terça-feira, 25 de novembro de 2014

O ideal elevado

Dizemos: "Mantenha puro seu ideal mais elevado”. Mas qual é nosso ideal mais elevado? Como mantê-lo puro? O que pode conspurcar o ideal mais elevado? Por que perdemos nosso ideal elevado?

Usando o oráculo virtual [Google] achei esta resposta:

Na raiz de todos os desejos é o desejo de viver o seu ideal mais elevado. A imagem ideal que você tem para si mesmo, que você quer expressar e experimentar, é o mais alto ideal que você deseja manifestar em sua realidade viva. Você vai notar que cada vez que você dissuadir a partir deste ideal, nunca é bom para o seu ser. Se você está sempre alinhado com o seu eu ideal, em pensamentos e ações, você nunca vai se sentir em conflito dentro de si mesmo. É só quando você acaba vagando em pensamentos, ou toma medidas, que estão em conflito com o seu ideal mais alto, que você vai sentir uma sensação de conflito dentro de você.

A única razão pela qual um ser humano decide viver abaixo de seu/ sua "imagem ideal" é por causa de pensamentos limitantes (pensamentos baseados no medo) criados a partir de um lugar de ignorância de sua verdadeira natureza e seu verdadeiro poder. Quando você percebe plenamente o poder do seu ser, você não vai mais sucumbir a viver abaixo do seu ideal mais elevado. Você é um criador poderoso e você pode criar qualquer realidade que você deseja experimentar, por sua crença em sua manifestação. Quando você tem esse poder, não há desculpa para você nunca se rebaixar abaixo do ideal mais alto que você pode imaginar para si mesmo.

Muita gente sente falta de dignidade em suas vidas, porque eles sentem que têm de viver abaixo do seu ideal, a fim de "espremer a vida" ou de sobreviver de alguma forma. Enquanto você não vive seu ideal, não é possível para você se sentir digno de seu ser. Sua dignidade está profundamente enraizada com a imagem que você tem de mais alto ideal que você deve estar vivendo. Quando suas ações/pensamentos não estão alinhadas com esse ideal mais alto, você sente falta de dignidade em si mesmo. Algumas pessoas, infelizmente, decidir desistir de seu mais alto ideal em uma tentativa de agradar aos outros ou para atender às expectativas de outra pessoa - a única razão pela qual eles fazem isso é porque eles sentem que precisam “lutar”, e fazem coisas que não gostam de fazer, a fim de conseguir atravessar a vida. Enquanto você acredita neste pensamento de ausência, não é possível se alinhar com o seu ideal mais elevado e, portanto, fará com que você leve uma vida conflituosa.

Quando você não vive o seu mais alto ideal, você está vivendo uma vida "medíocre" na melhor das hipóteses. Um monte de gente se resignou a viver uma vida medíocre por causa de sua forte crença nos pensamentos sem fundamentos. Eles se sentem "derrotados" pela vida, e desistem diante de suas circunstâncias, porque eles acham que é muito difícil alinhar os seus pensamentos com seus desejos, em meio à negatividade de sua realidade. Pode ser que você está vivendo uma realidade altamente negativa, onde você se sente enjaulado e preso atualmente, mas agora que você está percebendo a verdade de sua natureza (o seu poder como um criador), não há desculpa para aceitar a derrota ou a desistir de seus sonhos/desejos, em seu mais alto ideal.

Os pensamentos que você dá atenção aos irão moldar a sua realidade e este é o seu poder. Mas se você optar por se concentrar sobre a limitação/pensamentos negativos, em seguida, esse mesmo poder pode se tornar sua maior desgraça porque esta atenção irá atrair uma realidade limitada. As pessoas que conseguiram superar as circunstâncias mais difíceis, para viver a vida de seu mais alto ideal, são os únicos que desenvolveram a força de concentrar seus pensamentos, desenvolvendo uma convicção no bem-estar de vida e fazem um compromisso de ficar alinhados com o seu mais alto ideal . Sua realidade começa com a sua mente, é sempre de dentro para fora, é sempre sobre o que está acontecendo "dentro" de você e não o que está acontecendo fora de você. Pare de dar atenção aos pensamentos limitantes, não importa o quão atraente seu convite pode ser e assumir o compromisso de permanecer fiel ao seu ideal mais elevado - a vida sempre vai trabalhar para você, quando você ficar resolvido a nunca defender a negatividade.

Fonte: Calmdownmind

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Em nome da Deusa

Eu estou tentando prosseguir na minha jornada e superar minha mania em criticar ao invés de promover. Mas é difícil aturar cada vez que alguma figura pública do Paganismo escreve um discurso como se sua opinião fosse um texto sagrado.

Eu não consigo aceitar o discurso de Erick Dupree, assim como todo esse monoteísmo que prevalece no Dianismo e em outras “religiões da Deusa”.

Eu não posso aceitar o discurso de Aidan Kelly que procura conciliar o Paganismo com o Cristianismo.

Eu não posso aceitar que pagão algum faça o mesmo tipo de discurso que um cristão [padre ou leigo] faria.

Então se meus caros diletos e eventuais leitores me desculpam, eu vou criticar o texto de Aidan Kelly que, como se fosse um sacerdote cristão, ousa afirmar que fala em nome da Deusa.

