quinta-feira, 26 de março de 2015

O arcano da temperança

A vida do rapper BIG Notorius mostra que existem grupos que ganham com a tragédia, a violência, a rixa, o sectarismo. Vendo como a Mídia estimula, incentiva e patrocina o extremismo na opinião popular com nítido interesse em instaurar uma Ditadura Midiática, o arcano da temperança é ideal.
O arcano mostra um anjo com duas jarras, derramando líquido de uma para outra.
Geralmente entendemos “temperança” como ponderação, equilíbrio.
Mas podemos entender “temperança” no sentido de “temperar”, acrescentar gosto.
O anjo transfere líquido de uma jarra a outra, sugerindo que uma está cheia e a outra vazia. O arcano denota que é necessária uma ação positiva para suprir certas áreas de nossa vida que estão deficientes.
Então podemos entender o arcano como uma indicação de que há a necessidade do buscador ter a iniciativa de esvaziar o que está excessivo e suprir o que está escasso. A ação e a responsabilidade cabe ao buscador.
O caminho iniciático é aquele que nos conduz entre o dia e a noite, entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira, entre a razão e a intuição. Somente quando houver equilíbrio entre Masculino e Feminino, Positivo e Negativo, é que alcançaremos a Iluminação.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Socorro, prof. Pasquale!

Como se não bastasse ter que aturar a aceitação do esdrúxulo “presidenta”, um neologismo que não tem qualquer embasamento na ortografia ou na gramática, eu ainda tenho que aturar comentários de gente que mal terminou o segundo grau, ofendido [ou com inveja] por eu ter grau superior.

Realmente, não é fácil ser escritor em um país semialfabetizado. Tudo fica mais difícil por eu ser pagão. A falta de estudo acadêmico na cadeira de história, etnologia, antropologia e psicologia por grande parte da comunidade pagã brasileira fornece um rico espaço para farsantes, estelionatários e gurus paraguaios.

Mas meu caro dileto e eventual leitor sabe que eu vivo uma relação de amor e ódio com a comunidade pagã brasileira e suas celebridades. E eu tenho que manter a minha péssima reputação. Meu serviço é para os Deuses, eu não procuro o aplauso do público.

Aquilo que é interessante deve ser divulgado. Eu citei neste blog Claudiney Prieto e Mavesper Cerydwen, quando estes escreveram textos que endossam a Tradição. Mas mesmo diante de sacerdotisas americanas eu tenho que exercer minha verve e criticar aquilo que destoa da Tradição.

Assi sendo, eu cheguei, graças ao oráculo virtual [Google], ao blog Polissemizando onde Mavesper publica o texto “Por Que Prefiro a Grafia Wiccaniano”.

Eu cito alguns trechos:

O adjetivo aplicado a quem pratica a religião chamada Wicca, já causou muita controvérsia nos meios pagãos do Brasil. Trata-se de escolher a versão portuguesa melhor para a palavra da língua inglesa “wiccan”.

Há mais de vinte anos, quando começaram a ser vertidos para o português livros de Wicca, cada tradutor optou por diversas formas diferentes. Alguns traduziam o termo simplesmente por “bruxos” ou “feiticeiros”, com a desvantagem de não estarem usando um termo que identificasse especificamente os praticantes de wicca. Outros, preferiram manter a grafia wicca tanto para designar a religião, quanto para o adjetivo referente aos adeptos, o que era incongruente.

A tradução do livro de Gerina Dunwich usou a palavra “wiccaniano”, em 1994. Mesmo antes nos meios pagãos brasileiros essa palavra era largamente utilizada para designar os praticantes de wicca. Em 1999, ao traduzir outras obras, anos depois, o tradutor Claudio Crow Quintino propôs a adoção de um neologismo: criou a palavra “wiccano”.

Perguntamos: o que faz uma língua é seu povo, os milhares de pessoas que sempre usaram a expressão “Wiccaniano” nos meios pagãos, ou a decisão isolada de um tradutor?

Cremos que a resposta é óbvia, mas, ao ouvir a falácia de que seria um erro de português, muita gente está, agora sim, sendo induzida a erro. Wiccano é uma grafia possível, mas sem uso anterior que a justifique. Por que acreditar que é “mais certa”? Ou, pior ainda, que é “a única” certa?

