quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Graus, guildas e iniciação - Terceiro Grau

Autora: Deborah Snavely

Publicado na coluna “Raise the Horns”, de Jason Mankey, no Patheos.

Mestre

No sistema de guilda, uma vez que uma comissão de mestres de uma guilda avaliou o trabalho de um pretendente como obra-prima, ele se torna um mestre.

Uma vez reconhecido o mestre, dele se espera que abra seu próprio escritório, empregue assalariados, aceite aprendizes e assim por diante. Sem dúvida, alguns não fazem ou não podem. Uma cidade pode não sustentar mais um ofício, ou o artesão pode não ter fundos ou teve que se mudar. Um mestre novo pode trabalhar na empresa de um mestre ancião, como um assistente de um mestre cuja saúde está precária ou que quer fazer uma peregrinação, ou se aposentar de suas funções. Indiferente de como um mestre chega a encabeçar um ofício, ele é capaz e habilitado para fazê-lo.

O terceiro grau.

O treinamento de todos em qualquer grau começa efetivamente quando o ritual de elevação para o grau está completo. Portanto, Gerald Gardner aprendeu os segredos do Ofício apenas após sua iniciação. Similarmente, uma vez o candidato é trazido ao Segundo ou terceiro grau, segue um período de treinamento, não importando o quanto o candidato possa ser bem preparado. Ao mesmo tempo, todo coven da WTB [Wica Tradicional Britânica] é autônomo, independente e auto-regulamentado. Esta autonomia significa que a bruxa de terceiro grau nova teoricamente desabrocha totalmente formada com o mito e a sabedoria. Na prática, todo líder novato de coven se consulta com seus mentores enquanto tenta colocar os pés no chão.

Uma vez que o ritual de terceiro grau de uma bruxa termina, esta bruxa pode fundar seu próprio coven. Ela pode manter um papel auxiliar no seu coven original. Com a mobilidade populacional e mercado de trabalho flutuante, ela pode ser deslocada para uma região com pouco ou nenhum coven tradicional. Neste caso, toda bruxa pode fundar um coven do esboço, um compromisso de amor por muito tempo. Da mesma forma, ela pode simplesmente trabalhar como bruxa solitária por algum tempo.

No mesmo sentido, uma bruxa pode encabeçar covens tradicionais separados por quilômetros ou encontrar circunstâncias que a coloquem no meio de uma região metropolitana onde tem um coven tradicional em cada esquina. Neste caso ela pode escolher entrar em um coven existente, mesmo um coven mais antigo, uma raridade que ocasionalmente aparece.

Todos os covens wiccanos são conduzidos por uma sacerdotisa de terceiro grau, chamada na WTB de Alta Sacerdotisa e é auxiliada por um sacerdote de sua escolha, geralmente de terceiro grau, chamado de Alto Sacerdote. Da mesma forma que nas guildas e no mestrado, o terceiro grau concede à bruxa o papel de liderança. Por que covens são conduzidos por bruxas de terceiro grau, uma novata no terceiro grau pode se juntar em um coven existente ou sair de seu coven original para formar um novo.

Alguns dos mitos e práticas dos graus mais elevados não são apropriados para bruxas menos experientes. Por essa razão, práticas orais, escritas e ritualísticas são geralmente passadas pelos lideres dos covens ao primeiro, segundo e terceiro grau separadamente, se não individualmente.

Qualquer elder [sacerdote ou sacerdotisa com anos de experiência] pode escolher em compartilhar práticas escritas, orais e ritualísticas com qualquer outro iniciado quando parecer necessário, então um iniciado de primeiro e segundo grau pode ter algum mito ou material geralmente restrito ao terceiro grau.

Conclusão.

Estas são as obrigações da liderança, para garantir a continuidade e a prática segura de nosso Ofício, tal como o mestre em uma guilda que tanto ensina quanto procura por uma prática segura de seu ofício. A Wica não faz proselitismo, entretanto, nossos elders acham que um número considerável de pessoas procuram pela Wica, na esperança de aprender magia, entrar em um coven, trabalhar com encantamentos de amor, ganhar poder, quebrar maldições, adquirir status e assim por diante.

