quarta-feira, 27 de maio de 2015

O muro de Zul Karnain

94.Disseram-lhe: Ó Zul Carnain, Gog e Magog são devastadores na terra. Queres que te paguemos um tributo, para que levantes uma barreira entre nós e eles?
95.Respondeu-lhes: Aquilo com que o meu Senhor me tem agraciado é preferível. Secundai-me, pois, com denodo, e levantarei uma muralha intransponível, entre vós e eles.
96.Trazei-me blocos de ferro, até cobrir o espaço entre as duas montanhas. Disse aos trabalhadores: Assoprai (com vossos foles), até que fiquem vermelhas como fogo. Disse mais: Trazei-me chumbo fundido, que jogarei por cima.
97.E assim a muralha foi feita e (Gog e Magog) não puderam escalá-la, nem perfurá-la.
[Corão Sagrado, Surata Al Cahl]
O Corão Sagrado, tal como a Torah e a Bíblia, está cheio de referências indicando as raízes pagãs desta religião de livro. Por exemplo, o resquício de três Deusas que resistiram ao reformismo religioso do Profeta:
19 Considerai Al-Lát e Al-Uzza.
20 E a outra, a terceira (deusa), Manat.
[Corão Sagrado, Surata Na Najm ]
Gog e Magog são nações que estão igualmente presentes nos textos proféticos da Torah e estão presentes no Apocalipse e em todos os casos estas nações estão vinculadas ao Fim dos Dias. Quando o Corão passou a ser escrito, foram usados trechos destes outros textos sagrados para emprestar a impressão de fidelidade. Mas e quanto a Zul Carnain?
Zul Carnain significa, literalmente, "aquele de dois chifres ou cornos", o rei com os dois cornos, ou o Senhor das Duas Épocas. A identidade de Zul Karnain é um mistério, pode ser uma referência a um rei ou pode ser mais uma referência a um Deus que existia antes do Profeta.
Alguns analistas acreditam que Zul Karnain pode ser Ciro da Pérsia ou Alexandre o Grande. A identidade de Zul Karnain pode estar associada a muitos dos Deuses dos povos que precederam a reforma religiosa empreendida pelo Profeta e neste sentido temos os Deuses dos Árabes, dos Persas, dos Fenícios, dos Acadianos e dos Sumérios. No Oriente Médio os Deuses eram representados portando chifres, enquanto na Ásia Menor o touro sempre acompanhava uma Deusa.
Karnain tem a mesma raiz de Kern e Hern, uma palavra de origem indo-europeu que não apenas denotava chifre, mas também poder, realeza e um antigo Deus Touro, de onde origina Kernunnos e Herne. Curiosamente, Shiva, ao se manifestar como o Senhor das Feras, assume a forma de Pashupati, que no vale do rio Indus é representado com uma enorme semelhança a Kernunnos. Alto relevos com cabeças de touro em diversos templos na Ásia Menor e no Oriente Médio mostram que provavelmente este Deus Touro era tão antigo e tão venerado como a Grande Mãe.
Um muro não era construído apenas para separar ou proteger uma cidade de invasores. A fundação de uma cidade, o próprio fosso escavado para o alicerce da urbe, tinha uma função sagrada e divina, como acontece no mito da fundação de Roma. Havia a necessidade de demarcar o profano e o sagrado, estabelecer um limite entre cidade e campo, entre humano e divino. O ato de escavar a terra remetia aos mitos de criação do mundo, o arado [cujo significado fálico o liga ao deus Touro] abria o solo [cujo significado telúrico o liga à Deusa Mãe] e propiciava a colheita assim como o Hiero Gamos propiciara a criação do mundo.
Este é o significado de lançar o círculo no ritual wiccano, mais do que separar, mas de demarcar o mundo além do mundo, o tempo além do tempo. Para entrar no mistério que é celebrado nos rituais wiccanos, o celebrante deve empreender a jornada para o interior do labirinto, levantar o véu da ilusão, encontrar o Deus Touro e unir-se com a Deusa Serpente.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Diferença entre tradição e costume

