segunda-feira, 28 de julho de 2014

O mundo é dos humanos

Estamos em pleno século XXI, mas ainda temos que conviver com a ótica maniqueísta, onde existe apenas uma opção, dentro de uma dicotomia excludente. Ou se é “de direita”, ou se é “de esquerda”. Ou se é “proletariado” ou se é “burguês”. Ou se é “capitalista” ou se é “socialista”. Ou se é “conservador” ou se é “progressista”.

As diferenças existem e nós percebemos, discernimos e categorizamos uma mesma coisa ou pessoa em suas características. Para compreendermos o mundo, a vida e a realidade, é necessário estabelecer esses critérios de percepção. No entanto, não se pode incutir um tipo de valor moral para as diferenças, isto não é estabelecer diferenças, mas querer justificar a segregação, a discriminação, o preconceito e a intolerância.

A polarização extremada do mundo em uma ótica maniqueísta tornou possível diversas atrocidades e crimes, mas a vida, o mundo e a realidade são compostos por um enorme espectro que existe entre dois polos. A humanidade deve perceber e celebrar a diversidade, respeitando as diferenças e reconhecendo os direitos humanos a toda pessoa.

Quando eu escrevo textos criticando a postura do Cristianismo ou da Comunidade Pagã, eu o faço exatamente para informar dos critérios de percepção, para evitar a impostura de certos discursos e para evitar confusões. A liberdade de expressão e religiosa não são desculpa para divulgar mentiras. Nem a diferença pode ser justificativa ou explicação para a discriminação, o preconceito, a segregação e a exclusão social.

Este texto tem como base o artigo de João Pereira Coutinho, “O mundo é dos bárbaros”, publicado na Folha de SP. Como pagão, eu acredito ser necessário explicar melhor de onde vem e o que significa “bárbaro” e “civilizado”, bem como fazer uma análise crítica do discurso oficial, do discurso dominante, onde se atribuem valores morais ao “bárbaro” e ao “civilizado”.

Na antiguidade, “bárbaro” foi usado a princípio pelos gregos, para dar um nome pejorativo para tudo que fosse diferente. Os romanos, quando conquistaram o mundo antigo, adotaram o apelido para usá-lo contra os povos conquistados e os que invadiam o Império.

O discurso oficial sempre utilizou da linguagem para justificar a supremacia de um grupo, sobre o dominado, o submisso, “a minoria”. Nisto consiste o pior tipo de “humor”, onde não tem graça alguma vilipendiar uma pessoa simplesmente por ser “diferente”, humilhar outra pessoa por suas características é uma péssima piada.

Nem Freud conseguiria explicar porque aqueles que detêm o poder político e social precisariam explicar ou justificar essa relação de poder. Nem conseguiria explicar porque há tanta neurose e paranoia quando surge algum movimento de resistência, um movimento humanista, apontando para o óbvio que todos nós somos humanos e que a segregação, a discriminação e o preconceito são produtos da ignorância.

O inverso, o oposto, o “adversário” do mundo “bárbaro” é o mundo “civilizado”, que de civilizado nada têm, basta considerarmos os males e crimes cometidos na Colonização e nas Duas Guerras Mundiais. O mundo civilizado ocidental foi construído em cima do genocídio e aculturação de diversos povos, sustentado pelo racismo, pelo patriarcado, pela misoginia, pelo sexismo, pelo fascismo.

A luta pelos direitos humanos para todos surgiu no início da Era Moderna, embora a ideia seja bem mais antiga. O mundo contemporâneo não teria surgido nem viveríamos na realidade do Estado de Direito se essas lutas não tivessem acontecido. Isso ainda balança certos grupos, aferrados aos seus privilégios dentro de uma estrutura social, sentem-se ameaçados em seu poder e influência sociais quando “minorias” lutam pelos seus direitos, sentem-se acuados quando a discriminação, o preconceito e a segregação são contestados. Como não tem argumento racional para explicar ou justificar suas posturas reacionárias, acusam os discursos humanitários como sendo “patrulhas do politicamente correto”. O recurso mais barato do culpado é tentar acusar a vítima de algum crime. Nada mais errado, o que está em questão é que as leis, em um Estado de Direito, deve ser garantidos a todos, não a poucos. Os privilégios que uma pessoa tem é uma concessão, não um direito. Ninguém pode usar de sua posição privilegiada para discriminar, segregar ou humilhar outro ser humano. Não há mais espaço, no mundo contemporâneo para a discriminação, o preconceito e a intolerância.

Todos nós somos bárbaros e civilizados, todos nós somos proletariados e burgueses, todos nós somos socialistas e capitalistas, todos nós somos humanos.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Declaração do Congresso Europeu de Religiões Étnicas

Nós, os delegados de doze diferentes países em convénio no Congresso Europeu de Religiões Étnicas. em Vilnius, Lituânia, neste dia 9 de Julho de 2014, juntamos as nossas forças para fazer a seguinte declaração:

Nós somos membros de diversas culturas étnicas indígenas europeias que procuram revitalizar e reclamar as nossas tradições espirituais e religiosas ancestrais. Honramos os que existiram antes de nós, que nos deram a nossa vida e a nossa herança. Estamos ligados às terras dos nossos ancestrais, ao solo que tem os seus ossos, às águas das quais eles beberam, às estradas em que eles andaram. E procuramos passar essa herança aos que vierem depois de nós, cujos ancestrais estamos nós a tornar-nos - os nossos filhos, os nossos netos, e as muitas gerações ainda por nascer. Enviamos solidariedade e apoio a todas as outras nações, raças e religiões indígenas que estão também empenhadas em lutar para preservar as suas próprias heranças ancestrais.
As nossas religiões étnicas são o produto da História deste continente; são as expressões vivas, no presente, das nossas tradições e identidades mais antigas. Num tempo em que o mundo está precariamente equilibrado no limite da revolta ambiental e económica, em grande parte como resultado de um individualismo desequilibrado e ganância rampante, as nossas religiões promovem modelos muito diferentes de valores espirituais e sociais: viver em harmonia, equilíbrio e moderação com a Terra; a importância da família e da comunidade cooperante; o respeito e honra para com todas as formas de vida.

