quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O fantasma na concha

Deleuze e Guattari descrevem, no Anti Édipo, conceitos de filosofia e psicanálise bem provocantes.

Para os autores, o ser humano, a sociedade, o governo, são máquinas desejantes. Para compreender a obra, temos que considerar que órgão se refere tanto as partes que formam um corpo quanto as partes que formam uma maquina. Portanto, nós, humanos somos máquinas naturais e os aparelhos são máquinas artificiais.

A provocação consiste quando inserimos que a maquina tem uma função que é a de produzir algo. Uma maquina deixa de ser funcional quando suas partes (órgãos) estão quebradas, defeituosas, desreguladas, desgastadas. Para cada máquina e problema, existem técnicos para produzir o conserto ou substituição da peça.

Nós vemos constantemente no serviço uma placa avisando: “em manutenção”. Em inglês, o sentido fica mais interessante: “out of order”. A provocação fica evidente quando passamos das maquinas artificiais para as maquinas naturais.

O que fazemos com um indivíduo, uma pessoa, quando ela fica “fora de ordem”? Nós a mandamos, ou para a prisão, ou para o manicômio. Com esse sentido, aqui entramos no assunto do livro, a psicanalise e a preocupação dos autores em indicar os motivos pelos quais nós maquinas piramos: pelos desejos que produzimos. Por isso que falam em maquinas desejantes.

O sistema, outra maquina desejante, formada pelas maquinas desejantes chamadas sociedade e governo, funciona de forma cruel e sádica. Ora instiga, provoca e patrocina o desejo. Ora limita, proíbe e reprime o desejo. Por isso que falam que o capitalismo é esquizofrênico.

O que há de tão misteriosos, místico e perigoso nesse tal de desejo, que pode produzir tanto o recalque quanto o fetiche, pode produzir tanto o reacionário quanto o revolucionário?

Não é mera coincidência que o título desse texto seja uma referência ao anime “Ghost in the Shell”. O desenho não é explícito, mas dá a entender que, em um futuro utópico, androides enlouqueceram porque desenvolveram uma alma humana. Seria o desejo a alma, a essência humana?

Quanto a isso, a cultura oriental se sai melhor do que a ocidental. No oriente, todas as coisas possuem um espírito. No ocidente existe apenas o niilismo. No oriente, o sexo é visto como algo normal, natural e saudável. No ocidente ainda somos assombrados pela esfinge de Édipo e tentamos matar toda forma de espiritualidade para resolver nossos problemas com a figura paternal.

sábado, 13 de setembro de 2014

Laico "sem deus"

Navegando pela internet eu encontrei um site chamado Atheist Nexus e ali eu encontrei uma curiosa camiseta escrita "godless heathen".
De acordo com o dicionário, heathen é: pessoa que adota a religião de um povo ou nação que não reconhece o Deus do Judaísmo, do Cristianismo ou do Islamismo; não convertido; uma pessoa que adotou uma religião neopagã [paganismo moderno] que procura reviver as crenças e práticas dos povos antigos; uma pessoa que é considerada irreligiosa, selvagem ou ignorante.
Há uma grande controvérsia quando um ateu fala do Estado Laico, como se fosse um Estado irreligioso e que não reconhece ao divino. O Estado Laico não é antirreligioso, apenas não possui uma religião oficial e seus dirigentes não são influenciados por alguma organização religiosa. Em suma, o Estado é Laico porque o assunto da religião pertence ao leigo, à pessoa comum, não ao clero ou a uma organização religiosa. Algo bem diferente do que alguns ateus militantes, com Richard Dawkins tem apregoado, dando a entender que Estado Laico deve ser, necessariamente, ateu.
Uma questão permanece. A pessoa comum, ou uma pessoa simples, uma pessoa da terra, um camponês, é uma pessoa irreligiosa, sem Deus? Se excluirmos quem é declaradamente ateu ou agnóstico, a pessoa comum tem uma forma de espiritualidade difusa. Ainda que frequente os templos das religiões oficiais, o individuo frequenta locais onde se professam crenças e práticas alternativas, demonstra interesse ou curiosidade sobre o esoterismo e o misticismo. No caso das pessoas que preservaram as crenças nativas de seus ancestrais ou que tentam resgatá-las, algumas fazem oferendas e reverenciam um ou mais espíritos da natureza e outras tem um culto voltado a um ou mais Deuses. Para as religiões oficiais e as organizações religiosas que as representam, essas pessoas são pejorativamente tachadas de idólatras, selvagens, ignorantes, consideradas "sem Deus" porque não reconhecem o Deus Cristão, Judeu ou Muçulmano, mas definitivamente não são descrentes nem professam o ateísmo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O canto do sapo