Usemos como exemplo a palavra “football”, originariamente inglesa. Quando o jogo veio ao Brasil se tornou “futebol”. Mas porque não se tornou “futibol”,”futeboal”, futebal” ou futibóu’???? Simplesmente porque o costume determinou a grafia.

O tradutor defende que tudo se trata de comparar a palavra wiccan, com a palavra american. O primeiro “furo” em sua teoria é comparar uma palavra que é gentílico (relativa a naturalidade ou nacionalidade das pessoas) com Wicca, que nada tem a ver com nacionalidades.

Fica muito fácil perceber que se o tradutor em questão tivesse escolhido qualquer outra palavra terminada em AN em inglês, sua decisão de tradução poderia ter sido diferente.

Na verdade, há regras linguísticas, sim, para fazermos a versão para o português, devemos nos basear na palavra como ela é escrita em português, e não em inglês, para obter a grafia do adjetivo. Devo basear-me em “américa” para gerar americano, e não “american”. Porque a palavra “América” tem a vogal temática oral, portanto a regra geral é o sufixo “ano ou ana” = americano. Já a palavra “Irã”, por exemplo, tem vogal nasal, o til se transforma em “n”(na verdade poucos sabem que o ~ é um “n” arcaico), e se é nasal forma “iraniano”.

Se fosse aplicável a Wicca a regra da vogal oral ou nasal, a vogal da palavra Wicca seria realmente oral e estaria certo o Sr. Crow Quintino. Porém, há um “pequeno detalhe”: a palavra wicca não é português! Ou seja, a regra é inaplicável.

Tomei a liberdade de consultar um mestre em linguística e expor a ele a questão.

A opção por “wiccano” parece ter sido baseada apenas em uma transcrição fonética, o que não permite aproximá-la do significado em inglês, “praticante”. Para se obter essa significação em Português, podemos usar os sufixos “-eiro”, “-ista”, “-dor”, “-or” que são indicadores de profissão, atividade”.

Ou seja: apresentada como “o único português correto” nada mais é do que um neologismo de discutível aplicação. E neologismo por neologismo, sem base outra que o uso e costume das pessoas, prefiro a forma mais antiga e consagrada: wiccaniano.

Não se criam normas na língua portuguesa por decisões isoladas de um tradutor. É preciso pensar e julgar antes de aceitar os carimbos prontos de “erro de português”.

Basta pensar que antes dele outro tradutor já havia consagrado a palavra “wiccaniano”, de há muito largamente utilizada por todos os praticantes de nossa religião. E que o que faz uma língua são as pessoas que a falam.

Enfim, a verdade é que a língua é dinâmica e muda constantemente. Por isso, creio que nem wiccaniano, nem wiccano devem ser vistos de forma a classificá-los de corretos ou incorretos. Ambos são formas possíveis de tradução da palavra “wiccan”, embora, pelo uso de mais de uma década, a palavra wiccaniano já se tenha consagrado de há muito. Sem mencionar que “wiccano” tem um som que não agrada os ouvidos.

Eu devo discordar de Mavesper, a aclamação popular não deve serfir de referência, senão teríamos que jogar fora todos os dicionários, livros de ortografia e gramática e abolir o ensino da língua portuguesa. Se aceitarmos a teoria da aclamação popular, funk, pagode e axé seriam as referências culturais ao invés dos clássicos da literatura portuguesa e brasileira.

No caso de traduções, não se aplica a regra de que a primeira ou mais antiga é a mais certa. Os casos listados pela Mavesper pertencem a outra categoria de palavra, sem nos esquecermos que a norma culta há tempos aceita palavras estrangeiras.

A Mavesper não diz quem é o especialista em linguística, o que denota a importância em mantermos a norma culta, não a aclamação popular. O dito especialista comete um erro grave, quando define a Wicca como prática, sendo que ela é uma religião. Eu concordo com a Mavesper que ambas as formas podem ser consideradas corretas, o que é uma contradição ao que ela mesma afirma e corrobora, o que não deixa de ser uma convenção arbitrária.

A regra é clara. A palavra “wiccan” é derivada de outra, portanto, temos que nos ater ao radical. Como falamos de religiões, a derivação toma por radical uma determinada palavra.

