelhança com o culto das bruxas do noroeste europeu. Esse homem, vestido com uma pele de cabra, era o amante eleito pelas menades bebedas durante suas orgias nas montanhas altas, privilégio que, mais cedo ou mais tarde, ele acabaria pagando com a própria morte.

Os relatos sobre o nascimento de Pã são muito variados. Levando-se em conta que Hermes era a força residente numa pedra fálica que constituía o centro dessas orgias, os pastores descreviam seu deus Pã como filho de Hermes com um pica-pau, cujas fortes batidas do bico supostamente pressagiavam a bem-vinda chuva estival. O mito de que ele tenha concebido Pã com Eneis é auto-explicativo, ainda que as mênades originais usassem outros estupefacientes além do vinho. O nome de sua famosa mãe Penélope (“a que tem uma rede sobre o rosto”) sugere que as mênades tinham! algum tipo de pintura de guerra para as orgias, recordando as listras da penelope, uma espécie de pato.

Plutarco diz (Sobre as demoras do castigo divino) que as mênades que mataram Orfeu tinham sido tatuadas por seus esposos como castigo. 

A visita feita por Hermes a Penélope sob a forma de carneiro — demônio carneiro é tão comum quanto a cabra no culto das bruxas do noroeste - e o fato de ela engravidar com todos os pretendentes, além da jactância de Pã de ter copulado com todas as mênades, aludem ao caráter promíscuo das orgias em homenagem à deusa-abeto Pítis ou Élate. Os montanheses árcades eram os habitantes mais primitivos da Grécia, e seus vizinhos, mais civilizados, manifestavam desprezo por eles.

O filho de Pã, o torcicolo, ou biguatinga, era uma ave migrante de primavera,

utilizada para encantamentos eróticos. As cebolas contêm uma substância tóxica irritante — muito efetiva contra camundongos e ritos - e eram usadas como purgante e diurético antes de se tomar parte num ato ritual, motivo pelo qual passaram a simbolizar a eliminação de más influências, e a imagem de Pã era açoitada com essas cebolas quando rareava a caça.

A sedução de Selene deve se referir a uma orgia do Dia de Maio sob a luz do luar, em que a jovem Rainha de Maio montava no lombo do seu homem de pé. antes de celebrar com ele um casamento silvestre. Nessa época, o culto do carneiro havia substituído o da cabra na Arcádia.

Ao que parece, o egípcio Tamo ouviu mal o lamento cerimonial Tbamus Pan-megas Tethnêce (“o todo-poderoso Tamus morreu!”) e entendeu: “Tamo, o grande Pã morreu!”. De qualquer modo, Plutarco, sacerdote de Delfos na segunda metade do século I a.e.c., assim acreditou e publicou, mas, quando Pausânias fez sua viagem pela Grécia, aproximadamente um século depois, encontrou santuários de Pã, altares, cavernas e montanhas sagradas dedicadas a ele, que ainda eram muito freqüentadas.

Autor: Robert Graves.

sábado, 4 de julho de 2015

Cultos sagrados da fertilidade, sexo e amor em Roma

Os Romanos, que gostavam de se dizer o mais “religioso” dos povos e que reconheciam e honravam divindades em número superior a qualquer outro [com exceção talvez dos hititas], não podiam deixar de ser sensíveis ao carácter sagrado deste instinto amoroso, capaz de transformar os seres, de arrancá-los a si mesmos e cujo poder, igualmente sentido pelos homens e por tudo o que vive, submete às suas leis toda a natureza. Não surpreende verificar que o amor tinha as suas divindades, os seus ritos, a sua magia. O culto que se prestava as primeiras, a observância religiosa de práticas cuja origem se perdia na noite dos tempos, tudo isso tinha por finalidade, umas vezes, desenvolver ao máximo ou exaltar as forças criadoras do ato de amor e controlar ou disciplinar o que nelas se descobria de anárquico e colocá-las ao serviço do bem da cidade.
A religião da época clássica, aquela que conhecemos melhor graças aos textos e a numerosos testemunhos de toda a espécie, não manteve muitas vezes senão vestígios, dificilmente detectáveis, destas crenças e destes ritos. Esta ou aquela prática de carácter mágico, nos tempos de Cícero ou de Augusto, já não era mais do que sequelas folclóricas e não teríamos conservado delas nenhuma lembrança se os “antiquários” de então, ávidos de recolher as coisas estranhas do tempo antigo, não lhes tivessem consagrado algumas linhas nas suas obras, que infelizmente, apenas nos chegaram a estado fragmentário. Frequentemente, também, os polemistas cristãos, em busca de argumentos para "provar" a "imoralidade ou o absurdo" da religião ancestral, transmitiram-nos cuidadosamente detalhes cujo carácter arcaico, às vezes mesmo primitivo, tendia a lançar o descrédito sobre a fé dos seus adversários.
Compreende-se que a partir destes pobres materiais seja difícil reconstituir um conjunto ordenado e perfeitamente compreensível, como, por exemplo, avaliar com precisão a importância de um rito específico ou devolver cada fragmento ao seu verdadeiro lugar, e arriscamo-nos, por isso, a graves erros de perspectiva. Apesar de todas estas dificuldades, o que podemos entrever desta “religião do amor" muito antiga não é em si mesmo desprovido de interesse, até porque, sobretudo em Roma, o passado tem no presente uma influência muito grande. Este passado remoto, mesmo se semiesquecido, está, apesar de tudo, presente, porque contribuiu para formar a sensibilidade romana e porque constituiu como que o núcleo em volta do qual se cristalizaram formas religiosas mais modernas, que sem ele não teriam sido o que foram.
Estes vestígios arcaicos, encontramo-los um pouco por toda a parte e as cerimônias de casamento não estão delas isentos. Encontramo-los também na religião oficial e na popular. Surge, sobretudo, nos cultos celebrados pelas mulheres, o que é natural, dado que, durante muito tem­po, as mulheres foram consideradas as depositárias por excelência da fecundidade, aquela metade da cidade a que era a atribuída à função de assegurar a sobrevivência e a permanência de toda a raça.
No cimo da Vélia, uma das colinas romanas ocupadas desde tempos mais remotos, havia um santuário singular, cuja “divindade” era repre­sentada na forma de membro viril. Este deus tinha o nome estranho de Mutunus Tutunus. Conhecemo-lo apenas por um fragmento do gramático Festo e quatro ou cinco alusões de Tertuliano, Santo Agostinho, Amóbio e Lactâncio, e o que nos dizem está longe de ser claro. Parece que até ao tempo de Augusto, pelo menos, mulheres “vestidas com a toga pretexta” iam, em certas ocasiões, coroar de flores o símbolo de Mutunus Tutunus. Quem eram estas mulheres? Provavelmente sacerdotisas, como o seu fato arcaico parece indicar, e, sem dúvida, mulheres casadas, que realizavam ali um rito provavelmente propiciatório, em nome de todas as esposas da cidade.
Mas Mutunus Tutunus não se encontrava apenas no santuário da Vélia. Tinha o seu lugar também, segundo nos é dito, no quarto de dor­mir dos simples particulares e, no dia do seu casamento, as recém-casadas deviam sentar-se sobre a sua imagem, como para consagrar ao deus as primícias da sua virgindade. Infelizmente, não sabemos se esta prática era geral ou se se tratava de um costume “do tempo antigo”, a que mais nenhum jovem marido teria ousado submeter a sua noiva. É possível que este gesto seja o último vestígio de um rito destinado a preservar o marido do perigo mágico que a desfloração da sua mulher lhe teria feito correr. Abundam os testemunhos de tais crenças na virtude maléfica da virgindade: os etnólogos encontram-nas em muitas “sociedades primitivas” e conhecem-se exemplos de substituições da pessoa, ritualmente realizadas, durante a primeira noite do casamento.
Na verdade, existem outros vestígios de um culto do falo. Mutunus Tutunus não está completamente isolado na mais antiga religião romana. Por exemplo, as Vestais, as sacerdotisas virgens que tinham à sua guarda os “penates” do povo romano, misteriosos fetiches que eram crime olhar, envolviam também de veneração a imagem de um sexo masculino colocada no santuário que tinham a seu cargo, tendo-se pensado que esta imagem correspondia, no lar da cidade, à do Genius que era honrado em cada lar doméstico e simbolizava a capacidade fecundadora do senhor da casa. A favor desta aproximação, é invocada uma velha lenda, muito singular, que fazia parte do “ciclo” do rei Sérvio Túlio.
Contava-se que no palácio de Tarquínio, o Antigo, uma serva chama­ da Ocrísia unira-se a um falo, que surgira misteriosamente na cinza do lar, e que desta união tinha nascido Sérvio Túlio. Esta lenda, de que Tito Lívio não fala, sem dúvida devido ao seu carácter estranho, contrário aos bons costumes do seu tempo, conserva, muito provavelmente, a lembrança de um tempo em que pelo menos um dos demônios do lar doméstico simbolizava a virilidade.
Durante muito tempo, manteve-se entre o povo, sobretudo no campo, a crença em um poder mágico do falo, falo a que se chamava fascinus. A sua imagem encontra-se ainda, ameaçadora, sobre a entrada de algumas casas, em Pompeia. Tem aí, evidentemente, a função de proteger a residência do “mau olhado”. Nos campos, os camponeses erguiam-no como salvaguarda das colheitas e até sobre o carro dos triunfadores o mesmo símbolo confirmava idêntica fé na virtude benéfica de um órgão que surgia como o “lugar da vida” por excelência. O falo era o talismã mais eficaz contra todas as potências maléficas, os malefícios e tudo o que impedia ou contrariava o crescimento e o desenvolvimento felizes dos seres: homens, animais e plantas. A sua imagem não despertava qual­quer vergonha, o que não impedia que cada um tivesse pudor pelo seu corpo: embora os homens, no banho, não tivessem nenhum embaraço em se despir na sauna comum, faziam-no apenas na presença de estranhos. Mas o pai evitava banhar-se diante dos filhos e dos maridos das filhas e as palavras indecorosas eram ouvidas, desde sempre, com embaraço quando em companhia de respeito. Contudo, o costume requeria que os talismãs fálicos fossem usados livremente e expostos aos olhos de todos e não há dúvida que o hábito evitava que se escandalizassem com eles.