O Sapo de Fora não pode Cantar, diz o ditado.

Mas o Sapo de Fora tem algo a dizer, algo a falar, algo a cantar.

Dizem tanto que a liberdade de expressão e opinião são direitos universais, então não podem censurar o Sapo de Fora.

O Sapo cantou para cristãos e foi enxotado como servo do Diabo.

O Sapo cantou para descrentes e foi enxotado como promotor da superstição.

O Sapo cantou para pagãos e foi enxotado como semeador da discórdia.

Por que o Canto do Sapo de Fora incomoda?

Os sapos são ambíguos por natureza, não são nem aquáticos nem terrestres; não são nem peixes, nem repteis, nem animais.

O Sapo de Fora incomoda porque seu canto perturba os delírios, fala de sinceridade, honestidade, coerência.

O Canto incomoda pela honestidade os cristãos, que vivem em uma hipocrisia e farsa.

O Canto incomoda pela coerência os descrentes, que vivem em uma mitificação e presunção.

O Canto incomoda pela sinceridade os pagãos, que vivem em um narcisismo e vigarice.

Pobre Sapo, por que insiste em Cantar?

Meu cantar é para que acabe o fundamentalismo, crente ou descrente.

Meu cantar é para que acabe o monopólio e privilégio sobre a verdade.

Meu cantar é para quebrar o encanto dos títulos de autoridade.

Meu canto é para tirar a máscara da ovelha que finge ser lobo.

Meu canto é para libertar as ovelhas do falso pastor.

Meu canto é para quebrar as jaulas das organizações religiosas.

Meu canto não busca grandeza, aplauso, reconhecimento.

Meu canto é escândalo porque serve aos Deuses.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Relativismo moral

Muitos textos de cristãos falam bastante de um tal de relativismo moral e usam com frequência para embasar seus argumentos teológicos, políticos, sociais e comportamentais.

Eu dei um bom exemplo disso no texto “A guerra pela ideologia de gênero”.

O que os cristãos querem dizer quando acusam o relativismo moral?

Usando o oráculo virtual [Google] eu achei algumas definições:

Relativismo Moral é uma posição metaética em que o julgamento moral ou de valores variam conforme entidades diferentes como indivíduos, culturas e classes sociais as propõem [Wikipédia]

Metaética é o ramo da ética que procura entender a natureza das propriedades éticas, enunciados, atitudes e juízos. Meta-ética é um dos três ramos da ética geralmente reconhecidos pelos filósofos. Os outros são a ética aplicada e a ética normativa, Teoria ética e ética aplicada formam a ética normativa. A meta-ética tem recebido considerável atenção dos filósofos acadêmicos nas últimas décadas.

Enquanto as éticas normativas formulam seguintes questões como “O que alguém deve fazer?”, endossando assim alguns juízos éticos de valor e rejeitando outros, a meta-ética formula questões como “O que é o bem?” e “Como podemos dizer o que é bom e o que é mau?”, procurando entender a natureza das propriedades e avaliações dos enunciados éticos.

