terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Bendito Fruto

Ao passear pela internet, pesquisando imagens e textos, eu encontrei o site Morte Súbita. Ali eu acessei a coluna Paganismo e encontrei uma série de artigos que eu irei chamar candidamente de metafísica mamífera.

Eu selecionei quatro textos para escrever um texto inspirado sobre a Deusa que, como o Deus Cristão, está muito mal representada, pelas religiões da Deusa e pelos Diânicos. Nada pode ser mais sacrílego, blasfemo e herético do que negar a sexualidade e a sensualidade da Deusa, mas é isto o que muitos pagãos modernos fazem ao negar ou omitir o Deus, descrevendo a Deusa como se fosse uma Santa Ameba. Nada pode ser mais contraditório do que um sacerdote querer incorporar a Deusa por ainda não ter resolvido suas questões de identidade, opção e preferência sexual. Nada pode ser mais repugnante do que um sacerdote que nega não apenas sua natureza, mas distorce e deturpa a identidade do Deus.

Quando falamos do aspecto divino feminino, conhecido como Deusa, para a mente ocidental, dominada por uma cultura niilista e uma moral judaico-cristã, soa como uma concepção absurda.

Nos primórdios da humanidade, a coisa era bem diferente. A presença maciça de uma Deusa Mãe se estende por todo esse mundo, que é chamado de Gaia não por mera coincidência. O caro dileto e eventual leitor deve se perguntar onde Deus ficava nesse mundo matrilinear e matriarcal. Bom, se você chegou agora e ainda não leu meus outros textos, o Deus está bem presente, como o Guardião do Mistério e Condutor dos Peregrinos, desde pinturas rupestres em cavernas até estátuas em templos.

Mas há uma grande diferença em como nossos ancestrais imaginavam e cantavam a Deusa e em como muitos pagãos modernos, especialmente os que seguem alguma “religião da Deusa” ou alguma forma de Dianismo, imaginam e cantam a Deusa.

Lendo os textos de farsantes e vigaristas travestidos de sacerdotes da Deusa, os atributos que mais percebemos sobre Ela são a compaixão, a misericórdia, a piedade, a caridade... igualzinho aos textos evangélicos sobre o Deus Cristão. Sem dúvida estes são atributos da Deusa, mas são tão... idealizados, mentais, transcendentes, que fica difícil de imaginar que Ela é imanente, carnal, mundana e se manifeste na natureza. Como fica a Deusa em seu aspecto sexual, sensual, feminino, erótico, nesse idealismo... apolíneo?

A Deusa em seu ato mais sagrado e divino chega a ser um desafio e uma afronta ao feminismo histérico e misândrico. A Deusa é a plenitude do feminino, da sensualidade, da sexualidade, do erotismo, do sexo. Ela quer um Deus, Ela quer um Consorte. Ela quer ser beijada, acariciada, beijada. Ela quer ser penetrada. Ela quer oferecer este mesmo desejo, prazer, gozo e êxtase a todos os seus filhos e filhas. Por isso dizemos em nossas celebrações: “Todos os atos de amor e prazer são meus rituais”.

Então os símbolos da Deusa são: a) o triângulo com um vértice para baixo, simbolizando a pélvis e a vagina; b) seios desnudos, fartos, redondos.

“Se um recém nascido pudesse falar, a deusa seria a maneira como ele descreveria o seio que o amamenta - se esse seio pudesse falar. De acordo com essa lógica, a imagem da Grande Deusa Mãe seria a extensão no espaço-tempo dos próprios seios”. [Morte Súbita]

“Seus seios, por exemplo, eram o motivo pelo qual os Bailônios a chamavam de 'A Mãe dos Seios Frutíferos', aquela cujos seios nunca falhavam, nunca secavam - ocasionalmente eles eram simplificados a aros ou espirais estilizadas, mas geralmente eram expressos com todo seu potencial erótico e, de forma mais impressionante, eram expressos multiplicados para lhes dar mais ênfase”. [Wolfgang Lederer, citado pelo Morte Súbita]

“A Deusa que descrevemos não é uma mera mãe humana, dando leite humano para a criança que nasceu de sua própria carne e sangue, nem simplesmente uma mera mãe divina, carregando uma criança humana ou divina: pois de seus mamilos pode sair não leite, mas mel - como na Palestina que, em seu nome, era conhecida como a terra do leite e do mel, ou Delfos, onde suas sacerdotizas eram chamadas Melissai, que significa "abelhas", e seu templo era construído de forma a se assemelhar a uma colmeia. Ela não só é mãe de todo tipo de animais, mas também alimenta a todos, dando a cada um o que é necessário e, sendo a "Alma Mater" que é, ela pode - maravilha das maravilhas - alimentar também homens barbados, estudiosos, lhes dando sabedoria. Resumidamente ela é a fonte de todo tipo de alimento, material ou espiritual”. [Morte Súbita]

