quarta-feira, 29 de julho de 2015

Os Mistérios Antigos e o Deus Negro

E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. [Gênesis 1:2]

Os antigos textos religiosos da Índia, Egito e Suméria registram a história de Deus como negro. De acordo com estes textos, Deus era originalmente uma essência luminosa sem forma escondida em uma substância escura  primordial chamada de água.

As negras águas primordiais estavam associadas a uma Deusa Primordial, Ela é o Ventre e a Tumba, Ela é a Consorte do Deus Criador. O cosmo pôde ser criado pela união [Hiero Gamos] entre este Deus e Deusa primordiais.

As tentativas iniciais de Deus na criação foram infrutíferas, pois sua forma luminosa castigava a criação material. A solução de Deus foi cobrir sua luminosidade com um corpo feito da mesma substância primordial escura de onde Ele emergiu. Este divino corpo negro refratava a luz divina enquanto esta passava pelos poros. Os antigos simbolizavam o efeito visual com a safira ou o lápis lazuli, pedras semipreciosas de um azul escuro com brilhos dourados. O corpo de Deus neste estágio era descrito como azul marinho e era dito ser feito de safira ou lápis lazuli. Considerada a melhor substancia divina, a safira e o lápis lazuli possuem um grande significado mitológico. Em seu estado natural o lápis lazuli é azulo escuro com brilhos dourados lembrando o firmamento coberto de estrelas, assim a morada dos Deuses costuma ser representada com a safira ou o lápis lazuli. Velado neste corpo azul escuro, Deus produziu o cosmo material com sucesso. O Deus Criador dos mitos antigos era então frequentemente pintado com azul escuro.

A cor azul escuro, azul marinho, bem como a cor púrpura, são símbolos da Deusa Primordial e ainda estão presentes nas cores usadas pela nobreza e pela realeza.

Na antiguidade, muitos aspectos dos Deuses eram representados zoomórficamente. Diferentes animais eram usados para simbolizar distintos características ou atributos dos deuses. O maior atributo animal do Deus Criador negro era o touro, o touro representa a potência, a fecundidade e a matéria primordial, todas características essenciais do Deus Criador. O touro negro era associado com as negras águas primordiais de onde o Deus Criador emergiu, simbolizando então a matéria escura do corpo que o Deus Criador formará para Ele mesmo, o couro negro do touro simbolizando a pele negra do Deus.

Animais eram usados pelos antigos para representar ou simbolizar as varias características ou atributos dos Deuses. O atributo animal desse corpo escuro do Deus Criador era um touro negro. O touro simbolizava a força e a fecundidade do Deus Criador. Também associava o Deus com as águas primordiais, que se acreditava que o touro personificava. Como o corpo escuro de Deus era feito desta escuridão primordial, a capa negra do touro representava a pele negra do Deus Criador. Este corpo escuro de Deus simbolizado pelo touro estava no centro dos mistérios de Deus nos antigos sistemas das escolas de mistério.

O atributo animal vinculado com as águas primordias era uma serpente ou um dragão. A serpente simbolizava o mundo material, a vida, a morte e o renascimento.

Os principais Deuses do Egito, Índia, Ásia, Oriente Médio e Grécia eram de fato negros. A negritude destes Deuses não necessariamente indicavam que eram ctônicas, malignas ou que pertenciam a alguma etnia. Em verdade, nas várias tradições antigas era o Rei dos Deuses, o próprio Deus Criador, quem era negro. A negritude do Deus Criador, como foi originado o corpo negro do Deus, do que este corpo era composto, estava no centro do mistério de Deus no Egito, Índia e Suméria.

As principais Deusas antigas eram identificadas com a Deusa Primordial em seu aspecto como a Grande Mãe, Donzela e Anciã, assim como com seus aspectos com a Morte e a Guerra. Por isso essa Deusa Primordial era representada como branca.

Antes de criar o cosmos, o Deus Negro criou a si mesmo, ou melhor, criou um corpo para Ele. De acordo com as antigas tradições, no princípio existia apenas a escuridão, escuridão material descrita como água. Oculto dentro destas águas primordiais estava o Deus em um estado luminosos sem forma. Todas as dualidades potenciais que são prerrogativas para o processo gerador repousavam indistintas e homogêneas. Em um determinado momento a luminosidade de Deus concentrou-se em um único ponto dentro das águas primordiais, produzindo a primeira partícula distinta de matéria luminosa.

Quando o Deus Criador emergiu, Ele ainda não tinha o corpo negro. Em verdade, Ele era a luz que se separara e surgira da escuridão. Este primeiro corpo luminoso mostrou-se letal para sua criação futura, então o Deus Criador velou sua luminosidade com um corpo formado com as águas primordiais de onde Ele emergiu, esta matéria primordial, negra e úmida, tornou-se  a substância do segundo corpo, que Ele vestiu como um manto, velando seu brilho. O ato de velar a luminosidade divina em um corpo negro era considerado um sacrifício divino, um ato que resultou no ser humano e permitiu a criação de um mundo material mais denso.