Poucos destes buscadores descobrem que quanto mais aprendem sobre a Wica Tradicional Britânica, maior é a sensação de voltar para casa, de retornar a uma espiritualidade e Deuses que sentia falta. Alguns descobrem que os professores que se adequam a nós são os da Wica, que foi como minha própria jornada no Ofício cresceu, de oportunidades de encontros para minha iniciação, para então partir e fundar meu coven. Uma frase entre nós resume esse progresso: Que os Deuses preservem o Ofício!

sábado, 17 de janeiro de 2015

Graus, guildas e iniciação - Segundo Grau

Autora: Deborah Snavely.
Publicado na coluna Raise the Horns, de Jason Mankey, no Patheos.
Assalariado.
Esperava-se do artesão trabalhador exatamente isto: peregrinar. Viajando de cidade a cidade, trabalhando com outros da mesma guilda na qual ele foi formado, aprender e compartilhar estilos, materiais, ferramentas e técnicas. Tal como o aprendizado, o estudo de um assalariado pode levar anos. Os assalariados eram pagos com soldo, podiam viver longe de seu mestre, podia casar e ter uma família.
Para chegar ao mestrado, o assalariado deve criar uma obra-prima, de sua própria mão que será julgado o mérito pelos mestres da guilda. Nem todo assalariado é bem sucedido em se tornar um mestre em sua guilda. Um assalariado competente geralmente permanece dentro do ofício de seu mestre como um valoroso assistente e ainda pode chegar ao mestrado depois de algum tempo.
O Segundo Grau.
Tenha um iniciado passado uma ou três vezes a Roda do Ano, a elevação para o segundo grau traz muitas responsabilidades e conexões. A elevação para o segundo grau conecta o iniciado a uma energia específica da wica iniciática. Tal conexão causa inevitáveis mudanças no iniciado – mudanças que precisam ser absorvidas durante um ano e um dia. O segundo grau carrega uma responsabilidade com o Ofício como um todo.
As expectativas para uma bruxa recém elevada a Segundo grau começa em conhecer ao Deus, uma tarefa que muitas vezes envolve artesanato e trances mediúnicos ao submundo. Uma vez o grau adquirido, ela pode visitar outros covens ou atender a sabats abertos multidenominacionais ou cursos de outras tradições de bruxaria. Durante o trabalho de segundo grau, o iniciado explora a si mesmos e fora de si mesmos. Com frequência, iniciados de segundo grau encontram desafios em tratar com sua sombra.
As obrigações de um segundo grau incluem a aprender a ensinar habilidades mágicas, auxiliar os lideres do coven e aprender o processo de iniciação do primeiro para o segundo grau. O treinamento necessário para o segundo grau não envia os iniciados em busca de convertidos, a Wica não faz proselitismo. Um iniciado em segundo grau pode ter um conhecimento pessoal ou familiar que interessa ao coven.
Pode ser dada uma responsabilidade  ao praticante de segundo grau além daquelas que todo membro do coven tem. Uma mulher pode ser nomeada Dama do coven, considerada como uma sacerdotisa. Similarmente, um homem pode ser nomeado guardião ou evocador ou solicitado a estudar o papel do alto sacerdote.
O segundo grau exige da bruxa a viver o caminho wiccano tanto quanto o estuda. Inevitavelmente, escoriações e machucados, descaminhos e desencontros acontecem ao longo da jornada. Com frequência os lideres dos covens são chamados para ajudar, curar, corrigir e levantar, ou não, como lhes for melhor.
Durante os estudos de segundo grau, os iniciados determinam ou descobrem alguma especialidade do Ofício. Uma bruxa de segundo grau pode querer dar cursos de ervas, pedras, divinação ou dança. Coisa alguma na tradição proíbe tal ensino publico e coisa alguma exige. O segundo grau também requer que o iniciado saia de sua zona de conforto.
Ao contrário do primeiro grau, uma vez que se entra no segundo grau, espera-se que se trabalhe para chegar ao terceiro grau. Iniciados do primeiro grau são praticantes, puros e simples, com responsabilidade com os Deuses, com seu coven e consigo mesmos. O segundo grau engrena uma mudança profunda, imbuindo uma impressão de ter começado algo que é menos do que completo e uma noção de que desafios virão.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Graus, guildas e iniciação - Primeiro Grau