Todavia, em muitos países da Europa a prática das nossas religiões está impedida, restringida e por vezes proibida. Apelamos a todos os governos europeus a satisfazer totalmente, e reforçar activamente, as provisões a garantir a liberdade de religião a todos os cidadãos como estipulado nos Tratados da União Europeia, a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, a Convenção Europeia dos Direitos Humanos e outras convenções similares e acordos, e a abster-se de garantir um tratamento preferencial a algumas religiões sobre outras. Pedimos também que esta igualdade seja reflectida nos sistemas educacionais europeus.

Apelamos a todos os nossos governos que activamente se envolvam na preservação e protecção dos nossos locais sagrados europeus - sejam eles edificações humanas ou espaços naturais. Pedimos além disso que haja acesso livre e aberto a estes sítios por parte dos praticantes das religiões étnicas europeias que procurem usá-los para os propósitos de culto e celebração espiritual. Não procuramos a propriedade ou direitos exclusivos a esses locais - a terra não nos pertence, nós pertencemos à terra.

Opomo-nos ao uso do termo «pagão» por quaisquer grupos políticos extremistas, dado que isso se reflecte negativamente na nossa reputação.

Finalmente, apelamos a todos os Povos e a todas as Nações para que coloquem o bem-estar da Terra - que é, literalmente, a nossa Mãe Viva - acima de todas as outras prioridades.
Enviamos esta mensagem em amizade, amor e respeito.
Andras Corban Arthen (Presidente), Anamanta, Spain/U.S.A.
Ramanė Roma Barauskienė, Lituânia
Martin Brustad, Noruega
Nina Bukala, Werkgroep Hagal, Holanda
Alexander Demoor, Werkgroep Hagal, Bélgica
Valentinas Dilginas, Kuzšei Žemaicĭai, Lituânia
Sören Fisker, Forn Siđr, Dinamarca
Federico Fregni (Board Member), Societas Hesperiana, Itália
Marianna Gorronova, República Checa
Lars Irenessøn (Board Member), Forn Siđr, Dinamarca
Irena Jankutė-Balkūnė (Board Member), Romuva, Lituânia
Runar Kartsen, Forn Sed, Noruega
Daniele Liotta (Board Member), Movimento Tradizionale Romano, Itália
Silvano Lorenzoni, Federazione Pagana Italiana, Itália
Anna Lucarelli, Movimento Tradizionale Romano, Itália
Sachin Nandha, Reino Unido
Zdenek Ordelt, República Checa
Elisabeth Overgaauw, Werkgroep Hagal, Holanda
Eugenijus Paliokas, Šventaragis Romuva, Lituânia
Staško Potrzebowski, Rodzima Wiara, Polónia
Prudence Priest, Romuva, EUA
Marina Psaraki, Y.S.E.E., Grécia
Vlassis G. Rassias, Y.S.E.E., Grécia
Valdas Rutkūnas, Romuva, Lituânia
Ignas Šatkauskas (Board Member), Romuva, Lituânia
Øyvind Siljeholm, Forn Sed, Noruega
Dovile Sirusaitė, Lituânia
Eleonora Stella, Societas Hesperiana, Itália
Inija Trinkūnienė, Romuva, Lituânia
Ram Vaidya, Reino Unido

Fonte: Gladius

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Se Cristo fosse mulher

Neste blog eu escrevi textos analisando as raízes do Cristianismo, sua história, doutrina e estrutura. Também tem um texto humorado onde se imagina o que aconteceria se o Papa fosse mulher. Acredito ser desnecessário ressaltar a incompatibilidade do Monoteísmo com o Politeísmo, do Cristianismo com o Paganismo.

Entretanto houve uma época onde esse abismo não estava tão nítido e definido, haviam religiões antigas “pagãs” que tinham um enfoque na questão do “pecado”, na expiação individual e na “redenção” do “pecador” por intermédio da ação de um Deus, um “Salvador”. Diversas ordens esotéricas, religiões de mistério e ordens iniciáticas existiram antes do Cristianismo, o influenciaram, conviveram e foram assimiladas pelos cristãos primitivos. As primeiras comunidades cristãs eram um caldo sincrético, onde o misticismo judaico confluiu com o misticismo pagão, judeus helenizados congregavam com gentios.

Isto que comumente chamamos de Cristianismo, seja Católico ou Protestante, foi o resultado de um longo processo histórico, mas que está longe de representar o Cristianismo como um todo. O Cristianismo em sua origem consistia de grupos que tinham diferentes Evangelhos, doutrinas, estruturas e práticas. Muitos destes não aceitam os Concílios que resultaram na Igreja Católica, não fazem parte da Igreja Ortodoxa e não fazem parte da Igreja Protestante.