Yvonne Aburrow escreveu no Patheos na coluna Sermons from the Mound:
“Tradição é algo que cresce e evolui. Não está gravado na pedra, mas é mais como um discurso; se você começa com uma séria de premissas, ideias e valores, você desenvolverá ideias e práticas que são consistentes com o conjunto inicial. Tradições religiosas evoluem de acordo com as circunstâncias sociais, culturais e políticas”.
Eu tenho que discordar. A autora está confundindo tradição com costume.
Parodiando um comentário meu:
A tradição não evolui. As espécies evoluem. Por processos ditados pela natureza. Uma tradição não é um organismo. A tradição não mudou, foram os hábitos e costumes das pessoas que são membros ou sacerdotes das mesmas que mudaram.
Tradição (do latim: traditio, tradere = entregar ou "passar adiante"), é a continuidade ou permanência de uma doutrina, visão de mundo, costumes e valores de um grupo social ou escola de pensamento.
Ao nível da etnografia, a tradição revela um conjunto de costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças, lendas, música, práticas, doutrinas e leis que são transmitidos para pessoas de uma comunidade, sendo que os elementos passam a fazer parte da cultura.
Designam-se como costumes as regras sociais resultantes de uma prática reiterada de forma generalizada e prolongada, o que resulta numa certa convicção de obrigatoriedade, de acordo com cada sociedade e cultura específica. [Wikipédia]
Costuma-se comparar a escravidão ou outro exemplo de costume que tem em uma sociedade, antiga ou moderna, que são mantidos em nome da tradição. Costumes existem para satisfazer necessidades sociais e políticas de um determinado período, tradição é um conjunto maior que pertence à cultura de um povo, conjunto este que somente se mantém e se preserva quando há um valor universal contido nele.
Juniper Castália escreveu na Amber and Jet:
O Ofício que Gerald Gardner encontrou em suas passagens entre grupos teatrais, sociedades folclóricas e clubes de saúde não é o mesmo Ofício que praticamos atualmente, embora as raízes estão bem visíveis se a pessoa é iniciada e treinada de uma forma que mostre e preserve isso.
Os pedaços que Gardner encontrou e que seus iniciados desejam perpetuar são os pedaços que sobreviveram mais coisas que bruxas de outras fontes trouxeram a ele ou a seus iniciados e foram incluídos para o que se tornou as Tradições.
Os pedaços que ainda são praticadas e ensinadas, ainda existem e podem ser revividas. Quando uma prática não é mais ensinada, os iniciados seguintes não sabem o que fazer se devem aprender, ocorreu uma evolução e isso não é positivo ou negativo.
A evolução "criou" o gato doméstico. Eu imagino o que o tigre pensa dessa evolução. Um dia não haverá mais tigres, porque nós tiraremos todo o habitat deles. Um dia em um festival [público] alguém irá estranhar a presença de um tradicionalista. Substitua essa tradição por outra e nos tornamos dinossauros ou peças de museu porque os ecléticos se multiplicam rapidamente e poucas das Velhas Bruxas escolhem reencarnar e se juntar a nós novamente.
Portanto, eu acho que mudanças às vezes acontecem por uma falha no esforço, trabalho negligente e o desenvolvimento de hábitos que não são consistentes como o que veio anteriormente.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Apuleio e seu contexto histórico

As fontes que encontramos referentes ao século II são numerosas e riquíssimas.

Neste trabalho, as fontes literárias a respeito das religiões do período serão utilizadas em conjunto com as informações provenientes de monumentos e outros artefatos. Tais fontes devem ser olhadas a partir do contexto histórico em que foram produzidas. Com relação às fontes literárias, particularmente, devemos considerar a tríplice questão da autoria, texto e público alvo, dentro do contexto em que foram produzidas.

As obras literárias não devem ser vistas como fontes descritivas de uma realidade exata, mas sim, obra de um determinado escritor, nem sempre preocupado com a fidelidade na descrição dos fatos. Por outro lado, o escritor não fica alheio a seu período histórico, sendo, então, a literatura fruto de seu contexto social. Enquanto documento histórico, resgata a sociedade antiga, em termos de depoimentos e informações verbais. Assim, o escritor em questão, Apuleio, revela-nos infinitas possibilidades de interpretações e de elementos a respeito da sociedade romana do século II que descreve.

Conhecemos pouco a respeito da vida de Apuleio, embora podemos encontrar traços dela nas obras que deixou, sobretudo na Apologia, Florida e Metamorfoses. Em Apologia, Apuleio revela ter como origem uma província romana na África, provavelmente Madaura, próxima a Numídia. Teria nascido por volta de 125, de família aristocrática, fato que lhe possibilitou inúmeras viagens e uma boa educação. Em sua formação, teria estudado retórica e gramática em Cartago; em Atenas, conheceu a filosofia, se aprofundou no platonismo; e em Roma, teria estudado direito. Portanto, Apuleio era um grande conhecedor das ciências de sua época, dedicando-se também aos conhecimentos religiosos, adquiridos em suas viagens pelo Ocidente e Oriente. A obra De deo Socratis, expõe a teoria neoplatôncia de Apuleio. Em De platone et eius dogmate, Apuleio apresenta um resumo dos cursos de filosofia que freqüentou na época de estudante em Atenas. Em De mundo, trata dos problemas da constituição do universo.

A Apologia, obra retórica, contém informações de extrema importância para o estudo de sua biografia, a auto-defesa da acusação que recebeu por práticas mágicas. Este episódio teria início quando em uma de suas viagens hospedou-se na casa de um amigo, talvez em Trípoli, na África. Acabou casando-se com a mãe desse amigo, a viúva rica Pudentila. Tempos depois, Apuleio foi acusado pela família, de ter usado de magia para seduzi-la e que o teria feito visando sua fortuna. Isso foi um problema para Apuleio, pois a lei local equiparava as práticas mágicas ao envenenamento, e o crime era punido com a morte. Como advogado e bom retórico, Apuleio defendeu-se nos julgamentos, que teriam ocorrido entre os anos de 148 e 161; seus argumentos constituem o eixo central da sua obra Apologia. Apuleio convenceu seus acusadores de que não se utilizou da magia para o casamento, por outro lado, não os convenceu que não praticava a magia, devido ao grande conhecimento que demonstrou sobre o assunto.

