sábado, 26 de dezembro de 2015

O universo de Nikolai Gogol

Aproveitando o merecido descanso com o recesso do forum, eu e Kátia passamos vários dias e horas vendo filmes. Um deles, "coincidentemente" visto na véspera do solstício de verão chamou muito minha atenção porque foi tão bom quanto o Labirinto do Fauno. O filme se chama simplesmente de Viy e foi baseado nas obras de Nikolai Gogol.
O filme sintetiza vários textos de Nikolai Gogol e vale a pena ver porque fala muito do folclore eslavo. Eu irei expor tanto o filme quanto Nikolai.
O filme fala sore o folclore eslavo, presente em toda a Europa Oriental. De acordo com o próprio Nikolai, Viy é o Rei dos Gnomos, cujas pestanas alcançam o chão, mas o filme gira todo em torno da antagonista, Pannochka, a "bruxa".
Nikolai foi um dos escritores que se pode definir como parte do "Movimento Romântico", onde intelectuais e escritores tentavam resgatar as origens e raízes dos povos europeus. Nikolai fez parte da Eslavofilia e da Escola Naturalista. Tido como "escritor cristão", vivendo em pleno alvorecer da Era Moderna e dos eventos que desencadeariam a Revolução Russa, Nikolai é estranhamente... pagão. Isso é algo que os pagãos modernos tem que lidar. Muitas das fontes e referências que temos, literárias e acadêmicas, vem de pessoas... "cristãs".
Nikolai demonstra bem como é pertencer a dois mundos distintos. Sua obra contém referências à Igreja Ortodoxa Russa, mas seus personagens parecem mais uma crítica à hipocrisia reinante na Igreja Cristã. A obra de Nikolai e o filme refletem muito essa névoa indistinta, onde a religião oficial se mistura com o folclore popular.
O filme evidentemente reflete esse dilema. Os protagonistas, três padres, mostram como tão pouco separa o secular do clerical, tanto são seus vícios e falhas. O cartógrafo serve mais como narrador, que cumpre o papel de protagonista em duas cenas, que se podem considerar como uma crítica à ciência e à descrença.
A primeira cena do cartógrafo como protagonista é quando ele, junto com os cossacos, estão em uma taverna, quando seus companheiros de viagem começam a se transformar em seres sobrehumanos, quando aparecem outras visagens.
A segunda cena do cartógrafo como protagonista é quando aparece Viy. Nada pode explicar ou decifrar o que o personagem está vivenciando. Todo seu conhecimento acadêmico, científico e "objetivo" falham miserávelmente. O mundo Sobrenatural é quem comanda a cena. O mando da cena é de Pannochka, a "bruxa".
Pannockhka é quem ordena aos espíritos da natureza para evocarem Viy. Pannochka é quem conduz o cartógrafo a descobrir o responsável por sua sina, que é o padre, que a havia estuprado e matado. Pannochka é quem mostra aos padres quão pouca e fraca é a crença e o Deus que eles professam. Pannochka é tanto a bruxa como uma ninfa, é tanto a donzela que ressurge dos mortos por vingança quanto a sacerdotisa de ritos esquecidos.
O filme Viy, certamente com menos recursos e exposição do que o Labirinto do Fauno, dá a correta dimensão do folclore, que vai muito além da literatura infanto-juvenil que tem influenciado filmes sobre o Paganismo, a Bruxaria e a Religião Antiga.
O universo de Nikolai Gogol mostra para consternados pagãos modernos que o que nós temos feito e chamado de Paganismo, Bruxaria e Religião Antiga é um pálido remedo infanto-juvenil do que realmente o Ofício é. Em uma comunidade dominada pela espiritualidade de conveniência, o filme seria anátema. Tanto melhor. O Caminho dos Bosques Sagrados continuará aberto para poucos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Sonhos do meio do verão

Eis que a máquina dos sonhos [o cinema] lança em dezembro o sétimo filme da saga Guerra nas Estrelas. Pouco antes do solstício de verão, aqui no hemisfério sul, solstício de inverno no hemisfério norte. Não existem coincidências. Há algo na saga que foi cansavelmente indicado por Joseph Campbell e seu trabalho sobre religião comparada. Os filmes que marcam nossas vidas tem muito a ver com os antigos mitos. Jung preconizou isso com a teoria do Inconsciente Coletivo, mas mitos e lendas são formas de falar verdades universais antigas.
Pouco depois de ter alcançado sucesso, Guerra nas Estrelas fez surgir a Religião de Jedi. Se é mais uma paródia descrente ou não, pouco importa. Fazer paródia é a melhor maneira de elogiar algo. Descrentes podem mostrar sua espiritualidade, sem correr o risco de serem zoados pelos seus pares mais radicais. Mas o que seria a Religião do Jedi? No universo de George Lucas existe o que é chamado de Força, um tipo de energia onipresente que modula sua manifestação ora mais voltada para a Luz, ora mais voltada para a Sombra.
Aqui percebemos a mesma dicotomia maniqueísta do "bem" versus o "mal". Há algo de muito errado quando se atribui o valor moral de bem para a luz, tanto quanto atribuir o valor moral de mal para a sombra. Se for assim, eu prefiro mais ser um Sith.
Pagãos, bruxos e hereges sabem que não existem absolutos. Vivemos em um Universo tão multifacetado que é ridículo polarizar as coisas existentes em apenas duas categorias. Dois mil anos desse fascismo doutrinário provam que nem sempre a luz é boa, nem sempre o "bem" é bondoso.
Isso tem muito a ver com o solstício, sobretudo com essa fenômeno engraçado que acontece com os hemisférios. Aqui no hemisfério sul nós celebramos o que pode ser chamado de Meio do Verão, enquanto que no hemisfério norte eles celebram o que pode ser chamado de Meio do Inverno. O incomparável William Shakespeare escreveu "Sonhos de Uma Noite de Inverno", que eu prefiro a qualquer outra lenda ou estória natalina. Pois é extamante disso que mais se fala em dezembro: o Natal. Essa festa de origem pagã, que recebeu roupas cristãs, que nas mãos dos americanos se tornou uma festa cosmopolita e universal.
Em outubro, eu fico preparado para ouvir as mesmas ladainhas reclamando que Halloween é festa americana, é imperialismo, que "nós" devemos celebrar o Dia do Saci. Eu fico curioso em ver que o mesmo brasileiro que ufana de seu país, o mesmo brasileiro que desanda na pior manifestação de nacionalismo e patriotismo, que tanto reclama do Halloween, não vê problema algum nesse Natal europeu. Todos os enfeites, todas as comidas, remetem ao frio do inverno. E nós somos um país tropical. Ninguém sugere que se troque o pinheiro pelo coqueiro. Ninguém sugere que se troque as guirlandas de visco e azevinho por uma guirlanda de erva mate e café, por exemplo. Ninguém sugere que se troque o Papai Noel por Zumbi dos Palmares. Ninguém sugere que se troque as [caras] comidas gordurosas e frutas oleaginosas mais típicas do natal europeu por comidas e frutas nacionais. Ninguém [exceto eu] sugere que se troque o Natal pela Saturnália ou o nome original da celebração nos tempos pagãos.
O solstício de verão é um evento cíclico, marca o auge do verão [hemisfério sul] ou o auge do invero [hemisfério norte]. Hoje o dia é mais longo, mas em breve as noites serão longas. Aqui não dá para percerebr muita diferença, mas em meridianos mais extremos, esta diferença é mais significante, daí o porque que nossos ancestrais marcarem esse evento com uma celebração religiosa. Recentemente a televisão deu espaço para gente fantasiada falar do Sanhaim, cosplayers de bruxas apareceram para falar do "ano novo celta". Sanhaim não é o "ano novo celta", nem é o "ano novo" dos pagãos.
Nós celebramos o ciclo da natureza, então não cabe falar em "ano novo", mas se eu for escolher um evento que marque o fim e início de um ano, seria o solstício de verão/ solstício de inverno. Afinal, o sol chegou ao seu auge, em breve ele irá começar seu trajeto para a Terra dos Ancestrais. Por três dias, o sol estará "morto" para então "ressuscitar", tal como Mithra e Cristo.
Sim, meus caros brasileiros cristãos, o Natal é nada mais do que a celebração do Sol Invictus, genuinamente pagão e romano. Vocês comemoram o que nós comemoramos: o retorno do sol, da luz, da esperança. Tal como em Guerras nas Estrelas, a cultura ocidental, devidamente colonizada pelo pensamento judaico-cristão, acredita que o sol, a luz e a esperança são naturalmente boas.
Mas para o pagão, o bruxo, o herege, as coisas nem sempre são o que parecem. A Esperança foi a última a sair da caixa de Pandora, junto com todos os males do mundo, então a Esperança não é tão boa assim. Quando o sol está forte, tudo que nós procuramos é uma sombra e torcemos para que chova. Quando chega a noite e queremos durmir, a luz incomoda e preferimos o aconchego da sombra.
Pense: como poderíamos nos encantar com o espetáculo dos fogos de artifício, senão de noite? Como os reis magos poderiam achar Cristo sem que Venus brilhasse no manto de Nix? O julgamento moral humano é falível e tendencioso, tanto a luz quanto a sombra são boas. Tanto o verão quanto o inverno são bons. Nós também podemos ser bons. Basta deixar de lado esse maniqueísmo perverso que tem apenas causado guerra, ódio, violência e destruição.
Nós não precisamos do Natal para sermos bons. Depende de cada um para que tenhamos, efetivamente, Paz na Terra. Tanto faz sua origem, sua cultura, sua identidade/opção/preferência sexual, sua ideologia política/social. Sejamos, enfim, Humanos.
Feliz Saturnália, Feliz Die de Soli Invictus, Feliz Yule/Litha, Feliz Natal.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O Neolítico e o nascimento de uma nova religião