Algum teóricos afirmam que certas considerações metafísicas sobre a moral são necessárias para uma correta avaliação de teorias morais atuais e para a tomada de decisões acerca da moral prática. Outros argumentam com premissas contrárias, afirmando que nossas ideias morais advêm de nossas intuições na tomada de decisão, antes de termos qualquer senso de uma moralidade metafísica. [Wikipédia]

O relativismo moral é a visão de que as afirmações morais ou éticas, que variam de pessoa para pessoa, são todas igualmente válidas e que nenhuma opinião sobre o que é "certo e errado" é melhor do que qualquer outra. O relativismo moral é uma forma mais ampla e mais pessoalmente aplicada de outros tipos de pensamento relativista, tal como o relativismo cultural. Estes são todas baseados na ideia de que não exista um padrão definitivo do bem ou do mal, por isso cada decisão sobre o que é certo e errado acaba sendo um puro produto das preferências e ambiente de uma pessoa. Não existe um padrão definitivo de moralidade, de acordo com o relativismo moral, e nenhuma declaração ou posição pode ser considerada absolutamente "certa ou errada", "melhor ou pior". [Tudo sobre filosofia]

Pode ser que o relativismo moral tenha sido postulado tendo por princípio a Teoria da Relatividade de Einstein, mas no campo da moral e da ética. A questão então é porque isto incomoda o cristão.

O cristão parte da seguinte presunção:

Religiosos acreditam nos valores morais objetivos porque acreditam que a moral vem da própria natureza de Deus. E como Deus transcende tempo, espaço, matéria e energia, segue-se que a moral também é transcendente. Por isso, ela está acima de cultura e de contextos espaço-temporais. Por isso é que em qualquer parte do mundo e em qualquer época torturar um homem, estuprar uma mulher e queimar uma criança são consideradas atitudes objetivamente erradas. Elas são erradas e seriam erradas mesmo que toda a sociedade praticasse isso com naturalidade. Pelo mesmo motivo, alimentar o faminto e ajudar o necessitado são consideradas atitudes objetivamente corretas. A noção de valores objetivos, de certo e de errado, advém da noção de uma moral transcendente. [Mundo Analista]

O livro de Juízes nos adverte sobre o relativismo moral, ou seja, o comportamento baseado nas opiniões humanas. A Bíblia nos ensina que os padrões para o comportamento humano são dados por Deus. Sozinhos, os seres humanos vão sempre falhar em viver dentro desses padrões. Mas com a ajuda de Deus e a sua graça podemos descobrir qual é a sua vontade para que andemos de forma reta. [A Fé Explicada]

Aqui surgem dois problemas:

1) A Bíblia contém passagens que são moral e eticamente discutíveis.

2) O cristão tem comportamentos que são moral e eticamente discutíveis.

Portanto, como o cristão pode alegar que existem valore morais e éticos definidos se sua base sagrada e seu comportamento são dúbios? Portanto, se há alguém que pode ser acusado de ter relativismo moral é o cristão.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Tentação ou iniciação?

Eu acabei de ler O Anti Édipo de Gilles Deleuze e Felix Guattari. Um livro que é excessivamente hermético, repetitivo e uma contradição ao título. O que mais os autores falam é de Édipo sem, no entanto, propor uma forma de exorcizar ou superar Édipo.

Resumindo o livro, o Complexo de Édipo é a raiz dos problemas, tal como Freud descreveu, dos recalques e das repressões sexuais, usando o personagem da tragédia grega. Para Deleuze e Guattari, Édipo tornou-se um totem e ficamos tentando resolver a esfinge ao invés de resolver a causa do enigma. Para a psicanalise, tudo se resume ao triângulo [amoroso] contido na tragédia de Sófocles, onde a raiz do problema do neurótico, do paranoico e do recalcado é essa relação mal resolvida entre uma figura paterna e o amor proibido por uma figura maternal.