Além de proporcionar a reconstituição da vida de Apuleio, a Apologia, também fornece elementos para a interpretação de Metamorfoses. Esta obra teria sido escrita por volta dos anos 160 e 170, sendo assim, posterior à Apologia, e encontramos nela a presença marcante de seus conhecimentos a respeito da magia e da religião de mistério. Agenor Ribeiro Viana apresenta em sua dissertação de mestrado um trecho da Apologia (Apologia, 55) onde Apuleio comprova sua experiência, de acordo com a tradução do pesquisador, “fui iniciado na Grécia em muitos ritos sagrados. Certos sinais e símbolos de tais ritos me foram ensinados pelos sacerdotes e eu os conservo com zelo. Eu, como disse, aprendi cultos de todo gênero e muitíssimos ritos e várias cerimônias pelo desejo de conhecer a verdade e por devoção aos deuses”. Neste contexto, José Carlos Fenández Corte argumenta que Apuleio constrói na Apologia uma imagem de si mesmo, cuidando de falar de sua educação, cultura e erudição, utilizando o humor. Exatamente por este motivo, acredita que o protagonista da obra Metamorfoses pode ser identificado com Apuleio. As Metamorfoses constituem um complexo conjunto de aventuras, envolvendo significativamente as religiões do século II, que teriam sido absorvidas por Apuleio ao longo de suas viagens. A importância da obra, enquanto fonte histórica, está na apresentação da visão de um provinciano da camada alta da sociedade romana sobre as diversas práticas religiosas do Império Romano de seu tempo. Com relação ao título da obra, esta encontra-se no plural. Acredita-se que o título remete-se às diversas transformações que aparecem na narrativa, sobretudo de humanos que se transformam em animais. Por outro lado, a transformação de Lúcio também pode significar duas etapas: Lúcio-asno e asno-Lúcio.

Há ainda outra interpretação, quando considera-se como uma metamorfose a passagem de Lúcio, com todas as suas características, para um novo Lúcio, agora iniciado na religião isíaca. Logo no início da obra, Apuleio explica que sua história se passa nas cidades de Hípata, Corinto e Concréias, todas na Grécia, mas a obra aparenta ser escrita fora destaslocalidades, talvez na própria Roma, não somente por ser escrita em latim, mas principalmente pelos ambientes apresentados. Inserindo Apuleio em seu contexto histórico, Ettore Paratore o considera um “filho de seu século”. O autor teria vivido durante a época dos Antoninos, compreendendo os imperadores Trajano, Adriano, Antonino Pio, Marco Aurélio e Cômodo, entre os anos de 98 e 192. Não cabe aqui a descrição de toda a política, economia e cultura que compreendia o período, porém, devemos pensar o século II como uma época de ouro, em que encontramos um florescimento econômico a partir de um incentivo ao comércio marítimo e a um poder fortemente exercido pelos imperadores que auto-denominavam-se deuses, por outro lado, encontramos poucos investimentos militares e a incapacidade de combater as migrações bárbaras que se iniciavam. No governo de Adriano, sob o qual se dá a formação cultural de Apuleio, temos uma unificação já praticamente estabelecida no espaço Mediterrânico, ou seja, um Império já formado. A tarefa mais difícil para o imperador era manter e fortalecer este Império. A política adotada por Adriano foi a de governar de forma pacífica e conquistar a confiança de todos aqueles que pertenciam ao Império. Para isso, Adriano conheceu pessoalmente diversas localidades do Império, aceitando e respeitando as diferentes culturas e, sobretudo, cultuando os deuses. Esta tática do imperador uniu ainda mais o Império, possibilitando uma maior circulação de culturas, portanto de religiosidades pelo Império.

A partir do século II, o Império Romano já havia adquirido muitas influências da religiosidade estrangeira, sobretudo helenística. De acordo com Paratore, em seu extenso trabalho sobre a História da literatura latina, a cultura, a língua e a mentalidade grega eram predominantes no Império Romano no período de Apuleio. O governo de Adriano é classificado como um “renascimento helênico”, a literatura latina procurava imitar um “modelo de incomparável beleza e originalidade”, que era o modelo grego. É neste contexto que Apuleio é considerado como um personagem literário de sua época, deixando que a filosofia e a religião helênica, e por sua extensão helenística, influenciasse sua obra. Segundo Paratore, “(...) [Apuleio] soube trazer para primeiro plano o palpitar místico obscuro que agitava a alma daquela época turva de transição, na qual os grandes valores políticos e morais da tradição oscilavam e em que as plebes orientais, possivelmente infiltradas na Grécia e Roma, traziam mensagens cada vez mais fascinantes de palingenese religiosa (...)”. Complementando essa idéia, encontramos em Francisco Lisi a descrição da época de Apuleio como um período de sincretismo entre a filosofia grega e as religiões de mistérios orientais, características muito evidentes nas Metamorfoses. A literatura do século II é designada pelos pesquisadores como pertencente à época de prata romana. Segundo E.E. Sikes, no artigo Latin literature of the silver age, esta época inicia-se no período pós-augusteo, momento em que a literatura e a filosofia grega continuaram a influenciar a cultura romana, no entanto, duas mudanças são destacadas pelo autor: a romanização das províncias e a não continuidade dos escritores de estilo republicano.