O arqueólogo francês Jacques Cauvin argumentou convincentemente que a revolução neolítica foi precedida por uma "revolução de símbolos." Isso quer dizer que, mesmo antes da mudança de estratégias de subsistência que definiu o Oriente Médio, ocorreu uma mudança igualmente dramática e consequente na 'psico-cultura’ coletiva dos caçadores-coletores do Epipaleolitico, uma mudança claramente evidenciada em um novo simbolismo refletido nas formas da arte. A arte simbólica do Epipaleolitico era principalmente zoomórficas, com animais representados "democraticamente", não há uma organização hierárquica e nenhuma personalidade animal está em destaque. Assim, enquanto a seleção de animais representados podem refletir um sentido de "reverência religiosa" por parte dos nossos artistas primitivos, nenhuma espécie animal se destaca como um "deus dos animais” ou como uma representação teriomórfica de 'Deus'. Isso tudo mudou na véspera do Neolítico. Por alguma razão um novo e bastante coerente sistema simbólico surgiu em que o divino é representado por dois símbolos principais: um touro e uma mulher.
Nas tradições da antiguidade fogo e água são os símbolos primários das forças produtivas ativas e passivas do universo. Fogo, a potência ativa, era masculino e representada por um círculo, enquanto a água foi o poder passivo feminino representado pelo quadrado ou retângulo. Os antigos entendiam que a produtividade resultou da interação dos dois, a energia solar e o ambiente aquático e esta interação foi representada hieroglificamente  como um círculo (ou asterisco) dentro de um quadrado. Esta é a origem da denominação para a deusa como "o lugar dos deuses" ou a Casa de Deus: o solar habitando no aquático. Esta "revolução geométrica” do Neolítico, na medida em que ela está relacionada com a revolução simbólico-teológica, parece ter sinalizado uma reorientação teológica: do aspecto transcendente ao aspecto imanente da divindade. O antropomórfico (mulher) e o teriomórfico (touro) sinalizou o mesmo simbolismo.
A Deusa: Na História das Religiões, a água, este material amorfo cósmico, a partir do qual emerge a vida, muitas vezes assume um caráter feminino. O simbolismo primário da deusa é aquático - associando-a com as águas cósmicas que são seu elemento e seu domínio.  Como o útero cósmico da vida, ela é descrita como uma vaca e negra. Esta deusa negra representa a imanência divina.
A ideia de um Ser Divino, uno e universal, que se mistura com o mundo material, que emanou sua substância e não foi criado por ele, é encontrado em todas as bases das crenças. Causa e protótipo do mundo visível, um deus-natureza tem necessariamente uma essência dupla; ele possui os dois princípios de toda a geração terrestre, o ativo e o passivo, masculino e feminino; é uma dualidade na unidade, um conceito que, em conformidade com a duplicação dos símbolos, deu à luz a ideia de divindades femininas. A Deusa, nas religiões semíticas, é considerada uma manifestação [ao invés de reflexo] do Deus ao qual Ela corresponde.
O Touro: Como fecundador por excelência, de fato o protótipo da fertilidade masculina, o Touro é o 'atributo animal’ primordial do Deus Criador no mundo antigo. Este Touro Divino, ou seja, o touro usado para representar o deus criador todo-poderoso, foi um touro preto.
Os elementos essenciais e distintivos da importância do touro na Antiguidade são o reconhecimento de sua nobreza como um senhor dos animais e seu poder altamente concentrado, coordenado. O touro é a epítome do chefe, portanto, do rei. O touro é sempre retratado em todo o seu vigor, potência e beleza.
De acordo com o mito do Deus Negro o deus-criador surgiu a partir dessas águas como um "  deus-sol ", inicialmente possuindo um corpo de luz branca brilhante ou ouro, mas depois escolheu para encobrir este ardente, corpo transcendente, com um corpo negro mais acessível, tolerável (por suas criaturas), criado das águas primordiais. É este corpo negro aquático que é representado pelo touro preto. Em termos geométricos, o "deus-sol", com seu corpo luminoso transcendente, é análogo ao círculo, enquanto a imanência do retângulo é análogo ao corpo negro aquático, teriomorficamente representado pelo touro preto e antropomorficamente representada pela Deusa Negra. Em outras palavras, tanto o touro negro e da deusa negra representam a imanência física do Deus-Criador do mundo.
O motivo mítico por trás dessas expressões é a seguinte: na forma de um homem divino luminoso (Deus-Sol), o Deus-Criador emerge das águas primordiais, o último personificado como uma vaca e descreveu como sua "mãe”. Por que o Deus-Sol voltou para sua 'mãe', as águas primordiais, para produzir um novo organismo - o corpo negro – se diz que ele copulou com ela, que agora também é descrita como sua" esposa ". Esta cópula, no entanto,  o reproduziu novamente, renascido através dela, mas agora como o imanente Deus Negro, com um corpo negro da matéria negra primordial.
O total da Divindade é concebido como uma tríade bissexual - Deus Pai, Deus Filho e ‘Deus Mãe' - mas a teologia insiste que Deus é consubstancial e coeterno desde o início, por isso o sistema pelo qual Deus Pai gera o Deus Filho através do corpo do ‘Deus Mãe’ se reproduz indefinidamente, de modo que a Mãe de Deus é também a Esposa de Deus, a Irmã de Deus, e até mesmo a Filha de Deus.
A "nova religião" não é um "monoteísmo feminino" ou uma "religião centrada na Deusa". O papel da Deusa nesse mito não é tão como um singular "poder de criação de vida", nem é o Deus Touro "efêmero e mortal" em relação a ela.
Por milênios o Deus-Touro, o Deus-Pai da força e da fertilidade, foi incontestavelmente o Deus supremo do antigo Oriente Médio. A Deusa neste mito é uma matriz, a materia prima a partir da qual a vida surgiu, mas o papel do Criador do cosmo é reservado para o Deus masculino, o Deus Touro. A Deusa aparece como complemento do Deus e, simbolicamente, como a personificação da substância aquática de corpo terreno do Deus. Este mistério, da união do Deus masculino e a matéria primordial aquática, personificado como a Deusa Mãe, está no centro da "nova religião", como evidenciado pelos sistemas de mistério posteriores.
Fonte: “Black Arabia and the African Origins of Islam”, de Wesley Muhammad, pg. 31 – 33.
Traduzido com a ajuda do Google Tradutor.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Um herege na bruxaria gourmet

