terça-feira, 25 de agosto de 2015

Esses malvados Romanos

Beto: Eu não vi qualquer pagão perseguindo, matando, torturando ou queimando outro pagão por práticas ou crenças diferentes.
Mark Green: Você não deve ter ouvido dos Romanos.
Uma evidente distorção e deturpação da História. Se fosse um cristão eu não ficaria espantado. Mas Mark alega ser “ateu pagão”. Vamos aos fatos.
1)   Roma não tinha uma religião oficial única. A religião romana, tal como a grega, tinha a sua expressão pública e a particular, a familiar.
2)    Os Romanos não se identificavam como pagãos nem sua religião como Paganismo. A religião de Roma era tradicional, estava intrinsecamente conectada com a cidadania romana e com a Urbe. O “pagão” era como o caipira da nossa época.
3)  Roma não tinha uma organização religiosa central, altamente hierarquizada ou com dogmas centrais. Roma era politeísta, cada Deus tinha seu próprio templo, corpo sacerdotal e ritual.
4)   Roma tinha uma tolerância com as religiões dos povos dominados. Muitas vezes os Romanos adotaram ou assimilaram religiões e Deuses de outros povos.
Mesmo assim, Roma tinha uma política rígida.
Roma perseguiu e destruiu o culto a Dioniso. Um Culto de Mistério, Iniciático e Estático. Não era um culto divergente da “religião oficial romana”, nem tampouco pode ser considerada “pagã”, pelos termos da época. O culto a Dioniso foi exterminado por que foi considerada uma ameaça à sociedade romana, não por motivos religiosos.
O Senado mandou destruir o templo de Isis e Osíris, Júlio Cesar mandou destruir os livros sibilinos e Tibério César ordenou a destruição do templo de Isis e Serapis.
O culto de Isis e Osíris é Egípcio, portanto não é Romano, portanto não pode ser considerado uma “pratica diferente” da religião romana. O culto de Isis e Osíris era um culto que pertenciam às cidades do Egito, portanto, não eram “pagãs”, pelos termos da época. As Sibilinas eram videntes Gregas, portanto não são Romanas. Os Romanos possuíam seu próprio sistema de vidência e os livros sibilinos não eram um “desvio” da crença romana. O culto de Isis e Serapis foi instituído pelos Gregos e Macedônios, portanto não é Romano. O culto de Isis e Serapis tinha seu centro na cidade de Alexandria, Egito, portanto, não era Romano nem “pagão”, pelos termos da época.
O Senado ordenou a destruição do templo de Isis e Osíris porque estava localizado na mesma colina onde estava o templo de Júpiter. Júlio Cesar acabara de centralizar o poder, o livro sibilinos ameaçavam seu poder máximo. Tibério Cesar ordenara a destruição do templo de Isis e Serapis por consequência da derrota de Cleópatra.
Em contraponto, Roma ordenou que fosse trazido a estatua da Magna Mater para que a Bonna Dea fosse adorada. Roma adotou o culto de Mithra no seu exército. Roma adotou e assimilou a mitologia Grega, bem como rituais e templos da religião grega. O culto de Isis chegou a se tornar uma religião de massas graças a Roma. Quando Roma expandiu seu território e se tornou um Império, permitiu que os povos dominados mantivessem sua religião.
Roma apenas se tornou religiosamente intolerante depois que o Império Romano instituiu o Cristianismo como religião oficial. Foi nesta época que se deu o nome de “pagão” e “paganismo” a todas as crenças antigas e originais que existiram antes do Cristianismo.
Cristão ignorar que sua religião teve suas origens nas diversas religiões antigas é até aceitável. Mas alguém que alega ser ateu pagão ignorar a diferença entre as Religiões Antigas e o que nós orgulhosamente chamamos de Paganismo Moderno, é inaceitável.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Pulando a cerca