Neste período de mudanças políticas, que levam às mudanças culturais, surge a sátira latina, com o objetivo de ironizar a sociedade da época. Este gênero literário combina diversos fatores de cunho político, econômico, ético, religioso, ideológico entre outros, que compõem, em conjunto, o amplo contexto que explica e justifica o produto literário final. Zélia de Almeida Cardoso denomina o período de Apuleio como pós-clássico, que se inicia por volta de 68 d.C. e termina no século V. Neste período, encontramos autores que foram influenciados pelas fases anteriores, constituídas por influências helenísticas e com uma literatura a serviço da oratória e da política, em conjunto com o declínio da literatura pagã e a ascensão do cristianismo.

Com relação à religião, há na literatura romana a presença de uma religião nacional paralelamente a uma religiosidade grega, novamente como fruto da helenização, especificamente denominada por Ernst Bickel como uma “reabsorvição da cultura helenística pela literatura romana”. Esta presença marcante das crenças religiosas na literatura é o que encontramos em toda a obra Metamorfoses, expostas de diversas maneiras. Além da literatura destacada, é importante compreender a posição que os imperadores assumiam com relação à introdução de práticas culturais estrangeiras, sobretudo do culto isíaco. Percebemos a introdução do culto da deusa Ísis ainda no período republicano, quando não foi visto sob um olhar positivo, em alguns momentos, pelo Senado. Por outro lado, no período imperial, encontramos a simpatia de muitos imperadores pela deusa, muitas vezes por interesses políticos. Otávio Augusto, com a política da pax deorum apenas facilitou a difusão dos cultos isíacos; Tibério (14-37) utilizou a cultura egípcia a seu favor, associando sua imagem a Sarápis e talvez tenha mandado construir um dos templos de Ísis. Calígula (37-41) teria sido um iniciado nos mistérios, construído o templo da deusa no Campus Martius e inserido o festival em honra à deusa no calendário romano. No Império de Cláudio (41-54), o culto de Ísis apenas foi tolerado, embora tenha associado sua imagem a Osíris, como regrador da sociedade. No período de Nero (54-68), difundiu-se a filosofia Alexandrina e com esta a religião isíaca. Sob o governo dos flavianos, com Galba (68-69), Vespasiano (69-79), Tito (79-81), Domiciano (81-96) e Nerva (96-98) o Império passou por diversas dificuldades econômicas e políticas, neste momento, os imperadores continuaram a identificar sua forma de reinar com as divindades Ísis e Sarápis, no interesse político de manter a semelhança com os Faraós, com seu poder de cunho divino.

No período dos Antoninos, o Império Romano floresceu economicamente e foi possível manter de forma pacífica as províncias. O imperador Trajano (98-117) teria conhecido o Egito e cultuado seus deuses, chegando a ser representado em arcos com as divindades Ísis e Hórus. Sob o império de Adriano (117-138), Apuleio estaria formulando seu pensamento religioso e filosófico, influenciado pela política do imperador da pax deorum. Adriano foi atraído pela religião egípcia, tocado sobretudo pelos aspectos de mistérios. Teria encorajado a expansão da religião egípcia, já sob uma forma helenizada, após passar alguns meses no território egípcio. Adriano também teria construído e reconstruído templos isíacos e cunhado moedas com imagens da deusa, que continuaram com significativa circulação nos reinados posteriores.

O culto da deusa Ísis, em particular, oferecia atrativos a alguns imperadores romanos por estar relacionado, em sua origem, à legitimação do poder do governador. O imperador Adriano, de acordo com Anthony Birley, teria proporcionado a expansão do culto isíaco pela cultura romana em conjunto com a divulgação do culto do imperador, tendo o próprio Adriano identificado sua imagem aos faraós egípcios.

Uma relação interessante entre a deusa Ísis e o poder em Roma foi sugerido por J. Z. Smith, proporcionando uma melhor compreensão de certas características dos imperadores do século II. Na mentalidade egípcia, Ísis estava associada à agricultura, maternidade, ordem social, civilização e códigos morais, como aparecia em seu mito. Desta forma, como geradora do salvador Hórus, era a protetora dos faraós, auxiliando o governo, proporcionando a ordem social e o bem-estar da população. Se por um lado o culto da deusa beneficiava a legitimação do poder real, por outro, libertava a população de um poder tirano, ao passo que a deusa era vista como mãe, não cabendo as noções de tirania. Isso foi interessante no momento em que fora apropriado pelo poder real, quando sua autoridade passa a ser interpretada pela população como divina e as regras formuladas teriam inspiração semelhante. Os faraós eram vistos como aqueles que promoviam a paz e a justiça, não eram menos salvadores e benfeitores que os deuses.