Um outro grande mistério envolve o momento em que este Deus começou a se formar dentro destas águas primordiais. Antes de se manifestar como luz e como corpo, o Deus uniu-se com a Deusa no Hiero Gamos. O Deus Primordial sacrificou-se, morreu, virou semente para que pudesse germinar dentro deste ventre e pelo sacrificio haverá de retornar para a Deusa quando o Deus sacrificar seu corpo material, tornando-se o Psicopompo.

Assim os mistérios antigos viam o Deus e a Deusa como imanentes e transcendentes. Esta partícula, esta faísca divina, está presente em tudo, então tudo é sagrado, tudo é divino.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Espiritualidade Contrassexual

O Paganismo Moderno é dinâmico, diversificado e múltiplo em suas vertentes, propostas, cultos, ritos e teologias. No Patheos, no canal do Paganismo, temos diversos textos demonstrando o quanto nós somos inclusivos, ainda que às vezes algumas celebridades tropecem. Existem pagãos modernos que apresentam o que é chamado de Teologia Queer. 

Queer: 

Queer ou Genderqueer é um termo genérico proveniente do inglês usado para designar pessoas que não seguem o padrão da heterossexualidade ou do binarismo de gênero. É comumente relacionado com pessoas que não se identificam com as formas usuais de identidade e orientação sexual, mas também é usado para representar gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneros, de forma análoga à sigla LGBT. 

Seu significado inicial pode ser compreendido através da história da criação do termo, inicialmente uma gíria inglesa. Literalmente significa "estranho", "esquisito", "ridículo" ou "extraordinário". 

Por muito tempo a palavra queer foi considerada ofensiva aos homossexuais. No entanto, atualmente a palavra tem sido adotada pela comunidade LGBT com a intenção de ressignificá-la, dando um sentido positivo a ela. De um termo pejorativo, que colocava constantemente à margem os apontados por ela, a palavra queer passou a denominar um grupo de pessoas dispostas a romper com a ordem heterossexual compulsória estabelecida na sociedade contemporânea, e mesmo com a ordem homossexual estereotipada, que exclui as formas mais populares, caricaturais e até artísticas de condutas sexuais. Assim, travestis, drag-queens, transsexuais, pansexuais e outras pessoas consideradas estranhas, não aceitas socialmente, ao se denominarem queer ganham espaço social e individualidade, se distanciando cada vez mais de conceitos tais como desviantes ou aberrações. Ser queer é seguir uma prática de vida que se coloca contra as normas socialmente aceitas. 

Entretanto, é preciso salientar que, de acordo com a teoria queer, ser queer não é sinônimo de ser gay, lésbica ou bissexual. Enquanto os gays lutam para ser aceitos dentro da norma, os queers adotam a etiqueta da perversidade para destacar a ‘norma’ daquilo que é ‘normal’, seja heterossexual ou homossexual. O queer não quer sair da condição de "marginal", mas quer desfrutar dela. [Wikipédia] 

Teoria Queer: 

A teoria queer é uma teoria sobre o género que afirma que a orientação sexual e a identidade sexual ou de género dos indivíduos são o resultado de um constructo social e que, portanto, não existem papéis sexuais essencial ou biologicamente inscritos na natureza humana, mas sim formas socialmente variáveis de desempenhar um ou vários papéis sexuais. 

A teoria queer recusa a classificação dos indivíduos em categorias universais como "homossexual", "heterossexual", "homem" ou "mulher", sustentando que estas escondem um número enorme de variações culturais, nenhuma das quais seria mais "fundamental" ou "natural" que as outras. Contra o conceito clássico de gênero, a teoria queer afirma que todas as identidades sociais são igualmente anômalas. 

A teoria queer critica também as classificações sociais da psicologia, da filosofia, da antropologia e da sociologia tradicionais, baseadas habitualmente na utilização de um único padrão de segmentação — seja a classe social, o sexo, a raça ou qualquer outro — e defende que as identidades sociais se elaboram de forma mais complexa, pela intersecção de múltiplos grupos, correntes e critérios. [Wikipédia] 

Teologia Queer: 

A Teologia Queer é uma teologia baseada na teoria queer. [Wikipédia] 

Mitologia Queer: 

O estatuto da mitologia varia de acordo com a cultura. Geralmente os mitos atuais são e os antigos eram literalmente acreditados como verdadeiros no seio da sociedade que os criou e considerados errados ou fictícios em outros lugares. Algumas culturas podem considerar os mitos como transmissores de verdades psicológicas ou arquetípicas. Os mitos têm sido usados para explicar e validar as instituições sociais de uma determinada cultura, bem como educar os membros dessa cultura. Esse papel social tem sido postulado em estórias que incluem amor entre pessoas do mesmo sexo, cujos objetivos eram educar os indivíduos quanto à atitude correta a adotar para a atividade sexual de pessoas do mesmo sexo e construções de gênero. 