Autora: Deborah Snavely.
Publicado na coluna Raise the Horns, de Jason Mankey, no Patheos.
Introdução.
Dentro da Wica Tradicional Britânica, existe uma estrutura chamada de sistema de graus. O primeiro grau é a iniciação, ou tornar-se um/a [sacerdote/tisa] da Wica. O segundo e terceiro grau são conhecidos por serem mais experientes, mais habilidosos, mais talentosos ou mais “poderosos”. O que isso significa na prática? Para responder a esta questão, vamos discutir os paralelos que existem entre as estruturas de guildas e o sistema de graus da Wica.
Uma guilda era uma associação de artesões que controlavam a prática de seus ofícios em uma determinada cidade. Na França, algumas guildas deram origem a alguma universidades, onde nosso grau acadêmico – bacharelado, mestrado, doutorado – mantêm esta estrutura das guildas: aprendiz, assalariado, mestre.
Entretanto existe uma diferença significativa entre o sistema das guildas e o sistema de graus da Wica. A diferença é que não há qualquer requisite para que o iniciado procure pela ascensão de grau. Nas guildas de comércio, os aprendizes tinham que completar um treinamento na habilidade comercial para passar a ser assalariado neste comércio. O mestrado não é uma posição garantida, pois é necessário  certa aptidão ou talento além das habilidades, nas quais o aprendiz se torna assalariado. Em contraste, na Wica um iniciado pode continuar no primeiro grau sem procurar por ascender a um grau superior. Um iniciado pode, da mesma forma, procurar por ascender de grau, enquanto cresce em seu Ofício e em suas vidas.
Eu vou deixar isso bem claro que se deve procurar por treinamento, iniciação ou elevação na Wica Tradicional Britânica. Deve ser pedido, senão não se recebe. Na Wica não se faz proselitismo. Ao mesmo tempo, pedir não garante que o candidato será aceito para o treinamento no átrio de um coven, iniciado em um coven ou elevado para um grau mais elevado.
Aprendiz.
Historicamente, um aprendiz era contratualmente ligado por um período de tempo [geralmente sete anos] para servir a um mestre em um comércio ou ofício. As obrigações do aprendiz eram trabalhos simples no início, limpando a loja e aprendendo as funções mais básicas por observação e instrução: os nomes e usos das ferramentas do ofício; os materiais usados e como eram adquiridos, estocados, aprontados e postos em uso; as interações sociais da loja, entre cliente e mestre, ou mestre e trabalhador, o que podia incluir mestres menores, assalariados e outros aprendizes.
As obrigações do aprendiz eram aprender seu ofício em todos os seus aspectos e manter o sigilo desse ofício. Em troca, o mestre treinava o aprendiz naquele ofício específico. O mestre providenciava instrução no nível exigido e oportunidades em aprender fazendo. Ele também corrigia os erros inevitáveis de um novato e remediava as dificuldades encontradas nos projetos do novato.
O Primeiro Grau
Na Wica Tradicional Britânica, o “aprendizado” começa com a iniciação. No tempo de Gerald Gardner, a bruxaria era ilegal na Bretanha. Gardner nos conta que foi apenas durante sua iniciação que ele descobriu que o coven que o iniciou eram de bruxas.
A iniciação de Gardner veio quando ele começou a aprender especificamente o Ofício. Seu interesse em assuntos de magia e ocultismo formou sua educação, mas foi apenas quando ele foi jurado como “irmão da Arte Mágica” que alguma informação foi compartilhada – seja por escrito, por palavra ou pela prática. Tal como o aprendiz, Gardner estava preso a um voto de manter os segredos da Wica.
No livro publicado de Gardner [Com a Ajuda da Alta Magia], ele afirma que não descreveu as técnicas mágicas e as palavras que a Wica usava em seus rituais, ele estava mantendo seu juramento de segredo. Por isso ele citou o livro “As Chaves do Rei Salomão” [McGregor – Mathers] para descrever as cenas que descreviam os trabalhos de magia. Nossos rituais são transformadores, produzem uma sutil transformação naqueles que os celebram. Todo novo iniciado é exposto a palavras e ações e energias dentro do círculo mágico que estão fora de experiência anterior.
Costuma-se dizer que o primeiro grau é especialmente sobre conhecer a Deusa, uma realidade necessária pelas raízes patriarcais da cultura moderna. Como o aprendiz, um novo iniciado tem obrigações como aprender o calendário wiccano, chamar um quadrante, estruturar um ritual, memorizar um ritual de esbat, lançar um círculo, etc.
Se o iniciado está trabalhando por uma elevação para o Segundo grau, o material necessário para o primeiro grau foi completamente copiado à mão em seu próprio Livro das Sombras.na prática de um coven, o iniciado pode ser estimulado a escrever, ler ou a praticar exercícios como parte de  seu treinamento. Então, depois do período dito de “um ano e um dia”, o iniciado de primeiro grau pode receber o segundo grau.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Quinta Instrução aos Mortos