Mas o fascinus não possuía apenas este valor apotropaico1, em certa medida negativo. Era objeto, junto dos camponeses, de um verdadeiro culto, associado à religião de Liber Pater, que era, de início, essencialmente, o deus da germinação, “o que assegura o nascimento e o crescimento”. Parece mesmo que o falo simbolizou o próprio deus nas festas rústicas, de que Santo Agostinho nos deixou a descrição. “Este membro vergonhoso, nos dias em que se festejava Liber”, diz-nos Agostinho, “era colocado com grande pompa sobre um carro e passeado, em pri­meiro lugar, no campo, de encruzilhada em encruzilhada, depois até na própria cidade. Na cidade de Lavínio, era consagrado um mês inteiro a Liber e durante este mês todos os dias, cada um empregava a linguagem mais obscena, até que o falo fosse levado através do fórum, em procissão solene, e depositado no seu santuário. Sobre este membro vergonhoso, uma mãe de família, das mais respeitadas, devia depositar publicamente uma coroa. Era, aparentemente, a maneira de se tomar o deus Liber favorável ao feliz sucesso das sementeiras e de afastar dos campos o mau olhado”.
Liber, que, de início, era deus de toda a geração, tinha-se especializado progressivamente. Assimilado desde cedo ao Dioniso dos Gre­gos (no culto e nos mistérios do qual também intervinham os símbolos fálicos), tinha-se tomado, na religião formalista e disciplinada da Roma republicana, o protetor das vinhas e dos pomares. Mas, recordação dos velhos tempos, era no dia da sua festa, a 17 de Março, que os jovens vestiam a toga viril, tomando-se assim capazes, por sua vez, de fundar uma família e entrando na classe dos patres. No campo, as formas arcai­cas do culto de Liber mantiveram-se vivas durante muito mais tempo. Virgílio conta-nos ainda que, no seu tempo, os camponeses, na Liberalia, juntavam-se sobre a relva para beber, cantar, dançar e dizer uns aos ou­tros dichotes bastante livres. Para eles, como para os burgueses de Lavínio, de que nos fala Santo Agostinho, a obscenidade da linguagem tem um valor ritual, uma eficácia mágica capaz de estimular a natureza e de ajudar no cumprimento do mistério da vegetação. Estes ditos que se troca­vam deram origem a fórmulas quase rituais, ritmadas, que tomaram o nome de “versos fesceninos” e que os espectadores, à passagem de um cortejo nupcial ou de uma procissão triunfal, lançavam aos participan­tes. Nestas ocasiões solenes, a decência dos ditos não era adequada: a obscenidade das palavras fazia parte do rito. Como o próprio fascinus, afastava a desgraça e, ao mesmo tempo, estimulava a fecundidade do casal e aumentava a eficácia das potências misteriosas de que dependia o sucesso da cerimônia.
Quando, no fim do século III A.C., se expandiu na Itália a religião dionisíaca e foram organizados, um pouco por toda a parte, colégios de bacantes para celebrar os mistérios do deus grego, foram muitos os habi­tantes dos campos a dedicar-se a práticas em que reconheciam costumes análogos aos seus. Aliás, o “flagelo” (era assim que os senadores roma­nos consideravam uma religião tão contrária à disciplina ancestral) pagou-se através da Itália com uma rapidez muito grande. Dioniso prometia aos seus devotos, não só a felicidade neste mundo, mas a esperança da salvação depois da morte. Misticismo e sensualidade constituíam uma dupla e poderosa atração para estes camponeses, que sempre sen­tiram, de modo confuso, que o mistério da geração tinha carácter divino. Não só os sacerdotes do novo deus não lhes pediam para renunciar aos seus próprios ritos, mas traziam-lhes uma revelação que iluminava estes e acrescentava ao seu próprio instinto prolongamentos místicos.
Temos muito poucas informações sobre o que se passava realmente nestas “células” dionisíacas. Há relatos de que os devotos dos dois sexos se entregavam a orgias, o que é bem provável, mas também que iam até ao crime e que não eram raros os sacrifícios humanos, calúnia de que foram alvo muitas das novas religiões. Seja como for, desencadeou-se um escândalo em 186 A.C. e toda a Itália ficou abalada.
As bacanais tinham chegado a Roma. Celebravam-se os seus ritos ao pé do Aventino, no bosque sagrado da velha divindade romana Stimula, e podia ver-se, durante a noite, as bacantes correr, despenteadas, até ao rio, levando tochas que mergulhavam na água e reemergiam acesas. Eis, porém, que uma mulher vem fazer ao cônsul terríveis revelações: era uma cortesã chamada Hispalis Fecênia. Conta ela que o seu jovem amante. Ebúcio, se encontra num grande perigo. A mãe de Ebúcio, casada em segundas núpcias, deseja ver-se livre dele e planeja fazê-lo assassinar pelos sectários de Dioniso, no decurso de uma noite de orgia sagrada. A própria Fecênia sabe do perigo, porque já fora também iniciada. Suplica aos magistrados que tomem as medidas necessárias para salvar um ino­cente. De imediato, o Senado reúne-se, os dois jovens são colocados sob a proteção da polícia e é aberto um inquérito. Recebem-se e provocam-se denúncias. Os sacerdotes de Dioniso são imediatamente presos, todas as reuniões noturnas são proibidas e todos os sectários do deus que não se apresentarem às autoridades em um determinado prazo serão consi­derados, de imediato, fora da lei. Começam logo os processos sumários, seguidos de execuções. Em breve, reina em Roma e nas cidades italianas um verdadeiro terror. O decreto do Senado foi enviado a toda a parte. Temos a sorte de possuir uma cópia, gravada, na época, sobre uma mesa de bronze. Dali para o futuro, era proibido celebrar bacanais. No entanto, os senadores, para não correrem o risco de suprimir práticas tradicio­nais e legítimas, permitiam exceções, mas em nenhum caso poderiam participar na cerimônia mais de cinco pessoas (dois homens e três mu­lheres), já não poderiam estabelecer vínculos mediante juramento (como se fazia, até então, nos colégios de bacantes) nem possuir caixa comum ou formar entre si uma hierarquia e até esta forma reduzida de culto ficava sujeita, sem exceção, a uma autorização prévia do Senado.
Podemos perceber através dos termos do decreto que o assunto não foi menos político que religioso. Manifestamente, temia-se a formação de uma espécie de sociedade secreta, uma confraria que estendesse por toda a parte as suas ramificações, escapando ao controle dos magistrados e capaz de despertar o fanatismo religioso do mundo dos campos. O culto de Dioniso subsistiu, mas serenado e destituído dos seus excessos orgíacos. Por isso, assumiu um carácter mais espiritual e também mais intimista: a supressão de todo o clero reduzia-o a não ser mais do que uma devoção pessoal. Gradualmente, o deus proscrito pelo senátus-consulto de 186 recuperou os seu fiéis, mas estes, desta vez, já não eram pessoas comuns: a elite romana, seduzida pelo misticismo dionisíaco, que, no Oriente, tinha estatuto de religião oficial, acolheu de bom grado as suas imagens e os seus mitos. A partir do início do Império, Dioniso está presente em toda a parte. As suas estátuas e as dos seus companhei­ros erguem-se nos jardins, onde simbolizam as forças férteis da natureza. Os muros das residências particulares, nomeadamente em Pompeia, mostram cenas da sua lenda. Os famosos frescos da Vila dos Mistérios reproduzem, sem dúvida, o desenrolar de uma iniciação às suas cerimônias, reveladoras do segredo do amor e da vida.
Contudo, um dos companheiros de Baco, o deus Priapo, tinha escapado à proscrição. Este deus, originário de Lâmpsaco, na Ásia Menor, também era um demônio da fecundidade, como se pode verificar pela sua imagem, caracterizada por um enorme falo. Os camponeses italia­nos tinham-no escolhido para proteger os seus campos e as suas vinhas, onde substituía o anterior fascinus. Cada jardim tinha o seu Priapo, talhado à poda em um tronco de árvore. Pintado com vermelhão, tinha por função afastar os malefícios, mas também servir de espantalho contra os pássaros e, eventualmente, de moca, nas mãos do jardineiro, para punir os ladrões. Nos jardins, este deus obsceno raramente era tomado a sério e as homenagens que lhe eram dirigidas estavam, em geral, eivadas de ironia. Contudo, constatamos que Priapo, apesar dos seus ridículos, era por vezes objeto de um culto quase místico. Daí que se encontre junto dos túmulos, onde a sua presença é testemunho da crença em um renascimento para além da morte. “Priapo, lugar da vida e da morte”, diz-nos uma inscrição, e isto não é fantasia de algum devoto, mas uma convicção muito propagada de que a morte e a vida são apenas dois aspectos solidários de uma mesma realidade. Esta era já a doutrina afirmada por Sócrates no Fédon e que tem a sua origem em crenças profundamente enraizadas na terra grega. Não é raro verificar que tam­bém em Roma os demônios da vida exercem o seu império sobre a morte. Por isso, a religião popular reconhece instintivamente esta ligação do amor e da morte, que assombrará muitos poetas, quer em outros tempos, quer na própria Roma.