Aidan Kelly diz, em nome da Deusa:

“Eu sou o Um e os Muitos. Estou em cada Deus e cada Deusa. Todos os caminhos são meus”.

Monoteísmo puro. Dion Fortune foi desafortunada ao dizer que todos os Deuses são o Deus e que todas as Deusas são a Deusa. Aidan Kelly acaba de transformar a Deusa Estrela em um Jeová travestido. Nem todos os caminhos são da Deusa, nem todos os caminhos levam a Roma.

“Eu sou a realidade por trás de todas as religiões, e toda a fé vem de conhecer-me”.

Considerando os aspectos das religiões abraâmicas, com o sexismo, a misoginia, o machismo e o patriarcado, a presença da mulher e mesmo da Deusa é quase inexistente, o que torna essa afirmação totalmente errada.

“Todo o poder no Ofício é meu e vem de mim. Ele vem através de você, não de você”.

Diversos ramos do Paganismo e da Bruxaria discordam dessa frase. O Ofício não seria conhecido nem praticado sem o poder e a presença do Deus.

“Eu me dou a cada um de vocês, pois, por si mesmo, você nunca poderia alcançar-me. Eu fiz por você o que você nunca poderia ter feito para si mesmo, pois eu te amo como uma mãe ama seu filho primogênito, que é o que você é, como todo ser é”.

Este certamente é um trecho inspirado no trecho da Carga da Deusa que diz: “E você que busca conhecer-me, saiba que sua procura e ânsia serão em vão, a menos que você conheça os mistérios: pois se aquilo que busca não se encontrar dentro de você, nunca o achará fora de si. Saiba, pois, eu estou com você desde o início dos tempos, e eu sou aquela que é alcançada ao fim do desejo”. No entanto, Aidan Kelly esqueceu da presença do Deus no mistério da Wicca Tradicional.

“Honre a memória de meu servo Gerald Gardner, para ele restaurou minha adoração em sua Terra”.

“Honre as forças com as quais ele me serviu e o grande trabalho que ele realizou. Não se incline sobre suas fraquezas humanas”.

Algo que o próprio Aidan Kelly não faz. Ele é uma persona non grata nos círculos tradicionais pelos livros de autoria dele atacando Gerald Gardner.

“Todos os que seguem o seu caminho levará o seu nome. Não estabeleçam leis humanas para se separarem”.

Isto deixa de fora muitos grupos que se identificam como sendo Wicca sem o ser.

“Todos os que optam por aceitar meus presentes e me seguem são seus irmãos e irmãs. Rejeitar qualquer um deles é rejeitar-me”.

Aidan Kelly fundou a NROOGD almejando receber reconhecimento e aceitação dos sacerdotes e sacerdotisas wiccanos. Esta linha pode ser entendida como uma tentativa desesperada de sancionar seus delírios.

“Honre a memória de minha serva Doreen Valiente, poeta e sacerdotisa, pois ela falou com a minha voz e deu-lhe as minhas palavras. Estude-as, compreenda-as, viva-as”.

Isto também deixa de fora muitos grupos que se identificam como sendo Wicca sem o ser.

“Dê meus dons livremente, dê a todos, porque eu sou a Deusa de toda a humanidade. Não presuma escolher quem pode receber os meus dons. Sou eu quem escolhe, não você”.

Eu discordo dessa postura de fazer da Wicca uma religião de massas.

“Chamem-me para ter força para viver com honra e compaixão”.

Coom bom praticante e estudante da Wicca Tradicional, eu chamo também ao Deus para a mesma intenção.

“Ame a si mesmo; ame os outros até mais do que a si mesmo”.

A autoria dessa frase causaria uma briga em muitos caminhos espirituais.

“Nunca deixem de aprender, porque eu lhe direi o que você nunca poderia saber por seus próprios esforços”.

Este é um trecho certamente inspirado na Carga da Deusa que diz: “Haverá assembleias, aos que anseiam aprender toda bruxaria, mas ainda não desvendaram seus profundos segredos. A estes eu ensinarei coisas ainda desconhecidas”. A Wicca tem seu mistério e seu caráter extático. No entanto, na história dos cultos de bruxas, essa função cabe ao Deus.

“Abra o seu coração e você vai encontrar-me. Eu não vivo em outro lugar. Eu vivo dentro de você. Eu sou mais você do que você é”.

Este é um trecho certamente inspirado na Carga da Deusa que diz: “Pois eu sou a chama que queima no coração de todo homem e no cerne de toda estrela”. No mistério contido na Wicca Tradicional, o acesso e caminho para este coração são guardados pelo Deus.

“Eu sou o conhecimento que habita em vós, porque eu sou alegria, sou amor, sou êxtase. Busque-me através da alegria, através da intuição, o que seu coração lhe diz é mais importante”.

Em diversas partes dos rituais da Wicca dizemos que a alegria e o êxtase são garantidos em vida, nesse mundo, tanto pela Deusa quanto pelo Deus.

“Você não pode encontrar-me se você não me procura, nem se você me procurar, porque eu estive sempre aqui. Venho sem aviso prévio e derrubarei sua porta quando você menos me esperar”.

