sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O que é Bruxaria Tradicional?

Por Sara Amis, no Patheos.

Este blog, segundo me disseram, é para ser sobre bruxaria tradicional. Ou Bruxaria Tradicional, conforme diz lá no título. No entanto, surge imediatamente uma pergunta, que é: “O que você quer dizer com isso?”

A primeira coisa que eu quero estabelecer é que termos podem ter vários significados. No entanto, isso não significa, como o Humpty Dumpty, nas Aventuras de Alice, que você pode simplesmente fazer uma palavra significa o que quiser. A linguagem é usada para se comunicar. Como corolário, as palavras significam o que as pessoas usam para dizer, não o que alguém pensa que elas supostamente estão dizendo.

Você pode usar o termo "Bruxaria Tradicional" para significar "uma tradição linear de bruxaria religiosa", ou seja, qualquer tradição que exige iniciação para ser considerado um membro de pleno direito. No entanto, isto é praticamente o que significa todas as tradições religiosas de bruxaria, o que deixaria de fora grupos como Reclaiming em que a iniciação é opcional. "Tradições iniciáticas de bruxaria" é um termo muito mais claro, se você quiser fazer a distinção.

Grupos da Wicca Tradicional Britânica tem usado o termo para diferenciar-se das tradições "neo-Wicca", que são muitas vezes ecléticas e não tem uma ligação direta com a Wicca Gardneriana. No entanto, parece-me que "Wicca Tradicional Britânica" funciona muito bem para isso. Em todo caso, eu não tenho fortes objeções a essa definição, desde que, é claro, no contexto que você está falando.

Outra definição é "tradições iniciáticas de bruxaria sem a influência Gardneriana", um grupo que inclui Anderson Faery, o Clã de Tubal-Caim, o Cultus Sabbati, 1734, e assim por diante. Essas tradições, ao mesmo tempo distintos, têm algumas semelhanças de teologia, prática e o que se poderia chamar de sensibilidade, e é útil para ser capaz de agrupá-los de uma forma que não basta defini-los como "não Wicca".

No entanto, isso deixa de fora outro grupo importante, que eu chamaria de bruxas tradicionais, com t e b minúsculo. Isto inclui os praticantes de hoodoo, curandeirismo, stregheria, e todas as outras práticas de magia popular em todo o mundo. Curiosamente, este grupo é, provavelmente, o mais numeroso e aquele com uma afirmação mais sólida para uma longa história. Quando falamos de "bruxaria" antes do século 20, queremos dizer magos populares deste tipo. Não há muita evidência de que quaisquer das modernas linhagens de bruxaria existiam antes de 1930. Isso não significa de que eles não têm, mas quando você está falando de história, é importante fazer a distinção entre o que você pode provar e que você não pode.

Existe uma relação muito forte e fecunda entre bruxas tradicionais "com b maiúsculo” e "com b minúsculo", mas a sobreposição está longe de ser exata e, enquanto não há um parentesco, há certa quantidade de tensão. Bruxas tradicionais da Europa e da América do Norte que praticam hoodoo, pow wow, etc, são mais frequentes do que não cristãos e, enquanto as próprias tradições têm (algumas) origens pré-cristãs, durante os séculos seguintes se tornaram fortemente sincretizado com o cristianismo. Tradições de outros países nas Américas, do mesmo modo, embora as influências dos sistemas de crenças indígenas americanas e africanas, são geralmente mais visíveis. A bruxaria religiosa quando recorre a estas tradições geralmente tem dificuldades para tirar o brilho cristão. É tentador acreditar que estamos apenas restaurando práticas para sua glória original e, em alguns casos, não é preciso muito esforço. No entanto, devemos lembrar que, a fim de descobrir o que presumimos ser original, nós temos que “pular amarelinha” sobre o trabalho e as crenças de muitas gerações.

Outra fonte de tensão é a diferença de classe. No início da Era Moderna da Europa, você tinha cerca de dois tipos de pessoas usando magia: homens de classe alta fazendo magia hermética dos grimórios, que muitas vezes também era o clero, e os homens e mulheres de classe baixa que faziam curandeirismo e afins. O primeiro utilizava ferramentas caras, especiarias raras, livros e geralmente estavam em busca de algum objetivo da "alta magia", como o aperfeiçoamento de suas almas. Os últimos, muitas vezes eram pobres (ou, no máximo, fazendeiros livres), usavam qualquer material que tinham à mão e seus objetivos eram [em geral, mas não exclusivamente], pragmáticos: curando os enfermos, encontrar itens perdidos, e assim por diante.

Como consequência do Renascimento Ocultista no final do século 19 (na maior parte um fenômeno de classe superior) e sua influência no desenvolvimento do Paganismo Moderno, a Bruxaria Tradicional pode ter às vezes uma tendência de se parecer mais com o magister empoderado pelo grimório do que o homem ou mulher sábio. Livros encadernados à mão são caros e bonitos, mas também são um impedimento econômico. A ênfase no auto desenvolvimento, mais a necessidade de, pelo menos, ter uma renda de classe média para custeá-lo, coloca a bruxa tradicional mais próxima de outros pagãos e da Nova Era e mais longe da prática popular, do que gostaríamos de acreditar. Enquanto isso, as tradições folclóricas continuam a trabalhar debaixo do radar. Longe de desaparecer, eles estão onde sempre estiveram: nos remansos, entre os pobres e marginalizados, escondidos à vista de todos em geral. Às vezes pode parecer que esses dois tipos de bruxas existem em planetas completamente diferentes e, no futuro, eu pretendo explorar algumas de suas diferenças na sensibilidade e visão de mundo, bem como suas ricas confluências evocativas.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A origem da vida

A humanidade sofreu demais com o monoteísmo abraâmico. Por suas características exclusivistas, o monoteísmo abraâmico causou massacres, guerras, perseguição, tortura, genocídio e outros crimes. A crise no Oriente Médio entre Judeus e Palestinos é um sintoma do quanto essa forma de crença é perigosa para a humanidade. Eu devo lembrar que o Deus Cristão não é o nosso Deus. Nós não podemos nem iremos fechar essas feridas transformando a Deusa em uma inversão travestida do Deus Cristão.

No Patheos, Erick DuPree publica um artigo que levanta uma discussão crucial no Paganismo Moderno que deve ser discutido se queremos manter nossa liberdade e diversidade.

O artigo de Erick comete um erro que é comum em textos focados na Deusa, esquecendo-se do Deus e de tantos outros Deuses.

No primeiro paragrafo, Erick escreve:

“Recentemente, um homem disse ‘ Ele é o Doador da Vida! ’ E eu pensei, certamente, se isso te agrada, mas eu sei que eu nasci de uma mulher.”

Eu comentei no Patheos:

“Sem o seu pai, você seria apenas uma ideia na cabeça de sua mãe.”

Erick continua seu texto:

"Para nós, a Deusa do êxtase monista é o vaso imanente que habita dentro de cada um de nós e que somos nós, Ela que é a totalidade de tudo e nada. Eu dou a esta ressonância, pulsação da energia o gênero 'Ela', mesmo que isto esteja além do gênero, porque a ciência tem provado que toda a vida é nascida do sexo feminino."

Eu comentei no Patheos:

“Quando Erick diz que a Deusa é Tudo, é a mesma coisa que os Cristãos, Mulçumanos e Judeus dizem sobre o Deus deles. Portanto, ele está dizendo que tudo o contrário é apenas um disparate, como dizem as principais religiões monoteístas. Eu analisei as alegações dele e o argumento dele não se sustenta. O texto dele é um desrespeito a outras teologias com a Santa Ameba dele. O texto dele afirma que toda a vida nasce da mulher - isso é muito parecido com o Criacionismo, uma pseudociência que o Cristianismo tem. Ele afirma que a Deusa está além de sexo, esta é a mesma visão tendenciosa sobre o sexo que o Cristianismo tem.”

O cenário do paganismo moderno está dominado por esse excessivo enfoque na Deusa, uma forma velada de monoteísmo, tornado popular pela Neo-Wicca e pelo Dianismo. Se quisermos que o Paganismo Moderno seja levado a sério, nós temos que ser coerentes com as características, definições, princípios e valores de nossas crenças.

Dizemos em nossos rituais na Carga do Deus:

“Eu sou o Doador e o Ceifador, eu tenho as Chaves da vida.”

E na Carga da Deusa:

“Pois Eu sou a Alma da Natureza que dá vida ao universo.”

Essa aparente contradição é resolvida pelo mistério do Grande Ritual. A Deusa é o Ventre e o Túmulo, Ela é o Campo para ser arado. O Deus é a Lança e o Arado, ele é o Semeador. Sem o Hiero Gamos, não existiria o universo, a vida e a humanidade.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Monoteísmo Pagão

Parece que há uma contradição quando dizemos paganismo e monoteísmo na mesma frase. A definição geral do monoteísmo é a crença em um único Deus, mas mesmo esse conceito e teologia têm uma complicação, se analisarmos as religiões que são consideradas exclusivamente monoteístas.

São três as grandes religiões monoteístas, isto é, que creem em um único Deus: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Entretanto, estas religiões possuem vertentes que indicam uma forma velada de panteísmo, henoteísmo e monismo. Muito embora creiam em um Deus Uno, possuem uma politeologia. Se por dentro existe um problema doutrinário, por fora o problema se multiplica, pois há um conflito de concepção por serem credos exclusivistas.