Esta religião da virilidade, tão essencial, tão viva, não é a única manifestação dos sentimentos de respeito e de temor dos Romanos para com o mistério da vida. A vida sexual feminina tinha também os seus demônios, que a mantinham na sua dependência: ao Genius do pai da família fazia contraponto a Juno da mãe, cujo culto está menos bem documentado, no lar doméstico, do que o do Genius, mas de que se crê, no entanto, ver a imagem em uma das duas serpentes que são represen­tadas muitas vezes, em Pompeia, junto do altar de cada casa, por exem­plo. Em contrapartida, enquanto o Genius nunca foi assimilado a nenhum dos grandes deuses, a Juno de cada matrona fica, em certa medida, absorvida pela deusa que tem o mesmo nome e que é a companheira de Júpiter. Tudo se passa como se a religião oficial tivesse tido a preocupa­ção de controlar, de integrar, o culto da feminilidade individual das "mães”, deixando fora dela o da fecundidade viril. Havia festas específi­cas das matronas, por exemplo, as Matronalia de 1º de Março, celebradas coletivamente pelas mulheres casadas. Outras, como as de 7 de Julho, as “nonas caprotinas”, evidenciavam características arcaicas, o que mostra a sua antiguidade: a figueira e a cabra tinha nelas um papel importante e vislumbramos nestes ritos, que incluíam combates simulados e disfarces (as servas envergavam os vestidos das suas senhoras), uma antiga magia da lactação, sem dúvida destinada a estimular esta função nas mães e, ao mesmo tempo, a proteger estas contra os seus perigos, substituindo-as por outras mulheres de menor “valor”, durante o período perigoso.
Todos os anos, a casa do cônsul era palco de uma festa singular, em que só participavam as mulheres casadas, na presença das vestais. A divindade que se honrava neste dia (no início de Dezembro) tinha o nome de Bona Déa, “a boa deusa”. Era um epíteto ritual que dissimulava o verdadeiro nome, que nos é desconhecido. Aos homens era proibido assistir a ela, sob pena das mais graves sanções, e era interdito também, durante esta festa, introduzir na casa o menor ramo de murta, bem como pronunciar a palavra “vinho”. O vinho que se utilizava nas libações do sacrifício era chamado “leite” e os vasos que o continham eram chama­dos “potes de mel”.
Para explicar estas práticas estranhas, contava-se que a boa deusa desposara o deus Fauno e que este, para puni-la por ter bebido vinho secretamente, lhe batera de maneira tão brutal com varas de murta que a tinha morto. Na verdade, os “tabus” que caracterizam o culto da Bona Déa podem ser explicados, se nos recordarmos que beber vinho era ori­ginalmente interdito às mulheres [e continuou a sê-lo até a uma época relativamente tardia] e, por outro lado, que a murta é a planta favorita de Vênus, a deusa do amor. A Bona Déa simbolizava as virtudes que se esperava das matronas e de que tanto o vinho como Vênus podiam desviá-las, segundo se pensava. A cidade desejava, por certo, estimular a fecundidade feminina nas “mães” e assegurar-lhes a proteção de divin­dades prestáveis, mas não deixava de sentir alguma apreensão face à possibilidade de estas mesmas divindades inspirarem às suas devotas o desejo de usar desregradamente os poderes que se queria exaltar.
Roma parece ter estado sempre colocada entre dois perigos: por um lado, o de ver secar nela as fontes da vida, se negligenciasse os cultos da fecundidade, e, por outro, o de provocar acessos de fanatismo e desor­dens não menos graves para a cidade, por praticar estes mesmos cultos, o que não lhe inspirava menor temor. A reação timorata dos senadores durante o escândalo das bacanais não foi caso único. A história de outra deusa, Vênus, patrona dos amores, é muito instrutiva a esse respeito.
Vênus acolheu muito cedo os traços da Afrodite grega, mas a mais antiga Vênus parece ter sido muito diferente da “moça das vagas e do céu” que surgiu, no mundo grego, de uma síntese complexa em que pre­dominam os contributos asiáticos. Na verdade, os historiadores moder­nos da religião romana não estão de acordo sobre a sua natureza nem sequer sobre a sua função primitiva. Durante muito tempo, admitiram que Vênus tivesse começado por ser uma camponesa, uma divindade rústica que personificaria o “encanto” da Primavera e dos pomares em flor e que reinava, designadamente, nas hortas. Depois, segundo afirmavam, os fiéis desta Vênus campestre teriam atingido uma concepção mais elevada, vendo nela uma das forças primordiais da natureza, cujo poder os seres humanos suportam, por vezes, com dureza. Mas hoje há consenso na rejeição desta teoria.
No fundo, é muito pouco natural pensar que o culto de Vênus tenha procedido de uma religião da fecundidade em geral e não se tenha relacio­nado com o amor “humano”, senão no termo de um longo percurso. Não se deve antes pensar que a evolução da deusa aconteceu em sentido imerso que partiu do humano e se estendeu, progressivamente, a tudo o que vive? O poder do amor não será imediatamente perceptível ao homem no seu próprio coração, no latejar das suas artérias? E a tendência espontânea do espírito não será, precisamente, projetar para fora de si as descobertas da sua própria experiência? Reconhecer "Vênus” no mundo é tê-la já sentido em si mesmo.
Outra explicação da Vênus romana foi recentemente proposta. A deusa, segundo ela, teria sido, em primeiro lugar, não um demônio da fecundidade, mas a personificação de uma realidade espiritual muitíssimo mais sutil: o poder mágico da eficácia da oração, que é o único a ter capacidade para atrair sobre os homens a benção e a graça dos deuses. Na sua origem, Vênus teria sido a mediadora universal, a meio caminho entre o humano e o divino, aquela que atrai, em benefício dos seus fiéis, as força vivificantes do sobrenatural.
Esta hipótese é muito engenhosa e pode invocar bons argumentos a seu favor, mas ilude qualquer demonstração rigorosa, devido ao seu caráter abstrato. Por outro lado, não podemos deixar de pensar que os mais remotos antepassados do povo romano, que eram tão bem dotados quanto possamos imaginar para as especulações teológicas mais sutis, terão divinizado espontaneamente o poder que preside à união dos seios. Como divinizaram a luz do dia e o poder inebriante do vinho. Mas, na verdade, o problema não se coloca nos mesmos termos. Importa-nos muito pouco definir qual foi, no seu princípio, a função essencial da Vênus mais antiga, uma vez que, tão longe quanto possamos remontar na história de Roma, encontramo-la investida de uma missão muito defi­nida, a de presidir às relações amorosas.
Esta personalidade da deusa “histórica” ganhou forma, provavelmente na própria Itália. Desde o século VII A.C., Vênus possuía em Lavínio um santuário de que se dizia que o fundador não teria sido outro senão Eneias. Em Lavínio, a Vênus latina - qualquer que fosse exatamente a sua verdadeira natureza - sofreu a influência da Afrodite grega. Esta tinha sido introduzida na Itália pelos colonos gregos da Campânia e tam­bém pelos conquistadores etruscos instalados no Lácio. Todos os Latinos vinham em peregrinação ao santuário de Lavínio prestar culto ofici­al à deusa e foi de lá que foi trazida para Roma, embora com precauções e reticências.
Para os Romanos, de fato, Vênus personifica a sedução feminina, o que, indubitavelmente, já personificava em Lavínio. Simboliza o poder misterioso, religioso e mágico que a pessoa e o corpo da mulher encerram. Era uma das divindades mais inquietantes e não podemos de modo nenhum surpreender-nos que a Roma puritana e conservadora dos primeiros tempos não lhe tenha dedicado, durante um longo período, nenhum templo. Preocupados em salvaguardar a ordem e os bons costumes, os patrícios, que detinham, na prática, a totalidade dos poderes, olhavam com suspeita para esta deusa anárquica, geradora de perturbação e de paixão. Todavia [como se vê mais tarde no escândalo das Bacanais], eram também demasiado sensíveis a todas as formas do di­vino para não reconhecerem a necessidade de prestar a Vênus as honras de que não a podiam privar sem com isso fazerem correr grandes riscos a toda a cidade.
Não sabemos exatamente como foi, na cidade, este primeiro culto a Vênus. Surgiu um primeiro nome, bastante estranho. Alguns testemunhos, relativamente tardios, asseguram-nos que Vênus, desde uma época muito recuada, foi honrada no Capitólio, onde tinha sido erguido um santuário à Vênus calva. Quem era esta singular deusa? A lenda fornece duas explicações inconciliáveis acerca do nome. Contava-se, por vezes, que, durante o cerco de Roma pelos Gauleses, as matronas, fechadas no Capitólio com os defensores da cidadela e alguns refugiados, teriam cortado espontaneamente os seus cabelos para fabricar os cabos e as cordas necessários às máquinas de guerra. Para recordar esta devoção, o Estado, após a vitória, teria dedicado uma estátua à Vênus Calva, a fim de testemunhar que as mulheres, tendo cortado o cabelo, não tinham perdido nada do seu poder de sedução! É uma galanteria anacrônica, pouco de acordo com os costumes romanos do século IV A.C. Para além disso, é bem provável que os defensores do Capitólio não dispusessem de má­quinas de guerra e não tivessem utilidade a dar às cabeleiras femininas.
A outra explicação faz remontar a origem da Vênus calva a um período ainda mais afastado. Era, diz-se, no tempo do rei Anco Márcio. As mulheres romanas e a própria rainha, tinham sido atingidas por uma estranha doença que lhes fazia cair os cabelos. O rei, para consolar a rainha, fez-lhe uma estátua, representando-a no estado em que a doença a tinha deixado. E eis que se produziu um milagre: mal a estátua ficou instalada, os cabelos das senhoras cresceram mais bonitos do que nunca. Gratos, os Romanos dedicaram um culto à Vênus calva, que assim tinha manifestado o seu poder.