“Não é de se admirar que ela tenha tanto orgulho de seus seios. E, por causa disso, ela os segura, de forma bem natural, seja para exibi-los, seja para oferecer de forma mais conveniente sua plenitude". [Wolfgang Lederer, citado pelo Morte Súbita]

“Estátuas da deusa, segurando os peitos como se os oferecesse, foram encontradas por toda a Europa e Ásia pré-históricas”. [Morte Súbita]

“Quando o antropólogo Weston La Barre diz que "mães criam magos; pais deuses", ele está afirmando que o transe mágico ou xamânico é uma volta ao êxtase no peito da mãe que nutre a todos, enquanto a religião é uma propensão anal de um deus temível que é uma versão aumentada do pai punitivo”. [Morte Súbita]

“Várias tradições explicitamente sexuais que surgiram no fim do século XIX e início do século XX se tornaram púdicas e simbólicas. Mas a Grande Mãe persiste, com seus seios à mostra, para aqueles que sabem enxergá-los”. [Morte Súbita]

O que há de mais perturbador, proibido, vergonhoso, escandaloso, para uma sociedade doentia, dominada pela pulsão de morte e pelos recalques oriundos da religiosidade judaico-cristã do que a nudez feminina? O ocidente se julga tão superior ao oriente, tão mais liberal do que os países muçulmanos, mas o sexismo, a misoginia, o patriarcado, a coisificação da mulher, a vulgarização do sexo, a demonização do corpo/desejo/prazer, os tabus/regras/proibições quanto a sexo e relacionamento mostram que não estamos melhores, apenas mais hipócritas. A nudez feminina é permitida apenas como entretenimento do macho, como cabide de produto, como justificativa da supremacia masculina. Quando uma mulher mostra o seio, não se verá a pessoa, suas qualidades, sua humanidade, verá apenas a carne feita para usufruto do macho, desprovida de seu sentido sagrado, religioso ou divino. O que não significa que devemos nos tornar feministas celibatários misândricos, mas que a mulher pode e deve definir como ela quer se relacionar e ter sexo. Para isso, a mulher deve perceber que é uma manifestação da Deusa, aceitar sua sensualidade, sua sexualidade, sua sedução, seu erotismo, seu corpo, seu desejo, seu prazer e procurar vivenciá-lo plenamente, com o Deus, com o homem, além de quaisquer regras, tabus e proibições sociais.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Paganismo e Nova Era

Jason Mankey escreveu no Patheos o artigo “Paganism and New Age” e eu acho interessante para os pagãos brasileiros não traduzir o que Jason escreveu, mas analisar e comparar esses caminhos ou tendências do Mundo Contemporâneo e talvez colocar um contexto mais preciso para diferenciar um de outro.

Eu vou recorrer ao Oráculo Virtual [Google].

O movimento da Nova Era (do inglês New Age) tem como característica uma fusão de ensinos metafísicos de influência oriental, de linhas teológicas, de crenças espiritualistas, animistas e paracientíficas, com uma proposta de um novo modelo de consciência moral, psicológica e social além de integração e simbiose com o meio envolvente, a Natureza e até o Cosmos. Tendo muitas vezes como base um caráter liberal e de oposição à ortodoxia e o conservadorismo das religiões organizadas.

O movimento em si ocorreu nas décadas de 1960 e 1970, tendo como inspiração princípios teosóficos e escritos sincréticos do século XIX e início do século XX. Fazendo parte dos movimentos de contracultura da época e servindo como ferramenta de contestação às religiões e valores tradicionais.

Embora tenha deixado marcas que ainda se refletem na atualidade, o movimento nunca existiu de forma centralizada ou como uma só organização. Nota-se também que nem todas as religiões e filosofias sincréticas ou místicas apoiam ou se identificam com movimentos da nova era, embora muitas vezes sejam rotuladas dessa forma. [Wikipédia]

Paganismo (do latim paganus, que significa "camponês", "rústico" ) é um termo geral, normalmente usado para se referir a tradições religiosas politeístas.