Isto que chamamos de Cristianismo está baseado em um texto sagrado chamado Evangelho, cuja autenticidade, originalidade e veracidade são discutíveis. Dependendo da vertente, o Evangelho é composto por textos diferentes, tem autores diferentes e frequentemente os conteúdos são contraditórios. Torna-se muito difícil chegar a uma conclusão de quem era e o que ensinou Cristo. No entanto, suscitou muita polêmica e revolta entre os cristãos quando foi lançado o livro intitulado “Judith Christ of Nazareth, the Gospels of the Bible, Corrected to Reflect That Christ Was a Woman”, do Institute LBI, unicamente por afirmar, segundo a interpretação de um Evangelho, que Cristo era mulher.

Na história do Cristianismo, quando estudamos vertentes conhecidas como heresias, não podemos nos esquecer de que os hereges ainda eram cristãos. Quando lemos textos do Cristianismo, ao lidarmos com os textos não canônicos conhecidos como Apócrifos, ainda assim são textos cristãos. Livros como Nag Hamadi e outros textos Gnósticos dão um bom exemplo de como as noções mais aceitas como sendo pertencentes ao Cristianismo tornam-se difusas e nebulosas.

Considerando que “Cristo” é um título e que títulos são concedidos tanto a homens quanto mulheres, este título é comum entre dois gêneros. A coisa complica bastante quando levamos em consideração que Cristo é uma palavra grega, uma péssima tradução do hebraico Ha-Massiah, significando “Ungido”. Mesmo o nome Jesus tem origem grega, resultado de uma transliteração de Iesus, outra péssima tradução do nome hebraico Yheshua. Este personagem, histórico ou não, era o líder rabino dos judeus helenizados que congregavam junto com os gentios, da congregação messiânica dos Nazarenos, da raiz Notzri, não porque eram originários da cidade de Nazaré. Como em outras congregações judaicas messiânicas, acreditavam que a vinda do Ha-Massiah era iminente e que depois viria o Juízo Final. Como em todas as congregações judaicas, era extremamente sexista, patriarcal e misógina. Mas para os gentios e suas crenças era normal e natural que uma mulher fosse a Iniciadora, a Profetisa e a Sacerdotisa. Em grupos com mais gentios que judeus, não apenas as mulheres estavam presentes na organização e na estrutura da ecclesia, como também Cristo era mulher. Mas estes eram os hereges que foram combatidos, censurados, perseguidos, presos, torturados e executados pela Igreja.

Pouco ou nada foi escrito no Evangelho da Igreja sobre a importância e o papel da mulher no Cristianismo. A despeito disso, o Evangelho canônico contém trechos que conflitam com a visão sexista, patriarcal e misógina contida no Cristianismo oficial. Considerando que a Bíblia foi uma invenção recente na história do Cristianismo e da Igreja, há uma enorme probabilidade que os santos padres escolheram e pinçaram os textos e trechos que os agradavam e interessava para a sustentação do poder e autoridade da Igreja. Aquilo que o padre ou pastor lê para os cristãos é uma fabulosa fraude que não contém os verdadeiros ensinamentos de Cristo. Pode ser que algum dia os ensinamentos de Cristo Mulher sejam achados e divulgados. Isso certamente vai acabar com a Igreja, seja a Católica, a Ortodoxa ou a Protestante. Se isso vai modificar ou acabar com o Cristianismo tal como é concebido hoje em dia, apenas Deus sabe.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Interpretando os mitos andróginos

Enquanto eu pesquisava para escrever sobre a tendência queer no Paganismo Moderno, talvez um reflexo da Espiritualidade Queer, eu encontrei no Wikipédia uma lista de mitos que são freqüentemente citados pelos pagãos modernos homossexuais, freqüentemente fora de seu contexto histórico, antropológico, mítico, social ou religioso.

Estes são os mitos andróginos, são mitos menores dentre os mitos relativos a um Deus, que não resumem nem explicam o mistério que está contido nos mitos de um determinado Deus. Nós não podemos interpretar com nossa mente provinciana os mitos antigos dentro de um olhar pós-moderno, nós temos que compreender e entender qual a função, a razão e o objetivo destes mitos no pensamento religioso da época, qual realidade divina nossos ancestrais quiseram revelar através destes mitos.

Os mitos andróginos envolvem ou um Deus, ou um semideus e um jovem, em um relacionamento onde afeto e fraternidade se misturam. Podemos entender a função do mito ou como uma a) inversão de papéis ou b) uma tutelagem, onde o mais experiente, mais velho, ensina o mais novo.