Chamamos de cristão os que professam o Cristianismo pela derivação de Cristo. Chamamos de judeu os que professam o Judaísmo pela derivação de Judá, uma das doze tribos de Israel, que acabou abrangendo todas. Chamamos de muçulmano os que professam o Islamismo pela derivação do verbo aslama [submetido a Deus, em árabe], que foi assimilado ao português do castelhano.

No caso, wiccan é derivado de Wicca que, segundo Gerald Gardner, era o nome do povo [grafado Wica] que professava uma forma familiar e particular de Culto de Bruxas em New Forest. Disto podemos concluir que o nome do povo é o nome da religião, sendo portanto mais correto falar Wica e não Wicca, o que certamente provocará mais polêmicas e controvérsias nessa Terra Tupiniquim.

Sendo o nome do povo, cabe o gentílico, e as regras:

1) serem subsequentes a um e apenas um radical;

2) que o gentílico seja derivado por sufixação;

3) que o radical primitivo seja o do território de ocupação do povo nomeado pelo gentílico, e não vice-versa (o território não deve, idealmente, ser o vocábulo derivado);

4) que esse radical primitivo seja uma lexia simples, e não composta ou complexa, ou que, se o for, o seu gentílico só use um de seus formativos;

5) que haja paradigmatização, isto é, que os sufixos para a formação de gentílicos sejam poucos, fechados e os que fugirem de tal paradigma engendrariam casos de supletivismo ou mesmo caso único.[Marcelo Caetano, professor, filólogo e tradutor]

Na língua portuguesa os sufixos de gentílicos mais comuns são “aco”, “ano”, “ão”, “asco”, “ático”, “eiro”, “enho”, “ês”, “eu”, “ino”, “ista”, “ita”, “eta”, “ol”, “ota”, “ense”. O sufixo “iano” é mais apropriado quando se refere à uma pessoa, não à uma origem, procedência e, no caso, a norma culta prescreve o sufixo “ano”, portanto “wiccan” = “wiccano”.

terça-feira, 24 de março de 2015

Flags, flax, fodder, frigg

Roy Bowers ou Robert Cochrane, fundador do Clan de Tubal Cain, escreveu diversas cartas a Joe Wilson em dezembro de 1965 e assinava FFFF em suas cartas.
As missivas de Cochrane eram recheadas de simbolismo, símbolos, referências místicas, sigilos e enigmas, que seriam revelados no devido tempo ao buscador dentro da tradição.
Robert Cochrane foi um personagem da Bruxaria Moderna que foi eclipsada apenas por Gerald Gardner, ele estruturou um sistema original e único, fruto de seu gênio e da reconstrução de uma tradição familiar de bruxaria.
A assinatura tem um significado:
Flags = literalmente bandeira, mas entende-se que seja o pavilhão ou o alicerce onde se firma a construção de uma casa.
Flax = literalmente linho, mas entende-se que seja a roupa ou qualquer tecido usado para cobrir o corpo.
Fodder = pode-se entender por “food”, uma aliteração de comida, seja para animais ou para pessoas.
Frigg = Na mitologia nórdica, Frigga, ou Friga, é a Deusa-Mãe da dinastia dos Aesir. Esposa de Odin e madrasta de Thor, ela é a deusa da fertilidade, do amor e da união. Ela também é a protetora da família, das mães e das donas-de-casa, símbolo da doçura.
Uma carta é encerrada com uma linha de atenção, uma apreciação, um elogio ou um voto. A assinatura de Cochrane é o desejo que seu irmão na Arte tenha sempre casa, comida, roupa e amor. Pesando aquilo que achamos necessário para viver, isto é mais que suficiente.