Desde o início da história escrita, centenas de culturas, mitos, folclores e textos sagrados têm incorporado temas homoeróticos e de identidade de gênero. Assim, desde esses tempos mais remotos, muitos mitos narravam estórias envolvendo homossexualidade, bissexualidade ou transgênero como símbolo de experiências míticas e/ou sagradas. Hoje em dia, o homoerotismo e a variância de gênero nesses mitos antigos têm sido analisados e estudados através das concepções LGBT modernas acerca de identidades e comportamentos, e muitas vezes criam-se termos novos para classificá-los. Por exemplo, divindades que se disfarçam do sexo oposto, ou adotam comportamentos tradicionais, ou certas figuras do sexo oposto podem ser chamadas de transexuais em outras culturas. Seres mitológicas sem órgãos reprodutivos ou com ambos os órgãos masculinos e femininos em suas estruturas, são chamados de andróginos ou intersexuais. Alguns mitos individuais têm sido denominados queer numa tentativa dos críticos rejeitarem a "heteronormatividade" ou o gênero binário em seus estudos. As interpretações queer podem ser baseadas apenas em evidências indiretas, tais como amizades do mesmo sexo invulgarmente estreitas ou a dedicação à castidade. Estas têm sido criticadas por ignorar o contexto cultural ou pela aplicação equivocada de preconceitos modernos ou ocidentais, assumindo, por exemplo, que o celibato significa apenas evitar a penetração ou o sexo reprodutivo (permitindo assim o sexo homoerótico), enquanto ignora a opinião generalizada acerca da potência espiritual contida no sêmen que abrange uma vacância de todos os sexos. 

Os acadêmicos reconhecem a presença de temas LGBT nas mitologias ocidentais e elas são objetos de intensos estudos. Geralmente as narrativas mitológicas consideram a homossexualidade, a bissexualidade e o transgênero como um símbolo de experiências sagradas ou míticas. Também é comum, principalmente nas mitologias pagãs e politeístas, encontrarmos seres que mudam de gênero, ou que possuem aspectos de ambos os sexos ao mesmo tempo. Não deixa de ser comum também, em tais panteões, a atividade sexual com ambos os sexos, e hoje em dia eles são comparados à bissexualidade ou pansexualidade. Os mitos da criação, ou gênese, de muitas tradições, envolvem motivo sexual, bissexual ou andrógino, com o mundo a ser criado por seres assexuados ou hermafroditas, ou através da relação sexual entre seres do sexo oposto ou do mesmo sexo. [Wikipédia] 

O Paganismo Moderno possui toda uma vertente direcionada ao público GLBT, uma tendência que pode ser encontrada em outras religiões [Budismo, Hinduísmo, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo], como parte da Espiritualidade Queer. 

A questão da inclusão de grupos sociais, na sociedade em geral, na política e na religião, surgiu juntamente com a luta pelos Direitos Civis, a Contracultura e a Revolução Sexual. O Paganismo Moderno adquiriu maior evidência e expansão nessa época ao adotar essa visão mais inclusiva. Muitos indivíduos procuraram e acharam nas religiões alternativas uma proposta diferente das religiões main-stream, cuja doutrina oficial possui muito preconceito, discriminação e intolerância, especialmente no tocante às identidades de gênero e opções sexuais. 

O Paganismo é um conjunto de religiões, com princípios e doutrinas, religiões autônomas entre si. Pode-se dizer que é o único conjunto de religiões que aceita a diversidade sexual. Em outras formas de Paganismo e Bruxaria modernos, existem cerimônias homossexuais cuja intenção é o de alcançar o caráter extático e produzir vínculos, mas mesmo nesses casos há um contexto sagrado. 

O pagão moderno, hetero ou homo, deve compreender os mitos como revelações de realidades eternas; deve celebrar os cultos e rituais dentro de seu contexto sagrado e místico; deve servir aos Deuses, honrar seus ancestrais e celebrar a vida. Quando o pagão moderno estuda sobre os povos antigos, seus mitos, seus ritos e sua visão do divino, ele deve perceber qual era a função, a razão e o propósito dos Deuses andróginos, bem como de Seus ritos e cultos.