Os historiadores modernos, bastante céticos, asseguram que a deusa nunca existiu, que é apenas uma invenção de antiquário e que não se deve ter em consideração. Talvez este ceticismo radical não seja justificado. É possível, decerto, que a Vênus Calva não tenha sido senão uma estátua de mulher muito antiga, privada pela erosão do tempo de uma parte dos seus atributos e ornamentos primitivos e que o povo se tenha habituado a dar-lhe este apelido. É possível também (hipótese e, de fato, inverificável) que os Romanos, desejosos de honrar Vênus, mas, ao mesmo tempo, desejosos de destituí-la de uma parte do seu poder mágico, tenham imaginado representá-la desprovida de cabeleira, quer dizer, de um dos atributos mais característicos da feminilidade. Era uma tentativa para “domesticar" uma força perigosa e seria o primeiro exem­plo, ainda cheio de ingenuidade, de uma política que, muito em breve, irá ser posta em prática.
Vênus é perigosa e os magistrados encarregados de fiscalizar a religião oficial estão disso intimamente convencidos. O primeiro templo que lhe é dedicado na cidade, no início do século III A.C., exatamente em 295, foi para impedir a cólera da deusa. Nesse ano, o filho do cônsul, Q. Fábio Gúrgite, decidiu construir um templo dedicado a Vênus, no vale do Grande Circo, e atribuiu para tal empreendimento o produto das multas cobradas à senhoras da alta sociedade que tivessem sido declaradas culpadas de stuprum, isto é, de comércio carnal ilegítimo (não de adultério, em que a punição seria a morte), ou seja, viúvas que tivessem comprometido a sua honra e filhas jovens de famílias ricas (as “filhas de família”), cuja má conduta, por alguma razão, não tivesse sido punida no interior da gens. Aparentemente, os escândalos eram em grande número, pois as somas recolhidas foram suficientes para edificar um monumento público. Fábio Gúrgite designou o novo santuário com o termo Vênus obsequens, expressão que os modernos traduzem, umas vezes, por “Vênus Complacente” e, outras vezes, mais verossimilmente, por "Vênus Obediente”. É muito tentador supor [embora dificilmente possa ser sequer uma hipótese] que esta consagração teve lugar para propiciar a deusa, evitando que continuasse a incitar as senhoras da aristocracia a praticar atos imorais, porque uma das vinganças mais comuns de Vênus sempre fora a de inspirar desejos culposos aos mortais (sobretudo às mulheres) que não lhe expressassem um culto suficientemente devoto ou que a tivessem ofendido de alguma maneira. Ao instalar oficialmente Vênus na cidade e, para além disso, aplicando-lhe um epíteto cultual de bom augúrio, alimentava-se a esperança de aplacar a sua cólera e que, no futuro, se contentasse em favorecer os amores legítimos.
Mas as divindades têm, muitas vezes, uma grande obstinação e escarnecem dos obstáculos que os homens lhes levantam. Durante a Segunda Guerra Púnica, quando Roma se viu na iminência da derrota, tornou-se evidente que não podiam deixar durante muito mais tempo numa situação menor a deusa que aparecia, cada vez mais, como a “mãe” dos Romanos. Entre outras medidas religiosas excepcionais que então foram decretadas, os senadores decidiram chamar a Roma a Vênus do Monte Erice. Tinham tido provas da eficácia da sua proteção durante a Primeira Guerra Púnica. O Monte Érice, onde tinha o seu templo, foi a sua principal base de operações contra os Cartagineses e foi à deusa, pensavam os Romanos, que ficaram a dever em grande parte a sua vitória. Por que não tentar recorrer a ela mais uma vez?
Todavia, esta Vênus era, evidentemente, uma deusa de origem oriental e o seu culto incluía ritos que repugnavam à consciência romana. O templo do Monte Érice era servido por hieródulas, escravas da deusa que se entregavam à prostituição. Os sacerdotes asseguravam também que a deusa realizasse milagres todos os dias: o altar ao ar livre, diante o templo, ficava coberto de orvalho e ervas novas, a cada manhã, por intervenção sobrenatural. Os vestígios dos sacrifícios oferecidos na véspera desapareciam sem que mão humana alguma se tivesse preocupado em eliminá-los. Acreditava-se que todos os anos a deusa deixava o templo do Monte Érice para se dirigir a África, acompanhada dos seus pássaros sagrados, as pombas, que volteavam sempre em grande número em redor do santuário. Passados nove dias, regressava com um bando de pás­saros e havia então grandes festas por toda a Sicília.
Introduzir tal divindade em Roma, dar-lhe direito de cidadania, era uma decisão grave, diante da qual o Senado sempre recuara, por grande que fosse a dívida de reconhecimento da República para com esta deusa turbulenta, patrona dos maus lugares e que perturbava os corações. Mas, perante a iminência do perigo, foi abandonada toda a hesitação. Só se queria ver nela a “mãe” de Eneias e, para sua maior honra, foi instalada no Capitólio, na colina sagrada onde reinava o grande deus do império, um Júpiter muito bom e muito grande.
Outra razão contribuiu, provavelmente, para favorecer a introdução do novo culto. Na tradição romana, Vênus passava por ser a compa­nheira do deus Marte, aquele, precisamente, cujo socorro, durante as primeiras batalhas da guerra, tinha faltado aos exércitos. A homenagem prestada à sua “amiga” não poderia deixar de impressionar o senhor das armas e isso é tão verdadeiro que a medida que recomendava a adoção da Vênus Ericina incluía um voto solene a Marte.
Contudo, a deusa do Monte Erice continuava a ser encarada com suspeita e é bem característico do espírito romano que se tenha colocado ao lado da tumultuosa siciliana, no Capitólio, um templo consagrado a Mens, ou seja, à razão, à inteligência lúcida, da qual a cidade tanto carecia para fazer face ao perigo. Parece que o Senado, preocupado com o equilíbrio da sua política religiosa, quis justapor no Capitólio, para onde se voltavam então todos os olhares, dois aspectos antitéticos e complementares do sagrado. O que havia de orgíaco no culto da siciliana, esse delírio que tinha o poder de desencadear nos corações, teria o seu antídoto na religião muito intelectual de Mens. Com sabedoria, os Pais não esquecem que múltiplas são as potências que partilham a alma dos ho­mens e que é na multiplicação das divindades, e não numa mutilação ruinosa, que se encontrará o segredo da harmonia.
Não era menos verdade que Vênus Ericina introduzia em Roma, apesar de todas as precauções, a deusa do amor passional, o que era reconhecê-la oficialmente e quase legalizá-la à custa da moral tradicional.
Por isso, vemos surgir muito rapidamente como antídoto o culto de outra Vênus, mais conforme ao que se espera de uma Vênus roma­na. Logo que as derrotas sofridas por Aníbal tornaram o invasor menos temível, o Senado decidiu consagrar uma estátua a uma nova Vênus, a que chamaram Verticordia, ou seja, “a que muda os corações”, ou antes, os “desvia” das paixões perigosas. Na intenção dos Pais, esta estátua devia “afastar do deboche o espírito das virgens e das mulheres casadas e incutir-lhes o sentido das conveniências”, de que muitas, aparentemente, se afastavam, devido à licença que o abrandamento da tensão moral, imposto pela guerra interminável, ocasionava. Para consagrar esta está­tua (talvez mesmo, mais provavelmente, para lhe serem copiados os traços), escolheram certa Sulpícia, mulher do senador Q. Fúlvio Flaco, que foi designada depois de um verdadeiro concurso de virtude. Os senadores escolheram para tal o nome de cem senhoras da aristocracia cuja reputação era impoluta. Entre estes cem nomes, dez foram tirados ao acaso e foram ponderados com cuidado os méritos de cada uma das laureadas. Finalmente, o juízo de todos voltou-se para Sulpícia, que se tornou, no entender do povo, o símbolo de todas as virtudes exemplares. Menos de cem anos depois, em 114 A.C., um escândalo sem prece­dentes veio perturbar as consciências. Três vestais, infiéis ao seu voto, foram consideradas culpadas de incesto e, de acordo com o costume, condenadas a ser enterradas vivas. Um acontecimento como este era sem­pre considerado um presságio sinistro. Para desviar os seus efeitos, foi decidido aumentar as honras devidas a Vênus verticordia, cuja proteção se tinha revelado manifestamente insuficiente. Construíram-lhe um templo segundo todas as regras. Este templo, de que ignoramos o lugar exato, foi consagrado no dia 1 Abril, o dia das calendas, que, conforme o costume, era dedicado a Juno: assim o mês de Abril (sob o patrocínio de Vênus, desde a mais longínqua antiguidade) começava com uma festa que as matronas celebravam em honra da “Vênus legítima”. Mais tarde, durante o mesmo mês, no dia 23, as cortesãs faziam as suas devoções à outra Vênus, a Siciliana, que recebeu um novo templo, distante do Capitólio, perto da Porta Colina, um dos bairros mais afastados da cidade.
Doravante, duas Vênus compartilhavam os fiéis. Mas, gradualmente, será a Vênus apaixonada e turbulenta que se irá assenhorear das consciências. Nos últimos tempos da República, era para ela que se viravam, à medida que os costumes se afastavam do seu antigo rigor. Os três homens que tiveram sucessivamente o destino de Roma em suas mãos, Sila, Pompeu e César, reclamar-se-ão dela e colocar-se-ão sob a sua proteção. Gradualmente, Vênus transformar-se-á em uma das grandes deusas da cidade, a ponto de, durante o Império, ser associada à divindade da própria Roma, no templo que o imperador Adriano irá criar para ambas na colina da Vélia.