A inversão de papéis tem sua função, razão e objetivo na propagação da ordem social:
Todas as maiores funções da vida estavam associadas a uma ou mais divindades patronas e um corpo de mitos e rituais. Nossa distinção entre “sagrado” e “profano”, o reino da igreja e da rua seria ininteligível aos gregos antigos. E nós não podemos compreender o mundo deles a menos que nós percebamos que todos os processos da vida estavam interligados com noções místico-religiosas. Estudantes do passado tem procurado por uma teoria, uma chave única, que poderia abrir a porta para a compreensão da natureza e do propósito dos rituais religiosos nas sociedades pagãs. Uma teoria mais velha via no ritual primariamente um proposito imediatamente pragmático: o alvo do ritual era promover a fertilidade da terra e da espécie humana, produzir chuva, pacificar os Deuses ou evitar desastres. A antropologia mais recente tem apontado o papel do ritual como um perpetrador dos valores sociais e normas comportamentais, ou em seus méritos psicológicos como ajudar as pessoas a conviver com as contradições e problemas da vida.
Se o propósito da iniciação é didático, para doutrinar as futuras gerações com os valores das velhas para que a sociedade continue, os rituais de escape tendem a proteger os padrões sociais por providenciar uma liberação temporária e controlada. O significado mais comum que serve a esse propósito é a inversão de papéis, que é tão atestado quanto a iniciação. Nas condições controladas do ritual, o excluído, o submisso e o maldito podem sair das restrições sociais e das limitações da existência. [Eva C Keuls, Reign of Phallus]

A tutelagem tem sua função de reforçar e endossar a norma social onde o mais velho, o mais experiente, tem a obrigação de ensinar ao mais jovem os valores da virilidade, da masculinidade e da fraternidade:
Sócrates estudou este processo e desenvolveu o chamado Chastitas Pederastia, que é uma relação de amor casto entre um jovem e um adulto do mesmo sexo (normalmente um guerreiro mais velho e o aprendiz de soldado, especialmente nos exércitos gregos). Mas este “amor” a que ele estava se referindo não era o amor homoerótico (que incluía sexo), mas sim o amor fraternal de um Mestre de Guilda para com o Aprendiz. [Marcelo Del Debbio]

A própria natureza do relacionamento variava entre o estritamente erótico, sem qualquer tipo de intercurso sexual, até o ato sexual como única razão de ser da relação.
Em algumas situações, a pederastia era vista como uma questão de fascínio estético; em outras era inserida na educação dos adolescentes do sexo masculino, rapazes de famílias de boa posição social, por parte dos pedagogos - varões maduros, a relação entre erastes e eromenos - o erastes era um homem aristocrata envolvido em um relacionamento com um adolescente do sexo masculino denominado eromenos. Geralmente estes pedagogos tinham o papel de mestres para estes rapazes, ensinando-lhes algum ofício.
Em outros casos, era conveniente para uma família que seu filho homem pudesse conseguir um mestre de prestígio, e desta forma ascender socialmente. [Wikipédia]

Em várias de suas lendas Apolo tomou amantes masculinos, o que refletia a cultura grega antiga, onde o homossexualismo masculino era socialmente aceito e tinha, entre outras funções, um caráter pedagógico e ritualístico de grande importância. Um homem maduro, o erastes, escolhia um jovem, o eromenos, e fazia dele ao mesmo tempo amante e discípulo, tornando-se seu iniciador nos mistérios da vida adulta e nas suas responsabilidades sociais. Assim que surgissem os sinais da puberdade o jovem era declarado adulto e a relação se rompia. Ele então casava com uma mulher, constituía família e assumia por sua vez o papel de erastes, tomando para si um jovem eromenos e continuando a tradição. [Wikipédia]

No entanto, os mitos principais e maiores dos Deuses tinham outra função, razão e objetivo:
No rito, o homem se identifica com o primeiro princípio e a mulher com o outro. Essa união reproduz o Hiero Gamos, o Casal Divino, o Andrógino, bem como o mistério da natureza desse mundo, um mundo que é manifestado e condicionado, em que a humanidade aparece como separados em uma dualidade, vão se unir por um instante. No orgasmo sexual, a lei da dualidade é suspensa, o êxtase ocorre e, no arrebatamento, conduz os celebrantes à iluminação absoluta. [Alain Danielou]

Os cultos e rituais que envolvem os mitos andróginos tem a função, a razão e o objetivo de mimetizar, de reencenar, um momento específico da existência do mundo e da humanidade. Os mitos andróginos revelam um período indistinto, a manifestação do Caos, onde não há ordem, regra, norma. Durante uma fase crucial do ser humano, tanto a menina quanto o menino são sexualmente indistintos, até passarem por um rito de iniciação, um rito de passagem, quando então ele ou ela são recebidos na comunidade adulta. Depois do ritual, tornam-se homens e mulheres, em pleno direito, contraem matrimônio, estabelecem um lar, propiciam herdeiros que irão manter a família e a sociedade. Mas sua obrigação de reprodução não exclui relações erótico-afetivas com outras pessoas [servos, prostitutas,cortesãs]. O amor homoafetivo, tal como entendemos e expressamos no mundo contemporâneo, era proibido no mundo antigo não por não ser natural, mas por quebrar o interdito social de que o cidadão não podia ser "submisso". Mesmo na Grécia e Roma antigos as relações homoeróticas eram estruturadas em uma relação onde há um superior [o mestre/o erastes] e um inferior [o amante/o eromenos], uma relação que depois da idade adulta ou era abandonada ou se transformava em fraternidade.

A entidade andrógina, nos mitos antigos, serve exatamente para nos lembrar que nós todos somos filhos e filhas da união entre um macho e uma fêmea, todos nós carregamos os gens masculinos e femininos.
Na ótica dos Deuses, nossa opção sexual é um assunto que interessa apenas a nós, mas a intenção que será realizada pela cerimônia tem consequências diferentes. O Grande Rito real, executado na cerimônia wiccana tradicional, com um ato sexual entre o Alto Sacerdote e a Alta Sacerdotisa tem por intenção religar o corpo ao seu sentido sagrado e recriar o mundo. Em outros grupos, o Grande Rito é executado de forma simbólica por causas evidentes (traumas, tabus, recalques), mas a intenção é a mesma. Em outras formas de Paganismo e Bruxaria modernos, existem cerimônias homossexuais cuja intenção é o de alcançar o caráter extático e produzir vínculos, mas mesmo nesses casos há um contexto sagrado.