É usado principalmente em um contexto histórico, referindo-se a mitologia greco-romana, bem como as tradições politeístas da Europa e do Norte da África antes da cristianização. Num sentido mais amplo, seu significado estende-se às religiões contemporâneas, que incluem a maioria das religiões orientais e as tradições indígenas das Américas, da Ásia Central, Austrália e África, bem como às religiões étnicas não-abraâmicas em geral. Definições mais estreitas não incluem nenhuma das religiões mundiais e restringem o termo às correntes locais ou rurais que não são organizadas como religiões civis. Uma característica das tradições pagãs é a ausência de proselitismo e a presença de uma mitologia viva, que explica a prática religiosa. [Wikipédia]

Neopaganismo, [ou Paganismo Moderno] por vezes referido simplesmente como paganismo, é um termo utilizado para identificar uma grande variedade de movimentos religiosos modernos, particularmente aqueles influenciados pelas crenças pagãs pré-cristãs da Europa. Os movimentos religiosos neo-pagãos são extremamente diversificados, com uma vasta gama de crenças, incluindo o politeísmo, o animismo, o panteísmo e outros paradigmas. Muitos neopagãos praticam uma espiritualidade que é completamente moderna em sua origem, enquanto outros tentam reconstruir precisamente ou reviver, religiões étnicas como os encontrados em fontes históricas e folclóricas.

A maior parte das religiões neopagãs são tentativas de reconstrução, ressurgimento ou - mais comumente - adaptação de antigas religiões pagãs, principalmente as da antigüidade pré-cristã européia, mas não restritas a estas, sem perder de vista as experiências e as necessidades apresentadas pelo mundo contemporâneo. Alguns neopagãos enfatizam sua conexão com formas antigas do paganismo, em uma forma de continuidade histórica marginal. [Wikipédia]

Agora vamos colocar o andor em marcha. Esse “orientalismo” apareceu na mesma época da Contracultura e do Paganismo Moderno. Mais fruto da colonização inglesa e fruto da cultura pop [os Beatles e outras bandas contribuíram e muito para ascender as inúmeras práticas do “oriente” para consumo da classe média e até intelectuais], a Nova Era pode montar seus primórdios ao Ocultismo do século XVIII e as muitas ordens místicas esotéricas que apareceram em decorrência desse Movimento Romântico. Maçonaria, Rosacruz, Teosofia e congêneres misturaram sem dó nem piedade as mais diversas práticas espirituais vindas do “oriente”, muitas vezes desprovidas de sua base, origem ou doutrina religiosa.

Muito do que sabemos e resgatamos do Paganismo Clássico e da Bruxaria Tradicional pode até ter sido trazido pela Nova Era, mas o estudo da história, da arqueologia, da antropologia e da etnologia pode filtrar muito do bagaço que é vendido com a embalagem de Wicca, Bruxaria e Paganismo. O mais provável é que o Ocultismo e a Teosofia copiaram partes do Paganismo Clássico, especialmente os ensinamentos esotéricos e partes das Religiões de Mistério, especialmente as práticas mágicas, com uma embalagem mais comercial e atrativa para o público que procurava formas de espiritualidade alternativas.

O Paganismo Moderno, em seus primórdios, sofreu bastante com essa falta de fontes, de bases e de estudos mais aprofundados e, infelizmente, ainda existe muita confusão e ecletismo que coloca o Paganismo Moderno com uma inconveniente proximidade com a Nova Era. Por isso que é necessário divulgar e esclarecer ao público que práticas espirituais têm sua origem e sentido por si mesmas. Ainda que façamos uso dessas práticas, isto não pode alterar nem distorcer nosso sentido de identidade, de origem, de prática e de propósito.

Por isso que eu tenho uma postura tradicionalista e politeísta. A ideia de Monismo ou Henoteísmo é uma influência desse “orientalismo”, dessa Nova Era comercializada. A prática espiritual é um acessório que ajuda, complementa, aprimora nossa experiência com o divino, mas não pode tomar o lugar dos princípios e valores que caracterizam nossa religião. A Nova Era é simplesmente uma espiritualidade de conveniência que beira a histeria kitsch. O Paganismo Moderno é uma religião, com Deuses, rituais e práticas com um objetivo mais coerente.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Deus Sol e o escaravelho

Por Geraldo Magela Machado.

Segundo o mito, o deus Sol, que era um deus pacífico, teria nascido de um ovo ou de um lótus. Esse deus foi o pai e mestre de todo o universo. Despertando no oriente e, conduzido pela sua barca de ouro de 770 côvados, medida egípcia equivalente a 400 metros de cumprimento, distribuía luz e calor pelo mundo.

Na forma humana durante o dia e com cabeça de carneiro com chifres recurvados à noite, o deus Sol, na cidade de Heliópolis, protege os egípcios, concedendo-lhes inúmeros benefícios, enquanto estes vão constituindo povos por toda a região do Egito: os núbios ao sul, os asiáticos ao norte, os líbios ao oeste e a leste, os beduínos (árabes do deserto).