John Beckett explora o conceito de fronteiras e pergunta de forma provocativa quem colocou tais limites. O ser humano construiu seu conceito do que é real, do que é mundo, do que é carnal, do que é divino. Nós precisamos de alguns parâmetros para vivermos e funcionarmos neste mundo e a linguagem é um tipo de restrição que tanto pode ser útil quanto perigosa. Quando nós damos à palavra [dita ou escrita] um valor maior do que devia, nos tornamos fundamentalistas. Quando damos à palavra [dita ou escrita] um valor menor do que devia, nos tornamos desonestos.
Entretanto a humanidade está questionando muitos dos [pre] conceitos que existiam e eram considerados eternos. Atualmente existe uma enorme discussão sobre o gênero e eu estou acompanhando com inegável interesse.
Somente agora falam com mais frequência de redesignação de gênero, pessoas que passam por uma cirurgia para que seu corpo reflita seu gênero, @s transgênero, como Caitlyn Jenner. O gênero é uma construção social e isso foi comparado com o caso de Rachel Dolenzal, uma professora ativista dos direitos dos afrodescendentes que é branca. Este é o caso de uma pessoa que passam por uma ressignificação de sua etnia para refletir a etnia que acredita pertencer, ou o fim dos conceitos definitivos sobre etnia e até sobre raça, seria @ pessoa transracial.
Ainda existem algumas fronteiras humanas que vão desafiar nossa percepção e compreensão das coisas. Existem @s transespécies, pessoas que passam por alguma modificação para que seu corpo reflita a espécie que acredita pertencer. Nada mais será como antes. Por mais perturbador que seja para a mente provinciana, não devemos esquecer que em “transcendente” está presente a raiz “trans”.
Por falar em transcendente, assunto comum em diversas espiritualidades, crenças e religiões, a humanidade está também questionando os dogmas que dominaram por séculos e existem diversas formas de espiritualidade/crenças/práticas/religiões alternativas para satisfazer nossas expectativas. Um bom exemplo é o Paganismo Moderno, onde o divino também é imanente, mundano, material e carnal. Aqui existem diversas formas de entender e perceber o divino: monismo, henoteísmo, duoteísmo, politeísmo, monoteísmo e... ateísmo.
Eu escrevi, com certo interesse: “O ateu não recusa a experiência espiritual ou a existência do divino, mas a presunção, a arrogância de um determinado grupo em atribuir a si o monopólio e o privilégio sobre o conhecimento do divino. Para o ateu, a experiência espiritual, bem como a crença e a religião, devem permanecer pessoais. Então a briga do ateu é contra as organizações religiosas, não contra a religião ou a espiritualidade.”
Então existem ateus que são pagãos ou pagãos que são ateus. Coisas que são aparentemente contraditórias. Mas a vida e o mundo são feitos de coisas contraditórias como o ornitorrinco, um mamífero que tem bico de pato e põe ovos. Antes de criticar, eu devo ler e compreender. Infelizmente, os textos escritos por quem se identifica com esse filão de “transcrença” são muito mal escritos e tem argumentos muito fracos. Infelizmente o ser humano é capaz de criar nichos para se sentir confortável.
Mark Green se intitula ateupagão e tenta expor, justificar e embasar. John Halstead é outro humanista/naturista/ateu/pagão que muitas vezes tropeça em seu ceticismo quando escreve seus textos no Patheos. Ambos têm algumas ideias em comum, como a reverência à natureza, a ideia do divino como arquétipo, a importância dos valores morais, a importância da vida comunitário-religiosa, a celebração de determinadas datas sagradas. Em todos os textos, ambos parecem perder completamente o ponto da questão. Ambos estão dispostos a defender suas ideias, o ateísmo, a ciência e assumem ou reproduzem diversos discursos típicos do cético e do descrente.
A que ponto o ateu consegue ter uma espiritualidade sendo tão radical contra certos conceitos espirituais é tão desafiador quanto entender como é possível um cristão ser progressivo. Em algum momento se atinge o cerne desse pensamento, onde não é mais possível dobrar.
A postura de Mark e John diante da Natureza é mais como um evento, desprovido de identidade, consciência ou divino. A ideia de arquétipo, embora seja um recurso da psicanalise, não é uma ideia teísta. O ateísmo em seus princípios afirma que não é necessário alguém ser religioso para ter valores morais. O humanismo provém ao descrente a convivência comunitária, sem necessitar de uma crença. Celebrar datas sagradas sem admitir a existência do reino espiritual ou divino é como jogar futebol sem bola.
Diversas vezes Mark Green critica as opiniões de outros pagãos ou das crenças em geral, mas não é capaz de perceber ou de criticar suas próprias presunções pseudocientíficas religiosas. Mark Green critica a excessiva credulidade no Paganismo Moderno, mas afirma que seu modelo cosmológico é “científico e pagão”. Mark Green critica a irracionalidade das crenças na existência dos Deuses e afirma que sua crença é “racional” [outros credos afirmam o mesmo, com o mesmo insucesso em demonstrar ou sustentar suas afirmações].
O ateupagão pode se defender utilizando os pensadores da Antiguidade que eram “ateus”. Eles certamente têm a mesma preguiça ou desonestidade que eu vejo muito em cristãos, distorcendo ou pinçando apenas o que interessa da História. Texto fora de contexto gera pretexto. Os pensadores da Antiguidade criticavam a forma como as pessoas acreditavam ou falavam dos Deuses, eles não duvidavam da existência Deles.
O interessante é que o ateu moderno se vale da ideia do Neoplatonismo sobre o Logos, a mesma utilizada pelo Cristianismo para defender a “Verdade” contra a idolatria “pagã”. A única diferença entre o cristão e o ateu é sua fonte sobre a “Verdade”. E assim como os cristãos, para o ateu, apenas a sua verdade elegida é a verídica. Então eu não estranho os argumentos de Mark Green tentando refutar críticas contra ele. Infelizmente não é diferente do que eu leio vindo de cristãos.
Tal como o marido infiel, Mark Green gosta de pular a cerca de vez em quando. Só não gosta de ser pego com as calças nas mãos.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A praga do dogmatismo