O mundo dos Deuses se manifesta na espiritualidade e na sexualidade. Os celestiais aparecem na espiritualidade, os terrenos na sexualidade.
A espiritualidade concebe e acalenta. Ela é feminina e por isso a chamamos de Mater Coelestis, a Mãe Celestial. A sexualidade gera e cria. Ela é masculina e por isso a chamamos de Phallos, o Pai Terreno.
A sexualidade do homem é mais terrena, a da mulher é mais espiritual.
A espiritualidade do homem é mais celeste, ela visa ao maior.
A espiritualidade da mulher é mais terrena, visa ao menos.
Mentirosa e demoníaca é a espiritualidade do homem, que visa o menor.
Mentirosa e demoníaca é a espiritualidade da mulher, que visa ao maior.
Cada uma deve ir para o seu lugar.
Homem e mulher tornam-se demônio um para o outro quando não separam seus caminhos espirituais, pois a natureza da criatura é a diferenciação.
A sexualidade do homem vai para o terreno, a sexualidade da mulher vai para o espiritual. O homem e a mulher tornam-se demônio um para o outro quando não separam sua sexualidade.
O homem conhecerá o menor, a mulher o maior.
O ser humano deve distinguir-se da espiritualidade e da sexualidade. Que chame a espiritualidade de Mãe e a coloque entre o céu e a terra. Que chame a sexualidade de Phallos e o coloque entre si mesmo e a terra, pois a Mãe e o Phallos são demônios supra-humanos que revelam o mundo dos Deuses. São mais eficientes para nós que os Deuses porque têm maior afinidade com a nossa natureza. Se não vos diferenciardes da sexualidade e da espiritualidade e não as considerardes como entidades acima de vós, sucumbireis a elas como qualidades do Pleroma. A espiritualidade e a sexualidade não são qualidades vossas, não são coisas que possuis e abrangeis, mas elas vos possuem e vos abrangem, pois são demônios poderosos, formas de manifestação dos Deuses e por isso coisas que vos ultrapassam e subsistentes em si. Ninguém tem uma espiritualidade para si ou uma sexualidade para si, mas está sob a lei da espiritualidade e da sexualidade. Por isso ninguém escapa desses demônios e como coisa e perigo comuns, como peso comum, que a vida impôs. E assim a vida também é para vós coisa e perigo comuns, como também os Deuses e, em primeiro lugar, o terrível Abraxas.
O ser humano é fraco, por isso é indispensável a comunidade, se a comunidade não estiver sob o signo da Mãe, estará sob o signo de Phallos. Nenhuma comunidade é sofrimento e doença. Comunidade é em cada um desmembramento e dissolução.
A diferenciação leva á vida solitária. A vida solitária se opõe à comunidade. Mas por causa da fraqueza das pessoas em relação aos Deuses e demônios e à sua lei insuperável, a comunidade é necessária. Por isso tende tanta comunidade quanto for preciso, não por causa das pessoas, mas por causa dos Deuses. Os Deuses vos obrigam à comunidade. O tanto que vos obrigam, o tanto de comunidade é preciso haver, mais do que isso vem do mal.
Na comunidade cada um se subordina ao outro, para que a comunidade se mantenha, pois vós precisais dela.
Na vida solitária cada um se sobrepõe  ao outro, a fim de que cada qual se encontre e evite a escravidão.
Na comunidade deve vigorar a renuncia, na vida solitária, a prodigalidade.
A comunidade é profundeza, a vida solitária é elevação.
A medida justa na comunidade purifica e conserva.
A medida justa na vida solitária purifica e aumenta.
A comunidade nos dá calor, a vida solitária nos dá luz.
Liber Novus pg. 465 a 467 – Carl Gustav Jung.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Que atire a primeira pedra

Estamos no século XXI, mas ainda mantemos velhos e surrados preconceitos que vieram de outros séculos. Quando a Imprensa e seus lacaios bem pagos abusam de um fato para defender a “liberdade de expressão”, onde não cabem o preconceito e o estereótipo, estamos revivendo a histeria coletiva que vitimou milhões de inocentes nos séculos anteriores, vítimas do Colonialismo Ocidental, vítimas da Tirania da Igreja.