Os demais elementos da natureza também tinham seus nomes ligados ao deus Sol: o ar era Chu, a Terra era Tefnut, Geb, e o céu era Nut, todos seus filhos. Foi o deus Sol (Rá), quem determinou que, caso um humano ofenda os deuses, este deverá oferecer um sacrifício animal, pois não eram aceitos sacrifícios de seres humanos.

Mesmo um deus está sujeito às consequências do tempo, e assim, o deus Rá começa a se degenerar, seus cabelos adquirem a cor do lápis-lazúli (pedra preciosa de cor azulada), seus membros enrijecem, seus ossos viram prata, seu corpo transforma-se em ouro e ele precisa de um bastão para caminhar.

Khepri era um dos vários deuses egípcios associados a animais. Seu nome significa escaravelho, e seu culto é citado nos textos encontrados nas pirâmides. O escaravelho tem por hábito botar seus ovos em esterco animal, assim como em corpos de outros escaravelhos mortos. Essa prática foi observada pelos egípcios e, daí, surgiu a noção de ressurreição e renascimento, associadas ao escaravelho.

Outra prática comum dos escaravelhos e que também foi observada pelos egípcios, é a de rolar bolas de esterco pela terra. Isso fez com que fosse associado ao deus Rá, que rola o Sol através do céu. Essa crença fazia com que os egípcios acreditassem que Khepri renovava o sol todas as noites para, no dia seguinte, apresentá-lo ao mundo, renovado.

Essa ideia de renovação associado ao escaravelho, foi levada tão a sério pelos egípcios que, aquele que trouxesse consigo uma imagem de um escaravelho, tinha garantido a persistência no ser e, se levasse essa imagem para a sepultura, teria certificado o direito ao renascimento para a vida.

Tido como amuleto preferido, os escaravelhos destinados aos mortos eram confeccionados com muito realismo, em pedra dura e colocados no lugar do coração, no peito das múmias, às vezes, incrustados numa moldura retangular. Estes amuletos já foram encontrados até no peito de certos animais tidos como sagrados pelo povo egípcio.

Fonte: http://www.girafamania.com.br/africano/materia_egitoescaravelho.html

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A Deusa de Parmênides

Karl Popper foi um teórico do conhecimento e um teórico da física quântica. Em seu livro “O Mundo de Parmênides”, Karl Popper nos brinda com uma profunda reflexão sobre a verdade objetiva e o conhecimento. A base de sua reflexão provém do poema de Parmênides “Da Natureza”, onde um filósofo pré-socrático apresenta sua cosmogonia como uma revelação de uma Deusa.

Aqui eu faço um parêntese com o livro “Contra história da Filosofia”, de Michel Onfray, onde o autor fala de outros filósofos pré-socráticos que foram “excluídos” da história da filosofia, evidentemente como um preâmbulo para as preferências de Michel Onfray. Ele não deve ter lido os originais ou não deve ter considerado o contexto destes pensadores antigos. Antes de qualquer evidencia, prova ou teoria, pensadores gregos apregoavam um materialismo e um atomismo, quase um prenúncio do niilismo de Nietsche. Quanto ao cacoete descrente de Michel Onfray, eu fiz minhas considerações anteriormente. Neste texto eu irei explorar o conceito de Karl Popper sobre o ser, o não-ser, verdade objetiva e a verdade conjectural.

Quando falamos de conhecimento, devemos nos referir ao conhecer, ou melhor, no latim, co-gnos-cere. No cerne do conhecimento encontramos a palavra grega gnose, algo que descrentes devem descartar como misticismo e superstição. Gnosis, episteme, aletheia, sophia, são todas palavras que tem em comum o saber e a verdade. Apenas podemos saber de algo quando aquilo que sabemos se aproxima da verdade. Esta é a verdade objetiva, que eu contrastaria da verdade conjectural.

Esta é a Via Dupla de Parmênides. A verdade objetiva é referente ao objeto, a verdade conjectural é referente ao aporte sensorial do observador. Popper chama a filosofia de Parmênides como sendo crítica ao sensualismo. A filosofia de Parmênides consiste na crítica ao ponto de vista que o conhecimento provém daquilo que se percebeu pelos sentidos, então cabe dizermos sentimentalismo, sensorialismo.