Eu fui ao Mystic Fair, levando comigo minha esposa. No ano anterior eu fui sozinho e peguei fila. Desta vez a entrada foi mais tranquila. Entre o ano passado e este, a única mudança fica por conta da posição e quantidade dos expositores.
Na falta de alternativa ou concorrência, palmas para a Prieto Produções e vaias para a Comunidade Pagã Brasileira. Para quem se presta a frequentar ou expor a feira, vale a pergunta: por que não existe alternativa e concorrência?
A página da UWB e o Jornal do Bruxo morreram. Na falta de pessoas mais sérias, nós somos representados por figuras que parecem egressas de algum jogo de RPG ou de um Cosplay.
Essa é a impressão que fica quando se visita a Mystic Fair.
Enquanto pagãos no mundo discutem sobre “apropriação cultural”, o Brasil é um território favorável e propício para o vigarista, o estelionatário e o farsante. A Mystic Fair é o Polishop da espiritualidade alternativa. Um espaço onde se encontram diversos produtos e serviços. Todo está acessível, consumível, descartável. Um espaço marcado pelo esoterismo de conveniência. Esqueça qualquer sentido de espiritualidade, o que vale é o Deus Mercado. E Viva o esoterismo prêt-à-porter.
Bons tempos quando a Bruxaria era uma prática familiar e secreta, era temida, era respeitada. Entre bruxos tradicionais a Wicca é considerada uma bruxaria com alvejante. Com a chegada das religiões da Deusa e o dianismo, aconteceu a popularização da Wicca, que jogou mais cândida no caldeirão. O que temos hoje é a Bruxaria Gourmet.
Aqui o conceito de Bruxaria se refere a crenças e práticas que visa a obtenção de um efeito mediante a utilização de diversas ferramentas.
Nós estamos vendo uma verdadeira onda de gourmetização, mas que diabos é isso?
Gourmet é um ideal cultural associado com a arte culinária da boa comida e bebida, de haute cuisine (alta cozinha). Assim um vinho ou um restaurante diz-se gourmet quando este é de alta qualidade e está reservado a paladares mais avançados e a experiências gastronômicas mais elaboradas. Por consequência os produtos e ou refeições gourmet são normalmente mais caras que os seus equivalentes não gourmet.
Este termo poderá ser encarado por alguns como uma conotação negativa, pois poderá estar associado a elitismo ou snobismo, porém a sua utilização geral e mais comum não possui esta conotação. [Wikipédia]
O termo gourmet era usado com cuidado, para definir a arte da boa comida e bebida. Designava os verdadeiros conhecedores e apreciadores de vinho e da gastronomia, que prezavam pela qualidade e autenticidade do que degustavam.
Hoje tudo é gourmet. Até o brigadeiro (leite condensado + chocolate em pó + granulado), hoje é gourmet. Castanhas, frutas secas, paçocas… tudo isso é adicionado para que o simples brigadeiro se torne uma iguaria gastronômica. [Luiz Felipe Ennes]
Na era da “gourmetização”, um produto não carece de ingredientes sofisticados ou exóticos ou mesmo de origem e preparo ímpares. Com um toque mágico, o rótulo converte-se em poderoso adicional simbólico: escreve-se gourmet (ou premium, vip, top, chic, premier, prime e por aí vai, os termos, estrangeiros, abundam) e cobra-se o dobro. Assim engabela-se o crescente exército de incautos consumidores entregues ao modismo da vez. Da “onda da pizza gourmet”, como anunciou um jornal, à “febre das cervejas premium”, como decretou outro, o Brasil se vê em meio a uma confusa revolução conceitual, estampada em embalagens insidiosas e propalada pelo boca a boca nouveau riche. [William Vieira]
Tal como a indústria de imóveis tornou popular o “espaço gourmet”, onde o proprietário, por uma módica quantia, pode usufruir de uma churrasqueira em sua varanda, a Mystic Fair é o espaço da Bruxaria Gourmet. Nada mais normal e natural, para o consumidor ávido, cosmopolita e espiritualizado, do que ter um espaço onde ele tem acesso a tudo que ele quer para sua ascensão espiritual. Nada mais normal e natural, para tantos vendilhões do templo, do que expor seu esoterismo de conveniência para um público cada vez mais crescente.
Por favor, caro dileto e eventual leitor, não pense que este escritor condena o dinheiro, a riqueza ou a propriedade, afinal, para o Paganismo, tudo que é mundano é sagrado, é divino. Minha queixa é que o esoterismo de conveniência esvazia todo o conteúdo e conceito sagrado que um objeto possa ter.
Eu vou dar um exemplo bem frugal: cerveja. Eu tomei várias cervejas importadas e algumas até valem o preço que eu paguei. Mas o preço da cerveja do Mestre das Poções não está nos seus ingredientes, mas na fase da lua em que a cevada foi colhida. Quem acredita em astrologia e nas fases da lua vão querer me bater, mas a lua é a mesma, suas “energias” são as mesmas, independentemente de sua “fase” ou localização no manto de Nix.
Imagine então quando pensarmos em produtos menos frugais e mais específicos. Para quem conhece e sabe, a Mystic Fair oferece a oportunidade de adquirir um produto que normalmente só se conseguiria importado. Mas como a feira é aberta a todo o público, a noção que fica é que não há problema algum em misturar objetos do candomblé com objetos do budismo. Como se pode ter alguma ascensão espiritual se toda espiritualidade é vivenciada de forma tão supérflua, mercantilizada, comercializada, objetificada? Parece impossível, mas não se preocupem, não irão faltar “boas pessoas” que irão te orientar como “se usa” e não faltam palestras e workshops que irão “te ensinar” essa espiritualidade de conveniência.
Nessas horas que eu dou graças aos Deuses por ser herege, por ser bruxo, por ser apenas mais um pagão ordinário.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A Abóbada Espiritual

Após a leitura do livro “Rootwork”, de Kefron Primeiro, eu tive uma pequena janela da imensa contribuição espiritual da cultura africana para as Américas. Em todos os países onde os africanos vieram, como escravos, para as colônias espanholas, portuguesas, inglesas e francesas, ali surgiram as diversas religiões da Diáspora Africana.
No Brasil, as mais conhecidas são a Umbanda e o Candomblé, mas pouco se fala do Tambor de Mina, a versão brasileira do Voudun, no Maranhão. Até o momento eu não encontrei um estudo sério sobre a Quimbanda. Eu tive uma única referência com o Culto de Ifá.
Entre nossos irmãos da América Latina, as religiões aborígenes se misturaram com as religiões da Diáspora Africana, resultando em um caldeirão de expressões religiosas colorida e sincrética. Esse padrão pode ser visto na América Central, no Caribe e também na Terra do Tio Sam.
O livro de Kefron Primeiro fala especificamente do Hoodoo, que no Brasil é chamado de Pajelança, presente na Juremeira e nas práticas de mestres raizeiros. Poucos são os livros que ousam ser tão explicitos nas crenças e práticas populares. Mas Kefron não trata de outros temas, ferramentas e práticas inerentes ao Hoodoo, porque certamente causaria um grande reboliço na Comunidade Pagã, infectada com o provincianismo, com a dúbia moralidade cristã.
Olhando o oráculo virtual [Google] eu encontrei uma informação interessante e curiosa na Santeria, que é a Abóbada Espiritual. Essa informação é importante porque mostra a importância do culto aos mortos, algo que curiosamente é ignorado, omitido, negligenciado pelas celebridades pagãs. Como eu não tenho rabo preso nem medo da patrulha bruxesca, eu vou traduzir e transcrever uma página sobre essa prática.
A atenção aos Eguns ou defuntos ocupa um papel importante na Santeria. Fazer oferendas e homenagens aos finados constitui uma parte essencial desta religião.
Existem diferentes maneiras de cumprir com o culto aos antepassados, mas o recurso mais conhecido é a abóbda espiritual, feita de uma mesa com uma toalha branca e vasos cheios de água. Cada vaso representa um determinado defunto ou espírito de devoção da pessoa. Também podem Ter fotos relacionadas com os ancestrais.
O objetivo fundamental da abóbada espiritual é pôr em prática uma máxima importante para quem participa da Santeria: “Iku lobi ocha” que se traduz como: “o morto pariu o santo”, frase que expressa a necessidade de cumprir sempre com a reverência aos Eguns.
A abóbada espiritual constitui em um receptaculo para que os espiritos presentes na vida da pessoa não criem nenhum tipo de pertubação ou molestia causados pela falta de atenção. Igualmente serve para que as pessoas possam desenvolver ou aperfeiçoar suas inclinações espirituais.
Quando se monta a abóbada espiritual se busca concentrar a energia dos Eguns que são parte de nosso quadro espiritual e a dos nossos antepassados. A abóbada serve como receptáculo desta energia e, portanto, constitui o lugar aonde se vai conversar com diversos espíritos, cujos poderes podem ser invocados por quem montou a abobada, por interesse p´roprio ou de outras pessoas. Deve se entender que possuir [uma abóbada espiritual] é começar um processo de interação com nossos antepassados e nosso quadro espirituall. É Ter um aponte de comunicação que nos permitirá fortalecer nossos vinculos com eles.
Original: [http://www.es.santeria.fr/2012/06/01/que-es-la-boveda-espiritual/]
As páginas e praticantes de Santeria, entretanto, deixam bem claro que é necessário ter a devida preparação e consagração, dentro da Santeria, ou da tradição na qual este Culto aos Ancestrais está codificado. Isso não é elitismo, não é preconceito nem tem a pretensão de proibir suas práticas. Apenas é o respeito e humildade que toda pessoa deve ter ao querer entrar e fazer parte de uma religião, crença ou caminho espiritual.