Quando aconteceu o atentado de 11 de setembro não faltaram denuncias de que o seu pretenso autor o estava fazendo por ordem da CIA. Caiu no esquecimento que eram falsas as denúncias de que o Iraque fabricava armas de destruição em massa, o motivo estapafúrdio usado pelos EUA e Inglaterra para darem um golpe de Estado em outro país. Nos dois casos, a única intenção não era a questão humanitária, nem justiça, mas apenas acesso ao tão cobiçado petróleo.

Evidentemente, alguém ganha alguma coisa ao colocar o alvo em um povo, uma cultura, uma etnia, uma religião, um país. Na Europa, a xenofobia e ações contra imigrantes são apenas os efeitos imediatos do crescimento da extrema-direita. Estes, assim que tiverem o poder, vão cuidar de atingir outros grupos e minorias que não se adequam à sua visão de mundo ocidental, cristão e conservador de direita.

A Liberdade de Expressão não é uma licença ou permissão absoluta. Preconceito e estereótipos nunca foram humor. Em plena Era da Informação, ainda tropeçamos na Ditadura da Mediocridade. Nunca foi tão fácil escolher um bode expiatório para expurgar os nossos problemas. Os problemas tendem a permanecer por que não eliminamos as causas, apenas atiramos a pedra no alvo escolhido pelos poderosos.

Eu vou responder as perguntas feitas por Reinaldo Azevedo, em sua coluna publicada na Veja.

Há muito tempo, de reforma em reforma, o catolicismo entendeu que não é nem pode ser estado.

Pelo visto, Reinaldo Azevedo não leu as últimas notícias nem se recorda dos descalabros cometidos pela ICAR e CNBB, onde o prelado espiritual da Igreja é alavancado como autoridade internacional para assuntos de Estado [como políticas de planejamento familiar, uso de anticoncepcionais, casamento homossexual, aborto, etc].

Em que país do mundo o cristianismo, ainda que por intermédio de seitas, se impõe pela violência e pelo terror? Em que parte da terra a Bíblia é usada como pretexto para matar, para massacrar, para… governar?

Eu recomendo que Reinaldo Azevedo leia a História do Ocidente a partir do momento em que o Império Romano instituiu o Cristianismo como a única religião oficial. Destruição de estátuas, templos, bibliotecas, perseguição, tortura, genocídio. Reinos e povos sofreram com inúmeras guerras, sem falarmos nas Cruzadas, na Inquisição, na Colonização e no Imperialismo que ainda assolam o mundo.

É claro que um crente dessa religião tem todo o direito de se ofender quando alguém desenha a imagem do “Profeta” — assim como me ofendo quando alguém sugere que Maria não passava de uma vadia, que inventou a história de um anjo para disfarçar uma corneada no marido. Ocorre que eu não mato ninguém por isso!

Reinaldo Azevedo esqueceu de casos atuais de cristãos [evangélicos] que mataram outras pessoas simplesmente por terem outra religião.

Ocorre que não existem líderes da minha religião que excitam o ódio por isso. Se um delinquente islâmico queima uma Bíblia, ninguém explode uma bomba numa estação de trem.

Reinaldo Azevedo esqueceu de Fred Phelps e a Igreja Batista de Westboro, dos EUA.

Podemos incluir diversos atentados a bomba, cometidos por americanos, em solo americano, a maioria cometida pela influência de algum líder religioso cristão.

O atentado cometido por muçulmanos somente chamam atenção por que são vistos como “invasores”, “estrangeiros”, “não-ocidentais”, “fanáticos”. Quando o ato é cometido por um extremista cristão, como Andres Behring Breivik, disseram que ele sofria de psicose. Reinaldo Azevedo pode fazer de conta que nada disso existe ou é real, mas cristãos também matam, cometem crimes e terrorismo.

Nas causas do extremismo e fanatismo muçulmano, podemos colocar a culpa na partilha do Império Otomano feita pelo Ocidente. Onde há muita miséria, fome, ignorância e falta de cultura, haverá condições para oportunistas captarem a indignação e revolta dos excluídos para fins próprios.