Um texto que repete o trecho da Carga da Deusa onde Ela diz que se não encontrarmos o que procuramos dentro de nós, não iremos encontrar fora de nós. Entretanto o Deus é quem é o Condutor, o Guardião da Porta e do Caminho.

“O seu ego é quem impede de ver que eu estou aqui e sempre estou fazendo o que você precisa, a fim de conhecer-me. Saia do meu caminho; apenas a sua ignorância o impede de conhecer-me”.

Aidan Kelly fundou sua própria ordem, aviltou o nome de Gerald Gardner, deturpou, por razões e agendas pessoais, diversos princípios da Wicca. Ele é uma figura que infelizmente representa muitas das figuras que aqui no Brasil se arrogam o título de sacerdote, com o único propósito de formar um verdadieor culto à personalidade em torno de si. Isto é ego, isto não é servir ao Deus e à Deusa.

sábado, 15 de novembro de 2014

Contra o Método

Autor: Paul Feyerabend

Capítulo XVIII

Dessa forma, a ciência aproxima-se do mito, muito mais do que uma filosofia científica se inclinaria a admitir. A ciência é uma das muitas formas de pensamento desenvolvidas pelo homem e não necessariamente a melhor. Chama a atenção, é ruidosa e impudente, mas só inerentemente superior aos olhos daqueles que já se hajam decidido favoravelmente a certa ideologia ou que já a tenham aceito, sem sequer examinar suas conveniências e limitações. Como a aceitação e a rejeição de ideologias devem caber ao indivíduo, segue-se que a separação entre o Estado e a Igreja há de ser complementada por uma separação entre o Estado e a ciência, mais recente, mais agressiva e mais dogmática instituição religiosa. Tal separação será, talvez, a única forma de alcançarmos a humanidade de que somos capazes, mas que jamais concretizamos.

A idéia de que a ciência pode e deve ser elaborada com obediência a regras fixas e universais é, a um tempo, quimérica e perniciosa. É quimérica pois implica visão demasiado simplista das capacidades do homem e das circunstâncias que lhes estimulam ou provocam o desenvolvimento. E é perniciosa porque a tentativa de emprestar vigência às regras conduz a acentuar nossas qualificações profissionais em detrimento de nossa humanidade. Além disso, a idéia é prejudicial à ciência, pois leva a ignorar as complexas condições físicas e históricas que exercem influência sobre a evolução científica. Torna a ciência menos plástica e mais dogmática: cada qual das regras metodológicas se vê associada a pressupostos cosmológicos, de modo que, recorrendo à regra, damos por admitido que os pressupostos sejam corretos. O falseamentismo ingênuo dá por admitido que as leis da natureza se apresentem de maneira clara e não oculta por perturbações de magnitude considerável, O empirismo aceita que a experiência sensória seja melhor espelho do mundo que o pensamento. O culto do argumento tem como certo que os manipuladores da Razão oferecem resultados melhores que os do jogo incerto de nossas emoções.

A alteração da perspectiva decorrente dessas descobertas conduz, uma vez mais, ao longamente esquecido problema do mérito da ciência. A ele conduz pela primeira vez na história moderna, pois que a ciência moderna se impôs a seus oponentes, não os convenceu.

A ciência dominou pela força, não através de argumentos(isso é especialmente verdadeiro no que se refere às primeiras colônias, onde a ciência e a religião do amor fraternal foram introduzidas como algo natural, sem consulta aos habitantes e sem lhes ouvir argumentos). Hoje, damo-nos conta de que o racionalismo,inclinando-se para a ciência, não pode ser de qualquer valia em face da pendência entre ciência e mito e damo-nos conta, ainda, graças a investigações de caráter inteiramente diverso, que os mitos são muito mais válidos do que os racionalistas têm ousado admitir.

Somos, assim, forçados a suscitar a questão do mérito da ciência.

Exame do assunto revela que ciência e mito se superpõem sob muitos aspectos, que diferenças aparentemente perceptíveis são, com freqüência, fenômenos localizados que, em outros pontos, se transformam em similaridades e que as discrepâncias fundamentais resultam antes de propósitos diversos do que de métodos diferentes a tentarem alcançar um único e mesmo fim ‘racional’.

A busca de teoria é busca da unidade subjacente à complexidade que se percebe. A teoria dispõe as coisas em um contexto causal mais amplo que o contexto causal propiciado pelo senso comum: tanto a ciência quanto o mito recobrem o senso comum de uma superestrutura teorética.

Há teorias de diferentes graus de abstração e elas são utilizadas de acordo com os diferentes requisitos de explicação que se colocam.

A construção de teoria consiste em partir os objetos do senso comum para reunir os fragmentos de maneira diversa. Os modelos teoréticos nascem da analogia, mas gradualmente se distanciam do padrão em que a analogia se apoiava.