A conclusão é que indivíduos [que tem insegurança e rejeição à sua identidade e preferência sexual] buscam, de forma neurótica e obsessiva, uma autorização, permissão, sanção e consagração de sua sexualidade.
A homossexualidade é igualmente uma manifestação do Amor, não há necessidade alguma de inventar um Deus para que uma opção sexual seja divinizada ou sacramentada.

terça-feira, 8 de julho de 2014

A Dança da Vida e Morte

Neste texto, vamos explorar a figura do Deus de Chifres primeiramente a partir do aspecto mitológico relacionado ao mito do homem caçador paleolítico, e depois vamos refletir sobre como expressamos este Arquétipo hoje em dia. Antes de começar, preciso dizer que ao usar o termo “Arquétipo”, não estou me referindo a um aspecto da Divindade, como alguns pagãos passaram a encarar o termo. O Deus existe além do Arquétipo, mas o Arquétipo é a forma como a energia dessa mesma divindade se expressa em nós, sua manifestação em nossas vidas (em termos extremamente genéricos e superficiais, é claro. Interessados em entender o que de fato é um Arquétipo devem procurar a obra de Carl G. Jung).
A primeira manifestação do masculino como sagrado surge a partir da valorização do papel do antigo caçador como arquétipo masculino. O Deus com chifres de cervo, metade homem, metade animal, mostra a fusão da dualidade expressa na relação caça-caçador, que perde seu caráter dicotômico à medida que a experiência da caça traz dois resultados: quando bem sucedida, o homem vitorioso traz sua presa e se alimenta dela, ingerindo a força da vida presente no animal e perpetuando sua própria existência; quando mal sucedida, o homem torna-se a própria caça, é morto e devorado (seja por animais ou pela terra, no processo de decomposição), servindo à força da vida e perpetuando a existência de outros seres vivos. Perceba, não há como prever os resultados do confronto entre homem e animal – apenas no resultado final, onde um encontra a morte e o outro pode continuar vivendo é que define-se quem foi caçado de fato.
Essa dança perpétua entre a vida e a morte nos traz valiosos ensinamentos: ambas compõe algo que parece maior, muito mais amplo que apenas o homem e o animal; neste confronto, as próprias forças da terra, da vida, da floresta se movem para saber quem preservar e quem destruir. Também nos mostra que a vida depende da morte e se alimenta da vida; para que a existência da vida na Natureza possa ser perpetuada, é preciso que parte dessa mesma Natureza perca uma parte de si mesma para servir à vida. Ou melhor, doe uma parte de si mesma.
É dito que aos melhores caçadores ficavam reservadas as melhores partes do animal, muitas vezes o falo. A prática de comer o animal sacrificado vai muito além da simples ideia de nutrição e sobrevivência, mas relaciona-se ao processo de introjetar e interiorizar este animal, tomar para si seu poder, partilhar de sua essência, seu espírito. É sabido que muitos animais eram tidos para as tribos como Totens – muito mais que espíritos protetores da tribo, falavam sobre sua própria natureza e consciência enquanto grupo. E ainda além, o animal como Totem era a ligação da tribo com o Sagrado. Em “Totem e Tabu”, Freud nos mostra como a figura do animal Totem estava relacionada a própria estrutura social rudimentar da tribo, determinando, inclusive, suas normas e organização.
Nesses tempos, o animal selvagem e ameaçador era ao mesmo tempo temido e desejado; era cercado de um ar de mistério e magia próprio dos Deuses. Se olharmos para esse ponto com os olhos destes velhos povos, perceberemos que os animais selvagens foram os primeiros Deuses. Portanto, comer da carne de caça era comer dessa essência de mistério, tornar-se o próprio animal, absorver suas características, e ao mesmo tempo partilhar a essência do Numinoso. Esse rito permanece até hoje em ritos neopagãos, e até mesmo na Igreja Católica, que se apropriou de tal Mistério em seu rito de comunhão (a diferença é que o Cristo é chamado “Cordeiro de Deus”; não é um animal selvagem caçado, abatido e partilhado, mas um sacrifício voluntário, ligado aos animais domesticados e simbolizado na missa como o Pão, ligando a um tempo de pastoreio e agricultura, posterior ao que falamos aqui; isto o liga a outras raízes mistéricas pagãs que abordaremos em outro texto).
O Deus de Chifres surge então como a força mediadora que garante o equilíbrio da Natureza. Por vezes favorecendo os homens, por vezes favorecendo os animais, este Deus garantia que o equilíbrio acontecesse e que ambos os lados servissem um ao outro, unificando em si homem e animal, vida e morte, como produtos de uma força maior, que move-se em si mesma, a própria Dança Espiral do Êxtase. Essa é a essência do Deus de Chifres: ele era ambos, a caça e o caçador. Ele ensinava aos homens as habilidades e os mistérios da caça bem sucedida e os colocava nesta aventura misteriosa, mas como pagamento, exigia que estes homens também servissem a força da vida em certo momento.
Isso significa que o papel de Caçador (seja no Paleolítico, seja como vivenciamos este Arquétipo em nossas vidas atuais), já trazia em si a promessa da morte. Os ritos de passagem dos meninos da tribo não falavam apenas sobre tornar-se homem, mas sim sobre tornar-se o Caçador, ativando o Arquétipo. E ser caçador implicava justamente em estar em constante contato com a possibilidade da morte; porém, para o Caçador, o medo da morte não é nada frente ao desejo pelo embate, ao prazer trazido pelo mistério, a vontade de provar de suas próprias habilidades, de seu corpo, de seus potenciais – a sensação de estar vivo, estar no corpo físico, material, existir. Mesmo que isso nos leve a morte, vamos ao encontro da presa. Desejamos a morte, personificamos a morte e até a vivenciamos. Mas tudo isso para que nossa vida possa ser perpetuada.
Para concluir, vemos que o Deus Caçador é, na verdade, um mantenedor da vida e um Deus Integrador. Ele é aquele que nos ensina e nos permite a vivência de nossa agressividade e competitividade de forma saudável, equilibrada e coerente com o meio social. Não, não estou sugerindo que devemos ir para o meio do mato após o trabalho para trazer o jantar; cabe a nós a busca pela essência deste Deus primitivo para que ele nos ensine a vivermos o Caçador em nossos tempos modernos e atualizarmos o mito. E este contato é pessoal, entre cada homem e o Deus. Mas lembre-se, o Deus de Chifres prezará para que o equilíbrio seja mantido; não só a expressão de nossos potenciais físicos no meio, mas também a expressão desses potenciais no meio em nós serão trazidos por ele. Mas note, isto também é uma bênção, pois não há como ser o Caçador sem ser também a Caça do outro, e esta é a lição que este Deus tem a nos trazer.