Eu lamento que cartunistas foram mortos, mas a liberdade de expressão, o humor, não precisa de mártires. Mas transformar as vítimas em heróis, omitindo que disseminaram preconceitos e estereótipos baixos e vulgares, nos colocamos ao lado do mesmo discurso que propaga o racismo, a misoginia e a homofobia.

Não se combate o preconceito, a intolerância, o fanatismo, o fundamentalismo, a exclusão com esse discurso à lá Rafinha Barros. Vencemos estas coisas com educação, tolerância, diálogo, respeito.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O Deus de Jung

Dos livros que eu leio, ora tiro algo interessante, ora uma idéia, ora uma referencia. O conhecimento, a prática, a espiritualidade, a crença e a religião são como mapas para a nossa jornada, mas não determinam o caminhar, a direção ou o destino. O objetivo de nossa busca é determinada por nossa experiência, por nossas opções e por nossas ações.
Eu estranhei quando a Editora Vozes publicou o “Livro Vermelho”, entitulado de “Liber Novus” pelo seu autor, Carl Gustav Jung. O psicanalista, que foi um dos alunos de Sigmund Freud e depois seguiu com uma linha própria na psicologia, é um referencial para as outras vertentes dessa ciência humana.
O “Liber Novus” é um livro que desafia as rígidas categorias do mundo editorial e literário. Eu posso dizer que é uma obra híbrida, pois tanto é psicologia quanto esoterismo quanto diário. Ali Jung conta suas próprias experiências com o seu inconsciente descreve um cristianismo bem particular, senão uma Gnose.
Acompanhar este livro não é simples, pois Jung usa uma linguagem mística, esotérica e intuitiva. Tentar entender, racionalizar ou captar o sentido e argumento do livro é desperdiçar e desmerecer o talento do autor.
A leitura torna-se melhor quando usamos a nossa intuição, o nosso inconsciente, a nossa alma. O livro tem material para muitas artes, estudos e reflexões. O foco deste texto, quase como resenha, é explorar as concepções de Jung sobre Deus.
Em “Liber Novus”, Jung expõe, no chamado “Sete Sermões para os Mortos” o conceito do Pleroma, que é semelhante ao conceito da Mônada. Segundo Jung, a manifestação do Pleroma é Abraxas, o Deus deste mundo, que é semelhante ao conceito do Demiurgo. A visão do autor quanto a Igreja e comunidade é explicado em termos da sexualidade e da espiritualidade e esta foi a melhor parte. O ponto principal é que o ser humano é fundamental para que estas coisas e entidades possam interagir, ser, existir. Nisto Jung inova ao falar que a caminhada é sempre pessoal e individual, imitar exemplos é viver a vida do exemplo.
Devemos explorar os dois conceitos de Deus, um como sendo o Demiurgo, o outro como sendo Abraxas.
O Demiurgo, para o Mazdeismo, o Maniqueismo e o Gnosticismo, é a entidade, o Deus que criou o mundo material, com todo o sofrimento e dor. O Demiurgo mantém a humanidade em um mundo de medo e ilusão, alienados da verdadeira realidade e afastados do conhecimento do verdadeiro Deus.
Para estas religiões, apenas pelo conhecimento [Gnose] e pela rejeição ao mundo material é que se consegue resgatar a convivência com Deus e voltarmos ao mundo que pertencemos.
Abraxas é um Deus e um símbolo do Esoterismo e Gnosticismo. Abraxas tem a cabeça de um galo, um tórax humano vestido de armadura, no braço humano esquerdo tem um escudo e no braço humano direito tem um chicote. As pernas são duas serpentes, uma branca e a outra preta.
Na cosmologia gnóstica, as sete letras que compõem o nome representam cada uma um dos sete "planetas" clássicos (Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno). [Wikipédia]
Como um Arconte
No sistema descrito por Ireneu, o "Pai não-nascido" é o progenitor do Nous, e dele Nous Logos, de Logos Phronesis, de Pronesis Sophia e Dynamis. Destes, principados, poderes e anjos, o último dos quais criam o "primeiro céu".
Estes, por sua vez, originam uma segunda série, criando um segundo céu. O processo continua de maneira similar até que 365 céus existam, sendo os anjos deste último (o céu visível) os criadores do nosso mundo. O "governante" [principem, ou ton archonta] dos 365 céus "é Abraxas e, por isso, ele contém em si mesmo 365 números".
Hipólito fala sobre Abraxas na Refutação de todas as heresias, que parece ter seguido a Exegética de Basilides. Após descrever a manifestação do Evangelho na Ogdóade e na Septóade, ele acrescenta que os Basilidianos têm um longo relato sobre as inúmeras criações e poderes nos diversos 'estágios' do mundo superior (diastemata), no qual relatam sobre os 365 céus e argumentam que "seu grande arconte" é Abrasax, pois seu nome contém o número 365, o número de dias do ano. Ou seja, a soma dos números representados pelas letras gregas em ΑΒΡΑΣΑΞ é 365. [Wikipédia]
Como um Deus
Epifânio de Salamis parece seguir parcialmente Ireneu e parcialmente o "Compêndio de Hipólito", agora perdido.6 Ele conceitua Abrasax distintamente como o "poder acima de tudo e o primeiro princípio", "a causa e o primeiro arquétipo" de todas as coisas e menciona que os seguidores de Basilides se referiram ao número 365 como sendo o número de partes no corpo humano além do número de dias no ano.
O autor do apêndice do livro Prescrição contra heréticos, de Tertuliano, que também devem ter seguido o Compêndio de Hipólito8 acrescentam algumas particularidades: que 'Abraxas' deu à luz Mente (Nous), o primeiro numa série de poderes enumerados por Ireneu e Epifânio; que o mundo, assim como os 365 céus, foi criado em homenagem a 'Abraxas'; e que Cristo foi enviado não pelo Criador do mundo, mas por 'Abraxas'.
Nada pode ser inferido das vagas alusões de Jerônimo, que afirmava que 'Abraxas' significava "O Deus maior" para Basilides, "Deus Todo-Poderoso" e "O Senhor Criador". [Wikipédia]
Como um Aeon
Mesmo com a disponibilidade de fontes primárias, como as da Biblioteca de Nag Hammadi, a identidade de Abrasax ainda permanece obscura. O Livro Sagrado do Grande Espírito Invisível, por exemplo, se refere a Abrasax como o Aeon vivendo com Sophia e os demais Aeons do Pleroma na luz do luminar Eleleth. Em diversos textos, Eleleth é o último dos luminares (Luzes espirituais) de destaque e é o Aeon Sophia, associado a ele, que encontra a escuridão e acaba envolvida na cadeia de eventos que levam ao reinado do Demiurgo neste mundo e à tentativa de salvação que se segue.
Assim, o papel de Aeon de Eleleth, e também de Abrasax, Sophia e outros, é característico da camada exterior do Pleroma, a que toca a ignorância do mundo da Vontade, e que reage para corrigir o erro da ignorância no mundo das coisas materiais. [Wikipédia]