Então qual seria a fonte do conhecimento para se chegar próximo da verdade? Para desespero dos descrentes, Parmênides recorre à revelação da Deusa. Afinal, Parmênides diferencia o ser do não-ser, apenas podemos saber [conhecer] algo que é, o ser; o não-ser não pode ser conhecido porque não é real, mas uma ilusão. O conhecimento conjectural é o conhecimento oriundo dos sentidos, portanto, subjetivo, uma percepção aparente do real, pode até se aproximar da verdade, ser provável, plausível, semelhante, mas não é a verdade. A verdade, o objeto, a coisa em si, apenas pode ser conhecida pela razão. Mas onde fica a razão, se devemos descartar os organismos e os sentidos advindos destes? Onde fica a mente, o pensamento, o raciocínio, se nós temos que descartar o cérebro, visto que como órgão sensorial é sujeito ao engano da ilusão? Eis que aqui eu identifico a Deusa da revelação, não Diké, mas Maya. O ser, imutável, imóvel, que abarca o todo, do qual nós não podemos escapar, onde tudo é uma ilusão, inclusive a noção de tempo, espaço e movimento.

Para deixarmos a matrix, devemos superar a ilusão dos sentidos e as conjecturas que formulamos a partir deles. Ao estabelecermos a evidencia como sendo a verdade objetiva, estabelecemos um padrão, que é uma conjectura e, portanto, uma ilusão. Ao estabelecermos o resultado como sendo uma forma de estabelecer se um método é confiável, estabelecemos um padrão, que é uma conjectura e, portanto, uma ilusão. O real não pode ser definido a partir daquilo que tem evidência de existência, o real não pode ser compreendido a partir de mecanismos eficientes e eficazes. Nossas construções, a despeito de serem confiantes, eficazes, eficientes e práticas, são parte desse mesmo mundo de conjecturas, de ilusão, que apenas funcionam porque simulam ou reproduzem as forças e as leis da verdade objetiva, a natureza, a Deusa, Maya, imanente e transcendente.

sábado, 6 de dezembro de 2014

A Dança de Shiva

Eu escrevi no artigo “Pentagrama Invertido” este trecho:

“Essa relação espacial de que o que está em cima é superior ou dominante pode ser vista em muitas imagens católicas, onde o Santo pisa o Diabo, como também pode ser visto na estátua de Shiva sobre um demônio. Isso não faz o menor sentido, em termos espirituais, uma vez que “em cima” ou “em baixo” são referenciais humanos e terrenos. Para dar uma visão melhor deste simbolismo, eu gostaria de lembrar os muitos mitos em que o herói tem que superar ou vencer um animal (seu próprio ego material) para poder realizar uma missão. Entretanto o herói não pode matar o animal, senão mataria parte de si mesmo, tornando impossível de cumprir seu destino, levando o herói a assimilar, aceitar seu lado animal, dando ao herói os poderes mágicos necessários para terminar sua saga. Ou seja, Shiva não está “pisando” o demônio, mas sendo escorado por ele, dando a Shiva a base necessária para que Shiva seja Deus. A Matéria não está em confronto com o Espírito, nem está em sujeição, como querem muitos teóricos”.

Shiva e Kali são um Deus e uma Deusa do Hinduísmo difíceis de serem compreendidos pela mente ocidental. A dança de Shiva provoca o inverso da ação de Brahma, seus homens santos vivem em cemitérios e crematórios, sua fúria é temida por Vishnu e Brahma. Sua contraparte, Kali, é mais enigmática. Carinhosamente chamada de Kali Ma, ela enfrentou Raktabija, um Asura [demônio hindu] que estava desafiando os Deuses para lutar e Ela o derrotou comendo-o. Shiva é o Destruidor, Kali é a Devoradora.

Mircea Eliade e Joseph Campbell resumiram este mito perturbador e aterrador como o “mito do eterno retorno”. Em algum ponto, ciência e religião se tocam, quando falamos no princípio e fim do Cosmo, tal como nós o conhecemos. Tanto a religião quanto a ciência acreditam que o Cosmo irá se extinguir em algum momento, mas que outro aparecerá em seguida, das cinzas do Cosmo que se consumiu. Quem diria que a ciência acreditaria no mesmo princípio de que a existência física deste Cosmo é cíclica?

Voltemos a Shiva e a forma como Ele é representado, como se estivesse dançando, em cima de um Asura, dentro de um círculo, cuja a base que pode ser considerado o começo e o fim do círculo, senão a base da manifestação de Shiva.

Criação, Manutenção e Destruição, podem ser consideradas as formas em como a mente ocidental percebe a Trindade Brahma, Vishnu e Shiva. Shiva porta o tridente [trishula] que é o próprio simbolismo da Trindade e das três dimensões de existência. O círculo representa a ilusão da passagem de tempo das criaturas carnais enquanto o centro, imutável, como um espaço pleno, está Shiva regulando a manifestação material. Enquanto vivemos como forma material, somos perecíveis, como tudo que existe dentro da manifestação divina, incluindo o Cosmo. A dança de Shiva não tem a intenção de colocar o mundo físico, a matéria, a carne, como naturalmente malignas, como algo a ser expurgado, mas sim que devemos dominar nossas pulsões, usar o corpo para transcender a ilusão de Maya.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Apologia ao Frei Onfray

Humanos, por razões evolutivas, temos verdadeira alergia ao fortuito. Não foi por outro motivo que inventamos tantos panteões de deuses” – Hélio Schwartsman.