Entretanto existem religiões pagãs monoteístas que creem em um único Deus, com um tempero politeísta, panteísta, henoteísta e monista. São elas o Hinduísmo, o Mazdeismo, as religiões da diáspora africana e o Dianismo. O Hinduísmo, o Mazdeísmo e as religiões da diáspora africana são bem antigos, tem uma longa tradição, sacerdócio, ritual e mistérios próprios. O Dianismo é parte do Paganismo Moderno, tem uma tradição escassa ou inexistente, seu sacerdócio não tem base, seus rituais são meras imitações e seus mitos são inventados.

Enquanto as três religiões abraâmicas disputam entre si pelo monopólio do divino, as religiões pagãs monoteístas tradicionais não tem tal estresse, são religiões que convivem com as crenças populares. Apenas o Dianismo, esse monoteísmo pagão da Era Moderna, tem copiado o estresse do monoteísmo abraâmico, querendo disputar o monopólio do divino com sua Jeovulva, sua Santa Ameba.

O monoteísmo abraâmico com seu Deus Uno provocou terríveis consequências para a história da humanidade. O monoteísmo pagão construiu uma cultura e impérios que ajudaram a formar a humanidade contemporânea.

As antigas religiões eram politeístas, mas como a maioria elegia um Deus dentre muitos para ser o Pai, podemos descrever como sendo religiões que poderiam desenvolver em uma forma de monoteísmo. Os cultos a Zeus, Júpiter e Cesar ficaram bem próximos desse tornarem uma religião de massas. O culto a Mithra foi tão bem sucedido que foi assimilado pelo surgente Cristianismo.

O monoteísmo pagão tradicional acredita em um Deus Uno, mas não é exclusivista. O monoteísmo pagão moderno acredita em uma Deusa Una, mas tem copiado o péssimo hábito das religiões abraâmicas. Diante da experiência humana, esse exclusivismo, esse monopólio da Deusa pode acabar provocando as mesmas terríveis consequências do monoteísmo abraâmico.

Para o pagão moderno, com diversas teologias, o divino é uno ou múltiplo, é imanente e/ou transcendente, os Deuses são identidade distintas [politeísmo], são emanações de um Deus/Deusa [henoteísmo], ou que somados resultam em um Deus/Deusa [panteísmo], ou que todas essas manifestações são emanações de um Uno indistinto [monismo]. O grande diferencial do Paganismo Moderno é essa diversidade. O Paganismo Moderno é um espaço de inclusão, debate, conhecimento acadêmico. O pagão moderno não tem desculpa para cometer os mesmos erros do cristão. Para manter nossa liberdade e tolerância, nós não podemos permitir, sob a alegação de liberdade de religião e expressão, esse discurso, esse monólogo exclusivista do Dianismo.

Esta distorção tem um histórico, teve início na Era Moderna com as teorias furadas de Marija Gimbutas e a ficção teísta de Dion Fortune. Antes disso, a única Deusa que podia pleitear o trono de Deusa Una foi Isis, graças a Alexandre o Grande, que conquistou o Egito e, pela helenização do mundo clássico, o culto de Isis passou de um culto étnico a um culto multinacional. Foi neste cenário que Lucio Apuleio compôs o Asno de Ouro, um texto clássico citado falsamente pelo Dianismo como a base histórica para o inexistente Antigo Culto da Deusa Mãe.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ensinando magia sexual

Autora: Sable Aradia

Para mim, a sexualidade sagrada é uma parte importante da minha crença. Uma atitude liberada e respeitosa em relação ao sexo e em reverência a ele, é uma grande parte do que me atraiu para o Ofício.
Eu rapidamente me apaixonei com o aspecto sagrado da sexualidade da Wicca. Eu não podia ver por que algo tão belo e poderoso deve ser tão demonizado. Eu tenho algumas teorias políticas sobre o assunto. Eu acredito, e apaixonadamente, na importância da sexualidade sagrada no Ofício. Para mim, é um dos mistérios centrais. Ela norteia muitos aspectos do estudo e teologia do Ofício. Na minha opinião, uma das obras mais importantes que nós, como wiccans, pagãos e adoradores da Deusa estão fazendo é redefinir uma ética sexual que não envolve hipocrisia, medo ou vergonha.

No entanto, esta é a chave. "Ética Sexual". Nós, como cultura, fomos cristianizados por tanto tempo que já não temos ideia do que uma ética sexual [pode] parecer sem vergonha ou medo. Nós estamos tentando reinventar a roda. Isto é especialmente difícil na comunidade pagã por vários fatores. Um deles é que as nossas políticas de segredo e "a maldição da gentileza do pagão" pode levar-nos a se tornar um paraíso para abusadores. Outro fator é que nós temos uma população maior do que a média dos sobreviventes de abuso. Muitos de nós, com razão, temos medo de desencadear eventos e nossas tentativas de evitá-los, por vezes, nos levam a um conflito com situações potencialmente difíceis. Assim, o equilíbrio entre proteção e libertação é difícil na melhor das hipóteses.
Aqui examinaremos algumas das questões que nos confrontam na prática da sexualidade sagrada e no ensino da magia sexual. Elas serão apresentadas simplesmente para apontá-las e provocar discussão, trabalhando no sentido de possíveis soluções.

Nudez Ritual
A nudez é uma coisa sexual? Nossa cultura certamente parece pensar assim. Devemos, portanto, limitar a exposição à nudez para adultos ou para aqueles na idade de consentimento? A tradição do skyclad muitas vezes se choca com os níveis de conforto das pessoas.

As festas pagãs que eu já estive tendem a ter uma política de “vestuário opcional" na maioria dos lugares, a exceção geralmente no lugar que você come. No entanto, as pessoas raramente aproveitam, exceto em ritual específico do skyclad e em áreas de natação. Embora eu consinta que muitas mulheres apreciam a chance de ficar de topless, vindo elas de áreas em que isso é legal ou não. No entanto, nós raramente estamos, devido a restrições culturais e você balança a cabeça no conflito que tive com a minha mãe sobre a possibilidade ou não da minha empregada dar o peito a seu bebê em minha loja, o que ela via como ofensivo e eu apoiava veementemente. Nestas festas que eu participei também tinham banheiros mistos. Recentemente, surgiu uma oposição contra isso devido ao fato de que a) muitos de nós se sentem desconfortáveis com nudez, b) muitas tradições pagãs não têm uma tradição da prática skyclad, e c) muitos acham que isso aumenta a possibilidade de abuso.

Enquanto os temores sobre abuso são estatisticamente infundados, níveis de conforto e respeito das crenças de outras pessoas continuam a ser uma preocupação. Acho que ao longo da próxima década, muitos encontros pagãos serão obrigados a decidir se eles são pan pagão ou wiccanos e ajustar as suas regras em conformidade. Imagino que a tradição vai determinar essas regras, em parte; mas eu também imagino que vamos ver algumas cismas profundamente enraizadas. Na primeira Guerra Bruxa eu estava dividida sobre esta questão.

Há geralmente um ritual skyclad nestes festivais. Para alguns é a primeira vez que ficou skyclad; e seu nível de participação varia. Os rituais de gênero único tendem a ser melhores atendidos do que os mistos. Mas parece-me a partir de um ponto de vista puramente subjetivo que muitos recém-chegados acharam muito libertador.

Em qualquer caso, se vamos continuar a ter áreas onde a roupa é opcional, eu recomendo que devemos observar algumas regras de etiqueta nudista. Leve uma toalha com você e sente-se sobre ela, quando você se senta sobre as coisas. Cubra seus órgãos genitais nas áreas de alimentação. E não encare para as partes privadas das pessoas quando você estiver falando com eles. Isto os deixa mais desconfortáveis do que já estão, e eles geralmente vão para fora em um membro e assumindo o risco. Fica mais fácil quanto mais pessoas nuas você ver.

Nós também precisamos respeitar uns aos outros. Algumas pessoas não se sentem confortáveis com a nudez. Talvez deva ser dado um lugar onde eles não têm de enfrentar nudez constantemente; talvez o salão de refeições e área de camping da família, por exemplo. Mas também não é justo forçar todos os outros, para os quais a nudez pode ser um importante artigo de fé, para encobrir em todos os lugares. Isso é parte da razão pela qual vamos a esses eventos; para celebrar livremente nosso caminho em um lugar de aceitação mútua.

Condicionamento Cultural (cultura do estupro reforçada)
Falamos muito da "cultura do estupro" e ouvimos muito sobre isso no noticiário recentemente. Esta frase muitas vezes faz os homens pagãos encolher, porque para muitos deles, representa o ódio irracional dirigido a eles por um privilégio que eles não percebem que eles possuem, especialmente porque a maioria dos homens norte-americana pagã ao menos dão apoio ao feminismo ou às feministas em si (embora certamente há exceções).

A cultura do estupro é perpetuada pela suposição cultural de que a recompensa, para o homem que faz bem e tem sucesso, faz a coisa certa, é a mulher mais desejável.
No mundo real, as mulheres não são robôs que respondem automaticamente a um conjunto de sinais que indicam que o homem mais desejável deve ser aquele que podemos nos unir. Temos os nossos próprios sentimentos e fazer nossas próprias decisões. Vamos dar a nós mesmos e uns aos outros se o direito de tomar decisões autônomas, sem julgamento, ódio ou "vergonha de ser vadia", não importa qual, o sexo, quantos ou quão poucos, os parceiros que nós escolhemos.