Frade Longenecker está preocupado com o que comemos. Conhecendo os hábitos alimentares dos americanos, é uma preocupação compreensível. Mas em um mundo tão grande, com tantos, povos, hábitos alimentares e dietas, em que a preocupação e a opinião de Frade Longenecker é relevante ou pertinente? Ele deve estar usando a comida como uma analogia para alguma outra coisa.

Frade Longenecker diz que comer tem um objetivo. Comer está relacionado com uma função orgânica e natural de nosso corpo. Comer é como sexo. Confundir gêneros é igual a comer algo inapropriado. Analogia interessante. Eu vou comprar.

Comer é uma função orgânica e natural que visa um objetivo. Comer deve ser compativel com o organismo e não o inverso. Vamos colocar em uma mesa a enorme diversidade de espécies. As formas de comer são inúmeras. Portanto as formas de gênero são igualmente inúmeras. O que torna ridiculo a doutrina da Igreja de que apenas existe o gênero "homem" e "mulher" e de que apenas existe a heterossexualidade.

O cristão pode tentar refutar dizendo que não estamos falando na natureza em geral, mas da humanidade. Este é o problema em usar analogias, se não há um endereçamento específico, elas se tornam universais. Eu serei condescendente e permitirei essa restrição. Confundir gêneros humanos é igual a pessoas comendo algo inapropriado. Continua interessante. Eu vou comprar.

Quando falamos especificamente em seres humanos, também devemos ser específicos quanto aos hábitos alimentares. Vamos colocar em uma mesa a enorme diversidade de épocas, povos, culturas e dietas. Os hábitos alimentares são extremamente diverisficados. Portanto as formas de gênero e sexo são tão amplas que se torna ridículo e grosseiro que um cristão ocidental dite normas, sejam de hábitos alimentares, sejam de gênero/opção/identidade sexual, para quem quer que seja.

Eu sei, até compreendo, que o cristão se sinta confuso, amedrontado, inseguro e receoso ao se deparar com o fato de que o gênero é resultado de uma construção sócio-cultural. A Igreja incute esse medo, essa fobia, porque sabe que seu poder e influência depende de manter milhões de pessoas na ignorância. Medo e ignorância resulta em ódio e violência, sentimentos que tem sido uma excelente fonte de lucro para a Igreja.

Eu gostei tanto dessa analogia comer=sexo que eu vou mais adiante. Afinal, se hoje eu comi bife e amanhã eu como macarrão, hoje eu sou heterossexual e amanhã eu posso ser homossexual. O senhor pode fazer o mesmo. Se hoje o senhor jejuou e amanhã vai comer uma feijoada, hoje o senhor é monogâmico e amanhã o senhor pode ser poligâmico.

Se cada pessoa pode escolher o que quer comer, cada pessoa pode escolher qual é seu gênero/opção/identidade sexual e ninguem tem coisa alguma com isso.