“Humanos, por razões evolutivas, por ter aversão ao fortuito, também inventaram as diversas ciências” – Profeta do Profano.

No mundo de Leucipo, há apenas átomos, vazios e movimentos efetuados pelos primeiros no segundo.

Esses átomos organizam-se e produzem simulacros. Eles existem em número ilimitado e, em associações relativas a sua forma, sua ordem e disposição, constituem a matéria e a substância de toda realidade, sem exceção”.

A questão permanece. Se a “matéria”, a “realidade”, é um “simulacro”, como decidimos o que é real, concreto, material e não imagem, ilusão?

Esses simulacros “são compostos de películas imperceptíveis que emanam dos objetos e penetram no corpo por seus orifícios. os átomos em suspensão no ar entram no interior do corpo pelo nariz, pelos olhos, pelos poros ou pelas orelhas. Os cheiros, os sabores as imagens, as impressões táteis, os sons são percepções que atraem essas estruturas em movimento no ar e seu trajeto do objeto e direção ao sujeito”. - Michel Onfray, Contra História da Filosofia, Volume I - As Sabedorias Antigas, pg. 42 – 43.

Tudo é átomo, inclusive o ar, então como os simulacros podem se movimentar sem resistência? Tudo é átomo, inclusive o corpo, o nariz, os olhos, os poros, as orelhas, que também são estruturas de simulacros construídas por átomos. O “corpo” não é um corpo. Tudo é átomo, inclusive a percepção? Tudo é átomo, inclusive o sujeito? Onde ficam os átomos ou o simulacro da percepção, do sujeito? A “percepção” não é uma percepção, o “sujeito” não é um sujeito.

E se nosso modelo de interpretação de nossas percepções não for suficiente para englobar todos os simulacros construídos pelos átomos? Não estaríamos limitando todo um Universo para nossa conveniência? E se os átomos também forem simulacros de partículas, energias e ondas que não tem existência física? Não estaríamos limitando toda uma Existência para nossa conveniência?

Eu sempre achei curioso como alguém define a realidade, geralmente dentro de um conceito arbitrário escolhido, um padrão, fora do qual todo aquilo que não se adequa é descartado.

O descrente fica ofendido quando vê que “ateísmo” é listado como uma religião. O caro dileto e eventual leitor irá ser condescendente comigo enquanto eu explico e analiso a verdade dessa acepção.

Antes de qualquer coisa, eu devo lembrar que religião não é simplesmente acreditar em Deus[es], eis o Budismo que exemplifica bem a questão. Religião é a crença de que um modelo, um padrão, um conhecimento, contém a verdade. A contestação ou crítica ao modelo, ao padrão, ao conhecimento é uma ofensa à verdade “anunciada”.

Diz o descrente: Para existir, para que se conclua pela existência, é preciso evidências. Quase sinto pena do descrente, pois ele concede à evidência uma qualidade transcendental. Algo só existe quando a evidência assim demonstra. A evidência está além do objeto, fato ou circunstância que ela supostamente representa.

Entretanto, o que são as evidencias, provas ou experiências nas quais a Ciência se escora para fazer suas afirmações? Primeiramente é necessário estabelecer um objeto de estudo, uma metodologia, uma coleta de material e trabalho de campo. Todos os itens são catalogados, separados e discriminados em suas características. A isto se chama amostragem, geralmente muito pequena se considerarmos o conjunto total. Esta amostragem é medida, pesada, dissecada para então ser colocada dentro de uma característica de conveniência. Então, cada evidencia até então apenas demonstra a existência da mesma dentro de um conjunto de realidade. O próximo passo é o de tentar comparar entre as amostragens e ver alguma similaridade, algum padrão entre as amostras ou resultados nos exames para, através de fórmulas e estatísticas, se definir o que se chama de leis da Ciência.

Qual é a "realidade" dos ateus? - A inexistência de Deus.

O Paraíso, para o ateu, é esta ilusão de ser mais racional, inteligente, lógico do que outras pessoas, simplesmente pelo fato de se dizer ateu.

O descrente, quando acuado em seus próprios argumentos, ou tropeçado nos exemplos que este mesmo usa para suas analogias, entra no mesmo raciocínio circular muito comum de se encontrar entre evangélicos.

O que se pode aprender ao percebermos a ciência como parte do contexto histórico é que mesmo ela é produto de uma concepção, de um padrão, de uma norma, de uma visão de mundo.