domingo, 26 de julho de 2015

Somos todos intersexuais

Cada vez mais países outorgam leis que reconhecem a união homossexual. A ICAR proclamou que esta era “uma derrota da humanidade”. Cada vez mais empresas incluem o relacionamento homossexual em suas propagandas. Pastores fundamentalistas cristãos proclamam um boicote a estas empresas.
Organizações religiosas tem tal posição por que seu poder e influência dependem de impor uma biopolítica, caracterizada por um discurso em torno de uma ideologia de gênero baseado em doutrinas e dogmas, como eu escrevi no texto “A Guerra Pela Ideologia de Gênero”. Apenas recentemente o Cristianismo tem demonstrado outra tendência, mais inclusiva, com menos estresse com a interpretação literal do texto sagrado. Eu tenho certas reservas com esse Cristianismo Progressista, pois existe um limite até onde se pode dobrar uma religião.
Causou grande comoção quando os Anglicanos [um tipo de Cristianismo] afirmaram que Deus é Mãe. Católicos, por seu lado, afirmaram que Deus é Pai, tendo por base trechos do texto sagrado. Cristãos Progressistas afirmam que Deus é Transgênero, uma vez que é transcendente, não pertencendo a algum gênero carnal. Ainda que tente parecer menos sexista, o cristão progressista percebe a questão de gênero como algo carnal, impuro, pecaminoso, profano.
Para o Paganismo Moderno, o mundo material, o corpo, o desejo, o prazer, são igualmente manifestações do divino. No Patheos, em contraste com o artigo católico, diversos textos pagãos entraram no mérito. Pagãos, evidentemente, lembraram que este é um caso de interpretação do texto sagrado e existem outros trechos nos quais é possível afirmar que Deus é Mãe. Diga-se de passagem que Deus, assim como Cristo e Buda, é um  título que não se referem a um gênero, mas por que existe tal estresse quando ao gênero do divino até entre pagãos? Se “Deus” é um título, não existiria “Deusa”. Quando um pagão afirma que Deus é um título desvinculado de gênero, aparentemente concorda com o discurso do cristão onde o divino é transcendente. Para o Paganismo Moderno o divino é transcendente e imanente.
Nossa visão do divino é muito mais ampla, diversa e complexa e nossa base vem dos mitos antigos. Existem diversos mitos e lendas contando a ideia do shapeshifting onde, diversos Deuses, heróis e pessoas, transformaram-se ou foram transformados em outras criaturas. Existem diversos mitos e lendas com Deuses e heróis que se travestiram, quando não trocaram de gênero completamente. Eu também devo lembrar que existem diversos mitos e lendas que falam do hermafrodita, do andrógino, do primeiro ser humano ou até mesmo do divino primordial. Em outro texto eu me referi ao conceito do Monismo e da Fonte, que é praticamente o Indistinto dando origem ao Deus e à Deusa.
A questão do gênero do divino é crucial ao Paganismo Moderno, afinal, sem o Hiero Gamos o cosmo não existiria. A relação do hermafrodita, do andrógino, nos mitos antigos, foi analisada no texto “Interpretando os mitos andróginos”. A questão do gênero, da identidade/preferência sexual está presente no Paganismo Moderno e nós ainda temos muitos desafios a superar, haja vista a polêmica de Z Budapest no Pantheacon. Para alguns pagãos, agendas e interesses políticos devem estar presentes na religião, questões pessoais acabam tornando-se mais importantes do que a crença, gerando o discurso de vítima e falácias do espantalho contra os críticos dessa espiritualidade individualista/egoísta. Em nome de uma suposta tolerância e inclusão, muitos pagãos se recusam a dialogar, propiciando uma forma de censura e, em alguns casos, impondo outra forma de preconceito e intolerância.
No Paganismo Moderno, o mundano é visto como reflexo do divino. Relações homossexuais ocorrem na natureza, portando o divino é homossexual. Existem espécies que se reproduzem assexuadamente, outras são hermafroditas e outras tantas mudam de gênero, portanto o divino é polissexual.
Falando em humanidade, todos nós somos filhos e filhas, tanto de Deus quanto da Deusa, tanto do Pai quanto da Mãe, todos nós carregamos em nós ambos os genes, o que nos tornaria todos bissexuais. Em termos genéticos, carregamos o gene X ou Y, mas isto define nossos órgãos sexuais, não nosso gênero, nem nossa identidade/preferência sexual. Em termos clínicos, não existe um padrão de masculinidade, nem um padrão de feminilidade, Beatriz Preciado registrou casos que demonstram que nós somos todos intersexuais.
Faz parte do discurso da biopolítica essa dicotomia estrita, bem como a imposição da heteronormatividade, do sexismo, da misoginia, do machismo e do patriarcado. Quanto mais o ser humano se conhece, mais essas falsas noções vão caindo, mais se percebe que o gênero é resultado de uma construção cultural e social. Estruturas obsoletas e arcaicas reagem com fúria, por que sabem que irão perder todo seu poder e influência, daí as críticas de Católicos e Evangélicos contra a homossexualidade.
A humanidade está evoluindo e em breve irá abandonar essas organizações religiosas que propagam estes discursos de preconceito, intolerância e homofobia. As religiões de massas vão se adaptando para não perder clientela e vão se fragmentar em pequenos grupos, como eram em sua origem. De qualquer forma, acabará a excessiva centralização que tipifica as religiões de massa, bem como sua influência e poder social. Acrescente-se as espiritualidades, crenças e religiões alternativas e o resultado será eventualmente em uma Sociedade Contrassexual ou uma Onigamia. Em qualquer dos casos, o Paganismo Moderno tem um futuro brilhante.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Considerações sobre a religião na Grécia Antiga