Fonte: Androtheosis, A Dança da Vida e Morte : 'via Blog this'

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Paganismo Queer

O Paganismo Moderno possui toda uma vertente direcionada ao público GLBT, uma tendência que pode ser encontrada em outras religiões [Budismo, Hinduísmo, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo], como parte da Espiritualidade Queer.

A questão da inclusão de grupos sociais, na sociedade em geral, na política e na religião, surgiu juntamente com a luta pelos Direitos Civis, a Contracultura e a Revolução Sexual. O Paganismo Moderno adquiriu maior evidência e expansão nessa época ao adotar essa visão mais inclusiva. Muitos indivíduos procuraram e acharam nas religiões alternativas uma proposta diferente das religiões main-stream, cuja doutrina oficial possui muito preconceito, discriminação e intolerância, especialmente no tocante às identidades de gênero e opções sexuais.

A opção sexual se tornou uma bandeira para a contestação social e política. Essa tendência acabou sendo misturada e enfatizada nos muitos grupos de Paganismo e Bruxaria modernos que surgiram, muitos desassociados dos princípios da Wica ou de qualquer sentido de tradição.

O Paganismo é um conjunto de religiões, cada qual com seus princípios e doutrinas, autônomas entre si. Pode-se dizer que é o único conjunto de religiões que aceita a diversidade sexual, de forma que soa estranho e esquisito colocar a agenda de um grupo social ou de uma bandeira acima do objetivo espiritual dessas religiões. Em outras formas de Paganismo e Bruxaria modernos, existem cerimônias homossexuais cuja intenção é o de alcançar o caráter extático e produzir vínculos, mas mesmo nesses casos há um contexto sagrado.

Entre os pagãos, fala-se muito [demais, para meu gosto] da Deusa e nada do Deus. Fala-se do "sagrado feminino" e nada do sagrado masculino. Omite-se que a Wica é um culto à fertilidade. Nega-se, oculta-se e rejeita-se o Deus Cornífero. Como então podemos entender os antigos mitos da Suméria, da Babilônia, do Egito e da Grécia? Como podemos [ab]usar dos mitos quando nos agradam, mas ficamos cheios de pruridos quando os mitos falam em castração ou em prostituição sagrada? Isso é hipocrisia, é falsidade, é [ab]usar dos mitos e mistérios antigos para agendas pessoais e isso, definitivamente, não é Paganismo nem Wica.

O estatuto da mitologia varia de acordo com a cultura. Geralmente os mitos atuais são e os antigos eram literalmente acreditados como verdadeiros no seio da sociedade que os criou e considerados errados ou fictícios em outros lugares. Algumas culturas podem considerar os mitos como transmissores de verdades psicológicas ou arquetípicas. Os mitos têm sido usados para explicar e validar as instituições sociais de uma determinada cultura, bem como educar os membros dessa cultura. Esse papel social tem sido postulado em estórias que incluem amor entre pessoas do mesmo sexo, cujos objetivos eram educar os indivíduos quanto à atitude correta a adotar para o atividade sexual de pessoas do mesmo sexo e construções de gênero.