sábado, 5 de dezembro de 2015

O animal interno

Um dos épico mitológicos mais conhecidos do norte da Europa é Beowulf, um herói que era meio homem e meio lobo. A ligação do homem com o lobo está presente em nosso mundo contemporâneo através de seu primo mais doméstico, o cachorro.
No entanto, outras lendas mostram que nem sempre a relação do lobo com o homem foi amigável. Um conto de Charles Perrault e dos Irmãos Grimm,“O Chapeuzinho Vermelho”, nos mostra uma analogia perturbadora. Um lobo que se veste, se comporta e fala como homem, um lobisomem, como Beowulf, tem um enredo diferente e nos remete a esse aspecto lendário de nossa própria natureza. O que torna o lobo perigoso não é seu lado animal, mas eu lado humano.
Outras lendas podem ter dado origem ao conto do Lobo Mau. Usando a enciclopédia virtual, Wikipedia, eu encontrei diversas lendas com lobisomens.
A Irlanda fala do Reino de Osraige, cujos reis eram tidos como descendentes de Laignech Fàelad, um guerreiro-lobo mítico, tal como os Berserkers, temidos guerreiros nórdicos.
A França conta da cidade de Gevaudan, que era constantemente atacada por um lobo. Segundo as descrições, sua pele tinha um tom avermelhado, e foi dito emitir um odor insuportável. Ele matava suas vítimas rasgando suas gargantas com os dentes. A Alemanha conta da cidade de Ansbach, mas desta vez o lobo era identificado como sendo a reencarnação do cruel burgomestre desta cidade. Em ambos os casos, as vitimas eram crianças e jovens. Mas nenhum destes homens-lobo tinham um nome. Existe, entretanto, lendas com os nomes de notórios e famigerados homens-lobo.
Na França, temos Gilles Garnier, o lobisomem de Dole, acusado também de praticar bruxaria. Na Estonia, temos simplesmente Hans, o lobisomem de Idavare, igualmente acusado de praticar bruxaria. Entre a Holanda e Alemanha, na cidade de Limburgo, temos Henry Gardin, acusado de ser lobisomem e praticar bruxaria. Na Suécia, em Livônia, temos Thiess de Kaltenbrun, que confessou ser lobisomem, mas curiosamente alegou que o fazia para combater as bruxas e garantir a colheita, como fazem curandeiros e benzedoras. Por fim, na cidade de Bedburg, Alemanha, o mais famigerado a ponto de ser transformado em canções, livros e teatro, é o lobisomem alemão chamado Peter Stump, condenado por ser lobisomem e praticar bruxaria.
Durante a Idade Média e o início da Idade Moderna, tanto a bruxaria quanto a licantropia foram consideradas meras susperstições pelos senhores do conhecimento. No entanto as lendas e mitos de ambos se misturam, como um aviso de que é necessário conhecermos nossa verdadeira natureza espiritual. Para o mundo contemporâneo, niilista e individualista, apontar para a existência de um mundo espiritual na natureza e no próprio homem tornou-se um absurdo.A Psicologia e a psiquiatria tratou de categorizar tais mitos como sendo meras manifestações de doenças mentais. Isto acabou se tornando uma desculpa e justificativa perfeita para muitos criminosos.
Quando algo ia mal em uma sociedade, antes a culpa recaía sobre o “outro”, a sociedade alegremente acusava e condenava um inocente por suas próprias culpas. Nossa cultura de entretenimento trata de reforçar esse comportamento na figura do vilão, um estereótipo daquilo que condenamos mas está vivo dentro de nossas almas. Sem a existência do adversário, do inimigo, nós acabaríamos vendo o quanto de nós mesmos nós projetamos no antagonista.
O ódio, a violência, a necessidade de matar estão bem visíveis em textos, páginas e comentários na internet. No entanto deslocamos o problema ao projetar nossas taras e tabus naqueles que servem de bode expiatório. Isso não resolve o problema, apenas piora e tornamos doente nossa sociedade, nossa humanidade, nossa espiritualidade. Enquanto o mundo ocidental não resgatar suas origens carnais e espirituais como sendo um único fenômeno e aos compreender, continuaremos sendo feras humanas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Decifrando a Deusa Trans/gênero/cedente/gressora

Pagãos, bruxos e sacerdotes têm citado trechos de textos e mitos antigos para agradar a população LGBT, que tem se expandido no Paganismo Moderno.
Nós não somos uma religião de livro, mas eu tenho notado na Comunidade Pagã uma crescente interpretação dos mitos e textos antigos como se fossem verdades literais.
No Patheos Sarah Amis cita trechos dos antigos hinos à Inanna da sacerdotisa Enheduanna para justificar a androginia sagrada. No Patheos, Dana Corby cita o mito de criação Feri e afirma que este é o mito de criação, tanto da Wicca Tradicional quanto do Ofício.
Quando o pagão moderno estuda sobre os povos antigos, seus mitos, seus ritos e sua visão do divino, ele deve perceber qual era a função, a razão e o propósito, bem como os ritos e cultos. A base de uma crença, uma espiritualidade, uma religião está na busca por realidades eternas, não na satisfação de nosso ego.
Sarah Amis cita o trecho onde Enheduanna atribui a Inanna o segunte discurso:
“Quando eu me sento na cervejaria, eu sou uma mulher e eu sou um jovem exuberante. Quando eu estou presente em um lugar de brigas, eu sou uma mulher, uma figura perfeita. Quando eu me sento junto à porta da taberna, eu sou uma prostituta familiarizada com o pênis; a amiga de um homem, a namorada de uma mulher.”
Mas para compreender a função , a razão e o propósito, temos que compreender a cultura Sumeriana e os mitos de Inanna.
A androginia cerimonial tem uma longa história. Na Mesopotâmia, as pessoas do tempo envolvidas na adoração da deusa são frequentemente descritas em textos literários relacionados aos rituais do templo como andróginos ou sexualmente ambivalentes, eunucos, hermafroditas ou travestis.
As sacerdotisas e os sacerdotes transgêneros têm a habilidade de trespassar, de revelar duas palavras essencialmente diferentes uma da outra. Nessa transgressão, a unidade original da criação do mundo é revelada.
As pessoas de gênero ambíguo atuavam dentro dos limites do ritual do templo. Assim contidos, o rompimento da realidade fabricada permitia aos cultuadores contemplarem a fragilidade de suas realidades construídas e dar espaço à instabilidade dentro de seu mundo predominantemente previsível.
Os aspectos rituais da androginia conectam-se ao propósito sagrado de transgredir para revelar o outro lado, de pertencer a mais de um mundo. Esta transposição espiritual era mais facilmente atravessada pelos andróginos do templo porque eles já haviam atravessado as fronteiras tradicionais da definição de gênero. ["Inanna, Lady of Largest Heart", de Betty De Shong Meador, University of Texas Press]
A inversão de papéis tem sua função, razão e objetivo na propagação da ordem social:
Todas as maiores funções da vida estavam associadas a uma ou mais divindades patronas e um corpo de mitos e rituais. Nossa distinção entre “sagrado” e “profano”, o reino da igreja e da rua seria ininteligível aos gregos antigos. E nós não podemos compreender o mundo deles a menos que nós percebamos que todos os processos da vida estavam interligados com noções místico-religiosas. Estudantes do passado tem procurado por uma teoria, uma chave única, que poderia abrir a porta para a compreensão da natureza e do propósito dos rituais religiosos nas sociedades pagãs. Uma teoria mais velha via no ritual primariamente um proposito imediatamente pragmático: o alvo do ritual era promover a fertilidade da terra e da espécie humana, produzir chuva, pacificar os Deuses ou evitar desastres. A antropologia mais recente tem apontado o papel do ritual como um perpetrador dos valores sociais e normas comportamentais, ou em seus méritos psicológicos como ajudar as pessoas a conviver com as contradições e problemas da vida.
Se o propósito da iniciação é didático, para doutrinar as futuras gerações com os valores das velhas para que a sociedade continue, os rituais de escape tendem a proteger os padrões sociais por providenciar uma liberação temporária e controlada. O significado mais comum que serve a esse propósito é a inversão de papéis, que é tão atestado quanto a iniciação. Nas condições controladas do ritual, o excluído, o submisso e o maldito podem sair das restrições sociais e das limitações da existência. [“Reign of Phallus”, de  Eva C Keuls]
No entanto, os mitos principais e maiores dos Deuses tinham outra função, razão e objetivo:
No rito, o homem se identifica com o primeiro princípio e a mulher com o outro. Essa união reproduz o Hiero Gamos, o Casal Divino, o Andrógino, bem como o mistério da natureza desse mundo, um mundo que é manifestado e condicionado, em que a humanidade aparece como separados em uma dualidade, vão se unir por um instante. No orgasmo sexual, a lei da dualidade é suspensa, o êxtase ocorre e, no arrebatamento, conduz os celebrantes à iluminação absoluta. [“Shiva e Dioniso”, de Alain Danielou]
Os hinos de Enheduanna eternizaram o tremendo poder de Inanna, a única Deusa que desceu ao submundo e voltou por conta própria. O poder de Inanna é tão grande que até os Deuses mais antigos temem sua fúria. Inanna é a Deusa do Amor, mas é também a Deusa da Batalha. Fica evidente que é nesse contexto que Enheduanna atribui a Inanna o poder de mudar o gênero.
Entretanto estes não são os únicos aspectos e atributos de Inanna. Diversos hinos de Enheduanna são canções de Inanna para Dumuzzi. Nestes hinos, Inanna demonstra toda sua exuberância, sensualidade e sexualidade feminina. Estes hinos estão tão carregados de erotismo que seria escandaloso para muitos pagãos modernos verem uma Deusa que exalta ao máximo os atributos mais carnais de toda mulher, tornando sagrado, o desejo, o prazer e o sexo.
Dana Corbi cita o que ela afirma ser o “mito de criação” da Wicca Tradicional e do Ofício:
“A Deusa, sozinha no universo que Ela havia criado, sentiu a necessidade de ter um companheiro, um reflexo, um parceiro. Então ela própria se dividiu para criar esse parceiro e o Deus nasceu. Vê-lo era deseja-lo e a Deusa sentiu desejo. Dançando, mexendo, cantando o primeiro encantamento conhecido, ela o seduziu. Eles se amaram e se tornaram Um novamente e do seu amor o mundo da matéria nasceu.”
Este texto é muito próximo do texto do livro “A Dança Cósmica das Feitiçeiras”, de Starhawk [Tradição Reclaiming/Feri] e muito utilizado pelas tradições diânicas e pelas religiões da Deusa. De acordo com Dana Corbi, este é o “mito de criação” da Wicca Tradicional, inspirado pelo livro “Arádia, o Evangelho das Bruxas”, de Charles Godfrey Leland. Dana Corbi ainda acrescenta que este é o mito de criação “universal” nas velhas formas do Ofício.
Por mais que eu respeite Dana Corbi, como estudante dedicado da Wicca e Bruxaria Tradicional estas afirmações esbarram em diversos problemas. A Bruxaria Tradicional é tão diversificada em suas práticas e crenças que é completamente sem sentido afirmar que haja um “mito de criação universal” nas velhas formas do Ofício. A Wicca Tradicional é Britânica, enquanto o livro de Charles Godfrey Leland fala da Strega, um tipo de Bruxaria Tradicional Italiana. Nos textos atribuídos a Gerald Gardner e nos Livros das Sombras não há qualquer indício de um “mito de criação”.
A Comunidade Pagã está fortemente influenciada pelo “neopaganismo americano”, como bem explicou John Halstead. O mais provável é que covens tradicionais acrescentaram o “mito de criação” da tradição Feri. O crescimento, popularização e comercialização da Wicca resultaram na infiltração de agendas politicas e pessoais. Para o público curioso, interessado e simpatizante, os covens wiccanos tem tentado atender, através de ideias, práticas e teologias mais inclusivas. O que certamente explicaria por que têm aparecido tantos livros de bruxos e sacerdotes voltados para a comunidade LGBT.
Essa confusão aumenta mais quando grupos, covens e organizações, para aumentar o interesse do publico geral, acabam se identificando como sendo wiccanos. Infelizmente o canal de Paganismo do Patheos tem seguido essa tendência. O engraçado é que a própria Comunidade Pagã reclama do “privilégio wiccano”.
O conceito de uma Deusa criadora e transgênero é um mito moderno, construído pelo ser humano, em busca de uma espiritualidade, uma religiosidade e uma crença que satisfaça suas necessidades egoístas. As Religiões Antigas mantiveram por milênios os mitos, os ritos e os mistérios de cada um dos Deuses, mesmo aqueles que acabaram assimilando ou sendo identificados com os Deuses de outros povos.
Nós que somos pagãos modernos e sabemos o quando devemos aos nossos ancestrais, devemos recuperar os valores e princípios das religiões antigas. Nós devemos evitar essa religiosidade de conveniência, essa espiritualidade sintética, essa crença artificial, inventada e vendida para satisfazer a vaidade humana. Nosso serviço é para nossos ancestrais e Deuses.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Os mistérios da Samotrácia