O sagrado permeava a vida cotidiana dos gregos tanto nos espaços e assuntos públicos quanto nos privados. Tanto Deuses quanto homens nasceram no mundo e dele fazem parte, havendo algo de divino no mundo e algo de mundano nas divindades. Os domínios do natural e sobrenatural não são dicotômicos, mas intrinsecamente conectados, não havendo separações claras entre o que é religioso, social, doméstico ou cívico. A experiência helênica do sagrado pode ter como gênese a sensação da presença do sobrenatural em alguns locais, tais como cavernas e florestas e que com o decorrer dos anos essa experiência tomou duas direções: territorial, que irá gerar os santuários e outra que se une à natureza e à rodem da vida social. Em ambas as acepções a experiência do sagrado é a de um poder ou sistema de poderes que interferem nos processos da natureza e da vida de forma benéfica ou perturbadora. Os helenos buscavam em suas atitudes para com o domínio do sobrenatural propiciar a face benévola, especialmente através das oferendas votivas.
A religião e os mitos gregos permaneceram na consciência cultural ocidental por uma tripla tradição: sua presença na literatura antiga, a polemica com os pais da Igreja e sua proximidade com a filosofia Neoplatônica. Apesar das relações dos deuses apresentadas na poesia épica, a religião cívica era fundamento da ordem moral da pólis.
A religião grega era uma religião da tradição> segui-la faz parte do “ser grego”, eis porque é chamada de religião cívica. As narrativas mitológicas, aprendidas ainda na infância, contribuem para a forma como os helenos concebiam o divino. Em seu entendimento, na religião grega não se participava dos cultos por motivos puramente pessoais, mas se exercia nesses o papel que lhe fora atribuído pela polis, consagrando a ordem coletiva e os segmentos que a construíam. Ao contrario das religiões reveladas, não se estabelecia com as divindades helênicas uma relação pessoal, pois, como potencias, seu culto se dá por estarem num estatuto superior ao dos humanos. Como potencias, representam a plenitude dos valores que eram importantes para a sociedade grega.
Por ser religião cívica, sacerdotes e magistrados continham em si tanto aspectos sagrados  quanto de autoridade pública. O poder religioso era exercido por aqueles que detinham o direito secular: os chefes de família e os magistrados. Cabiam às Assembleias e Conselhos das póleis definir o calendário religioso, os sacrifícios a serem feitos a cada Deus, a organização das festas e a administração dos santuários.
As cidades são construções humanas e devido às suas características e especificidades os Deuses entram em conflito para que sejam por elas honrados acima de tudo e todos os outros. Os Deuses precisam oferecer aos habitantes delas algo em troca, que os façam merecer o culto políade. Acreditar na existência dos Deuses era reconhecer a presença dos mesmos na pólis, sua relevância para a existência humana em comunidade politica. E isso englobava o conjunto das obrigações que eram devidas às divindades. Crer nos Deuses também significava estabelecer relações amigáveis com eles, ter uma prática “política”, ou seja, incluir-se na comunidade. Ser cidadão implica tanto na participação nos festivais e nos templos quanto nos Tribunais e Assembleias. Se acreditar nos Deuses faz parte da cidadania helênica, o seu contrário significa excluir-se da comunidade. A impiedade é vista como um delito público, não honrar os Deuses políade é prejudicial à própria pessoa. Não prestar culto a um Deus seria equivalente a rejeitar uma área da experiência humana.
Contudo, essa dimensão social não negaria uma dimensão pessoal da experiência religiosa. As relações entre o individuo e os Deuses têm paralelo com os laços que o primeiro tece dentro da comunidade a qual pertence, a esfera emocional é parte integrante desse processo. A frequência em um santuário não ocorria apenas para cumprir com uma obrigação perante a cidade, mas sim porque a relação com seres supremos pode trazer conforto e satisfação ao indivíduo.
Homero e Hesíodo tiveram papel crucial na elaboração e difusão de noções comuns sobre a religiosidade e a cultura grega, mas a individualidade de cada pólis não nos permite ter a noção de uma versão religiosa preponderante e sim de um conjunto de variantes locais em pé de igualdade umas com as outras e também com as versões contidas na poesia oral.
A religião não era completamente absorvida pela pólis, sendo algo maior que ela, a transcende. O modelo seria de pouco auxilio para a compreensão das intenções, motivações e as dinâmicas das consultas oraculares feitas por particulares. O calendário religioso estaria vinculado não às instituições da pólis, mas ao ciclo agrícola.
A religião grega era uma rede de sistemas interagindo uns com os outros e com a dimensão religiosa pan-helênica. Esta está articulada na e através da poesia pan-helênica e dos santuários pan-helênicos; foi criada de uma maneira dispersa e variada, de elementos selecionados de certos sistemas locais e na fronteira entre os sistemas religiosos das póleis, que ela também ajudou a modelar.
A pólis era a estrutura fundamental na qual a religião grega operava. Toda cidade helênica era um sistema religioso em si mesmo, interagindo com os sistemas religiosos de outras póleis e com uma dimensão pan-helênica. Como uma pessoa nascia em uma pólis, só poderia pertencer à estrutura religiosa dela, de forma que estrangeiros necessitavam da mediação de um cidadão para participar de certos rituais.
A pólis era mediadora e legitimadora de todas as práticas religiosas. Os cultos eram controlados pela cidade-estado que, no Período Clássico, figurava como a máxima autoridade em assuntos religiosos. Mesmo o culto doméstico era influenciado pela pólis, uma vez que era essa que estabelecia quais Deuses deviam figurar na religião domiciliar.
Unidade entre corpo religioso e o corpo cívico: temos aqui a noção de religião incorporada, ou seja, a prática religiosa era parte crucial na rede de relacionamentos do interior da pólis. O culto em comum era a maneira estabelecida de expressar a comunalidade no mundo grego, de dar aos grupos sociais coesão e identidade. Seria, portanto, percebido com inevitável que realidades particulares de póleis particulares estivessem refletidas na articulação de seus cultos. Não se tratava de um Estado manipulando a religião: a unidade que era tanto corpo religioso, carregando a autoridade religiosa, quanto o corpo social, atuando através de suas instituições políticas, empregou o culto a fim de se articular no que era visto como a forma natural.
A cidade articulava a religião e o discurso religioso, por sua vez, se tornava sua ideologia central. Ela era o elemento que estruturava e conferia sentido a todos os elementos que compunham a identidade políade. Cabe destacar uma das funções dos rituais religiosos gregos: estabelecer a solidariedade entre os membros de um segmento social, marcando a identidade perante os demais grupos. As relações e laços sociais e políticos eram definidos pelo culto.
Desconhecimento do divino: os helenos tinham a percepção que o conhecimento humano sobre o divino e seus assuntos era limitado. A compreensão da falibilidade humana seria o motor do agenciamento religioso. Os gregos sabiam que sua religião era uma construção humana, aberta a mudanças diante das mais variadas situações. No afã de atingir uma relação melhor com o divino, rituais e mitos poderiam ser resignificados e outros Deuses adorados. Os tempos de crise se mostram particularmente reveladores dessa característica, gerando pressões para a inovação, inserindo novos cultos na realidade políade, que viveria tensões entre conservantismo e inovação.
O indivíduo como unidade de culto principal: o centro de articulação da religião grega era seus rituais, não uma experiência espiritual. Apesar das atividades cultuais ocorrerem em conjunto, a família não pode ser a unidade ideológica básica da religião grega. O indivíduo era o elemento operando na conjuntura geral da veneração pública e privada dos Deuses.
As pessoas participavam como indivíduos em cultos centrais para a cidade e eram organizadas em uma variedade de forma que sinalizavam uma gama de elementos identitários, os quais não dependiam uns dos outros em sua totalidade.
No que tange os cultos de Mistérios, esses abririam espaço para a escolha pessoal, pois sua adesão, ao contrário da religião políade, não era compulsória. O iniciado recebia um segredo divino, que promovia a sua aproximação ao outro mundo e revelava a continuidade entre a vida e a morte. Após as celebrações, eles retornavam às suas casas e vidas comuns, ainda comungando dos demais cultos de sua pólis. Seria após a morte que eles gozariam de uma existência diferenciada daqueles que não passaram pelos ritos dos Mistérios. O grande apelo dos Mistérios junto aos gregos e às demais sociedades pagãs é o oferecimento de uma intimidade com o divino que não era enfatizada pelos cultos oficiais.
Autora: Maria Figueiredo Virgulino.
Fonte: Fertilidade e Prosperidade na Ásty de Corinto, pg. 23 – 32.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