APOSTASIA JÁ!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Paganismo Superior

A verdade é um erro.
A verdade é um critério necessário à conservação da vida. É verdadeira uma opinião, ou uma atitude, na proporção em que torna possível ou fácil uma adaptação ao meio.
A verdade relativa:
1) Para todos os seres com os mesmos sentidos que nós, completa ou incompletamente;
2) Para a humanidade em geral;
3) Para aquela parte da humanidade a que nós pertencemos.
1. A verdade chamada metafísica, isto é, o universo tal qual directamente no-lo revela o conjunto dos nossos sentidos.
2. A verdade chamada moral (propriamente intelectual) composta das ideias abstractas que distinguem a actividade intelectual humana da sub-humana.
3. A verdade de valores, que distingue a actividade intelectual civilizada da não civilizada. (Ou a verdade criativa?)
Houve, por isso, 3 momentos de renovamento desde que caducou o paganismo puro e simples:
1) A subjectivação pelo simbólico. (Platão)?
2) A subjectivação pela atenção sintética aos sentimentos como sentimentos; como sujeito (Renascença — vide sentimentalistas e Shakespeare).
3) A subjectivação pela atenção analítica aos sentimentos (Romantismo).
Mas o nº 4 não será agora, com o renascimento do ocultismo e Platão o mero esboço?
Estando tudo mais ou menos confundido, sabe-se o elemento característico, dos outros períodos?
O fenómeno chamado cristianismo derivou da junção de três tendências inteiramente diversas e que só a circunstância exteriormente unificadora de existirem adentro do Império Romano conseguiu jungir em uma só.
(1) A interiorização do paganismo, isto é, a espiritualização do helenismo;
(2) A emergência extrajudaica do monoteísmo judeu;
(3) A influência cosmopolita do império romano.
(1) O paganismo helénico tem duas feições: a exotérica, que é a do mito popular e admite os deuses, objectivista, patente, consoante o são todas as manifestações populares, e, sobretudo, todas as manifestações do espírito grego; e a esotérica, que o heleno aprendia apenas nos mistérios, a parte oculta do paganismo, ligada intimamente — mais mesmo que a parte aparente e normal — aos velhos cultos e sacerdócios do Egipto e do Oriente indefinido.
Em Pitágoras emerge, afirma-se em Platão, este esoterismo pagão. Porque emerge? Porque o espírito da filosofia pagã começou da limitação objectivista. Desceu às cavernas das iniciações. Abriu portas insuspeitas no mistério da alma humana.
O adoecimento do espírito objectivo.
O sincretismo helénico, o carácter sintético do paganismo devia complicar-se . Tendo começado por admitir todos os deuses, devia, interiorizando-se, acabar por admitir todas as ideias de deuses.
Assim, (...), no seu paganismo fundamental, o cristianismo é um paganismo de três dimensões, não só externo mas também interno; não só admissor dos deuses de todas as crenças, mas aperfeiçoador de todas as crenças.
É isto o paganismo superior.
(2) O judaísmo, ao mesmo tempo que põe a força fixadora, põe a força desvirtuada de Cristo. Na sua essência útil e vital, o cristianismo é um paganismo interiorizado, um paganismo completo, um politeísmo de dentro.
Mas, com a outra alma, o altropsiquismo dos cultos orientais, o psiquismo superior foi buscar o monoteísmo judaico, mortal para a própria essência do paganismo porque exclusivista e fechado.
Tanto assim que toda a renascença ideativa cristã é uma renascença ao mesmo tempo pagã e platonista. Os dois aspectos acompanham toda a renascença, porque são o mesmo: um é a essência, outro a consequência. Há duas renascenças ideativas adentro do cristianismo: a renascença e o romantismo.
Em ambos o paganismo é evidente e o platonismo também. É que um é a base, outro a sobrebase da força verdadeira do cristianismo.
Na sua essência, o cristianismo é um paganismo esotérico. Na sua desvirtuação, o cristianismo é um judaísmo degenerado, na sua forma exterior católica, o cristianismo é um império romano subjugado.
A libertação ocultista moderna serviu, provavelmente, os fins de trazer o cristianismo ao seu ponto são: o paganismo esotérico.
Para isso é preciso despir-se do culto judaico, isto é, do seu elemento moral, abolir o humanitarismo de Cristo, (...)
O aperfeiçoamento de qualquer sistema religioso dá-se de uma de três maneiras, ou de mais do que uma das três conjuntamente: a) pela intelectualização dos seus elementos míticos componentes; b) pela subjectivização desses elementos; c) pela sua mera simplificação (complicação) exterior.
A intelectualização dos elementos componentes distingue-se da sua complicação pelo facto de que a intelectualização interpreta, ao passo que a mera complicação não interpreta. A intelectualização chega a um resultado extremo, supondo que aceita os elementos (como no caso presente, de facto, se supõe): à redução desses elementos a simbólicos ou símbolos. A complicação não envolve essa obra: apenas os conduz, a cada um, a um conteúdo mais complexo, a um alcance maior, portanto, sobre os sentimentos.
O paganismo seguiu um caminho natural ao intelectualizar-se; mas esse caminho foi perturbado pela erupção de elementos bárbaros, orientais, que desvirtuaram o sentido desse movimento.
A erupção do elemento oculto, estabelecendo uma base de aproximação com os credos orientais, deixou aberto o paganismo à invasão dos princípios daqueles credos, profundamente anarquizantes do paganismo, e da natureza humana.
A essência do paganismo está em 3 coisas:
1) A pluralidade dos deuses como essência de mitologia;
2) A adopção da criação como ideal humano;
3) A concepção do universo essencial como fenómeno essencialmente objectivo.
O elemento vital do cristianismo é o paganismo transcendente, que inclui. É o elemento vital porquanto: 1) é aquele que estabelece continuidade com o passado; 2) é aquele que representa um prolongamento do passado, um passo a mais, e não um mero acrescentamento; 3) é aquele que, em todas as ocasiões de reviviscência europeia, nós vemos que surge como símbolo, modo em suma, dessa ressurreição.
Há no elemento pagão do cristianismo duas componentes a notar: o paganismo propriamente dito, e o interiorismo nado do paganismo que se aprofundou.
Chegado a um certo ponto, o paganismo não podia mais progredir objectivisticamente; só subjectivando-se podia continuar.
Ora em que consiste a subjectivização? Em 3 fenómenos:
(1) Na redução dos fenómenos objectivos a simbólicos, desmaterializando-os assim. Não se lhes erra as proporções ou a forma de realidade; dá-se a essa realidade um sentido de eco e não de palavra, não de questão mas de interpretação.
(2) Na atenção dada aos fenómenos subjectivos de modo a dar-lhes, ou a sentir-lhes, uma realidade concreta tão certa como a dos fenómenos objectivos. Isto é, no alargamento da experiência directa pela observação intensiva dos fenómenos do espírito.
[Fernando Pessoa]
Fonte: Arquivo Pessoa