A Grécia Antiga é considerada o berço da civilização ocidental. Estudando suas origens, Grécia Antiga foi formada a partir da miscigenação dos povos Jônios, Dórios, Aqueus e Eólios com os Pelasgos, povo nativo. Os Dórios vieram pelo norte, vindo da região do Épiro, Macedônia e Trácia. Os Jônios, Aqueus e Eólios vieram pelo leste, vindos da península de Anatólia. Atribui-se a estes povos como sendo de origem Indo-Européia, tendo o patriarca mítico Heleno em comum.
Em diversos pontos, tanto históricos, etnográficos, quanto míticos, a origem da Grécia Antiga, da Europa, bem como da dita “civilização ocidental” passa por povos e culturas da Ásia Menor e Oriente Médio. Europa era da Fenícia, Atena era da Líbia, Hecate era de Cária, Ártemis era da Frígia.
Pouco se sabe dos povos Pelasgos, povos nativos que habitavam o que seria a Grécia, mas são atribuídos a eles a formação da civilização Minoica. No entanto, traços de sua cultura e religião foram encontrados na Samotrácia, cujos mistérios tem elementos em comum com as demais escolas de mistérios.
No Wikipédia, eu encontrei um artigo que conta um pouco sobre esses mistérios:
Santuário dos grandes deuses de Samotrácia é um dos principais santuários pan-helênicos, situado na ilha de Samotrácia, na costa da Trácia. Construído imediatamente a oeste das fortificações da cidade de Samotrácia, não dependia dela, como demostram o envio de embaixadores da cidade ao santuário por ocasião de festas. O santuário era celebre em todo o mundo grego pelo culto de mistérios que ali se praticava. Mistérios cabíricos, que não era menos renomado que o de Elêusis e do que o nome dos homens que foram ali iniciados: o historiador Heródoto, um dos raros autores a ter dado informações sobre a natureza dos mistérios; o rei de Esparta, Lisandro, e numerosos atenienses, o culto é mencionado por Platão e Aristófanes.
Um período de espetacular desenvolvimento ocorreu durante o período helenista, quando se tornou, no reinado de Felipe II, um tipo de santuário nacional da Macedônia, onde sucessores de Alexandre o grande rivalizavam em munificiência.
Era um importante lugar de culto ainda na época do Império Romano, o próprio imperador Adriano o visitou e o escritor Marco Terêncio Varrão descreveu uma parte dos mistérios, antes deles se desfazerem ao fim da antiguidade tardia.
Culto dos grandes deuses
A identidade e natureza das deidades veneradas no santuário permanecem enigmáticas, principalmente porque era tabu pronunciar seus nomes. Fontes literárias da antiguidade referem-se a eles com o nome coletivo de Cabiros, enquanto nas inscrições locais eram referidos simplesmente como deuses ou grandes deuses.
O panteão de Samotrácia
O panteão dos grandes deuses consiste de numerosas deidades ctônicas, na maioria anteriores à chegada dos colonos gregos, no século VII A.C., reagrupados ao redor da figura central da Grande Mãe.
A Grande Mãe, deusa frequentemente registrada em moedas de Samotrácia como uma mulher sentada, com um leão ao seu lado. Seu nome secreto original era Axiéros. Associada com a Grande Mãe da Anatólia, com Cibele, a deusa da Frígia, e com a deusa mãe de Troia do monte Ida. Os gregos associaram suas qualidades à deusa da fertilidade Deméter. A Grande Mãe é a toda-poderosa senhora do mundo selvagem das montanhas, venerada sobre as rochas sagradas onde eram oferecidos sacrifícios. Dentro do santuário de Samotrácia, seus altares correspondem a porfírias, afloramentos rochosos de várias cores (vermelho, verde, azul ou cinza). Para seus fiéis, seu poder também se manifestava em veios de ferritas magnéticas, de que faziam anéis que usavam como forma de identificação. Alguns exemplares foram encontrados no cemitério vizinho ao santuário.
Em Samotrácia se veneravam também Hecate, com o nome de Zeríntia, e Afrodite-Zeríntia, duas importantes divindades, com igual devoção. Ali esse culto se distanciou do da Grande Mãe e se identificou mais com divindades mais familiares aos gregos.
Cadmilo, o esposo de Axieros, é um deus da fertilidade identificado pelos gregos com Hermes, uma divindade cujos símbolos eram uma cabeça de carneiro e um bastão (kerykeion), um evidente símbolo fálico, e que pode ser encontrado com alguma frequência.
Duas outras deidades masculinas acompanham Cadmilo. Eles correspondem aos dois legendários heróis que fundaram os mistérios de Samotrácia, os irmãos Dardanos e Éetion. Eles eram associados aos Dióscuros, dois populares gêmeos protetores dos marinheiros em perigo.
Um par de divindades do submundo, Axiokersos e Axiokersa, eram identificados com Hades e Perséfone, mas não parecia fazer parte do grupo original de deidades pré-helênicas. A lenda, familiar aos gregos, do rapto da deusa da fertilidade pelo deus do subsolo também era parte dos dramas sacros celebrados em Samotrácia, embora menos que em Elêusis.
Durante um período tardio, este mesmo mito foi associado com o casamento de Cadmo e Harmonia, possivelmente pela semelhança com os nomes de Cadmilo e Electra.
Os ritos
O espaço do santuário era aberto a todos que desejassem cultuar os deuses, embora as edificações consagradas aos mistérios era reservada somente aos iniciados. Os ritos mais comuns não se distinguiam daqueles praticados nos outros santuários gregos: preces e súplicas acompanhadas de sangrentos sacrifícios de animais domésticos (carneiros e porcos), queimados em holocausto no fogo sagrado, assim como libações feitas às divindades ctônicas nos tanques rituais de forma circular ou retangular, os botros (bothroi), eram utilizados numerosos altares de pedra, o maior coberto, no fim do século IV A.C. por uma cobertura monumental .
O grande festival anual, para o qual vinha gente de toda Grécia, provavelmente ocorria no meio de julho. Consistia na representação de uma peça sagrada, mostrando o casamento ritual (hiero gamos). Ele ocorria no edifício com o friso das bailarinas, construída no século IV A.C.. Nesta era se acreditava que a procura da virgem desaparecida e seu casamento com o deus do submundo representava o casamento de Cadmo e Harmonia. O friso que dá nome ao recinto pode ser uma alusão a esse casamento.
Por volta de 200 A.C., uma competição dionisíaca foi adicionada ao festival, facilitada pela construção de um teatro oposto ao grande altar. De acordo com mitos locais, foi nessa época que a cidade de Samotrácia honrou o poeta Iasos em Cária por ter composto a tragédia Dardanos e ter feito outros sobre a ilha, a cidade e o santuário.
Numerosas ofertas votivas eram feitas ao santuário, e eram guardadas num edifício próprio, próximo ao grande altar. As oferendas podiam ser estátuas de bronze, mármore ou argila, armas, vasos, etc. Outrossim, como Samotrácia era local de frequentadas rotas marítimas, o culto das Cabíriasera muito popular, e numerosas ofertas votivas , embora muito modestas não menos intensas, lhes eram destinadas: conchas e anzóis foram encontrados em escavações, ofertas de marinheiros e pescadores pela proteção contra os perigos do mar.
A iniciação
A característica única do culto de mistérios em Samotrácia era sua abertura, em comparação com Elêusis, a iniciação não tinha pré-requisitos de idade, género, posição ou nacionalidade. Todos, homens, mulheres, adultos e crianças, gregos ou não, o livre, o liberto ou o escravo podiam participar. A iniciação não era limitada a uma data precisa, e podia-se ser iniciado nos dois graus sucessivos dos mistérios no mesmo dia, a única condição era de fato estar presente no santuário.
A primeira etapa da iniciação era a myésis, o mystes, quer dizer o iniciado, recebia a revelação de um relato sagrado e símbolos sagrados lhe são mostrados. No caso de Heródoto, a revelação mostrou a interpretação dos símbolos itifálicos de Hermes - Cadmilo. segundo Varrone, o símbolo revelados nesta ocasião representavam o céu e a terra. Como resultado dessa revelação, que devia permanecer secreta, o iniciado tinha assegurado alguns privilégios, como a esperança de uma vida melhor, proteção no mar, e a promessa, como em Elêusis de um pós-morte mais feliz. Durante a cerimonia, o iniciado recebia uma faixa de pano vermelha, amarrada na cintura que se supõe ser um talismã protetor. Um anel de ferro exposto ao divino poder de pedras magnéticas era provavelmente outro símbolo de proteção entregue durante a iniciação.
A preparação para a iniciação ocorria numa pequena construção ao sul do Anaktoron , um tipo de sacristia onde o iniciado era vestido de branco e recebia uma lâmpada. A myésis então ocorria no Anaktoron, literalmente Casa dos senhores, grande salão capaz de acomodar numerosos fiéis já iniciados, que podiam assistir a cerimonia sentados em bancos ao longo das paredes. O candidato à iniciação praticava uma lavagem ritual em tanque situado no canto sudeste e então fazia uma libação aos deuses em um fosso circular. Ao fim da cerimonia, ele tomava seu lugar sentado numa plataforma de madeira circular em frente à porta principal enquanto danças rituais ocorriam ao seu redor. Eram então levados ao salão norte, o santuário onde recebia a revelação propriamente dita. O acesso a esse santuário era interdito a todas as pessoas não iniciadas. Recebia um documento atestando sua iniciação nos mistérios e podia, ao menos no período final, pagar para ter seu nome gravado em uma placa comemorativa.
O segundo grau da iniciação era chamado épopteia, literalmente a contemplação. Em vez de um ano de intervalo entre os graus, como exigido em Eleusis, o segundo grau, não obrigatório, em Samotrácia podia ser obtido imediatamente após a myésis. A despeito disso, era realizado por um pequeno número de iniciados, que nos leva a crer que envolvia outras condições, embora não fossem nem financeiras nem sociais. Lehman assegura que envolvia condições morais, quando o candidato era interrogado e devia confessar seus pecados. Esta audiência ocorria à noite em frente ao Hierão. Escavações revelaram a base do que devia ser uma tocha gigante. De um modo geral, a descoberta de numerosas lâmpadas e tochas naquele lugar demonstra a natureza noturna dos ritos principais. Depois do interrogatório e eventual absolvição certificada pelo sacerdote ou oficiante, o candidato era trazido ao Hierão, que também funcionava como épopteion, ou lugar de contemplação, onde ocorria um ritual de purificação e sacrifícios eram feitos num espaço sagrado , localizado no centro do recinto. Era conduzido aos fundos do prédio, que tinha a forma de uma gruta. O hierofante, também conhecido como iniciador, tomava seu lugar numa plataforma na abside onde recitava a liturgia e expunha os símbolos dos mistérios.
Durante a era romana, cerca do ano 200, a entrada do Hierão foi modificada para permitir a entrada de vitimas para serem sacrificadas. Um parapeito foi construído para proteger os espectadores e uma cripta foi posta dentro da abside. Essa modificação permitiu a celebração do Kriobolia e do Taurobolia do culto anatoliano da Grande Mãe, agora introduzidos na epoptéia. Os novos ritos faziam o iniciado, ou somente o sacerdote em seu nome, descer por uma fossa onde o sangue dos animais sacrificados era vertido sobre ele, selando um rito de natureza batismal.
A organização do santuário
A planta do santuário de Samotrácia pode parecer confusa a primeira vista, isso é resultado da topografia muito particular do local, assim como da sucessão de diferentes etapas de construção repartidas por dois séculos. O santuário ocupa, na face ocidental do monte Hagios Georgios, três terraços estreitos, separados por dois canais de água. A entrada é pelo lado leste através do propileu (propylaeum) de Ptolomeu II, conhecido como Ptolémaion que protege o lado ocidental e funciona como ponte. Imediatamente a oeste, no primeiro terraço, uma depressão cercada de degraus circulares, com um altar no centro, devia servir de área de sacrifícios, embora não se possa saber com precisão sua função. Um caminho tortuoso descia pelo terraço principal onde se encontravam os principais monumentos do culto. Um grande tolo, o Arsinoéion, ou como é chamada, a rotunda de Arsinoé , a maior sala circular coberta do mundo grego (20 metros de diâmetro ), servia para acolher os theóres, os embaixadores sacros delegados pelas cidades ou associações às grandes festas do santuário. A decoração com rosetas e bucrânios (cabeças de boi ornadas com guirlandas) faz pensar que sacrifícios podiam também acontecer. A rotunda foi construída sobre uma base mais antiga ainda, mesmo que dela só sobreviveram as fundações. A direita do pátio aberto a direita do santuário, acha-se o maior edifício, O Prédio do friso das bailarinas, as vezes chamado Têmenos, local que corresponde a uma área fechada monumental muito mais antiga. A reconstituição de sua planta varia consideravelmente, segundo o autor. É em essência um salão precedido por um propileu jônico, decorado com o bem conhecido friso das bailarinas é atribuído ao celebrado arquiteto Escopas.
O edifício mais importante para o culto, o epoptéion, está localizado ao sul do Têmenos. Ele ostenta o nome de Hierão. Não se sabe quem dedicou este edifício, mas dada a magnificência foi certamente real. é uma espécie de templo, mas não tem periptério (filas de colunas) e só um simples próstilo (em parte restauradas). Os ornamentos arquitetônicos da fachada revelam grande elaboração. O espaço interior corresponde ao maior vão livre (11 metros) do mundo grego. A construção termina ao sul por uma abside inscrita, que constitui, como o altar de uma igreja, a parte mais sacra. Esta abside pode representar uma gruta destinada a rituais ctônicos. O altar principal, e a construção que abriga as ofertas votivas estão localizados a oeste do Hierão.
O Anaktoron, edifício onde ocorria a myésis, localiza-se ao norte da rotunda de Arsinoé, e segundo as versões correntes é da era imperial. O terceiro e final terraço, a oeste do centro espiritual do santuário, foi primariamente ocupado por edifícios votivos, como o Miletean, assim chamado por ter sido dedicado por um cidadão de Mileto , e o Neório, ou monumento naval . O edifício dos banquetes também era aqui. Três outros pequenos tesouros helênicos não são bem conhecidos. Observando o terraço central, o espaço é todo dominado por um comprido pórtico (104 metros) que atuava como um monumental plano de fundo do santuário, atrás do teatro. É nesta parte do sitio que estão os mais recentes traços de ocupação, um quadrado forte bizantino construído com um tesouro, já que reutilizou o material das construções originais.
Original no Wikipédia.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Yatukih Dinoih