A cultura do estupro também é perpetuada pela crença sutil e generalizada crença sublinhando a maioria dos aspectos da cultura ocidental de que a mulher é inferior ao homem. Há fortes indícios de que os homens gays são ridicularizados e as mulheres lésbicas não. Nós carregamos um treinamento subconsciente que nos ensina que os gays estão "se rebaixando” para a posição da "fêmea inferior" e as mulheres lésbicas estão "se elevando". Em alguns círculos, a gente até diz que para uma mulher para ter um relacionamento com um homem a coloca automaticamente em uma posição de inferioridade! Isso trai a presença subconsciente dessa crença cultural venenosa. Eu acredito fortemente que essas atitudes não têm lugar no mundo do paganismo, onde nós nos esforçamos para a aceitação mútua e a transcendência de suposições baseadas em gênero.

Questões de Gênero
Este é um grande tema. A política feminista têm sido um forte componente da cena norte-americana pagã há muitos anos e é geralmente um aspecto de culto da Deusa. A maioria dos homens pagãos que eu conheço tiveram encontros na comunidade pagã em que o gênero tem contado contra eles de uma forma prejudicial. Alguns de nós diriam que esta é uma boa lição de humildade para os homens, que, portanto, começam a experimentar o que todas as mulheres do mundo tem experimentado na maioria de sua vida, mas eu não acho que eles precisam serem envergonhados. Ninguém precisa ser envergonhado. Os homens têm um lugar no Paganismo também.

Há também uma hipótese a priori que todos os homens aparentemente heterossexuais em uma reunião pagã estão lá para o sexo e eles têm que provar que eles não são. Isso não é mais justo do que presumir que as mulheres são emocionais e irracionais. Preconceito ainda é o preconceito.
Acredito na necessidade de santuários de gênero único. Eu ensino Mistérios Diânicos de tempos em tempos e estes não são lugares para homens. Eu também acredito na necessidade de Mistérios Masculinos. Mas nós, como os pagãos e como pessoas, estamos em desacordo sobre as nossas definições do que constitui um homem ou uma mulher. Nós ainda não fizemos as nossas decisões sobre isso ainda.

E sobre aqueles de nós que não se encaixam no modelo binário padrão de gênero? Há muitos de nós que são transgênero ou homossexual. Para onde vamos, se não nos rituais dos homens e das mulheres? Para muitos de nós, mesmo os círculos mistos, com modelos de gênero binários, são demasiado restritivos. Se você é uma mulher de espírito, mas não nasceu no corpo de uma mulher, o que é o seu lugar em um ritual de menstruação? E que tal um ritual fálico se você é transexual?

Agora vamos considerar esses fatores no contexto direto da magia sexual. Se você estiver em uma tradição com uma linhagem de macho para fêmea para macho, onde você fica, se você é gay? Com quem você vai estudar? Na evocação para o Grande Rito, você evoca o Sol ou a Lua? De quem você recebeu sua iniciação? Se você é o iniciador, você iria realizar tal iniciação? Você acredita em evocação com gêneros cruzados?

Como vamos lidar com isso? Eu tenho que dizer-lhe, ainda é uma questão controversa, e os nossos sacerdotes do terceiro grau têm uma ampla gama de opiniões. Eu acho que é um crédito para todos nós que, apesar disso, essas discussões têm sido uma partilha mútua de respeito do pensamento e não um debate acalorado. Nós todos vamos ter que tomar nossas próprias decisões sobre isso, e em preocupações semelhantes.

Padrões da Juventude
Esta é provavelmente a maior preocupação na comunidade agora. Muitas crianças são a segunda e terceira geração de pagãos, criados em famílias pagãs. Como lidamos com as nossas atitudes sobre o sexo e juventude? Quando é a diferença de idades entre o abuso de parceiros? Que idade é a idade de consentimento? Quando é apropriado nudez em torno das crianças?

A coisa engraçada sobre a cultura ocidental é a nossa atitude sobre o sexo e os filhos. Nós reconhecemos que as crianças não podem consentir adequadamente, mas estamos em desacordo sobre quando a infância termina. Muitos de nós evitam o problema, recusando-se a permitir que os nossos filhos se envolvam no Paganismo até que sejam adultos. Mas isso dá a mensagem inconsciente de que o Paganismo é algo vergonhoso para manter em segredo, e muitos de nós não acredita nisso. Além disso, a Wicca e o Paganismo ensinam que "todos os atos de amor e prazer são rituais Dela." Então, por que nós acreditamos que o sexo na adolescência deve ser evitado? Nossas crianças estão confusas com a mensagem misturada.
E por que temos padrões diferentes para meninos e meninas? Por que alguns de nossos homens pagãos ainda brincamos sobre a obtenção de armas de fogo quando têm filhas bonitas? Por que nossas filhas não devem reivindicar a sua sexualidade como a sua própria e por que seus pais deveriam ter algo a dizer no final?

Isso é muito permissivo? Para alguns, especialmente aqueles de nós que foram abusados, talvez seja. Eu nunca fiz esforços para esconder a nudez na minha casa e eu criei meus filhos dessa maneira. Eu disse a eles se eles tinham idade suficiente para fazer a pergunta, eles tinham idade suficiente para obter a resposta, o que eu tratava com tanta honestidade e tão diretamente quanto possível, dada as idades e o contexto. E meus filhos, me chamaram para me dizer quando eles tinham escolhido suas identidades como seres sexuais. Ambos tinham uma atitude de celebração. Ambos viam como uma opção poderosa. Nenhum deles tem algum arrependimento sobre a decisão. Ambos optaram por experimentar com amantes masculinos e femininos. Acredito que para mim e para eles, eu fiz a coisa certa. Mas cada um de nós tem de encontrar nossas próprias respostas.

Eu acredito fortemente, assim como a maioria de nós, tenho certeza, que o abuso e, principalmente, o abuso de crianças, é absolutamente inaceitável e deve ser ativa e vigorosamente combatido.
Há também certo padrão duplo com a idade. Eu tive relações com um homem da minha idade, um homem que era mais jovem do que eu e um homem que é mais velho. Para mim, a atitude sobre o meu amante mais jovem era uma duplicidade entre "que saco velho desprezível!" e "dá-lhe garota!" Alguns ficavam bastante desconfortáveis com isso. E, estranhamente, eu não tive essa reação em relação ao meu parceiro mais velho. Para os homens mais velhos, muitas vezes é apenas "que pervertido!" Quando não é, a resposta geralmente é: "Como é que um bode velho como você consegue uma bela jovem como esta?", Que mostra uma crença inconsciente de que deve haver algo de errado com a gente quando nós envelhecemos. A suposição é que normalmente há dinheiro envolvido, que é um terrível julgamento da sexualidade do meu parceiro e da minha moralidade. Afirmamos não ter discriminação etária e nós reivindicamos que celebramos a sexualidade em todas as suas formas, mas nós mentimos para nós mesmos.

A Questão do Consentimento
Esta é provavelmente a pedra angular de todas as questões que envolvem o ensino de magia sexual e da sexualidade sagrada. Em uma comunidade que abraça ou pelo menos aceita a ideia de Wicca que "todos os atos de amor e prazer são rituais Dela", há um consenso geral de que o que se passa entre adultos é assunto particular e é tudo muito bem e bom, desde que ninguém se machuque. As questões são agravadas para aqueles de nós que se lembram do "Pânico Satânico" e todas as alegações de abuso ritual. A maioria dos pagãos que seguem uma filosofia wiccana acredita que muitas das crenças de nossa cultura em relação à sexualidade, tanto consciente e subconsciente, são insalubres. Nós estamos procurando inventar uma nova ética sexual. Ao invés de nos preocuparmos com detalhes, preocupamo-nos com o seu consentimento. E é aí que reside o problema.

Idade e Consentimento
Eu acho que é seguro dizer que todos nós acreditamos que os adultos não devem se envolver em relações sexuais com crianças. Como uma sociedade nós vemos molestadores de crianças como seres humanos doentes, maus e a maioria de nós defendem punições bastante drásticas pela violação dessa regra. Quando, há muitos anos, Gavin e Yvonne Frost escreveram um livro que defendia um ritual sexual pagão debutante, o clamor era enorme e as ondas gigantes resultantes continuaram a atacar as costas do Paganismo desde então. Na verdade, a razão pela qual todos nós estamos atualmente falando sobre isso é que um pagão ancião respeitado foi recentemente acusado de posse de pornografia infantil e outras alegações de abuso na comunidade surgiram como resultado desta discussão.

Então aqui está o cerne da questão realmente: quando acaba a infância?
Parte do problema é que a nossa sociedade está confusa sobre quando a infância termina. Isso varia de país para país e de estado para estado. Na minha província e do país, você pode ser responsabilizado penalmente aos doze anos, dirigir aos dezesseis anos, se juntar às forças armadas aos dezessete anos e votar e assinar contratos aos dezoito anos. Você deve ter dezenove para beber e jogar e vinte e um para fumar. Então você será considerado legal e criminalmente responsável seis anos antes de você ser capaz de assumir a responsabilidade legal de um contrato; você pode ser enviado para lutar por seu país um ano antes você ter permissão para votar em quem manda; e você pode matar as pessoas que o seu governo diz que são inimigos dois anos antes de você estar autorizado a participar de atividades que possam prejudicar a si mesmo. E você deve saber se deseja ou não que se matar com álcool dois anos antes que você possa saber se você quer se matar com o tabaco.