Os imperadores romanos, ainda de acordo com Smith, teriam se apropriado desta imagem, assim a união entre divindade e autoridade significava um poder real soberano e perfeito, diferente de uma tirania e aceito pela população. Outro aspecto importante, destacado por Smith, é a relação entre a autoridade e a população, colocada em paralelo com a relação entre divindade e devoto. O iniciado e a divindade estabelecem um relacionamento de troca, quando o devoto cultua a deusa e recebe benefícios materiais e espirituais. O mesmo ocorreria entre o imperador e a população, quando o primeiro oferece um bem-estar para a sociedade, exigindo respeito e obediência em troca. Estes relacionamentos são saudáveis, beneficiando ambos os lados, não se identificando com uma ação tirânica. Se por um lado o interesse do imperador Adriano pelo culto de Ísis e Sarápis era claramente político, por outro, Takács considera que o interesse também era por questões intelectuais. Alexandria oferecia um leque de pensamentos científicos e filosóficos para entender os mecanismos do mundo, elementos que atraíam a atenção do imperador que, conseqüentemente, interessou-se pela ligação destes pensamentos com os mistérios de Ísis e Sarápis. Isso gerou uma possível iniciação do próprio Adriano e uma expansão do culto, até mesmo com a cunhagem de moedas com imagens isíacas e a identificação do imperador e sua esposa com o casal de divindades. O sucessor de Adriano, Antonino Pio (138-161) não demonstrou o mesmo interesse pela cultura egípcia. As moedas que cunhou, associando Ísis a sua esposa, demonstra uma representação fora de um contexto religioso, talvez seja somente uma continuidade da política adotada pelos imperadores anteriores.

No período dos Antoninos, como podemos notar, há um maior encontro de culturas, quando as influências gregas chegaram até os romanos e outras localidades, ao mesmo tempo em que a cultura das localidades africanas também estão indo ao encontro à cultura romana. Este fato encontra-se expresso na literatura latina do século II, classificada por Ernst Bickel como um estilo novo, africitas. A novidade teria como maior expoente Apuleio, dado que em suas obras pode-se encontrar elementos da literatura grega e romana, em conjunto com as questões religiosas do oriente, as quais já eram conhecidas no mundo greco-romano. A literatura teria sido elaborada pelo autor que possuía um significativo conhecimento da cultura das diversas localidades do Império Romano e respirou as práticas religiosas e a filosofia que se expandiam pelo Império no século II, tudo isso com o apoio das autoridades que se apropriaram das formas do culto da deusa Ísis.

Autora: Vanessa Auxiliadora Fantacussi.

Obra: O Culto da Deusa Ísis entre os Romanos no século II – Representações nas Metamorfoses de Apuleio – Capítulo II pg. 42.

Fonte: UNESP

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O mendigo espiritual e o trabalho com espíritos

Eu tenho pensando por algum tempo o que expressões como "eu trabalho com espírito fulano de tal" e "quando eu perguntei ao espírito fulano de tal para me dar uma oportunidade de trabalho eu sei o que significa realmente. O que está verdadeiramente em jogo ao pedir favores dos espíritos e de trabalhar com os espíritos?".
Quando você se encontra em uma das encruzilhadas da vida procurando o palácio de oportunidades e recorre à magia ou à convocação para se mover suavemente através do vale da tribulação para ganhar as portas abertas, o que está acontecendo neste exato momento em que você se aproxima de espíritos estranhos e lhes pede favores?
Eu tenho me intrigado há algum tempo com o mistério da mendicância, o que se passa nas tavernas baratas da vida e com os mendigos. Há duas coisas que, em intervalos aleatórios, mostra-se como um assunto único e interessante que talvez nós raramente prestamos atenção porque o mendigo é apenas algo fugaz e de passagem, que muitos pagam para se livrar - ou pagam para ajudar. Um fator é a bênção.
A bênção vem sempre se você dá um pouco mais do que o esperado. Podemos imaginar o que está acontecendo aqui: você dá algum dinheiro, uma quantidade que não fere seu estado financeiro ou não é um sacrifício de qualquer forma - em troca de receber uma bênção. Quem é essa pessoa que está abençoando você? O que está acontecendo aqui?
O outro fenômeno é previsões e profecia. Tenho inúmeras experiências com este, que vão desde os ciganos pegando a minha mão depois de lhes dar todo meu dinheiro e tomando minha mão e prevendo eventos que vão acontecer na semana até mendigos recebendo algum dinheiro, ir embora, parando, para voltar e me dizer uma frase ou duas de algo que eles sentiram que tinham a dizer e, em seguida, seguindo, como se a epifania que me deram fosse nada.
Eu vejo nossas relações com o espírito como uma imitação de qualquer outro tipo de relacionamento, seja com plantas animais ou com outros seres humanos. Trata-se de afinidade, de proximidade, de tempo, de dedicação e de trabalhar tanto quanto se fosse de afinidade e laços imediatos forjados em um momento de reconhecimento mútuo, atração e amor.
Trabalhar com um espírito é trabalhar em uma ligação, uma atração e as regras são bastante semelhantes às regras na construção de qualquer outra forma de relacionamento - com uma exceção bastante desconcertante - um espírito (um ser com um corpo imaterial e um espírito não preso a um túmulo) existe em um estado de justiça celestial perpétua. Com isso, quero dizer, a lei e a moral que liga a justiça materiais têm pouca influência sobre o que não é material, então, no domínio da justiça, encontramos um cenário que é diferente de como o concebemos em premissas materiais.
Eu fico pensando se esse paradoxo é resolvido pela presença e atividade dos mendigos, estas pessoas que dão bênçãos quando favores são dados. De alguma forma, quando nos aproximamos de um espírito para pedir favores, nós não estamos começando uma forma de mendicância espiritual? Mas uma vez que aqui mudamos para um campo onde se encontram a matéria e espírito, o equilíbrio e a relação é um pouco diferente.
Se seguirmos a ideia de aplacar um espírito com favores, como se fôssemos mendigos, nos colocamos em uma aceitação da necessidade, mas também a encarnação de bênção.
Se dermos um passo atrás e permitirmos que estas ideias fluam e tomem forma e figura, vemos que a necessidade, a bênção e a aceitação proporcionam o campo que nós conhecemos como sorte, porque o que é este encontro entre mendigos, espíritos e os homens, onde o dinheiro e bênçãos são negociados?
A sorte é a oportunidade abrindo quando estamos no lugar certo para vê-lo. Se nós podemos seguir em frente e aproveitar ou abraçar a sorte é uma questão de consciência e habilidade.
Fonte: Starry Cave.
Autor: Nicholaj Frisvold.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Ensaio sobre o sacrifício de animais