Desde o início da história escrita, centenas de culturas, mitos, folclores e textos sagrados têm incorporado temas homoeróticos e de identidade de gênero. Assim, desde esses tempos mais remotos, muitos mitos narravam estórias envolvendo homossexualidade, bissexualidade ou transgênero como símbolo de experiências míticas e/ou sagradas. Hoje em dia, o homoerotismo e a variância de gênero nesses mitos antigos têm sido analisados e estudados através das concepções LGBT modernas acerca de identidades e comportamentos, e muitas vezes criam-se termos novos para classificá-los; por exemplo, em divindades que se disfarçam do sexo oposto, ou adotam comportamentos tradicionais, ou certas figuras do sexo oposto podem ser chamadas de transexuais em outras culturas, e os seres mitológicas sem órgãos reprodutivos ou com ambos os órgãos masculinos e femininos em suas estruturas são hoje em dia chamados de andróginos ou intersexuais. Alguns mitos individuais têm sido denominados queer numa tentativa dos críticos rejeitarem a "heteronormativa" ou o gênero binário em seus estudos. As interpretações queer podem ser baseadas apenas em evidências indiretas, tais como amizades do mesmo sexo invulgarmente estreitas ou a dedicação à castidade. Estas têm sido criticadas por ignorar o contexto cultural ou pela aplicação equivocada de preconceitos modernos ou ocidentais, assumindo, por exemplo, que o celibato significa apenas evitar a penetração ou o sexo reprodutivo (permitindo assim o sexo homoerótico), enquanto ignora a opinião generalizada acerca da potência espiritual contida no sêmen que abrange uma vacância de todos os sexos.

Os acadêmicos reconhecem a presença de temas LGBT nas mitologias ocidentais e elas são objetos de intensos estudos. Geralmente as narrativas mitológicas consideram a homossexualidade, a bissexualidade e o transgênero como um símbolo de experiências sagradas ou míticas. Também é comum, principalmente nas mitologias pagãs e politeístas, encontrarmos seres que mudam de gênero, ou que possuem aspectos de ambos os sexos ao mesmo tempo. Não deixa de ser comum também, em tais panteões, a atividade sexual com ambos os sexos, e hoje em dia eles são comparados à bissexualidade ou pansexualidade. Os mitos da criação, ou gênese, de muitas tradições, envolvem motivo sexual, bissexual ou andrógino, com o mundo a ser criado por seres assexuados ou hermafroditas, ou através da relação sexual entre seres do sexo oposto ou do mesmo sexo. [Wikipédia]

Na opinião de Eva C Keuls, “... nós não podemos compreender o mundo deles a menos que nós percebamos que todos os processos da vida estavam interligados com noções místico-religiosas. Estudantes do passado tem procurado por uma teoria, uma chave única, que poderia abrir a porta para a compreensão da natureza e do propósito dos rituais religiosos nas sociedades pagãs. Uma teoria mais velha via no ritual primariamente um proposito imediatamente pragmático: o alvo do ritual era promover a fertilidade da terra e da espécie humana, produzir chuva, pacificar os Deuses ou evitar desastres. A antropologia mais recente tem apontado o papel do ritual como um perpetrador dos valores sociais e normas comportamentais, ou em seus méritos psicológicos como ajudar as pessoas a conviver com as contradições e problemas da vida.” [The Reign of the Phallus, Eva C Keuls, capítulo 12, University of California Press].

Nas civilizações antigas, a necessidade de fertilidade era primordial para evitar a mortalidade não só de suas tribos como de seus rebanhos. Mulheres férteis com seios fartos e quadris largos eram consideradas o retrato humano da grande Deusa Mãe. Era considerada a representante da Deusa na terra, a sacerdotisa da Deusa e enquanto essa mulher fosse capaz de gerar filhos, tinha alto poder dentro da tribo. Quando passava sua fertilidade, seu posto era transferido para uma mulher mais jovem que pudesse gerar filhos e a mulher mais velha assumia a condição de sábia da tribo.

Era costume que os melhores caçadores da tribo usassem os chifres e pele dos animais que foram por eles abatidos, para adquirirem sua força e fertilidade. O macho que possuíam os maiores chifres eram os machos mais férteis, por isso, eram os mais visados pelos caçadores.

Assim, praticar sexo após uma caçada, era uma forma ritualística de transferir a força e a fertilidade do animal abatido para a criança que iria nascer, por meio do rito sexual, onde herdava esses poderes e enriqueceria a tribo. Outra crença era a de que o animal sacrificado em prol da tribo seria recompensado com o renascimento na forma humana.

Todas essas colocações que não chegam nem a metade de sua totalidade, foram usadas para frisar o importância que o sexo tem não só no ciclo de fertilidade como nas relações em geral e que sexo e religião sempre caminharam juntos, pois a partir do sexo que muitos rituais foram formados. [Angel Bruxa Aisha Sad]

O pagão moderno, hetero ou homo, deve compreender os mitos como revelações de realidades eternas; deve celebrar os cultos e rituais dentro de seu contexto sagrado e místico; deve servir aos Deuses, honrar seus ancestrais e celebrar a vida. Quando o pagão moderno estuda sobre os povos antigos, seus mitos, seus ritos e sua visão do divino, ele deve perceber qual era a função, a razão e o propósito dos Deuses andróginos, bem como de Seus ritos e cultos. A base de uma crença, uma espiritualidade, uma religião está na busca por realidades eternas, não para a satisfação de nosso ego. Deturpar, distorcer ou [ab]usar os mitos para atender a carências ou agendas pessoais é resultado de uma busca obsessiva e neurótica por respeito, aceitação e reconhecimento. Eu aprendi da forma mais difícil que nós não precisamos da permissão, autorização, respeito, aceitação ou do reconhecimento de outras pessoas, nosso serviço é para os Deuses. Eu aprendi apanhando que nós não conquistamos um espaço invadindo outro, não patrocinamos nossa crença atacando outra. Em nossos rituais nós dizemos que se não encontramos os Deuses dentro de nós, não iremos encontrá-los fora de nós. O mesmo ocorre em relação ao respeito, a aceitação e o reconhecimento.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A cor púrpura

A cor azul e a cor púrpura estão intimamente ligadas ao sacerdócio, ao mistério, ao mito, à realeza e ao próprio sentido da majestade.