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O Ideal Pagão

O valor de um ideal depende, evidentemente: (a) da sua concordância com a própria noção de ideal, (b) da sua utilidade (...); (c) da sua capacidade em estimular a acção nobre nos homens.
O ideal é a noção de que a Vida não basta. Pode considerar-se a vida como não bastando por uma de 3 razões: (a) por ser falsa, (b) por ser vil, (c) por ser imperfeita. São os modos [...] metafísico, ético e estético de encarar a vida e o ideal. São os conceitos budista, cristão (judaico) e pagão da existência.
Uma religião é um conceito do ideal comum a uma colectividade. Por ser comum a uma colectividade assume aspectos manifestativos (um ritual).
O ideal tem 3 formas: na sua relação com o universo - a Verdade; na sua relação com os homens - a Virtude; na sua relação consigo próprio - a Beleza. A Beleza é o Ideal Puro; é superior à Verdade e ao Bem porque é a própria substância do ideal, inaplicado e irrefracto. A Beleza é o que se prefere à vida, sem razão outra do que a preferência.
O ideal pagão é o mais justo e acertado de todos, porque, assim como a relação fundamental entre o homem e o universo é a sensação, o conceito metafísico mais acertado é o que baseie o universo na sensação: portanto, o Misticismo, cujo ponto de partida é a crença na realidade da sensação, a «crença na sensação» (mais curtamente). Como a essencial relação entre os homens é a sociedade, a sociedade, em que vivemos, a essencia da virtude está nas virtudes familiares e políticas. Como a essencial relação do ideal consigo próprio é o de ser uma afirmação de que a vida não satisfaz, a noção mais absoluta e pura do ideal é a de que a vida é imperfeita, se se considerar as razões porque o é , se é por ser falsa, se é por ser vil, se por outra qualquer. Assim o ideal pagão, a que estas 3 formas correspondem, é o mais certo e justo de todos.
[Ricardo Reis/João Pessoa]
Não somos, na verdade, neopagãos, nem pagãos novos. Neopagão, ou pagão novo, não é termo que tenha sentido. O paganismo é a religião que nasce da terra, da natureza direitamente — que nasce da atribuição a cada objecto da sua realidade verdadeira. Por sua própria natureza de natural, ele pode aparecer e desaparecer, mas não mudar de qualidade. «Neopagão» é um termo que tem tanto sentido como «neopedra» ou «neoflor». O paganismo aparece com a saúde, desaparece com o adoecimento, do género humano. Pode estiolar-se, como uma flor se estiola, e morrer, como morre uma planta. Mas não toma a forma de outra coisa, nem é susceptível de formas diferentes da sua substância.
Nós, que somos pagãos, não podemos usar um nome que indique que o somos como «modernos», ou que viemos «reformar», ou «reconstruir» o paganismo dos gregos. Viemos ser pagãos. Renasceu em nós, o paganismo. Mas o paganismo que renasceu em nós é o paganismo que sempre houve — a subordinação aos deuses como a justiça da Terra para consigo mesma.
Um estudioso do paganismo não é um pagão. Um pagão não é humanista: é humano.
Aquele «paganismo» moderno, ou «neopaganismo», que não compreende os dias santos, mas sim os poetas místicos, nada tem de comum com o paganismo.
O pagão tem simpatia pela superstição, porque o homem que não é supersticioso não é homem; mas não sente simpatia pelo humanitarismo, porque quem é humanitário não é homem.
Para o pagão cada coisa tem o seu génio ou ninfa, cada coisa é uma ninfa cativa ou uma dríade apanhada pelo olhar; por isso cada objecto tem para ele uma espantosa realidade imediata, e com cada coisa ele está em convívio quando a vê, e em amizade, quando lhe toca.
O homem que vê em cada objecto uma outra coisa qualquer, que não seja isto, não pode ver, amar ou sentir esse objecto. O que dá a cada coisa o valor de ter sido criada por «Deus», dá-lhe o valor por o que ela não é, mas por o que ela lembra. Os seus olhos estão postos nessa coisa, e alhures o seu pensamento.
O panteísta, para quem cada coisa vale pela sua participação no todo, por igual vê uma coisa para pensar noutra, por igual olha para não ver. Não pensa nela, mas na continuidade dela com o resto do mundo. Como pode amar uma coisa quem a ama por um princípio externo a ela? A primeira regra do amor, e a última, é que a coisa amada seja amada por ser essa coisa e não outra, e amada por ser objecto de amor, não por haver «razão» para amá-la.
[Antonio Mora/João Pessoa]
Fonte: Arquivo Pessoa.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Apologia, certeza e crença