Qual é a idade atual de consentimento onde você mora? Você tem que saber! Quando eu era adolescente, a idade de consentimento era quatorze anos. Agora é dezesseis anos. Então, isso significa que dezesseis é velho o suficiente para se envolver em magia sexual e Grande Rito? Não se preocupe, eu sinto sua hesitação e eu concordo com você. Certamente, quando os Frost pensavam que estava tudo bem, a comunidade discordou! Mas eu também ouvi uma história sobre uma cerimônia debutante masculina para um jovem de dezesseis anos de idade, no início dos anos noventa. Um casal de sacerdotisas de Afrodite discutiu com os homens realizando a cerimônia se elas deveriam ou não oferecer uma introdução ao sexo como parte da iniciação ao jovem. Os homens sentiram que oferecer publicamente como parte da cerimônia iria colocar pressão social sobre ele para fazer algo que de outra forma poderia não querer fazer, então um dos homens silenciosamente o fez saber que essas mulheres tinham feito a oferta e o jovem se recusou. Isto foi apropriado? Uma pessoa razoável poderia concluir que, porque o jovem estava na idade de consentimento e que a oferta foi feita de tal forma a evitar qualquer tipo de coerção, seja ela velada ou ostensiva, que isso era perfeitamente bom; mas outros podem não concordar com isso e eu mesma não faria tal oferta, mesmo que uma das deusas com quem trabalho - Erzulie - é uma deusa da sexualidade sagrada.
Algumas atividades sexuais podem ser consideradas boas, mas outras não, dependendo da idade. Até 2003, quatorze estados ainda tinham leis contra a sodomia. Homofobia e outras visões discriminatórias em relação ao sexo e sexualidade pode também levar a lei a ser aplicada de forma desigual.

Bem, vamos considerar a nudez em festivais. Está tudo bem que as crianças sejam expostas a adultos nus? Com que idade? E se o festival é de roupa opcional e sua filha de dez anos de idade está correndo nua? E se alguém de dez anos assiste a um casal um pouco bêbado trocando carícias? E se houver um templo de Afrodite no local? Se isso é inaceitável, devemos ter eventos só de adultos ou rituais como uma alternativa, ou proibir essas práticas inteiramente? Como você se sentiria sobre adolescentes que praticam magia sexual juntos? Como você se sentiria sobre adolescentes fazendo seu próprio rito de iniciação sexual um com o outro? Se eles vierem para te pedir conselho sobre como fazer, o que você diria a eles?

Eu gostaria de pensar que um grupo que pratica magia sexual ou sexualidade sagrada começaria com um firme compromisso de, no mínimo, obedecer a lei (não é suficiente, mas vamos começar por aí); por isso não estamos dispostos a aceitar qualquer um em nossa prática ou instrução que não esteja, pelo menos, na idade de consentimento regional. Além disso, fica indefinido e nós vamos ter que falar sobre isso, tanto com os nossos grupos e com a comunidade em geral. O que acontece se alguém, com quatorze anos de idade, me vem perguntar sobre magia sexual? Eu devo ficar indiferente e buscar refúgio na lei? Eu tenho a obrigação de avisar os pais do jovem sobre isso?

Um problema recente surgiu em nossa própria tradição é que uma menina de quinze anos de idade que está praticando com seus pais em um de nossos clãs queria se iniciar no Primeiro Grau e sua Alta Sacerdotisa e Sumo Sacerdote ambos acreditam que ela tem o necessário conhecimento e maturidade para fazê-lo; mas os líderes da tradição proibiram, porque o nosso rito de iniciação é tradicional; é feito skyclad e envolve atamento, vedação e desafio ritualístico. Muito potencial para que seja mal tomado, mesmo se você ache que uma garota de quinze anos de idade pode ter a maturidade para realmente compreendê-lo.

Eu tenho uma política de pessoal que eu não participo de magia sexual com qualquer pessoa menor de dezenove anos de idade e mesmo assim eu hesitaria. Eu tinha vinte e um anos quando realizei meu primeiro Grande Rito e eu sei que eu tinha a maturidade, para compreendê-lo, de modo que seria a minha idade mínima para o ritual. Eu teria sérias dúvidas e hesitações com qualquer pessoa com idade abaixo de vinte e cinco. Essas são as minhas decisões pessoais sobre o assunto. Cada um de nós tem de encontrar nossas próprias respostas.

O Relacionamento Professor /Aluno
Eu não vou disfarçar ou aliviar: Wicca tem uma falha fatal. Eis o dilema: ela é contra a lei na maior parte do "mundo ocidental" por um professor ter relações sexuais com um estudante, ou por um clérigo ter relações sexuais com um dos congregados. É culturalmente entendido que pessoas em tal posição de autoridade podem coagir uma pessoa que procura por eles para orientação e que uma pessoa sob sua autoridade pode sentir que ele/ela não tem escolha a não ser se envolver em um ato sexual. Mas muitas tradições da Wicca têm ritos de iniciação que podem ser percebidos ou como tendo elementos sexuais (nudez ritual, bondage, flagelação) ou que são inegavelmente sexuais (Grande Rito).

Nós, tipos mágicos, desde os primeiros xamãs, dançamos na beira do tabu cultural e muitos diriam que este é o lugar onde o poder se encontra. Por natureza, nós questionamos tudo e encontramos os limites. Mas esta é uma área perigosa e que exige cuidado extra.
A maioria de nós provavelmente diria hoje em dia que as nossas tradições não necessitam de atos sexuais para a iniciação; ou, pelo menos, que essas coisas não são requisitados de nossos neófitos, embora possam ser para os de graus mais elevados. Eu acho que é assim que nós devemos lidar com isso, dançando no fio da navalha e eu acho que, se a sexualidade é sagrada, devemos ter a certeza do consentimento, a fim de evitar a blasfêmia. Mas, para alguns tipos tradicionais, isto é duro de engolir e, devo confessar, eu entendo isso. O Grande Rito é um mistério sagrado. Será que uma pessoa que deseja entrar para o terceiro grau realmente compreende a verdade do mistério se ele/ela não está disposto/a afazer o Grande Rito? Ainda existem grupos tradicionais lá fora que diriam que não e não fariam a iniciação.

E o que acontece se os seus alunos pensam que eles estão prontos para o primeiro grau, mas eles não querem fazê-lo em nudez ritual? Será que ela entende o mistério, se ela não está disposta a estar em nudez ritual conosco? E como eu vou encarar isso quando sua irmã de coven, que já foi uma vítima de estupro, estava disposta a fazer isso, desde que ela pudesse usar calcinha? Claro que todo mundo tem suas próprias opiniões e sentimentos e níveis de conforto; mas parte do ponto de rituais de iniciação é desafiar sua zona de conforto e enfrentar seus medos. Se o meu sacerdote e eu decidirmos não fazer a iniciação por causa de nossas dúvidas e encaminhá-la a alguém que está disposto a fazê-lo sem a necessidade da nudez ritual, isto é coerção?

Para ser capaz de dançar sobre o fio da navalha, é preciso considerar a nossa abordagem. O que significa a iniciação? O que os graus significam? Qual é a natureza da nossa relação com nossos iniciados?
Dizemos que somos todos sacerdotisas e sacerdotes dos Deuses. Se você realmente tem esse entendimento, então os rituais de iniciação estão reconhecendo um igual, não promovendo um estudante. A partir desse ponto de vista, você tem negado com sucesso tanto a relação professor-aluno quanto a relação clero-congregado. Mas você também tem a obrigação de ter certeza que seus iniciados entendam que vocês são pares! A comunidade em geral parece ter essa ideia de que as iniciações são como notas no ensino médio. A iniciação para o próximo grau, para muitos, é visto como colecionar de medalhas de mérito que elevam você na hierarquia. Até eu ter dissuadido com sucesso meus coveners desta noção, não devo fazer qualquer tipo de ritual sexual com eles.

Gerald Gardner acreditava que a razão que a Wicca ser uma religião de sacerdotisas e sacerdotes foi que ela foi forçada a se ocultar e que chegaria um tempo (e breve) na qual a Wicca não seria mais obrigada a ficar escondida e mais uma vez haveria sacerdotes e leigos. Este é outro ponto de vista que você pode ter com as tradições iniciáticas. Bruxas iniciadas são membros de um sacerdócio, mas nem todo mundo que pratica a Wicca necessariamente precisa ser uma sacerdotisa ou um sacerdote! A partir desse ponto de vista, não há exigência alguma para a iniciação, então não há coerção. Mas a maioria dos que vêm a mim para o treinamento parecem acreditar que a iniciação é algo que eles devem passar e que eles estarão de alguma forma falhando se não o fizerem. Então eles estão realmente se apresentando ao limiar por sua livre e espontânea vontade?

Aqui é onde aqueles que se opõem às tradições hierárquicas tem razão. Se você tem autoridade, um rito sexual pode ser um abuso de poder. Se não, o rito sexual é uma prática entre pares.
Isto também se aplica no sexo festivo. De um ponto de vista, um sumo sacerdote que tem relações sexuais com um covener em Beltane está demonstrando claramente que ele considera-lo como igual; mas ele também pode estar abusando do poder, se essa pessoa vê a si próprio como seu/sua aluno/a.
Outra abordagem possível é a de trazer pessoas de fora que são pares para realizar iniciações. Se você não é o professor do iniciado, isso pode remover alguns dilemas éticos. Não há soluções fáceis para isso. Se não estamos dispostos a fazer uma iniciação sob uma determinada condição, então devemos submeter o candidato a alguma outra pessoa na tradição que o faça, desde que atendam todos os outros requisitos.
Um grupo legalmente constituído deve ser ainda mais cuidadoso. Eu diria que esses grupos não devem se envolver em nudez ritual ou iniciações sexuais de forma alguma; certamente nunca como parte de suas atividades oficiais. Eu diria que, se o clero, em tais organizações, o fazem fora da corte, então eles devem ter certeza de que qualquer um que praticar magia sexual com quem não é do clero desta organização, que este não seja um membro da mesma.