Assim celebramos os mistérios e os mitos do universo, em nossos rituais entoamos a “Carga da Deusa” nestes termos:

“Ouçam as palavras da Deusa Estrela: Eu te amo, eu anseio por ti, pálido ou púrpura, recatado ou voluptuoso.”

Eu sou um pagão moderno, politeísta, com uma visão tradicional da Arte e da Wica. Meu estudo e dedicação estão à serviço dos Deuses e dos ancestrais. Por anos lutei contra a imposição da neo-wicca e do dianismo, por anos denunciei falsos gurus e vigaristas que colocam suas agendais pessoais acima do sacerdócio. Em diversos textos neste blog eu critiquei o excessivo enfoque na Deusa e no sagrado feminino. Infelizmente no Brasil a Wica chegou americanizada e muitas de suas figuras construíram sua reputação usando todo tipo de apelo, como o Paganismo Queer.

O Paganismo Queer é uma criação pós-moderna, com mito inventado, com sacerdócio inventado, com Deus inventado. Qualquer um que tenha estudado história deve saber bem o que aconteceu com o Egito, a Grécia e Roma, quando o ser humano começou a inventar religiões para atender a necessidades espirituais, emocionais e materiais.

O Paganismo Queer está centrado no Deus Queer, também chamado de Deus Púrpura, Deus Azul, Aquele que Dança, Rei Flor, Deus Risonho, Dian Y Glass.

O Deus Queer é considerado o primeiro reflexo visto pela Deusa quando ela se mirava no espelho curvo e negro do Universo, fazendo amor consigo mesma para criar toda a vida. Esta é a visão cosmológica da Tradição Feri, uma das formas do Paganismo Moderno, uma das vertentes modernas de Culto das Bruxas, infelizmente confundido como sendo uma forma de Wica.

Iconograficamente, o Deus Queer é retratado muitas vezes como um ser andrógino jovem, com seios de mulher e pênis ereto. Em volta de seu pescoço encontra-se uma serpente e em seu cabelo uma pena de Pavão. O Pavão é o animal mais sagrado ao Deus Queer.

No Paganismo Queer, o Deus é considero um aspecto da Deusa. Seu poder vêm através Dela e só é possível conhecê-lo por intermédio Dela. Isso não passa de monoteísmo disfarçado, eu não preciso de mais 2 mil anos para saber o que acontece com a humanidade debaixo de uma Jeovulva.

Eu escrevi neste blog sobre o mito Dian Y Glass, o mito de Antinous, o mito de Ganymedes e o mito de Hiakinthos. Como estudioso das Religiões Antigas, da História Antiga, dos Povos Antigos, eu sei qual é a verdadeira origem da figura do Deus Pavão que, como um Deus legítimo, tem um sacerdócio, tem um mistério, tem um povo, tem um mito que revela a constituição do universo. E isto não tem coisa alguma a ver com a invenção do Paganismo Queer. O Deus Pavão é Melek T’aus.

Melek Taus, ou o Anjo Pavão, é o nome Yazidi para a figura central de sua fé.

No sistema de crença Yazidi, Deus criou o mundo, e o mundo está agora sob os cuidados de sete seres santos, muitas vezes conhecidos como Anjos. O mais proeminente entre estes é Tawûsê Melek, o Anjo Pavão.

O Yazidi considerar Tawûsê Melek uma emanação de Deus e um anjo benevolente que redimiu-se de sua queda e tornou-se um demiurgo que criou o cosmos a partir do ovo cósmico.

A crença dos Yazidis, como outras crenças pré-cristãs de origem Persa, como o Mazdeísmo, acreditam que Deus não criou este mundo, mas um demiurgo “maligno”. Para os Yazidis, Melek T’aus é o demiurgo criador e, como criador do mundo, é Senhor deste mundo. Como em outras tradições de mistério e esotéricas antigas, Melek T’aus é descrito como hermafrodita, como andrógino, porque ele incorpora em si nossa natureza bissexual, o que é bem diferente de afirmar que é um “Deus” homossexual. A função dos mitos, ritos e mistérios dos cultos homossexuais e dos deuses andróginos são bem outros dos que estão sendo promovidos pelo Paganismo Queer.

O pagão homossexual tem uma enorme variedade de rituais, cultos e Deuses existentes, sem ter que inventar ou criar algo para atender suas necessidades materiais, emocionais e espirituais. O pagão homossexual não precisa inventar um Deus para se sentir incluído e amado pelos Deuses. O pagão homossexual não precisa criar outra hegemonia para celebrar sua sexualidade. A Wica Tradicional tem seu próprio mito, mistério, teologia e sacerdócio. Deturpar uma crença por questões e agendas pessoais é desonestidade.

Somente vigaristas e farsantes, falsos gurus que desconhecem sua própria religião, que não possui qualquer linhagem ou tradição, promoveria tal desconstrução de um Deus, com mitos, mistérios e sacerdócio próprios. Nenhuma espiritualidade, crença ou religiosidade consegue manter-se desprovida de mitos, mistérios e Deuses.