Esta fortuna magnífica da deusa explica-se por muitas razões, algumas das quais são estranhas à tradição religiosa romana e não têm senão uma relação remota com a sua função essencial, que é a de presidir ao amor. Mas estes acidentes históricos não teriam sido possíveis, se a Vênus romana não estivesse antecipadamente preparada para aceitar as novas funções e a dignidade acrescida que lhe foi reconhecida desde o início do século I A.C. Com a expansão do domínio romano no Oriente, a influên­cia da Afrodite grega tornou-se mais forte e é fácil mostrar que Vênus assimilou um grande número de funções assumidas pela sua homóloga oriental, mas parece evidente também que este crescimento do seu domínio estava implícito, há longo tempo, na preexistência de certos caracteres na sua natureza.
Há muito tempo que a Vênus itálica tendia a ser a patrona de tudo o que é “feliz”, luxuriante e jovem. Nisso residia, talvez, uma das razões da desconfiança e também da atração, que a consciência romana, cheia de “gravidade”, mas, ao mesmo tempo, sensível ao desenvolvimento feliz de tudo o que vive, sentia a seu respeito. É muito significativo que os Romanos, desde muito cedo, tenham consagrado a Vênus o mês de Abril, aquele em que desponta a Primavera, e tenham também realizado a con­sagração dos seus templos e a sua festa anual nos dias das Vinalia, que eram, ao mesmo tempo, os da festa do vinho. Também não se deve esquecer que as cortesãs, devotas por excelência de Vênus Ericina [aquela que então triunfava], dançavam publicamente, sem véu, no dia da festa de Flora! Tudo se passava como se, de repente, se tivesse quebrado a austera disciplina imposta, durante muito tempo, pela autoridade do Senado à devoção popular, deixando regressar à luz do dia uma religião de Vênus que as restrições tinham conseguido ocultar, mas não suprimir.
No início do século I A.C., Vênus tinha inúmeros fiéis, que lhe pedi­am o êxito de todos os seus empreendimentos, não somente no amor, mas no exército, no jogo, nos negócios. Os jogadores de dados chamavam “lance de Vênus” à combinação mais favorável que podiam obter. Sila, vencedor “feliz” de Mitridates, adotou, no Oriente, o apelido de Epafrodite, ou seja, “Favorito de Vênus”. Alguns anos mais tarde, Pompeu, após ter triunfado definitivamente sobre o mesmo Mitridates, dedicou um templo à Vênus Vitoriosa (Venus Victrix) no cimo do teatro que construiu no Campo de Marte.
No entanto, na noite de Farsália, a Vênus de Pompeu teve de inclinar-se diante da outra Vênus, a Genitrix, de que César se reclamava. Este, que, como todos os Julii, se vangloriava de descender de Eneias, tinha um bom pretexto para “confiscar” Vênus em seu proveito. O duplo precedente de Sila e Pompeu prova que isso não era de modo nenhum vaidade de família ou uma fantasia pessoal de César. A proteção de Vênus representava, junto do povo, como que uma garantia de felicida­de e de sucesso. Assegurava aos que a deusa favorecia como que uma aura sobrenatural, que nenhuma outra divindade poderia proporcionar. Graças à proteção da Genitrix, César trazia para Roma o que tanto lhe tinha faltado durante as horas sombrias do passado: a alegria divina e a certeza de uma sorte feliz. Por isso, antes mesmo de ter se apoderado definitivamente do poder, decidiu criar um templo magnífico, no centro do seu novo fórum, para aquela a que chamava sua mãe.
Deste poder de Vênus, das ressonâncias profundas que a sua religião despertava na alma romana, temos uma prova no prólogo introduzido por Lucrécio no início do seu poema Da Natureza das Coisas. Invocava como “mãe das Enéadas” e pede-lhe a paz para o seu povo. Só ela pode obter de Marte que apazigue a sua cólera e, saciado de amor sobre o seu peito, ponha termo aos sombrios ardores da guerra.
Estas páginas, impregnadas de um evidente fervor religioso, surpreendem frequentemente os comentadores, que se recordam da sólida imputa­ção de impiedade, e até de ateísmo, que é feita (sem razão, de resto) à doutrina epicurista, de que Lucrécio pretende ser intérprete. E que Lucrécio, antes de ser filósofo, é romano: conhece a alma dos seus compatriotas e quer falar a sua linguagem para se fazer entender por eles. Sabe que uma das suas aspirações mais profundas os leva a honrar todas as potências da vida, ainda que a disciplina oficial mascare, por vezes, esta exuberância e imponha uma aparência de austeridade que a realidade desmente. E a este sentimento, a esta intuição da vida, que o poeta apela. Ao designar pelo nome de Vênus o primeiro motor que crê distinguir no mundo, esta atração mútua dos seres, esta simpatia universal, sem a qual a criação continuaria imóvel e inerte, Lucrécio está certo de ser ouvido. O nome da deusa era suficiente por si só para que se adivinhasse toda a grandeza e “verdade” de uma filosofia que exaltava e transformava em princípio cósmico um sentimento perturbador que cada um tinha no seu próprio íntimo. Assim como Sila, Pompeu e de­ pois César não teriam pensado colocar-se sob a proteção de Vênus, se a deusa tivesse sido apenas uma abstração vazia de sentido, também Lucrécio não teria seguramente escolhido esta estranha maneira de ilustrar a doutrina epicurista, logo desde os primeiros versos da sua epopeia, se não estivesse certo de encontrar eco na alma daqueles que queria converter.
Não é indiferente verificar que a deusa do amor afirma o seu império sobre os corpos e as almas no momento em que vai nascer o Império, ou seja, quando Roma começa realmente a realizar a sua vocação universal. Vênus já não é, neste momento, apenas o demônio da carne (admitindo que antes fora apenas isso). Ela é reconhecida como um princípio cós­mico, gerador de vida, mas também de poder material e político, que derrotou o antigo puritanismo, durante muito tempo dominante na cida­de. A religião de Vênus está ligada à enorme evolução que se desenha sob os nossos olhos nesta viragem decisiva da história. Os velhos valo­res morais, estritamente dependentes dos imperativos sociais, são varri­dos de repente, as emoções pessoais suplantam os constrangimentos co­letivos, a tradição dos antepassados cede o seu lugar a uma moral mais humana (alguns dirão mais relaxada), que já não terá por única finalida­de a exaltação da cidade, mas tenderá a integrar cada pessoa no seu ver­dadeiro lugar no seio do universo.
Para Roma convergem e afluem as crenças e os ritos de toda a Itália e também de todo o mundo mediterrânico. A Vênus de Sila. Ainda que, no fundo, esteja de acordo com a tradição religiosa nacional, devia mui­to também à Afrodite grega e, mais ainda, talvez, à Astarte síria. A que Lucrécio canta encarna as abstrações metafísicas dos velhos filósofos jônicos. A piedade popular, por seu lado, tendia a ver em Vênus um poder cada vez maior. As festas que se celebravam em sua honra, na Itália Meridional e na Sicília, atraíam grandes multidões. Havia “vigílias” em que as jovens que em breve iriam casar lhe dirigiam ardentes preces, na expectativa do amor.
Um poeta desconhecido - que talvez não seja outro senão o historiador Floro, ou talvez seja um obscuro contemporâneo de Estácio - compôs para uma destas vigílias, que se celebrava em Hibla. Não longe de Catânia, na Sicília, um hino muito belo, de que não sabem exatamente se era apenas um exercício literário ou um canto quase litúrgico. Entoado no decurso da noite santa por um coro de mulheres. Mas a Vênus celebrada aqui é exaltada até se ver transformada como que na alma do mundo. Os amores humanos adquirem uma dignidade total­mente nova e alcançam todo o seu significado no seio de um mito que os identifica com o próprio mistério da criação:
Amanhã [escreve o poeta] é o dia em que, pela primeira vez, o Éter celebra o seu casamento. Para criar das suas nuvens primaveris durante o ano inteiro, este pai espalhou-se, em chuva amorosa, no seio da sua fértil esposa. Unido a este grande corpo, irá produzir todos os seres. É Vênus que, com a sua respiração sutil, penetra o sangue e a alma para exercer na procriação o seu poder misterioso. Através dos céus, através das terras, através do mar, sobe­rana, abriu para si um caminho que não cessa de impregnar com germes de vida e, obedecendo à sua ordem, o mundo aprendeu a gerar.
Vênus transforma-se na própria natureza, na doçura de viver e de amar. É muito provável que, no fim do século I D.C., a antiga Vênus de Hibla tenha absorvido muito traços das divindades naturalistas do Ori­ente e, particularmente, da Ísis dos filósofos e místicos alexandrinos, que cinquenta anos depois o romance de Apuleio iria enaltecer.
O poder de Vênus sobre as almas, nesta Roma que se alargara até ter o tamanho do mundo, torna-se cada vez maior: o amor já não é apenas uma lei da vida, é uma promessa, uma garantia de imortalidade. Tibulo espera que a própria Vênus o conduza à morada dos Bem-Aventurados. Estaríamos tentados a ver nisso apenas uma fantasia do poeta, se outros testemunhos não nos levassem a pensar que era uma crença bastante difundida. A divinização pelo amor não é, portanto, fruto da imaginação do homem de letras, mas uma convicção profunda de muitas pessoas simples. Aliás, não será natural que se convençam de que a deusa que é capaz de criar a vida e de perpetuá-la seja também capaz de realizar, para os que creem nela, o milagre da vida depois da morte? Será necessário o lento e difícil despojamento da ascese3 cristã para que se chegue a distin­guir o Eros humano do Ágape divino!
GRIMAL, Pierre. Cultos sagrados da fertilidade, sexo e amor em Roma - do falo a Vênus. In: O amor em Roma. Lisboa/PT: Edições 70, 2005. Cap. II, p.41-5.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Cinco questões para o caminho espiritual certo