Bruxas tradicionais têm uma vantagem nisto porque a Wicca existe há 60 anos e agora eles têm toda essa experiência para utilizar e Thelema existe há mais tempo do que isso; tipos não-tradicionais devem procurar outros na comunidade para conversar. Como efeito colateral prático e útil a isso, um clima de transparência torna mais difícil para o abuso corromper quando alguém está fazendo algo impróprio.
Acima de tudo, perceba que não importa o quê, você está assumindo um risco; assim como dirigir significa se arriscar a ter um acidente de carro. Apesar de suas melhores intenções, podem surgir problemas. A lei, as orientações da sua tradição e seu próprio julgamento pessoal são tudo o que você precisa para continuar. Alguém poderia pensar que é mais seguro evitar o problema completamente, mas se a sexualidade sagrada é uma parte importante de sua prática e crença, você só pode fazer o seu melhor para tentar considerar as consequências de suas ações e fazer a coisa certa.

Liberdade Versus Segurança
Aqui está um tema difícil e nós temos falado muito sobre isso nos últimos meses. Como podemos garantir que temos a segurança em nossas comunidades pequenas, já ímpares, sem perder a postura inclusiva?
Estamos prejudicados em lidar com isso de forma eficaz, como uma comunidade, por várias razões. Uma delas é a Maldição da Bondade Pagã. Tentamos ser tão inclusivos e esse "viva e deixe viver" sobre as coisas, de que podemos fornecer um excelente espaço para um predador ou dar um mero empurrão para fugirem desenfreadamente de nós. Às vezes a coisa certa e apropriada a fazer é dizer a alguém para tomar uma caminhada, porque o lixo deles não é bem-vindo aqui. Podemos ser inclusivos e ainda ter limites saudáveis. Como é tão bem expresso neste artigo, "sexo positivo" não justifica ser uma trepadeira.
Há duas formas de coerção. Uma é aberta, na qual se aplica uma pressão direta para incentivar as pessoas a fazer coisas que não poderiam fazer; e a outra é encoberta, em que a pressão social indireta envergonha ou constrange as pessoas a fazer coisas que eles não poderiam fazer. Em um evento sexualmente aberto ou dentro dos limites de um coven praticando magia sexual, há uma linha tênue para ser pisado aqui.

Na minha experiência, a única maneira de ter certeza de que não há coerção envolvida é uma combinação de transparência em grupos e critério individual.
Um grupo ou um evento que envolva a sexualidade aberta precisa ser honesto sobre seu propósito e intenção. Se você estiver indo realizar um Beltane orientado para adultos, faça isso muito simples. Também deixe claro que ninguém é obrigado a fazer nada que não queira fazer. Certifique-se de conversar com seus participantes em um discurso de abertura para enfatizar que o fato de algumas regras da sexualidade e nudez são relaxadas aqui, as regras de cortesia e respeito não são, porque algumas pessoas irão entrar, mesmo entre os círculos pagãos, esperando as orgias da Bacanália.

Outro problema é o exagero. Nós tendemos a atrair um grande número de pessoas com problemas em torno do sexo e da sexualidade. É importante para nós criar um espaço seguro; mas isto não significa, necessariamente, um espaço hermeticamente fechado desprovido de situações que podem ser confrontadas. Não é realista, e mais do que um pouco injusto, esperar todo mundo para antecipar os nossos problemas e não fazer coisa alguma que possa ser vagamente provocante. Se aceitarmos que o nosso trauma emocional é apenas outra forma de lesão e nossa doença mental, na verdade, é uma doença, nós temos algum grau de obrigação de assumir a responsabilidade por nós mesmos e nossas próprias dificuldades; assim como a comunidade tem a responsabilidade de tentar acomodá-los.

Alguém poderia perguntar: "Mas e se eu vir algo acontecendo que é antiético?" É minha opinião que a Maldição da Bondade Pagã erroneamente sugere que devemos aturar pessoas sem ética, insistente e rudes, quando de outra forma não deveria ser tolerado o seu comportamento . Eu digo que você precisa perguntar a si mesmo algumas perguntas quando você vê uma situação que você não gosta. Primeiro de tudo, alguém está sendo machucado ou você simplesmente não gosta? Segundo, é seu o direito de interferir? Se você acha que o comportamento de alguém é inadequado ou inconveniente, você tem o direito de expressar sua opinião e se você pensa que está havendo dano, você tem o direito e o dever, de denunciar aos organizadores do evento.

Nosso último problema surge quando os estilos de vida esfregar-se contra as bordas cruas do outro. Não existe tal coisa como uma "sexualidade pagã" comum. Fazendo suposições que temos um terreno comum neste, não é apenas tolo, é contraproducente. Muitos de nós fazemos coisas que outras pessoas da comunidade não aprovam. Aqui temos uma tensão dinâmica estranha, mas a solução não está em segregar e excluir.

Entrando na Dança com os Deuses
Muitos de nós escolheram adorar os Deuses e Deusas de uma forma sexual. Alguns de nós se envolvem no Grande Rito para nos unirmos sexualmente com nossas divindades. Alguns de nós são chamados a tornar-se prostitutas sagradas e curar com o sexo sagrado. Alguns de nós são esposas de Deus; estamos ligados com uma divindade em particular, que pode ou não unir-se sexualmente em uma base regular e esta divindade pede muito de nós, mas também cuida de nós. E alguns de nós são virgens vestais ou simplesmente não se interessa.

Assim como existem infinitas variações na sexualidade humana, existem infinitas variações de formas de se relacionar com o Divino através do sexo. Enquanto ninguém se machucar, nenhuma delas está errado. O Grande Rito pode ser feito em uma variedade quase infinita de formas, em pares ou em grupos, ou através de masturbação solitária, através de qualquer gênero(s) ou culturas, conforme desejado. Eu pessoalmente tenho evocado a lua em mim para me deitar com o Senhor, na forma de um sacerdote, evocado o sol em mim para me deitar com a Senhora, sob a forma de uma sacerdotisa, eu servi como cavalo para Erzulie, eu chamei a Deuses e Deusas para acasalar comigo na floresta e no meu quarto [às vezes, um de cada vez, às vezes em grupos] e eu e Herne temos uma. . . coisa. Eu acho que há espaço para tudo isso e eu acho que as pessoas que não gostam devem superar a si mesmo.

E se você se sente chamado a praticar sexo sagrado com uma divindade e você não sabe por onde começar ou a quem perguntar sobre isso?
Em primeiro lugar, determine se a entidade com quem você está lidando realmente é uma divindade. Logicamente, se Deuses e Deusas podem existir em formas que você pode se envolver sexualmente, outras entidades provavelmente existem desta forma também. Já ouviu falar de um súcubo ou um incubo? Eles estão lá fora. Então, como você sabe a diferença? A resposta é: isso faz você se sentir bem ou não? Você se sente cansado e exausto depois de interagir com este espírito? Você se sente envergonhado e culpado e incapaz de ajudar a si mesmo? As possibilidades são: esta não é uma criatura com seus melhores interesses em mente e você deve eliminá-lo, expulsá-lo, e se precaver contra isto.
Copular com os Deuses devem ser revigorante, empoderador e libertador. Sua alma deve sentir-se rejuvenescida e animada, mesmo se o seu corpo está cansado. Deve ser uma experiência transcendente, poderosa e santa. Assim como nas relações humanas, não é uma relação, a menos que seja bom para você.
Então o que acontece se, por exemplo, uma das divindades gregas o escolhe e, assim como nos mitos, não lhe dá muita escolha? Eu diria que o estupro é estupro, mesmo se são os Deuses que fazem isso ou mortais, então os expulse de qualquer maneira. Procure outra divindade para protegê-lo.

Você acha que eu estou brincando? Você acha que isso é orgulho? Talvez seja orgulho. Mas eu acredito que nós somos criadores com os Deuses e nós temos o direito do livre arbítrio. Se um Deus não está beneficiando sua vida e sua alma, então esse ser não é melhor que um demônio.
E se você se sente chamado para o "Trabalho de Afrodite?" Seja prático sobre o assunto. Sempre praticar sexo seguro. E sempre seja sincero com seus amantes ou seus parceiros sobre sua vocação. Além disso, tenha certeza de que é uma vocação e não que esteja tentando lidar com um complexo de culpa, traumas passados, ou comportamento viciante.

Encontrar Pessoas para Praticar
Encontrar outras pessoas para trabalhar pode ser um desafio. Em primeiro lugar, como é que você pergunta? Em segundo lugar, e se você não está interessado em se envolver em relações sexuais com outra pessoa no grupo? E se você está em uma tradição que faz iniciação tradicionalmente e você está pronto para tomar o seu Terceiro Grau e você acha que o sacerdote cheira engraçado? Todos nós temos nossos interesses sexuais pessoais e peculiaridades. E se a maioria do grupo é heterossexual e você é gay? E se você apenas não gosta de seios grandes e uma das mulheres do grupo tem triplo E? E se você não gosta de outra pessoa no grupo? Além disso, como você evitar grupos que são antiéticos ou possivelmente ameaçadores?

O ideal é que, no espírito de "perfeito amor e perfeita confiança", devemos ser capazes de encontrar o Divino em qualquer um. Mas, na realidade, isso simplesmente não funciona dessa maneira. Grande parte do tempo não estamos sequer conscientes de por que somos atraídos por uma pessoa e não por outra. Mais uma vez, acho que a chave é a transparência total. Basta ser honesto. E tente não levar a rejeição pro lado pessoal. O lixo de uma pessoa é o tesouro do outro, lembra? Eu gosto de mulheres cheias de curvas então eu provavelmente vou estar perfeitamente satisfeita em trabalhar com a senhora com o sutiã triplo E, se você não quer!