Mudanças acontecerão. Com a confirmação de que Claudiney Prieto é um Alto Sacerdote de 3° da Tradição Gardneriana, o cenário da comunidade pagã brasileira será alterado..
Minha fonte para textos sobre a Wicca Tradicional vem da época em que eu estava na Amber & Jet [Grupo Yahoo]. Ainda que a lista seja aberta para buscadores, ela é mantida por Altos Sacerdotes da Wicca Tradicional. Os textos e definições divulgados ali são suficientes para presumir quais são as características, os princípios e os valores básicos da Wicca Tradicional, o que eu tenho defendido neste blog.
Minhas outras fontes são livros, mas meus estudos servem apenas para sustentar a minha opinião, nada mais. Mesmo quando o assunto é sexo e magia sexual, mesmo quando o texto é de autoria de um/uma Auto Sacerdote/Sacerdotisa, ali terá a percepção e opinião dele/dela, dentro do que pode ser divulgado publicamente, sem infringir o voto de sigilo.
Então este ensaio sobre o sacrifício tem por base meus estudos sobre a história antiga, antropologia, religião antiga, paganismo moderno e observações pessoais.
Cito esta declaração:
"Da mesma forma que sacrifícios humanos não são mais realizados para Deuses de diversas culturas antigas ainda cultuados na atualidade, cordeiros não são mais imolados para Javé, Sacerdotes de Réia e Cibele não se castram mais em frenesi para servir a Deusa, os sacrifícios de animais também perderam completamente seu lugar nos cultos Neopagãos e são abominados por praticamente todos os seguidores do Neopaganismo".
Como estudioso e pagão moderno, eu tenho que discordar. Basta uma boa olhada na história do paganismo moderno e mesmo nas religiões majoritárias para vermos que o sacrifício de animais ainda são realizados. Existem ramos da bruxaria tradicional onde se pratica o sacrifício animal.
"Tal prática entre os Neopagãos da urbe, então, fere em muitos níveis e aspectos os princípios da legalidade, as normas éticas e o senso comum da sociedade".
Considerando que o "senso comum da sociedade" acha normal comermos carne, levando em conta o aspecto psicológico e antropológico do sacrifício animal, o sacrifício ritualístico de animais apenas fere os princípios das pessoas susceptíveis.
Eu recomendo a leitura do texto"A Natureza do Homem e do Divino". 
Falar em sacrifício, no mundo contemporâneo, suscita diversos pruridos. Quais são o espaço e lugar do sacrifício na tradição wiccana?
Vemos na Carga da Deusa:
"Eu não exijo sacrifício; pois saibam que sou a mãe de todos os seres vivos e meu amor é despejado sobre a terra”.
Cito este comentário:
“Esta simples declaração rejeita o até então realizada necessidade dentro do paradigma cristão prevalecente para o sofrimento como um requisito para a unidade com o divino”.
Então devemos entender o sacrifício de diversas formas, não apenas como uma oferenda, seja de objetos, frutos ou animais.
Temos também:
“Que os rituais sejam corretamente celebrados com alegria e beleza”.
Em um ritual a presença de um sacrifício não é algo que é pedido, mandado ou exigido pelos Deuses. Nenhum ritual existe por que algum Deus necessita dele. Nós fazemos um ritual por que este é o nosso dever, nossa obrigação. Como é um dever, o sacerdote tem que proceder com o sacrifício da forma correta, tal como a tradição, a cerimônia exige, para celebrar um determinado mistério de um mito.
Dentre as características da Wicca Tradicional, além de ser um sacerdócio, ser iniciática, ser Duoteísta e Politeísta, podemos considerá-la uma “religião da natureza”. Ora, basta uma observação da natureza para ver que há violência, morte, animais comem e são comidos. O sacrifício de animais serve exatamente para consagrar este aspecto da natureza. A realização do ritual tem uma função catárquica e alimentar fundamental para a comunidade. Seria completamente sem sentido e incongruente a presença de uma adaga em nossas cerimônias. Eu sei que existem tradições nos cultos contemporâneos de Bruxaria que realizam sacrifício de animais. Nós fazemos um banquete após nossas cerimônias. Eu não vejo muita diferença entre comer o animal sacrificado em um ritual e comer um filé comprado no açougue.
Talvez eu seja radical demais, tradicional demais. Em tempos onde as pessoas acham que todo animal tem o mesmo comportamento que o animal de estimação, onde se confunde “direito animal” com preservação ambiental, onde vemos os animais com a mesma aura do “bom selvagem” de Rousseau, falar ou defender o sacrifício de animais é contrariar esses pruridos e essa moral pequeno-burguesa.
Quem acha mesmo que a natureza e o animal são bonzinhos, eu convido passar um mês nas florestas, portando apenas um bastão, uma bússola e uma faca. Eu ouso dizer que dentro de uma semana até o vegan mais radical vai largar suas ilusões edulcoradas.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Mentiras brancas que pagãos contam