As idéias centrais do mito são vistas como sagradas. Teme-se que sofram ameaças. ‘Quase nunca se depara com uma confissão de ignorância’ e eventos ‘que fogem fortemente às linhas de classificação admitidas pela cultura em que ocorrem’ despertam a ‘reação do tabu’. As crenças básicas são protegidas por essa reação e também pelo artifício das ‘elaborações secundárias’5 que, em nossos tempos, são séries de hipóteses ad hoc. A ciência, de outra parte, se caracteriza por um ‘ceticismo essencial’6; ‘quando as falhas se acumulam rapidamente, a defesa da teoria se transforma inexoravelmente em ataquè a ela’. Isso é possível devido à ‘abertura’ do empreendimento científico, devido ao pluralismo das idéias que encerra e também devido a que ‘tudo quando escapa ou deixa de amoldar-se ao estabelecido sistema de categorias não é visto como aterrador, como algo a ser isolado e repudiado. É, pelo contrário, um ‘fenômeno’ intrigante — ponto de partida e desafio para a criação de novas classificações e de novas teorias’. Um estudo de campo a propósito da ciência leva-nos a descortinar quadro muito diverso.

Revela esse estudo que, embora alguns cientistas possam agir segundo o esquema descrito, a grande maioria segue trilha diferente.

O ceticismo é mínimo; dirige-se contra a maneira de ver dos oponentes e contra ramificações secundárias das idéias fundamentais que se defende, mas nunca se levanta contra as próprias idéias básicas. Atacar idéias básicas desperta reações de tabu que não são menos intensas do que as reações de tabu nas chamadas sociedades primitivas11. As crenças básicas são protegidas por essa reação e, como vimos, por elaborações secundárias; e tudo quanto deixa de acomodar-se ao estabelecido sistema de categorias é declarado incompatível com tal sistema ou é encarado como algo escandaloso ou, mais freqüentemente, é simplesmente considerado como não-existente. A ciência não está preparada para fazer do pluralismo teorético o fundamento da pesquisa.

O dogmatismo pesado a que fiz alusão não é apenas um fato, mas desempenha também importantíssima função.

Sem ele seria impossível a ciência. Pensadores ‘primitivos’ mostraram maior percepção da natureza do conhecimento do que seus ‘esclarecidos’ rivais filosóficos. Torna-se necessário, pois, reexaminar nossa atitude em face do mito, da religião, da magia, da feitiçaria e em face de todas aquelas idéias que os racionalistas gostariam de ver para sempre afastadas da superfície da Terra (sem ter-lhes prestado maior atenção — típica reação de tabu).

A ciência reinar soberana porque seus praticantes são incapazes de compreender e não se dispõem a tolerar ideologias diferentes, porque têm força para impor seus desejos e porque usam essa força como seus ancestrais usaram a força de que eles dispunham para impor o cristianismo aos povos que iam encontrando em suas conquistas.

Contudo, a ciência não tem autoridade maior que a de qualquer outra forma de vida. Seus objetivos não são, por certo, mais importantes que os propósitos orientadores de uma comunidade religiosa ou de uma tribo que se mantém unida graças a um mito. De qualquer modo, não há por que esses objetivos possam restringir as vidas, os pensamentos, a educação dos integrantes de uma sociedade livre, onde cada qual deve ter a possibilidade de decidir por si próprio e de viver de acordo com as crenças sociais que tenha por mais aceitáveis. A separação entre Estado e Igreja deve, portanto, ser complementada pela separação entre Estado e ciência.

No espírito de cientistas e de leigos, a imagem da ciência do século XX é decorrência de milagres tecnológicos, tais como a televisão em cores, as viagens à Lua, o forno a raios infravermelhos e de informações vagas, mas nem por isso de menor força — algo como histórias fantasiosas — a propósito de como surgem tais milagres.

Segundo essas histórias fantasiosas, o êxito da ciência é o resultado de combinação sutil, mas cuidadosamente dosada, de inventividade e controle. Os cientistas têm idéias e dispõem de métodos especiais para desenvolvê-las. As teorias da ciência foram aprovadas no teste do método. Proporcionam melhor visão do mundo que idéias não passadas pelo crivo desse teste.

A história fantasiosa explica por que a sociedade moderna dá à ciência tratamento especial e por que lhe concede privilégios que não beneficiam outras instituições.

A razão desse tratamento especial está, sem dúvida, em nosso pequeno conto de fadas: se a ciência encontrou método que transforma concepções ideologicamente contaminadas em teorias verdadeiras e úteis, a ciência não é mera ideologia, porém medida objetiva de todas as ideologias.

Contudo, o conto de fadas é, como vimos, falso. Não há método especial que assegure o êxito ou o torne provável. Os cientistas não resolvem os problemas por possuírem uma varinha de condão — a metodologia ou uma teoria da racionalidade — mas porque estudaram o problema por longo tempo e conhecem bem a situação, porque não são tolos e porque os excessos de uma escola científica são quase sempre contrabalançados pelos excessos de alguma outra escola.

No fundo, pouquíssima diferença há entre o processo que leva ao anúncio de uma nova lei científica e o processo de promulgação de uma nova lei jurídica: informa-se a todos os cidadãos ou aos imediatamente envolvidos, faz-se a coleta de ‘fatos’ e preconceitos, discute-se o assunto e, finalmente, vota-se.

Sem embargo, enquanto uma democracia faz algum esforço para esclarecer o processo, de sorte que todos o entendam, a ciência ou o esconde ou o distorce, para que ele se Amolde a seus sectários interesses.