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

A fábula do Sapo

“Religion shouldn’t be about being right, or serving god or duty, or heritage. It should be about fulfillment, growth and love”.

Jason Mankey divulgou um texto intitulado “A Witch’s Tale” no Patheos e para começar o ano bem, eu acho que é o momento certo para falar a fábula de Joãozinho.

Eu comecei minha jornada no colegial, depois que o conhecimento secular finalmente atingiu uma espinha. Ao contrário de muitos cristãos [seja qual for sua vertente] eu li a bíblia para entender a diferença entre o conhecimento secular e o conhecimento bíblico. Ao contrario de muitos cristãos [seja qual for a vertente] os fatos estavam contra a bíblia e este livro sagrado foi descartado como fonte de conhecimento confiável e por um bom tempo eu fui ateu.

No entanto, ao contrário dos descrentes, eu não aceitava simplesmente as soluções ou explicações científicas. Quando eu era pequeno eu desenvolvi um interesse e curiosidade sobre o mundo espiritual, praticamente depois que meus primos e meu irmão tentaram me apavorar contando histórias de fantasmas ou me deixando de fora da “brincadeira do copo”. O que eu mais gostava eram histórias de terror e eu queria saber mais da história dos monstros, de preferência contada por eles.

Ainda que de forma velada, a bíblia conta de práticas e crenças que são definidas por bruxaria. Isso me levou a pesquisar sobre as crenças e religiões dos povos antigos. Ali começou minha jornada, em busca de minhas origens, de minhas raízes, de minha identidade.