A maior dificuldade ao conceituar e ver quem são os Deuses e Deusas está em nossa percepção, que é finita e imprecisa, nós tendemos a ver a aparência/embalagem e não procuramos ver o conteúdo/essência.

Deus [ou pelo menos aqueles que sejam dignos deste título] não promete um mundo confortável e agradável, aprazível unicamente às necessidades humanas. Isto é aquilo que apenas "amigos imaginários" fazem. Discutir ou definir a existência de Deus nestes termos é incoerente, ilógico, irracional e um completo absurdo.

Há que se explicar muitas coisas quando se fala em Paganismo. Espera-se muitas coisas de nossos Deuses que Eles nunca, ao contrário do Deus Cristão, prometeram. Há que se ler na história, de forma séria e honesta, o que os Deuses Antigos nos davam, o que Eles esperavam de nós e o que nossos antepassados fizeram por Eles.

Uma coisa é certa: os Deuses Antigos nunca prometeram aos seus adoradores uma falsa paz, um falso amor, uma falsa salvação, uma falsa redenção. Eles nunca prometeram que a vida seria mais fácil ou mais branda se nós os adorássemos. Eles nunca nos condenaram nem nos julgaram por nossas falhas, jamais agiram como padrastos que apenas acusa a paternidade quando convém ou quando há uma obediência cega.

O que o ser humano (crente ou descrente) deveria perceber é que os mitos e das religiões não são (ou não deveriam ser) as donas da Verdade, mesmo porque a Verdade é dona de si mesma. Os mitos e as religiões são sistemas, como a Ciência, que aponta os indícios através dos quais se pode ter um vislumbre da Verdade.

A mitologia e a mitografia migrou do imaginário popular para a nobreza e para o clero, de onde vem a concepção moderna estereotipada da imagem do unicórnio. Sua origem e existência há muito foi integrada no imaginário, perdendo sua referência com a biologia das espécies e no mundo asséptico, estéril e mecanicista do ateu, qualquer coisa que não se encaixe ou não passe pelo escrutínio da ciência, o unicórnio é relegado a uma figura fantástica, impossível e improvável de existir, mera superstição e crendice, que deve ser expurgada. Impossível calcular a perda cultural que a humanidade teria se por acaso essa convicção se tornasse uma verdade absoluta e inquestionável.

No fundo, o transeunte apenas busca as mesmas coisas que nós. Quer respostas, quer conforto, quer segurança, quer ter uma ideia do que pode vir a seguir, quer ter a ilusão de que "sabe" de tudo e que tudo está sob seu controle.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A estética dos mitos

A noção de belo está presente nos mitos antigos. Este conceito varia conforme a cultura, a sociedade e a época. O que é belo sofre de variações dentro de uma mesma cultura conforme a idade de quem aprecia e de quem é apreciado.

Quando nos deparamos com os mitos clássicos, tal como herdamos de Hesíodo, devemos perceber que o mitógrafo reuniu os mitos conforme a concepção da época e refletiu a estética social e política da antiga Atenas. Chama a nossa atenção principalmente os mitos conturbadores e conflitantes dos Deuses anteriores aos Deuses Olimpianos, os Deuses Antigos, Deuses que chamamos Ctônicos.

Oriundos de Deuses ainda mais antigos e mais aterrorizantes e que geraram os Deuses do Olimpo, são Deuses abstratos, não tem uma definição, mas antes um fenômeno ou uma circunstância natural. Por sua essência e natureza obscura, são temidos e descritos muitas vezes como monstros. No entanto, sem a existência destes Deuses, sem que cumprissem com o que o Destino e a Fortuna lhes prescreveram, não surgiriam os Deuses dourados do Olimpo e não teria surgido a humanidade.

Um caso bem problemático e emblemático são as Górgonas, as Gréias e Equidna.

Fórcis é uma divindade marinha da mitologia grega. Filho de Pontos, deus do Mar e de Gaia, deusa da Terra. Casou-se com sua irmã Ceto, que engendrou filhos monstruosos: as Górgonas, Ladão, as Gréias e Equidna, a ninfa víbora. [Wikipédia]

Ceto é uma das divindades marinhas filhas de Pontos, Titã do Mar e de Gaia, a Mãe Terra. O nome Cetus, que significa "monstro", é como os antigos gregos denominavam as baleias, que para eles eram monstros marinhos.

Segundo Hesíodo, em sua Teogonia, Ceto era uma deusa extremamente bela que gerou filhas belas porém perigosas e odiadas pelos deuses.