Só os fatos, a lógica e a metodologia decidem — é o que nos diz o conto de fadas. Mas como decidem os fatos? Que função desempenham no avanço do conhecimento?

Não podemos fazer nossas teorias deles derivarem. Não podemos apresentar um critério negativo, dizendo, por exemplo, que as boas teorias são as teorias passíveis de refutação, mas não contraditadas pelos fatos.

A sugestão de que uma boa teoria explica mais que suas oponentes também não é admissível.

Voltando-nos para a lógica, damo-nos conta de que nem mesmo seus mais simples requisitos são satisfeitos pela prática científica e não poderiam ser satisfeitos, em razão da complexidade do material. As idéias de que os cientistas costumam valer-se para apresentar o conhecido e avançar rumo ao desconhecido raramente estão em estrita concordância com as injunções da lógica ou da matemática pura e a tentativa que se fizesse para levá-las a essa concordância roubaria da ciência a flexibilidade sem a qual é impossível alcançar progresso.

Anotemos: só os fatos não bastam para levar-nos a aceitar ou rejeitar teorias científicas, pois a margem que deixam ao pensamento é demasiado ampla; a lógica e a metodologia eliminam demais, são demasiado acanhadas.

Mais pormenorizada análise dos lances de êxito no jogo da ciência mostra, indubitavelmente que há uma larga faixa de liberdade a pedir multiplicidade de idéias e a permitir a aplicação de processos democráticos, mas que está obstruída pela política e pela propaganda do poder. Esse o ponto em que o conto de fadas do método especial assume sua função decisiva. Oculta a liberdade de decisão que os cientistas criadores e o público em geral têm, mesmo no que se refere às mais sólidas e avançadas partes da ciência, antepondo-lhes a repetição dos critérios ‘objetivos’ e assim protegendo os grandes nomes (os Prêmio Nobel; os chefes de laboratórios de organizações como a Associação Médica Americana, de escolas especiais; os ‘educadores’, etc.) contra as massas (os leigos; os especialistas em campos não-científicos; os especialistas em outros ramos da ciência): só importam os cidadãos que foram expostos às pressões das instituições científicas (sofreram longo processo de educação), que sucumbiram a essas pressões (foram aprovados no exame) e que estão, agora, firmemente convencidos da verdade do conto de fadas. Dessa maneira os cientistas se iludiram a si próprios e aos demais com respeito à tarefa a que se dedicam, sem, contudo, virem a sofrer qualquer real desvantagem: dispõem de mais dinheiro, mais autoridade e exercem maior atração do que merecem — e os mais estúpidos processos e mais risíveis resultados que alcançam em sua esfera de atuação vêm rodeados de uma aura de excelência. É tempo de reduzi-los às devidas proporções e de atribuir-lhes mais modesta posição na sociedade.

O processo não se restringe à história inicial da ciência moderna. Está longe de ser simples conseqüência do primitivo estágio das ciências, nos séculos XVI e XVII. Ainda hoje, a ciência pode tirar e tira vantagem da consideração de elementos não científicos.

Combinando essa observação com a percepção de que a ciência não dispõe de método especial, chegamos à conclusão de que a separação entre ciência e não-ciência não é apenas artificial, mas perniciosa para o avanço do saber. Se desejamos compreender a natureza, se desejamos dominar a circunstância física, devemos recorrer a todas as idéias, todos os métodos e não apenas a reduzido número deles. Assim, a asserção de que não há conhecimento fora da ciência — extra scientiam nulla salus — nada mais é que outro e convenientíssimo conto de fadas.

A ciência moderna, de outra parte, não é tão difícil e tão perfeita quanto a propaganda quer levar-nos a crer. Uma disciplina, como a física, a medicina ou a biologia, só parece difícil porque é mal ensinada, porque as lições comuns estão repletas de material redundante e porque a ela nos dedicamos já muito avançados na vida.

Quão freqüentemente não é a ciência aprimorada e impelida a novos caminhos por influências não-científicas!

O caminho que leva a tal objetivo é claro. Uma ciência que insiste em ser a detentora do único método correto e dos únicos resultados aceitáveis é ideologia e deve ser separada do Estado e, especialmente, dos procesos de educação.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Derrubemos os muros