O que há em comum em um pagão, um cristão e um ateu? Todos vão defender seu ponto de vista. Todo ser humano faz isto. Nós temos que apoiar e sustentar nossos pontos de vista, nossas ideias e ideais. Nós somos apaixonados por nossos pensamentos e vamos lutar por eles, por mais que eles sejam incoerentes, contraditórios ou repugnantes.
Não faltam textos, páginas e comunidades na internet que demonstram a versatilidade e diversidade humana. E eu não estou falando da Deep Web, mas de páginas públicas. E eu não estou falando apenas de páginas cristã, mas de páginas de ateus e pagãos. Dependendo de quem escreve, o internauta consegue encontrar desde coisas rasas e estúpidas até grandes sacadas e epifanias.
Alhures eu disse que o ateu e o cristão têm em comum a necessidade da certeza. O ateu tem a ciência para endossar sua certeza da verdade, o cristão tem a crença para endossar sua certeza da verdade. Um evidente exagero, mas tanto o ateu quanto o cristão é um “crente da religião de livro”. Exagero, porque o conteúdo dos livros científicos pode ser comprovado, ao menos naquilo que expõem, mas costumam ser usados para emprestar certa “autoridade” à Ciência e ao Ateísmo em suas críticas a tudo que se refere a crenças e religiões.
E o pagão moderno? De onde ele tira sua “certeza”, de onde vem a nossa “verdade”? Quando nós expomos nossas práticas, crenças, visões, opiniões, teologias, nós temos que nos explicar, nos justificar? Quantos de nós precisamos colocar em sua página um aviso legal ou se vê tendo que fazer uma apologia?
Eu sei que eu tenho que constantemente escrever textos “apologéticos”, diante dos ataques e críticas, tanto de cristãos e ateus, mas também de pagãos. O que eu posso adiantar é que crença não é o mesmo que certeza. A obsessão pela certeza, pela possessão da Verdade, tem mais a ver com uma psicose do que com a busca da Sabedoria, da Verdade, do Conhecimento.
O pagão moderno sabe e admite que sua crença é um assunto particular. Ainda que existam grupos e comunidades que usem a internet para exporem suas crenças e práticas, cabe ao curioso, ao simpatizante e ao interessado pedir para fazer parte do grupo, da comunidade. Nenhum grupo ou comunidade do Paganismo Moderno irá fazer proselitismo.
John Beckett descreveu com exatidão como “funciona” a religião no Paganismo Moderno como sendo um resultado da interação entre prática, crença e experiência. Em outros termos, nós não somos uma “religião de livro”, nem presumimos que nossa crença contenha a mais absoluta Verdade porque é uma “revelação divina”. Eu creio que possa afirmar que o pagão moderno não irá contestar a ciência e a tecnologia. No máximo, podemos contestar aportes filosóficos e teosóficos sobre o divino, sua natureza e sua existência.
No meu caso, a experiência foi a primeira fonte ou base de minhas crenças. Aquilo que percebemos do mundo, de nossa vida, de nosso propósito de existir, não é algo que seja objeto da Ciência, mas sim da Filosofia e da Religião. Coloque um tempero de psicologia, pois como interpretamos e interagimos com essa percepção, com o outro e com o mundo influencia muito nossa compreensão. A experiência é sensorial, mental, subjetiva e errática. A experiência, ainda que seja controlada e feita em laboratório, ainda é apreendida por órgãos sensitivos falíveis e nenhuma observação pode ser inteiramente objetiva enquanto o observador e observado estiverem no mesmo contexto. Eu ouso ir mais longe e provoco ao apontar como a linguagem científica fica muito próxima da linguagem mística, esotérica e religiosa, quando tenta explicar teorias complexas para o público comum.