“…Então veio Angra Mainyu, que é todo Morte e criou com sua bruxaria o pecado maligno dos Yatûs;
E é assim que a Natureza dos Yatûs se mostra: Ela se mostra pelo Olhar; e cada vez que um
Yatu Uiva seus feitiços a noite, os trabalhos mais mortais de Bruxaria são feitos…”
-Zend Avesta, Livro: ‘Venidad’, p; 120.
Os Persas foram um povo que habitou a região onde atualmente se situa o Irã. O Império Persa foi simplesmente um dos maiores, mais bélicos e mais poderosos, dominando boa parte do Oriente Médio durante seu apogeu. Ficaram famosos recentemente com o filme “300” onde o Imperador Xerxes é interpretado por um famoso ator brasileiro.
Durante o princípio do Império, com o enriquecimento da Pérsia, a religião Védica (baseada nos Vedas, os livros hinduístas – e, portanto, uma forma de Hinduísmo) passou a se tornar totalmente elitista. As altas classes participavam dos cultos, enquanto os camponeses eram deixados do lado de fora dos templos. Neste contraste social, surge um homem chamado Zoroastro, que diz ter sido visitado por um “Anjo” (um “Amesha” na língua persa “Palavi”).
Zoroastro passa a disseminar o Zoroastrismo pela Pérsia, que é logo bem aceito pela imensa maioria da população – e aderido pelo Imperador, que institui como religião oficial persa para obter apoio do povo, encerrando o elitismo dentro da religião.
Dentro deste contexto histórico e social de implantação do Zoroastrismo (também chamado Zurvanismo), é elaborada a primeira produção teológica da pérsia, denominada “Zend-Avesta”, o livro da revelação de Zoroastro. Esse livro narrava a criação do mundo e das terras por Ahura Mazda (“Espírito de Luz”, o Deus Único do Zoroastrismo), dos “Anjos” (os Ameshas, auxiliares de Ahura) e como o Deus das Trevas, Angra Mainyush, conhecido por aqui como “Ahriman” passou a contra-criar o mundo. Segundo os mitos Persas presentes no Avesta, Ahura Mazda teria trapaceado Angra Mainyush para obter controle do mundo e habitar na luz. Angra Mainyush estaria então apenas “fazendo justiça” a seu irmão gêmeo.
Sendo marcada por um forte Maniqueísmo, existe um contraste entre Ahriman e Ormazd (outro nome de Ahura Mazda). Enquanto o Deus da Luz era “monoteísta”, possuía liturgias próprias e bem demarcadas e abominava determinadas ações, atos sociais e possuía dogmas rígidos, Ahriman era liberalista. Ele cria, como Deus das “trevas”, a “Bruxaria e a Feitiçaria” – ou Yatukih Dinoih, na língua Palavi.
A Bruxaria Yatukih é, portanto associada à Ahriman. Os Yatus e Pairikas (Feiticeiros e Bruxas respectivamente) eram aqueles que se opuseram as novas regras religiosas e sociais. Renegados que, ao invés de pedir as bênçãos da luz e oferecer o “Soma” (bebida alucinógena consumida nos templos) a Ormazd e reverenciar o fogo sagrado, ofereciam seu sangue, ossos de animais e outras oferendas aos chamados “Daevas”, os auxiliares de Ahriman.
Dentre as diversas “heresias” praticadas pelas “bruxas e feiticeiros” de Ahriman, estavam o ato de enterrar os corpos dos mortos (era proibido “poluir a terra”), tocar o fogo sagrado dos templos, a aceitação da homossexualidade como algo natural, a não subjugação da mulher, entre outros.
Dentro do sistema da Bruxaria propriamente dita, os Yatus se relacionam com a Natureza, os elementos presentes nela. Os planetas, por terem movimentos inconstantes são associados a Ahriman e a sua corte composta por 7 Daevas. O símbolo de Ahriman é o Pavão, a mais bela das aves. Narra a lenda que ele teria criado os Pavões para provar ser capaz de bons atos e boas criações, seus atos de contra-criação sendo apenas uma retaliação contra a injustiça sofrida, que o fez perder a coroa de Deus supremo para seu irmão gêmeo, Ormazd.
Ou seja, a magia Elemental, Planetária, a Necromancia, os Oráculos, o culto a Ahriman e sua corte, bem como a evolução por si, independente das “regras” impostas por Zoroastro e o culto a Ormazd resumem em poucas palavras (e de forma realmente sintética, pois é algo muito extenso a ser descrito em apenas uma postagem), o que é a base da Bruxaria Persa – que libertada os seres humanos da “vontade divina” e permitia que, através da magika, eles criassem seu próprio destino.
Ba Nam I Ahereman.
Azi Dahaka.
Publicado em: Arauto do Caos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O mistério do tirso