Jason Mankey escreveu o texto “Little White Lies: Christian Books on Modern Witchcraft”, no Patheos, em sua coluna "Raise the Horns". O que mais me preocupa não são as mentiras dos cristãos, mas as mentiras dos pagãos.
John Halstead escreveu três textos que eu traduzi no texto “A origem americana da neo-wicca”. Jason Mankey escreveu o texto “When Wicca is not Wicca”, que eu aproveitei para meu texto “Quanto o rótulo não faz o conteúdo”.
Em diversos textos eu reafirmo que quando falamos em Wicca, se fala em uma religião e, como tal, tem características, princípios e valores.
Curiosamente, quando eu simplesmente atesto isso, que é a definição que nos foi legada por Gerald Gardner e mantida por inúmeros Altos Sacerdotes e Altas Sacerdotisas da Wicca Tradicional, a reação mais comum é de raiva. Aparentemente tornou-se uma regra que qualquer um pode alegar ser wiccano e quando eu contesto isso com fatos, os argumentos giram em torno de questões sobre a minha “autoridade” [ou que autorização eu tenho para falar sobre a Wicca Tradicional], quando não me acusam de ser elitista, intolerante, desrespeitoso.
Então não foi surpresa alguma ao ver que meus comentários foram bloqueados na coluna “Daughters of Eve” por que eu contestei uma pessoa que se autoproclamava wiccana. Eu vou deixar de lado os argumentos batidos sobre aceitar a opinião do outro, sobre como a Wicca “evoluiu”, de que eu tenho uma visão restrita e de que eu estou ofendendo a pessoa. Eu não vou conseguir convencer os pagãos ou o público de meus argumentos.
Eu vou escrever sobre os perigos das mentiras contadas por pagãos a partir desta declaração:
A Wicca que eu sigo é aberta, amorosa e inclusiva. A Wicca que eu sigo não é dogmática e rígida. [Liona Rowan]
Quando se digita “Wicca” no oráculo virtual [Google] o interessado, curioso e simpatizante certamente ficará confuso. Existe uma miríade de páginas, de tradições, de grupos, de fóruns, de covens, alguns até fornecendo a iniciação na Wicca mediante uma módica quantia. Como chegamos a isso?
A Wicca se tornou um fenômeno de massas depois que esta chegou aos EUA, pelas mãos de Monique Wilson, que vendeu os itens de Gerald Gardner para a Llewellyn. Mas a conta não pode ser toda atribuída a esta sacerdotisa. Temos também Raymond Buckland, que mesmo sendo da Tradição Gardneriana, iniciou sua própria Tradição Seax, que inovou ao inserir a prática solitária e a autoiniciação.
Mas nem mesmo Raymond Buckland deve levar toda a culpa. Na mesma época, ou um pouco depois, apareciam vários grupos autoproclamados, a maioria se identificando como sendo a “religião da Deusa”, a “religião das bruxas”. Muitos destes grupos tomando uma forma de feminismo radical deram origem ao Dianismo. Neste cenário surgiu Starhawk, que deu início à Tradição Reclaiming, uma mistura da Tradição Diânica [Z Budapest] e da Tradição Feri [Victor Anderson], que praticamente se tornou a “bíblia” de muitos pagãos, pretensos bruxos e wiccanos autoproclamados. Esta é a origem da neo-wicca e da pop-wicca. Milhares de interessados tem acesso a esse material e a popularidade dessas vertentes cuidou de cimentar essas mentiras brancas, enterrando todas as características, princípios e valores da Wicca Tradicional. A Wicca tornou-se um vale tudo, uma “filosofia de vida”, onde tudo é possível e permitido.
Mas para quem é do meio, sabe que não é bem assim. Esta Wicca que é vendida e propagada pela internet não existe. Até pouco tempo Z Budapest era completamente contra o sacerdócio de homens, negava até que homens possuíssem espiritualidade. Causou um grande estardalhaço e escândalo quando Z Budapest proibiu que pessoas transgêneros participassem de um ritual para Lilith. Por anos, estes grupos autoproclamados difamaram Gardner, acusando-o de ser sexista, de ser homofóbico, no entanto estes mesmos grupos proíbem a participação de homens e transgêneros em suas tradições. Estes mesmos grupos atacam a Wicca Tradicional, mas clamam para serem reconhecidos, respeitados e aceitos pela Wicca Tradicional. Diversos pagãos que se autoproclamam wiccanos esbravejam, exigem que sejam respeitados, falam que estão sendo ofendidos, questionam a autoridade de seus críticos, mas ofendem quando não aceitam as opiniões de quem apenas expõe o que é a Wicca Tradicional e se colocam na posição de autoridade quando desmerecem o legado deixado por Gardner.
A Wicca Tradicional não é dogmática, não existe ortodoxia, mas ortopraxia. A Wicca Tradicional não é rígida, podem-se acrescentar coisas, mas não se pode retirar suas características, princípios e valores básicos. O que uma pessoa autoproclamada tem a dizer é irrelevante. Uma pessoa somente pode se declarar wiccana se tiver o treinamento e iniciação formal, em um coven tradicional, com Altos Sacerdotes e Altas Sacerdotisas com linhagem comprovada até Gardner. O resto é mentira.
PS: eu devo incluir também Scott Cunningham e Aidan Kelly na lista de personagens que "contribuiram" para o atual estado da Comunidade Pagã.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Feitiçaria, práticas mágicas e vida cotidiana