segunda-feira, 23 de março de 2015

O arcano da morte

Este é o outro arcano perturbador porque a humanidade não lida bem com o inevitável e sua finitude. Ou como diz o Budismo, a humanidade está no estado de impermanência. Pegadinha do Sidarta, pois em sendo nada permanente, sua doutrina desafia a perenidade.
A humanidade é mortal, indiferente de sua riqueza, seu status, sua influência social, seu conhecimento, sua sabedoria, sua iluminação, todos, sem exceção, deverá passar pelo último portal. Ali está, inexorável, o Ceifador. Sabendo disso, a humanidade tenta se esconder no medo ou em formas de trapacear com a morte.
O descrente não é muito diferente, pois negar que há algo além da vida é negar a morte. O crente não se exime do fardo, a maioria das religiões surgiu graças ao medo da morte. O que há de mais perturbador do que um Mensageiro divino cujo culto nasceu por que sua Igreja foi fundada em um sacrifício humano? Os mitos antigos estão recheados de Deuses que morrem e múltiplas divindades que são a morte personificada e divinizada.
Se nós estamos fadados a fenecer, por que lutamos tanto, trabalhamos tanto? Por que acumulamos títulos, riquezas, diplomas, coroas, tronos, se o futuro de todos é se tornar cadáver? Por que estamos vivos, esta é nossa função, nossa obrigação. Nossa vida, nossa existência tem um propósito, temos um sopro para tentar cumprir com nossa missão.
Costuma-se dizer que a morte é o Vale das Sombras. A humanidade é um animal diurno, não entende a sombra, não compreende a noite. Aquilo que não se entende se teme ou se tenta destruir. O buscador não teme a morte, pois sabe que é um estado, uma circunstância. Quando a morte lhe sorri, ele sorri de volta, pois sabe que a morte é uma passagem, é tão aterrador quando dormir, é tão ameaçador quanto a passagem da noite para o dia.

domingo, 22 de março de 2015

A natureza do amor em Lilith

Você que me nega, me admite e você que me admite, me nega.Você que fala a verdade sobre mim, mente sobre mim e você que mentiu sobre mim, fala a verdade sobre mim.Você que me conhece, seja ignorante sobre mim e aqueles que não me conheceram, deixem eles me conhecer.
Lilith possui uma linguagem muito libertária em relação às ideias que concebemos em nossa cultura sobre o amor.

Quando uma pessoa ama, deve haver liberdade - a pessoa deve estar livre, não só da outra, mas também de si própria.
No estado de pertencer a outro, de ser psicologicamente nutrido por outro, de outro depender - em tudo isso existe sempre, necessariamente, a ansiedade, o medo, o ciúme, a culpa, e enquanto existe medo, não existe amor.
A mente que se acha nas garras do sofrimento jamais conhecerá o amor. O amor não é produto do pensamento, que é o passado. O pensamento não pode de modo nenhum cultivar o amor. O amor não se deixa cercar e enredar pelo ciúme; porque o ciúme vem do passado. O amor é sempre o presente ativo. Não é "amarei" ou "amei". Se conheceis o amor, não seguireis ninguém. O amor não obedece. 
Quando se ama, não há respeito nem desrespeito.

O amor original é naturalmente considerador, ele não segue padrões de respeito definidos culturalmente. O que é respeitoso em uma região pode ser considerado altamente ofensivo em outro lugar. Isso prova que a ideia do respeito é uma produção cultural, e que sua identidade depende basicamente de filtros de crenças.
Na origem latina [respectus], a palavra respeito significa "olhar outra vez", algo que merece um segundo olhar. Neste sentido, respeito pode ser um ato de reverência, de prestar culto ou homenagem. 
Entretanto, a produção cinematográfica de James Cameron, Avatar, nos apresenta um novo conceito sobre essa mesma ideia: os nativos Na'vi trocam cumprimentos com "I see you" [eu vejo você]. A expressão utilizada pelos nativos entre si revela que todos merecem sempre o *primeiro* olhar, e não o segundo. Logo, respeito entre eles não era uma *condição*, mas um *reconhecimento mútuo* da existência do outro e do *direito de pertencer* que todos gozavam dentro da comunidade.

Em nossos dias, essa ideia foi distorcida e tem apresentado uma outra forma de expressão: ter respeito tem incentivado muitos comportamentos de obrigação, submissão e temor, onde o lado mais forte sempre ganha mais espaço de forma invasiva e territorial.
Dessa forma, entendemos que onde há *obediência* não há espaço para uma *expressão amorosa* genuína e autêntica, pois o amor não admite o sofrimento através do mais forte nem do mais fraco. 
No amor há alteridade, e onde existe alteridade, o respeito é consequência de um reconhecimento mútuo, e não uma condição.