A civilização ocidental deve suas realizações intelectuais pelas conquistas de duas culturas antigas. A origem da linguagem e da escrita são heranças que vieram do Egito Antigo. Nossa compreensão da natureza, ciência e razão são heranças que vieram da Grécia Antiga. Entretanto a humanidade ainda tem um benfeitor desconhecido e misterioso na forma de uma árvore. Mas não qualquer árvore. Um cipreste, do gênero Callistris, desempenhou um papel tão importante na civilização humana quanto um faraó ou um filósofo.

A Árvore da Vida

Mesmo nos textos sagrados das religiões patriarcais, persistiram os indícios de uma antiga religião onde certas árvores eram sagradas. As madeiras destas árvores eram tão sagradas que fizeram parte da confecção da mítica Arca de Noé e da mítica Arca da Aliança. Uma destas árvores é o cipreste que na Etiópia é chamada de thyia, que é o nome da região onde estas árvores são cultivadas e os reis etíopes tinham um vínculo com essa árvore. Quando a Assíria começou sua expansão imperial, reis etíopes e faraós fizeram uma coalizão para resistir, movendo os centros culturais da Ásia e da África para lugares mais seguros no sul da Europa. Para liderar estes cetros de cultura uma rainha, também sacerdotisa, foi escolhida, recebeu o titulo de Thyia, a “Mãe Sagrada das Árvores” e foi conhecida como Atena Nikephoros.

O cipreste era igualmente sagrado para o Deus Ormuz, do Zoroastrismo, seus adoradores deixaram diversos petróglifos com o cipreste na forma de Árvore da Vida saindo do corpo da Serpente Cósmica.

Outros santuários foram fundados em Delfos, Dodona, Tebas, etc. Estes santuários eram liderados por uma alta sacerdotisa e mantinham virgens no ofício sacerdotal. Seus rituais eram pontuados com a queima da resina do cipreste, que é a Fumaça Sagrada e o incenso da profecia.

O tirso era o instrumento de fertilidade utilizado para propagar as florestas de ciprestes, aonde os oráculos eram estabelecidos. Cabia às sacerdotisas realizar o ritual de reposição a cada ano. Em grupos, as sacerdotisas levavam ramos de cipreste carregados de sementes, enquanto elas dançavam em êxtase. Ao garantir a fertilidade do cipreste, garantiam a expansão de outros centros culturais, assim o tirso tornou-se o símbolo da transmissão do conhecimento.

Traduzido e editado livremente a partir do original na Viewzone.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O mistério do logotipo da Starbucks

Em várias cidades urbanizadas e cosmopolitas existe a bem-sucedida franquia do Starbucks Coffe.

Seu logotipo nem sempre foi como nós o conhecemos e de fato ele tem sofrido grandes mudanças desde a sua criação em 1971. O primeiro logotipo conhecido do Starbucks (1971-1987) é a imagem de uma sereia com duas caudas, inspirado por uma ilustração de um livro norueguês do século XV. Inicialmente o Starbucks vendia chá, grãos de café e especiarias.[ blckdmnds]

Mas esta não é todo o mistério que está oculto no logotipo comercial. A ilustração que serviu de inspiração parar essa cafeteria que é uma franquia multinacional vem do mito de Melusine [Melusina].

Melusina é uma personagem da lenda e folclore europeus, um espírito feminino das águas doces em rios e fontes sagradas.

Ela é geralmente representada como uma mulher que é uma serpente ou peixe (ao estilo das sereias), da cintura para baixo. Algumas vezes, é também representada com asas, duas caudas ou ambos, e, por vezes, mencionada como sendo uma nixie.

Melusina é às vezes utilizada como figura heráldica, tipicamente em brasões de armas no Sacro Império Romano-Germânico e na Escandinávia, onde apóia cada cauda escamosa em um dos braços. Ela pode aparecer coroada. O brasão de armas de Varsóvia apresenta uma sereia (denominada syrenka em polonês) muito semelhante a uma representação de Melusina, brandindo uma espada e escudo. Ela é o espírito das águas do Vístula, que identificou para Boreslaus de Masovia, o sítio apropriado para uma cidade em fins do século XIII.

A mais famosa versão literária dos contos de Melusina, aquela de Jean d'Arras, compilada em cerca de 1382–1394 foi elaborada numa coletânea de "histórias inventadas" pelas damas enquanto teciam.

O conto foi traduzido para o alemão em 1456 por Thüring von Ringoltingen, a versão que tornou-se popular como conto de fada. Foi posteriormente traduzido em inglês (cerca de 1500), e freqüentemente reimpresso tanto no século XV quanto no século XVI. Há também uma versão em prosa chamada a Chronique de la princesse ('Crônica da princesa').

Ela conta como Elynas, o Rei de Albany (um eufemismo poético para a Escócia) saiu para caçar certo dia e deparou-se com uma bela dama na floresta. Ela era Presina, mãe de Melusina. Ele persuadiu-a a casar-se com ele, e ela só concordou sob a condição — pois freqüentemente há uma condição dura e fatal vinculada a qualquer união entre fada e mortal — de que ele não deveria entrar na alcova quando ela desse à luz ou banhasse suas crianças. Ela deu à luz trigêmeas. Quando ele violou este tabu, Presina deixou o reino com suas três filhas, e viajou para a ilha perdida de Avalon.