Comemorou-se recentemente na Alemanha o 25º aniversário da queda do Muro de Berlim. Um evento histórico que marcou a mudança de uma época, assim como a libertação de Nelson Mandela e a eleição de Barak Obama.
Inevitavelmente, em ano eleitoral, diversas empresas de comunicação de massas, dominadas por uma elite, divulgaram a data com alarde, como se isso provasse o quanto o socialismo ou os ideais de esquerda estão fadados ao fracasso. Mas há o que comemorar? Na Europa pós-muro, a situação é de crise, consequência direta do capitalismo neoliberal. Politicamente, a Europa vê a volta de velhos ideais que se achavam caducos ou superados, depois da 2ª Guerra Mundial.
O Muro de Berlim é explorado com claras intenções políticas, com textos tendenciosos e desonestos. O Muro de Berlim caiu, mas existem outros muros que dividem o mundo em dois. Existe um muro que separa a Cisjordânia de Israel, o muro que separa a Espanha do Marrocos, o muro que separa os EUA e o México, o muro que separa a Grécia da Turquia. Muros construídos pelo capitalismo, mas curiosamente os lacaios da elite não falam dessa vergonha.
No Brasil existem muros, embora não sejam físicos. O preconceito racial ainda é um estigma. Existe ainda uma forte misoginia velada na nossa sociedade. O fundamentalismo cristão levantou um muro na sociedade ao incentivar e justificar a homofobia. Sem falar no bairrismo que existe entre alguns estados e entre as regiões. Nesse ano eleitoral, colunistas das elites ergueram o muro que divide o Brasil entre PT e PSDB.
Então o Muro de Berlim caiu, mas para alguns os muros sociais devem permanecer, separando um grupo privilegiado do povão, que deve servir e trabalhar, sem queixas, sem direitos, sem participação, sem opinião. Por isso que tem gente que fala em auditoria dos votos, em impeachment da presidente recém-eleita, em intervenção militar, em secessão.
A existência destes muros são uma vergonha e denigrem nossa humanidade. Devemos lembrar do álbum The Wall, do Pink Floyd e devemos derrubar os muros. Com consciência e participação política de todos! Vamos tornar real o Plebiscito Constituinte!

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O Coelho como símbolo da Fertilidade e da Embriaguez

História Natural, abril 1997, v106, n3, p24, (2).

Interpretação do símbolo do coelho na iconografia asteca por Patricia Rieff Anawalt.

Resumo: O símbolo do coelho na iconografia asteca representam ideias sobre embriaguez, que tiveram significância tanto social quanto ritual na cultura asteca. Rituais que envolvem a bebida alcoólica, o pulque, foi representado junto com o símbolo do coelho para designar a fertilidade e responsabilidade social em beber.

Texto completo: Copyright 1997 Museu Americano de História Natural.

Pequeno, mas onipresente, o coelho figurou com destaque na iconografia antiga asteca. O Tochtli (Coelho) foi o oitavo de vinte sinais de dias no calendário ritual asteca. Utilizado em combinação com os números de 1 a 13, os sinais do dia renderam um ciclo de 260 dias. A imagem de um coelho simbolizava também a conduta desinibida de embriaguez, algo que os astecas desaprovavam. O Codex Mendoza, um manuscrito pictórico asteca que data de cerca de 1540, mostra três jovens sendo apedrejados até a morte por embriaguez.

A associação entre coelhos e embriaguez pode parecer estranho, mas era, na verdade, não tão remoto. Em tempos pré-hispânicos, a única bebida alcoólica do asteca era o pulque, que eles chamaram de octli. O pulque era fermentado a partir da seiva interior doce do agave e tornou-se mais potente através da adição de uma raiz de um tipo de acácia. Os espanhóis observaram que coelhos (coelhos mexicanos) viviam em algum lugar entre as plantas de agave, em lugares escuros e inacessíveis. Os astecas também deve ter feito esta conexão. Eles ainda consideravam Mayahuel, a Deusa do agave, como a patrona do oitavo dia, o Coelho.

As associações foram ainda mais longe. Ao invés do homem na lua, os astecas viam um coelho (como fazem os chineses). Como o prolífico coelho, deuses lunares estavam ligados com a fertilidade, provavelmente por que a menstruação sugeria um ciclo lunar. Além disso, o branco e viscoso pulque evocava o leite e o fluido seminal. Ligados à Lua e a planta agave, os coelhos incorporaram uma ampla gama de simbolismo de fertilidade.

Por causa de seus poderes positivos e negativos como um promotor da fertilidade e da embriaguez, os astecas cercaram o pulque com ritual e regulação. Frei Bernardino de Sahagun, o maior dos cronistas astecas, disse que entre as primeiras palavras de um novo rei para as pessoas eram advertências sobre os resultados malignos e variados do pulque, a raiz do mal e da perdição. E ainda, como uma fonte de força, o pulque foi dado a mulheres grávidas e lactantes e, ocasionalmente, para guerreiros. Os astecas também bebiam pulque como parte de, pelo menos, doze cerimônias anuais e honravam uma dúzia ou mais de Deuses do pulque conhecidos coletivamente como os Quatrocentos Coelhos. Por exemplo, a cada 260 dias, em 2 de coelho, um grande caldeirão de pedra esculpida em forma de um coelho foi colocada diante de uma imagem de um Deus principal do pulque e cheio até a borda. As pessoas mais velhas e guerreiros eram autorizadas a mergulhar os canudos na bebida espumante e beber o seu conteúdo.



Entre os vizinhos dos astecas foram os Huastecs ao norte, um povo dedicado à bebida forte. Segundo a lenda, um dos primeiros líderes Huastec desgraçou-se na grande celebração em homenagem a descoberta do pulque. Só ele entre a multidão reunida não conseguiu parar de beber das quatro taças da bebida potente. Só ele pediu mais uma rodada, ficou bastante embriagado e, antes de todas as pessoas, jogou fora sua tanga. Posteriormente Huastecs formaram seu próprio comportamento infame por este antepassado lendário - o da quinta taça - resultando em um padrão de conduta bizarra. Frade Sahagun escreveu que não só o Haustecs deformaram suas cabeças, quebravam e mancharam os dentes e pintam o cabelo de amarelo e vermelho, os homens também andavam sem tangas e agiam como se estivessem bêbados.