Eu vou dar um desconto a Freud, visto que essa leitura do mitopoético como meras figuras arquetípicas é uma característica fundamental da psicologia e da psicanálise, como podemos perceber nos trabalhos de Carl Gustav Jung. Eu recomendo aos pagãos modernos, estudantes dos mitos, das religiões antigas, que leiam o original.

A tragédia de Sófocles nos conta da saga da Dinastia dos Labdácidas, uma geração amaldiçoada por causa da profanação de Lábdaco ao santuário de Dioniso. A tragédia de Sófocles é uma crítica ao poder conquistado por um usurpador, quando Lábdaco morreu, o trono de Tebas foi tomado pelos tiranos Anfião e Zeto. O legitimo sucessor, Laio, foi exilado na Frígia, onde conheceu e enamorou-se por Crisipo, o príncipe herdeiro.

Para viver seu amor, Laio armou um plano: ofereceu-se para escoltar o rapaz até os jogos de Neméia, onde ele iria participar como atleta. Após as competições, em vez de retornar à Frígia, Laio raptou Crisipo e fugiu para Tebas, onde pretendia recuperar o trono de seu pai. Furioso, Pélope perseguiu-os, mas Crisipo, temendo a humilhação e a punição do pai, além de instigado por seus meio-irmãos Atreu e Tiestes, cometeu suicídio atirando-se num poço. Por ter perdido o herdeiro, Pélope culpou Laio e lançou sobre ele uma maldição: se tivesse um filho, seria morto pelo próprio e sua descendência sofreria consequências trágicas.

Laio continuou vivendo em Tebas, onde conheceu a jovem Jocasta (irmã do nobre Creonte) e se casou com ela. Após a morte dos tiranos Anfião e Zeto, Laio foi chamado pelos cidadãos a assumir o trono e, assim, a dinastia labdácida foi reconduzida ao poder. Por causa da maldição, tentou evitar ter filhos e, quando nasceu o primogênito, mandou furar-lhe os pés e abandoná-lo no Monte Citerão. Mas o bebê acabou recolhido por um pastor e batizado como Edipodos (o de pés furados), ou Édipo.

De acordo com a mitologia, a maldição de Pélope, conhecida como "Maldição dos Labdácidas" (a dinastia tebana iniciada com Lábdaco), foi concretizada quando o filho de Laio, Édipo, matou o pai e desposou a própria mãe, Jocasta, sem saber. [Wikipédia]

A sucessão do trágico destino da dinastia não foi uma consequência da profanação, nem da homossexualidade, nem do incesto. A trilogia trágica de Sófocles não tem interesse algum em explorar a sexualidade humana, seu objetivo é criticar a corte real, a aristocracia e a vergonhosa luta pelo poder.

Édipo não serve como modelo para a raiz dos problemas da humanidade com a sexualidade. Ele mesmo é um anti-Édipo, pois ignorava que a mulher com quem ele casou era sua mãe. A tragédia existe unicamente quando há a revelação pelo Oraculo de Delfos e o complexo existe unicamente quando acontece sua codificação pelo Oráculo de Freud.

O problema da civilização ocidental com a sexualidade vem de outra origem, nos mitos contidos no Cristianismo. Esse legítimo Frankenstein religioso tem em seu cerne a raiz dos problemas da humanidade, da civilização ocidental. O dogma e doutrina da Igreja estão cheios de puritanismo, sexismo, misoginia, aversão ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo. Na civilização oriental, as raízes dos problemas com a sexualidade estão nas outras formas de monoteísmo abraâmico, o Judaísmo e o Islamismo. Eu poderia exagerar e afirmar que o problema dessas religiões tem origem na necessidade obsessiva de possuir, de ter a Verdade. O próprio sentido de que estas crenças são baseadas em um texto sagrado supostamente inspirado ou ditado por Deus ignora que a mensagem é uma metáfora.