A Deusa Tríplice na Wicca

John Halstead divulgou no Patheos, na coluna de Paganismo, em sua página “The Allergic Pagan” [O Pagão Alérgico], vários textos abordando um tema que é bastante comum entre pagãos e bruxos modernos, que é o conceito da Deusa Tríplice.
John explica a origem do conceito da Deusa Tríplice, vinda de Robert Graves. Eu tive a felicidade de ler “A Deusa Branca” de Robert Graves e quando falamos em mitopoética e mitos antigos, as Deusas possuem aspectos tríplices, quíntuplos e nônuplos.
A confusão aumenta mais ao incluirmos os conceitos diânicos, com uma Deusa, que está mais para o Monismo que para uma inversão do Monoteísmo Abraãmico; Deusa que frequentemente é descrita como a Deusa de Mil Nomes, um reflexo da Teosofia de Dion Fortune. Curiosamente a base desse conceito é uma leitura superficial e tendenciosa da obra “O Asno de Ouro” de Apuleio, que por sinal endereça tal elogio para Isis e não para Diana.
Quando Gardner estruturou a religião Wicca, seu foco era uma Deusa cujo atributo está vinculado ao Amor, Morte e Renascimento, não com o conceito de Dama, Mãe e Anciã, como pagãos e bruxos modernos costumam falar da Deusa. Este é exatamente o conceito que tem origem em Robert Graves, muito embora sua obra “A Deusa Branca” não trate disto.
Na Era Contemporânea, o Paganismo Moderno tem demonstrado uma supremacia das Religiões da Deusa, do Sagrado Feminino e do Dianismo. Quando o Paganismo Moderno tornou-se conhecido do público, cresceu e apareceu junto com a Contracultura e se transformou em um fenômeno de consumo de massa pela influência da cultura americana. As vertentes do Dianismo e das Religiões da Deusa e do Sagrado Feminino surgiram nesse momento e tem crescido pelo seu apelo popular. Muitos vigaristas, farsantes e impostores fizeram fama e público ao divulgar conceitos e ideias debaixo do rótulo de Wicca, o consumismo tratou de corroborar estes absurdos. Os caros diletos e eventuais leitores sabem o quanto eu penei para tentar acabar com essa farsa.
Nenhum tipo de espiritualidade, crença ou religião deve servir para atender nossas vaidades. O que não faltam são opções no mercado sendo vendidas como se fossem produtos e o público consome com voracidade. O Paganismo Moderno sofre por permitir isso e pela completa falta de estudo por parte do curioso, simpatizante ou praticante. O Paganismo Moderno deve começar a estimular seu povo por mais seriedade. O pagão moderno deve estudar história, antropologia, etnografia, psicologia, mitologia e teologia.
Mesmo quando Robert Graves fala da Deusa Branca ou da Deusa Tríplice, quando lemos os mitos originais e os interpretamos dentro de um contexto, sempre há a presença de um Deus Consorte. Quando Robert Graves fala da Deusa Branca ele não se refere a uma etnia, mas à identidade da Deusa com a Morte. Que escândalo será quando eu falo que o Consorte da Deusa Branca é o Deus Negro, o Deus Touro. Sendo que eu também não me refiro a uma etnia, mas à identidade do Deus com o Campo.
Sem a presença do Deus, a Deusa não pode verter amor sobre o mundo. Sem a Deusa, o Deus não pode renascer. Sem a celebração do Hiero Gamos, cessa a existência, não existe o universo, não existe o mundo, não existe a humanidade. 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Sabazius, Deus da Cevada e da Cerveja