Eu também estava em busca de aceitação, reconhecimento ou de pessoas que pensassem como eu, pois o que mais se tem nessa sociedade cristã é violência, segregação, preconceito, intolerância, ódio. Por um bom tempo eu estudei a história do Cristianismo para me livrar de vez dessa crença imposta.

Quando eu estive no fundo do poço, quem esteve do meu lado foram entidades que, para a concepção cristã, eram demônios e o Diabo. Então eu também fui satanista, por um bom tempo, até perceber que isto estava mais para uma paródia do que um sistema coerente ou original. Foi quando eu comecei a acessar a internet e encontrei, por fim, o Paganismo Moderno, a Bruxaria Tradicional e a Wica.

Eu tive a feliz oportunidade de aprender os valores e princípios da Wica Tradicional com alto sacerdotes e alta sacerdotisas de covens que pertencem ao conjunto da Wica Tradicional Britânica. Eu tive péssima experiência com a Comunidade Pagã Brasileira e com grupos de Wica, em redes sociais, simplesmente por defender os princípios e valores da Wica Tradicional. Em alguns textos eu deixei bem claro que este é um dos defeitos que o Paganismo Moderno tem. Eu também narrei a saga de Joãozinho, não vou usar este blog para fazer acusações ou mea culpa. Acabou, foi-se, está enterrado. Meu foco neste ano estará na minha jornada.

Minha epifania com a Deusa não veio com hora marcada, não veio em um ritual, não veio em uma rede social, nem em um fórum eletrônico. Eu senti um enorme impacto, uma presença tão real, tão vívida, tão absoluta, que nada me restou senão me entregar ao arrebatamento. Eu estava no ônibus, indo para algum lugar. Eu senti um cheiro de rosas tão notável e tão presente que eu fiquei surpreendido. Vivendo em São Paulo, o que mais sentimos é poluição e eu tenho rinite alérgica que me deixa quase insensível ao cheiro. Não tinha uma mulher próxima de mim, nem tinha passado uma mulher perto de mim. A sensação de calor, de conforto, de acolhimento completou e confirmou que a Deusa estava presente, embora eu não a visse. Se eu tivesse visto a Deusa, certamente seria constrangedor, pois eu teria uma ereção no meio do ônibus.

Curiosamente eu vejo poucos testemunhos ou epifanias com o Deus. Eu compreendo e entendo. Nós viemos de um histórico traumático, de uma cultura judaico-cristã, cheio das neuroses do Cristianismo e de problemas com o Deus Cristão. Falar de uma epifania do Deus, principalmente se considerarmos a presença massiva das “religiões da Deusa” e do Dianismo, falar do Deus ainda que em forma de metáfora ou analogia é pedir por problemas. Estar diante do Senhor não é algo fácil nem simples de traduzir em palavras. Meus leitores interessados deverão encontrar os rastros.

Eu concordo com a ideia que religião não é sobre estar certo, a obsessão pela certeza nos torna monstros. No entanto, nós devemos nos ater a certas definições e convenções para poder afirmar nossas práticas, crenças e religião, do contrário nós perdemos a seriedade e a sinceridade. Eu discordo sobre não ser a respeito de servir aos Deuses, o próprio sentido de um ritual, de um mito, de uma prática, está em volta do sentido de espíritos e entidades. O devido serviço demanda uma obrigação, celebramos porque devemos, porque é nosso serviço. O devido serviço é aprendido com quem possui a experiência e isso demanda uma herança, uma linhagem, o sentido do sacerdócio e o cerne de uma iniciação.

O primeiro efeito quando se serve aos Deuses, não a agendas pessoais, não ao ego, não nossas vaidades, é o sentimento de plenitude. O crescimento vem ao se assimilar que nosso corpo, nosso desejo, nosso prazer, amor e sexo, são sagrados, divinos e ferramentas para acessar ao divino. Nisso consiste a melhor parte de trilhar o Caminho no Bosque Sagrado. O nosso acesso ao divino está conosco, em nossa volta, em todo lugar.

Saiba, caro leitor, que você não precisa procurar por aceitação, reconhecimento. Saiba que você não precisa entrar em alguma comunidade, virtual ou não, não precisa entrar em um coven. Você não precisa de um mestre, um mentor, um guru, um sacerdote. Tudo que você precisa é da Natureza, de si mesmo, de seu corpo, de sentir, de praticar. Tudo que você precisa é Amor.