Na visão desdenhosa dos astecas, os Huastecs estavam completamente ultrajados, se não hipnotizados. Um bom exemplo da ambivalência asteca em relação ao pulque, à embriaguez e todas as questões associadas é a adoção de uma Deusa da fertilidade Huastec em seu próprio panteão elástico. Esta divindade foi nomeada Tlazolteotl, "Divindade Imunda" (referindo-se ao excesso sexual) e tinha nítidas associações lunares. Em um documento pictórico pré-hispânico, a Deusa é mostrada usando um anel de nariz "lunar", um símbolo comumente associado com os Deuses do pulque. Ela também está ao lado de um céu noturno, onde a lua é descrita como uma enorme panela de pulque em forma de anel de nariz, preenchida com um coelho, dando outro exemplo desse complexo de símbolos de fertilidade interligados.

A promoção e manutenção da fertilidade estava no centro do sistema religioso asteca. Em duas das dezoito grandes cerimônias anuais dos astecas, mesmo as crianças mais novas foram alimentadas com a bebida potente. E um pictórico asteca contém uma representação do festival Pillahuana (a embriaguez de crianças), durante a qual meninos e meninas com idade entre nove e dez anos dançam, bêbados de pulque, e realizam atos sexuais.

Por causa da importância ritualística profunda do pulque, talvez seja compreensível que o uso indiscriminado da bebida alcoólica na vida cotidiana foi considerado profano. Somente anciãos que haviam cumprido todas as responsabilidades sociais podiam livremente beber o pulque fora de um contexto ritual.

Após a conquista espanhola, a embriaguez se tornou um problema crescente no México, aumentada com a introdução de bebidas alcoólicas fortes, destiladas. No entanto, ainda se pode encontrar pulque sendo vendido no mercado aborígene no México central, muitas vezes tirado de um balde de lata na traseira de um caminhão ou às vezes tirado de um tambor de madeira velha. É um líquido aquoso, pálido, de aparência leitosa, que não tem cheiro e não tem um gosto bom. Em algumas áreas, é aromatizado com frutas, como abacaxi. Um copo tem aproximadamente a potência de uma cerveja - não tão forte como a bebida asteca antiga, que foi reforçada com a adição da raiz diabólica.

Apesar de suas críticas contra a embriaguez, os astecas eram fatalistas sobre a falibilidade humana e beber. Sua cosmologia até forneceu a justificativa para isso. Os astecas estavam envolvidos em prever o futuro, o dia de nascimento tinha um impacto decisivo sobre a pessoa ao longo da vida. Nenhum aniversário era mais lamentável que o nefando dia 2 Coelho. Qualquer pessoa nascida sob esta influência estava condenada a embriaguez. Alimentação, descanso, aparência pessoal, família, autoestima, saúde, tudo era esquecido com a preocupação constante com o pulque. Quando um homem nascido neste dia era visto gritando, chorando, ou brigando por estar sob o efeito do dia, diziam sobre ele: "Ele é como o coelho dele".

Fonte: soychicano

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ometeotl

Jaques Lafaye nos conta em “Quetzalcoatl e Guadalupe” a curiosa história da formação da identidade do México. O México, como muitos dos países latino-americanos, foi colonizado por espanhóis. O esforço dos colonizadores em “encaixar” sua visão e crença católica e cristã neste Novo Mundo produziu uma piedosa fraude que tornou Quetzalcoatl no apóstolo São Tomé e tornou a Deusa Tonantzin na Nossa Senhora de Guadalupe.

Essa distorção da realidade e da religião não são privilégios dos cristãos. Vemos isso no Paganismo Moderno, especialmente nas vertentes da neowicca, do Dianismo e outras “religiões da Deusa”. Promove-se praticamente um indisfarçável monoteísmo centrado na Deusa, como se isso fosse compensar ou trazer justiça para a humanidade que sofreu com o monoteísmo abraâmico e o patriarcado. Omite-se e distorce-se a figura e o papel do Deus no Paganismo Moderno, por razões e agendas pessoais.

Pesquisando no oráculo virtual [Google] algumas palavras coletadas do livro eu encontrei na mitologia asteca algo que se assemelha ao Monismo, o aspecto divino chamado Ometeotl. Para este pagão que vos escreve, a Mônada é a União [Hiero Gamos] resultante do Deus com a Deusa.

Vamos conhecer um pouco mais da mitologia asteca.

Ometecuhtli (O Senhor Deus) e Omecihuatl, A Senhora Deusa, formavam a dualidade criadora na religião mexica.

Ometecuhtli representa a essência masculina da criação. É esposo de Omecihuatl e pai de Tezcatlipoca vermelho (Xipe Tótec), Tezcatlipoca preto (Tezcatlipoca), Tezcatlipoca branco (Quetzalcoatl), e Tezcatlipoca azul (Huitzilopochtli). Também é chamado de Tonacatecuhtli [tonaka'tekutli], "Senhor da nossa carne".

Este é um Deus antigo, que não tinha templos e era quase desconhecido pelo povo, mas muito nomeado nos poemas das classes altas.