A liberdade proposta por Lilith em relação ao amor, muitas vezes se choca com aquilo que aprendemos sobre o que é amar. 
Uma dessas ideias que causam um certo estranhamento na maioria de nós, é a ideia da isenção de *dever amoroso*.

Tem o amor responsabilidades e deveres, e emprega tais palavras?Quando fazeis alguma coisa por dever, há nisso amor? No dever não há amor. A estrutura do dever, na qual o ente humano se vê aprisionado, o está destruindo. Enquanto sois obrigado a fazer uma coisa, porque é vosso dever fazê-la, não amais a coisa que estais fazendo.Quando há amor, não há dever nem responsabilidade.

Entendemos que o amor original é naturalmente espontâneo.

Onde há espontaneidade, a autêntica expressão amorosa substitui a responsabilidade pelo sentido de cumplicidade.
Quando Lilith chega em nossas vidas sempre causa uma sensação de estranheza e um certo arrebatamento... Um choque de realidade, uma sensação de atropelamento moral e energético ou de ser carregado pelos ares, uma exposição do inconsiderado em nós, o inesperado pensante [eureka] que emerge sem nossa autorização consciente, um amor autoconsciente genuinamente consistente e altamente expansivo.
Em relação a esse amor tão libertário e sem fronteiras, começamos a questionar valores aprendidos, ações empreendidas em nosso passado, e que atitude tomaremos em nosso presente. 

Aprendemos que o amor é relativo às nossas limitações, e com certeza, tendemos a expressá-lo dessa maneira.
Mas se o amor é diferente de tudo o que aprendemos, o que faremos com isso? Saberemos como expandir esses limites?

Podeis perguntar: 
- Se encontro esse amor, que será de minha mulher, de minha família? Eles precisam de segurança.
Fazendo essa pergunta, mostrais que nunca estivestes fora do campo do pensamento, fora do campo da consciência. 
Quando tiverdes alguma vez estado fora desse campo, nunca fareis uma tal pergunta, porque sabereis o que é o amor em que não há pensamento e, por conseguinte, não há o tempo. 
Podeis ler tudo isto hipnotizado e encantado, mas ultrapassar realmente o pensamento e o tempo - o que significa transcender o sofrimento - é estar cônscio de uma dimensão diferente, chamada *amor*.

Mas, não sabeis como chegar-vos a essa fonte maravilhosa - e, assim, que fazeis? 
Quando não sabeis o que fazer, nada fazeis, não é verdade? Nada, absolutamente. 
Então, interiormente, estais completamente em silêncio. Compreendeis o que isso significa? 
Significa que não estais buscando, nem desejando, nem perseguindo; não existe centro nenhum. 
Há, então, o amor.

Num universo infinito qualquer ponto pode ser o centro, logo, se é infinito, onde está o centro?
Amor não é conceito. Amor é fonte. 
Amor é dimensão.

Tradição de Lilith

sábado, 21 de março de 2015

Transgressão como princípio norteador

Transgressão implica numa atitude criativa de atravessar e ir além de uma extensão, expandir-se, dar o primeiro passo ao ultrapassar noções que pressupõem a existência de uma norma que estabelece e demarca limites.

O indivíduo transgressor é o agente criativo que supera a si mesmo na ruptura com os conceitos do mundo que o cerca.

Cada buscador e buscadora, ao inventar e se re-inventar, ao tentar o-ainda-não-ousado ou o-ainda-não-permitido, ao conhecer o novo, incorre em transgressão porque mostra o que era então desconhecido.

A transgressão implica na subversão da ordem como o resultado mais superficial e aparente, e na apresentação de algo novo através de uma atitude-primeira desafiadora como um ato criativo, e esse é seu significado mais profundo, porque o caos é o precursor da ordem e ambos são importantes. Ao longo da história da humanidade, muitos transgrediram as normas vigentes de sua época, revolucionando suas áreas de atuação.

Entendemos que a Transgressão não pode ser vista como uma regra ou estrutura fixa, porque estruturas fixas e regras possuem uma natureza regular, e se simplesmente estruturássemos uma forma de transgredir não poderia mais ser considerada como Transgressão. 

Por isso, a Transgressão é um Princípio e não uma estrutura.