Autor: John Beckett
Existem muito mais espiritualidades e religiões disponíveis para escolher do que em qualquer momento na história. O lado ruim é que mais alternativas torna a vida mais complicada.
Eu recebo perguntas de buscadores regularmente. Eu os escuto, usualmente recomendo a leitura de um livro ou dois para começar uma prática espiritual. Eu acho que não fiz qualquer recomendação para um caminho espiritual específico. Como eu poderia? Eu não os conheço o suficiente e mesmo se conhecesse ninguém pode aceitar a responsabilidade pela vida spiritual de outra pessoa.
Eu aprendi tanto quanto eu ensinei nesses contatos. Eu percebo cinco razões pelas quais as pessoas não poderão encontrar o caminho espiritual certo.
1. Você não conhece seus valores essenciais. Existe algo como verdade absoluta? O que é necessário par ate convencer que algo é verdadeiro? Qual sua tolerância para a ambiguidade?
A vida é justa? Devia ser justa? Que obrigações nós temos para tornar a vida mais justa para outros? Que obrigações nós temos para nossa família e vizinhos? Que obrigações nós temos para estranhos?
O mundo é algo para aproveitar ou para escapar? Seu coração e mente dizem que existe um, muitos ou nenhum Deus?
Deseja ser desafiado, tanto em suas crenças quanto em suas práticas? Ou você quer algo que irá confirmar aquilo que está acostumado?
Estas são questões difíceis e costumam ser um ardil. Muitas tradições espirituais são muito boas em te ensinar o que realmente importa. Mas a menos que você dispenda tempo suficiente trabalhando com elas, você não saberá se haverá afinidade.
Ao invés disto, leia, leia tanto quanto puder de diferentes formas de tradições espirituais e religiosas. Leia com a mente aberta – não tente analisar cada página vendo se confirma ou contesta com o que você pensa. Simplesmente aprenda o que outras pessoas acreditam e fazem. Então compare com o que você leu. Faça isto até você ter uma boa ideia do que é importante para você, então se pode procurar uma tradição spiritual que apoia seus valores e prioridades.
2. Você esteve tão ocupado fugindo de algo que não consegue acompanhar algo. Um pastor te machucou tanto que te tornou avesso a qualquer autoridade religiosa. Você teve o Criacionismo sendo enfiado goela abaixo de tal forma que não consegue ler mitologia sem insistir que é apenas uma história inventada. Você era parte de uma igreja que explora o dinheiro de  seus membros e gastou perdulariamente, então começa achar que dinheiro não pode ser parte de uma espiritualidade verdadeira.
Muitos estão religiosamente machucados e a recuperação é um esforço em andamento.  Mas em algum ponto nós devemos largar a velha bagagem e começar um novo caminho. Em algum momento nós temos que parar de ser modernistas ou deístas e começar a sermos pagãos, druidas ou politeístas ativos.
Ao invés disto, pegue uma pratica espiritual nova e mergulhe nela incondicionalmente. Tente meditar, orar, fazer oferendas, observe a natureza. Leia livros sobre isso, faça cursos, fale com pessoas que fazem isso. Então pratique e continue praticando. Quando algo te faz se sentir desconfortável, faça de qualquer jeito. Deste jeito é que se aprende e se cresce.
Evidentemente, isto pressupõe que sua prática escolhida é ética. Eu não conheço qualquer prática spiritual que não seja ética, mas tem uma grande diferença entre “minha igreja diz que isso é pecado” e “minha intuição diz que isso é errado”. Siga seus instintos.
3. Você está procurando por perfeição. Você quer um caminho que se encaixa perfeitamente em suas crenças. Você quer uma tradição com pessoas perfeitas – você está cansado da hipocrisia da sua “velha” religião. Todos nós queremos que as coisas combinem bem, mas não existem pessoas perfeitas e não existem caminhos espirituais perfeitos.
Que imperfeição a qual você não consegue aceitar e o que é um quebrador de promessa? Assuntos de ética e integridade sempre serão quebradoras de promessas. Mas muitos buscadores estão tentando encontrar um grupo de pessoas que são como eles, então não precisam se comprometer e não precisam ampliar e aprender.
Ao invés disto, faça uma lista do que você tem que ter em um caminho e medite sobre a lista.  Faça alterações enquanto achar que se encaixa. Eis o truque – você tem que reduzir a lista para no máximo três itens. Mais do que isto acabará em desapontamento.  Como no casamento, a maior parte do sucesso não é sobre encontrar a pessoa certa, mas ser a pessoa certa.
4. Você está procurando por confirmação externa. Você espera por uma sarça ardente ou um coro de anjos. Você quer que Zeus em pessoa se materialize e explique o Significado da Vida. Ou você quer um texto antigo coerente que você possa ler literalmente.
Coisa alguma nesta vida é certa. Muitas vezes a única maneira de saber o que existe além da colina é ir e subir na colina. Pode ser que exista um belo campo e pode ser que seja um deserto, mas se você não começar a andar até ter certeza, você permanecerá no canteiro da Estrada por muito tempo.
Ao invés disto, olhe dentro de você. Sua prática espiritual te inspira a viver em harmonia com outras pessoas e a natureza? Ela é uma fonte de encorajamento ao invés de medo? Ela te desafia a viver seus valores ao invés de fazer o que é mais fácil? Se ela faz estas coisas, esta é toda a confirmação que você precisa.
5. Você não se mantém tempo suficiente em algo para ver se funciona. Algumas fontes antigas dizem que demora 19 anos para se tornar druida. O curso na OBOD leva três anos e eu não conheço quem tenha terminado em menos de cinco. Estudantes dedicados wiccanos estudam por um ano e um dia antes de sua iniciação de primeiro grau.
Ainda assim eu vejo pessoas que leem um livro ou passam um mês explorando uma tradição spiritual e então pula para tentar outra coisa. Sim, o mundo tem muitas tradições religiosas belas e ponderosas e existe sabedoria em todas elas. Mas muito dessa sabedoria apenas chega depois de muitos anos de prática consistente e dedicada. Se você quer mesmo sincretizar, aprenda o suficiente de cada tradição para então misturar atentamente e não atropeladamente.
Ao invés disto, pegue algo e comprometa-se a praticar diligentemente por um ano. Durante este ano mergulhe o mais profundamente nesta tradição quanto você puder. Leia fontes de outras tradições apenas se informarem sobre seu caminho escolhido. Ao fim do ano, veja onde você está. Se você tiver certeza que não é para você, então tente outra coisa. Mais provavelmente você irá descobrir que você está apenas começando a ver o quão fundo há neste caminho, apenas se você continuar a trabalhar nele.
Uma jovem cristã perguntou ao Dalai Lama como ela podia ser budista.  Ele respondeu que ela não precisava ser budista para praticar a compaixão. As religiões não são todas iguais, mas você pode aprender, crescer e fazer o bem em qualquer religião positiva. O melhor é praticar fortemente o Cristianismo do que praticar fracamente o Budismo.
A religião costumava a ser simples. Você aprendia a religião de sua família. Este ainda é o caso em muitas partes do mundo. Mais opções trazem mais liberdade, mas também mais complexidade. Encontrar o caminho spiritual é possível, mas requer um trabalho dedicado, consistente e atencioso.
Que você possa encontrar o caminho que chama por sua alma!
Autor: Brian Rush
6. Todo o conceito de escolher um caminho entre tradições existentes é obsoleto [NB - eu não diria obsoleto, mas sem base acadêmica], tornando errada a questão “qual caminho é certo para mim”.
Religião e espiritualidade nunca acabarão, mas religiões no plural sim. Nós estamos nos aproximando uma situação na qual ideias religiosas são trocadas em um mercado intelectual irrestrito, sem identidades separadas. Nós estamos nos aproximando de um tempo quando não será mais dito “eu sou cristão”, ou “eu sou budista”, ou “eu sou pagão”, mas todos terão a liberdade de considerar ideias como a unidade de Deus e Homem, ou a raiz do sofrimento no desejo, ou a mítica imagem da Grande Mãe, sem fronteiras ou rótulos.
Nós não encontramos um caminho. Nós o fazemos.
Fonte: Patheos