Além disso, eu acho que nós podemos aceitar instruções vindas de comunidades de swing e excêntricas. Em primeiro lugar, esclareça tudo o que vai acontecer com antecedência. Em segundo lugar, pergunte se todos estão bem com isso. Em trabalhos de casais, esclareça a ambos em cada passo do caminho que tudo ainda está bem. Em grupos, deve haver um árbitro que irá organizar e comunicar as regras. Lembre-se que qualquer um pode mudar a sua mente a qualquer momento e só sim significa sim; a ausência de um "não" não é permissão! Estabeleça condições e palavras de segurança e nunca continue quando alguém pedir que pare. Não pergunte por que e não tente convencê-los a continuar; basta parar.

Procurando outros provavelmente é melhor cultivado em circunstâncias naturais. Talvez você possa encontrar um grupo de pessoas afins no Sabbat ou na Missa Gnóstica. Talvez você possa encontrar um monte de pagãos no clube de fetiche local. Se você permitir qualquer outra pessoa no grupo, pesquise os candidatos cuidadosamente em primeiro lugar. Certifique-se de que eles são um bom ajuste antes de começar a jogar juntos. E sim, isso inclui elementos físicos, bem como elementos de personalidade. Não há nada de errado em preferir uma coisa à outra, não mais do que é errado preferir sorvete de chocolate com baunilha; mas não há nenhuma necessidade de ridicularizar o sorvete de baunilha, por não ser chocolate.
Quanto a encontrar grupos éticos; entreviste os membros do grupo. Entreviste outras pessoas que tiveram experiências com esse grupo. Não confie em boatos, mas esteja alerta de uma reputação negativa e proceda com cautela. O Guia de Avaliação de Culto de Bonewitz serve especialmente bem a este respeito; não tenha medo de usá-lo. E se em algum momento você estiver infeliz, sinta-se livre para expressar as suas preocupações e se você achar que deve, saia. Confie em sua intuição e nunca faça qualquer coisa sobre a qual você não tem certeza.

E se você apenas não está interessado neste negócio do sexo de forma alguma? Quer saber? Isso é legal também. Não se sinta que tem alguma obrigação de se envolver só porque os outros em torno de você fazem! Eu vou defender o seu direito de ficar de fora da piscina. Vou até ter certeza de vir e sair com você no bar por um tempo.

Honestidade é uma Ética Pagã
Eu tenho que entrar em situações nas quais as pessoas em relacionamentos monogâmicos sentem um verdadeiro chamado para se envolver em uma prática sexual espiritual que eles acham que vai superar a situação no relacionamento deles. Pessoalmente, acredito que a única coisa ética de fazer nessa situação é acabar com o relacionamento. Se você é pessoa que está confusa, você tem a obrigação de informar as pessoas com quem você pretende praticar as condições de seu relacionamento e deixá-los tomar suas próprias decisões. Já vi isto acontecer mais de uma vez e eu fiquei em uma posição incômoda de ter sido enganada quanto a isso. Não é legal. Nunca faça isso com outra pessoa.

Além disso, seja transparente quanto às expectativas. Se você vai invocar Pan ou evocar Erzulie, as pessoas devem saber que as coisas podem ficar. . . interessante. Por favor, os avise. Se você está fazendo um feitiço de fertilidade, é justo alertar o homem que você está passando a noite, uma vez que ele pode ter que pagar a sua pensão alimentícia por 18 anos. Magia não consensual é uma violação do livre arbítrio e isso não é legal; lembra-se? E, pelo amor dos Deuses, não lance feitiços de luxúria ou de frigidez nas pessoas!

Conselhos para Festivais
Alguns festivais são sexuais. Alguns não são. Alguns têm lugares específicos dedicados a temas sexuais. Aqui está o meu conselho; não cruze a linha. Não tire a sua orgia da Toca do Pan se é onde essas coisas estão designadas; não tragam os seus filhos para o Beltane adulto. Respeite os limites de cada um. Não cruze a linha em relação aos limites e fronteiras também. A mulher que você teve um caso casual em Beltane pode não querer um relacionamento; Não tome isso pessoalmente e não aja como se estivesse em um relacionamento. Não vá tocar as pessoas sem permissão; mesmo os abraços que as pessoas costumam fazer livremente em festivais é uma violação do espaço pessoal se você não pediu e pode ser muito provocante para alguém.

Não pressione as pessoas. Algumas pessoas simplesmente não estão interessadas. Algumas pessoas simplesmente não são sexuais. Não há nada de errado com isso; eles não estão apenas interessados. Deixe-os em paz. Uma ideia que eu peguei de um evento com temas sexuais que eu atendi na minha área: por causa de nossos preconceitos culturais, é uma boa ideia de colocar o direito e a responsabilidade de proposição nas mãos das mulheres nos grande encontros de gêneros mistos. Justamente ou injustamente, os homens são frequentemente percebidos como sendo insistentes sobre sexo. Quando as mulheres têm o poder e a responsabilidade de abordar a questão, há menos chance de alguém se sentir coagido. Isso ajuda a criar um espaço seguro.

Magia Sexual Segura
Eu pensei que este problema foi resolvido na década de noventa, mas eu recentemente entrei em situações que me dizem que necessita de revisão. Nos anos sessenta e setenta, quando a Bruxaria era sexy, as pessoas estavam se envolvendo em relações sexuais, sem proteção o tempo todo, com múltiplos parceiros, em todos os tipos de situações diferentes. Na era da AIDS, eu acredito que isso não é mais realista e somos obrigados a praticar o sexo seguro.

Há certas práticas envolvidas na magia sexual que, portanto, você não pode fazer; não sem um grande empenho de preparação e planejamento e também o consentimento pleno e transparente de todos os envolvidos. Por exemplo, há diferentes propriedades mágicas associadas com fluidos corporais combinados, que às vezes são usados para abençoar talismãs e às vezes consumidos. Eu acredito que a única forma ética de lidar com isso é a honestidade completa, testes de DST, ou mesmo limitar as coisas para casais ou grupos que já estão "sexualmente ligados".

Em atividades de grupo, é preciso haver cuidado especial com isto. Eu até sugeriria que uma pessoa seja nomeada como um oficial para olhar para essas coisas (está o preservativo colocado corretamente? Os fluidos de um casal foram limpos antes que eles se separem para se envolver com os outros? Onde estava a língua dela antes dela mudar para esse ponto?). Luvas e proteção odontológica, proteção e lubrificante precisam ser aplicados em todos os brinquedos, bem como nas partes do corpo. Itens de sexo seguro contra AIDS podem ser abençoados e consagrados como qualquer outra ferramenta mágica (embora eu aconselhe você ignorar a água salgada).

Conclusão
Espero que, se nada mais, eu tenha despertado algum pensamento e discussão. Fique seguro, seja ético e celebre o Divino de acordo com seu próprio livre arbítrio - e que prejudique ninguém.
Fonte: Patheos [parte 1], [parte 2], [parte 3], [parte 4].

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Em beleza e força

Dizemos nos rituais:

“Que os rituais sejam corretamente celebrados com alegria e beleza”.

A importância da beleza e da força nos rituais contém um mistério.
Em nossos rituais, celebramos os ciclos da natureza e as estações do ano, bem como os ciclos e estações da vida, morte e renascimento.
Tudo é um ciclo, um círculo, mesmo a manifestação deste cosmo, essa dimensão tempo/espaço, ocorre na intersecção de órbitas elípticas, três que definem “espaço” e uma quarta que define “tempo”. Ou seja, o real é apenas uma dimensão dentro de uma intersecção entre quatro elípticas.
Em nossos rituais evocamos os quadrantes, orientados aos pontos cardeais e nisto há um mistério. Os guardiões dos quadrantes estão em torres, ou se preferir, colunas. Colocando em um desenho temos um cubo. Alinhando duas arestas no meio, uma à esquerda e uma à direita, temos a Árvore da Vida da mística judaica. As arestas da direita e da esquerda forma Jacim e Boaz, conhecidas como o lado masculino e o lado feminino.
“A Árvore da Vida também é dividida em três colunas. A da esquerda é conhecida como pilar da severidade, é o pilar feminino; a da direita é o pilar da misericórdia, é o pilar masculino; e o pilar central é o pilar do equilíbrio, contrastando as emanações dos pilares direito e esquerdo”. [Wikipedia]
“Na Árvore [da Vida], as Sephiroth se distribuem verticalmente em 3 pilares (imaginários) que apresentam os 3 grandes princípios de atividade, passividade e equilibrio.

O Pilar da Esquerda é o da SEVERIDADE ou da FORÇA.

O Pilar da Direita é o da MISERICORDIA ou BELEZA”. [Somostodosum]
Os mistérios da Roda do Ano nos revelam o Deus e a Deusa, Feminino e Masculino, Esquerdo e Direito, Luz e Sombra, Força e Beleza.
O ser humano consegue reconhecer a beleza, a nossa espécie foi capaz de representar e transmitir o conceito de beleza por meio da linguagem. Pela cultura, nós somos capazes de conceber, definir, perceber e apreciar a beleza porque existe em nosso intimo, nosso cérebro, nossa mente, uma ideia que corresponde a uma energia que compõe o nosso cosmo. Sem o senso estético e até ético da beleza, não poderíamos mergulhar no arrebatamento do êxtase, não poderíamos nos maravilhar com o espetáculo da natureza, não saberíamos expressar ou sentir amor.
A existência material do cosmo é a resultante da confluência de partículas, de ondas, de energias, de forças, que não existem fisicamente. O ser humano consegue reconhecer a força em seu corpo e na natureza. Esta força pode ser qualificada e quantificada, pelos sentidos ou por instrumentos. Ainda assim, a força não tem existência física, mas percebemos seu efeito, sua manifestação. Como essa manifestação se comporta de diversas formas, essa energia é consciente e essa inteligência demonstra a realidade do divino. Sem a força, não poderíamos definir poder, governo, majestade. Sem a ação da força, não teríamos mente, vontade, desejo. Sem a ação da força, as plantas e os animais não nasceriam, nosso planeta não teria vida, as estrelas não teriam brilho.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Marãiwatsédé. Aqui viviam nossos ancestrais

Depois de quase 50 anos, Terra Indígena Marãiwatsédé é retomada por seus verdadeiros donos. 'A terra é a mãe do índio', diz o cacique Xavante Damião.