Perséfone ou Koré era uma linda criança que gostava de brincar nos campos floridos. Quando ela cresceu tornou-se uma bela jovem muito cobiçada pelos deuses. Por onde passava Persefone atraia todos os olhares, porém sua mãe Deméter impedia que todos se aproximassem dela.
 
Certo dia ao passear pelos campos floridos Persefone desapareceu. Depois de muitos anos de busca, Deméter descobriu que Hades - o senhor das trevas - havia raptado sua filha. E assim foi feito um acordo: Perséfone passaria seis meses junto com seu marido nas Trevas e seis meses junto com sua mãe na Terra. Daí surgiu a divisão da estações do ano.
 
Sua beleza era admirada por todos os deuses, inclusive por Zeus - o deus todo poderoso do Olimpo. Isso despertou a ira de Afrodite, que sempre desejava ser a mais bela e admirada. Devido a essa rivalidade Afrodite plantou o amor no coração de Zeus, que se transformou numa serpente para seduzir Persefone quando ela viesse visitar sua mãe. Do encontro entre Perséfone e Zeus nasceu Sabazius, que foi viver com Zeus no Olimpo.
Zeus era casado com Hera, mas mantinha seus casos extraconjugais. Entre suas amantes estava Sêmele, a quem Zeus prometeu jamais negar-lhe algo. Para vingar-se da traição, a esposa de Zeus despertou em Sêmele a curiosidade de vê-lo em todo o seu esplendor. Ao satisfazê-la, Sêmele não suportou a visão de Zeus - deus dos raios e trovões - e foi fulminada pelo grande clarão do raio que a atingiu.

 
Sêmele estava grávida e, na tentativa de salvar a criança, Sabazius costurou o feto na coxa de Zeus. Ao final da gestação nasceu Dioniso, vivo e perfeito. Contudo Hera continuou a perseguir a estranha criança de chifres e ordenou aos Titãs que a matassem. Mais uma vez Sabazius ajudou Zeus a resgatar o coração da criança, que foi cozido junto com sementes de romã transformando numa poção mágica. Eles deram a poção a Perséfone, que engravidou e novamente Dioniso nasceu, sendo chamado "o que nasceu duas vezes".

Graças a Sabazius o pequeno Dioniso sobreviveu. Convocado por Zeus para viver na terra junto aos homens, Dioniso compartilhava com os mortais as alegrias e as tristezas. Atingido pela loucura, Dioniso perambulava pelo mundo junto aos sátiros selvagens, loucos e animais. Deu à humanidade o vinho e suas bençãos, concedendo o êxtase da embriaguez e a redenção espiritual a todos que decidissem abandonar suas riquezas e renunciar ao poder material. 
 
Sabazius também possuía seus atributos e era célebre por sua velocidade e poder de transformação. Considerado como uma divindade agrícola, tal como Dionísio ele também tinha chifres na testa.  Alguns chamavam Sabazius de deus-cabrito. Venerado durante a Sabátidas, consagravam-lhe o trigo e a cevada, de onde se fermentava uma bebida inebriante que era servida e apreciada pelos presentes. Essa bebida era a cerveja.
As Sabátidas eram festivais consagrados a Sabazius e também a Pã - deus dos bosques e a Príapo - deus da fertilidade, todos representados pela figura de faunos ou bodes. Durante a festa os convivas banqueteavam sentados no chão sobre peles de animais caprinos, com as quais também se cobriam encarnando seu comportamento e imitando seus berros.
 