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Prostitutas da antiguidade

Para os povos antigos, a lua era andrógina, como disse Plutarco, "chama-se a Lua (Artemis) a mãe do universo cósmico; ela possui uma natureza andrógina". Na Babilônia, o deus-lua Sin é andrógino e quano foi substituído por Istar, esta conservou seu caráter de androgismo. Igualmente no Egito, Ísis é denominada Ísis-Neit, enquanto andrógina.

Pelo mesmo fato de a lua ser andrógina, o homem-lua, cujo representante na terra era o rei ou o chefe tribal, passava a primeira noite de núpcias com a noiva, a fim de provocar a fertilização dela, da tribo e da terra. Tal hábito, permaneceu na França até a Idade Média com o nome de Le Droit du cuissage du Seigneur.

O fato de todos dependerem dos préstimos da lua para a propagação da espécie, da fertilização dos animais e das plantas, enfim, da boa colheita anual, em todos os sentidos, é que provocou, desde a mais remota antiguidade, um tipo especial de hieròs gámos, de casamento sagrado, uma união sagrada, de caráter impessoal. Trata-se das chamadas hierodulas, literalmente, "escravas sagradas", porque adjudicadas, em princípio, a um templo, ou ainda denominadas "prostitutas sagradas", mas sem nenhum sentido pejorativo.

Em determinadas épocas do ano, sacerdotisas e mulheres de todas as classes sociais uniam-se sexualmente a reis, sacerdotes ou a estranhos, todos simbolizando o homem-Lua, com o único fito de provocar a fertilização das mulheres e da terra, bem como de angariar bens materiais para o templo da deusa (Lua) a que serviam. Tudo isso parece muito estranho para nossa mentalidade ou para nossa ignorância das religiões antigas.

Puta, em latim, era uma deusa muito antiga e muito importante

Puta, em latim, era uma deusa muito antiga e muito importante. Provém do verbo putare, "podar", cortar os ramos de uma árvora, pôr ordem, "pensar", contar, calcular, julgar, onde Puta era a deusa que presidia à podadura. Com o sentido de cortar, calcular, julgar, ordenar, pensar, discutir, muitos são os derivados de putare em nossa língua, como deputado, amputar, putativo, computar, computador, reputação. O sentido pejorativo, ao que parece, surgiu pela primeira vez num texto escrito entre 1180-1230 d.e.c. Não é difícil explicar a deturpação do vocábulo. É que do verbo latino mereri, receber em pagamento, merecer uma quantia, proveio meretrix, "a que recebe seu soldo", de cujo acusativo meretrice nos veio meretriz, que também, a princípio, não tinha sentido erótico. Mas, como putas e meretrizes, que se tornaram sinônimos, se entrevam não só para obter a fecundação da tribo, da terra, das plantas e dos animais, mas também recebiam dinheiro para o templo, ambas as palavras, muito mais tarde, tomaram o sentido que hoje possuem.

Não eram, todavia, apenas mulheres que "trabalhavam" para a deusa-Lua. Homens igualmente, embora fosse mais raro, após se emascularem, entregavam-se ao serviço da deusa. Na Índia, segundo W. H. Keating, os homens de Winnipeck consideram o sol como propício ao homem, mas julgam que a lua lhes é hostil e se alegra quando pode armar ciladas contra o sexo masculino. Desse modo, os homens de Winnipeck, se sonhassem com a lua, sentiam-se no dever de tornar-se cinaedi, quer dizer, homossexuais. Vestiam-se imediatamente de mulher e colocavam-se ao serviço da lua.

Cibele era a grande deusa frígia, trazida solenemente para Roma entre 205 e 204 a.e.c., durante a segunda Guerra Púnica. Identificada com a lua, protetora inconteste da mulher, seus sacerdotes, chamados Coribantes, Curets ou Galos e muitos de seus adoradores, durante as festas orgiásticas da Bona Mater, Boa Mãe, como era chamada em Roma, se emasculavam e cobriam-se com indumentária feminina e passava a servir à deusa-Lua Cibele.

No Egito e na Mesopotâmia as deusas-Lua Ísis e Istar sempre tiveram um grande número para os templos, para elas trabalhavam infatigavemnte. No judaísmo, as hierodulas causaram problemas sérios. Para Astarté, deusa-lua semítica da vegetação e do amor (a Afrodite do Oriente), as hierodulas,, sobretudo em Canaã, operevam, quer ao longo das estradas, quer nos próprios santuários da deusa. O dinheiro arrecadado, a que se dava o nome de "salário de meretriz" ou "de cachorro", era entregue aos santuários. Sob a influência cananéia, o abuso penetrou também no culto israelítico, embora a Lei se opusesse energicamente a isso e proibisse que o dinheiro fosse aceito pelto Templo. Sob Manassés e Amon (séc. VII a.e.c.), as prostitutas sagradas instalaram-se no próprio Templo de Jerusalém. Foi necessário que Josias mandasse demolir suas habitações. Mais tarde, à época da desordem total, até pagãos as procuravam no Templo da Cidade Santa.

Na Grécia, à época histórica, emludar de oferecer seu corpo e sua virgindade em honra da deusa-lua, as mulheres ofereciam sua cabeleira.

A Afrodite, divindade do prazer pelo prazer, do amor universal, que circula nas veias de todas as criaturas, porque, antes de tudo, Afrodite é a deusa das "sementes", da vegetação, estavam ligadas, à maneira oriental, as célebres hierodulas, as impropriamente denominadas prostitutas sagradas. Essas verdadeiras sacerdotisas entregavam-se nos templos da deusa aos visitantes, com o fito, primeiro de promover e provocar a vegetação e, depois, para arrecadar dinheiro para os próprios templos. No riquíssimo (graças às hierodulas) santuário de Afrodite no monte Érix, na Sicília, e, em Corinto, a deusa era cercada por mais de mil hierodulas, que, à custa dos visitantes, lhe enriqueciam o santuário. Personagens principais das famosas Afrodísias de Corinto, todas as noites elas saíam às ruas em alegres cortejos e procissões rituais. Embora alguns poetas cômicos, como Aléxis e Eubulo, ambos do século IV a.e.c., tivessem escrito a esse respeito alguns versos maliciosos, nos momentos sérios e graves, como nas invasões persas de Dario (490 a.e.c) e Xerxes (480 a.e.c.) se pedia às hierofuldas que dirigissem preces públicas a Afrodite. Píndaro, talvez o mais religioso dos poetas gregos, celbrou com um (skólion), isto é, com uma canção convival, um grande número de jovens hierodulas que Xenofonte de Corinto ofertou a Afrodite, em agradecimento por uma dupla vitória nos Jogos Olímpicos.

Autor: Junito de Souza Brandão.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Enteogenia: a espiritualidade libertária