Nem os dias quentes de sol a pino desanimam a criançada de jogar a pelada. No intervalo das aulas, meninos e meninas correm para o centro da aldeia e atrás da bola. Aproveitam cada minuto com garra e determinação, como tem sido a luta dos Xavante de Marãiwatsédé nos últimos 50 anos. No final da tarde, dois times de meninas adolescentes, uniformizadas, treinam, correm, chutam forte – com os pés descalços –, gritam, comemoram e se divertem. O campinho com trave de pau fica na outra extremidade, próximo às casas construídas mais recentemente, de alvenaria, mas no estilo tradicional Xavante. As crianças menores assistem enquanto se distraem com outras brincadeiras.
O rio, a 500 metros da aldeia, é outra diversão. As crianças brincam e se banham, enquanto as mulheres lavam roupas e utensílios. A água usada na higiene pessoal de todos os moradores não é potável. O rio, assim como o Ró (denominação usada pelos Xavante para definir seu ecossistema) está “enfraquecido” devido ao desmatamento e às fazendas dos arredores. Para beber e cozinhar recorrem a um poço artesiano. Próximo ao poço, na entrada da aldeia, um gerador fornece energia para bombear a água e carregar os celulares, usados basicamente para armazenar e ouvir músicas, em especial de compositores da etnia. Sinal, só bem distante dali, já perto do posto da Fundação Nacional do Índio (Funai).
Ao cair da noite, no warã, numa roda iluminada pela ­fogueira, se reúnem homens adultos e anciãos para compartilhar aconteci­mentos importantes do dia que se vai. Os anciãos falam ­durante a maior parte do tempo, o silêncio e a atenção dos homens se fundem aos estalidos da madeira que queima. Um pouco antes do encontro, percorre a aldeia o canto dos wapté, meninos Xavante reclusos no Hö, casa dos adolescentes, onde permanecem por cinco anos, em processo de iniciação à fase adulta.

Um dos assuntos no warã é a reunião do dia seguinte sobre um perigo que paira sobre a aldeia e toda a área da terra indígena: as queimadas. “Conter o fogo hoje é mais difícil que antigamente, nas pastagens ele se espalha muito rápido”, diz o cacique Damião Paridzané. Estarão reunidos integrantes da Funai, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), bombeiros, brigadistas, anciãos, homens, mulheres, jovens. O objetivo é delinear ações de prevenção e combate. A preocupação é constante no período da seca, de maio a outubro. São temidos incêndios criminosos por parte de fazendeiros e posseiros insatisfeitos com a retomada da terra pela comunidade indígena. “Se inimigo nosso, de passagem, coloca fogo, queima tudo”, alerta Damião.
A preocupação tem fundamento. Em agosto passado, cerca de 30 mil hectares (área do tamanho da cidade de Belo Horizonte) foram consumidos por chamas de origem criminosa. A equipe de brigadistas do Prevfogo, do Ibama, localizou 120 focos de incêndio no interior da área indígena, a maioria perto de rodovias que a cortam ou circundam. O fogo ateado em várias partes e a precariedade das estradas, ou a falta delas, tornam o acesso à área, a fiscalização e o combate aos incêndios tarefas quase impossíveis.
Durante a reunião, o cacique pede por um carro e por estradas. “Temos de evitar o fogo, Ibama precisa ter apoio, parceria e aliança dos índios. Estamos pedindo para arrumar estrada dentro da área pois o tempo de seca está chegando”, insiste. A professora Carolina Rewaptu intervém: ­­ “O povo indígena tem muito conhecimento que hoje o branco tá estudando sobre meio ambiente e preservação. O branco fala que é educação ambiental, como preservar o meio ambiente; esse é o nosso conhecimento”.

A mata de volta


Na única aldeia da Terra Indígena Marãiwatsédé, em Mato Grosso, vivem 1.130 indígenas, população considerada numerosa para os padrões da etnia. São 83 casas dispostas em forma de semicírculo. Tem também o Hö, a igreja, o posto de saúde, uma casa assistencial, a escola e a casa da ONG Operação Amazônia Nativa (Opan), todas fora do semicírculo. “Tá aumentando a população, crianças estão nascendo... Queremos encher a terra de Marãiwatsédé”, conta Damião.
Em breve devem ser fundadas duas novas aldeias, com 200 pessoas em cada. “Senão o pessoal vai continuar entrando. Temos de ocupar as pontas da terra indígena para proteger, e a cada ano fundar aldeia nova”, afirma o cacique. “Precisamos conseguir recursos para fazer estradas novas e pontes.” As estradas facilitarão o acesso e a fiscalização dos 165 mil hectares da TI Marãiwatsédé – área um pouco maior que a da cidade de São Paulo.
Fazendas e pastos era o que mais existia na terra Xavante antes da reocupação, iniciada em 2004 e finalizada em janeiro de 2013, quando terminou o primeiro processo de desintrusão (retirada) dos não índios. A terra que os índios receberam está muito diferente daquela que deixaram em 1966, quando foram colocados num avião da FAB e levados para a Missão Salesiana de São Marcos, em Barra do Garças.
Damião era menino, mas lembra. “Nossos pais andavam dentro da mata virgem, grande, perigosa, cheia de bicho bravo, ­porcão, anta, macaco, quati, cotia, tamanduá, caititu. Cheia de inhame, cheia de fruta de buriti e jatobá. E era tudo alimentação natural. Não existia arroz na alimentação ­Xavante antes do contato com o branco.”
Segundo dados de 2012, quase dois terços dos 165 mil hectares constituintes da reserva foram desmatados pela ação de madeireiras, ocupação de fazendeiros, posseiros, pelo fogo e até mesmo pelo surgimento de dois núcleos de povoamento no interior da área: o município Alto da Boa Vista e o distrito Estrela do Araguaia (ou Posto da Mata). A agressão fez da TI Marãiwatsédé a primeira no ranking das mais desmatadas do país. O cenário é de terra arrasada. E pasto, muito pasto, a perder de vista.

“Nos primeiros anos que entramos na aldeia foi bem difícil, só tinha pastagens. Sofremos muito debaixo do sol... mas plantamos manga, caju, laranja e hoje estamos trabalhando debaixo da sombra”, diz Damião, referindo–se às árvores que voltaram a crescer próximas às casas da aldeia, onde as mulheres fazem cestos de palha de buriti, adornos, esteiras, debulham o milho, pilam o arroz, fiam o algodão, selecionam sementes e preparam a pasta de urucum usada nas pinturas corporais.
Em Marãiwatsédé, plantam arroz, mandioca, milho tradicional, feijão xavante e frutas. Ainda em fase incipiente, estão pastoreando gado para, no futuro, terem mais uma fonte de alimento. “Hoje tem bastante milho que plantamos no ano passado”, diz o cacique, apontando para a pilha de espigas que se vê diante das casas. Mas ainda é pouco para suprir as necessidades nutricionais da população, que conta com o reforço da merenda escolar e também com a distribuição de sopa de uma entidade assistencial.
Rede de Sementes

Na cultura tradicional Xavante, o contato com não índios é feito especialmente pelos homens. Eles é que vão a Brasília­ e reúnem-se com represen­tantes de governos e instituições locais. As ­mulheres e as crianças quase não ­falam o português. Mas são as mulheres de Marãiwatsédé que participam de um projeto para recuperação da vegetação nativa de seu território. O projeto, uma parceria com as ONGs Operação Amazônia Nativa e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção (Ansa), consiste em coletar sementes em incursões na mata, selecionar, armazenar e promover o plantio das espécies.

Carolina Rewaptu é uma das profes­soras da escola estadual da aldeia (EEI Marãiwatsédé). Formada em Ciên­cias Sociais na Faculdade Indígena Intercultural da Universidade Estadual do Mato Grosso (Unemat), ela diz que na cultura Xavante as mulheres não têm espaço para entender o mundo do branco. E vê com muita satisfação a participação feminina no projeto Rede de Sementes do Xingu. “Vamos reflorestar, melhorar a qualidade de vida, melhorar a renda... A gente pensou no futuro”, diz.
“A Opan faz oficinas, cursos e as mulheres começaram a participar da vida da comunidade. Na época das expedições a gente colhe e na época da chuva a gente planta. Queremos fortalecer a cultura de manejo tradicional que o povo Xavante está perdendo em outras re­giões e a gente tá resgatando.”
Segundo a professora, em muitas localidades a maioria das pessoas não quer mais cultivar a terra, “como em São Marcos, Água Boa, Campinápolis, onde temos parentes”.
Alimentação saudável

Carolina Rewaptu atenta ainda para a ­importância da recuperação da alimentação tradicional, com milho xavante, feijão xavante, bolo de milho, “que antigamente deixava a comunidade mais forte e saudável”. O manejo é direcionado a reflorestar a área de pasto, ter os animais mais próximos e retomar a prática de uma economia sustentável.