As lendas de Melusina estão especialmente ligadas às áreas setentrionais, mais célticas, da Gália e dos Países Baixos. Sir Walter Scott narrou uma história de Melusina em Minstrelsy of the Scottish Border (1802—1803), confiante que:

"o leitor encontrará as fadas da Normandia ou Bretanha, adornadas com todo o esplendor da descrição oriental. Também a fada Melusina, que casou-se com Guy de Lusignan, Conde de Poitou, sob a condição de que ele nunca tentasse invadir sua privacidade, pertence a essa última categoria. Ela deu ao conde muitos filhos, e construiu para ele um magnífico castelo através de artes mágicas. Sua harmonia não foi interrompida até que o marido xereta quebrasse as condições da união, ocultando-se para espionar a mulher tomando seu banho encantado. Mal Melusina descobriu o intruso indiscreto, transformou-se num dragão e partiu com um grito de lamentação, e nunca foi mais foi vista por olhos mortais; ainda que, mesmo nos dias de Brantôme, ainda se supunha que ela protegia seus descendentes, e teria sido ouvida lamentando-se nas correntes de ar à roda das torres do castelo de Lusignan, na noite antes que este fosse demolido."

Quando o conde Siegfried das Ardenas comprou os direitos feudais sobre Luxemburgo em 1963, seu nome estava ligado a versão local de Melusina. Em 1997, Luxemburgo emitiu um selo postal comemorativo desta Melusina, que possuía basicamente os mesmos dons mágicos que a ancestral dos Lusignan. A Melusina de Luxemburgo fez surgir o castelo de Bock por mágica na manhã após o casamento dela. Pelos termos do matrimônio, ela exigiu um dia de absoluta privacidade a cada semana. Infelizmente, Sigefroid, como os luxemburgueses o chamam, "não conseguiu resistir à tentação e num dos dias proibidos ele a espiou no banho e descobriu que ela era uma sereia. Quando ele soltou um grito de surpresa, Melusina percebeu-o e a banheira imediatamente afundou-se na rocha sólida, carregando-a com ela. Melusina surge brevemente na superfície a cada sete anos como uma bela mulher ou serpente, carregando uma pequena chave de ouro na boca. Quem quer que tire a chave dela a libertará e poderá tomá-la como sua noiva. "

Melusina é um dos espíritos das águas pré-cristãos que às vezes são responsabilizados pela troca de crianças. A "Dama do Lago" que sumiu com o bebê Lancelot e o criou, era desta espécie perigosa de ninfa das águas.

As três garotas — Melusina, Melior e Palatina (ou Palestina)— cresceram em Avalon. Em seu décimo-quinto aniversário, Melusina, a mais velha, perguntou por que elas haviam sido levadas para Avalon. Ao ouvir sobre a promessa quebrada pelo pai, Melusina jurou vingança. Ela e suas irmãs capturam Elynas e o trancafiam, com suas riquezas, numa montanha. Presina se enraivece quando toma conhecimento do que as garotas haviam feito e as pune por ter desrespeitado o pai. Melusina foi condenada a tomar a forma de uma serpente da cintura para baixo, todo sábado.

Raymond de Poitou encontrou Melusina numa floresta da França, e lhe propôs casamento. Da mesma forma que sua mãe havia feito, ela estabeleceu uma condição, a de que ele nunca deveria entrar no quarto dela aos sábados. Ele quebrou a promessa e a viu sob a forma de uma meia-mulher, meia-serpente. Ela o perdoou. Somente quando, durante uma discussão, ele a chamou de "serpente" em plena corte, é que ela assumiu a forma de um dragão, deu-lhe dois anéis mágicos e se foi para nunca mais voltar. [Wikipédia]

Assim como a casa real dos Merovíngios tem um passado mítico pagão, a casa real de Lusignan, entre muitas outras casas reais francesas, clamou o seu direito de nobreza por sua descendência divina com estas antigas entidades pagãs. Assim como muitas famílias nobres, a casa real de Lusignan instituiu a Ordem de Melusine para os cavaleiros que lutassem nas Cruzadas. Não apenas na França, mas em toda a Europa, famílias reais atribuíam suas linhagens a fadas, ninfas, sereias, serpentes e dragões, algo que foi rapidamente suprimido e omitido quando estes reinos e tronos se cristianizaram. Para a Igreja, não convinha que a Europa se lembrasse de suas raízes e origens ou lembrar que anteriormente as linhagens reais eram matrilineares, assim a Rainha Melisende e a Fada Melusina foram banidas da história oficial.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Os mitos de criação

A Antiguidade tinha diversos povos, cada qual com seus Deuses e mitos. Cada cultura tinha seus ritos, templos e sacerdócios. Na Era Moderna, estudiosos e historiadores da religião como Joseph Campbell e Mircea Eliade notaram que havia sinais, símbolos e ideias em comum entre povos tão distintos e tão distantes, geográfica ou cronologicamente. A questão parece ser simples, mas ainda não há uma explicação cientifica de como tantos povos tinham mitos tão semelhantes entre si. A teoria é de que estes mitos tinham a mesma origem, ou ocultavam o mesmo mistério, eram metáforas e analogias de uma antiga sabedoria.
Um dos temas em comum refere-se aos mitos de criação. Os antigos Egípcios, os antigos Sumérios, os antigos Babilônios, os antigos Gregos e os antigos Romanos tinham mitos de criação muito semelhantes entre si.
Em comum, os mitos dizem que o universo começou a partir de um estado de total entropia ou de total nulidade, definido como Vácuo, Escuridão ou simplesmente Caos. Este estado, evento, circunstância, continha em si todas as condições para o surgimento de tudo que existe, algo bem próximo do que a Ciência chama de Big Bang.
Este estado inicial é indistinto, indiferente, desprovido de consciência ou identidade própria, o que se aproxima do conceito de Mônada, se não fosse seu estado de total entropia, enquanto a harmonia é o estado da Mônada.
Dentro do Caos, surgiram os Deuses Primordiais, brotaram por vontade própria assim que tiveram consciência de suas presenças, existências e consciências. Os Deuses Primordiais são as forças e potências que geraram todo o universo e as demais gerações de Deuses. Geralmente os Deuses da Segunda Geração lutam contra um ou mais dos Deuses Primordiais e os Deuses da Segunda Geração são destronados pelos Deuses da Terceira Geração. Os Deuses da Terceira Geração dão origem ao mundo e ao ser humano, organizam a civilização e a cultura, concedem ao ser humano o Conhecimento e ensinaram ao ser humano todas as habilidades.
O primordial aqui é ressaltar que, embora todos os povos concedam o titulo de Deusa Mãe a uma de suas Deusas, isto não significa que estas Deusas sejam uma única Deusa ou que tenha existido uma antiga religião da Deusa, nos moldes das religiões monoteístas abraãmicas. O titulo de Deusa Mãe era dada a uma Deusa como um honorífico. Estas inúmeras Deusas Mães tinham características, personalidades, identidades, ritos, templos e sacerdócios totalmente diferentes e eram filhas ou netas de Deuses.
Os mitos de criação demonstram que a união de um Deus e uma Deusa é algo primordial para a existência de tudo mais. Nenhum Deus ou Deusa pode ser considerado anterior ou percussor dos demais. Todos os Deuses e Deusas foram gerados pela união sexual entre Deuses e Deusas. Mesmo o nascimento de Dioniso e Atena tem mitos que precedem.
Ainda que existam mitos como o do Divino Andrógino e dos Gêmeos Divinos, estes são mitos e mistérios que estão inseridos dentro de um contexto mítico maior. Nenhum Deus ou Deusa, da geração Primordial ou da Segunda Geração possuem atributos hermafroditas, este é um mito que aparece na Terceira Geração e mesmo assim na forma da verdadeira natureza humana original enquanto ser divino, gerado/a pelos  Deuses e Deusas.
O conceito de uma Deusa criadora e transgênero é um mito moderno, construído pelo ser humano, em busca de uma espiritualidade, uma religiosidade e uma crença que satisfaça suas necessidades egoístas. As Religiões Antigas mantiveram por milênios os mitos, os ritos e os mistérios de cada um dos Deuses, mesmo aqueles que acabaram assimilando ou sendo identificados com os Deuses de outros povos.
A degradação começou quando o homem se assoberbou, se colocou no centro do mundo, se arrogou autossuficiência e usurpou o trono dos Deuses. Reis instituíram cultos a seus nomes, impérios se apropriaram de ritos e cultos de povos dominados, permitiram a entrada de religiões e cultos estranhos às suas origens, governantes corruptos estimularam o sincretismo popular.
Nós que somos pagãos modernos e sabemos o quando devemos aos nossos ancestrais, devemos recuperar os valores e princípios das religiões antigas. Nós devemos evitar essa religiosidade de conveniência, essa espiritualidade sintética, essa crença artificial, inventada e vendida para satisfazer a vaidade humana. Nosso serviço é para nossos ancestrais e Deuses.