Freud não precisava recorrer aos clássicos da tragédia grega. Ele teria mais sucesso se remetesse o problemático e emblemático tabu do incesto entre o filho e a mãe [ou entre a filha e o pai] ao mito do Éden. A complexa e complicada relação entre Adão, Eva, Caim e Abel ultrapassa a tragédia de Sófocles. Adão foi criado pelos Elohim, como primeiro humano ele é pai e filho. O Livro de Gênesis em seu primeiro capítulo diz que tanto homem e mulher foram criados juntos. Seria isso uma metáfora que o primeiro humano era hermafrodita? No segundo capítulo do Livro de Gênesis, Eva foi retirada da costela de Adão. Adão, homem, deu a luz? Eva é a filha e a mãe, Adão comete incesto com a própria filha e gera Caim e Abel. Eva é a Mãe da Humanidade, então Adão cometeu incesto também com a Mãe. Se isto é bastante complicado, como podemos entender a Cidade de Nod e seus habitantes? Seriam eles os filhos de Eva com Caim e Abel? Isso deixa Freud e Édipo no chinelo. O curioso é que todos os dogmas e doutrinas da Igreja estão baseados no Pecado Original, outro mito que parece uma comédia diante dessa suruba primordial.

Descendentes e seguidores de Abraão, Isaac e Jacó tinham a necessidade de explicar ou racionalizar o problema do mal, do sofrimento e tiraram o pecado da cartola de Deus. Mas como encaixar o pecado na saga da humanidade se tudo foi criado por Deus? O recurso nada original foi o de escolher um bode expiatório, ou melhor, uma serpente, que ofereceu o fruto da Árvore do Conhecimento para Eva. Solução que suscita mais problemas, afinal, porque Deus criaria a Árvore do Conhecimento, a Serpente e colocariam ambos no Jardim do Éden, junto com Adão e Eva? Por que Deus seria contra o Conhecimento? Seria algum tipo de prazer sádico do Deus Bíblico? Ou será que os rabinos, ao reescreverem a Torah, tinham se esquecido da verdadeira origem e significado desse mito?

Os Judeus, os Muçulmanos e os Cristãos tentam racionalizar suas crenças sem êxito porque perderam há tempos suas origens, suas linhagens, suas ancestralidades e suas crenças originais. Todas as religiões monoteístas se originaram das antigas religiões politeístas, seus mitos, seus Deuses, seus mistérios e rituais.

O que mais podemos observar nas religiões antigas e nos mistérios antigos são Deusas Serpentes, árvores místicas e frutos entógenos na busca pelo Conhecimento. Também era muito mais comum na antiguidade que os templos eram liderados por sacerdotisas que eram responsáveis pela iniciação dos sacerdotes. Parece-me muito mais interessante ver Eva não como a causadora da queda da humanidade, mas como a suma-sacerdotisa que recebeu o Fruto do Conhecimento da Árvore do Mundo pela benção de uma Deusa Serpente, para o nosso bem e para completarmos nossa missão nesse mundo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O que é Bruxaria Tradicional?

Por Sara Amis, no Patheos.

Este blog, segundo me disseram, é para ser sobre bruxaria tradicional. Ou Bruxaria Tradicional, conforme diz lá no título. No entanto, surge imediatamente uma pergunta, que é: “O que você quer dizer com isso?”

A primeira coisa que eu quero estabelecer é que termos podem ter vários significados. No entanto, isso não significa, como o Humpty Dumpty, nas Aventuras de Alice, que você pode simplesmente fazer uma palavra significa o que quiser. A linguagem é usada para se comunicar. Como corolário, as palavras significam o que as pessoas usam para dizer, não o que alguém pensa que elas supostamente estão dizendo.

Você pode usar o termo "Bruxaria Tradicional" para significar "uma tradição linear de bruxaria religiosa", ou seja, qualquer tradição que exige iniciação para ser considerado um membro de pleno direito. No entanto, isto é praticamente o que significa todas as tradições religiosas de bruxaria, o que deixaria de fora grupos como Reclaiming em que a iniciação é opcional. "Tradições iniciáticas de bruxaria" é um termo muito mais claro, se você quiser fazer a distinção.