“O alimento industrial que vem da cidade tá dando muito diabetes, a gente quer controlar... Queremos que as crianças conheçam os alimentos que existiam na nossa infância: chichá-do-cerrado, pequi, coquinho-do-cerrado, inajá, buriti... O ano que vem já vai dar porque a gente plantou. Tem também as plantas medicinais: pé-de-anta, algodoeiro, raízes... O segredo delas é transmitido pelas anciãs para apenas um filho e uma filha. Elas têm muito conhecimento.”
O calendário tradicional (Marcadores de Tempo) é um dos conteúdos das aulas de Agroecologia e Sociologia que Carolina ministra na escola e faz parte de um currículo específico da educação local. Mas o responsável, na prática, pelos Marcadores de Tempo é o ancião Francisco, o mais velho da aldeia.
“Ele comanda o tempo de todos os ­rituais e as atividades ligadas ao calendário, e os jovens têm que participar”, conta Carolina. “Somos descendentes de um povo que lutou muito nesses anos, temos que amarrar essa história e deixar uma visão para os nossos netos ocu­parem a região Marãiwatsédé. ­Cul­ti­var a terra, produzir, melhorar a qualidade de vida. Esse é o futuro.”
Os ritos, de suma importância na dinâmica da sociedade Xavante, não cessaram nem quando eles ficaram dez meses, entre 2003 e 2004, acampados na beira da estrada, esperando a hora de reentrar na área onde estão atualmente. Do outro lado, estavam os posseiros, armados e sustentados por fazendeiros. “Quando os posseiros fizeram a barreira, os jovens tiveram coragem. Tem de aprender coragem desde pequeno... Acompanhar os guerreiros sem medo. A gente tem que conservar os jovens participando para que não percam a cultura”, explica o cacique Damião, relembrando a experiência da guerra vivida.

Ele reconhece que o apoio do governo federal foi condição decisiva para que os índios voltassem à terra onde estão seus ancestrais. Damião comemora, ­sonha. “Agora a terra é nossa, vamos viver tranquilos, sem ameaças. E enquanto eu for vivo, nunca vou esquecer... Considero como irmãos a Dilma, o Gilberto Carvalho ­(ministro da Secretaria-Geral da ­Presidência da República), o Paulo Maldos, o Nilton Tubino (ambos da Secretaria de Arti­culação Social da Secretaria-Geral), o pessoal do Ministério Público, e de outros países que me apoiaram no dia da Rio+20. Com paciência se ganha tudo.”
Posto da Mata agora é Monipá

O posto de gasolina no cruzamento das rodovias BR-242 e BR-158 não existe mais. Tampouco comércios, residências, igrejas, escolas, farmácias. Foi tudo demolido. Sedes de fazendas, sítios, currais e outras edificações da zona rural. O palco da “operação de guerra”, na classificação dos ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, é o distrito de Posto da Mata, município de Alto da Boa Vista.
As demolições, intensas em abril e maio, estão em fase final, diz Aluísio Azanha, diretor de Proteção Territorial da Funai. A Justiça determinou a demolição das benfeitorias de origem não índia, depois que em janeiro cerca de 40 posseiros, insuflados por políticos e fazendeiros da região, voltaram a ocupar Posto da Mata, um ano depois da retirada dos não índios, quando a terra foi devolvida oficialmente aos Xavante.
Em meados de 2012, a Justiça determinou a desocupação do território pelos “intrusos”. Iniciou-se então o que foi chamado de desintrusão. A ação foi planejada por uma equipe do governo, envolvendo ministérios, Secretaria-Geral da Presidência, Funai, Ibama, Polícia Federal, Exército, Força Nacional, entre outros, visando a um processo pacífico. Por má-fé, a Justiça determinou a não indenização aos invasores, que haviam ocupado uma terra que sabiam pertencer aos índios.
Entre os habilitados a ser atendidos por programas sociais, o Incra cadastrou 235 famílias. As 97 que moravam em Posto da Mata foram assentadas no Projeto Casulo (Minha Casa, Minha Vida). Algumas aceitaram ir para o assentamento Santa Rita, em Ribeirão Cascalheira. Outras preferiram ir para a casa de parentes ­e conhecidos.
A movimentação, segundo o prefeito Leuzipe Domingos, causou sérios problemas sociais. A cidade não tem escola e atendimento de saúde para suprir as demandas. Ele também critica as condições em que vivem as famílias assentadas no Projeto Casulo. “Estão debaixo de lona, ou em casas de pau, sem energia e água, a prefeitura tem que mandar caminhão-pipa... O governo federal só ajudou a cascalhar as ruas”, reclama.

O Incra estuda uma nova área no município de Santa Teresinha, para assentar as cerca de 150 famílias cadastradas, que “moram de favor”.

Durante os quase 50 anos de ocupação ilegal, a terra indígena (conhecida também como Gleba Suiá Missú) foi violentamente desmatada (70% do território) para dar lugar a fazendas de plantação de soja transgênica, milho, arroz e criação de gado. A fase mais intensa se deu a partir de 1992, durante os governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.
Em maio, o Ministério Público Federal denunciou 27 fazendeiros, condenando-os a pagar multa de R$ 42 milhões por crime ambiental. O valor a ser arrecadado será usado para reflorestar uma área de 10 mil hectares (1 hectare equivale a aproximadamente 1 campo de futebol) da terra Xavante. O desembargador aposentado Manoel Ornellas de Almeida, o empresário do agronegócio Edi de Oliveira Vieira, o atual prefeito de Alto da Boa Vista e muitos outros que integram a Associação dos Produtores Rurais da Área Suiá Missú (Aprosum) estão entre os denunciados.
A longa luta dos Xavante, a firme ação da Justiça e a atuação conjunta de vários órgãos federais não garantem ainda um futuro tranquilo aos índios. Azanha vê risco de novas invasões. “Não podemos esquecer que invasões e conflitos foram capitaneados por aqueles que insistem em se opor às demarcações”, diz, aludindo à bancada ruralista. A Aprosum tem como advogado Luiz Alfredo Feresin de Abreu, irmão da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), referência dessa bancada.
Ele tem razão. Em março, o presidente da associação, Sebastião Prado, prometeu iniciar um movimento nacional, partindo da Suiá Missu, para defender a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215, que transfere do Executivo para o Congresso o poder de decisões sobre reservas indígenas.
Outro projeto defendido pelos ruralistas é o ­PLP 227,­ que abre Terras Indígenas à exploração do agronegócio, empresas de energia e mineração.

O clima de disputa faz com que servidores da Funai permaneçam na área no mínimo até as eleições de outubro. O fato é que Posto da Mata não existe mais. Voltou a se chamar Monipá, território sagrado para a comunidade Xavante.


Fonte: http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/97/aqui-viviam-nossos-ancestrais-3809.html

terça-feira, 12 de agosto de 2014

No fim do desejo

Nós dizemos em nossos rituais:

“E se vos dizeis, ‘ali eu perambulei e não me avaliaste’, melhor que digas, ‘ali eu clamei e esperei pacientemente e vi que tu estavas comigo desde o princípio’, pois aos que me desejaram sempre irão me alcançar, mesmo no fim do desejo”.

O ser humano é finito, mortal, limitado, nós vivemos porque temos desejos em combinação com as necessidades e nós somos movidos pela vontade. Como podemos conceber um lugar ou situação onde algo ou alguém termina, se isto ou este é infinito e eterno? Esta é uma questão que coloca os judeus, muçulmanos e cristãos em uma sinuca de bico. O Deus para estas religiões monoteístas é onisciente, onipotente e onipresente, uma contradição quando pensamos em assuntos como pecado, Inferno, Satan.

Para o pagão moderno, com diversas teologias, o divino é uno ou múltiplo, é imanente e/ou transcendente, os Deuses são identidade distintas [politeísmo], são emanações de um Deus/Deusa [henoteísmo], ou que somados resultam em um Deus/Deusa [panteísmo], ou que todas essas manifestações são emanações de um Uno indistinto [monismo].

Para aqueles que praticam a Wica [uma forma de culto moderno de bruxas], essas questões tem tantas respostas diferentes quanto as vertentes da Wica. O Deus é local, regional, mundial e cósmico. A Deusa é todas as Deusas e tem uma identidade e personalidade própria. No tocante ao que eu conheço da Wica Tradicional, nosso Deus é o mais antigo e o mais novo. Nosso Deus é o Senhor das Florestas, das Feras, da Caça, do Campo, da Semeadura, da Colheita, Ele é o Psicopompo e Guardião do Segredo. A Deusa é Senhora da lua, da magia e das águas, Ela é a Grande Mãe. Os Deuses Clássicos são seus filhos e é comum os sacerdotes wiccanos terem seu culto particular a um Deus ou Deusa.

Sendo tudo cíclico, não há, exatamente, o fim do desejo. Nossa constituição mortal e carnal depende de uma manutenção constante. Sentimos sede, fome, carência, nossas necessidades movem nossa vontade e quando atendemos nosso corpo, sentimos saciedade, satisfação, felicidade, júbilo e êxtase. A sensação quando finda o desejo é esse estado de plenitude absoluta, um estado de beatitude que remonta ao nosso estado primordial, quando nossa existência era una com os Deuses. Então, no fim do desejo, encontramos a Deusa, de onde todos nasceram e para onde todos irão retornar, pois Ela é o Ventre e o Túmulo. Assim como a semente deve ser lançada no solo para que a planta renasça, nosso corpo é plantado para que a alma renasça.