A minha conclusão é de que explicar a máquina não explica o fantasma que habita nela. E tecnologia é apenas “magia” com outro nome. A tecnologia aplica determinadas ferramentas que utilizam dos mesmos princípios e efeitos da magia, embora ela seja mais bem sucedida, então nós não vamos descartar a tecnologia porque acreditamos na manipulação de energias. O mesmo estudo e compreensão que podemos fazer em relação à tecnologia, podem ser feito em relação à magia. Foi isso que me levou a estudar as diversas práticas de magia. A prática é a segunda, mas a mais importante fonte de nossa crença. A prática reforça e sustenta a experiência e a crença. A prática é bem pragmática, algo é mantido ou sistematicamente reproduzido porque funciona. Quando não funciona, analisamos todos os eventos, elementos, ferramentas e procedimentos. Se a falha pode ser corrigida, a prática vai funcionar. Se não, a prática é descartada.
A prática mostra muito como e porque as coisas são como são, mostra como e porque as coisas funcionam como funcionam. Mas sem a sensibilidade, perde o sentido e sem um objetivo, torna-se fútil. A experiência é a sensibilidade, a crença é o motivo. A crença é a terceira fonte e geralmente a que mais dá trabalho e problema. Por causa do niilismo do mundo contemporâneo e pelo antropocentrismo, qualquer discurso espiritualizado soa como mera superstição.
O pagão moderno é bem diversificado, existem diversas visões e opiniões sobre o divino. O pagão moderno sabe que os Deuses existem, através de suas experiências e práticas. Quando acredita no divino, o pagão moderno geralmente diz que o divino é transcendente e imanente, os Deuses estão além do mundo físico ao mesmo tempo em que se manifestam no mundo físico. Os Deuses tanto podem ser e parecer com as partículas e ondas que foram nosso mundo físico como podem ser e parecer com uma pedra, uma árvore, uma montanha, um bicho, um quadro, um ser humano.
Isto é mais do que suficiente para fomentar diversas polemicas e controvérsias. Por exemplo, nós negamos a existência do pecado ao mesmo tempo em que descartamos o problema do “mal”. Nós negamos a existência do Inferno ao mesmo tempo em que refutamos os questionamentos morais humanos diante do sofrimento. Nós nos debatemos quanto à existência do divino, se é um, se é muitos. Nós nutrimos uma expectativa de aceitação e reconhecimento público de nossas crenças ao mesmo tempo em que tentamos lidar com nossos conflitos internos. Nós temos uma postura politica em defesa do ambiente e dos animais ao mesmo tempo em que vivemos no conforto que a civilização e a tecnologia nos provêm. Nós esperamos que sejamos respeitados por nossas práticas e crenças ao mesmo tempo em que permitimos a existência de vigaristas e farsantes em nosso meio. Nós defendemos a importância da tradição ao mesmo tempo em que damos espaço para práticas ecléticas. Nós nos esforçamos para dar algum respaldo teórico, histórico e sério ao mesmo tempo em que permitimos as mais diversas bobagens. A única certeza é que nós não temos certeza de coisa alguma. Nós apenas admitimos que nós somos humanos, limitados e falíveis. Não é muito difícil de um crente ou descrente sentir um impulso em refutar nossas crenças. Se você se sentir ofendido pelas práticas e crenças de algum pagão moderno, antes de fazer qualquer crítica, analise suas [pseudo] certezas com o mesmo peso. Mas se mesmo assim você sentir tal impulso, se mesmo assim você sentir que é seu dever defender e preservar a verdade, eu vou adiantando minhas desculpas e ressaltando o aviso legal que está bem visível neste blog.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Oferendas em Cuba