Maria pastora.jpg
As religiões primitivas surgem quando o ser humano passa a filosofar sobre o meio externo no qual vive - tempestades, a rota do sol, as estações, a maré etc., passam a ser questionados, venerados ou temidos. Desde então no mundo foram criados os alicerces das inúmeras explicações do sobrenatural, em outras palavras religiões.
Teorias religiosas surgem, umas permanecem, outras se vão, outras se transformam, e a humanidade ao longo do tempo vai acumulando um conhecimento que passa por gerações que ora são distorcidos, ora conservam a essência da fonte criadora.
As religiões têm em comum a linearidade. Tendem a defender um caminho evolutivo no qual o ser humano parte de um estado bruto para um estado lapidado, o que seria a perfeição espiritual, a iluminação pelo reino de Deus.
E o que a enteogenia tem a ver com isso? Nada e tudo.
A espiritualidade da humanidade tem estado atada aos conhecimentos religiosos, mesmo nas religiões que incitam o desenvolvimento do eu interior. Pessoas se interessam pelo desenvolvimento espiritual e vão buscar bases para a construção do seu caminho nas religiões. Portanto a espiritualidade humana está diretamente ligada ao conhecimento acumulado da própria humanidade.
O que seria a enteogenia além do uso de substâncias naturais que alteram a consciência?
O caminho inverso, livre dos condicionamentos humanos. Puro em essência, direto.
A enteogenia dá acesso direto à planos superiores e à estados supra-humanos, desperta faculdades ora adormecidas e conecta o ser com toda a Energia que o cerca.
Por que defende-se a linearidade na qual inicia-se pela teoria religiosa (leitura) e vai para a prática religiosa (oração, rituais, meditação etc.)?
No fundo os defensores do não uso de substâncias alteradoras de consciência para a evolução espiritual nada mais defendem do que uma moral religiosa, um dogma. Mesmo aqueles que defendem a liberdade do espírito, mas são contra o salto quântico que os enteógenos causam na evolução espiritual, estão condicionados às referências religiosas, mesmo sem se dar conta disso. O que determina que num universo não linear, relativo e múltiplo tenha de haver um início e um fim da espiritualidade? Isso é apenas mais uma convenção religiosa.
Acessar planos elevados de consciência via enteógenos abre diversas possibilidades ao espírito. Sentir o Todo e saber que ele existe. Sentir a energia universal fluindo por si mesmo, por tudo e por todos e saber que ela existe. Sentir o silêncio e saber que ele é um estado onde não há tempo, espaço, sujeito ou objeto, pois tudo é um. Isso tudo sem precisar ler uma linha sequer das teorias religiosas. Como descartar essa infinidade de possibilidades de acesso às mais elevadas condições do espírito em uma só vida, em uma única existência? Isso é enteogenia.
Por que não se conhecer o fim para traçar um caminho, um meio? Isso elimina muitas das dúvidas que fazem as pessoas perderem tempo e até vidas se questionando da validade de suas práticas espirituais. Por que não conhecer o fim para o qual essas práticas estão levando, ou seja, por que não ter a enteogenia como um norte para o desenvolvimento espiritual em vez de relegá-la ao simples conceito - limitado, falso e moralista - de alucinação ou alteração química do funcionamento cerebral? Só pode falar dos estados enteogênicos quem já passou por uma experiência do tipo, e creio que todos por aqui hão de concordar com isso.
A enteogenia é muito mais do que a sociedade civil e religiosa define, mas não deve se propor a um embate entre os acessos empíricos que provoca contra o discurso religioso e sim unir-se a esse para complementar o conhecimento da humanidade sobre o universo, elevando o patamar espiritual da sociedade a planos superiores de consciência, inteligência e espiritualidade. Associar algumas práticas religiosas, como a circulação energética, por exemplo, ao uso de enteógenos tem resultados incríveis.
Feliz é quem tem a oportunidade de sentir o silêncio e buscá-lo através dos atos de sua vida.
Autor: NeuroFX
Fonte: Protopia

terça-feira, 30 de junho de 2015

Os cultos de Dioniso

Dionísias Rurais - Celebravam-se no mês Posídon, o que corresponde, mais ou menos, à segunda metade de dezembro. São as mais antigas das festas áticas de Dionisio, mas pouco se sabe, até o momento, a respeito das mesmas. Realizavam-se apenas nos "demos", isto é, nos burgos da Ática, dependendo o brilho de tais festejos dos recursos de cada um dos cem demos que constituíam a terra de Platão. A cerimônia central consistia num kômos, quer dizer, aqui no caso, numa alegre e barulhenta procissão com danças e cantos, em que se escoltava um enorme falo. Os participantes dessa ruidosa falofória cobriam o rosto com máscaras ou disfarçavam-se em animais, o que mostra tratar-se de um sortilégio para provocar a fertilidade dos campos e dos lares. Aristófanes, em sua comédia engraçadíssima, Os Acarneus, nos deixou uma caricatura memorável dessas comemorações. Claro que tanto a falofória quanto os demais ritos das Dionísias Rurais precederam ao filho de Sêmele, mas este os incorporou integralmente, fazendo que se lhes esquecesse a idade milenar.

A partir do século V a.e.c., no entanto, as Dionísias Rurais foram enriquecidas com concursos de tragédias e comédias. Inscrições recentes provam que em muitos demos havia bons teatros, sobretudo no Pireu, Salamina, Elêusis, Flia, Muníquia e Tórico.

Lenéias - Eram celebradas em pleno inverno, no mês Gamélion, correspondente aos fins de janeiro e inícios de fevereiro, mas pouco se conhece também acerca dessa festa muito antiga do deus do vinho. O nome Lenéias, em grego (Lénaia), é uma abreviatura já comum em Atenas, pois que a designação oficial da festa era Dionisio do Lénaion, isto é, cerimônias religiosas dionisíacas que se realizavam no Lénaion, local onde se erguia o mais antigo templo do deus e, mais tarde também, um teatro. Segundo os arqueólogos que se têm ocupado da topografia da Atenas antiga, esse espaço consagrado ao deus do êxtase e do entusiasmo talvez se localizasse ou nas vizinhanças da antiga Ágora e da rampa que levava à Acrópole ou, ao contrário, na outra extremidade da rocha, que sustém a Acrópole, isto é, aos pés de sua fachada oeste. Se ainda se discute acerca da localização do Lénaion, nada de muito concreto existe a respeito de sua etimologia. A fonte tradicional de (Lénaion) é (Lenós), "largar", quer dizer, "tanque ou instalação, onde se espremiam as uvas para fabrico do vinho novo", mas a aproximação é de cunho popular.

Dionísias Urbanas - Celebravam-se na primavera, no mês Elafebólion, fins de março, e a elas acorriam todo o mundo grego e embaixadores estrangeiros. Duravam Seis dias. O primeiro era consagrado a uma majestosa procissão, de que a cidade inteira participava. Nessa procissão transportava-se a estátua do deus do Teatro, de seu templo, no sopé da Acrópole, até um templo arcaico de Baco, perto da Academia, de onde o ícone era solenemente levado e colocado, por fim, na Orquestra do Teatro, que, até hoje, tem o nome do deus e que fica ao lado do santuário, de onde a estátua fora retirada. Nos dois dias seguintes realizavam-se os concursos de dez Coros Ditirâmbicos, que com seus cinquenta executantes cada um, dançavam em torno do altar de Dionisio, na Orquestra. Os concursos dramáticos ocupavam os três últimos dias. Sendo três os poetas trágicos admitidos em concurso, reprsentava-se cada manhã a obra inteira de cada um deles, a saber, via de regra, no século V a.e.c. uma tetralogia: três tragédias (de assunto correlato ou não), seguidas de um drama satírico.

Embora nessas festas Dionísio imperasse inteiro, havendo por conseguinte, a quebra de todos os interditos, o Estado sempre os tolerou, uma vez que toda ruptura com tabus de ordem política, social e sexual visava não apenas à imprescindível fecundidade e à fertilidade, mas era algo que atingia tão-somente o mundo da sensibilidade, sem chegar à reflexão, como na tragédia.

O primeiro dia das Antestérias denominava-se (Pithoiguía), vocábulo proveniente de píthos, "tonel", e oignýnai, "abrir": abriam-se os tonéis de terracota, em que se guardava o vinho da colheita do outono, e transportavam-nos até um Santuário de Dionísio no Lénaion, que só se abria por ocasião dessas festas da primavera. Dessacralizava-se o vinho novo, quer dizer, levantava-se o tabu que ainda pesava sobre a colheita anterior e, após uma libação a Dionisio pela boa safra, dava-se início à bebedeira sagrada. Possivelmente, como nas Dionísias Rurais e nas Lenéias, uma das características fundamentais de Dionisio, "deus do povo", é sua universalidade social.

O segundo dia chamava-se (khóes), de (khóos), cântaro, cuja fonte é o verbo (khéein), "derramar". Era o dia consagrado ao concurso dos beberrões. Vencedor era aquele que esvaziasse o cântaro (três litros e um quarto) mais rapidamente. O prêmio era uma coroa de folhagens e um odre de vinho. Nesse mesmo dia, em que se celebravam as khóes, organizava-se uma solene e ruidosa procissão para comemorar a chegada do deus à polis. Mas, como Dionisio está ligado, ao elemento úmido, por ser uma divindade da vegetação, supunha-se que ele houvesse chegado a Atenas, vindo do mar. É, por esse motivo, que integrava o cortejo uma embarcação, que deslizava sobre quatro rodas d euma carroça, puxada por dois Sátiros.

Na embarcação via-se o deus do êxtase, empunhando uma videira, ladeado por dois Sátiros nus, tocando flauta. Um touro, destinado ao sacrifício, acompanhava o barulhento cortejo, cujos componentes, provavelmente disfarçados em Sátiros e usando máscaras, cantavam e dançavam ao som da flauta. Quando a procissão chegava ao santuário do deus, no Lénaion, havia cerimônias várias, de que participavam a (Basílinna), isto é, a esposa do Arconte Rei e catorze damas de honra. A partir desse momento, a Basílinna, a Raiinha, herdeira da antiga reinha dos primeiros tempos da cidade, era considerada esposa de Dionisio, certamente representado por um sacerdote com máscara. Subia para junto dele na embarcação e novo corjeto, agora de caráter nupcial, conduzia o casal para (bukoleîon), etimologicamente, "estábulo de bois", mas, na realidade, uma antiga residência real na parte baixa da cidade. Ali se consumava o hieròs gámos, o casamento sagrado entre o "deus" e a rainha, conforme atesta Aristóteles, Constituição de Atenas. Observe-se que o local escolhido, o Bucolion, atesta que a hierofania taurina de Dionisio era ainda um fato comum. De outro lado, sendo a união consumada na residência real e apresentando-se Dionisio como rei, o deus estava exatamentet exercendo a função sagrada da fecundação. Essa hierogamia era, na realidade, o símbolo do casamento, da união do deus com a pólis inteira, com todas as consequencias que daí poderiam advir.

O terceiro dia intitulava-se (khýtroi), "vasos de terracota, marmitas", cuja fonte é ainda o verbo (khéein), "derramar". Chegada a noite, todos gritavam: "Retirai-vos, Queres, as Antestérias terminaram".

Autor: Junito de Sousa Brandão.