Grupos da Wicca Tradicional Britânica tem usado o termo para diferenciar-se das tradições "neo-Wicca", que são muitas vezes ecléticas e não tem uma ligação direta com a Wicca Gardneriana. No entanto, parece-me que "Wicca Tradicional Britânica" funciona muito bem para isso. Em todo caso, eu não tenho fortes objeções a essa definição, desde que, é claro, no contexto que você está falando.

Outra definição é "tradições iniciáticas de bruxaria sem a influência Gardneriana", um grupo que inclui Anderson Faery, o Clã de Tubal-Caim, o Cultus Sabbati, 1734, e assim por diante. Essas tradições, ao mesmo tempo distintos, têm algumas semelhanças de teologia, prática e o que se poderia chamar de sensibilidade, e é útil para ser capaz de agrupá-los de uma forma que não basta defini-los como "não Wicca".

No entanto, isso deixa de fora outro grupo importante, que eu chamaria de bruxas tradicionais, com t e b minúsculo. Isto inclui os praticantes de hoodoo, curandeirismo, stregheria, e todas as outras práticas de magia popular em todo o mundo. Curiosamente, este grupo é, provavelmente, o mais numeroso e aquele com uma afirmação mais sólida para uma longa história. Quando falamos de "bruxaria" antes do século 20, queremos dizer magos populares deste tipo. Não há muita evidência de que quaisquer das modernas linhagens de bruxaria existiam antes de 1930. Isso não significa de que eles não têm, mas quando você está falando de história, é importante fazer a distinção entre o que você pode provar e que você não pode.

Existe uma relação muito forte e fecunda entre bruxas tradicionais "com b maiúsculo” e "com b minúsculo", mas a sobreposição está longe de ser exata e, enquanto não há um parentesco, há certa quantidade de tensão. Bruxas tradicionais da Europa e da América do Norte que praticam hoodoo, pow wow, etc, são mais frequentes do que não cristãos e, enquanto as próprias tradições têm (algumas) origens pré-cristãs, durante os séculos seguintes se tornaram fortemente sincretizado com o cristianismo. Tradições de outros países nas Américas, do mesmo modo, embora as influências dos sistemas de crenças indígenas americanas e africanas, são geralmente mais visíveis. A bruxaria religiosa quando recorre a estas tradições geralmente tem dificuldades para tirar o brilho cristão. É tentador acreditar que estamos apenas restaurando práticas para sua glória original e, em alguns casos, não é preciso muito esforço. No entanto, devemos lembrar que, a fim de descobrir o que presumimos ser original, nós temos que “pular amarelinha” sobre o trabalho e as crenças de muitas gerações.

Outra fonte de tensão é a diferença de classe. No início da Era Moderna da Europa, você tinha cerca de dois tipos de pessoas usando magia: homens de classe alta fazendo magia hermética dos grimórios, que muitas vezes também era o clero, e os homens e mulheres de classe baixa que faziam curandeirismo e afins. O primeiro utilizava ferramentas caras, especiarias raras, livros e geralmente estavam em busca de algum objetivo da "alta magia", como o aperfeiçoamento de suas almas. Os últimos, muitas vezes eram pobres (ou, no máximo, fazendeiros livres), usavam qualquer material que tinham à mão e seus objetivos eram [em geral, mas não exclusivamente], pragmáticos: curando os enfermos, encontrar itens perdidos, e assim por diante.