Ao qualificar o Brasil setecentista como úbere terreno para diamantes e impiedades, o romancista José Saramago mostrou aguda percepção histórica. Principal porção do império colonial português no século XVIII, o Brasil alimentou simultaneamente os desvarios megalômanos de D João V e as fogueiras inquisitoriais. Apesar disso, o estigma da colônia como produtora e perpetuadora de impiedades foi suficientemente forte para, dois séculos depois, aflorar na frase do escritor português.
Diamantes e impiedades caminhavam juntos. Ambos brotavam, abundantes, das terras coloniais, engastando-se um no outro como dois polos opostos e complementares. Cristãos novos, sodomitas, hereges calvinistas, feiticeiros, magos, adivinhos só poderiam ser compreendidos no contexto em que atuavam: o universo colonial com toda sua complexidade, o dia-a-dia dos colonos com suas aspirações variadas, ora nobres e legitimas, ora medíocres, mesquinhas.
Qualquer estudo sobre o tema [feitiçaria e bruxaria] se debate com múltiplos contextos e heranças culturais, chegando-se por vezes a contornar a questão através do resgate da sempre cômoda matriz indo-europeia. Júlio Caro Baroja distingue dois tipos de magia maléfica: os encantos e sortilégios, que supõem práticas individuais e a bruxaria propriamente dita, de características coletivas e associadas a verdadeiro culto. Norman Cohn adota a mesma posição: a bruxaria é coletiva, a magia é individual. Entretanto, preocupa-se também em distinguir feitiçaria [técnica que induz ao mal] de bruxaria [onde a pessoa é fonte do mal]. Gustav Henningsen diferencia minuciosamente bruxomania e bruxaria. A primeira é coletiva, possui superestrutura mitológica abundante e sistemática, define-se pelo pacto, não possui nenhuma função reguladora e conservadora da sociedade e, portanto, não pode ser estudada pela antropologia. A segunda é individual, tem superestrutura mitológica deficiente e assistemática, não se define pelo pacto, possui função reguladora e conservadora da sociedade, beneficiando-se das abordagens antropológicas.
Mais do que destrinchar as filiações das praticas magicas coloniais, interessa-me detectar o modo pelo qual se combinaram e em função de que contexto.
Nos primeiros momentos, ainda no século XVI, feitiçaria e praticas magicas mostram sua filiação cultural de forma quase transparente. Nelas, resgatam-se com facilidade os traços europeus, indígenas, mas raramente os africanos. Conforme avança o período, os traços se esfumaçam, se interpenetram e começa a surgir um só corpo de crenças sincréticas. É quando surgem formas especificamente coloniais, diversas de todas as outras.
Fonte: O Diabo e a Terra de Santa Cruz – Laura de Mello e Souza, pg. 153 – 156.