Nesse culto agrário, uma virgem nua simbolizava a fertilidade. Em alusão à Demeter - a Mãe Terra, a virgem deitava-se sobre a mesa ritualística e recebia sobre o ventre as oferendas, geralmente o trigo e a cerveja. Ela própria após o banquete era oferecida à divindade caprina dona da festa, sempre encarnada por um sacerdote com máscara de chifres, vestido com pele de cabra, assim como os demais presentes.
 
Enlevados pela bebida, durante a festa eles misturavam-se e, não importando o sexo, fecundavam-se mutuamente. Ao final da festa, semelhantemente às Bacanais, invocava-se o raio numa alusão ao mito dionisíaco. Essa era uma forma de relembrar o raio de Zeus que fulminou Sêmele.

A desvirginada do altar arrancava com sua boca a cabeça de um sapo e a cuspia ao chão, em alusão às Mênades possessas que dilaceravam os animais conforme descreveu Eurípedes de modo perturbador nas Bacantes. Estes eram os originais pagãos, cujas festas celebravam no pago ou no próprio povoado, geralmente nos campos de suas comunidades.

Na antiga Roma, Dionísio era conhecido como Baco - o deus do vinho, tendo sido mais popular devido às grandes plantações de uvas e, consequentemente, pela produção do vinho. Além dos limites romanos viviam os bárbaros e pagãos, que cultivavam os cereais, a cevada e o trigo. Isso tornou os povos pagãos - celtas, bretões, gauleses e caledônios - , os povos bárbaros germanos - anglos, saxões, godos - e os povos da suméria, babilônia e Egito, adoradores de Sabazius e  grandes apreciadores  da cerveja.

domingo, 19 de julho de 2015

Vasculhando as origens do culto da Serpente

Na mitologia, a serpente simboliza fertilidade, procriação, sabedoria, morte e ressurreição. Nas escolas mais antigas do misticismo, o símbolo do mundo era a serpente. A luz que surgia era metaforicamente definida como a serpente chamada Kundalini, que permanece adormecida na base da espinha da pessoa. A divinação ou o despertar do divino e das habilidades de uma pessoa vinha com os rituais e os ensinamentos trazidos pelo povo da serpente. 

Para compreendê-los, devemos olhar para as serpentes originais. Na China, foi um casal, com cabeça humana e corpo ofídico, quem criou os humanos. Na Suméria, foi Nin-Khursag e seu esposo Enki quem tinham a incumbência de criar trabalhadores. Para os Hindus, foi Ananta, a serpente cósmica, quem nos criou. Então se no alvorecer da criação do homem, nós fomos criados por seres semelhantes a serpentes, então o povo do culto da Serpente devem ser seus descendentes diretos, por sangue ou espírito. 

Outra serpente foi o filho de Enki, Ningizzidda, conhecido pelos Sumérios, Egípcios e Tibetanos. Ele habitou em Magan, conhecido por nós como Egito, identificado como Thot, que formou uma escolar de mistérios para propagar as ideias de auto-empoderamento e iluminação, mantendo os feitos e filosofias de seu pai. 

Eventualmente os Annunaki perderam o controle da terra e de sua população. Aqueles que seguiram a ideologia da Serpente deveriam estar preocupados em manter a relevância enquanto encaravam mudanças constantes, novas religiões e potenciais ameaças à suas terras, que eram prósperas. Para se protegerem e encorajar as pessoas a seguirem seu sistema de crenças, eles enviaram emissários [os Iluminados] e encontramos lendas destes Iluminados ao redor do mundo. Diversas culturas ao redor do mundo adoraram a Serpente e divindades ofídicas que eram lindas mulheres associadas com árvores e lagos. 

Entretanto uma figura central não era suficiente para assegurar a posição dos cultos da Serpente, principalmente diante de novas religiões e reinos que estavam adquirindo poder político e militar. Casamentos politicamente vantajosos eram arranjados com as famílias em ascensão. Um príncipe ou princesa serpente casando com uma pessoa dessas famílias traria comercio, prosperidade, conhecimento em como fazer uma sociedade coesa e os segredos do culto, que seriam transmitidos aos seus descendentes. Foi graças a esta sabedoria que a nova família reinante ganhou poder sobre seu povo e lhes permitiram avocar por sua divindade. Ainda assim, muitos destes casamentos tiveram fins trágicos. 

Por que seus casamentos terminaram de forma tão trágica? Talvez por que a princesa serpente sentia falta de seu lar. Ela também se viu dependente da boa vontade de seu esposo para garantir que ela era aceita na sociedade e frequentemente enfrentava censura, suspeita e ciúme, por sua origem estrangeira. Incapaz de fazer amizade, ela permanecia no ostracismo e perdia a afeição de seu esposo, aqueles que queriam sua queda apareciam. Em muitos casos a princesa retornava para casa, deixando suas crianças. Em outros, ela ou seu marido morriam. Ainda assim ela era lembrada por seus descendentes, que nasceram com grande força e inteligência, possibilitando suas famílias aclamar que os Deuses lhes deram o direito divino de reinar. 

Autora: Katrina Sisowath