Como consequência do Renascimento Ocultista no final do século 19 (na maior parte um fenômeno de classe superior) e sua influência no desenvolvimento do Paganismo Moderno, a Bruxaria Tradicional pode ter às vezes uma tendência de se parecer mais com o magister empoderado pelo grimório do que o homem ou mulher sábio. Livros encadernados à mão são caros e bonitos, mas também são um impedimento econômico. A ênfase no auto desenvolvimento, mais a necessidade de, pelo menos, ter uma renda de classe média para custeá-lo, coloca a bruxa tradicional mais próxima de outros pagãos e da Nova Era e mais longe da prática popular, do que gostaríamos de acreditar. Enquanto isso, as tradições folclóricas continuam a trabalhar debaixo do radar. Longe de desaparecer, eles estão onde sempre estiveram: nos remansos, entre os pobres e marginalizados, escondidos à vista de todos em geral. Às vezes pode parecer que esses dois tipos de bruxas existem em planetas completamente diferentes e, no futuro, eu pretendo explorar algumas de suas diferenças na sensibilidade e visão de mundo, bem como suas ricas confluências evocativas.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A origem da vida

A humanidade sofreu demais com o monoteísmo abraâmico. Por suas características exclusivistas, o monoteísmo abraâmico causou massacres, guerras, perseguição, tortura, genocídio e outros crimes. A crise no Oriente Médio entre Judeus e Palestinos é um sintoma do quanto essa forma de crença é perigosa para a humanidade. Eu devo lembrar que o Deus Cristão não é o nosso Deus. Nós não podemos nem iremos fechar essas feridas transformando a Deusa em uma inversão travestida do Deus Cristão.

No Patheos, Erick DuPree publica um artigo que levanta uma discussão crucial no Paganismo Moderno que deve ser discutido se queremos manter nossa liberdade e diversidade.

O artigo de Erick comete um erro que é comum em textos focados na Deusa, esquecendo-se do Deus e de tantos outros Deuses.

No primeiro paragrafo, Erick escreve:

“Recentemente, um homem disse ‘ Ele é o Doador da Vida! ’ E eu pensei, certamente, se isso te agrada, mas eu sei que eu nasci de uma mulher.”

Eu comentei no Patheos:

“Sem o seu pai, você seria apenas uma ideia na cabeça de sua mãe.”

Erick continua seu texto:

"Para nós, a Deusa do êxtase monista é o vaso imanente que habita dentro de cada um de nós e que somos nós, Ela que é a totalidade de tudo e nada. Eu dou a esta ressonância, pulsação da energia o gênero 'Ela', mesmo que isto esteja além do gênero, porque a ciência tem provado que toda a vida é nascida do sexo feminino."

Eu comentei no Patheos:

“Quando Erick diz que a Deusa é Tudo, é a mesma coisa que os Cristãos, Mulçumanos e Judeus dizem sobre o Deus deles. Portanto, ele está dizendo que tudo o contrário é apenas um disparate, como dizem as principais religiões monoteístas. Eu analisei as alegações dele e o argumento dele não se sustenta. O texto dele é um desrespeito a outras teologias com a Santa Ameba dele. O texto dele afirma que toda a vida nasce da mulher - isso é muito parecido com o Criacionismo, uma pseudociência que o Cristianismo tem. Ele afirma que a Deusa está além de sexo, esta é a mesma visão tendenciosa sobre o sexo que o Cristianismo tem.”

O cenário do paganismo moderno está dominado por esse excessivo enfoque na Deusa, uma forma velada de monoteísmo, tornado popular pela Neo-Wicca e pelo Dianismo. Se quisermos que o Paganismo Moderno seja levado a sério, nós temos que ser coerentes com as características, definições, princípios e valores de nossas crenças.

Dizemos em nossos rituais na Carga do Deus:

“Eu sou o Doador e o Ceifador, eu tenho as Chaves da vida.”

E na Carga da Deusa:

“Pois Eu sou a Alma da Natureza que dá vida ao universo.”

Essa aparente contradição é resolvida pelo mistério do Grande Ritual. A Deusa é o Ventre e o Túmulo, Ela é o Campo para ser arado. O Deus é a Lança e o Arado, ele é o Semeador. Sem o Hiero Gamos, não existiria o universo, a vida e a humanidade.