Autoria: Tradição de Lilith

sexta-feira, 20 de março de 2015

Ao vencedor, as batatas

Depois de 20 anos estudando, escrevendo e defendendo a Wicca Tradicional, seus princípios e valores contra a neo-wicca, as religiões da deusa e o dianismo, eu observo abismado pessoas e grupos fazendo a campanha “A UWB não me representa”, como se essas pessoas e grupos fossem mais idôneos, mais confiáveis ou mais legítimos do que a UWB. Certamente o dileto e eventual leitor deve ter visto minha posição contra a CTB e contra a IBWB. Se vamos cair nessa onda de “representatividade”, eu tenho que incluir a TDN e a Eddie Van Feu na lista dos que “não me representa”.

O assunto da Wicca é bastante polemico por si só, se considerarmos seu histórico, sua popularização e comercialização. Quando incluímos seu parentesco com a Bruxaria Tradicional, o assunto fica ainda mais quente. Nesse sentido, apesar de ter traduzido um texto de Sable Aradia, eu tenho que discordar de seu texto “Apples and Orangutans: Traditional Witchcraft vs Wicca”, publicado no Patheos.

Ela escreve: “Parece-me que são coisas completamente diferentes e compará-los não é mesmo como comparar maçãs e laranjas; é como comparar maçãs e orangotangos”.

Ela fornece o link no site Blue Moon Manor para o texto “Wicca Compared to the Traditional Witchcraft” onde eu cito:

“Mas a nova religião Wicca que ele criou era um enigma. Gardner alegou que ele foi iniciado em um conciliábulo de bruxaria, embora sua Wicca  mostre mais tardemuito pouco de práticas tradicionais. Suas reivindicações foram amplamente analisadas e investigadas pelos historiadores e biógrafos com conclusões pouco claras. A Wicca que Gardner criou não era apenas não tradicional, mas foi radicalmente um diferente tipo de religião. Era para ser praticado de uma maneira diferente e que faz Wicca muito separado da Bruxaria Tradicional, tal como praticada nas ilhas britânicas. Bruxo tradicional solitário não é apenas prontamente permitido, mas tem uma história muito longa e nobre na Grã-Bretanha. Na verdade, a maioria dos bruxos tradicionais que já viveram eram solitários em sua prática. Qualquer bruxo tradicional pode corretamente chamar a si mesmo de bruxa, se assim o desejarem. Então, onde é que Gardner obter seu conservadorismo inflexível e hierárquica estrutura organizacional?”.

O texto segue com denúncias que são amplamente utilizados, ou pela neo-wicca com o intuito de legitimar seu esquizoterismo, ou pelos cristãos com o intuito de difamar. O autor comete o erro crasso ao afirmar que a wicca progressiva e a neo-wicca “evoluiu” de Gerald Gardner. Eu recomendo a leitura do texto “as Origens Americanas da Neo-Wicca”. O texto erra ao definir a Wicca como henoteísta, quando esta é Duoteísta e Politeísta. O Uno, visão defendida em alguns grupos, é uma forma de Monismo, não de Henoteísmo. O texto erra ao afirmar que a Wicca prioriza a Deusa acima do Deus, isso é Dianismo e “religiões da Deusa” que, a priori, não pertencem à Wicca Tradicional. O texto segue com refutações vagas quanto a algumas características da Wicca, sem levar em conta que tais práticas fazem parte da Bruxaria Tradicional. Tanto Hutton quanto Heselton concordam que Gerald Gardner teve iniciação, no mínimo, em dois covines de Bruxaria Tradicional em New Forest. Eu tenho diversos textos que asseveram a existência de graus entre as bruxas. Portanto, é apenas mais um texto disparatado e sem base histórica ou antropológica. Este é um problema comum quando se fala sobre Bruxaria e Wicca: a falta de fontes confiáveis e excessivas alegações sem fundamento.

Sable Aradia é bruxa tradicional e wiccana, ela é uma sacerdotisa que merece meu respeito e admiração por ter publicado textos tão extensos e intensos sobre magia sexual. Mas nesse caso ela se equivocou. Comparar Bruxaria Tradicional e Wicca Tradicional é como comparar orangotangos com chimpanzés.