Todavia, como é comum às divindades marinhas, Ceto possui um aspecto dual: enquanto era considerada dona de uma beleza divina, também eram vista com um monstro abissal capaz de gerar outros monstros iguais a si: as Górgonas, as Gréias e o dragão insone Ladão. Já Equidna, também sua filha, era uma criatura ambígua, com tronco de uma bela ninfa e cauda de serpente em lugar dos membros.

Ceto é então a personificação dos horrores e formas estranhas, coloridas e exuberantes que o mar pode produzir e revelar para os homens. [Wikipédia]

As primeiras gerações divinas tiveram diversas entidades monstruosas, porém em sua maioria eram apenas a personificação de alguns aspectos selvagens e violentos da natureza em seus instáveis primórdios. Os "monstros" propriamente ditos, por outro lado, eram somente feras violentas e perversas, nocivas à humanidade. Segundo a tradição, todos vieram da linhagem de Fórcis, gerados através de Equidna. [Grécia Antiga]

Górgonas eram divindades muito antigas e que já existiam quando Zeus assumiu o controle do Universo. Havia três Górgonas (Esteno, Euríale e Medusa) e três Gréias (Ênio, Pêfredo e Dino). [Grécia Antiga]

A Górgona é uma criatura da mitologia grega, representada como um monstro feroz, de aspecto feminino, e com grandes presas. Tinha o poder de transformar todos que olhassem para ela em pedra, o que fazia que, muitas vezes, imagens suas fossem utilizadas como uma forma de amuleto. A Górgona também vestia um cinto de serpentes entrelaçadas.

Na mitologia grega tardia, diziam-se que existiam três Górgonas: as três filhas de Fórcis e Ceto. Seus nomes eram Medusa, "a impetuosa", Esteno, "a que oprime" e Euríale, "a que está ao largo". Como a mãe, as Górgonas eram extremamente belas e seus cabelos eram invejáveis. [Wikipédia]

Medusa foi trazida para a Grécia da Líbia, onde as Amazonas líbias a adoravam como a Deusa Serpente. A Medusa (Metis) correspondia ao aspecto destruidor da Grande Deusa Tríplice Neith também chamada de Anath, Athene ou Athenna na África do Norte e Athana em1400 AC, em Minos, Creta.

A Medusa tinha originalmente o aspecto da deusa Atena da Líbia onde ela era a Deusa Serpente das Amazonas. Seu rosto era oculto e pavoroso. Estava escrito que nada nem ninguém poderia levantar seu véu, e todo aquele que se atravesse a fazê-lo morreria instantaneamente. Foram os gregos que separaram Medusa de Atena e as tornaram inimigas. [Alta Sacerdotisa]

Gréias: Mulheres velhas, nome de Dino, Ênio e Péfredo, filhas de Fórcis e Ceto e irmãs das Górgonas, com as quais eram frequentemente confundidas. Já nasceram velhas. Todas as três, em conjunto, possuíam um só dente e um só olho, dos quais se serviam alternadamente. [Wikipédia]

O mito dessas Deusas ctônicas apenas nos é conhecido devido o mito de Perseu, um mito olímpico que se tornou mito da origem e identidade da Atenas antiga. Para a orgulhosa e soberana urbe, era uma questão social e política confirmar a supremacia de Atenas, confirmando a supremacia dos Deuses olimpianos. Essa tarefa coube a Hesíodo que recolheu, dos mitos dos Deuses Ctônicos, aqueles que o ajudassem na tarefa.

Os Gregos antigos não foram os únicos povos que tiveram um enorme trabalho em reformar sua mitografia para agradar os poderosos da época. Em diversas culturas e épocas é comum ver Deusas Serpentes serem mortas por um herói predestinado, por ser descendente do Deus Regente [ligado por descendência aos patriarcas e fundadores da urbe], mas isto não resolve o enigma da origem destes mitos, mais antigos, anteriores e pertencentes a algum povo dominado ou vencido pelos novos senhores.

Essa Legenda Aurea foi imitada pelos mais diversos senhores que tomaram o poder ao longo da história da humanidade e os casos mais patológicos são as religiões oriundas do monoteísmo abraâmico. Controversos e desafiadores, os Deuses Ctônicos nos lembram que as estruturas de poder, de ordem, de sociedade são artificiais e humanas. Negamos ou tentamos reformar esses mitos para se adequarem a uma visão de mundo limitada, como se estas estruturas, essas ilusões que criamos e produzimos, nos deixassem mais seguros, mas mesmo os mitos clássicos nos mostra que nossa carne foi feita das cinzas destes Titans, ou seja, em nós habita a luz e a sombra. Nosso cosmo, nosso mundo, nossa natureza, nossa essência, são reflexos desta realidade divina. Assim como vemos o belo, vemos o mal apenas porque este está nos olhos de quem vê.