Enquanto os Católicos comemoram com ênfase que Cuba está retomando sua aproximação com a Igreja, há muito mais a comemorar pagãos e bruxos, que nunca depnderam ou precisaram da sanção de Governo para seus rituais e práticas.

Eu encontrei a "Vice", uma página com vários textos interessantes que dão um rumo que pode render vários tópicos que é falar da espiritualidade e religiosidade popular nas Américas Latinas.
Este é o texto do Gabriel Uchida. Boa leitura.

Segunda-feira de manhã em Havana e sou acordado por um barulho diferente. Galinhas esperneando, percussões e gente cantando. Levanto da cama e como todas as casas do centro da cidade são coladas, dou uma espiada no quintal do vizinho. O mal estar da ressaca é multiplicado por cem ao ver animais mortos e despedaçados, penas e sangue no chão. Um ritual de santeria não é uma cena fácil para alguém ateu e vegetariano.

Ainda que Cuba seja um país sem religião oficial desde a revolução, a santeria é a mais popular na ilha. Impressionado com a história dos animais mortos e ao saber que os rituais tem disposição para o mal e para o bem, falei para meu assistente local que iríamos procurar as oferendas mais sinistras. Ele inventou desculpas, enrolou, eu insisti e ele disse que não faria este trabalho. Procurei outro assistente que também fugiu do assunto. Aparentemente ninguém queria se meter nisso comigo, então fui atrás do antropólogo e especialista no tema Juan Mesa para explicar os trabalhos que encontrei pela capital.

A ave foi cravada em uma paineira e diz a lenda que é nesta árvore onde vivem os orixás, por isso é considerada sagrada. Pela cor branca, deve ser uma oferenda a Obatalá, que criou a Terra e também já salvou os humanos da destruição.
A cabeça da galinha foi deixada no chão para provar que a oferenda ao orixá foi feita. Quando é um sacrifício de nascimento, o animal é comido depois do ritual. Quando é para salvar a vida de uma pessoa, não é comido porque é uma troca - a vida do bicho pela vida da pessoa.

O sapo foi pregado em uma paineira com o nome de uma pessoa escrito em um papel que está na boca do animal. Esta não é uma oferenda a um orixá específico, tem apenas a função de evitar ou fazer o mal a alguém.

Este boneco foi encontrado na esquina de uma delegacia e foi feito para livrar alguém, salvar a pessoa da polícia. Para que represente o indivíduo tem que ser confeccionado com um pedaço de tecido da roupa da pessoa ou com um pano que tenha sido usado para limpar o suor do mesmo.

A tartaruga é um sacrifício para Xangô. O sangue vai para o orixá e o corpo para a natureza. O animal foi oferecido para salvar alguém, então a morte fica com o bicho ao invés da pessoa.

As folhas são de língua de vaca e dentro delas estão nomes de pessoas que estão prejudicando alguém. O formato de bumerangue é para que todo o mal volte para quem o enviou. O ovo significa a limpeza da pessoa que quer se proteger.

O cactos é uma planta forte porque tem muitos espinhos. Dentre dele está o nome ou algo do inimigo - um algodão com suor, por exemplo. O objetivo deste trabalho é buscar a proteção de alguém que lhe faz mal. O tecido vermelho em cima é porque foi um pedido para Xangô.

A galinha sem cabeça é um presente deixado aos orixás na paineira. Neste caso, a pessoa se limpou com a oferenda. O sacrifício deveria ser enterrado porque na profundidade da terra tem mais ligação com a natureza, porém, como é mais prático, o animal foi apenas deixado no pé da árvore.


Esta é uma homenagem aos mortos, não aos orixás. Foi feita para reverenciar um antepassado ou lhe pedir algo, por isso os presentes: copo de rum, charuto, pão, etc. No começo de todas as cerimônias de santeria são realizados tributos aos mortos para que o ritual saia bem.

O original  [com fotos - não recomendado a pessoas fracas] pode ser acessado aqui.