Omecihuatl (Senhora da Dualidade), Deusa que representa a essência feminina da criação na religião mexica. Esposa de Ometecuhtli. Também é conhecido como tonacacihuatl, Senhora da nossa carne.

Ometeotl é também chamado "in Tonan, in Tota, Huehueteotl", "a nossa Mãe, o nosso Pai". Como dualidade e unidade masculino-feminina, reside em Omeyocann, "o Sítio da Dualidade", que, pela sua vez, ocupa o mais alto lugar dos céus. São pais do Universo e tudo quanto há nele. Como "Senhor e Senhora da Nossa Carne e Sustento", subministra a energia cósmica universal da qual todas as coisas derivam, bem como a continuidade da sua existência e sustento. Prove e mantém o ritmo oscilante do universo e confere a cada coisa a sua natureza particular. É em virtude destes atributos que são chamados de "O Um Mediante O Qual Todos Vivemos" e quem "é o verdadeiro ser de todas as coisas, preservando-as e nutrindo-as". Por ser metafísicamente imanente, Ometeotl é chamado Tloque Nahuaque, amo do vizinho e o afastado ou o que está perto de todas as coisas e de quem todas as coisas estão perto. Sendo epistemologicamente transcendente, é chamado de Yohualli-ehecátl, Um que é Invisível (como a noite) e Intangível (como o vento). Recebe também os nomes de Moyocoyatzin, "o inventor de si mesmo" e Ipalnemohua, "o dador de vida".

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ometeotl

Realmente, nós temos muito que aprender com os povos antigos.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Seja meu o êxtase e a alegria na terra

Nós dizemos em nossos rituais a Carga da Deusa.

A versão mais conhecida diz em um trecho: “Cante, festeje, dance, faça música e amor, todos em minha presença, pois meu é o êxtase do espírito e minha também é a alegria sobre a terra”.

Há outro trecho onde se diz: “Pois meu é o êxtase do espírito e minha é a alegria do mundo; pois a minha lei é o amor para todos os seres”.

Em uma versão mais antiga há um trecho que diz: “Há uma porta secreta que eu fiz para estabelecer o caminho para experimentar mesmo na terra o elixir da imortalidade. Digam, ‘seja meu o êxtase e alegria na terra’”.

A maioria de nós nasceu em uma cultura que ficou soterrada pelo recalque, pela opressão e repressão ao corpo, ao desejo, ao prazer, ao amor e ao sexo, fruto da crença judaico-cristã. A postura do Paganismo Moderno é bem revolucionária em relação à maioria das religiões majoritárias ao colocar o corpo, o mundo, o desejo, o prazer, o sexo e o amor como parte do caminho e busca espirituais.

Em sua estrutura ritualística, a Wicca Tradicional celebra a fertilidade com o Grande Rito, não há como vivenciar e entender o mistério de nossa religião sem que o sacerdote incorpore o Deus e sem que a sacerdotisa incorpore a Deusa e realizem o Hiero Gamos. Esta liturgia ainda sobrevive em covens mais tradicionais, mas foi perdido com a popularização da Wicca e com a chegada da neowicca. Hoje em dia se fala com naturalidade no rito simbólico e em auto iniciação, abriu-se mão de diversos princípios tradicionais para se conseguir maior aceitação do público.

A história antiga mostra que nossos ancestrais sabiam como celebrar. Antigamente os festivais religiosos eram eventos populares, havia música, dança, canto, a multidão tinha alegria e êxtase nesses atos voluntários de adoração aos Deuses. Quanta coisa nós perdemos quando concedemos poder a uma instituição religiosa, quanto nós perdemos ao conceder uma autoridade a uma religião oficial. Tudo que se ouve nas igrejas é lamúria, choro, remorso, arrependimento, sofrimento, dor.

Em pleno mundo contemporâneo não vemos muitas demonstrações públicas de canto, dança, música, júbilo, alegria e êxtase. A Sociedade, o Estado e a Igreja nos permitem apenas o Carnaval, festas juninas, natal. Imaginar uma cidade inteira em festa por meses em louvor a um Deus ou uma Deusa é impensável, mesmo para as religiões oficiais. O que vemos nas mídias, em termos de entretenimento e notícia, é violência, tragédia, sofrimento, dor. Falar em amor, júbilo, alegria e êxtase em tais sociedade e cultura doentias é loucura.

Como percebemos, entendemos e realizamos a alegria e o êxtase na terra, em nossas vidas, em nossas cidades, em nossos países, parecem ser questões surreais. A alegria está ligada ao contentamento, a uma vida feliz, um sentimento de satisfação. A condição de estar contente ou ser feliz, nesse mundo consumista e egoísta, parecem ser impossíveis. O êxtase está ligado ao arrebatamento, ao estado de satisfação absoluta, quando obtemos um prazer total, onde nossas necessidades deixam de existir e vivemos na plenitude divina. A percepção de que o mundo “real” é uma simples miragem, espelho, reflexo, ilusão de algo maior, nesse mundo niilista e materialista, parecem ser sonhos.

O pagão, o bruxo e o wiccano vai além de celebrar, nós vivenciamos essa prática, diariamente, pois dizemos: “todo ato de amor e prazer” são os rituais de nossos Deuses.